Últimas indefectivações

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Rio Ave e o absurdistão de Atenas


"«O estilo de jogo de um clube revela o perfil único de cada comunidade.»
A frase é do genial Eduardo Galeano e preenche uma das maravilhosas páginas da sua obra maior, Futebol ao Sol e à Sombra.
Eu permito-me acrescentar mais uns pozinhos de perlimpimpim à ideia fundamental do mestre. O clube do nosso coração define-nos profundamente, tanto quanto a terra onde nascemos e o país onde vivemos.
Ser adepto, insisto, é um exercício de resistência, de persistência, de memória e afetos. É àquele emblema, àquelas cores, àqueles nomes que recorremos semanalmente em romaria terapêutica.
Não brinquemos com os sentimentos destas gentes. Amar uma instituição desportiva, uma equipa de futebol, não é um mero passatempo. É uma opção de vida séria, uma irreprimível condição existencial.
Daí a minha incompreensão por determinados projetos negócio-empresariais deste futebol a que tendemos chamar de moderno. De moderno, garanto-vos, nada tem.
Estes fundos de investimento em formas de SAD são, demasiadas vezes, o apogeu da insensatez, o carrasco que segura a corda da forca. Sem visão, sem emoção, sem perspetivas de crescimento. Apenas a certeza da queda e do cadafalso.
Há boas exceções – Famalicão, Estoril Praia… -, mas sobretudo uma legislação incapaz de bloquear a entrada de gente pouco credível no capital social de sociedades responsáveis pela sensível gestão de clubes históricos.
Hoje escrevo sobre o Rio Ave. Preocupado. Preocupado com a incompreensível gestão desportiva, a descaracterização absoluta do ADN do plantel e o aparente desinteresse em relação aos interesses competitivos do histórico dos Arcos.
Longe de estar sossegado na I Liga, o Rio Ave perdeu agora a dupla responsável por 73 por cento dos golos da equipa para o… Olympiacos. O Olympiacos do senhor Marinakis, investidor e acionista maioritário do emblema grego, do Nottingham Forest e do Rio Ave.
Um absurdistão helénico. Difícil de catalogar.
Voltemos a 2023. Penalizado por uma descida de divisão (2021) e o tenebroso caso-Olinga, o Rio Ave mergulhou num passivo de 13 milhões e num descontrolo orçamental difícil de perceber.
Porquê? Pouco tempo antes, sob a gestão de Silva Campos, a equipa chegava a finais da Taça de Portugal e da Taça da Liga (2014), montava plantéis competitivos (sexto, sétimo, quinto, sétimo e quinto lugares entre 2016 e 2020) e, acima de tudo o resto, era um clube cumpridor e com profunda ligação à comunidade e respeito pelo passado.
O tal «perfil único de cada comunidade».
Ora, o descalabro financeiro e o canto da sereia do milionário de Atenas, com promessas de mundos e infindáveis milhões, levou os adeptos do Rio Ave a aceitarem a formalização de uma SAD e a venda de 80 por cento desse capital a Marinakis.
«Liquidez imediata, reforço do plantel, melhoria das infraestruturas, pagamento de dívidas, redução do passivo, salários em dia…»
Dois anos e uns meses volvidos, o que se vê em campo é uma equipa mal preparada, mal orientada, recheada de atletas de algum talento, mas desnorteados pela circulação no carrossel de Marinakis. De Nottingham para Vila do Conde e daí para Atenas. Uma confusão.
Nas últimas cinco janelas de transferências, 48 jogadores entraram no plantel. Alguns por empréstimo, outros em definitivo, sem que o povo rioavista se sinta minimamente representado.
Algum destes rapazes sabe quem é o capitão Duarte? Quem foi N’Habola no clube? Já ouviram falar de Tarantini, Niquinha, Gama ou Luís Coentrão? O genial Dibo?
Em outubro de 2025, a Assembleia Geral aprovou o «Masterplan» da SAD, cujos pilares principais são a nova Bancada Nascente (a erguer até 2028), sete campos relvados, mais uma estrutura física de apoio ao futebol profissional e a requalificação da área envolvente aos Arcos.
Tudo isso são boas notícias, mas de implementação impossível se os sócios se mantiverem cegos, surdos e mudos. O Rio Ave não suportará uma nova descida de divisão e o afastamento total do homem que prometeu as maravilhas das mil e uma noites em Vila do Conde.
A envergadura da empreitada é colossal, há margem para o benefício da dúvida, mas sem o apoio do povo e um maior acerto nas opções desportivas o sucesso é altamente improvável.

PS: no final do ano, uma brutal onda de despedimentos afetou todos os departamentos do clube, deixando a nu o desinteresse do acionista maioritário pelas pessoas que faziam de elo ligação entre clube e cidade, entre instituição e adeptos. No TEMA DO DIA do zerozero podem ver e ouvir todos os detalhes sobre este Rio Ave desalmado. Preocupante."

Sem comentários:

Enviar um comentário

A opinião de um glorioso indefectível é sempre muito bem vinda.
Junte a sua voz à nossa. Pelo Benfica! Sempre!