"Imaginem um atleta que quebra recordes, que se supera a si próprio, que bate a concorrência, mas para ela serve de permanente exemplo. Um atleta que treina e vive para a competição, mas que a encara como uma natural extensão do seu corpo, da sua vontade, da sua capacidade e da sua proverbial mas inata tendência para a excelência. Um atleta que a todos estes atributos de eleição alia simplicidade, um sorriso desconcertante e uma imensa e permanente demonstração de humildade, de respeito pelos companheiros, que apenas circunstancialmente são adversários, de foco e fé no que ainda pode atingir. Um atleta para quem o céu não é o limite, simplesmente porque a permanente quebra de obstáculos, de dificuldades e de barreiras é o seu dia-a-dia, e a ele responde com cada vez mais, melhores e aparentemente mais intransponíveis metas.
Esse atleta existe, é português, é ainda jovem, é uma referência mundial na modalidade que abraçou e continua a espalhar charme competitivo pelas quatro partidas do mundo, onde quer que haja uma piscina, onde quer que possa mergulhar no sonho e torná-lo realidade. É um atleta especial por tudo isto, e pela justíssima luta que continua a travar para que a síndrome de Down tenha, nos Jogos Paralímpicos, o seu óbvio espaço quadrienal de notoriedade e competição ao mais alto nível internacional. Aos 19 anos, Vicente Pereira bate recordes mundiais, ganha grandes competições internacionais, é profundamente respeitado pela concorrência, motiva novos praticantes com a sua resiliência, é focado e quase obstinado pelo combate aos seus próprios limites. Para ele, aliás, não há limites e, para mim, é, de longe, a personalidade desportiva de 2024.
Neste momento de natural balanço, olhando em retrospetiva o que os últimos 12 meses nos trouxeram, poderia falar no final das carreiras de Artur Soares Dias e de Telma Monteiro. Merecidíssimo reconhecimento pelo talento de um dos mais brilhantes árbitros portugueses de futebol da História, e da mais internacional e exemplar judoca nacional. Soares Dias, depois da final da Liga Conferência e de uma notável presença no Euro-2024, deixa o apito em casa e deixa também um legado de qualidade e de esperança para o futuro de um mister de elevada relevância e de muito difícil continuidade. Telma abraça o dirigismo clubístico com muito para passar, de experiência, de motivação, de vontade e de exemplo de superação, tantos e tão significativos foram os momentos em que necessitou de fazer uso desses atributos inolvidáveis ao longo da sua carreira.
Podia falar de Fernando Gomes, que finaliza com o brilhantismo discreto que sempre lhe conhecemos um longo período à frente da Federação Portuguesa de Futebol, deixando legado muito difícil (quase impossível) de igualar, no seu modo de exercer funções, de delegar competências, de agregar conhecimento, de ultrapassar fronteiras e de construir obra.
Também neste texto teria sempre lugar Iúri Leitão, surpreendente (ou talvez não…) medalhado olímpico no ciclismo de pista, vertente tantas vezes olvidada em Portugal e com tanto potencial e talento, resultante da capacidade de sonhar e de aproveitar condições físicas próximas da excelência para atingir resultados notáveis.
E os nomes de Pedro Gonçalves e Kika Nazareth sobem também a primeiro plano, quando nos lembramos de como representaram bem o país além-fronteiras, em contextos distintos e posições diversas. Pedro como selecionador nacional de Angola, devolvendo a paixão pelos Palancas Negras ao povo angolano com o aproveitamento exímio do binómio talento-organização. Kika a confirmar o que lhe havia despistado o ano passado, no Mundial feminino da Nova Zelândia: uma tendência inata para o sucesso, para uma grande carreira internacional que, em 2024, viria a iniciar no Barcelona.
Olhando para o ano que passou, igualmente faria sentido escrever sobre a extraordinária seleção de Espanha, campeã europeia de futebol e, sobretudo, sobre Luis de La Fuente, o seu treinador, olhado de soslaio por tantos e a mostrar como, de um grupo de talentosos jogadores, se constrói uma verdadeira equipa.
Ou sobre o Real Madrid campeão de Espanha e a conquistar a Europa, porque Carlo Ancelotti sempre acreditou e fez de um balneário de vedetas um conjunto de gente competitiva e sedenta de conquistas no país e no mundo. Podia, de facto, falar e escrever sobre todos estes talentosos agentes do desporto nacional e internacional, e de muitos outros que, num ou noutro momento, marcaram de modo incontornável a história desportiva deste ano.
Mas nenhum ou nenhuma chegam onde Vicente Pereira chegou, chega e vai chegar. Ele estará sempre na primeira linha do pensamento e da ação, e servirá sempre de exemplo maior para jovens e menos jovens. O exemplo de que nada será obstáculo enquanto acreditarmos nas nossas capacidades, nas nossas virtudes e na nossa abnegação. O exemplo que ultrapassa as fronteiras do país, os limites do desporto e as barreiras físicas e da física. O exemplo que nos faz acreditar — sim, a cada um de nós, todos os dias das nossas vidas — que chegaremos sempre onde quisermos, bem para lá das minudências que tantas vezes nos toldam o pensamento e da espuma que marca os nossos dias.
Por isso, o Vicente Pereira é, obviamente, a personalidade desportiva de 2024. E promete ainda mais para 2025.
Cartão branco
Aos mais jovens talvez escape a grande equipa do Nottingham Forest em 1978 e 1979, bi-campeã europeia. Mas é sobre a dourada história dos Garibaldi que Nuno Espírito Santo está a construir uma temporada de sonho. Há 29 anos que o Forest não vencia quatro encontros seguidos na muito exigente Premier League. A consistência, a regularidade exibicional e o lançamento de excelentes jogadores garantem ao treinador português (nascido em São Tomé e Príncipe) um lastro extraordinário e uma surpreendente candidatura às provas da UEFA da próxima temporada. Aconteça o que acontecer, Nuno já está, também, na História do clube do City Ground.
Cartão amarelo
Frederico Varandas tem tido sorte. A escolha de Ruben Amorim para treinar o Sporting foi, há quatro anos, o momento mais alto da sua liderança em Alcochete e Alvalade. Se é certo que, do ponto de vista gestionário, os leões conhecem agora caminhos muito mais seguros e organizados, não é menos verdade que a mola seria sempre a carreira da equipa profissional de futebol. Dois títulos e uma auréola muito positiva deixada por Amorim era a pior herança possível para o ainda inexperiente João Pereira. Varandas, pela ditadura dos resultados, viu-se obrigado a mudar de rumo. Internamente, há quem certamente não ache muita graça às oscilações presidenciais…"
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