Últimas indefectivações

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Gareth e os perigos do populismo

"Aconteceu o que mais se temia - a Inglaterra de Gareth chegou às meias-finais de um Mundial pela primeira vez desde 1990. Embora muitos leigos tenham reagido com compreensível consternação a estes desenvolvimentos, nenhum observador atento do fenómeno futebolístico ficou verdadeiramente surpreendido: os sinais de alerta estavam lá desde o início.
Mas cada um à sua maneira, todos somos culpados, pois todos fomos ignorando, alguns por complacência, outros por ignorância, os indicadores de que o Campeonato do Mundo estava perante uma ameaça existencial. Alguns podem ainda sentir-se tentados a encarar tudo isto como uma anomalia histórica, um mero desvio probabilístico, uma versão atenuada do Teorema do Macaco Infinito (se quinhentos macacos escreverem à máquina durante quinhentos anos acabarão por produzir as obras completas de Harry Maguire). Mas é hoje inegável que estamos à beira do abismo, e a pergunta que se impõe é: como foi possível chegarmos aqui, ao ponto onde um óbvio demagogo como Gareth conseguiu capturar uma instituição centenária tão importante?
Tal como o Brexit ou a eleição de Trump, o Garethismo é um sintoma de uma doença mais profunda. Mas não surgiu num vácuo. É resultado de um falhanço sistémico: um processo gradual de erosão de confiança, em que o futebol deixou de se sentir representado pelas instituições humanas, passando a existir num estado permanente de alienação das normas impostas por uma elite remota e politicamente correcta. É aí que se abre o espaço para demagogos como Gareth. Algumas conceptualizações políticas e sociológicas do populismo fornecem pistas e elementos de convergência que permitem filiar o Gareth numa linhagem muito específica:
- as sementes do Garethismo germinam com maior facilidade em alturas de crise do mainstream futebolístico, quandos os líderes tradicionais perdem credibilidade junto da bola de futebol, como agora aconteceu à Alemanha, Espanha, Argentina, etc; 
- o Gareth pode então assumir-se como porta-voz de um colectivo historicamente injustiçado, e prometer uma ruptura com o status quo, e com as elites privilegiadas que têm ganho os Mundiais mais recentes;
- o Garethismo define-se como uma identidade de exclusão, insistindo num estilo de jogo com características especiais, "diferentes", com a consequente demonização tácita do "Outro", que anda ali a passar estrangeiramente a bola a si próprio. Este tribalismo primário acaba por legitimar um futebol discriminatório, que contribui para a desumanização do "Outro", impedindo-o de marcar presença, por exemplo, nas meias-finais (como aconteceu a Suécia e Colômbia, mas também a Portugal, e tantas outras vítimas indirectas desta barbárie);
- o Garethismo é obcecado com a necessidade de vingar a tribo pelas humilhações e desrespeitos passados, nomeadamente as constantes eliminações nos desempates por grandes penalidades;
- o Gareth assenta a sua propaganda futebolística em processos de comunicação rudimentares - mensagens claras e directas, que sejam facilmente perceptíveis pela bola de futebol e apelem a uma nostalgia por um passado mais simples, um apelo tremendamente eficaz após uma década inteira em que a bola foi governada pelos caprichos ideológicos de uma intelligentsia sofisticada (Xavi, Iniesta, Kroos, Özil, etc).
O Campeonato do Mundo está mais bem preparado que outras instituições liberais para lidar com os conflitos inevitáveis que surgem em contextos de adversidade. Mas também contém as sementes da sua própria destruição. A rigidez das próprias leis do jogo - a insistência, só para dar um exemplo, na regra que obriga a equipa que marca mais golos a ser considerada "vencedora" - torna-o vulnerável a aproveitamentos cínicos. A vantagem de um populista demagogo como Gareth é que compete formalmente dentro das restrições do processo futebolístico normal, e no entanto as suas acções transmitem um desprezo evidente pelos princípios básicos do mesmo (mostrar competência e imaginação com a bola no pé, não marcar 80% dos seus golos em lances de bola parada, etc.), bem como por normas de conduta estabelecidas - como a expectativa democrática de que a Inglaterra falharia sempre os seus penáltis nos momentos decisivos.
Quando a janela de Overton é escancarada desta maneira (à biqueirada) e estas abominações incluídas na esfera do que é aceitável, então todos os limites são cancelados e as regras normais deixam de ser aplicadas. Para já, o Gareth chegou às meias-finais. Quem sabe o que pode acontecer a seguir? Edmund Burke escreveu, com imensa razão, que tudo o que é necessário para o Mal triunfar é que os homens de bem fiquem quietos. Que não seja o caso de Modric, Rakitic, Rebic, e dos outros (poucos) homens de bem que ainda nos restam."

Perder para viver; ganhar para não morrer

"A caminho das meias-finais e após a saída prematura de vários campeões do Mundo, recuperamos Luis Monti, campeão em 1934 pela Itália, a única selecção titulada que não veio à Rússia.
Nascido na Argentina, a primeira experiência Mundial de Monti teve início em 1930, no Uruguai, marcando o primeiro golo… argentino. Seria vice-campeão, derrotado pelos anfitriões.
Em 1930, os adeptos uruguaios tudo fizeram para condicionar os argentinos. Monti foi o mais visado e, antes da final, recebeu ameaças de morte. Jogador robusto, o trinco ‘desapareceu’ na final, pedindo aos companheiros que o deixassem ‘fora de jogo’.
Criticado pela exibição, questionou mais tarde: "queriam que fosse herói do futebol?". Com direito a um verso no tango "Patadura" de Carlos Gardel, ‘el corazón de Monti’ sobressaltou-se e perdeu… para viver!
Em resultado do julgamento público, tomou a decisão de partir para Itália, para jogar na Juventus. Em 1932, chegou à selecção ‘azzurra’ como ‘oriundi’, lei que permitia convocar jogadores com ascendência italiana para fortalecer a selecção.
Monti foi totalista no Mundial de 1934 e tornou-se o único jogador presente em duas finais Mundiais por países diferentes. Pela segunda vez, o agora italiano Monti jogaria pela vida.
Ávido de usar o Mundial para propagandear o fascismo, o governo de ‘Il Duce’ colocou enorme pressão sobre os jogadores. O grande investimento na selecção e em infraestruturas ‘exigia’ a consagração ‘azzurra’ no Estádio do Partido Nacional Fascista.
Monti ficou perturbado com a coação e, por vezes, jogou com maldade e ganhou a alcunha ‘El Terrible Monti’. Nos quartos-de-final contra a Espanha, Orsi, também ítalo-argentino, deu os (maus) créditos da passagem a Monti, por ter ‘apertado’ todos os espanhóis, até o seleccionador.
O mesmo Orsi, ao recordar o seu golo na vitória final sobre a Checoslováquia, relatou as palavras que Monti lhe dirigiu: "salvaste a nossa vida!" Com o lema ‘vencer ou morrer’ de Mussolini, talvez só a vitória permita a dúvida: onde acaba a divisa e começa a realidade?
Sem a dúvida metódica de Descartes, Monti… resolveu ganhar!"

O cabelo do Jairzinho e o rabo da Jodie Foster

"Sochi – Sobre Sochi, o céu da manhã estala de sol e eu fico olhando pela vidraça os grupos de russos e croatas que se vão juntando em redor de copos de cerveja para, daqui a pouco, tomarem o caminho do estádio em procissão tão religiosa como todas as procissões. Faço tempo para segui--los, desta vez atrás de uma Rússia que, de um momento para o outro deste Mundial, deixou que a sua alma se tornasse desmesurada como as estepes. E, subitânea, a despropósito, surge-me uma memória já muito antiga do rabo da Jodie Foster. Não, não é brincadeira; não, não é malicioso. Somos mais ou menos da mesma idade, eu e ela, e isto foi em 1974, éramos miúdos e não foi ao vivo, mas foi a cores.
Em 1974, quando coleccionava cromos do Mundial da Alemanha Ocidental, já sem Pelé no Brasil, mas ainda com Rivelino e Jairzinho, e aqueles mais difíceis como o Peter Lorimer, da Escócia, o Lato, da Polónia, ou o Sparwasser, da RDA (para compensar cheguei a ter sete Riveras, da Itália), eu vivia em Benavente e resolvemos formar uma equipa de futebol a sério, com números nas costas e tudo, números de pano vermelhos cosidos com desvelo de mãe nas camisolas brancas de ginástica aplicada. Cada um escolhia um número e um nome, eu era o Jairzinho, sempre quis ser o Jairzinho desde as memórias puídas de 1970, ninguém tinha o atrevimento de querer ser Pelé. E quis o 11, por uma contradição interna qualquer, um sentido primordial de lado esquerdo da vida, o 11 até era mais caro, havia que comprar dois algarismos, tal como o 10 que foi do Rechena, só podia ser do Rechena-das-Fintas, o melhor jogador de todos os meus tempos, talvez quase igual ao Pelé.
Em 1974, o verão era tão comprido como nunca mais voltou a ser.
Eu jogava na direita com o meu número esquerdo e imaginava que a menina do anúncio do Coppertone estava ali, fascinada com o meu jeito de Jairzinho sem cabelo de bola; vivia apaixonado pela menina com o cãozinho preto puxando-lhe o fato de banho, um bocadinho do rabo a ver-se-lhe branco na pele torrada, o seu ar espantado, as sardas nas bochechas. Ah!, como eu era intensamente sensível a sardas nas bochechas. Muitos, muitos anos depois, conheci o Jairzinho e não fui capaz de lhe dizer que também tinha sido o Jairzinho com um 11 nas costas no lugar do 7. Acanhei-me. 
Muitos, muitos anos depois, fiquei a saber que a menina do anúncio da Coppertone era a Jodie Foster antes de ser Jodie Foster e de toda a gente saber quem era a Jodie Foster.
Muitos, muitos anos depois, todo o universo morreu. O universo morre muito frequentemente. 
Morreu a minha avó Manelas, a tomar chá na esplanada do Hotel Albatroz; morreu o sol que derretia o gelado de morango e pêssego da Santini; morreu o Sandokan desembainhando a cimitarra nas florestas de Mompracém, a Ilha-que-Desaparecia, das edições Romano Torres a oito escudos; morreu a cantilena que sabíamos de cor – “Do meio do gramado/ Vem a bola p’rá Tostão/ Tostão p’rá Rivelino/ Está formada a contorção/ Rivelino p’rá Pelé/ Olha aí olhó negão/ Olélé, olálá, ‘tão botando p’rá quebra’” – mesmo que não fizéssemos ideia do que era o diabo da contorção; morreram os cromos do Bonev da Bulgária, do Grabowski da Alemanha Ocidental, do Rep da Holanda, do Jairzinho que tinha deixado crescer o cabelo em forma de bola à volta da cabeça; morreu a senhora dos bolos com uma caixa vermelha na cabeça; morreu o jogo das caricas correndo como automóveis nas pistas desenhadas na areia à força de piparotes; morreram os infinitos meses do verão; morreu o miúdo que ficava corado, mudo, arregalando os olhos perdido no travesso encantamento das sardas da menina da Coppertone, num embaraço pateta de, por causa de um cãozinho preto, lhe ter visto uma nesga de rabo branco.
Nunca conheci a Jodie Foster. Ainda bem, se calhar. Ficaria acanhado, sem ser capaz de lhe dizer, “olha, sabes?, gostei de ti”."

Quando os cucos entram pela boca

"Sochi – Alguém, não sei se Cavaleiro de Oliveira, disse uma vez sobre “Os Lusíadas”: “Têm dois defeitos: são demasiado longos para se saberem de cor e são demasiado curtos para serem infinitos.” 
A literatura russa é certamente demasiado longa para se saber de cor, e é pena, mas tenho muitas dúvidas de que não seja infinita. De cada vez que releio “Os Irmãos Karamazov”, não acredito na existência de um Deus inofensivo; a cada tentativa de entender Raskolnikov, creio piamente no assassino que é cada um de nós; Gogol é tão, tão grande que se torna impossível escrever sobre ele; comparados com Pushkin, todos não passam de bolhas de sabão dispersas numa atmosfera sem oxigénio.
No dia em que fui ao encontro de Daniil Ivanovitch Iuvatchov, que assinava Harms, percebi a frase de Marina Tsvetaieva: “Só podemos admirar a vitalidade heróica dos escritores ditos soviéticos que escrevem do mesmo modo como a erva cresce por entre as lajes das prisões – a despeito de tudo e contra tudo.”
Daniil morreu numa prisão de Leninegrado aos 37 anos. Foi sempre tão pobre como rica a liberdade da sua prosa absurda mas de uma ternura ilimitada. Por isso, os seus personagens bocejam e deixam que os cucos lhes entrem pela boca. Por isso, quando Natacha, depois de morrer a cantar, simplesmente se desenterrou e correu para casa, sem dizer nada, e foi para o seu quarto crescer, eu sei que viverei para sempre por entre todos esses livros tão infinitamente russos que me fazem querer, também eu, um dia sem canto, me desenterrar e, sem dizer nada, fechar-me num quarto qualquer que tenha desocupado cá dentro, e simplesmente ler."

Candidatos há muitos!

"Todos os dias aparece um novo candidato - ou candidato a candidato - à presidência do Sporting. Primeiro foi o médico Varandas, depois um construtor civil, a seguir Madeira Rodrigues, e anunciam-se ainda um tal João Benedito, um dos gémeos Castro, Dias Ferreira... E até o próprio Bruno de Carvalho já veio reclamar o direito de se candidatar.
É um ver-se-te-avias, que dá um péssimo espectáculo ao país - e, de certa forma, dá razão a Bruno de Carvalho. Porquê? Porque este pode agora dizer que todos os que estavam contra ele o que queriam, afinal, era ir para o poleiro. O problema deles não era Bruno de Carvalho - era quererem ser eles a estar no seu lugar.
A sucessão de Vale e Azevedo no Benfica processou-se de forma radicalmente diferente. A oposição toda uniu-se em torno de uma pessoa - Manuel Vilarinho - para afastar Vale e Azevedo do poder. Uma pessoa com um perfil oposto ao do presidente que se queria substituir: mais séria, mais discreta, mais responsável, mais identificada com os interesses do clube e não com os seus interesses. Vilarinho ganhou. E depois passou o poder tranquilamente a Luís Filipe Vieira, com os (bons) resultados conhecidos.
No Sporting está a acontecer o contrário. E esta profusão de candidatos não augura nada de bom. Esta quantidade de leões a atirarem-se ao poder, como gato a bofe, é um espectáculo deprimente. Até Bruno de Carvalho - ou alguém por ele - pode ganhar. E depois ninguém mais o tira de lá.
Madeira Rodrigues descartou Peseiro, o treinador contratado por Sousa Cintra, e apresentou-se com Ranieri debaixo do braço, repetindo o erro das últimas eleições - em que renegou Jesus e escolheu um técnico de que já não recordo o nome. É certo que Peseiro não tem o perfil de um ganhador. Ultimamente passou pelo FC Porto, Braga e Guimarães e nunca triunfou, sendo sempre dispensado antes do tempo. Mas talvez seja o treinador certo para esta fase. É um homem educado, cordato, civilizado, que não ganha mas sabe de futebol. E o Sporting está farto nos últimos meses de um estilo agressivo, trauliteiro, fanfarrão e malcriado.
O Sporting precisa de tranquilidade a todos os níveis - e Peseiro pode dá-la ao nível do balneário. Agora falta que no topo do clube apareça um homem com as características certas para mudar a imagem do Sporting, o tirar do caos e lhe devolver a credibilidade.
Nos últimos meses, o Sporting assemelhava-se a um comboio descarrilado - e, nessa sua trajectória louca, quais seriam os patrocinadores, os bancos, as instituições respeitáveis que quereriam associar-se a ele?
A próxima direcção tem, assim, a tarefa homérica de pôr outra vez o Sporting nos carris. De recuperar a respeitabilidade perdida. Mas não é com uma alcateia de leões famintos que isso se conseguirá."

Benfiquismo (DCCCLXXXIII)

Guilherme...

domingo, 8 de julho de 2018

Krovinovic...

Uma Semana do Melhor... com o Renato Paiva

Heliografias !!!

Atrás de uma grande velha senhora está sempre il Grande Torino. Ou como Superga mudou a história de Turim (e do futebol italiano)

"O acidente de avião que matou toda a equipa do Torino, a 4 de maio de 1949, depois de um jogo no Estádio da Luz, mudou o fado do calcio. A partir daí, a Juventus conquistou o papel de papão do futebol italiano. A Tribuna Expresso viajou na máquina do tempo, em Turim, e foi conhecer o Torino, o rival da Juve

- Ciao, al stadio del Toro, per favore.
- … De la Juve, no?
- No, no. Toro, Torino.
- Hmm… OK.
Peppe estranhava. Afinal, quem é que nos dias que correm, com a suposta chegada iminente de Cristiano Ronaldo, quer saber do Torino Football Club? Ainda por cima é o clube deste taxista de cabelo grisalho impecável, agradado com a história deste escriba ter a Fiorentina debaixo da pele, um clube amigo do Toro. “Se vais ao Stadio Comunale, tens de ir ao Filadelfia. E à Basilica di Superga!” 
Ahhh, claro. Já agora, a chegada de Cristiano preocupa-o? Peppe olha para trás e abana a cabeça para cima e para baixo, custando-lhe admitir, juntando um sorriso malandro talvez para desvalorizar o sofrimento que está por vir. “Mas é igual, com Ronaldo ou sem Ronaldo, eles são muito mais fortes…”
Começamos pelo Filadelfia. É aqui que os granata colocam uma bandeira gigante no mapa-mundo. Na Via Filadelfia, diz a lenda nomeada pelos emigrantes que regressaram à terra de sempre, é onde está uma ruína do estádio velhinho que viu os rapazes do Grande Torino jogarem como deuses. É um naco da curva, com pedaços de cimento cansados e esburacados. Os ferros que servem de moldura denunciam a antiguidade. A vegetação invade-lhe a espinha, numa inversão de papéis, quer sentir a que cheira a glória. Ao lado está o renovado estádio, onde os profissionais treinam e os jovens jogam. 
O Comunale fica a cinco minutos. Maior, imponente, cinzento, com pouca graça. Atrás há um parque enorme, sossego, relva e árvores a perder de vista, pessoas a curtir o sol com fato de banho e bikini. Faz muito calor. Esta zona é residencial, não há a confusão do centro, parece andar tudo mais devagar. Naquela hora que andámos por ali não se ouviu uma palavra sobre Cristiano Ronaldo. 
Recordámos Peppe, que sorrira como quem sofre um ataque de cócegas meigo quando falou no seu herói que agitava o Comunale. “Paolo Pulici… Dizia-se Puliciclone!”, não esconde o entusiasmo. O melhor marcador da história do clube devolveu o orgulho à cidade quando conduziu os granata à conquista da Serie A em 1976. O título fugia-lhes desde 1949, ano da tragédia que marcou o clube.
“Até fico com pele de galinha”, diz outro taxista, incumbido de nos levar lá acima, à Basilica di Superga, onde o avião que levava de volta a casa o Grande Torino se despenhou. A viagem dura 30, 35 minutos. “Sou da Juve, mas essa história é…”, vai-lhe faltando as palavras.
No dia 3 de maio de 1949, o Torino deslocou-se ao Estádio da Luz para homenagear, jogando, o capitão Francisco Ferreira, que se ia despedir do futebol.
Marco mais parece um embaixador da cidade, fala de tudo e expressa-se num inglês muito bom. Vive preocupado com o populismo e com essa mesma denominação: “São fracassados, não são populistas”. Nunca foi a Florença ou Roma, mas conhece Lisboa, Estoril e Sintra e gostou. “Para quê sair daqui? Tenho tudo.” Turim é uma bela cidade, admitimos. É mais um a querer que Cristiano Ronaldo aterre finalmente no Allianz Stadium, mas vai torcendo o nariz. “Será que vem?”, questiona como todos, pouco crentes, ainda por entusiasmar.
A basílica aparece finalmente no horizonte. Amarela, inofensiva, testemunha de algo horrível. É recompensada pela vista maravilhosa da cidade, com os corredores de água e algumas avenidas compridas, culminando nas montanhas, algumas com neve, que se vislumbram lá ao fundo. A cúpula é escura e as colunas, à entrada, cinzentas claras ou brancas. É uma basílica como tantas outras, mas a lenda que a abraça esmaga. Há por ali talvez três dezenas de visitantes. “Tens de ir lá atrás”, avisa Marco.
Cada vez mais longe do ruído, os sons daquela natureza assumem o protagonismo. A sombra vai aligeirando a caminhada. A água fresca dos bebedouros sai da boca de um touro, é assim por toda a cidade. É uma cidade de toros, do Torino. “A Juve é o clube de Itália, aqui é Torino”, explicam várias vezes durante a nossa estadia na primeira capital italiana.
Lá atrás mora um monumento em honra dos futebolistas que perderam a vida naquela colina, depois de o nevoeiro e o altímetro do Fiat G-212 terem traído o comandante. Há cachecóis, fotografias da equipa, outras que individualizam os heróis do povo. Há um cartaz que conta a história em quatro línguas. Está mais silêncio aqui do que dentro da basílica. Afinal, morreram ali dirigentes, treinadores, futebolistas, staff do clube e jornalistas há quase 70 anos. O mármore elegante revela os 31 nomes. Aos pés deles, em vez de estar uma bola, descansam flores.
- Grande Torino, era melhor do que a Juve.
- Sim, sim…
- Era pois.
- História…
A incapaz batalha de um homem na casa dos 50 contra miúdos, sentados, encostados a um muro, a jogar no telefone, aborrecidos.
O Grande Torino foi a cúpula do futebol italiano nos anos 40, com cinco títulos conquistados, seguidos, o último já depois do acidente, jogando com os miúdos da casa nos últimos quatro jogos, uma medida que se alastrou aos outros clubes da Serie A. “Eram incríveis. Aquela equipa era a selecção italiana, bastava trocar a camisola”, conta Marco, rindo.
Até 4 de maio de 1949, a Juve tinha no museu sete scudetti, enquanto o Torino ganharia o sexto. Superga mudou a história do calcio. A vecchia signora ganhou força e nunca mais parou: hoje tem 34 títulos (sete seguidos desde 2012) contra os sete do Toro, o último conquistado em 1976, à boleia do herói de Peppe, Palucci.
A vida segue.
Marco lamenta que a Serie A não seja a de antigamente e lembra as cinco finais da Liga dos Campeões perdidas pela Juve desde 1996. Parece que correu uma maratona nestes dois segundos. Cristiano ia ajudar a mudar essa cantiga, seguramente, garante. Mas se não vier, está tudo bem, o clube primeiro. Afinal, Cristiano não lhe amansa a alma como o seu trio maravilha. “Platini, Roberto Baggio e Del Piero. Já imaginaste estes juntos?”"

Um Mundial dececionante com mensagens suspeitas

"Como tantas outras coisas na sociedade actual, o periférico merece mais atenção que o substancial no futebol. Este decepcionante Mundial pretende maquilhar as suas carências com a instalação do VAR como novo altar do futebol, uma reinvindicação tão lamentável que produz um efeito alienante. O suposto novo sistema de justiça oferecia o mais parecido ao rigor infalível, mas para cada decisão correta produziu-se o mesmo número de erros. Acções iguais foram decididas de maneira contrária. Jogadas que mereciam a verificação do VAR não foram analisadas. Nogeral, os maiores acertos ocorreram em episódios mais relacionados com o velho olho de falcão, uma técnica simples, barata e objectiva, do que com as deliberações de um árbitro e um grupo de colegas sentados em frente a um painel de monitores num escritório às escuras. Fala-se do VAR e fala-se de uma mudança de tendência no futebol para tentar justificar o medíocre desenvolvimento de um Mundial que se caracteriza pelo número sem precedentes de golos marcados em livres, pontapés de canto e penáltis. Isto é, através de aspectos importantes, mas bastante aleatórios e pouco relacionados com o jogo. 
Com este material deficiente, foi construído um Mundial que os seus partidários defendem com uma velha e repetida canção: impõe-se o jogo físico e a qualidade atlética. É o típico mantra que se estende quando o futebol se torna medíocre. Um olhar sobre a história desmente a ideia desta nova hegemonia física. Inglaterra ganhou o Mundial de 1966 com um estilo que se catalogou como dinâmico, potente e atlético, ao contrário do domínio do Brasil de 1958 a 1962. Quatro anos depois, no México 70, os brasileiros foram mais brasileiros que nunca e maravilharam o mundo com o futebol mais criativo e versátil que se havia visto até então. O aparecimento da Holanda em 1974 ajudou a finalizar o trabalho que havia começado no Ajax no final dos anos 60. Os holandeses destruíram o catenaccio, instalado pelos italianos como o supremo exercício de astúcia táctica, destinado, segundo os seus propagandistas, a governar o futuro do futuro. Cruyff e companhia acabaram com esse mito.
A Alemanha ergueu-se durante anos como grande representante do futebol atlético, tão espectacular que acabou por preencher as suas equipas com avançados de dois metros, em troca de renunciar o brilhante desempenho que caracterizou as equipas do primeiro Beckenbauer - o segundo Beckenbauer foi um factor fundamental para a mudança para o futebol opaco -, Overath, Haller e Netzer. Aquela Alemanha industrial e física acabou por desertar. Precisou de se regenerar pelo caminho oposto. Escolheu a técnica como moeda de câmbio depois da infame passagem pelo Europeu de Portugal, em 2004. Em 2006, uma hesitante mas atraente Alemanha avançou um modelo com bastantes referências espanholas. Durante dez anos, Espanha e Alemanha foram as duas grandes referências, com um estilo que agora foi declarado morto.
A realidade é diferente. O modelo não está morto. O que não garante nenhum estilo é jogar bem. Espanha jogou muito mal no Mundial da Rússia, em grande medida por um assunto nada relacionado com a maneira de interpretar o futebol. A contratação do seleccionador Lopetegui pelo Real Madrid, anunciado dois dias antes do Mundial, actuou como um torpedo na linha de água de Espanha. A confusão e o pessimismo presidiram a decepcionante actuação de uma equipa que pedia aos gritos a sua eliminação. Espanha não foi prejudicada pelo seu peculiar modelo por uma razão tão velha como o futebol: pode-se jogar muito mal com qualquer estilo.
A eliminação precoce de alemães e espanhóis significa o declínio das suas mensagens? Claro que não, embora os dois países precisem de algumas revisões. Espanha confundiu a retórica com o jogo. Refugiou-se na insignificância, talvez porque a nova geração não tem a personalidade, nem o talento, dos seus brilhantes antecessores. Analisando bem, é quase impossível reunir numa equipa Xavi, Iniesta, Busquets, Xabi Alonso, Cazorla, Silva, Fàbregas, Villa, Fernando Torres, Puyol, Sergio Ramos e Casillas, todos no auge das suas carreiras. Este tipo de geração espontânea dificilmente se produz no futebol. A Alemanha foi vítima de um clássico dilema que angustia os treinadores. Joachim Low escolheu os clássicos - Neuer, Boateng, Hummels, Khedira, Ozil, Kroos e Muller -, um sinal típico de respeito e de agradecimento dos treinadores aos seus melhores pretorianos. Vários deles começaram o declínio. Boateng, Hummels, Ozil, Khedira e Muller cada vez impressionam menos.
A repentina eliminação de Espanha e Alemanha gerou um movimento de resposta rápido. Se eles não estão, que modelo lhes sucederá? À falta de uma resposta convincente, regressa o tópico do futebol atlético. A presença de Suécia, Inglaterra e especialmente França funciona como um álibi para a opinião dominante. Quem tiver visto a Suécia sabe é a mesma selecção de sempre: hermética, sólida, pouco imaginativa, beneficiada pela ausência de Ibrahimovic, um tóxico grande talento. A Inglaterra jogou mal ou muito mal. A partida contra a Colômbia foi um monumento ao horror. Não avançaram pelo jogo, nem pela exibição, nem pela ordem. Desta vez torceram o seu mau destino e ganharam nos penáltis.
Diz-se que a França é a apoteose do futebol que aí vem. Talvez, mas a mesma coisa foi dita há 20 anos, quando ganharam o Mundial. É verdade que combinaram talento e um físico portentoso em pessoas como Mbappé, Pogba, Varane e Umtiti. Não é uma novidade: Thuram, Desailly, Vieira pareciam superhomens no final dos anos 90. No entanto, aquela equipa precisava de Zidane como esta requere Griezmann. Caso contrário, são apagadas as luzes dos franceses. O surgimento do jovem Mbappé como próxima grande figura do futebol convida a pensar que ele actuará como modelo de referência para as próximas gerações. Também não é uma novidade. Ronaldo Nazário, o grande avançado brasileiro cheio de lesões, impressionou tanto ou mais que Mbappé. Gente como Cristiano Ronaldo ou Gareth Bale tiveram qualidades atléticas comparáveis às do magnífico avançado francês. O interessante de Mbappé é a capacidade de adicionar um grande talento futebolístico às suas espectaculares condições físicas. Primeiro o futebolista, depois o atleta.
Enquanto se santifica a potência atlética e tudo isso, não é demais recordar que o melhor futebolista deste Mundial é um médio que mede 1,72, é leve como uma pluma e tem 33 anos de idade. Chama-se Luka Modric e é um manual ambulante. Algo parecido ocorre com Ivan Rakitic. Em muitos aspectos representam o oposto das teses que se manejam neste Mundial de futebol raquítico. Que estranho é o futebol: ou coloca o talento sob suspeita ou o subestima."

Griezmann, o falso uruguaio

"Ele que me perdoe. Eis a minha regra: jogador que não festejasse um golo seria expulso. Melhor: jogador que não festejasse um golo dava golo para o adversário.

Não sei de onde vem o hábito de não festejar os golos da equipa, mas o responsável devia ser julgado em Haia pelo crime de gaudicídio, pois tal criatura só pode ser um pérfido assassino de alegrias, próprias e alheias. Como sempre acontece com as maiores catástrofes, se procurarmos atentamente, nas origens encontraremos um bem-intencionado, um rapaz de bom coração que não quis ofender o clube onde foi formado, um indivíduo cheio de nobres valores e com muito respeito pela anterior entidade patronal.
A certa altura, os motivos para não se festejar um golo alargaram-se: homenagens a colegas falecidos, vénias a vagos empresários, datas nefandas, uma crise conjugal, um primo uruguaio. Mas até aqui, que eu me lembre, a praga estava circunscrita ao futebol de clubes. Um jogador não festejar um golo marcado pela sua selecção em nome do respeito e admiração pelo país adversário, nunca tinha visto. Ontem, pela primeira vez na história, isso aconteceu. Antoine Griezmann foi o culpado. Este jovem francês ficou muito célebre por festejar os seus golos de forma um tanto apalhaçada, a simular uma chamada telefónica ou numa espécie de dança que nunca compreendi e muito me irritou. Contudo, ontem, ao vê-lo marcar um golo e permanecer hirto e solene como um cangalheiro, pesaroso como uma viúva russa, dei por mim a ter saudades daquelas idiotices.
Griezmann justificou o seu acto com o facto de gostar muito do Uruguai, beber mate, dançar a cúmbia e de ter convidado uma famosa banda daquele país, os Marama, para actuar no seu casamento. Ele que me perdoe, mas isto não são razões, são atenuantes. Vejamos: um jogador com sangue nas veias em vez de mate tira a camisola para festejar um golo e, de acordo com as regras do International Board, leva amarelo. Regras são regras, dizem. Pois bem, eis a minha regra: jogador que não festejasse um golo seria expulso. Melhor: jogador que não festejasse um golo dava golo para o adversário. De repente, de uma tentativa de gaudicídio passaríamos para a multiplicação da alegria, com onze jogadores a reclamarem alegremente a paternidade de um golo órfão. Pior, de um golo enjeitado pelo pai.
Griezmann, uruguaio de proveta, que aspira à nacionalidade uruguaia por via musical (além do jus sanguinis e do jus solis, teríamos agora o jus musicis – juristas ou latinistas que corrijam a declinação), foi posto no devido lugar por Luis Suárez: “por mais que diga que é uruguaio, é francês e não sabe o que é o sentimento uruguaio. Não sabe a entrega que temos para triunfar, sendo tão poucos. Terá os seus costumes, a sua forma de falar ‘uruguaio’, mas nós sentimos de outra forma.” Desde logo porque ninguém imagina um uruguaio a sério, e não uma versão contrafeita de um uruguaio, a não festejar um golo marcado ao serviço da selecção celeste. É uma impossibilidade patriótica. Portanto, ao não festejar o golo que marcou, o “uruguaio” Griezmann excluiu-se automaticamente da comunidade a que aspira pertencer e tornou-se o inimigo número um da alegria, isto é, o inimigo número um do futebol. O infeliz Gabriel Jesus entrou para a história como o pior avançado brasileiro em mundiais, por não ter marcado um único golo nos cinco jogos em que participou. Se jogou bem ou mal, os livros de história e os almanaques não dirão. Não marcou nenhum golo, é tudo o que os vindouros ficarão a saber. Griezmann já marcou três e talvez por isso se tenha dado ao luxo de não festejar um. Por ser uruguaio, diz ele. Por ser um idiota, digo eu.

Is it coming home? Depois de ver os dois jogos de hoje, temo que sim."

Anjo de pernas tortas

"O Brasil já não joga. Em tempo de angústia brasileira, recordamos o campeão em 1958 e 1962, Mané Garrincha: nome de pequeno pássaro comum que se fez gigante e incomum mortal!
As pernas de Mané arqueavam à esquerda, quais vírgulas que terminavam nos pés. E como vírgula não é ponto final, resistiu ao infortúnio, seduziu o futebol e ludibriou o destino.
A sua história Mundial começa com a Rússia, contra quem fez o primeiro jogo no Suécia-58. Se agora os brasileiros caíram em terras russas, naquele jogo, Garrincha fintou uma e outra vez uns desorientados russos que iam tombando no chão. O drible de Mané permitia-lhe fazer de "pequeno guardanapo um enorme latifúndio", como bem anotou Armando Nogueira.
Em três minutos, fintou, rematou à trave de Yashin, passou a Pelé que rematou… à trave e assistiu para o golo de Vavá! Gabriel Hanot, jornalista francês, assistira aos melhores "três minutos da história do futebol mundial". Os minutos multiplicaram-se até à final e fizeram do Brasil campeão!
Já o Chile-62 foi quase Mundial de um homem só, onde Garrincha fez também de Pelé, lesionado ao segundo jogo. É desse ano o soneto "O Anjo de Pernas Tortas" de Vinícius de Moraes que incensa Mané: "Dribla mais um, mais dois; a bola trança / Feliz, entre seus pés – um pé-de-vento!".
De finta em finta, Mané ainda contribuiu com 4 golos. Pernas tortas? Assim deixou as dos adversários, levando o jornal ‘El Mercurio’ a interrogar-se: "Garrincha: de que planeta vens?". 
Apenas não fintou a bebida. Se as pernas o ajudaram a trocar as voltas a uma vida que nascera desfavorável, o álcool passou-lhe a perna e rasteirou-o aos 49 anos. No seu epitáfio Mané é "Alegria do Povo"; poucos vocábulos porque cada finta valeu mais do que mil palavras.
Após a morte de Mané, Drummond de Andrade foi voz do Brasil: "Se há um deus que regula o futebol, esse deus é sobretudo irónico e farsante, e Garrincha foi um dos seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios".
As suas pernas tortas tornaram-se a mais perfeita imperfeição. Ou como os deuses do futebol escreveram direito por… pernas tortas!"

Federer, Lebron e CR7 são trintões valiosos

"Federer lá estava, às 13h00 horas em ponto, ou não fossem os britânicos e os suíços maníacos da pontualidade, a mostrar a todo o planeta o seu novo equipamento

Na segunda-feira passada o ténis agitou-se por Roger Federer aparecer no Centre Court de Wimbledon com roupas surpreendentes.
Não, o maestro suíço não teve a ousadia de entrar na catedral da modalidade com um equipamento colorido, quebrando a centenária tradição do ‘all white’. Isso seria um tremor de terra.
As suas roupas eram bem brancas, mas ao peito já não constava o eterno logo da Nike acompanhado do emblema com as suas iniciais RF. Em seu lugar viu-se a imagem da Uniqlo, a marca japonesa que patrocinou Novak Djokovic e apoia Kei Nishikori.
Há um mês, um jornalista italiano escrevera nas redes sociais de que o acordo de patrocínio estava em risco de não ser renovado.
E nos dias anteriores ao início de Wimbledon Federer tinha treinado no All England Club com um polo da Laver Cup - da qual é copromotor -, para além de ter aparecido numa conferência de imprensa com um casaco com o emblema de sócio do mais famoso clube de ténis do Mundo. Nada de Nike.
Tudo foi mantido em segredo até à última hora e foi uma jogada de marketing simples, mas genial e eficaz.
Nada supera uma mudança de equipamento no primeiro dia de Wimbledon, nem mesmo a primeira sessão nocturna do US Open, por uma razão simples: é no torneio Londrino que há uma tradição que remonta a 1934 do campeão em título abrir o Court Central na primeira segunda-feira da edição do ano seguinte, tal como cabe à campeã estrear a jornada da primeira terça-feira.
A solenidade da ocasião é sentida em todo o mundo do ténis e mesmo em muitas esferas desportivas que extravasam a modalidade. «Jogar o primeiro encontro é uma enorme honra e um grande momento. É quase como jogar a final», referiu o oito vezes campeão da prova.
Na segunda-feira, Federer lá estava no mais prestigiado campo de ténis do mundo, às 13h00 horas em ponto, ou não fossem os britânicos e os suíços maníacos da pontualidade, a mostrar a todo o planeta o seu novo equipamento… embora ainda com sapatos Nike.
Um jornalista televisivo norte-americano garante que o acordo é válido por 10 anos e atinge o valor de 300 milhões de dólares, prevendo que se mantenha em vigor sem alterações, mesmo que King’ Roger entre para a reforma, um detalhe importante para um atleta que está a um mês de completar 37 anos. A Nike recusara dar-lhe um contrato vitalício.
Estranha semana esta em que o caso Federer junta-se aos de Lebron James e Cristiano Ronaldo, ambos de 33 anos. O basquetebolista a caminho dos LA Lakers por 154 milhões de dólares por quatro anos e CR7 a transferir-se para a Juventus por 30 milhões por ano."

Benfiquismo (DCCCLXXXII)

Costa...

sábado, 7 de julho de 2018

Obrigado, senhor Shéu

48 anos ao serviço do Benfica, não é para qualquer um... e ainda não acabou!
O Sr. Shéu deixou hoje as suas funções junto da equipa, mas vai continuar ligado ao Benfica... para sempre!

Os rapazes, os passarinhos e o idiota da aldeia

"O Estádio da Luz abre hoje as portas para que os adeptos assistam livremente a uma sessão de trabalho da equipa principal de futebol. São de esperar uns quantos milhares movidos pela volúpia de retomar o contacto com aquilo que verdadeiramente os faz vibrar: a bola. Começa, assim, em termos públicos a temporada de 2018/2019 sucessora de uma temporada a todos os títulos medíocre em função das expectativas naturalmente criadas com o desempenho mais do que eficiente de uma equipa que desafiou a História conquistando quatro títulos nacionais consecutivos entre 2013 e 2017. O Benfica contratou neste defeso muita gente que se adivinha importante mas o frenesi maior nas bancadas será o da avaliação "in loco" dos jovens produtos da casa como João Félix ou Gedson Fernandes. São estes jogadores, agora inseridos num ambiente de adultos, que toda a gente vai querer ver hoje em acção na Luz. Em acção hoje e amanhã e depois… porque grande desgosto seria ver Félix e Gedson vendidos aos alegados "tubarões" que os cobiçam no mercados deste Verão antes de os ver dar uns pontapés oficialmente na bola ao serviço de quem os formou.
A meia-dúzia de visitas da Polícia Judiciária ao Estádio da Luz não afastou o patrocinador principal do futebol – a Fly Emirates – da órbita do Benfica. Ora aqui está uma excelente notícia. E, porventura, inesperada.
Divulgadas pela Liga de Clubes, as matérias "condicionantes" do sorteio do próximo campeonato nacional não desdenham a possibilidade de haver dérbis ou clássicos nas primeiras três jornadas da prova. Por um lado é aceitável porque os sorteios querem-se livres como os passarinhos. Por outro lado é inaceitável porque, ao contrário das justas benevolências concedidas na época passada ao Sporting por força da sua participação na fase de apuramento para a Liga dos Campeões, não haverá este ano a menor benevolência no que respeita ao calendário do Benfica no exigentíssimo mês de Agosto que se adivinha. Não é de crer que a Liga não considere de "interesse nacional" uma eventual qualificação do Benfica para a prova mais importante de clubes a nível continental tal como considerou no ano passado quando tratou de proporcionar a um outro emblema as melhores condições de acesso ao mais alto patamar do futebol europeu. E o Benfica, o que tem a dizer a isto? Passarinhos?
"O drama da internet é que promoveu o idiota da aldeia a figura nacional", explicou, muito bem explicado, o escritor e filósofo italiano Umberto Eco numa das suas derradeiras aparições públicas. Eco preocupava-se com "a legião de imbecis" que "antigamente eram imediatamente calados" e que agora "têm o mesmo direito à palavra do que um Prémio Nobel". Vêm estas sábias reflexões a propósito de outras sobre o mesmo tema com que se têm justificado recentemente os clamorosos idiotas da aldeia do futebol em Portugal."

Heróis de chuteiras

"Hoje joga a Croácia e lembramos Davor Suker, avançado da ‘nação aos quadradinhos’ que gravou o seu nome na História dos Mundiais em 1998 e ainda se tornou o maior goleador do país com 45 golos em 69 jogos. Suker começou a carreira na antiga Jugoslávia, tendo sido convocado para o Mundial de 1990. Pelos jugoslavos chegou à final do Europeu de Sub-21 de 1990 e venceu o Mundial de Sub-20 de 1987. Em cada torneio marcou 6 golos. Haveria de repetir o número.
Em 1991, tudo se precipitou na região, após os croatas exigirem a independência da Jugoslávia. Era o apito inicial para um novo xadrez político e uma história de um país aos quadradinhos.
Foi já pela nação croata que Sukerman marcou novamente 6 golos, agora no Mundial de 1998, perfazendo o 666, o número da ‘Besta’. Na competição, fez-se visão apocalítica à solta, surgiu com o diabo no corpo e fez dos defesas adversários pobres diabos.
Em 7 jogos marcou 6 golos e foi o goleador do torneio, ajudando os croatas a espantar o Mundo com o terceiro lugar alcançado, após perderem na meia-final com os anfitriões franceses por 2-1.
Contra os gauleses, Sukerman ainda colocou a Croácia a vencer, mas o defesa Lilian Thuram também quis um quadrado na história e respondeu com dois golos… os únicos que marcou pelos ‘bleus’ em 108 jogos!
Se Sukerman tentou tornar-se o maior super-herói croata, Thuram surgiu como a improvável kryptonite que enfraqueceu o seu poder. Nada que apagasse o protagonismo de Sukerman.
Em França, os croatas escreveriam uma bela estória aos quadradinhos e Sukerman assumiu-se como herói nacional, dando uma alegria a uma jovem nação nascida da guerra. Com a camisola quadriculada, pautou o jogo com golos e desenhou, a partir de um Mundial que era página em branco, um resultado histórico.
Contribuindo para quatro Mundiais – dois como jogador e dois enquanto presidente da Federação, cargo que ainda ocupa –, Sukerman merece a canção que lhe os croatas lhe dedicaram: "In Suker we trust"! Hoje, sem Sukerman pode gerar-se outra história feliz aos quadradinhos e um novo herói! Qual queres ser quando fores grande, Modric?"

Jovem de Espírito procura Velha Senhora para Relação Séria

"Será que é desta que Cristiano Ronaldo diz adeus a Madrid? Parece que foi ontem que um jovem desconhecido, mala de cartão numa mão e uma solitária bola de ouro na outra, desembarcou no aeroporto de Barajas para se apresentar discretamente à entidade patronal. A história não foi bem assim, mas o que interessa é que parece mesmo que foi ontem que Cristiano Ronaldo gritou “Hala, Madrid!” pela primeira vez no Bernabéu.
Nove anos que passaram num instante. O casamento entre o maior (atenção, o maior) jogador do mundo e maior clube do mundo foi longo e proveitoso, sem dúvida, mas, desenganem-se os românticos, nunca foi uma história de amor. Casaram-se de branco e de branco hão de separar-se. Porém, nesta história que não é de amor, é inútil procurar virgens ou anjinhos. Não os há. Aqui é business, puro e duro.
Há histórias que se contam através de sentimentos, descrições, ideias. Esta só se conta pelos números. Quatro bolas de ouro, quatro ligas dos campeões, 438 jogos, 450 golos. Nenhum jogador marcou mais na história do Real Madrid. Poucos conquistaram tanto. Os números da transferência, os números dos contratos, os números das estatísticas, os números de golos e de conquistas, os números dos decibéis dos assobios que, por mais de uma vez, o Bernabéu ofereceu ao seu herói.
Números e mais números. Após a final da Liga dos Campeões, Ronaldo poupou os adeptos às críticas. Disse que sempre estiveram com ele. Despeitado com Florentino, não se importou de mentir. Muitas vezes, os adeptos não lhe perdoaram falhas e assobiaram-no como se fosse um novato ou um incapaz. Melhor, como se fosse um jogador do Real Madrid, porque ali ninguém escapa aos caprichosos veredictos da bancada.
Cristiano não fica no coração dos madridistas porque nunca lá entrou. E nunca lá entrou porque, para começo de conversa, Madrid não tem coração. O Real, sobretudo o de Florentino, tem bolsa e palmarés. Para reforçar este abre os cordões àquela, mas nunca entrega o coração que não tem. Paga a traidores, a mercenários, a galácticos e, cumpridas as tarefas, dispensa-os sem sentimentalismos de telenovela. Não tem estilo definido, uma estética, uma filosofia. Se não tem coração, tão-pouco tem cabeça. O que tem é um lema: ninguém é mais importante do que a próxima vitória. Agora, “a por la decimoquarta” porque, ali, até as maiores conquistas têm número em vez de nome.
Se Ronaldo foi pedir amor apresentando em sua defesa os números, foi ingénuo. Florentino tem guardado um lenço branco para a despedida. Só está à espera que a mão direita receba o cheque com que há de secar as lágrimas próprias daquele animal que vive nas margens do Nilo. O craque madeirense devia saber que, no Real, os números não compram amor, compram tempo. E pouco, já se sabe. Zidane, que esteve para ser escorraçado, conhece a máquina e como ela tritura. Por isso, saiu pelo próprio pé. As memórias de um pontapé fenomenal em Glasgow e de três Ligas dos Campeões como treinador podiam nem chegar para durar até Dezembro.
Se Ronaldo for para a Juventus, faz bem. O clube de Turim é, neste momento, demasiado grande para um campeonato que tem conquistado com uma facilidade humilhante para os adversários. É demasiado grande para os títulos europeus que ostenta. E, mais do que os prometidos milhões de Agnelli ou o amor dos adeptos que, em abril, lhe aplaudiram a monumental bicicleta, esse será o desafio, essa será a ambição de Ronaldo.
Não é num oitavo scudetto consecutivo que ele tem os olhos postos. É na décima-quarta do Real, que ele, com toda a força da sua obstinação, na flor da sua terceira idade futebolística, há de querer transformar na terceira da Velha Senhora. E então, sim, se Ronaldo raptar a sabina ao Real Madrid, que a julga sua por direito divino, nesse dia Florentino há de chorar de dor autêntica e não haverá cheque nem lenço que lhe seque as lágrimas. E talvez descubra, talvez descubram os dois, que o amor é aquela coisa que só existe no momento em que se perde. No campo e na vida."

#Neymar

"João Vieira Pinto e Paulo Futre moveram montanhas de paixão na relva. Foram amados por adeptos de Benfica, Sporting e F. C. Porto. Vão continuar a ser admirados como encantadores de plateias, mestres do drible, incorrigíveis do golo. Foram transportadores de esperança, verde, azul, vermelha, e a glória ergueu-os até ao estatuto, tão raro, de heróis do povo da bola, daqueles que todos gostam, independentemente das cores clubísticas. São gémeos na diferença, porque eram iguais, dois bons malandros, à maneira de Mário Zambujal. João Vieira Pinto e Paulo Futre foram, lá está, os melhores que conheci nas fintas aos árbitros com mergulhos convincentes dentro da grande área. Tantos juízes enganados, aconteceu mesmo assim, mas até isso foi emoção e festa, porque, normalmente, o penálti dá em golo. Estão, portanto, perdoados. Mas ninguém perdoa a Neymar. Nem eu, que repliquei uma engraçada provocação numa rede social. Estou arrependido da minha maldade, ainda que não tenha importância nenhuma. Este brasileiro, que ontem foi para casa em lágrimas, merecia ter ficado até ao fim no Campeonato do Mundo. Ninguém cai como Neymar, mas também poucos encantam, lutam e choram como ele pela honra do Brasil. Merecia mais tempo na Rússia - onde a festa verde e amarela desse incrível povão vai fazer falta. Ficamos, ansiosos, à espera do próximo penteado."

O milagre pode acontecer: os vilões passaram a heróis e o poder político apressou-se a colher os dividendos

"São várias razões para tanto optimismo, sendo de destacar a onda de simpatia e apoio que a selecção russa passou a gozar principalmente depois da vitória a penáltis contra a Espanha, uma das mais sérias favoritas à taça. De súbito, a depressão deu lugar à euforia A selecção russa é, sem dúvida, uma das equipas mais surpreendentes do Campeonato do Mundo de Futebol. Antes, eram muito poucos, nomeadamente russos, aqueles que acreditavam que os futebolistas iriam além da fase de grupos, mas, hoje, pelo menos os adeptos russos acreditam que a equipa do seu país pode chegar à final e até ser campeão.
Mesmo que a selecção russa seja eliminada nos quartos de final pela forte equipa croata, ela entrará na história do desporto nacional, pois conseguiu o maior dos êxitos conseguidos após o fim da União Soviética.
Mas Valeri Gazaev, conhecido treinador russo, não tem dúvidas: “Devemos colocar agora tarefas mais globais. A chegada à final!”, e justifica o seu optimismo: “Os nossos jogadores e o corpo de treinadores devem compreender: uma possibilidade tão real aparece uma vez na vida! É preciso centrar os futebolistas exclusivamente na luta pela final, porque para lá chegar, não restam dez partidas, mas apenas duas”.
São várias razões para tanto optimismo, sendo de destacar a onda de simpatia e apoio que a selecção russa passou a gozar principalmente depois da vitória a penáltis contra a Espanha, uma das mais sérias favoritas à taça. De súbito, a depressão deu lugar à euforia.
No início do Campeonato do Mundo, os especialistas e adeptos em geral não davam um “tostão” pelos futebolistas russos, pois a equipa tinha perdido vários jogos amigáveis e alguns consideravam mesmo que ela chegou à fase final por ser a equipa do país que organizou o torneio.
Porém, depois das vitórias sobre a Arábia Saudita e o Egipto, os jogadores russos cumpriram o seu principal objectivo: passar à fase do “mata-mata”. A derrota frente ao Uruguai levou alguns a concluir que a seleccção russa estava condenada a cair frente à Espanha, mas o milagre aconteceu.
Os vilãos passaram a heróis e o poder político apressou-se a colher os dividendos. Dmitri Peskov, porta-voz do Presidente Putin, comparou os festejos da passagem aos quartos de final às manifestações de alegria realizadas pelos soviéticos a 9 de Maio de 1945, dia em que a Alemanha nazi capitulou na Segunda Guerra Mundial.
Além do forte apoio dos adeptos, a selecção russa tem agora jogadores muito mais motivados e que estão sujeitos, diríamos, a uma pressão positiva. Independentemente do resultado frente à Croácia, eles já fizeram história, mas, se vencerem mais uma partida…
É preciso reconhecer que o jogo dos russos não tem sido bonito, alguns acusam-nos até de terem realizado anti-jogo frente à Espanha, mas, em torneios como o Campeonato do Mundo, o principal é vencer. Recordemos a vitória de Portugal no Europeu de 2016.
Outro factor que poderá contribuir para o êxito da equipa russa consiste em que ela não terá de enfrentar selecções tão fortes como as do Brasil, França, Bélgica e Uruguai. Segundo Gazaev, “os restantes adversários também são fortes, mas não os podemos considerar intransponíveis”.
E não nos podemos esquecer que a selecção russa tem jogadores de grande valor, embora não gozem da visibilidade necessária porque jogam apenas em casa.
Quanto às conversas sobre doping e compra de resultados, investiguem."

Quero ouvir o murmúrio das estrelas

"Sochi - Mais uma noite mal dormida e uma manhã sem sono. Quem é este homem de olhos claros não de todo estranhos que me fita do outro lado do espelho, como Alice sem maravilhas? Quem é esta criança luminosa que faz um esforço para agarrar a minha mão? Sinto o calor da sua mãozinha na minha pele fria. Não me importava que ficasse aqui ao meu lado durante um bocado: gostava de a ver rir. Deve ter um sorriso inesquecível e um brilho abundante nos seus olhos azuis crédulos... 
Sento-me para escrever e as palavras brotam-me aos milhares. Quero voltar a falar da Sibéria neste Mundial injustamente sem Sibéria. Quero fechar estes nacos de página em branco e regressar ao livro que ficou aberto sobre a cama: “In Siberia”, de Colin Thubron. Jornalista, viajante libertário e solitário, proprietário de todos os mundos ao seu alcance.
Saio para me excitar com cafés bebidos em sofreguidão.
É tão cedo ainda e já há expressões conformadas de quem sabe que nada há para fazer.
Mas que nada é esse? Mas porque me rodeiam as multidões mansas do absolutamente nada? Ah! O efeito que teria agora um grito... Um berro que estilhaçasse olhos vítreos, também eles claros e multiplicados. Um grito que afastasse as nuvens escuras que vieram durante a noite para nos tapar o sol.
Dostoievski na Sibéria.
Ossip Mandelstam na Sibéria: morto.
“Os poetas são assim mesmo: primeiro matam-nos, depois veneram-nos.”
Boris Pasternak; Ana Akhmatova, a poetisa que teve de esfregar soalhos; Maiakovski, o suicida; Tchekov e Pushkin; até Gorki, Máximo.
Nunca fui à Sibéria no inverno. Só no final da primavera, quase outono.
Preciso de ir à Sibéria no inverno. Quero ver o nada.
Uma brancura completa na qual não cabem gestos, palavras, sons, imagens. Como se estivesse à deriva no preciso centro de uma concha vazia. Nunca pensei que dentro das conchas houvesse um silêncio tão profundo. Sempre estive convencido de que dentro das conchas houvesse o vento e ondas e mar.
A Sibéria no inverno é a brancura?
Thubron escreveu: “Em Oymyakon registou-se uma temperatura de -97,8 Fahrenheit. Com um frio assim, o aço racha, os pneus explodem e os larícios soltam faíscas ao simples toque de um machado. À medida que o termómetro desce, o nosso bafo gela em cristais e tilinta no chão com um barulho a que eles chamam murmúrio das estrelas...”
Quero ouvir o murmúrio das estrelas.
Quero caminhar para leste e ser inverno.
Sochi, morna e terna na beira do mar Negro. Aqui me traz o futebol, paixão das paixões do homem por mais que a gente se convença, ou tente convencer, de que é apenas a coisa mais importante das coisas menos importantes.
A madrugada também foi branca, insone. Por quanto tempo mais continuarei preso a estes sonhos brancos sem significado nem sons? Não. Não quero continuar aqui por mais um minuto que seja. Quero poder levantar-me! Quero que algum destes fantasmas que esvoaçam em meu redor na sua tristíssima condição de almas penadas me ajude a erguer-me e a pôr-me de pé, andando.
Mas não posso: escrevo nesta vontade contumaz de Sibéria sem Sibérias.
Umas senhoras conversam molemente à beira do rio Sochi, na ulitsa Novaya Zarya.
De súbito, tu no que escrevo.
Podia apertar a tua mão na minha com muita força, que é assim que se exprime o carinho através das mãos. Faria sorrir a senhora dos cabelos negros com uma palavra a despropósito. E tu também te ririas muito. Até talvez eu, embora apenas um pouco. Desafiava-te: vamos à procura de uma Sibéria qualquer e do murmúrio das estrelas. De mãos dadas atravessaríamos sem medo todos estes corredores brancos e infinitos, entrando decididos nas estepes da eterna saudade."

Neymar: pequeno grande vilão?

"Podemos culpar o Neymar pela queda do Brasil? Não exclusivamente. Mas é evidente que a falta de maturidade do menino-que-já não-é-mais-menino teve um preço alto para toda uma nação.

Quando li a biografia da cantora brasileira Elza Soares, que segue na activa até hoje com 81 anos e foi casada com Garrincha, um dos maiores ídolos do futebol brasileiro, li uma coisa que nunca mais esqueci. O autor afirmava que a geração de Elza e Garrincha (que, se não tivesse morrido aos 50 anos, hoje teria seus 85) foi a última geração a fazer música e a jogar futebol por paixão. A partir daí, ambas as coisas viraram negócio, deixando de ser arte.
De fato, quando olhamos para essa Copa do Mundo, percebemos que há pouco (quase nenhum) espaço para improviso, instinto ou arte. Tudo é absolutamente profissional, direccionado e previamente estipulado. Também, pudera, tantos patrocinadores gigantescos, tantas câmeras precisas, tanto dinheiro envolvido. Ninguém está ali para qualquer tipo de brincadeira. 
Os jogadores tornaram-se máquinas. Treinos quase militares, suplementos alimentares, disciplina rigorosa, comportamento inspecionado. Pensar na selecção brasileira de 94, em Romário e Bebeto, sua indisciplina e seus excessos, é algo quase surreal 14 anos depois. O futebol está ficando chato? Talvez. A qualidade é melhor, mas certamente é um esporte muito pouco humano.
A selecção brasileira cai perante a Bélgica de Lukaku e tantos outros homens imensos e decididos. De quem é a culpa? Gabriel Jesus e sua incapacidade de decidir? Tite e o tempo que levou para mudar o time? Fernandinho e sua falta de solidez? Casemiro e seus dois cartões amarelos? Ou Neymar, pura e simplesmente? Podemos culpar alguém?
Neymar, no meio de um Mundial sério e nada aberto a gracejos e fintas, parece não estar na mesma disputa que os demais. O “menino Ney” é sempre perdoado por sua suposta imaturidade, mesmo que já mais perto dos 30 do que dos 20 anos de idade. Neymar nunca passa despercebido, seja onde for. Causa incômodo, causa furor, causa discussões. Cai no chão, rola, chora, briga, provoca. Destoa de quase todo o resto dos jogadores de 2018.
Ninguém se ilude, pensando que Neymar é um resquício de futebol arte em vez de ser o auge do futebol business. Mas, inegavelmente, Neymar é mais humano e menos máquina do que a média dos grandes jogadores. Menos máquina do que Cristiano Ronaldo, Griezmann, Kane ou Toni Kroos. E é provável que seja exatamente por isso ele nunca vá ser o melhor do mundo.
A humanidade, que tem seu lado positivo por devolver ao futebol um pouco da vida que foi perdida em tempos de VAR, acabou custando muito caro ao Brasil. As quedas, encenações e exageros fizeram, por exemplo, com que Miguel Layún, ao pisar propositalmente no atacante, não fosse expulso do jogo. A fama de simulação instituída por Neymar espalhou-se por todo o time, a ponto do árbitro sérvio não marcar o pênalti claro em cima de Gabriel Jesus no segundo tempo do jogo contra a Bélgica, que poderia ter mantido o Brasil na Copa.
Podemos culpar o Neymar pela queda do Brasil? Não exclusivamente. Mas é evidente que a falta de maturidade do menino-que-já não-é-mais-menino teve um preço alto para toda uma nação que precisava dessa alegria mais do que nunca. É craque? É. É humano? É. É inconsequente? É. E agora vamos de volta para casa. Temos um país para tentar reerguer."

Pogba descobriu problemas melhores

"Antes sequer de começar, o primeiro dia dos quartos-de-final colocou todos os envolvidos perante um problema para resolver. Ao Uruguai faltava Cavani, 50% da sua letal dupla ofensiva - talvez a única parelha de avançados no futebol actual capaz de ensaiar jogadas de combinação quando ambos se encontram a cinquenta metros um do outro (como Portugal lamentavelmente confirmou). À França faltava Matuidi, uma espécie de resguardo táctico assimétrico cuja versatilidade ajuda Deschamps a dormir mais descansado e o impede de seguir o seu instinto secreto, que é começar cada partida com sete trincos e três fadas-madrinhas. Ao Brasil faltava Casemiro, que além de ser o jogador mais talentoso na história do futebol a cometer faltas que só são vistas pelos telespectadores, é também um guarda-costas de tremenda eficácia. Quanto à Bélgica, sem ausências forçadas, foi a única a apresentar-se apenas com o problema do costume: como marcar o golo acidental que lhe permita jogar o resto do jogo com espaço livre suficiente para conseguir marcar outro.
Como se veio a verificar, os problemas da França e da Bélgica foram os mais fáceis de resolver, e deixaram todos os espectadores mais ou menos neutrais com o seu próprio problema, que foi sentir que as meias-finais se esgotaram essencialmente nestes dois jogos (ou, no caso do França-Uruguai, no jogo que poderia ter acontecido com Cavani em campo), e que pelo menos três destas equipas eram mais merecedoras de um lugar na final do que qualquer uma das outras quatro que ainda o pode garantir. Também por isso é difícil resistir à conclusão prematura de que o próximo campeão mundial vai ser decidido no França-Bélgica, um confronto onde ambas as equipas vão encontrar aquilo que não as atrapalhou ontem (um guarda-redes de elite, no caso francês; um trinco omnipresente, no caso belga), e onde se prepara um promissor frente a frente entre dois dos melhores médios da competição, Pogba e De Bruyne, cujo nível exibicional tem vindo a subir gradualmente.
Pogba, em particular, tem sido uma surpresa - duplamente reforçada pelo facto de uma "surpresa" ser a coisa mais surpreendente que se podia esperar dele nesta fase da carreira. Foram duas épocas de purgatório reputacional, em grande medida definidas pelo custo exorbitante da sua transferência para o Manchester United e pela percepção generalizada de que o mesmo correspondeu a uma tonelada de recursos dissipados numa fantasia, como se Pogba fosse um efeito colateral na crise de meia idade de terceiros: alguns compram um descapotável, outros fazem uma operação plástica, e depois há quem pague 110 milhões de euros por um médio-centro francês.
Uma etiqueta de nove dígitos, mesmo num mercado hiper-inflaccionado, vai inevitavelmente condicionar e distorcer expectativas. É o género de quantia que compra sucesso enfático e instantâneo, e não esporádicos vislumbres do Sublime. O preço de um jogador regularmente decisivo, mas também regularmente dominante.
O problema é que Pogba prometeu, desde muito novo, ser o primeiro tipo de jogador, mas raramente pareceu ser o segundo: aquele capaz de influenciar e controlar a natureza de um jogo, e o curso de um campeonato. O talento esteve lá desde o início, numa acumulação escandalosa: era óbvio para todos que transbordava qualidade. Mas na verdade, "transbordar" é o verbo precisamente errado. O que ele fazia era "reter" qualidade, mantendo-a em órbita ao seu redor, estabilizada pela sua própria força gravitacional. Traduzi-la num impacto contínuo nunca foi uma prioridade até as circunstâncias (o preço, mas também um clube desesperadamente à procura de referências individuais) o forçarem ao papel de produtor de desequilíbrios em série.
É um papel contra-intuitivo para alguém cujo vocabulário técnico (quase ilimitado, mas zelosamente protegido) era menos um instrumento para comunicar do que um veículo de auto-expressão. Sempre houve um elemento de impassibilidade nos seus maneirismos mais exibicionistas: uma presença berrante, mas estranhamente diáfana em campo, na qual os sinais visíveis de todas as dinâmicas de pressão associadas ao conceito de "jogador-de-futebol-a-jogar-futebol" se destacavam pela ausência, como se estivesse empenhado numa espécie de solidão performativa - em público. Quantas das suas mais memoráveis intervenções (a variação de flanco feita em corrida, por exemplo, com a parte exterior do pé, e perfeitamente calibrada para coincidir com o sprint do colega que vai receber o passe) pareciam espasmos de tímido narcisismo - actos intransitivos que nada iniciavam, concluíam ou modificavam, limitando-se a sancionar a sua brilhante auto-suficiência? Actos que tinham ainda o seu reflexo na postura de desalento quando não encontrava a solução "brilhante" e era forçado ao passe inócuo e mainstream, ao mero gesto de manutenção, desembaraçando-se da bola com um encolher de ombros a meio caminho entre o resignado e o agressivo.
Foi este o Pogba do Mundial do Brasil, do Euro-2016, e dos anos no Manchester - o que se refugiava na inconsequência quando não conseguia ser espectacular - mas não tem sido o Pogba do Mundial. Em vez de procurar problemas para resolver, tem procurado problemas para evitar, assumindo com brio todas as tarefas administrativas que não aparecem em montagens no YouTube, mas sim nas estatísticas da Opta: contra a Argentina fez dez recuperações de bola (o dobro de qualquer outro colega, Kanté incluído); e contra o Uruguai andou a meter o corpo em tudo quanto era barafunda, ganhando catorze duelos individuais - o máximo de um jogador francês num Mundial desde 1998. E ainda lhe sobrou tempo para desbloquear duas dificuldades na fase de grupos.
A maldição do jogador capaz de fazer tudo é provocar debates constantes não sobre o que pode, mas sobre o que deve fazer. Pogba estancou provisoriamente os debates tornando-se, de todas as coisas possíveis e imagináveis, sólido, fiável e seguro. E ganhou uma semana, e talvez duas oportunidades, para se arriscar a fazer parte de um debate completamente diferente."

Um jogo de sorte e Hazard

"Mesmo descontando o efeito da emoção recente, proclamo que este foi o Brasil que mais gostei de ver jogar em mundiais. Mesmo a perder, nunca perdeu a cabeça, a organização, a fluidez.

Haverá outras formas de dizer isto, provavelmente mais simpáticas, mas o facto é que José Peseiro tem cara de derrotado. Como o rosto vitorioso de alguns indivíduos afronta, humilha, o rosto atreito à derrota, à miséria, convoca a nossa compaixão. Porque é que falo de Peseiro se ele nem está no Mundial? É que o estou a ver aqui à minha frente, na capa de uma jornal desportivo, com um sorriso que não me engana. Naquela fisionomia obnóxia estão inscritas todas as derrotas do passado e prenunciadas todas as derrotas do futuro. Podem argumentar que nada disto é científico, mas olhem bem para Peseiro e digam-me se há ali algo da natureza intimidatória, vagamente irritante, do vencedor? Pois, não há.
Resolvida a questão Peseiro, regressemos ao Mundial. Pobre Uruguai! Sem Cavani, o campo ficou muito grande. Suárez procurava-o como quem procura a perna direita. Como um McCartney sem Lennon, bem que assobiava, mas só lhe saíam coisas como “Ebony and Ivory” e “No More Lonely Nights”. Privado do seu sócio, o avançado do Barcelona viu-se sem dentes. Correu, chateou, bateu com prudência, fez tudo o que se espera de Suárez dentro das leis do jogo. Porém, pareceu sempre inofensivo, nada mais que um rafeiro atrevido.
Este foi um jogo muito semelhante ao Alemanha-França de há quatro anos, também nos quartos-de-final. O que a Alemanha fez então à França, hoje a França fez ao Uruguai, apertando o adversário num abraço que só se percebe que é constritor quando o oxigénio deixa de chegar ao cérebro. Giménez, o central uruguaio, percebeu-o ainda a tempo de nos proporcionar um momento inesquecível: a dois minutos do jogo acabar, com o Uruguai a perder 2-0, não controlou o choro. Muslera também já tinha tido a sua paragem cerebral quando deu um daqueles frangos tão monumentais que nem sequer destroem carreiras, antes criam lendas. Muslera deu hoje o seu frango eterno. Não será esquecido.
Mais do que a comparação com o jogo de há quatro anos, talvez faça sentido dizer que o Uruguai provou do veneno com que tinha derrotado Portugal. Veneno que, por sua vez, Portugal já tinha usado contra Marrocos, por exemplo. Portanto, se a Bélgica empregar o mesmo método para ultrapassar a França podemos dizer que isto não é tanto um Mundial como um fim-de-semana com a família dos Bórgias. Também não faltou ao jogo alguma dose de violência física, de quezílias, quiproquós, pisadelas, admoestações e reprimendas. As coisas atingiram um nível Copa Liberadores e, a certa altura, nem a imponência castrense de Néstor Pitana sossegou os ânimos. Ainda escreverei sobre este árbitro argentino que tem a presença física de um marine – ou, como diria Gabriel Mithá Ribeiro, o físico ideal para professor na Margem Sul – e a vocação teatral de quem ama as luzes da ribalta. 
Quando o futebol é quezilento, sem imaginação, o adepto faminto até na exibição do árbitro procura consolo. Verdade seja dita, quando se chega aos quartos-de-final nenhuma equipa é amável. Dizia Balzac que por trás de uma grande fortuna há sempre um grande crime. Ora, eu acredito que uma presença nos quartos-de-final oculta sempre uma desonestidade fundamental, um crime de Ananias. Ninguém chega a esta fase impunemente. Amei a França que bateu a Argentina. Porém, assim que a projectei nos quartos-de-final, regressaram-me à memória os pecados originais de todos os jogadores franceses – que digo eu? –, de toda a França desde Carlos Magno.
Era assim que pensava antes de ver o Brasil-Bélgica. E não é que os quartos-de-final podem ter não uma, mas duas equipas amáveis? Mesmo descontando o efeito da emoção recente, proclamo que este foi o Brasil que mais gostei de ver jogar em mundiais. Mesmo a perder, nunca perdeu a cabeça, a organização, a fluidez. Criou oportunidades a jogar o seu futebol e isto, sem condescendência alguma, vale certamente alguma coisa. A Bélgica teve um treinador que soube preparar o jogo, teve Witsel e Fellaini, teve Lukaku, teve De Bruyne, teve Courtois, teve Hazard e, quando tudo isto falhou, teve sorte. Contra isto, Tite nada podia."

Treino aberto...

Benfiquismo (DCCCLXXXI)

Tapete vermelho...

Jogo Limpo... Guerra & Fanha

Palhaçada... cozinhada!!!

Foram precisas duas chaves para termos calendário da I Liga, curiosamente o adversário na 3.ª jornada é o mesmo, nas duas chaves, logo na jornada 'enfiada' no meio do Play-off de acesso à Champions!!!
Mesmo assim, e apesar de todas as manhocises este 'segundo' calendário, é um bocadinho mais meigo!!! Apesar de uma 2.º volta 'carregada' de deslocações difíceis...!!!
Mas para ter uma 'imagem' completa temos que 'encaixar' os compromissos Europeus nestas jornadas, principalmente a combinação entre deslocações ao estrangeiro, com jogos fora da Luz...

1.ª Benfica-Vitória SC
2.ª Boavista-Benfica
3.ª Benfica-Sporting
4.ª Nacional-Benfica
5.ª Benfica-Aves
6.ª Chaves-Benfica
7.ª Benfica-Corruptos
8.ª Belenenses-Benfica
9.ª Benfica-Moreirense
10.ª Tondela-Benfica
11.ª Benfica-Feirense
12.ª V. Setúbal-Benfica
13.ª Marítimo-Benfica
14.ª Benfica-Braga
15.ª Portimonense-Benfica
16.ª Benfica-Rio Ave
17.ª Santa Clara-Benfica


A equipa B, também ficou a conhecer o calendário:
1.ª Benfica B-Farense
2.ª A. Académica-Benfica B
3.ª Benfica B-Varzim SC
4.ª FC Penafiel-Benfica B
5.ª Benfica B-CD Mafra
6.ª FC Arouca-Benfica B
7.ª Benfica B-FC Famalicão
8.ª Estoril Praia-Benfica B
9.ª Benfica B-P. Ferreira
10.ª CD C. Piedade-Benfica B
11.ª UD Oliveirense-Benfica B
12.ª Benfica B-Leixões SC
13.ª SC Covilhã-Benfica B
14.ª Benfica B-Ac. Viseu
15.ª Corruptos B-Benfica B
16.ª Benfica B-Vitória SC B
17.ª SC Braga B-Benfica B

Relativamente aos prémios individuais relativos à época anterior, destaque para o Jonas que com os 34 golos foi o melhor marcador da Liga e ainda fez parte do 11 ideal.
O Rúben Dias foi eleito o jovem jogador do ano...
O Pizzi fez parte do 11 ideal (!!!)...
A nossa equipa B, recebeu o prémio Fair-Play...
E o nosso reforço Chiquinho, ao serviço da Académica, foi eleito o Melhor Jogador Jovem da II Liga...

Félix vs. Gedson