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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Socorros no dérbi de 1960


"O JOGO ENTRE BENFICA E SPORTING DE 10 DE ABRIL DE 1960 DÁ O RETRATO DAS PRINCIPAIS INDISPOSIÇÕES SOFRIDAS PELOS ASSISTENTES

Benfica e Sporting, no frente a frente da 24.ª jornada do Campeonato Nacional de 1959/60, foi o jogo do ano antes de começar. Um dérbi entre os dois maiores rivais de Lisboa e a grandeza dos “protagonistas e das interrogações que suscitava” justificavam-no. O 4-3 para o Benfica teve consequências a longo prazo, com o Clube a conquistar o título, um mês depois, e a ter acesso direto à Taça dos Clubes Campeões Europeus de 1960/61.
A enchente era esperada. Com 45 mil bilhetes vendidos, o mercado negro borbulhava apesar dos esforços da PSP, e mesmo com preços inflacionados os bilhetes vendiam-se. Milhares de adeptos acorreram, da província e do Golfo da Guiné. O Estádio da Luz foi um conclave do sentimento desportivo e clubístico. Com o 3.º anel em construção, sorria ao soalheiro domingo primaveril e ao primeiro adepto a chegar, vindo de Castelo Branco, às sete da manhã, nove horas antes do início da partida.
Às 10 da manhã, vislumbrava- -se um “formigueiro humano” nas ruas e azinhagas em torno do Estádio. O serviço de bar duplicou o stock e aumentou para 420 o número de vendedores, mais 80 que o habitual.
A equipa de râguebi apresentou- -se antes do jogo na condição de campeã nacional, título conquistado de manhã. Entre os milhares de aplausos, ouviu pedidos para que ficassem, que “ainda vão ser precisos” em campo. A dimensão deste jogo transcendia o próprio campo, com o nervosismo a tornar pequeninos os corações dos que assistiam. E com 50 mil pessoas reunidas, a probabilidade de ocorrências aumentava.
As duas equipas de Bombeiros Voluntários, os Lisbonenses e os de Lisboa, não tiveram mãos a medir: um senhor, ao acender um cigarro, incendiou a caixa de fósforos que lhe queimou um dedo; dois desmaios por insolação; uma senhora entalou um dedo na porta do automóvel e um senhor numa cancela; uma senhora desmaiou por se perder no meio da multidão e outra feriu-se ao cair.
Uma senhora perdeu os sentidos à saída, devido ao natural aperto da multidão, e o caso doloroso da morte do antigo guarda-redes do Benfica, Pedro da Conceição, que se sentiu indisposto nos primeiros minutos da partida e, mesmo com intervenção do médico encarnado, José Pinho, acabou por falecer “vítima de comoção”. Pelo menos outras duas pessoas desmaiaram pelo excesso de emoção.
Às forças de socorro presentes no Estádio não se pouparam louvores pelo auxílio prestado, a todo o instante, sem momentos de repouso, acorrendo pelos apelos do público, dos altifalantes ou das autoridades presentes.
Outros jogos impactantes da história do Benfica estão disponíveis para visualização na área 4 – Momentos Únicos, do Museu Benfica – Cosme Damião."

Pedro S. Amorim, in O Benfica

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