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sábado, 31 de janeiro de 2026

É irracional, é exagerado, é desproporcional. É maravilhoso!


"Futebol: não há nada igual

Há montanhas-russas, há filmes de terror, há cartas da autoridade tributária, mas ainda não se inventou nada como o futebol. Só o futebol tem aquela capacidade tão adorável de, em dois segundos, transformar um adulto sensato num miúdo de oito anos.
E isso é fascinante.
A beleza do futebol é esta falta de respeito pela agenda emocional das pessoas. Num estádio de futebol, ou em frente à televisão, ninguém nos pergunta se temos um minutinho para sentir tudo ao mesmo tempo. Simplesmente acontece.
Com a violência de quem nos entra em casa e bebe a última cerveja.
Nada, mas nada mesmo, consegue condensar tanta emoção. Nenhuma relação parte e reconstrói um coração tantas vezes. Nenhum Alta Definição provoca tantas lágrimas.
O futebol é tão desproporcional que se fosse uma pessoa, era internado por excesso de intensidade. Mas é por isso que o amamos.
Um golo aos 96 minutos vale por um ano inteiro de ioga: naquele instante sentimo-nos a sair do corpo e a levitar, a percorrer um túnel onde não há tempo, não há espaço, não há nada.
Só existimos nós, o infinito e uma alegria que não cabe no peito.
O mundo inteiro fica ligeiramente desalinhado, mas não faz mal. Naquele momento nada importa. Por isso, num café, na rua, no estádio, não pensamos duas vezes antes de abraçar aquele cidadão ali ao lado, a cheirar a cerveja, como se fosse família.
Mas não é. Aliás, nem sabemos quem é.
O futebol também tem este talento raro de sincronizar pessoas que não se conhecem, para criar o fenómeno mais bonito da natureza: o abraço ao desconhecido. Em segundos, faz-se uma comunidade.
Há, por exemplo, poucas coisas tão comoventes quanto aquele momento em que todas as vozes se juntam num GOOOOLLLOOO coordenado sem ensaio. É quase uma oração laica. Um hino improvisado.
Há uma magia indescritível em tudo isto.
Reparem nesta última noite de Liga dos Campeões, por exemplo. 36 equipas, 18 jogos ao mesmo tempo e tudo a mudar completamente num só instante, e noutro, e noutro. Até àquela saudável loucura, em que volta a mudar no último segundo, num golo de um guarda-redes. Que é gritado em Portugal, em Espanha, em França, em Inglaterra.
É, enfim, gritado em tantas e tão distantes latitudes.
O futebol consegue ser isto: o único produto no mercado que nos vende um ataque cardíaco em suaves prestações de 15 minutos. E nós ainda agradecemos no fim.
É irracional, é exagerado, é desproporcional. É maravilhoso.
Por isso, e se me permitem, vamos guardar um parágrafo de silêncio por aquelas pessoas que ainda acham que o futebol são 22 gajos a correr atrás de uma bola.
Obrigado."

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