"Nos meus últimos artigos, abordei os desafios e oportunidades que se colocavam aos esports, desde a sua crescente profissionalização à necessidade de um enquadramento legal claro. Uma das questões que levantei foi a da realização dos Jogos Olímpicos de Esports em 2025, que, como previ, acabou por ser adiada para 2027. Confirmou-se também, com o anúncio da atribuição da operacionalização da edição inaugural do Jogos Olímpicos de Esports à empresa Saudi "Esports World Cup Foundation", uma centralização que me parece bastante dúbia e pouco transparente dos principais focos decisores na Arábia Saudita. Não foram revelados quaisquer concursos públicos para escolha de parceiros para este evento, não se sabe de quaisquer lista de requisitos para operacionalizar um evento desta envergadura, nada. Simplesmente diz-se que "é este o parceiro e já está". Creio que começa a ser por demais evidente que a defesa dos valores desportivos, dos atletas, das comunidades e dos espectadores não é a primeira prioridade neste momento. Atenção que nada contra a empresa em questão, que é efectivamente uma empresa de referência no sector, e até é liderada por uma pessoa com quem tenho excelentes relações e com quem falo frequentemente. Mas todo o processo parece-me muito pouco transparente, e não vejo qualquer necessidade de o ser.
Esta decisão de adiar a primeira edição dos Jogos Olímpicos de Esports, embora possa ter desapontado alguns, abre, no entanto e na minha perspectiva, um leque de oportunidades para Portugal. Porquê, pergunta o leitor? Bom, primeiro de tudo porque ganhamos tempo para consolidar o reconhecimento dos esports como modalidade desportiva no nosso país e para criar as estruturas necessárias junto do Comité Olímpico de Portugal e de outras federações desportivas. Este período adicional permite-nos preparar os nossos atletas da melhor forma e garantir uma participação de sucesso, forte e digna nos Jogos Olímpicos de Esports. Tão forte e digna quanto a nossa última participação no Mundial de Esports, em que conseguimos uma medalha de prata e outra de bronze, espero.
Enquadramento legal e colaboração entre federações: o caminho para o sucesso,
Acredito que é crucial definir um enquadramento jurídico e fiscal claro para os esports em Portugal, como venho dizendo desde 2019. Sou da opinião que este enquadramento deve prever que as modalidades competitivas baseadas em jogos de simulação desportiva fiquem sob a alçada das federações desportivas da modalidade que simulam, e, seguindo a mesma lógica, todas as competições baseadas em jogos tradicionais de esports que não são simuladores desportivos (como são exemplos o CS2, LOL, Valorant, Rocket League, Fortnite, etc.) devem ficar sob a alçada da Federação Portuguesa de Desportos Electrónicos.
Quer isto dizer que, por exemplo, os simuladores de futebol (como o EA FC ou o eFootball) ficariam sob a alçada da Federação Portuguesa de Futebol, enquanto os simuladores de basquetebol (como o NBA2K) ficariam sob a alçada da Federação Portuguesa de Basquetebol. O mesmo princípio se aplicaria a outras modalidades, como o Sim Racing (sob a alçada da FPAK) ou o Xadrez (sob a alçada da FPX), entre muitas outras. E todas as restantes modalidades de "não-simulação" (a falta de melhor nome), sob a alçada da Federação Portuguesa de Desportos Electrónicos.
No entanto, parece-me também fundamental que haja sempre uma colaboração estreita entre as Federações que titulem os jogos de simulações desportivas (FPF, FPB, FPAK, FPX, etc.) e a Federação Portuguesa de Desportos Eletrónicos (FPDE), que possui o expertise necessário na área das competições de videojogos. Esta colaboração já é uma realidade em diversos países, como a maioria dos países asiáticos e muitos na Europa (com a Suécia como modelo a seguir) e tem-se revelado um modelo de sucesso.
Portugal na liderança europeia: uma oportunidade histórica
Falando da Europa, acredito veementemente que Portugal tem todas as condições para assumir um papel de liderança na discussão sobre uma posição unificada a nível europeu sobre os esports. O nosso país pode ser um motor desta conversa, aproveitando o potencial dos esports para atrair investimento estrangeiro, criar novos postos de trabalho e impulsionar a realização de eventos desportivos de larga escala, assim como o turismo desportivo.
É urgente que a Europa defenda os seus interesses neste sector, protegendo os ecossistemas nacionais, os clubes, os árbitros, os treinadores e, sobretudo, os atletas, que se encontram numa situação de precariedade em grande parte do continente. Não existe uma regulamentação clara sobre o que se pode e não se pode fazer que não beneficia ninguém, nem mesmo os Publishers dos próprios jogos. A maioria dos clubes e atletas em toda a Europa estão ligados por pseudo-contratos precários e que roçam a ilegalidade em quase todos os países, e esta situação não beneficia ninguém. Dos Treinadores e Árbitros nem falar… São filhos de um deus ainda menor…
Ao longo da história, Portugal e a Europa sempre estiveram na vanguarda da descoberta, da inovação e das boas práticas. Temos, na Europa, os melhores atletas do mundo na maioria das modalidades de desportos eletrónicos.
Acredito que Portugal tem todas as condições para ser um dos líderes na regulamentação e no desenvolvimento dos esports na Europa. E com este adiamento dos Jogos Olímpicos de Esports para 2027, Portugal ganha tempo para se preparar e afirmar a sua posição no cenário internacional. Vamos a isso, Portugal?"
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