"E se corre bem? A famosa pergunta que Ruben Amorim devolveu aos jornalistas, no dia em que foi apresentado como treinador do Sporting, nunca fez tanto sentido como agora.
A forma como o português decidiu precipitar a saída do Manchester United, na conferência de imprensa após o empate frente ao Leeds (1-1), esteve longe de ser um ato ligeiro, impensado ou, até, irresponsável. Amorim sabia que, a partir daquele momento, o corte tornava-se inevitável. E, entre a espada e a parede, a escolha foi a espada.
Não foi pelo empate – nem poderia ser – que Ruben Amorim deixou de ser treinador do Manchester United. Há muito tempo que o puzzle estava a ser montado e já só faltava, pois, quem «pegasse» na última peça e o terminasse. Ou Amorim permitia que os poderes ocultos de Old Trafford e Carrington «fechassem o jogo» ou seria ele próprio, como veio a acontecer, a escolher o momento para virar a página.
Um treinador jamais poderá aceitar que sejam executivos, fechados dentro de um gabinete, a decidir de que forma deve jogar a equipa. E quando um diretor-geral, diretor desportivo, diretor técnico – ou o que lhe queiramos chamar – convoca o treinador para o questionar sobre sistemas táticos, o mais provável é ouvir aquilo que não quer, sobretudo se esse treinador tiver a personalidade e a convicção que, todos sabemos, é a raiz da essência de Ruben Amorim.
O erro capital do técnico português foi ter acreditado que seria capaz de impor a sua «lei» e mudar uma história – a mesma – que já tinha trucidado nomes e figuras tão diversas como Van Gaal, José Mourinho ou ten Hag. Serão sempre os resultados a fazer rolar cabeças, mesmo que o desempenho em campo possa ser sabotado pela incompetência de tecnocratas ou mesmo, como diria Frederico Varandas, «paraquedistas».
A alegada inflexibilidade tática nunca poderia ser um argumento sério para questionar Amorim e pedir-lhe uma reflexão sobre as suas opções. O treinador foi contratado, precisamente, para implementar em Old Trafford o ideário futebolístico que o notabilizou. Achar-se, agora, que o problema está no sistema de jogo é a confirmação de que o United está a mudar tudo… para que tudo fique na mesma.
O futebol dos “clubes com donos” é, definitivamente, um lugar diferente – se é que alguém ainda não reparou. Ruben Amorim foi eleito, pela Premier League, o treinador do mês de outubro. E Enzo Maresca foi eleito, um mês depois, o treinador de novembro. Ambos foram despedidos neste início de ano, deixando Manchester United e Chelsea com 31 pontos, no quinto e sexto lugar, a três pontos do campeão Liverpool. Amorim sai em choque com a direção técnica. Maresca sai em conflito com o departamento médico.
É óbvio que os números de Ruben Amorim nos últimos 14 meses são francamente maus: pouco mais de 30 por cento de vitórias. É verdade, também, que a qualidade de jogo esteve longe de ser aceitável. O treinador reconheceu isso mesmo em várias ocasiões, aliás. Mas, independentemente de tudo, e até dos milhões que o clube investiu no último verão, é inaceitável que um diretor se atreva a sugerir ao treinador a forma como a equipa deve apresentar-se em campo.
E é à luz dessa ingerência que a explosiva conferência de imprensa de Amorim passa a fazer sentido. O treinador perde o lugar, mas fica livre e passa a ser um «fantasma» (até em Portugal) a pairar sobre muitas cabeças, sobretudo a partir de maio. E se corre bem?
P.S.: Ruben tem apenas 40 anos. Desde o dia em que nasceu (27 de janeiro de 1985) até hoje, o Sporting conquistou cinco campeonatos nacionais. E três deles têm a sua marca. Não sendo exagerado, aliás, dizer que 2,5 lhe pertencem. Não foi capaz de mudar a história do Manchester United, mas é justo recordar que, em Alvalade, passou a existir um antes e um depois de Amorim."

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