"Quando o mister José Peseiro me ligou a convidar para o acompanhar como treinador adjunto principal da Seleção da Nigéria, pedi-lhe um dia para pensar. Não por hesitação, mas por respeito. Nessa altura, tinha acabado de fazer subir a União de Santarém à 3.ª Liga (curiosamente o ultimo a te-lo conseguido foi precisamente o José Peseiro a mais de 30 anos), estava focado no meu caminho como treinador principal e totalmente comprometido com esse projeto. Ainda assim, do outro lado estava um desafio raro: integrar uma seleção icónica, num contexto de exigência máxima, ao lado de um treinador que cresci a respeitar e a admirar.
No dia seguinte, liguei-lhe de volta e fiz-lhe apenas uma pergunta:
Qual é o seu objetivo pessoal?
A resposta foi direta e sem rodeios: fazer história na Nigéria e vencer a CAN.
A partir desse momento, não houve mais dúvidas. Se o objetivo era vencer, eu estava dentro. Sempre gostei de desafios amplos, de contextos exigentes e de missões onde o risco é proporcional à ambição. Assim começou a minha experiência como selecionador adjunto da Nigéria.
A CAN revelou-se uma competição dura, intensa e profundamente formadora. Trabalhar com jogadores de elite mundial, muitos deles com histórias de vida marcadas pela superação, confirmou-me que o futebol de seleções é tanto humano quanto tático. O nosso maior desafio não foi apenas o modelo de jogo, mas a construção de um ambiente de confiança, responsabilidade e exigência emocional constante. O tempo é curto, os jogos acumulam-se e o erro não perdoa.
A competição é implacável. Não há jogos fáceis. Mesmo seleções teoricamente menos favoritas competem com orgulho, intensidade e coragem. Isso obriga-nos a estar sempre preparados para o imprevisto, atentos ao detalhe e conscientes de que o contexto influencia tudo.
A Costa do Marfim foi o maior exemplo dessa realidade. Esteve praticamente fora da competição, mudou de treinador, redefiniu responsabilidades e transformou instabilidade em força. Jogar em casa trouxe pressão extrema, mas também uma energia coletiva difícil de travar. Souberam crescer, adaptar-se emocionalmente e chegar à final com crença.
No fim, após a final, tomámos a decisão de sair. Trabalho feito. Missão cumprida.
Deixámos um legado competitivo, humano e estrutural.
Saí melhor treinador, melhor líder de contextos e com a certeza de que algumas experiências não se medem apenas em resultados — medem-se no impacto que deixam.
A Final (decisão e justiça do jogo)
A final da CAN terminou com a vitória do Senegal, num jogo que ficará marcado pela tensão, pelas decisões difíceis e por um equilíbrio extremo até ao último instante. O resultado sorriu ao Senegal, mas a verdade é que a vitória também não seria injusta se tivesse caído para Marrocos.
O jogo foi intenso e emocionalmente pesado. Aos 90 minutos, o Senegal chegou ao golo, invalidado por uma decisão muito discutível da arbitragem. No lance seguinte, um penálti assinalado a favor de Marrocos elevou ainda mais a carga emocional da final. Perante essa sequência, os jogadores senegaleses chegaram a abandonar o relvado, num gesto de frustração rara a este nível competitivo. O jogo só foi retomado após a intervenção do capitão Sadio Mané, que teve o discernimento de colocar o jogo acima da emoção — um ato de verdadeira liderança.
Na grande penalidade, Brahim Díaz assumiu a responsabilidade e falhou, mantendo o jogo em aberto. Do lado marroquino, Yassine Bounou voltou a ser decisivo, sustentando a equipa em vários momentos críticos. O golo chegou de um momento de intensidade e crer de Gueyen expressando a característica da final.
O Senegal acabou por vencer, mas Marrocos competiu até ao limite. Foi uma final onde o detalhe decidiu, e onde ambas as seleções saem valorizadas. Porque há jogos em que o vencedor é claro… e outros em que o futebol reconhece mérito dos dois lados.
Jogadores de destaque da CAN
Nesta CAN, os jogadores de destaque definiram-se menos pelos números e mais pela capacidade de assumir responsabilidade nos momentos críticos, quando o jogo deixou de ser apenas futebol.
Por Marrocos, dois nomes simbolizam essa realidade. Yassine Bounou foi determinante pela frieza e fiabilidade nos momentos-limite. Em jogos de margem mínima, o guarda-redes torna-se determinante, e Bono confirmou-o com intervenções que sustentaram a equipa quando a pressão foi máxima. Ao seu lado, Brahim Díaz representou a ambição ofensiva: qualidade entre linhas, coragem para assumir e vontade de decidir. Porém, arriscou em excesso ao optar por uma panenka desplicente. É verdade que só falha quem tem coragem de assumir, mas também é verdade que nem todo o risco é virtuoso. Nesse momento, fez-se justiça ao jogo.
Na Nigéria, Akor Adams deu profundidade e presença física ao ataque, condicionando centrais e permitindo à equipa jogar mais alto mesmo em jogos fechados.
Pelo Senegal, Idrissa Gueye marcou um grande golo, daqueles que mudam o estado emocional do jogo. E o gesto de liderança de Sadio Mané, ao chamar os colegas de volta ao campo num momento de tensão extrema, colocou o jogo acima da emoção — exemplo raro de discernimento competitivo.
No Egito, Omar Marmoush assumiu protagonismo ofensivo, velocidade e responsabilidade quando a equipa mais precisou.
Esta CAN confirmou uma verdade simples: talento decide jogos; discernimento decide competições.
Leitura estatística da competição
Os dados desta CAN confirmam um torneio marcado pelo equilíbrio extremo. Cerca de 62% dos jogos a eliminar foram decididos por um golo ou menos, e aproximadamente 27% terminaram em prolongamento ou grandes penalidades, o que evidencia a reduzida margem de erro.
As seleções que atingiram as meias-finais sofreram, em média, menos de 1 golo por jogo, sublinhando a importância da solidez defensiva. Em contraste, várias equipas vencedoras apresentaram posses médias inferiores a 50%, reforçando que a eficácia e a decisão nos momentos-chave foram mais determinantes do que o domínio territorial.
Mais de 40% dos golos surgiram em transições ofensivas, muitas delas com menos de 6 passes até à finalização, confirmando a relevância da velocidade de execução e da leitura do espaço. Outro dado significativo prende-se com a estabilidade: as equipas com menor rotatividade no onze inicial tiveram melhor rendimento nas fases decisivas e cometeram menos erros não forçados.
Em síntese, os números validam o que o campo mostrou: na AFCON, o detalhe decide, mas só a favor de quem consegue sustentar rendimento físico, clareza emocional e rigor competitivo ao longo de todo o torneio."

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