"Pertencer a uma comunidade, de verdade e não irrelevantemente, é um delicado e constante exercício de cidadania, que não se herda nem se ensina. É verdade que os que têm a sorte de vir ao mundo no 'lado A' da vida já vão encaminhados à nascença e poderiam focar-se mais na comunidade e um pouco menos em si próprios. É verdade, mas não é garantia, ou não houvesse tanto egoísmo e falta de empatia espalhados por todas as camadas das sociedades ditas desenvolvidas. De igual forma, não é condição de quem nasce humilde, ou mesmo em exclusão, vir apenas a lutar cegamente pelo pão de cada dia sem olhar a meios nem cumprir escrúpulos. Nisto, creio, estamos todos de acordo, porque é o que vemos acontecer no dia a dia.
Então, se assim é, o que faz as pessoas atentarem umas nas outras e, se necessário, proverem as suas necessidades? De onde nos vem este sentido de respeito pelo espaço do outro, de regra e de solidariedade? A resposta é tão complexa como a quisermos fazer e detalhar, mas, na sua versão mais simples, poderíamos dizer que somos de uma espécie gregária e que, portanto, sabemos profundamente no nosso ser que não existimos uns sem os outros e que cada indivíduo, por si só, não tem garantido qualquer sucesso na competição com outras comunidades e espécies que caracteriza a vida no nosso planeta.
Precisamos de comunidades fortes e coesas para sobreviver, mas também para desenvolvimento todo o nosso potencial enquanto pessoas, ascender e legitimar lideranças ou trabalhar em equipa e alcançar objetivos comuns que doutro modo seriam inatingíveis. Para isso, dia a dia, rua a rua, precisamos de construir pontes e ligações entre todos, em total interdependências, sem exclusões ou fronteiras sociais.
Haverá melhor para isso que entrar pelos bairros da cidade, usar a magia do futebol para convocar e capacitar os jovens e ativá-los para serem capazes de pensar e agir por si próprios em beneficio das suas comunidades?"
Jorge Miranda, in O Benfica
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