"O SC Braga marcou encontro com o Vitória SC na final da Taça da Liga 2025/26, ao bater o Benfica por 3-1, num jogo em que soube agir e reagir e foi sempre a equipa mais equilibrada em campo. Apáticos na 1.ª parte, a entrada forte na 2.ª não foi suficiente para o conjunto de José Mourinho, que perdem pela primeira vez esta época dentro de portas
O futebol, sendo uma manifestação tão humana, apesar da lógica da lei do mais forte ainda imperar, gosta de escrever direito por linhas tortas. A Taça da Liga, sabemos todos, foi criada para ser um veículo essencialmente comercial, aferrado na existência de mais jogos entre os grandes, aqueles que, para o bem e para o mal, continuam a especar mais gente em frente ao televisor e mantêm um qualquer fio de esperança em internacionalizar o produto, levando-o sabe-se lá para onde, num desses desertos futebolísticos que pouco contam a não ser uns cifrões. Cifrões esses que, diga-se, ninguém parece estar disposto a pagar.
É também por tudo isto que dá sempre algum prazer ver o ovo a fugir do rabo da galinha aos cartolas do futebol português, tornando a Taça da Liga aquilo que, por direito próprio, deveria ser desde sempre: uma oportunidade para contar novas histórias no futebol português. Contou-a o Vitória setubalense na primeira edição. Vem contando o SC Braga. Escreveu-a também o Moreirense. E em 2026 há novo conto em estreia, este bem quentinho: um inédito dérbi minhoto, quando toda a gente contava com um dérbi da capital.
Depois do Vitória vimaranense bater o Sporting na primeira das meias-finais, o SC Braga voltou a explanar em campo uma personalidade muito própria nos jogos mais complexos. Venceu o Benfica por 3-1 merecidamente, tendo sido, durante muito tempo, a melhor equipa em campo mas, principalmente, tendo sido sempre a equipa mais equilibrada em Leiria. Muito melhor na 1.ª parte, sabendo reagir na 2.ª e com um Rodrigo Zalazar em noite de antologia, a equipa de Carlos Vicens soube estar à altura do desafio que era estar preparado para seguir para a final frente ao seu inimigo fidagal na região. Seja de forma oficial ou não, sábado será feriado no Minho.
Fora um cruzamento de Dedic e emenda de Pavlidis à qual Hornicek respondeu com um posicionamento exemplar, a 1.ª parte foi um tratado do SC Braga. As longas e pacientes posses de bola, aparentemente inofensivas, tornaram-se rapidamente num variado jogo de ataque que enregelou o Benfica.
O penálti de Otamendi sobre Zalazar, depois revertido por a falta ter acontecido fora da área, era um primeiro indício das diabruras que o uruguaio estava disposto a fazer aos encarnados. Do outro lado, a equipa de Carlos Vicens lia na perfeição o nervoso e previsível esquema atacante do Benfica, intercetando um número admirável de passes e agradecendo aqueles que a equipa de Mourinho falhava por iniciativa própria.
Enquanto o Benfica lutava por encadear lances, o SC Braga ia somando jogadas de perigo, ancorados num ataque apoiado de grande dinâmica. Ainda antes dos 20’, Lagerbielke lançou Zalazar pela direita e o cruzamento rasteiro, com pouca ou nenhuma oposição do já amarelado Otamendi, encontrou primeiro uma má abordagem de Tomás Araújo e depois a receção e remate certeiros de Pau Victor.
À parca reação ao golo do Benfica, o SC Braga foi respondendo com o domínio territorial e emocional do encontro, com raros desequilíbrios. E seria de mais uma perda de bola encarnada no último terço que nasceria o momento mais cintilante do jogo, uma cavalgada indomável de Rodrigo Zalazar pela direita, a arrancar ainda bem antes do meio-campo, vencendo o duelo físico com Sudakov e ultrapassando depois um destemperado Otamendi, a falhar mais uma abordagem, antes de bater Trubin, que ainda escorregou antes de tentar a defesa.
A desorientação era agora o tom dominante do jogo do Benfica. Dahl somava erros, Leandro Barroso faltas e Manu Silva parecia desaparecido em combate - não foi uma surpresa vê-lo sair ao intervalo, dando lugar de Prestianni, já depois de Ricardo Horta ter ficado a escassos centímetros do 3-0.
A entrada do argentino faria bem ao Benfica, que surgiu com renovada energia para a 2.ª parte. Mais agressivo, mais pressionante, mais capaz de segurar a bola. Ainda assim, seria dos bracarenses a primeira oportunidade do segundo tempo, depois de Zalazar, sempre Zalazar, descobrir Pau Victor no poste mais afastado, onde Dedic e Tomás Araújo se desnortearam, deixando o espanhol à vontade para rematar - Trubin estava atento.
O golo do Benfica, que já há muito prometia relançar o encontro, surgiria de penálti, local de tiro de onde Vangelis Pavlidis não falha, ainda com 25 minutos de jogo pela frente, que se previam de grande pressão encarnada. O jogo tornou-se, contudo, mais confuso, partido, não chegando a ser caótico, com o SC Braga quase sempre a parecer a equipa mais lúcida.
Logo após o golo encarnado, Tomás Araújo (noite para esquecer) permitiu a Fran Navarro ganhar-lhe a frente e isolar-se, com o espanhol a falhar depois o remate. O Benfica criava perigo, essencialmente, de longe, com Richard Ríos em evidência, mas mantinha a pouca capacidade de servir Pavlidis, de criar em ataque posicional. Aos 80’, surgiria o golpe de misericórdia para os encarnados, com Lagerbielke, após livre lateral, a emendar após primeira defesa de Trubin.
O Benfica ainda perderia Otamendi, expulso por acumulação de amarelos. Não estará para o clássico com o FC Porto, para a Taça de Portugal, na próxima semana. A entrada de Sidny Lopes Cabral não criou o mesmo efeito do jogo com o Estoril. A lógica do futebol via-se desafiada.
No final, seguiu em frente a equipa que foi mais adulta em campo, sabendo agir e reagir, nunca deixando a narrativa fugir-lhe da mão. E a narrativa será histórica. Sábado, uma região de acirradas rivalidades estará frente a frente numa final. Por um troféu. Que a Taça da Liga continue a servir para contar estas histórias."

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