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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O desafio inspirador


"FRENTE AO VARZIM, TORRES CONCILIOU DUAS PAIXÕES: OS GOLOS E OS POMBOS.

A um treinador pede-se visão para antecipar problemas e engenho para os resolver. As épocas são longas, e só quem mantém a motivação em alta chega mais perto das conquistas.
Na temporada 1964/65, o Benfica vivia um momento brilhante, dominando dentro e fora de portas. Terminou a 1.ª volta do Campeonato Nacional isolado na liderança, com um ataque demolidor. A imprensa já o dava como tricampeão anunciado.
Nas jornadas seguintes, mesmo com alguns tropeços – 2 empates, 1 vitória e 1 derrota –, os encarnados rapidamente regressaram ao trilho do sucesso. Pelo meio, brindaram o Real Madrid com um inesquecível 5-1 no Estádio da Luz, na 1.ª mão dos quartos de final da Taça dos Clubes Campeões Europeus.
Mas o futebol é rico em surpresas. Seguiram-se dois resultados amargos: derrota por 2-1 em Madrid e novo desaire frente ao FC Porto por 1-0. O jogo foi duro. Costa Pereira perdeu quatro dentes num lance em que saiu aos pés de Carlos Manuel, impedindo um remate. Ainda assim, manteve-se em campo para o resto do 1.º tempo e toda a 2.ª parte. Na etapa complementar, os benfiquistas revelaram cansaço, e os azuis e brancos aproveitaram para marcar o único golo do encontro.
A imprensa ficou surpresa com o desfecho: “Como é possível a derrota, às mãos dos jovens de Otto Glória, dum Benfica que eliminou do maior torneio um Real Madrid? Fadiga do jogo de quarta-feira?” O técnico do Benfica, Elek Schwartz, manteve a calma e elogiou o adversário: “O FC Porto atuou com muita energia, e não há dúvida de que tem futebol que justifica amplamente o lugar que ocupa na classificação e que por certo manterá, pois merece-o absolutamente.”
Internamente, porém, sabia que era urgente reagir logo na jornada seguinte, diante do Varzim. Sem poder contar com Eusébio, lançou um desafio ao segundo melhor marcador da competição, Torres: “Se marcasse três golos frente aos poveiros oferecia-lhe dois pombos e se marcasse dois tentos, a oferta ficaria reduzida a um.”
Apaixonado por columbofilia, aceitou de imediato. O Benfica entrou de rompante e dominou o encontro. Coluna inaugurou o marcador, e Torres apontou os três golos seguintes.
O Monstro Sagrado bisou e selou o triunfo em 5-0.
No final do jogo, Elek Schwartz estava satisfeito: “O Benfica venceu por 5-0, mas se Torres não tem estado infeliz, poderia ter obtido mais alguns golos. Mesmo assim, perdi dois pombos que lhe tinha prometido como prémio.” A uma vitória do título, os benfiquistas celebraram o tricampeonato na jornada seguinte, ao vencerem o V. Setúbal por 2-1. E Torres, com mais dois pombos, sagrou-se o segundo melhor marcador da prova, com 23 golos em 23 jogos.
Saiba mais sobre esta conquista na área 6 – Campeões Sempre, do Museu Benfica – Cosme Damião."

António Pinto, in O Benfica

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