Últimas indefectivações
quarta-feira, 15 de agosto de 2018
Benfica de continuidade
"Águia é melhor e esteve melhor; a importância defensiva do triângulo; os sinais dos tempos
Dentro do campo
1. Viu-se um Benfica de continuidade na composição do onze (apenas uma alteração, com Castillo no lugar de Ferreyra), no modelo táctico e na ideia de jogo. Uma equipa estável, com níveis de confiança assinaláveis, previsivelmente resultantes das vitórias nos dois jogos oficiais anteriores, diante do mesmo Fenerbahçe, na primeira mão, e do Vitória de Guimarães.
O Benfica é melhor equipa do que o Fenerbahçe e esteve melhor no jogo, com superioridade em todos os parâmetros. Soube explorar de forma positiva a vantagem numérica no corredor central, trÊs contra dois - Fejsa, Gedson e Pizzi para Topal e Elmas -, e a falta de cobertura nos corredores por parte de Valbuena e Ayew, que não acompanhavam André Almeida e Grimaldo, assim como a indecisão do adversário na reacção à perda da bola (hesitação entre pressionar alto ou baixar, não fazendo bem nem uma coisa nem outra), o que deixava muito espaço entre linhas para aproveitar. O Benfica chegou ao golo com naturalidade e devia também chegar em vantagem ao intervalo, não fora a desatenção defensiva da dupla Salvio e André Almeida na direita (que, aliás, já tinha antecedentes), da qual acabou por resultar o golo do empate.
No segundo tempo, reacção previsível por parte do Fenerbahçe, com as alterações feitas, surgindo com linhas mais curtas, capacidade de pressão mais próxima da baliza e algumas tentativas de finalização que acabaram por não resultar. A resposta do Benfica foi inteligente, quebrando o jogo, baixando o ritmo e tentando ter a bola o maior tempo possível, perdendo com isso, naturalmente, profundidade ofensiva. Foi uma segunda parte menos conseguida do que a primeira, mas o objectivo foi alcançado.
Destaques genéricos
- Excelente trabalho defensivo da equipa benfiquista, que defendeu muito melhor do que atacou.
- O triângulo constituído por Jardel, Rúben Dias e Fejsa, os primeiros muito concentrados e eficazes, o último muito inteligente ao nível das coberturas à frente dos centrais.
Destas individuais
- Gedson, uma jovem surpresa que se vai afirmando, com o particular de ter conseguido o golo.
- Alfa Semedo, uma aposta de continuidade na ousadia da juventude.
Fora do campo
2. O campeão europeu, Portugal, vê um dos seus mais ilustres representantes, o Benfica, vice-campeão nacional, obrigado a duas eliminatórias para chegar à fase de grupos da Liga dos Campeões. Sinais dos tempos. Ano após ano, como que atacado por um mal que parece não ter cor, sabor ou cheiro, as nossas melhores equipas vão soçobrando cada vez cada vez com maior frequência aquando dos seus confrontos internacionais. O desequilíbrio orçamental, disparidade de meios e baixa competitividade interna que daí resulta são factores determinantes para a galopante redução dos resultados desportivos, que na Champions, quer na Liga Europa. As tais cores, sabores e cheiros são de há muito conhecidas, só aqueles que beneficiam de situação de privilégio e cujos horizontes são curtos e fazem por não ver. A não ser alterado o quadro interno, serão eles, a curto prazo, os maiores prejudicados. Pena..."
Manuel Machado, in A Bola
Turco já está, falta o grego...
"O Benfica cumpriu com o que lhe era pedido e eliminou o Fernerbahçe na terceira pré-eliminatória de acesso à Liga dos Campeões. Pouco importará, neste momento, se se devia esperar mais dos encarnados, perante um adversário que ficou, em termos futebolísticos, aquém do esperado; ou mesmo se Rui Vitória que só fez duas substituições em cada uma das partidas com os turcos, não estará a pedir ajuda à SAD benfiquista, ou seja, reforços.
Para além da boa noticia que é termos uma outra equipa portuguesa com hipóteses de aceder à Champions, não pode passar sem destaque a extraordinária exibição de Gedson Fernandes, nascido em 1999, que está a revelar-se um box-to-box com asas para voar muito alto. E Rui Vitória, tantas vezes alvo de críticas, umas justas outras nem tanto, deve, neste particular, colher os louros não só pela identificação dos talentos mas essencialmente pela coragem de lhe abrir o palco principal, Gedson em Agosto de 2018, Renato em Outubro de 2015...
Cumprida esta fase, seguem-se os gregos do Paok, a grande surpresa desta fase preliminar da liga milionária, depois de terem eliminado Basileia e Spartak de Moscovo. Com jogos marcados para 21 e 28 deste mês, e com a possibilidade de aceder a meia centena de milhões de euros, não fará sentido que o Benfica não se esforce para dotar a equipa, para além de Jonas (assim as costas o deixem jogar), de mais trunfos para posições identificadas. Já agora, que ninguém espere facilidades em Salónica, num estádio onde o Benfica de Heynckes e o de Jesus já foram muitos felizes. Resta esperar que o de Rui Vitória lhes siga os passos..."
José Manuel Delgado, in A Bola
O bloco central do Benfica
"O caminho até à fase de grupos da Liga dos Campeões é longo, mas o Benfica acaba de tirar da frente o vice-campeão turco, o dono de uma casa onde vencer se torna num trabalho pesado (o Fenerbahçe perdeu apenas três jogos na condição de visitado na época passada).
O golo de Gedson Fernandes foi uma espécie de salvo-conduto para o “playoff” da Liga dos Campeões, porque a partir desse momento o Fenerbahçe precisava de marcar por três vezes para afastar a equipa portuguesa. Essa matemática positiva para os encarnados acabou por permitir à formação de Rui Vitória respirar de forma menos descompassada perante o ambiente de fervoroso apoio à equipa turca.
O Benfica já mostra, neste início de temporada, um eixo central com opções fortes, um bloco que está bem definido e que sai reforçado com a continuidade de Jonas, um jogador que continua a ser a maior das referências da equipa.
Na baliza, Odysseas Vlachodimos agarrou o lugar e tem condições para afastar o “fantasma” de Ederson, algo que os ocupantes do lugar na época passada não foram capazes de fazer. Apesar de ter apenas 24 anos, o guardião germânico (com raízes gregas) traz um lastro de duas temporadas ao mais alto nível, na baliza do Panathinaikos. E isso faz toda a diferença.
O centro da defesa comporta uma dupla que já exibe boas rotinas e que será, em circunstâncias normais, titular durante toda a temporada. Jardel e Rúben Dias formam uma sociedade sólida, capaz de dar confiança a quem está atrás e à frente no campo, mas a permanência do internacional português não é ainda uma certeza absoluta (é cobiçado pelo Lyon).
No coração do jogo, no meio-campo, Fejsa mantém o estatuto de intocável. O médio sérvio faz um trabalho cada vez mais visível e fundamental de proteção defensiva do Benfica e de arranque da construção de jogo. O “guarda-costas” da equipa não tem (e não tem tido) um substituto à altura no plantel encarnado, mas parece apresentar agora uma saúde física que lhe faltou noutros tempos. Fejsa foi, como sempre, fundamental para a boa organização defensiva do Benfica, sendo extremamente eficaz no bloqueio aos avançados turcos.
Alfa Semedo saiu do banco nos últimos dois jogos, mas encontrou contextos completamente diferentes em campo. No encontro frente ao Vitória de Guimarães, o jovem médio trocou de lugar com Fejsa e sentiu muitas dificuldades para colocar travão à reação dos minhotos (que acabaram por marcar dois golos na parte final do encontro). No embate com o Fenerbahçe, Alfa coincidiu no relvado com Fejsa e não precisou de ser um 6 puro, percebendo-se claramente que andou em campo mais confortável do que no registo anterior, quando ficou sozinho a fazer a cobertura defensiva àquela zona fundamental do jogo.
Gedson Fernandes surge neste setor com entrada direta no “onze” e com capacidade para “assinar” um compromisso com a titularidade durante toda a época. Frente ao Fenerbahçe, Gedson foi um dos motores da equipa, demonstrando capacidade para equilibrar defensivamente, mas principalmente para a condução de bola e para o lançamento do Benfica em processo ofensivo. Marcou o golo, tentou servir os avançados e será capaz de aprimorar alguns pequenos problemas de definição que ainda subsistem aos 19 anos. Gedson é a face mais visível de mais uma vaga de talentos do Seixal, mas João Félix e Jota também já batem de forma insistente à porta da primeira equipa.
A dupla Gedson-Pizzi permite ao Benfica ter em campo dois médios com capacidade para equilíbrios e desequilíbrios. No encontro com o Vitória minhoto, Gedson Fernandes permitiu que Pizzi se libertasse muitas vezes para o ataque, ajudando a construir o primeiro “hat-trick” do médio português ao serviço do Benfica. Em Istambul, o golo foi de Gedson, que surgiu mais vezes perto da área adversária, enquanto Pizzi se destacou pelas recuperações de bola e pelo acerto no passe. Muito do sucesso da ideia de jogo de Rui Vitória passará pelo bom entendimento deste duo ao longo da temporada. Neste jogo, os encarnados também beneficiaram do facto de haver muito espaço no início de construção.
Na zona central do ataque, o Benfica tem agora três opções principais muito diferentes (Seferovic ainda está no plantel, mas com espaço reduzidíssimo), todas com capacidade para resolver jogos.
No duelo com o Fenerbahçe a primeira escolha foi Castillo, um avançado que vestiu a titularidade pela primeira vez e que tem (mais do que qualquer outro no plantel) capacidade para um futebol de choque e para jogar de costas para a baliza. O atacante chileno foi decisivo na combinação com Gedson para o golo e estava com capacidade para dar mais ao jogo, até sair lesionado.
Com a entrada de Facundo Ferreyra, surgiu em campo outro perfil de avançado. O Benfica deixou de ter Castillo, que tenta um ataque mais frontal à baliza, para ter um avançado que procura movimentos diagonais, na busca da bola e do espaço para finalizar. Este tipo de jogo exige maior entendimento com os companheiros de equipa e por muito que Ferreyra tenha procurado dar soluções de passe, percebe-se que o processo de adaptação do argentino ainda não está terminado.
A opção mais forte para a zona central do ataque continua a ser Jonas. Não apenas pelos golos que vai “empilhando” ano após ano, mas pela forma como joga e faz jogar. Jonas permite ao Benfica ligar melhor o futebol ofensivo, fazendo de forma perfeita o “enganche” com os médios (como faziam Aimar ou Saviola há alguns anos). Se o cenário físico o permitir, a presença de Jonas no plantel oferecerá a Rui Vitória, no imediato, solução para algumas dificuldades nos momentos de definição atacante."
A formação em Portugal
"Depois das vitórias nos mundiais de juniores de 1989 (Riade) e de 1991 (Lisboa) os chamados "grandes" (Benfica, FC Porto e Sporting) passaram a investir de forma mais assertiva na formação de jogadores.
A par das equipas de "scouting" visando o recrutamento, cada vez mais cedo, dos jovens mais prometedores que fossem localizados em qualquer ponto do país e no estrangeiro, criaram estruturas modelares, no Seixal, em Gaia e em Alcochete.
O mesmo aconteceu com clubes que já tinham histórico na área (Belenenses, Vitória de Setúbal, Boavista, Marítimo, Académica) e também se actualizaram, a par de outros que rapidamente começaram a tirar proveito das estruturas que entretanto criaram, como sejam o Sporting de Braga e o Vitória de Guimarães, entre outros.
O Sporting foi, sem dúvida, o que começou mais cedo a aproveitar-se desse trabalho em profundidade, que não se pode dissociar da figura ímpar de Aurélio Pereira, verdadeiro mentor da formação leonina e justamente distinguido com a colocação do seu nome nas instalações de Alcochete.
Rapidamente atingiram projecção internacional alguns dos seus formandos, nomeadamente pela qualidade dos seus extremos, certamente dos melhores do mundo – Futre, Simão, Figo, Quaresma, Ronaldo e Nani – citados pela ordem em que foram aparecendo.
Mas também pela quantidade de convocados para as fases finais das últimas competições em que participámos.
Na selecção que venceu o Europeu (2016), 10 dos 23 eram da formação do Sporting – Patrício, Cedric, Fonte, William Carvalho, Adrien, Moutinho, João Mário, Quaresma, Nani e Ronaldo; jogaram 63% dos 7.920 minutos dos 7 jogos (3 com prolongamento), foram todos utilizados na final e marcaram 7 dos nossos 9 golos.
Na Taça Confederações (2017, 5 jogos, 3.º lugar sem derrotas) foram convocados 11 (saíu João Mário e entraram Beto e Gelson), que marcaram 6 dos 9 golos conseguidos.
E no Mundial (2018, 4 jogos, até aos oitavos de final, uma derrota), foram convocados 12 (saíu Nani, voltou João Mário e entrou Ricardo), tendo sido todos utilizados (excepto o guarda-redes Beto), em 64% dos 3.960 minutos jogados e marcado 5 dos 6 golos.
Mas a situação está rapidamente a mudar. Não só porque o Sporting inverteu o seu esforço na formação (de que a extinção da Equipa B, após deliberado apagamento na II Liga, terá sido a decisão mais gravosa), mas porque o Benfica já está a colher dividendos do excelente investimento que fez no Seixal, aliás complementado por vendas milionárias dos passes de muitos jovens, nalguns casos muito acima do seu valor aparente.
A título de exemplo, da ficha do jogo Sp Braga-Benfica do Campeonato Nacional de Juvenis de 2012/13 (Record de 20-05-2013) constam 3 futuros internacionais A, Renato Sanches (2016, campeão europeu), Gonçalo Guedes (2017) e Ruben Dias (2018), dois dos quais já renderam ao clube bem mais de 65 milhões; mas dessa equipa constavam também o defesa Iuri Ribeiro (titular do Rio Ave na época passada) e o guarda-redes André Ferreira (idem do Leixões), que integram o plantel desta época, e outros que certamente vão emergir.
E os reflexos nas equipas nacionais são evidentes: nos campeões europeus de Sub-17 (em 2016), 5 ou 6 eram da formação do Benfica; nos campeões europeus de Sub-19 (já em 2018) 6 eram do Benfica e apenas 3 do Sporting; e nos Sub-18 que disputaram as eliminatórias do Mundial de 2017 (sem conseguirem o apuramento), do elenco de 25 jogadores da penúltima convocatória, constavam 14 da formação do Benfica.
Voltaremos a este assunto.
Em tempo: Gedson Fernandes será este ano tão importante como foi Renato Sanches quando foi lançado no Benfica?"
Uma história de canalhas
"O murro de Jack Johnson em Stanley Ketchel foi tão potente que ficou com dentes do adversário cravados na luva
Walter Dipley foi um daqueles canalhas que devia ser condenado às catacumbas do olvido mas a verdade da literatura manda dizer que grandes canalhas dão sempre grandes personagens. Vejam, por exemplo, o Dudu. O Dudu é um dos canalhas inimitáveis de Nelson Rodrigues: «Talvez o único canalha vivo do Brasil. Todo o mundo tem defeitos e qualidades. O Dudu só tem defeitos!». Ou o Genival, do Chico Anysio, canalha infatigável: «Rouba o delicioso pirulito de uma criança, salga toda a comida de um banquete, sugere omeletes aos fregueses de um restaurante abarrotado de ovos estragados e coloca no ónibus do Méier um gringo desesperado que procura o Copacabana Palace». Ou o Thomas Spencer, de Julia Navarro: «Menti, enganei e manipulei à vontade, sem me importar com as consequências. Destruí sonhos e reputações, traí os que me foram leais, causei dor àqueles que me quiseram ajudar. Brinquei com as esperanças dos que pensaram que poderiam mudar quem eu sou».
Pois bem, Walter Dipley foi um canalha tão canalha ou ainda mais canalha do que eles.
Quando lhe ofereceram emprego no Dickerson Ranch, no Missouri, em outubro de 1910, fazia-se passar por Walter Kurtz. Afinal, o homem para quem ia trabalhar era Stanislaw Kiecal, ou melhor, Stanley Ketchel, o Assassino do Michigan. Valia a pena.
Kiecal fora, por sua vez, um adolescente canalha, filho de emigrantes polacos, sempre envolvido em cenas de pancadaria nas ruas de Grand Rapids, no Michigan, que fugira de casa e acabaria por se dedicar ao boxe. Foi então que mudou de nome.
Apesar de ser um peso médio, tinha a farronca de desafiar vários pesos pesados, alguns com mais 15 ou 16 quilos do que ele. Por isso, um ano antes da sua morte, foi com alegria que subiu ao ringue para defrontar Jack Johnson, o Gigante de Galveston, campeão do mundo de pesados e que media, tranquilamente, mais 20 centímetros do que o seu metro e setenta. E, também nesse momento, foi canalha. A canalhice é mesmo assim: faz comichões no sangue.
Jack Johnson e Stanley Ketchel tinham combinado que o combate seria de exibição. Onze rounds para agradar os mais de 10 mil espetadores presentes no Mission Street Arena de Colma, Califórnia, mas sem excessos. Há várias versões sobre o que aconteceu na realidade, com mais destaque para a versão de Johnson, mas este também não era flor que se cheirasse. Há um filme que mostra Ketchel a lançar-se furiosamente sobre Jack fazendo-o cair. A raiva tomou conta do gigante: com a direita desferiu um potente soco no adversário. Tão potente que, para além do KO, o Assassino do Michigan deixou vários dentes presos à luva de Johnson. Humilhante por demais, até mesmo para um canalha.
Stanley Ketchel teve uma vida curta: só faria mais cinco combates. A derrota frente a Jack Johnson abalou-o muito. Foi um dos motivos porque decidiu pedir o Dickerson Ranch emprestado a um amigo e preparar-se aí para exigir a desforra. Encontrou no rancho a cozinheira Goldie Smith e o seu marido Walter Dipley. Gente pouco aconselhável. Mas que podia isso incomodar um tipo que passara a maior parte dos seus 24 anos a distribuir pancada?
Certo dia, Ketchel ouviu um ruído absurdo vindo dos estábulos. Dipley, o canalha, entretinha-se a chicotear sadicamente um cavalo. A discussão entre ambos foi dura. Stanley ameaçou Walter de que o correria a pontapé se o episódio se repetisse. Assinou a sua sentença de morte.
Na manhã seguinte, Dipley entrou na cozinha onde Ketchel tomava o pequeno-almoço de costas para a porta. Trazia na mão um rifle e gritou: «Hands up!».
No momento em que Stanley fez menção de se virar, uma bala atravessou-lhe o ombro e alojou-se-lhe no pulmão. Depois Walter Dipley desfez-lhe a cara a coronhadas e fugiu.
Goldie Smith afirmou, mais tarde, que Ketchel tinha tentado violá-la e que fora essa a razão da tranquibérnia. R. P. Dickerson, o dono do rancho, ofereceu 5 mil dólares a quem lhe trouxesse Dipley, vivo ou morto, de preferência morto.
Foi capturado pouco depois. Tanto ele como Goldie foram condenados a prisão perpétua.
No dia 14 de Outubro, pelas sete e meia da tarde, o ‘Assassino do Michigan’ soltava uma súplica sussurrada: «I’m so tired. Take me home to mother».
Quando anunciaram a sua morte a Wilson Mizner, o seu treinador, este limitou-se a aconselhar: «Comecem a contar até dez. Antes de terminarem, ele levanta-se!».
Nada a fazer: a bala do canalha fora bem mais poderosa do que a direita de Jack Johnson. Não deu sequer para começar a contar..."
Afonso de Melo, in Sol
A luta da memória contra o esquecimento
"Dia 20 de Janeiro de 1935: o Benfica recebeu o Vitória de Setúbal nas Amoreiras (3-1) para o seu primeiro jogo na história dos Campeonatos Nacionais de futebol. Nada de confundir com Campeonatos de Portugal.
Dizia o Diário de Lisboa na sua edição de 20 de Janeiro de 1935: 'Começou hoje o Campeonato das Ligas, inovação de que há muito a esperar para bem do apuramento do jogo do 'association' em Portugal. Este certame, que interessa a todo o país, divide-se em duas Ligas. A 1.ª Liga inclui os oito melhores classificados do país: 4 de Lisboa, 2 do Porto, 1 de Setúbal e 1 de Coimbra. A 2.ª Liga inclui 32 clubes do pais divididos em 4 zonas e 8 grupos'.
O primeiro Campeonato Nacional estava em marcha.
Nada de confusões com o Campeonato de Portugal que viria a ganhar a designação de Taça de Portugal, por decisão do Congresso da Federação Portuguesa, exactamente por se disputar em regime de taça, isto é, com jogos a eliminar, ao contrário do Campeonato Nacional que se disputava, como vimos, em sistema de 'poule' - todos contra todos.
Nestas coisas de títulos, cada um pode reclamar para si os que bem entender, sem que o revisionismo histórico faça emergir uma nova realidade. Até eu estou disposto a reclamar para o Recreio de Águeda da minha infância três ou quatro títulos de campeão nacional que, embora não existindo, ficarão bonitos no currículo por mim inventado.
Deixemos-nos de brincadeiras.
Agora que o Campeonato Nacional está de volta (e muitas voltas já deu a designação da prova), é altura ideia para recordar o primeiro jogo do Benfica para esta competição da qual é, destacadamente, o grande açambarcador de títulos.
Acrescente-se que essa primeira edição do campeonato foi ganha pelo FC Porto, com 22 pontos, seguido de Sporting (20) e Benfica (19). Os encarnados conquistariam o Campeonato de Portugal dessa época. E, já agora, as três edições seguintes do Campeonato Nacional.
A pontaria de Valadas
Nas Amoreiras, nesse dia 20 de Janeiro, o Benfica recebeu o Vitória de Setúbal na 1.ª jornada.
Aqui ficam os protagonistas desse jogo histórico:
Benfica - Serzedelos; Gatinho e Gustavo; Albino Esperança e Francisco Costa; Carlos Graça, Xavier, Torres, Rogério e Valadas.
V. Setúbal - Crugeira; Vieira e Cardoso; Carvalho, Aníbal José e Mário Silva; Joaquim Silva, Rendas, Oliveira, Armando Martins e João Cruz.
O áribitro foi David Costa, do Porto.
'Antes do início do encontro, o sr. Dr. Vergílio Paula, perante os dois grupos formados a meio-campo, leu a alucoção que Cruz Filipe escreveu para neste dia de inauguração dos Campeonatos das Ligas ser preferida ais 'teams' concorrentes, chamando-lhes a atenção para o que estes campeonatos representam e pedindo a sua compostura para bem do futebol português'.
Coisa de Estadão, como vêem. E que deveria deixar incomodados os que andam há anos a reclamar contra esta verdade histórica que não pode andar a ser posta em causa gratuitamente.
O jogo, ao contrário do que era esperado, começou num ritmo morno, de futebol jogado em areia seca, queimando os pés.
Muitos repelões, pouca consistência de grupo, pouco colectivismo.
Aos 7 minutos, Valadas a passe de Torres faz 1-0.
O povo, nas bancadas, anima-se.
Os jogadores da águia ao peito também.
Agora são menos timoratos: forçam na busca do segundo golo.
Este surge exactamente sete minutos mais tarde.
Falta sobre Xavier junto à entrada da área sadina. Valdas aplica um pontapé colocado. Crugeira dá a sensação de que não vê a bola partir. Lança-se tarde. Irremediavelmente.
É tempo de o Vitória responder, mas os seus médios não desenvolvem lances de perigo e os seus avançados são apanhados consecutivamente em fora-de-jogo.
Torres também é impedido do 3-0 por via de um 'off side'.
Serzedelo está muito descansado, lá na sua grande-área.
Agora que se disputa a segunda parte, o Vitória tem o vento a seu favor. Durante vários minutos tira proveito das benesses da meteorologia. Força na busca de um tento que o devolva à disputa pelo resultado. Debalde. João Cruz, ainda assim, chuta junto à base do poste.
Nada mais.
Torres, aos 24 minutos da segunda etapa faz o 3-0.
Já ninguém tem dúvidas quanto ao vencedor, se alguma vez as teve.
A cinco minutos do fim, a defesa encarnada facilita: João Cruz isola-se frente a Serzedelo, este procura tapar-lhe os ângulos da baliza, mas o passe é bem medido para Oliveira que só tem de empurrar: 3-1.
'O Benfica ganhou com justiça e poderia ter conseguido um resultado mais confortável - que só não obteve por deficiência de remate, em especial no que refere aos seus interiores que tendo feito bastante jogo falharam nesse capítulo'.
O Campeonato Nacional de futebol dera o seu primeiro passo.
Tantos anos decorreram entretanto...
O importante é nunca esquecer. Como dizia Milan Kundera: 'A liberdade é uma luta constante entre a memória e o esquecimento'."
Afonso de Melo, in O Benfica
Os conquistadores de Montreux
"A equipa de hóquei em patins do Benfica foi a digna representante de Portugal na Taça das Nações.
A Taça das Nações ou Torneio de Montreux é um dos mais antigos e prestigiantes torneios internacionais de hóquei em patins. Na edição de 1962, coube ao Benfica, campeão nacional de 1960/61, ir em representação do seu país. Era a segunda vez consecutiva que a equipa benfiquista participava neste importante torneio suíço. No ano anterior, honraria as cores nacionais ao classificar-se em 2.º lugar. Seria, desta vez, a grande oportunidade de alcançar a tão ambicionava vitória!
A equipa benfiquista iniciou a sua caminhada triunfal com uma surpreendente goleada por 10-2 ao clube italiano Hockey Club Monza, seguindo-se excelentes vitórias frente à equipa francesa do Skating Clube Andomarois e frente à selecção alemã. Os bicampeões nacionais classificaram-se, assim, em 1.º lugar do Grupo B, ficando apurados para a fase final. Nesta próxima etapa, os hoquistas 'encarnados' demonstraram, uma vez mais, a sua extraordinária classe ao derrotar a selecção inglesa e novamente o clube italiano. Chegou a grande final, a 24 de Abril de 1962, na qual o Benfica defrontou a equipa anfitriã, o Montereux HC. Foi um jogo emocionante que terminou com uma fantástica vitória benfiquista por 3-0. Estava conquistado o torneio sem qualquer derrota!
Os 'encarnados' formaram uma verdadeira equipa e enfrentaram todos os adversários com entusiasmo e ambição. A imprensa suíça foi unânime em a catalogar de 'justa e gloriosa vencedora'. A televisão local apelidou os jogadores de 'diabos vermelhos', referindo que 'o carrocel infernal do Benfica reduzia a pó as outras equipas'.
Esteve sempre presente um grande espírito de sacrifício entre todos. 'O Nogueira jogou com suspeita de factura no nariz. O Jorge dava a cara e o peito aos remates. O Urgeiro bateu-se que nem um leão. O Livramento e o Araújo franzinos, mas valentes e lutadores até à última gota. O José Pereira decidido, estoico. O Mário Lopes, remoçado, combativo, um grande «capitão»'. Urgeiro acabaria por ser a grande figura do torneio ao sagrar-se melhor marcador, com um total de oito golos, e ainda foi considerado o melhor médio da competição.
O treinador 'encarnado', Torcato Ferreira, confessou que 'esta vitória, conseguida num país estrangeiro, em confronto com categorizadas equipas, constitui, sem dúvida, a maior alegria da minha vida'.
Pode conhecer mais sobre as conquistas do hóquei em patins benfiquistas na área 3 - Orgulho Ecléctico do Museu Benfica - Cosme Damião."
Ana Filipa Simões, in O Benfica
Fim à violência
"No caso do futebol (mas não só) o que se viu foi o escalar de situações tristes e embaraçosas
Nos últimos anos tenho sido crítico feroz da aparente impotência com que estruturas e organizações de relevo não conseguiram terminar ou, pelo menos, abrandar o aumento da violência física e verbal que assolou o desporto português. É certo que foram várias as mensagens que apelaram, repetida e pacientemente, ao fair play, mas, apesar de bondosas e bem intencionadas, jamais foram verdadeiramente escutadas. Pelo contrário. No caso do futebol (mas não só), o que se viu foi o escalar de situações tristes, embaraçosas e potencialmente graves, daquelas que fazem corar de vergonha todo um país. Um país que ainda é campeão europeu de futebol e que é quase sempre bem-sucedido em muitas outras modalidades, colectivas e individuais. Houve agressões árbitros (até no futsal), insinuações graves no hóquei e no andebol, conflitos no rugby (?) e claro, toda uma panóplia de momentos deprimentes e inesquecíveis no futebol. Vendo isto da lua, como me parece sensato, é caso para dizer que a bota não bate com a perdigota, certo?
Reparem: temos talento individual e colectivo às paletes, organizações de excelência, gestões competentes, mas, vá-se lá saber, insistimos em sujar tudo isso com estratégias, discursos e opções de bradar aos céus! Quase todo o tipo de violência a que assistimos é, não nos esqueçamos, fruto de exemplos que vêm de quem tem responsabilidades directas ou indirectas no jogo. E nós, que até gostamos de bola a sério, jogada no relvado por quem importa, temos de engolir diariamente essas peripécias porque, na verdade, muita gente lhe dá voz. É como se todos soubessem que se trata de um pântano perigoso mas insistem em ser uma das espécies que habitam por lá. Porque no meio de tanto lodo, há quem procure ali alimento garanta a sua sobrevivência. Opções.
Talvez por estar cansado de apelar repetidamente à sensatez e ao desportivismo, o conselho de ministros - naturalmente influenciado pela intervenção oportuna do presidente da FPF no parlamento (em Outubro de 2017) - deu passo importante ao criar a Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto. Com ela aprovou também a alteração do regime jurídico do combate à violência, racismo, xenofobia e intolerância nos espectáculos desportivos. Segundo o Governo, a ideia é, em articulação com as forças de segurança e com a Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial, aumentar a fiscalização nessas matérias.
Haverá, seguramente, maior intervenção para dissuadir comportamentos e para penalizá-los, através da instauração de autos de notícia ou de denúncia. Mais. Reduziu-se o prazo para que as forças de segurança remetem alguns desses autos, procurando tomar a resolução de todos os processos mais célere e eficaz. No fundo, espera-se um escrutínio mais apertado. Espera-se mais medidas dissuasórias e mais coimas. Naturalmente que uma andorinha não faz a primavera e há muito ainda para construir neste caminho, mas foi dado um passo significativo e é importante sublinhá-lo. E é importante porque retira o Estado de uma imagem de inércia, que até então lhe parecia atribuída e que, percebe-se agora, está ultrapassada. Esperamos que com estas medidas (e com o agravamento das sanções desportivas), o comportamento de alguns responsáveis seja um pouco mais ético, saudável e consciente.
Não se pode que sorriam quando perdem ou que silenciem a voz quando se sentem lesados, prejudicados. Apenas que o façam com educação e elevação, nunca esquecendo o peso que as palavras e acções têm. Quem tudo faz para ganhar, está na verdade, mais perto de perder, mesmo que ache que não. A história está repleta de estórias dessas."
Duarte Gomes, in A Bola
terça-feira, 14 de agosto de 2018
Vermelhão: a caminho de Salónica...
Fenerbahçe 1 - 1 Benfica
Qualificação garantida, em mais um jogo, onde mais uma vez, sofremos desnecessariamente... Golos feitos desperdiçados, domínio do ritmo do jogo... e quando podíamos ter feito o 0-2, acabámos por sofrer o 1-1...!!!
Gedson com o golo e com mais uma boa exibição, Pizzi, Salvio... Rúben e Jardel com actuações muito positivas. Mas o destaque tem que ir inteirinho para o Fejsa, que além de ter feito 30 anos hoje, jogou com as sequelas de uma gastroenterite... Extraordinário, o homem não pára!!!
Boa entrada do Alfa... depois do jogo com o Guimarães, com a entrada do Alfa a coincidir com o 'desligar' da equipa, era importante voltar a dar indicações positivas...
Boa entrada do Alfa... depois do jogo com o Guimarães, com a entrada do Alfa a coincidir com o 'desligar' da equipa, era importante voltar a dar indicações positivas...
A única nota preocupante da noite, foi mesmo a lesão do Castillo. Com o Ferreyra a não conseguir marcar, com o Jonas ainda indisponível... com o Seferovic sem ter feito praticamente minutos... com mais 5 jogos nas próximas 2 semanas, é muito importante ter o Castillo disponível! E no próximo sábado, no Bessa, prevendo o habitual festival de porrada, o Castillo seria muito importante estar em campo...
Mais uma arbitragem inenarrável na UEFA... critério dos amarelos, foi de bradar aos céus...!!!
Agora temos o PAOK, que no 'papel' tem um plantel mais acessível, mas é só em teoria, porque por aquilo que vi nos jogos com o Basileia e Spartak de Moscovo, são mais equipa que o Fernerbahçe, aquilo que lhes falta em talento, compensam em atitude... e sabem jogar de forma manhosa no contra-ataque!!! E com o Benfica - Sporting, no meio da eliminatória, vamos a Salónica provavelmente com algum desgaste... por isso, é essencial, 'marcar' a diferença logo na 1.ª mão na Luz...
Passou um pouco despercebido, mas com esta vitória, garantimos a presença na UEFA esta época! Com uma hipotética eliminação hoje, corríamos o risco de ficar de fora, inclusive da Liga Europa... Agora, a Champions, por razões financeiras, desportivas e de prestígio é quase uma 'obrigação'!!! A Liga Europa, além da questão financeira, 'atrapalha' em muito o calendário com os jogos à Quinta...
Passou um pouco despercebido, mas com esta vitória, garantimos a presença na UEFA esta época! Com uma hipotética eliminação hoje, corríamos o risco de ficar de fora, inclusive da Liga Europa... Agora, a Champions, por razões financeiras, desportivas e de prestígio é quase uma 'obrigação'!!! A Liga Europa, além da questão financeira, 'atrapalha' em muito o calendário com os jogos à Quinta...
No Sábado, no Bessa, praticamente sem descanso (treino de recuperação amanhã, com pouco sono... treino normal na Quinta... viagem para Gaia na Sexta... jogo no Sábado), vamos ter um jogo muito complicado... e muito provavelmente, com uma apitadela encomendada!!!
Jonas, zero ídolos mais um
"Depois de todo o suspense, terminou a novela Jonas no Benfica. Jonas fica no clube, facto que foi anunciado pelas redes sociais encarnadas como se tratasse da contratação da década. Sim, a renovação de um jogador de 34 anos é anunciada como se fosse a maior bomba do mercado: é esta a importância de Jonas Gonçalves.
Ponto prévio: os profissionais de futebol profissional apreciam auferir ordenados. Sim, eu sei – isto pode ser chocante, mas é a mais pura das verdades. Os futebolistas levam para casa honorários e, em alguns casos, podem mesmo chegar a ser avultados. Compreendo a indignação perante esta realidade injusta, mas a verdade é que profissionais com características e competências únicas de uma indústria que movimenta milhares de milhões, da qual são os principais protagonistas, recebem algumas centenas de milhar na conta todos os meses. Absurdo!
Posto isto, resta dizer que o valor nominal e as cláusulas contratuais do novo acordo firmado entre o Benfica e o empregado-de-quase-todos-os-meses, Jonas Gonçalves, não me interessam. Não me interessam porque Jonas não se mede pelo ordenado atual, uma vez que em princípio ficaremos sempre em dívida para com o brasileiro. Por outro lado, não é que fosse ilegal que houvesse jogadores no plantel que recebessem mais do que o jogador mais decisivo que a minha geração viu jogar no clube, mas era no mínimo constrangedor.
Temos de ter noção de que Jonas, no primeiro toque na bola que deu, no primeiro jogo do Benfica, fez um cabrito ao adversário. A primeira ação de Chucky Ferreyra num jogo oficial foi falhar uma grande penalidade. Por muito que deseje toda a sorte do Mundo ao argentino (e que supere todas as marcas do brasileiro), compreendo que Jonas, na sua humildade patente, peça o favor de ser valorizado.
Para mim, não importa aqui o valor futuro do jogador. Neste caso, interessa o valor passado. Interessam, para já, os 122 golos marcados com a camisola do Benfica. E nem sequer é uma questão de gratidão, como se poderá alegar nas já-menos-desportivamente-pertinentes renovações de Luisão. Jonas ainda não fez nenhuma época em que demonstrasse ser um encargo para o clube. Pelo contrário, não houve uma que passasse de águia ao peito sem ser absolutamente fulcral.
Nestas alturas, em que os jornais falam de discordâncias entre clube e jogador, muitas vezes com o dinheiro como motivo, adeptos apressam-se a utilizar o mote “zero ídolos”. Para mim, essa é uma posição de quem não gosta de gostar de futebol. Quem tem “zero ídolos” tem pânico de se apaixonar. Quem tem “zero ídolos” não ama pelo medo de ser traído."
VAR avariado
"Se o fanatismo não irá desaparecer por decreto, não será, certamente, um remendo tecnológico mal pensado que o irá diminuir. Senhores da Liga, a bola está do vosso lado.
Em Portugal, a religião de facto funciona por temporadas. E este fim-de-semana começou a de 2018/19.
Neste país à beira-mar plantado, o futebol reveste-se de uma importância dificilmente negável ou comparável a outros países, em que o desporto enquanto actividade social de relevo abrange, normalmente, mais do que uma modalidade, e o apoio popular e destaque dado às equipas não se limita a um trio imutável e intocável. É, no fundo, uma caricatura da nação, em que os melhores ombreiam com a elite mundial, fazendo muito com recursos limitados, mas em que o panorama geral é de mediocridade e, claro, a sempre presente corrupção, já mais portuguesa do que o Fado.
Ainda assim, de vez em quando somos uma terra de pioneiros. Na última década do século XX, dois sistemas tecnológicos partiram de Portugal para conquistar o mundo: o sistema pré-pago de comunicações móveis e a Via Verde. Caramba, torna-se complicado lembrarmo-nos que, há 500 anos atrás, desenvolvemos técnicas e instrumentos que, aliados a uma ambição e audácia louváveis, nos permitiram descobrir meio mundo. E, há um ano, fomos também pioneiros na utilização do vídeo-árbitro (VAR), que prometia acabar com as infindáveis discussões sobre a forma como a equipa daquele nosso amigo fanático havia ganhado no Sábado passado.
No entanto, e como muitas outras bem-intencionadas iniciativas lusas, o VAR foi, no mínimo, pouco pensado. Em vez de eliminar (ou reduzir drasticamente) o erro humano, externalizou-o para um indivíduo fora do campo, observador num monitor em Oeiras, e perdeu-se uma boa oportunidade de mudar significativamente o paradigma futebolístico.
Ora note-se: no futebol, o diálogo atleta-árbitro atinge níveis (em intensidade e conteúdo) dificilmente observáveis noutros desportos de topo – no ténis, por exemplo, quando um dos jogadores discorda da decisão do árbitro, pode contestá-la oficialmente, levando à revisão da mesma e, caso o juiz estivesse correcto, o atleta perde um dos três challenges com que é dotado ao começo da partida. Isto responsabiliza os atletas, previne diálogos inúteis fruto da frustração ao invés da razão – e torna o jogo mais justo.
Mas o ténis é um desporto objectivo, com pouco espaço à interpretação humana. Ora, se uma expulsão ou um penalty raramente são indiscutíveis, o mesmo não se poderá dizer de um fora-de-jogo ou pontapé de baliza/canto. E, se no caso do primeiro, esperamos ainda uma tecnologia infalível de análise, a diferença entre um pontapé de baliza ou um canto é, normalmente, bastante óbvia. Sendo os cantos uma fonte clara de lances de golo (no Mundial’18, por exemplo, registou-se um recorde de 26 golos originados de canto), parece-me óbvio a falta de rigor e possíveis consequências que surgem desta situação.
Outra assimetria clara prende-se com a capacidade tecnológica dos diferentes estádios da I Liga. Enquanto que equipas que joguem em estádios construídos para o Euro2004 beneficiam de condições de topo, mais de 50% das equipas jogam em recintos antigos, onde as possibilidades de filmagem são consideravelmente mais limitadas e, consequentemente, a análise a cada lance será, a priori, condicionada por menos meios disponíveis. Numa época longa e com 34 jogos, não será que esta assimetria de informação pode influenciar a classificação final?
Há algumas décadas, poder-se-ia argumentar que “é só um jogo”; hoje em dia, é um negócio de muitos milhões, com um impacto económico relevante no nosso país, em que meia dúzia de sociedades anónimas facturam quantias exorbitantes com a venda de alguns dos seus activos. E se o fanatismo não irá desaparecer por decreto, não será, certamente, um remendo tecnológico mal pensado que o irá diminuir. Senhores da Liga, a bola está do vosso lado."
Em Portugal, a religião de facto funciona por temporadas. E este fim-de-semana começou a de 2018/19.
Neste país à beira-mar plantado, o futebol reveste-se de uma importância dificilmente negável ou comparável a outros países, em que o desporto enquanto actividade social de relevo abrange, normalmente, mais do que uma modalidade, e o apoio popular e destaque dado às equipas não se limita a um trio imutável e intocável. É, no fundo, uma caricatura da nação, em que os melhores ombreiam com a elite mundial, fazendo muito com recursos limitados, mas em que o panorama geral é de mediocridade e, claro, a sempre presente corrupção, já mais portuguesa do que o Fado.
Ainda assim, de vez em quando somos uma terra de pioneiros. Na última década do século XX, dois sistemas tecnológicos partiram de Portugal para conquistar o mundo: o sistema pré-pago de comunicações móveis e a Via Verde. Caramba, torna-se complicado lembrarmo-nos que, há 500 anos atrás, desenvolvemos técnicas e instrumentos que, aliados a uma ambição e audácia louváveis, nos permitiram descobrir meio mundo. E, há um ano, fomos também pioneiros na utilização do vídeo-árbitro (VAR), que prometia acabar com as infindáveis discussões sobre a forma como a equipa daquele nosso amigo fanático havia ganhado no Sábado passado.
No entanto, e como muitas outras bem-intencionadas iniciativas lusas, o VAR foi, no mínimo, pouco pensado. Em vez de eliminar (ou reduzir drasticamente) o erro humano, externalizou-o para um indivíduo fora do campo, observador num monitor em Oeiras, e perdeu-se uma boa oportunidade de mudar significativamente o paradigma futebolístico.
Ora note-se: no futebol, o diálogo atleta-árbitro atinge níveis (em intensidade e conteúdo) dificilmente observáveis noutros desportos de topo – no ténis, por exemplo, quando um dos jogadores discorda da decisão do árbitro, pode contestá-la oficialmente, levando à revisão da mesma e, caso o juiz estivesse correcto, o atleta perde um dos três challenges com que é dotado ao começo da partida. Isto responsabiliza os atletas, previne diálogos inúteis fruto da frustração ao invés da razão – e torna o jogo mais justo.
Mas o ténis é um desporto objectivo, com pouco espaço à interpretação humana. Ora, se uma expulsão ou um penalty raramente são indiscutíveis, o mesmo não se poderá dizer de um fora-de-jogo ou pontapé de baliza/canto. E, se no caso do primeiro, esperamos ainda uma tecnologia infalível de análise, a diferença entre um pontapé de baliza ou um canto é, normalmente, bastante óbvia. Sendo os cantos uma fonte clara de lances de golo (no Mundial’18, por exemplo, registou-se um recorde de 26 golos originados de canto), parece-me óbvio a falta de rigor e possíveis consequências que surgem desta situação.
Outra assimetria clara prende-se com a capacidade tecnológica dos diferentes estádios da I Liga. Enquanto que equipas que joguem em estádios construídos para o Euro2004 beneficiam de condições de topo, mais de 50% das equipas jogam em recintos antigos, onde as possibilidades de filmagem são consideravelmente mais limitadas e, consequentemente, a análise a cada lance será, a priori, condicionada por menos meios disponíveis. Numa época longa e com 34 jogos, não será que esta assimetria de informação pode influenciar a classificação final?
Há algumas décadas, poder-se-ia argumentar que “é só um jogo”; hoje em dia, é um negócio de muitos milhões, com um impacto económico relevante no nosso país, em que meia dúzia de sociedades anónimas facturam quantias exorbitantes com a venda de alguns dos seus activos. E se o fanatismo não irá desaparecer por decreto, não será, certamente, um remendo tecnológico mal pensado que o irá diminuir. Senhores da Liga, a bola está do vosso lado."
Onde páram os milhões?
"O assunto raramente é discutido, mas o facto é que a temporada de 2018/19 marca o início da vigência dos novos contratos televisivos. De um bolo global que não atingia os 100 milhões de euros, os emblemas da 1ª Liga dão um salto para perto dos 200 milhões de euros e têm a garantia de esse fluxo financeiro durar pelo menos uma década. Pela tabela vigente, um clube considerado pequeno passa de 2,2 milhões de euros anuais para 3,6 milhões pela cedência dos seus direitos televisivos no campeonato. Um aumento de dois terços num capítulo vital para o suporte orçamental, enquanto Sp. Braga e V. Guimarães, por exemplo, dobraram, grosso modo, os encaixes.
Tive o prazer de moderar, em representação de Record, um debate entre Pedro Proença e o seu homólogo espanhol, Javier Tebas. O líder de La Liga sublinhou a importância de assegurar uma maior competitividade no campeonato português como pilar para a valorização do produto televisivo. Todavia, o fenómeno da aproximação do Sp. Braga aos grandes criou um fosso preocupante. Só uma vez, em 22 campeonatos a 3 pontos por vitória, a diferença entre o 4.º e o 5.º tinha atingido a dezena de pontos. Em 2017/18, o Sp. Braga ficou 24 pontos acima do Rio Ave!
É impossível esquecer, ainda, que os quatro grandes só perderam pontos em casa, contra rivais de fora desse 'Big 4', à 32ª jornada, quando o Tondela triunfou na Luz. Pelas prestações de Benfica, FC Porto e Sp. Braga, contra V. Guimarães, Chaves e Nacional, o cenário não está para mudar tão cedo. Mas, então, onde foi parar a tal chuva de milhões do bodo aos pobres? Como me dizia um dirigente, "é simples, a maioria recebe mais 1,4 milhões e os grandes auferem mais... 20 milhões". E depois ainda há quem diga que a 1ª Liga é nivelada por baixo."
Lixívia 1
Tabela Anti-Lixívia
Benfica....... 3 (0) = 3
Corruptos... 3 (0) = 3
Sporting..... 3 (0) = 3
Nova época, tudo velho!!! A palhaçada já começou... Na Supertaça, os mesmos do costume, ladraram, refilaram, intimidaram, inventaram inimigos... tudo branqueado pelas autoridades competentes... e logo na 1.ª jornada, duas expulsões perdoadas aos mesmos Corruptos!!! Conclusão: nada de novo!!!
Além do 'não castigo' ao cão raivoso do treinador dos Corruptos, que aparentemente não tem antecedentes, pois leva sempre a pena mínima dos mínimos!!!
Na Luz, levámos com o Pinheiro, a maior parte dos Benfiquistas ficaram 'contentes' com a arbitragem: eu não!!! E mais tarde confirmei na televisão...
O João Carlos Teixeira fartou-se de distribuir fruta e protestos e nada lhe aconteceu... mas o mais significativo, foram as faltas não assinaladas ao Guimarães, que provocaram ataques perigosos ao Vitória: logo no primeiro ataque, mão na bola do Tallo (foram pelo menos 3 mãos na bola não marcadas, sempre ao Vitória...), nada assinalado e cabeceamento perigoso para boa defesa do Odysseias; agarrão ao Salvio, dá contra-ataque ao Ola John; falta dura sobre o Pizzi... novo ataque do Guimarães, etc.. etc...
Em sentido contrário, quando o Benfica tentava as transições ofensivas rápidas, e o apitadeiro, beneficiou o infractor, ao marcar pelo menos 3 faltas a favor do Benfica, em lances que os jogadores do Benfica, mesmo sofrendo falta, saiam para o contra-ataque...
Podem defender que tudo isto é coincidência... Mas eu já não vou nessa!!!
Este é um daqueles árbitros que neste momento está a fazer o 'curso' da manhosice, e daqui a alguns anos, vamos ter que levar com ele nos jogos mais importantes...!!!
Sim, marcou o penalty sobre o Salvio... mas também se não marcasse?!!! Aliás, na época do Tetra, não marcou o penalty sobre o Carrillo em Setúbal no último minuto... Como marcou este, deve ter percebido que nos lances mais óbvios, é melhor não 'inclinar'!!!
No Ladrão, o mesmo de sempre: Maxi entrada para vermelho, e não levou nada... e o VAR ficou calado (estava 2-0); perto do fim, no lance praticamente igual, o VAR já chamou o apitadeiro para expulsar o jogador do Chaves!!!
Antes do fim, Brahimi voltou a apertar o pescoço a um adversário... nada de novo, já o fez muitas vezes, e nunca foi castigado... Repito, nunca!!!
Para disfarçar, inventaram um suposto penalty contra o Chaves, que teria prejudicado os Corruptos... nada de nova aqui também...
Para mim não existe penalty, existe uma carga com o ombro, o jogador dos Corruptos já estava desequilibrado, com o braço no ar antes do contacto... Este tipo de contactos, fora da área normalmente é falta, mas dentro da área, nunca são marcadas...
Em Moreira de Cónegos, o único lance que me suscitou dúvidas foi o 1.º golo dos Lagartos (1-1), onde parece existir fora-de-jogo no início da jogada, mas não houve uma única repetição esclarecedora... O penalty a favor dos Lagartos foi bem marcado.
Destaco também as nomeações: Tiago Martins é o apitadeiro favorito dos Lagartos, e logo no primeiro jogo fora de casa, lá foi ele, just in case...!!! E o outro favorito para VAR: Hugo Miguel!!!
O Nuno Almeida, nunca na vida, tomará uma decisão 'contra' os Corruptos... depois de toda a intimidação que foi feita fora do campo, este é um daqueles árbitros que deveria estar impedido de apitar os Corruptos... mas mesmo assim ainda meteram o Vasco Santos como VAR!!!
Anexo(I):
Benfica
1.ª-Guimarães(c), V(3-2), Pinheiro(Sousa), Nada a assinalar
Corruptos
1.ª-Chaves(c), V(5-0), Almeida(Vasco Santos), Beneficiados, Impossível contabilizar
Sporting
1.ª-Moreirense(f), (1-3), Martins(Miguel), Nada assinalar
Anexo(II):
Benfica:
Pinheiro: 1 + 0 = 1
Sousa: 0 + 1 = 1
Corruptos:
Almeida: 1 + 0 = 1
Vasco Santos: 0 + 1 = 1
Sporting:
Martins: 1 + 0 = 1
Miguel: 0 + 1 = 1
Épocas anteriores:
segunda-feira, 13 de agosto de 2018
Benfica: mata-mata em Istambul
"O Benfica tem alternado momentos de qualidade atacante e de pressão defensiva com apagões comprometedores. Que amanhã estão proibidos.
Começou a 85.ª edição da prova maior do futebol nacional e a primeira jornada revelou-nos sintomas prudentes tomar a nuvem por Juno em qualquer circunstância. A Liga é uma maratona de 3060 minutos e como Jorge Jesus dizia, na sua imensa sabedoria, «isto não é como começa, é como acaba...» Caso diferente é o do desafio turco do Benfica. O jogo de amanhã, na parte oriental de Istambul, que a equipa de Rui Vitória inicia a ganhar por um a zero, terá influência, para o bem ou para o mal, em toda a época. Aceder à fase de grupos da Liga dos Campeões é um objectivo maior dos encarnados, não só pelos mais de 40 milhões de euros imediatamente associados à superação da terceira pré-eliminatória e do play-off, mas também pela montra que tal sucesso permitirá aos talentos emergentes na Luz, além do boost anímico que representará para o clube, dos adeptos aos jogadores, sem esquecer os dirigentes.
Não valerá muito a pena, neste momento, fazer um balanço aprofundado às condições em que este plantel às ordens de Rui Vitória foi construído, sendo incontornável, porém, manifestar alguma surpresa por não terem sido colocadas todas as fichas nesta pré-eliminatória, por um lado fechando uma ou outra contratação que continua no ar (Gabriel, Ramires, um lateral direito, eventualmente mais um guarda-redes), por outro não permitindo (e isso só seria feito com acções em tempo útil) que o melhor jogador da equipa vivesse submerso na dúvida fica-sai, não dando seu contributo à equipa em pelo menos dois jogos oficiais (amanhã volta a não ir a jogo, por lesão). Sem qualquer sombra de dúvida, a continuidade do Pistolas na Luz é uma muito boa notícia para o Benfica. Mas este arranque soluçante foi pernicioso.
Quanto ao jogo-jogado do Benfica - de olhos postos em Istambul - alguns considerandos: a equipa de Rui Vitória altera alguns períodos bem conseguidos, quer na dinâmica atacante, quer na intensidade de pressão defensiva, com comprometedores apagões de concentração, que ficaram à vista de todos em dois momentos distintos na partida com o V. Guimarães, primeiro quando os forasteiros estiveram à beira de empatar a uma bola e depois, no susto final, com a passagem do placard de 3-0 para 3-2. Amanhã, só um Benfica sempre focado no jogo e sem medo do ambiente poderá ter sucesso."
(...)
Ás
Pizzi
Um oito a conseguir um hat-trick não é coisa que se veja todos os dias. Pizzi, que já conseguira proeza semelhante, no Dragão, a jogar pelo Paços de Ferreira de Rui Vitória (2010/11), acendeu a Luz e guiou o Benfica a um triunfo que parecia luminoso e acabou por acabar com algumas sombras. Está muito confiante...
(...)
O fantástico destino de Bernardo Silva
«Bernardo Silva é inteligente e esperto. É competitivo e creio tratar-se do jogador mais querido na nossa equipa»
Pep Guardiola, treinador do Manchester City
Num fim-de-semana de arranque da Premier League em que dois jogos portugueses, Rúben Neves e Bernardo Silva, assinaram golos de altíssimo recorte, Pep Guardiola voltou a elogiar Bernardo, de quem, há uma semana, dissera as palavras acima transcritas. Com Bernardo Silva temos a sensação de estar perante um predestinado intemporal do futebol português.
CR7 já fez o gosto ao pé (mas foi 'a brincar')
Cumpriu-se a tradição da Juventus de iniciar a época com um jogo entre as equipas A e B em Villar Perosa, domínio do clá Agnelli. Ontem, este apronto (durou 77 minutos, devido à habitual invasão dos tifosi à caça de selfies) marcou a estrela, com um golo, de CR7, motivo de atenção de toda a Itália...
(...)"
José Manuel Delgado, in A Bola
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