"As águias somaram a quinta derrota na Liga dos Campeões, perdendo (2-0) em Turim. Em noite azarada, o poste travou Aursnes, uma escorregadela num penálti tramou Pavlidis e, agora, só derrotar o Real Madrid permitirá aos encarnados sonhar com a continuidade europeia
Lilian Thuram não é só um campeão do mundo de futebol. É ativista anti-racismo, escritor, pensador, homem de cultura. E, por isso, quis que os nomes dos filhos tivessem um significado especial.
Marcus, avançado do Inter de Milão, deve o seu nome a Marcus Garvey, ativista político jamaicano. Khéphren, médio da Juventus, é assim chamado por causa de um faraó do Egito, monarca da quarta dinastia que governou entre 2472 e 2488 a.C. e construiu a segunda das três pirâmides Gizé.
Talvez a herança de Khéphren tenha convocado, numa noite fria de Turim, quaisquer demónios, unidos contra o Benfica. A fortuna não acompanhou as águias, que saem de Itália em situação limite na Liga dos Campeões.
A bruxaria pareceu mais intensa aos 81'. O Benfica perdia por 2-0, fruto de um golo de Khéphren e outro de McKennie. Reduzir a desvantagem permitiria uma parte final em busca do empate, até porque, do outro lado, estava um conjunto que está longe de ser um poço de tranquilidade.
Pavlidis, penálti, golo. Costuma ser essa a associação, tal a fiabilidade do helénico nos castigos máximos. Mas Khéphren estava em campo para atiçar os diabos de outrora. Uma toupeira abriu um buraco no relvado, Vangelis escorregou, a oportunidade foi desperdiçada, o Benfica perdeu.
O que mais custará aos visitantes é a clara sensação de que, do outro lado, estava um rival ao qual era possível tirar pontos. Sair com zero traduz um serão atribulado, em que tudo o que poderia correr mal saiu pior.
Depois de iniciar a época com Tudor, a Juventus, nestes anos confusos do pós-hegemonia, nestes tempos em que já não preside a uma ditadura na Serie A, apostou pelo sapiência e carisma de Spaletti. Após semanas em que Luciano parecia revitalizar a vecchia signora — encadeou seis triunfos e um empate em sete jogos entre o fim do ano passado e o arranque de 2026 —, a derrota contra o Cagliari reinstalou os alertas em Turim. Ao intervalo, o público manifestou essa desconfiança pela via sonora. Só com os dois golos de rajada o ambiente serenou.
É que, nos primeiros 45 minutos, que foram mesmo 45 porque o árbitro tinha pressa para ir à casa de banho e não deu qualquer compensação, apenas a arte e magia de Yildiz incomodou o Benfica. O turco, mago de 10 nas costas e fantasia nos pés, tentou, por duas vezes, o seu movimento de assinatura, a jogada de marca registada, fletindo da esquerda para o meio. Na primeira situação encontrou-se com boa defesa de Trubin, na segunda atirou ao lado.
De resto, as águias encontraram algum conforto na metade inicial. Com uma circulação segura, capaz de evitar a pressão bianconera, os visitantes não foram um vendaval ofensivo, mas tiveram serenidade na posse.
Sudakov repetiu o fato tático de Vila do Conde, partindo do centro e sendo placa giratória da circulação lisboeta. A melhor situação para o 1-0 dos portuguses deu-se quando Schjelderup fez o que Mourinho imaginará que Aursnes ou Barreiro farão quando são utilizados em posições mais avançadas: pressionou e roubou a bola. Sudakov aproveitou para rematar, negando Di Gregorio o golo com uma boa estirada.
Perante o marasmo no jogo italiano, Spaletti recorreu ao nervo e talento de Francisco Conceição. O arranque da segunda parte confirmou as boas sensações para o Benfica, mas foram os locais quem marcou.
Aos 55', Tomás Araújo, central com um certo apreço pelo risco, saiu da linha defensiva para tentar roubar a bola a Jonathan David. O defesa, que já acumula alguns lances menos felizes na temporada, não conseguiu resolver o lance, destapando o espaço na zona central. Lá estava, claro, Khéphren Thuram, cheirando a oportunidade, sentindo a maldição. Rematou colocado e deixou o Benfica em desvantagem.
Enquanto Mourinho preparava a reação vinda do banco, chegou o 2-0. David voltou a trabalhar, na jogada em que a defesa encarnada pareceu mais permeável em todo o desafio. McKennie isolou-se perante Trubin com anormal facilidade e colocou a missão benfiquista em níveis bem mais complicados.
A entrada de Francisco Conceição teve o efeito desejada. Agitou, criou pânico, gerou perigo. O 3-0 parecia certo quando, após cruzamento do canhoto, Dedic desviou a bola para a sua baliza. Trubin evitou, com ajuda do poste.
Se algum mérito tem de ser dado ao Benfica, é que a equipa nunca se rendeu. Aursnes cabeceou ao ferro. Aos 81', veio o lance que confirmou que os poderes do Egito de há dois mil anos estavam a favor de quem vestia de preto e branco. Pavlidis, vindo de uma nação também ela cheia de lendas antigas, cedeu perante as forças ocultas.
Com cinco derrotas em sete jornadas, a continuidade europeia do Benfica está em sério risco. Para a semana, na louca quarta-feira em que 18 jogos em simultâneo fecharão esta fase de liga, só derrotar o Real Madrid servirá para, depois, fazer contas à presença, ou não, no play-off."

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