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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Amorim no pós-Flick? Primeiro, soa a provocação; depois, começa a fazer sentido


"A ideia não nasce do improviso nem da fantasia. Nasce da observação. Ruben Amorim representa hoje um perfil cada vez mais raro no futebol de elite. É um treinador que sustenta convicções, que privilegia processos e que entende liderança como algo que se constrói no tempo. É por isso que pensar o seu nome associado a clubes de exigência estrutural elevada não é um exercício de imaginação, mas de coerência.
A saída de Amorim do Manchester United diz pouco sobre resultados e muito sobre o conflito entre dois mundos. O de um treinador que acredita em projetos e o de um futebol que vive obcecado com respostas imediatas. Num contexto em que a paciência é vista como risco, Amorim fez algo cada vez mais raro, que foi manter-se fiel a uma ideia.
Peter Schmeichel, figura incontornável da história recente do United, foi particularmente claro na sua leitura. Para o antigo guarda-redes, Amorim tentou construir algo estrutural: identidade, disciplina, continuidade. Exatamente aquilo que o clube afirma procurar há anos, mas que raramente aceita proteger quando surgem as primeiras dificuldades. Schmeichel foi mais longe ao apontar o problema à cultura que se enraíza cada vez mais no clube. Parece prevalecer no United uma cultura que muda constantemente de treinador sem nunca redefinir verdadeiramente o rumo.
A história não é nova. José Mourinho viveu algo semelhante em Old Trafford. Um treinador de personalidade forte, convicções claras e resistência à diluição do seu modelo. Também ele saiu antes de o clube enfrentar as causas profundas da sua instabilidade. Mudaram os nomes, manteve-se o padrão.
Num futebol que confunde coerência com teimosia e paciência com fraqueza, Amorim recusou adaptar-se à lógica do curto prazo. Não negociou princípios para ganhar tempo. Preferiu sustentar um caminho, mesmo sabendo que o tempo raramente favorece quem tenta construir algo duradouro.
Essa escolha tem custos imediatos, mas encerra um valor estratégico elevado. Liderar não é reagir ao ruído. Liderar é manter direção quando o contexto empurra para a desistência. Amorim não foi um gestor do medo; foi um defensor de uma visão. E isso, no futebol atual, torna-o um caso raro. Um treinador fora da norma.
É aqui que a provocação começa a ganhar densidade. No Barcelona, Hansi Flick representa uma tentativa clara de devolver ordem, competitividade e credibilidade a um projeto que vive há demasiado tempo entre a urgência do presente e o peso da identidade histórica. Mas o desafio do Barça não se resolve apenas com o nome no banco. É estrutural, cultural, identitário.
E é precisamente nesse ponto que o perfil de Amorim deixa de soar apenas a hipótese abstrata. Um treinador capaz de unir modelo de jogo, desenvolvimento de jogadores e liderança interna num contexto de pressão permanente. Não por rigidez, mas por clareza. E não por imposição, mas por convicção.
Não se trata de prever destinos nem de antecipar decisões. Trata-se de reconhecer padrões. Num futebol cada vez mais descartável, os clubes verdadeiramente grandes acabam, mais cedo ou mais tarde, por voltar a procurar quem resiste. E é nesse momento que aquilo que começou como provocação passa a ser lido como possibilidade, e apenas porque faz sentido.Parte superior do formulário"

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