Últimas indefectivações

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Os limites (in)visíveis do Dragão


"O Dragão sempre foi território de combate. Mas há uma diferença clara entre transformar um estádio numa fortaleza competitiva e convertê-lo num campo onde tudo vale para fragilizar o adversário. No último clássico, essa fronteira parece ter ficado para trás

Há coisas que escrevemos com a convicção de quem acredita estar a tocar numa verdade quase imutável. No dia 15 de janeiro, nesta mesma coluna, a propósito do clássico entre FC Porto e Benfica para a Taça de Portugal (1-0), sublinhei que, no Estádio do Dragão, não se joga apenas futebol — sobrevive-se para vencer. Que ali cada duelo é físico e mental, cada bola dividida pesa mais do que o mais elaborado dos esquemas táticos desenhados no quadro.
Disse-o certo de que não era uma impressão circunstancial. Era, e é, uma ideia sustentada por décadas de história do nosso futebol: no Dragão, como antes nas Antas, a equipa da casa construiu uma identidade de combate, de resistência, de intensidade levada ao limite. Uma cultura competitiva que moldou gerações e decidiu campeonatos.
Mas o clássico da última segunda-feira, agora com o Sporting no papel de visitante e o campeonato nacional como pano de fundo, obrigou-nos a olhar para lá da metáfora da batalha. Porque há uma linha — invisível, mas inequívoca — que separa o ambiente fervoroso da intimidação organizada, do desportivismo. E dessa vez a linha não foi apenas pisada. Foi largamente ultrapassada.
Não falamos de pressão das bancadas, que faz parte do espetáculo. Nem da mística do estádio, que intimida porque é grande e ruidoso. De acordo com o Sporting, fala-se dos balneários decorados com mensagens e imagens intrusivas, desprovidas de sentido naquele espaço; de percursos alterados que promovem o contacto entre staff visitante e adeptos locais; de climatização alegadamente regulada ao extremo; de tarjas e colunas de som estrategicamente orientadas para amplificar vaias sempre que os adeptos leoninos levantavam as vozes em apoio à sua equipa.
Mas, mais grave, também de apanha-bolas instruídos para esconder esferas de jogo e retirar toalhas ao guarda-redes contrário. Pequenas coisas? Não. Pequenos sinais de algo maior. De uma lógica que já não é apenas competitiva — é antidesportiva.
A força do FC Porto sempre residiu na sua capacidade de transformar o Dragão num reduto quase inexpugnável pela intensidade, pela crença, pela ferocidade competitiva. Quando essa força precisa de recorrer a expedientes que extravasam o relvado, algo não está bem. Porque aí deixamos de falar de resiliência e espírito guerreiro para entrar no domínio dos golpes baixos, da guerrilha psicológica, da intimidação como método. E isso não engrandece ninguém. Nem o espetáculo. Nem o clube. Nem o futebol português.
Os adeptos portistas estão habituados a orgulhar-se de vitórias conquistadas na raça e na qualidade e não se reveem neste tipo de práticas.
O Dragão não precisa de truques para ser temido. A sua história basta-lhe. O futebol é, sim, uma batalha. Mas há batalhas que se vencem pela superioridade. E outras que, mesmo ganhas, deixam demasiadas marcas para poderem ser celebradas."

Sem comentários:

Enviar um comentário

A opinião de um glorioso indefectível é sempre muito bem vinda.
Junte a sua voz à nossa. Pelo Benfica! Sempre!