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quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Já borbulhava o ovo da serpente

"Primeiro atleta do Benfica a disputar uma maratona olímpica, Manuel Dias esteve em Berlim, em 1936, nos Jogos que Hitler declarou abertos erguendo o braço na infame saudação nazi. E chegou a andar no comando da prova.

Um espanto! A tocha olímpica viera de Atenas. A pé! De Atenas até Berlim. Adolf Hitler declarava abertos os Jogos Olímpicos de 1936. O grande canalha fizera a saudação nazi, e, precisamente às 17h30, o portador do facho entrou no estádio monumental.
Havia por entre o público gente incrédula.
E comentava-se a forma como os representantes ingleses tinham passado pela tribuna de honra agitando chapéus de palha, evitando o gesto infame.
Portugal vinha entre a Polónia e a Roménia. 31 atletas, comandados pelo esgrimista João Sasseti. Entre eles, Manuel Dias, do Benfica,  homem da maratona.
É dele que quero falar.
O presidente do Comité Organizador, o dr. Lewald, estava orgulhoso: 'Este portador da chama olímpica é o último de mais de três mil jovens de sete nações que, na maior corrida de estafetas que o mundo já viu, percorreram milhares de quilómetros desde o altar do templo de Zeus, em Olímpia, através de toda a Helada, da Bulgária, da Jugoslávia, da Hungria, da Áustria, da Checoslováquia e da Alemanha, por montanhas e ravinas, por entradas duras e negras, por vezes poeirentas ou alagadas pelas chuvas, e ligaram com o espiritual laço de fogo o santuário grego fundado há quase quatro mil anos e a nossa pátria alemã'.
Ah! Mal sabia a Europa o que o esperava.
Não faltaria muito para que esse percurso se pudesse fazer por inteiro nas fronteiras do III Reich, aquele que fora erguido para durar mil anos.
Não. Não durou!

Na frente enquanto pôde!
No dia 9 de Agosto, às três horas da tarde, cinquenta e seis homens, assim por extenso, partiram para a prova mais violenta dos Jogos: a maratona. Ainda estava muito longe a hora de as mulheres poderem imitá-los.
No Estádio Olímpico, havia 100 mil pessoas à espera dois heróis.
Manuel Dias lançou-se para a frente com uma vontade férrea.
'O grande campeão argentino, Zabala, tomou a dianteira destacando-se dos outros. Só Manuel Dias, pletórico de energia, conseguiu suportar um andamento tão rápido e, aos cinco quilómetros, encontrava-se em segundo lugar', escreveu um dos cronistas da época.
Vale a pena chafurdar em jornais antigos para recuperar a história das grandes personagens do desporto português e mundial.
Manuel Dias foi um deles. Não tenham dúvidas.
Zabala teve receio do corredor do Benfica. Assumiu esse receio apertando o ritmo da passada.
Aos oito quilómetros, Manuel Dias tinha um atraso de 43 segundos para o comandante.
Mas foi ao fundo da alma buscar forças.
Um arreganho notável. Dois quilómetros decorridos, o português e o argentino estavam ombro a ombro.
Impressionante!
Estava um dia lindo em Berlim, nesse dia de Agosto.
Um céu azul que prometia algo de bonito. E, no entanto, o ovo fermentava no ventre da serpente. A guerra já se acumulava no horizonte.
Zabala e Dias continuavam irmanados.
O tempo passada. Os quilómetros eram engolidos a galope. Dez, doze...
Quem seria o primeiro a ceder?
De súbito, surge o japonês Son Kitei. Vindo de trás, recuperou espaço. Aos 15 quilómetros assumia a liderança da prova, de forma surpreendente.
E agora?
Zabala quebra. Como? O grande Zabala?! Sim. Já não tem força para aguentar a dianteira. Son aumenta a velocidade, está decidido a atacar corajosamente num espírito kamikaze. Manuel Dias não perde o ar nos pulmões, não deixa que o sangue pare de alimentar o seu coração que bate como o de um cavalo.
Ernest Harper, da Grã-Bretanha, é o novo candidato.
São três na luta.
Virão mais. Outro japonês, Nan Shoryu, e dois finlandeses: Erkki Tamila e Vaino Muinonen.
São muitos para um português sozinho. A despeito de toda a sua valentia e do seu peito enfunado como vela de galeão.
Quilómetros sobre quilómetros sobre quilómetros.
Os primeiros 10 tinham sido percorridos em 32 minutos e 30 segundos.
O passar do quilómetro 30 foi decisivo. Son lançou um ataque falta. Os finlandeses disparam na sua peugada. Manuel Dias já não foi capaz de os acompanhar. 'O representante português havia lutado sem tréguas por uma das primeiras classificações'.
A vitória coube a Son Kitey: 2 horas, 29 minutos e 19 segundos.
Depois Harper; depois Shoryu.
Manuel Dias esgotou-se nos 2 quilómetros derradeiros.
Assegurou o 17. lugar. A 19 minutos do vencedor.
Os jornais portugueses punham-no nos píncaros: 'Manuel Dias bateu-se brilhantemente! Deixou atrás de si muitos campeões de fama mundial!'
Ele, tímido, limitava-se a sorrir. Dera tudo o que tinha até ao fundo da sua alma de campeão."

Afonso de Melo, in O Benfica

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