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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

"O Museu vai crescer"

"Vice-presidente, Alcino António, perspectiva o futuro 
O Museu Cosme Damião abriu as portas ao público no passado dia 29 de Julho e já recebeu mais de cinco mil visitantes. O novo espaço do Clube promete proporcionar a pequenos e graúdos uma viagem no tempo pela história do Benfica, do País e do Mundo. Não deixe de visitar!
A Benfica TV esteve à conversa com cinco figuras que foram cruciais na construção deste projecto: Alcino António, Luís Lapão, António Ferreira, Inês Mata e Rita Costa revelaram alguns dos segredos do Museu Cosme Damião...

- Este era um projecto muito ambicionado pela Direcção do Sport Lisboa e Benfica. Agora, que já foi inaugurado, é um sonho tornado realidade?
- Penso que sim. A Direcção do Benfica, em meu nome e do seu presidente, com toda a cautela, deve agradecer a todos os que estão aqui como representantes da pirâmide que contribuiu ao longo destes quatro anos para que este museu se tornasse realidade. São pessoas que estiveram à frente deste projecto, que dormiram menos horas. O Benfica está-lhes grato.
Creio que todos os adeptos e simpatizantes quando visitarem o Museu se vão rever um pouco. As pessoas que aqui estão carregaram o fardo de serem a força do Benfica com toda a dedicação e perseverança. A eles se deve esta obra magnífica e espero que eles continuem por cá a desenvolver outros projectos para bem do Clube e deles.
- Como é que este sonho do Museu Benfica começou?
- Todos os benfiquistas tinham este sonho, devido ao grande valor histórico que o Benfica tem, devido às pessoas envolvidas e às dificuldades, até porque, como é sabido, vivemos tempos muito difíceis mas, por exemplo, em 1904, 1905, 1906 os tempos eram ainda piores. A primeira bola do Benfica foi comprada em segunda mão e não foi por isso que deixamos de crescer, unir e que construímos o que é hoje o Clube. Esperamos que os nos vão proceder tenham orgulho, porque o Benfica tem um capital humano, tem sócios em todo o Mundo, e somos inigualáveis. É isso que queremos transmitir às actuais gerações.
- Era esta ideia que se tinha quando se começou? Era este o Museu que esperava?
- A ideia de alguns anos atrás foi recuperar todo o acervo e todo o trabalho desenvolvido foi no sentido de não perdermos traços da nossa história. O que se apresenta aqui é uma ideia, no início não era bem assim, foi-se construindo aos poucos, foi-se desfazendo, foi-se adaptando e fomos aprendendo porque ninguém aqui sabia qualquer coisa de museologia.
Um dos cuidados que tivemos foi de que aquilo que está exposto seja entendível por crianças, por adolescentes, por pessoas maduras e até por velhotes. Se conseguimos isso, está feito um trabalho fantástico. Se um menino pequeno e um adulto percebem o que vêem então é sinal que que Luís Filipe Vieira cumpriu. Esta é uma obra que a ele se deve, até pela sua força interior. Deixou-nos trabalhar à vontade, nunca nos pressionou e isso é fundamental para se ter êxito.
- Tendo por base essa preocupação de tudo estar perceptível a todas as idades, géneros e gostos... o que se teve de fazer?
- Muita pesquisa, muito trabalho, um trabalho feito por centenas de pessoas que andaram nos diversos locais de Lisboa, a beber informação para que qualquer coisa que esteja aqui exposta seja verídica, que tenha um vídeo, um áudio, ou um registo na Imprensa escrita.
Pode haver alguma vírgula mal colocada, mas isso é fácil de reparar. Não nos podemos levar pelas críticas, temos de nos manter unidos, o Benfica tem a capacidade de passar do 8 ao 800 sem passar pelo 80. Queremos tornar o Clube maior o melhor.
- Como é que está a ser garantido que, no futuro, a evolução do próprio Museu acompanhe a evolução do Sport Lisboa e Benfica?
- Gostava de dizer uma coisa que não é muito agradável, e aí estou a falar como benfiquista. Não é agradável, com o envolvimento que eu tive ao longo destes anos, as pessoas, digo uma figura do País que, após uma derrota do Benfica, e que tem alguma responsabilidade, porque ao longo dos anos cometa a vida do Benfica, a história do Benfica, ter-se referido ao Museu apenas porque perdemos, e, toda a massa associativa, dirigentes e sócios estavam tristes. Essa pessoa referia-se ao museu do Benfica como o 'mausoléu'. Isso foi o que me magoou mais, porque perder um jogo não significa que se apague a história do Benfica. Não significa que, no futuro, não se ganhe tudo. E não podemos menosprezar ou apagar todas as pessoas que desde 1904 tornaram o sonho do Benfica realidade. Não podemos apagar, também, nesta juventude, nestes jovens todos que tiveram o azar de ver o Benfica perder este jogo.

António Ferreira, director-técnico - "O Museu tem paixão tem carinho"
- António, neste projecto trabalharam 100 pessoas, instituições, vários departamentos do Clube, empresas. Foi fácil aglutinar todos eles em torno deste projecto?
- Claro que sim. São pessoas, não todas, mas que habitualmente trabalharam com o Clube e que estão habituadas a esta dose de loucura que colocamos em todo e qualquer projecto, porque o Museu foi sendo descoberto, com uma base de trabalho, sim, mas no nosso dia-a-dia fomos descobrindo maneiras que nos pareceram mais eficazes e com mais expressão para contar a história que podemos observar aqui hoje.
- Esta história está contada de forma especial. Como é que se chegou a esta fórmula?
- Caminhando todos os dias, descobrindo, chegando ao fim d dia e percebendo que é preciso desfazer a fazer de outra maneira.
- Foi-nos dito que a tecnologia presente no Museu é a última existente no mercado. Que tecnologia é esta? Do que vão os visitantes poder usufruir?
- Não sei se é de ponta ou a última do mercado, o que sei dizer é que foi totalmente desenvolvida pela nossa direcção de sistemas de informação que apostou me algo que fosse usável por toda a gente. O que nós pretendemos aqui é, não só aguçar o apetite para conhecer a história, mas tornar isso fácil, para o pequenino e para o que teve a hipótese de ver parte desta história. Nós não queremos que a tecnologia seja a vedeta, pelo contrário, queremos que seja discreta e um meio auxiliar de contar a história.
- Este Museu é a imagem do Benfica?
- Acho que sim, porque tem paixão, tem carinho, tem o não olhar para o lado quando há um desafio.
- Quando se fala de Benfica fala-se de emoções. São emoções que estão aqui expostas?
- Nós vimos nestes últimos dias várias figuras do Benfica visitarem o Museu e penso que não é fácil para eles verem a sua imagem retratada, verem os feitos que fizeram. Deve ser um turbilhão de ideias que lhes vem naquele momento quando vêem a fotografia, os golos que marcaram e as partidas que fizeram. É terrível, mas o efeito é espontâneo e isso é o que vale na vida. As emoções aqui retratadas fazem-nos reviver memórias.
- Como é que está a ser garantido que, no futuro a evolução do próprio Museu, acompanhe a evolução do Sport Lisboa e Benfica?
- Eu tenho um amigo argentino que, por acaso, é o director criativo deste Museu e que diz que as grandes obras não se acabam, abandonam-se. Nós não abandonamos. Abandonamos num sentido, mas não abandonamos porque, se calhar, metemos um parafuso de cabeça de tremoço invés de cabeça chata, porque ficava mais bonito. Nesse sentido, abandonamos.
Agora, isto para nós é o arranque. Dizia há pouco que, certamente, terá erros aqui e além, nesta parede que está aqui ao nosso lado. Existem milhares de palavras que, certamente, têm uma vírgula fora do sítio, mas nós vamos descobrir e vamos corrigir. Vencemos essa inércia. E a própria história tem particularidades que queremos acrescentar. Isso não se faz num ano e três meses, está completamente fora de questão e nós aprendemos isso. Se calhar, faz-se em três anos e, este Museu foi feito em uma ano. Vai crescer, sim, vai crescer. Temos continuidade, temos projecto. Temos o que queremos e, o público dirá o resto, porque, de facto, vão haver muitos 'se'. 'Se tivesse isto, se tivesse aquilo', e muitos 'por que é que não tem aquilo'. O tempo levar-nos-á mais longe.

Luís Lapão, curador do Museu - "Todos os benfiquistas sonhavam com o Museu"
- Luís, recentemente falou que o Museu oferecia uma proposta de observador do Clube. Que proposta é esta?
- Disse isso no sentido de que a história do Clube é vasta. Tratar de comunicar a história do Clube é uma tarefa muito difícil e, se pensarmos que somos uma instituição com 109 anos de história, não é fácil organizar toda esta informação que está à nossa disposição e transmiti-la ao público de forma exemplar. Ou seja, as abordagens possíveis são tantas e infinitas que nós tivemos de encontrar a nossa. O que nos preocupou foi não deixar de fora nenhum dos grandes temas da história do Clube. Este é, sobretudo, um Museu temático, para que se possa compreender aqui cronologicamente de que forma a história do Clube foi evoluindo.
Poderia haver mil museus, esta é a nossa maneira de contar uma história, e não a história, porque diria eu, uma história escreve-se todos os dias.
- Por falar em história, essa acaba por ter várias interpretações. Este Museu permite, isso mesmo, ou seja, várias interpretações?
- Permite, com certeza, tal como um livro escrito, a partir do momento em que o autor o termina deixa de ser dele e passa a ser do leitor. Penso que este Museu deixou de ser nosso, passou a ser do grande público, dos benfiquistas, dos lisboetas, dos portuguesas, de todos os que nos visitarem. É a memória do Clube que está comunicada, é uma história que cada um lerá à sua maneira.
- Foi difícil escolher os troféus que estão presentes neste espólio de 30 mil peças?
- Não foi fácil. Mas foi, sobretudo difícil excluir, porque numa colecção de 29 mil objectos as possibilidades eram inúmeras. O que mais nos move em termos de comunicação neste Museu é a memória do objecto. Claro que existem alguns objectos neste Museu que, pela sua estética, pela sua materialidade, quase se impõem.
De qualquer modo, tendo em conta que o Museu foi pensado numa fase inicial, naquilo que seriam os seus conteúdos principais, os seus temas incontornáveis, a partir daí começou um trabalho de documentação com objectos, com documentos, com camisolas, com tudo aquilo que figura habitualmente num Museu de um Clube. Mas aquilo que foi o principal na escolha dos troféus foi ter primeiro uma ideia muito concreta do que se queria comunicar aqui. O difícil foi, de facto, excluir, porque houve primeiro a ideia de ter alguns objectos em determinadas zonas que, com o tempo, percebemos que ficava melhor noutras zonas. Foi uma fase de amadurecimento e de perceber quais seriam as escolhas mais acertadas.
- Desde início foram colocados critérios nessa escolha?
- Critérios é uma questão sensível, porque há zonas aqui que, de facto, têm de ter critérios. Foi pela análise que se foi percebendo quais as escolhas que eram mais sensatas para cada uma das 29 áreas. São todas diferentes, cada uma com as suas características, com as suas exigências. Houve todo o trabalho de uma equipa até chegarmos a este belíssimo Museu, tendo visitado eu outros, não tenho qualquer problema em dizer que é o que eu gosto mais.
- Porque tem um pouco de si?
- Não. Claro que não fico indiferente ao facto de ter participado, para mim foi um privilégio. Desde que me lembro existir que gosto do Benfica e desde que comecei a vir ao Futebol, pela mão do meu pai, a paixão nunca mais se apagou e eu penso que isto aconteceu com todos os benfiquistas sonhavam ter um espaço onde se encontrassem com a história do Clube. Aquilo que o Benfica é hoje, ao fim destes 109 anos não é fruto do acaso, os insucessos também fazem parte da nossa história e nos últimos anos foram alguns, mas o Benfica é uma instituição muito sólida, porque construiu desde 1904 até a presente data... isso é inabalável.

Rita Costa, responsável do Centro de Documentação e Informação - "Objectos apelam à memória benfiquista"
- Estamos a falar de uma história baseada em factos que as pessoas vão poder ver ao longo de todo o Museu. Foi difícil reunir todos os dados históricos que hoje vemos aqui?
- Por um lado sim, a história do Benfica é muito vasta e é contada de muitas maneiras diferentes. Precisamos de uma equipa grande e dedicada à causa. Quisemos ter todo o rigor possível e foi feita uma investigação profunda, foi feita a validação de todos os dados que aqui temos. Tentamos envolver as mais diversas instituições, falamos com diversas federações, associações, antigos atletas de forma a contarmos de forma mais fiel a história do Benfica.
- Rita, os objectos aqui expostos permitem viver a paixão associada ao Benfica?
- Eu penso que sim, até porque, parte dos objectos aqui expostos dizem, apelam à memória benfiquista e, para mim, uma das coisas mais importante deste Museu é a homenagem que quisemos fazer aos adeptos pela paixão e emoção que entregam ao Benfica todos os dias, é isso que faz a grandeza do Clube. As pessoas vão relacionar-se, vão emocionar-se, vão sentir-se reflectidas neste Museu. É isso que faz deste Museu um Museu vivo.
- Uma das mais-valias deste Museu é, não só mostrar factos mas, também, dar a possibilidade das pessoas interpretarem diferentes experiências...
- Sim, quisemos não só tocar na vida das pessoas desportivamente mas, também, com eventos da sua vida social, cultural e política. Vemos aqui o Mundo reflectido, a história, do País, de Lisboa e todas as pessoas, incluindo estrangeiros, pessoas que não são benfiquistas podem relacionar-se com este Museu.

Inês Mata, responsável do Departamento de Conservação e Restauro - "O Museu não é um conjunto de objectos, é um veículo de comunicação"
- Inês, é responsável pela parte mais visível do Museu, a restauração e preservação dos objectos que aqui estão expostos. Quanto tempo levou tudo isto que aqui vemos hoje?
- O que aqui vemos é uma pequena parte de um projecto muito maior. Começamos em Novembro de 2009 um novo olhar sobre aquilo que é o património do Clube. O acervo é muito superior ao que está aqui, hoje e em reserva temos cerca de 30 mil objectos, que incluem troféus, ofertas, donativos, entre outros. O trabalho que começamos por fazer foi de preservação, de acondicionamento de todas estas peças e esse é o trabalho que se pode ver na reserva actualmente. Os objectos que foram sendo seleccionados para estarem aqui, esses foram alvo de um trabalho de restauro um bocadinho mais atento, porque iam ser expostos.
Nos restauros interessa-nos, não que os objectos fiquem exactamente iguais à imagem que tinham quando foram ganhos, não queremos andar para trás no tempo, mas principalmente deixá-las, fisico-quimicamente estáveis e permitir-lhes uma leitura. Um troféu é um troféu e temos que lhe permitir uma leitura de grandeza e de vitória. Foi um cuidado que nós tivemos desde há muito anos e com uma grande equipa. Nós estamos aqui em representação de um grande número de pessoas. Neste momento estão expostas 932 peças, mas é muito difícil fazer uma distinção entre o que são troféus, conquistas desportivas, e as que são ofertas, as que foram ganhas em momentos importantes da história do Clube. Temos aqui peças, que não só para o Clube, mas também para o País são fantásticas, com uma relevância histórica ímpar.
- Uma curiosidade, olhar para as peças pela primeira vez e olhar para elas agora, aqui expostas no Museu... Qual é o sentimento?
- É de um trabalho bem feito. É claro que isso se sente nas peças aqui expostas, mas também na formação , como no resto do património que está hoje inventariado. Nós costumamos dizer que temos uma pirâmide em construção e o Museu é a pontinha dessa pirâmide. É a ponta visível do trabalho que está por baixo e que é muito maior. As peças expostas, no fundo, mostram-nos a qualidade do trabalho que está por baixo.
- Inês, que acompanhamento vão ter os visitantes do Museu?
- Nós sentimos, com a conclusão deste projecto, que ele fica entregue ao público. Tudo o que aqui está, foi muito bem documentado. O Museu não é um conjunto de objectos, é um veículo de comunicação. Tudo tem a sua informação, a partir daí cada um tem a sua experiência. São 29 áreas temáticas, o espaço é claro em termos de percurso, cada um pode perder-se onde quiser, cada visitante é diferente e tem as suas preferências. De qualquer forma, temos uma equipa de mediadores culturais e assistentes que vão ajudando a que cada um possa montar a experiência que quer viver."

Bárbara Alves e Mara Fontoura, in O Benfica

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