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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O favorecimento da classe alta do futebol português


"Há um paradoxo que me atinge sempre que vou ver jogos das divisões inferiores. Andando o clube da minha cidade pelo subsolo do futebol português, é uma atividade que acontece com regularidade. Geralmente, a experiência começa com uma revista desconfortavelmente severa e desproporcional ao contexto. Quando o responsável por fiscalizar a entrada me permite que abandone a posição de Homem Vitruviano à qual me sujeito enquanto me apalpa, estou pronto para que me sirvam um jogo da Liga dos Campeões, daqueles onde é possível defender que a segurança seja assim tão apertada.
Ao invés do esperado, decorre um jogo com bolas desbotadas a um ponto que, se o patrocinador estivesse atento àquilo onde anda a investir o seu dinheiro, ficaria constrangido. Pelo menos, eram redondas. Um dos golos mandou a casa, literalmente, abaixo. A bancada revelou-se impreparada para essa coisa rara hoje em dia: encher-se de pessoas. O muro que separava a bancada do relvado não estava pronto para tal entusiasmo e cedeu, causando alguns feridos. A partida atrasou-se um pouco, mas não se estendeu até ao horário de descanso do sol. Seria um problema, pois iluminação nem vê-la.
A bancada em causa é aquela que suporta o painel publicitário que todos os dias espia os milhares de pessoas que passam na Ponte 25 de Abril. Fica assim revelado que o estádio em causa é a Tapadinha, local que não serviu para acolher o Atlético-Benfica da Taça de Portugal, mas serviu para receber o Atlético-Académica da Liga 3.
O organizador de ambas as competições é a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) que tem andado seletivamente picuinhas. Há muito mais ADN futebolístico no Estádio da Tapadinha do que no Benfica District. As condições precárias têm o seu romantismo (exceto quando o bem-estar dos adeptos é colocado em causa) e zelam pela sobrevivência do espírito popular. Porém, a FPF tem-se interessado por impedir que essas realidades se toquem.
O exemplo maior aconteceu na receção do Caldas SC ao SC Braga. Um dia antes, a FPF considerou que o relvado do Campo da Mata estava “impraticável” e o jogo dos oitavos de final da Taça de Portugal realizou-se em Torres Vedras. Esta época, para a Liga 3, SC Covilhã, 1º Dezembro, CD Mafra, Lusitano de Évora, Amora FC, Atlético CP e União Santarém já passaram pelo Campo da Mata. Escusado será dizer que nenhum destes jogos mereceu tão detalhada avaliação ao estádio, ou seja, os padrões que a FPF considera aceitáveis para uma das suas competições não é os que considera aceitáveis para outras. Não terão estes clubes razões para duvidar da imparcialidade da FPF?
Na semana passada, foi anunciado que as equipas da I Liga apenas começarão a competir na 4ª eliminatória da Taça de Portugal. A FPF continua a demonstrar que não quer que a elite ponha os pés na lama e coloca a Taça de Portugal num rumo que a aproxima da Taça da Liga, competição moldada para favorecer quatro clubes. Chamar competição a este match fixing estrutural começa a parecer um exagero. Não prestemos atenção e, em breve, a final da Taça não vai para fora do Jamor, mas para fora de Portugal.
A prova rainha deve ser vista como um torneio em si só e não deve depender do que os clubes façam nos respetivos campeonatos. A Taça de Portugal leva à Lua quem está na Terra e traz à Terra quem anda com a cabeça na Lua. O desaparecimento desta horizontalidade extingue a Taça de Portugal tal como a conhecemos.
A FPF parece estar a tomar um caminho de reforço de laços com o futebol profissional, ignorando que o resto da pirâmide também precisa de bons relvados, iluminação e estádios dignos, assuntos que só importam quando há muitos olhares atentos. Entretanto, as classes mais baixas estejam a ser guetizadas."

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