"Entre a chuva, no meio do caos, por entre a desordem, uma figura andava entre o relvado e o túnel, diplomaticamente procurando convencer companheiros e dialogar com adversários. Era Sadio Mané, o mais lúcido em Rabat. Ao contrário da maior parte dos seus colegas, a estrela senegalesa recusava-se a abandonar a final, provavelmente porque rapidamente percebeu que não voltar ao jogo significaria uma sanção e adeus ao Mundial 2026.
Foi, possivelmente, o desfecho mais surreal de uma final de um grande torneio continental de que há memória. No começo do período de descontos do Marrocos-Senegal, a seleção visitante viu um golo ser anulado por alegada falta sobre Hakimi. Foi uma decisão, no mínimo, controversa, que tomada a favor dos anfitriões contribuiu para adensar a ideia de conspiração que os senegaleses já pudessem ter.
Minutos depois, na outra área, foi marcado um penálti em nova ação soft. A indignação do Senegal subiu a nível inimagináveis. Somar o golo anulado àquele penálti e juntar tudo aos protestos das horas anteriores — queixas sobre a segurança da seleção, por só terem sido atribuídos aos visitantes 2.800 dos 69.500 lugares do estádio, por alegada espionagem dos marroquinos aos treinos senegaleses — fez um clique no botão do que achavam inaceitável.
Numa atitude que, provavelmente, será castigada pela FIFA, Pape Thiaw, o selecionador, mandou a sua equipa sair do campo. A confusão reinava, com boa parte da equipa do Senegal a rumar aos balneários, enquanto os adeptos se envolviam em confrontos com a polícia marroquina.
No centro de tudo, Sadio Mané. Ponderado, tranquilo mas decidido, nunca abandonou completamente o campo. Chamou os seus companheiros à razão e eles lá regressaram ao terreno de jogo.
Fim da trama? Não. Na sequência dos 15 minutos de interrupção, passados 24 minutos dos 90, Brahim Díaz, o novo herói marroquino, tinha um penálti para marcar. Máximo goleador do torneio, coqueluche de um país que aspira a nova potência do jogo, tinha um remate nos pés para terminar com os 50 anos de espera da sua seleção desde que, em 1976, erguera a última CAN.
Beijo na bola, remate. Foi à Panenka. Para as mãos de Mendy, que não se mexeu. Se fosse guião de filme, os responsáveis seriam despedidos por escreverem algo demasiado irrealista.
Para completar, um golo que pareceu vindo dos filmes sobre futebol. Uma correria pelo centro do campo. Um remate de longe, violento, bruto, colocado, mais chicotada do que pontapé na bola. Pape Gueye deu o título ao Senegal e juntou-se a Ghiggia, Charisteas e Éder na lista de protagonistas de Maracanazos.
Marrocos olhava para esta CAN como a grande oportunidade de confirmar o seu salto desportivo e institucional. Após tornar-se a primeira seleção africana a chegar às meias-finais de um Mundial, juntando-lhe os triunfos no Mundial sub-20 ou Taça Árabe, ser campeã africana era a perfeita demonstração de poderio dentro do campo.
Fora dele, e com um olho em 2030, havia estádios novos para mostrar, infraestruturas para testar, argumentos para esgrimir. Recorde-se que 2030 não se trata de uma mera cooperação entre Portugal, Espanha e Marrocos, há também competição para ver quem fica com que jogos. E, aí, Marrocos aposta fortíssimo.
Houve sinais positivos. Apesar da chuva, os relvados aguentaram-se muito bem. Quem esteve no país destacou a qualidade do transporte por comboio.
Mas tudo se esfumou ontem. Dos desacatos entre adeptos senegaleses e polícia à atitude dos jornalistas marroquinos, que, já depois de se envolverem em confrontos com camaradas do Senegal, assobiaram o selecionador senegalês e não deram condições para que este falasse na conferência de imprensa, culminando nos bizarros roubos da toalha que Mendy, guardião adversário, usava para se limpar, o caos de Rabat deitou por terra o crédito institucional que Marrocos vinha acumulando.
Concluiu-se, assim, da forma mais inesperada um torneio altamente previsível. Os favoritos foram avançando, as estrelas foram-se impondo, com grandes atuações de Brahim, Osimhen, Salah, Lookman, Amad Diallo ou Bono. Moçambique, com a primeira vitória de sempre, e o Sudão, chegando aos oitavos de final representando um país que vive um inferno, deram o toque de novidade a uma prova em que a lógica se impôs até ao surrealismo final.
Foi a CAN do treinador africano, reforçando a tendência recente no continente, mas também da força da diáspora, ou não tivessem cerca de um terço dos jogadores que participaram nascido fora do continente, como notou Simon Kuper. Só na grande Paris, o maior berço de talento do futebol mundial, nasceram 45 participantes na CAN, além de, por exemplo, Regragui, selecionador de Marrocos.
Não é por acaso que, em 2009, a Argélia liderou uma moção junto da FIFA para permitir que houvesse trocas de nacionalidade depois dos 21 anos. Também não foi inocentemente que, em 2020, Marrocos fez força para que quem tivesse um máximo de três internacionalizações por um país pudesse trocar de seleção.
Mas olhar para o panorama africano como um embate entre diásporas é um erro. Há também a força crescente das academias, sobretudo em Marrocos, com a Mohammed VI a produzir gente como Youssef En-Nesyiri ou Nayef Aguerd, ou no Senegal, com a Génération Foot, cantera onde cresceram referências como Sadio Mané. O Egito consegue manter-se forte apesar de quase não ter jogadores a atual na Europa e de ser a única seleção sem qualquer futebolistas nascido no estrangeiro.
Foi a última CAN de Mané, que sai como bicampeão. Após o encontro, explicou que era importante dar “uma boa imagem do futebol africano” e que teria sido “de loucos abandonar o relvado por causa de um penálti”. “Preferia perder a final do que dar esse exemplo sobre o nosso futebol”, disse.
Foi o 15.º título de quem já ergueu também a Liga dos Campeões, a Bundesliga ou a Premier League. Ainda que os grandes troféus de Sadio Mané estejam mesmo em Bambali, a sua terra natal, onde já construiu escolas, hospitais, postos de combustível ou dos correios.
O que se passou
Aí está o Open da Austrália, já com Jaime Faria a brilhar, ao furar a qualificação e atingir a segunda ronda, onde também está Nuno Borges. Leia a antevisão da Lídia Paralta Gomes aqui.
Arrancando a segunda volta na mesma toada da primeira, o FC Porto ganhou em Guimarães. O Benfica convenceu em Vila do Conde. Já o Sporting triunfou no dérbi diante do Casa Pia, em dia de retorno de Daniel Bragança aos relvados da equipa principal e aos golos.
Antes do regresso da I Liga, no clássico dos quartos de final da Taça, o FC Porto eliminou o Benfica. Para as águias, ganhar um troféu com José Mourinho esta época assemelha-se a um sonho distante.
Haverá uma equipa de fora da I Liga no Jamor. Será o Fafe ou o Torreense.
O Diogo Pombo faz as contas às consequências do sucesso do Gil Vicente. Depois de Pablo, agora a equipa treinada por Peixoto vendeu Andrew.
João Cancelo está de volta ao Barcelona. De Madrid saiu Xabi Alonso, pouco depois de chegar como um príncipe prometido, como escreve a Lídia Paralta Gomes. O United, com Carrick, venceu o dérbi com o City.
Ghiggia, Charisteas, Éder, Gueye
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