"Numa grande exibição, as águias bateram (4-2) o Real e mantiveram-se vivos na Europa. Aos 90+8', Trubin — sim, o guarda-redes — subiu à área adversária e levou a equipa de Mourinho para uma eliminatória onde defrontará o Real (sim, de novo) ou o Inter
Caos, chuva, golos, enganos, emoção, toda a gente a olhar para os telefones para entender uma tabela gigantesca, com 36 equipas. E, lá no alto, Trubin.
Na baliza de Sergio Ramos, Trubin. Também nos descontos, como Ramos em 2014 para o Real, mas para o Benfica. Fechou uma noite épica, encerrou minutos de glória para o futebol nacional, porque o Sporting também ganhou e até ajudou os vizinhos.
футбол, чорт забирай. Diz um tradutor que é assim que se escreve o famoso "football, blody hell" de Ferguson. Futebol. Futebol feito loucura com 18 encontros ao mesmo tempo, 17 deles já terminado, e tudo confluindo para a Luz.
Faltava um golo ao Benfica. Todos os restantes desafios já haviam concluído e, após largos minutos de contas confusas, agora a matemática era simples. Durante alguns instantes, a mensagem não terá passado. Minutos antes do seu momento épico, Trubin perdeu tempo, talvez convencido que o 3-2 bastava. Rui Costa quase teve um ataque de nervos.
Mas a mensagem lá passou. Um último livre. O Real, com nove pelas expulsões de Asencio e Rodrygo, com pouca gente para defender, se bem que isso não diferiu muito do que se viu durante a maior parte da partida. Cruzamento de Aursnes, Trubin na área, golo.
No delírio, José Mourinho recriou festejos icónicos, num misto entre a correria de Old Trafford, em 2004, e os braços abertos para o Camp Nou, em 2010. Celebrou agarrado a um apanha-bolas. Mais no limite não poderia ser. O Benfica está no play-off, onde defrontará o Inter... ou o Real Madrid. Sexta-feira há sorteio.
Entre a tempestade, de chuva e emoções, os reencontros. Foi dia de saudar o passado na Luz: Mourinho com Arbeloa, ou Mourinhismo contra Mourinhismo; o Benfica contra o Real, o adversário que derrotou na final de 1962; os merengues no estádio da décima, o campo sagrado de 2014; Carreras diante do emblema que o vendeu num negócio milionário no derradeiro verão.
Apesar dos velhos conhecidos, havia espaço para a relativa novidade. A multiplicação dos jogos nas competições europeias tem levado à repetição constante de alguns embates e à visita permanente de certas equipas. O Atlético, a Juve, o Liverpool ou o Arsenal tornaram-se visita comum aos relvados nacionais. Mas não o rei da Champions, que nos últimos 20 anos apenas realizou a terceira presença em território português. Ter em frente o Real Madrid, até por ser incomum, é como medir forças com a própria história desta competição, é como tentar tirar uma das orelhas grandes desta taça. E elas foram arrancadas.
Se a noite chegou a ser de dilúvio, o Benfica vestiu o fato épico. Entrou com energia e agressividade, roubando com contundência e atacando com velocidade, marcando um claro contraste com a postura muitas vezes sobranceira dos blancos. De cada vez que Mbappé não pressionava ou Vinícius não defendia, abriam-se clareiras que as águias, cheias de intenção, aproveitavam.
Mourinho passou a antevisão a falar de eficácia, quase que antevendo o guião dos primeiros 35'. Uns a criar, com Tomás Araújo, Pavlidis, Aursnes ou Prestianni sem êxito, e outros a marcar. Onde o Benfica falhava, Mbappé acertou, aproveitando a passividade de Dedic. Pegando na métrica que Mou popularizou. Toques na bola na área adversária: Benfica 18-6 Real. Golos. Benfica 0-1 Real.
Não obstante, a desvantagem não abalou os encarnados. A chuva condizia com a vestimenta de guerra do Benfica e contrastava com uns merengues demasiado passivos. No enésimo ataque rápido pela direita, Pavlidis encontrou a cabeça de Schjelderup para o empate.
Durante largas semanas, Mourinho viciou-se em preencher o onze de médios, ignorando a existência de Schjelderup e Prestianni, como se o seu plantel não tivesse atacantes. Subitamente, o norueguês e o argentino são opção e, voilá, eis uma equipa com armas para ferir o adversário.
A chuva do desperdício manteve-se. Dedic, Schjelderup e Barreiro, estes dois de baliza praticamente aberta, deixaram José Mourinho de braços abertos, queixando-se aos céus cinzentos de Lisboa de uma qualquer conspiração contra si. No entanto, o intervalo chegaria com o merecido 2-1.
Otamendi ganhou um penálti e Pavlidis não falhou. Ao intervalo, na confusão da tabela dos 36, eram precisas ajudas alheias e, idealmente, mais um golo a favor dos portugueses.
Schjelderup passou boa parte de novembro, dezembro e o começo de janeiro sem sequer entrar nos desafios do Benfica. Falava-se em saída, Mourinho queixava-se da falta de golo dos seus atacantes. Perante o maior dos gigantes, o norueguês teve a sua melhor noite de encarnado. Aos 54’, após o Benfica ativar o contra-ataque, a bola chegou a Andreas, que fez o que o seu treinador tanto pede: puxar para dentro, remate, golo.
No frenesim de um serão de emoções fortes, os espanhóis tardaram quatro minutos a responder. Güler trabalhou, Mbappé bisou, mais um pouco da história do fenómeno francês ligada a Portugal, país que parece entrelaçado na vida de Kylian.
O resto do jogo foi passado com um olho no relvado e outro nos telefones. O Benfica foi saltando entre um lugar nos 24 primeiros e uma posição que dava eliminação. Sair da Europa significava quase sair da época em janeiro.
Não houve golos até ao descontos, só o descontrolo do Real Madrid, que perdeu Asencio e Rodrygo por vermelhos. O Benfica tardou em aperceber-se que necessitava de um golo, mas o atraso contribuiu para o drama. O cabeceamento de Trubin já é parte da gloriosa história internacional do clube bicampeão europeu."

Sem comentários:
Enviar um comentário
A opinião de um glorioso indefectível é sempre muito bem vinda.
Junte a sua voz à nossa. Pelo Benfica! Sempre!