Últimas indefectivações
sábado, 16 de maio de 2026
Derrota na despedida...
Corruptos 2 - 0 Benfica
Jogo de fim de época, com várias ausências importantes, e com a nota mais importante a ser a lesão do Gonçalo Oliveira, aparentemente no tornozelo, vamos ver se foi só entorse, ou se partiu alguma coisa...
O lobo de Borba !!!
Luis Godinho a apitar o jogo do Sporting, é a mesma coisa que soltar um lobo no meio de um rebanho de ovelhas. Uma espécie de mano Calheiros do Varandistão. A Liga Caeiro continua, cada vez mais descarada e batoteira.
— Polvo das Antas - Em Defesa do SL Benfica (@moluscodasantas) May 15, 2026
Talvez...
Mais importante do que dizer que recebeu proposta de renovação de contrato com o Benfica, Mourinho voltou a tocar com o dedo no vespeiro que é o futebol português. O Benfica não ganhou na época passada, esta epoca e possivelmente não ganhará na proxima. A Liga Caeiro é uma farsa. pic.twitter.com/nbNhQ3H1PW
— Liga da Farsa (@ligadafarsa) May 15, 2026
O Benfica é um lugar estranho
"25 anos depois, o treinador sai a Luz com a sensação de que estava a prazo. E mais uma vez ficará no ar a pergunta 'O que teria sido se...'
A biografia de José Mourinho é riquíssima, mas há sempre espaço para novos registos e seguramente que numa futura revisitação e republicação da carreira do treinador nascido em Setúbal o Benfica irá ocupar mais um capítulo opaco e cheio de interrogações. Porque foi o único clube com duas passagens curtas, saídas fora de tempo e criando porventura entre os seus adeptos aquela pergunta típica ‘o que poderia ter sido se ele tivesse continuado’.
Nos finais de 2000, sentindo-se um «treinador a prazo» porque Manuel Vilarinho tinha ganhado as eleições contra Vale e Azevedo e anunciara Toni como o seu escolhido, o ainda jovem técnico bateu com a porta, numa daquelas decisões que alteram o curso da história, sabendo-se o fenómeno em que Mourinho se transformou e como importante foi para o rival FC Porto vencer uma Taça UEFA e uma Liga dos Campeões - o último emblema fora das big 5 a conquistar a competição de clubes mais importante do mundo.
Pouco mais de 25 anos depois, ainda que com outros protagonistas, o contexto não parece ser assim tão diferente: José Mourinho, de uma certa forma, não se sentiu um treinador tão desejado quanto o seu estatuto, ego e projeção mereciam; citando o próprio e adequando as palavras ao contexto certo, «em circunstâncias normais», mas também em «circunstâncias anormais» qualquer presidente colocar-lhe-ia um novo contrato, em março, quando ele se ofereceu para renovar.
Rui Costa não o fez, talvez recordando-se do timing errado na renovação de Roger Schmidt e cujo despedimento meses depois custou uma fortuna ao Benfica. Porém, os momentos e personalidades são totalmente diferentes. Só quem não o conhece acha que, do ponto de vista político e da autoridade que representa perante um plantel, José Mourinho poderia preparar a próxima época tendo apenas um ano de contrato, um enquadramento que o colocava a prazo e enfraquecia a sua imagem.
A crise do Real Madrid acabou por ajudar à narrativa. Se nada de anormal ocorrer, José Mourinho será o próximo treinador dos merengues e protagonista, ainda que de forma indireta, nas eleições de dois grandes clubes num curto espaço de tempo: no Benfica foi uma cartada para Rui Costa, na capital espanhola traz consigo a promessa de alguém que vai organizar a casa (outra vez) e ajudar o amigo e candidato Florentino Pérez, que apesar de usar argumentos errados na recente e famosa conferência de imprensa teve no entanto o mérito de abafar a crise no clube e mostrar que ainda tem o perfeito domínio do jogo, tanto no discurso público como no caudal informativo que aponta, de forma inequívoca, para o regresso do treinador português a Chamartín – notícias nunca desmentidas, bem pelo contrário; só os mais ingénuos acreditam que tudo isto não passa de especulação.
Um quarto de século depois, José Mourinho volta a escrever uma história incompleta. Talvez o Benfica seja mesmo um lugar estranho para ele e valha a pena mudar o adágio: Nunca voltes a uma casa onde foste infeliz.
ELEVADOR DA BOLA
A subir
Victor Froholdt, jogador do FC Porto
O melhor jogador do campeonato. Notou-se um FC Porto com e sem ele. Foi, para o meio-campo dos campeões nacionais, o que Gyokeres representou para o ataque do Sporting no passado. Mostrando-se assim na Champions irá garantir grande negócio para o dragão.
A descer
Rui Costa, presidente do Benfica
Prepara-se para conhecer o seu sexto treinador em cinco anos depois de Jorge Jesus, Nélson Veríssimo, Roger Schmidt, Bruno Lage e José Mourinho. Nenhum projeto desportivo sobrevive a tanta instabilidade e o dinheiro de helicóptero já provou não ser a solução."
Mourinho e Rui Costa, e a fuga do navio-fantasma
"Mourinho falhou, mas sai (ou foge) por cima, para Madrid. Rui Costa continua a fugir das decisões, da realidade, das perguntas e do benfiquismo que o empurraria para a demissão
Os dias passam e o tema mais quente continua a ser o Benfica e o tabu Mourinho.
Os encarnados baixaram do segundo para o terceiro lugar com dois empates seguidos e é com naturalidade tremenda que se preparam para deixar fugir o mínimo dos mínimos: a participação nas eliminatórias da Champions.
O Benfica foi incompetente. E não há personificação que valha a Rui Costa e Mourinho, porque o clube aqui são eles. Em todas as outras oportunidades que tiveram para reduzir distâncias e colocar pressão nos rivais — exceto o dérbi de Alvalade, que mesmo assim, segundos antes, podia ter caído para o Sporting — falharam, tal como quando se tratou apenas de confirmar o milagre.
O técnico pintou, mais uma vez, o quadro que quis, o das muitas oportunidades e falta de eficácia. Não é que o Benfica tenha jogado mal, mas andou tremendamente longe de jogar o que pode. De controlar um jogo que estava proibido de largar e deixar escapar.
O setubalense não conseguiu o milagre que ele próprio admite que precisava para devolver títulos ao museu encarnado.
Até podemos concordar no conceito, porém enquanto o treinador visa as arbitragens eu teimo em focar-me no modelo. Esse, o que montou, foi claramente insuficiente. E, aí, é verdade que só mesmo um milagre levaria a conquistas.
O fracasso de Mourinho não surpreende. Escrevi aqui que se tratava de um erro antes de o próprio assinar. E não tinha que ver com a massa crítica. O plantel talvez não fosse tão extremo como gostaria, na fisicalidade, na referência de área que não tinha, no 1x1 de que precisa para criar desequilíbrios e na verticalidade e pragmatismo, mas não era mau ponto de partida.
O futebol que jogou foi medíocre. Os resultados são pobres. Não potenciou um único jogador da formação. E talvez aqueles que mais cresceram — Schjelderup e Prestianni passaram a fazer mais coisas bem — fiquem-lhe a dever apenas a aposta, a partir do momento em que começaram a responder em campo e antes de serem despachados, como foi noticiado, para outras paragens.
Pavlidis não é agora melhor avançado. Ivanovic não se tornou um goleador. Trubin continua a alternar grandes defesas com erros infantis. Tomás Araújo, António Silva, Otamendi, Dedic ou Bah são praticamente os mesmos, uns meses mais velhos. Aursnes é o pêndulo que sempre foi. Dahl e Barreiro tornaram-se os principais rostos da passagem do Special One. E se ambos fossem suplentes ninguém levaria a mal.
Sinceramente, não vejo razão para que Mourinho continue. Há assim tantas certezas de que o processo irá melhorar com outros nomes? Viu-se isso antes, noutros locais?
Rui Costa terá percebido que Mourinho aceita o que outros recusam. Ou aceitava. E não encontra uma melhor solução, o que diz mais sobre si do que sobre o treinador. O Benfica é um navio fantasma, desgovernado, a ameaçar afundar-se, ao mesmo tempo que o presidente ordena aos violinistas que continuem a tocar.
O som está alto, há quem queira dançar. Há jornalistas proibidos de fazer perguntas. Não há lugar para os mensageiros da desgraça. Ou para informar realmente sócios e adeptos. Algo que deveria envergonhar tão grande instituição.
Há quem diga que tanto vale ser Mourinho como qualquer outro, que o problema é Rui Costa. E terá razão na última parte.
Rui Costa não é um líder e nunca o conseguirá ser, o que faz com que um treinador que saiba preencher os vazios que ele deixe acabará por ser mais feliz. Outro que só queira o banco dificilmente terá sucesso ao apenas ouvir o próprio eco. Também um modelo que respeite a cultura do clube, o futebol ofensivo que faz parte do seu ADN, terá mais sucesso no contexto de Liga portuguesa, onde as diferenças levam a demasiados blocos baixos.
Portanto, ter Mourinho ou outro não é bem a mesma coisa. Mesmo que a maior parte da culpa continue a ser de Rui Costa. Que não sabe, nunca soube e dificilmente irá saber.
O que não se entende é porque continua. O seu benfiquismo já o deveria ter empurrado para a demissão. Não é uma questão de tempo, de aprendizagem. É ter e não ter, e não tem.
A contestação só irá aumentar. E em vez de sair adorado pelos adeptos, como acontecia quando era jogador, poderá ver a sua imagem destruída para sempre. Será que não o vê?
A maior prova de amor ao clube, por vezes, é o reconhecimento da própria incapacidade para salvá-lo.
Se não o percebe, pelo menos que faça estas perguntas a si próprio:
«Como quero que a equipa jogue daqui por três, quatro, cinco anos?»
«E como quero lá chegar? Pelo scouting e com jogadores com espaço para crescer, pelo scouting e formação, alicerçados nas referências que existem? Ou, exclusivamente, pelo mercado de jogadores feitos?»
O terceiro passo será escolher treinador que se enquadre na ideia. Enquanto não houver um clube claramente dominador, até se arrisca a ganhar sem que o processo esteja maduro.
Se a resposta à primeira questão for ganhar de imediato, então correrá o risco de andar a montar e desmontar planteis consoante o técnico.
Depois, o clube não pode tratar ativos como Sudakov, Ríos ou Lukebakio como peças descartáveis de época para época. Não se pode dar ao luxo de desdenhar o talento. E é preciso decidir se o futuro passa pela irreverência mais maturada de Prestianni ou pela afirmação de Ivanovic, em vez de andar a colecionar promessas para depois as deixar a definhar no banco. E tem de haver espaço para José Neto e para Banjaqui.
Os ciclos que tem de encerrar são os que se tornaram círculos viciosos. Como os de Otamendi e Rafa. Ou até de Trubin, se se achar que não é o guarda-redes certo. Por fim, valerá ou não encontrar um meio-campo, talvez a três, em que Enzo Barrenechea faça sentido? Dahl e Barreiro serão sempre úteis, já Bah será em breve o terceiro de uma hierarquia que costuma terminar no número 2.
No final da análise, lá faltarão centrais, um problema premente há várias temporadas. Eventualmente um guarda-redes e um lateral-esquerdo mais desequilibrador no ataque. Um extremo direito associativo. E talvez um ou dois médios que saibam o que fazer com a bola e não tenham medo da pressão. Seja aliada ou inimiga.
Não há é nenhuma razão para partir do zero outra vez. A não ser mesmo na forma como se lidera. Ou mesmo em quem lidera."
Injustiça no Tribunal da Luz
"A ironia que marca o final de carreira de Pizzi — ao defrontar o Benfica no adeus apadrinhado pelo Estoril — esteve também bem presente nas voltas que deu a carreira de José Fonte
Os números não dizem tudo, no futebol. Podem até ser mentirosos, se um jogador tem 100% de eficácia de passe porque só joga para trás e para o lado, ou se corre muitos quilómetros, mas sem levar a equipa a lado nenhum. Os dados precisam sempre de interpretação, mas por vezes atingem um patamar tal — de dimensão e regularidade — que só possibilitam uma leitura.
Sete épocas e meia. 360 jogos. 94 golos. 92 assistências. 4 campeonatos, 3 Supertaças, 1 Taça de Portugal e 2 Taças da Liga.
Os números de Luís Miguel Afonso Fernandes não mentem: Pizzi foi um dos melhores jogadores do Benfica. Pelo menos deste século. Encerra agora a carreira, aos 36 anos, com a camisola do Estoril, e logo frente ao emblema da águia, o que reforça o pretexto para lembrar que não teve/tem devido reconhecimento na Luz.
O tempo será melhor juiz, porventura, mas Pizzi saiu do Benfica pela porta pequena, numa cedência apressada ao modesto Basaksehir. Empurrado para fora de forma pouco digna, muito por causa do rumor de que tinha unido esforços a André Almeida e Rafa para forçar a saída de Bruno Lage, algo depois desmentido até pelo próprio treinador.
O Tribunal da Luz foi cruel até na forma como excluiu Pizzi do mural comemorativo dos 20 anos do atual estádio, que reúne duas dezenas de craques de indiscutível qualidade, mas entre os quais estão nomes que muito menos deram ao SLB.
Pizzi merece ser ovacionado na despedida, mas isso nunca será suficiente para compensar a valorização que a Luz lhe deve, ainda que o jogador já tenha dito que ter consciência plena daquilo que deu ao clube vale mais do que qualquer mural.
Também José Fonte vai encerrar a carreira, mas nesse caso importa fazer uma declaração de interesses: sou amigo dele há quase 30 anos. Ainda eu mal sonhava ser jornalista, já ele era um profissional de futebol com 13 anos de idade, muito por influência do pai, Artur, ex-jogador. O Miguel (como eu o conheci) viveu a realidade dos salários em atraso no início de carreira (Salgueiros, Felgueiras, V. Setúbal), assumiu o risco de trocar o Championship pela League One com a (certeira) convicção de que chegaria mais cedo à Premier League. Fez a estreia na Seleção aos 30 anos e conquistou o título europeu aos 32, ironicamente treinado por Fernando Santos, que o tinha dispensado do Sporting e do Benfica. Uma fonte de inspiração para quem cede à adversidade. Bravo!"
Quem rouba a ladrão...!!!
Conta Lá, @ligaportugal pic.twitter.com/R3wyR4Pg0P
— Fever Pitch (@Fever_PitchFC) May 15, 2026
Dani Rojas e a ficção que se torna realidade
"Um dos protagonistas de “Ted Lasso”, uma das séries que me salvou na pandemia, conseguiu um contrato profissional como uma equipa de futebol. Boas notícias. Já o mundo que verá a nova temporada da trama é bem diferente de quando ela apareceu, fresca e otimista, quando achávamos que Trump era um mal de passagem
Cada um teve as suas pequenas salvações durante os confinamentos da pandemia. Eu, que passei os dois sozinha, lembro-me de quão especial se tornou a cervejita que reservava para cada jantar de sexta-feira. Ou da lista das melhores pizzas margaritas de Lisboa que me obcequei a fazer, com muitos e específicos parâmetros de avaliação. Pequenos prazeres em tempos incomuns.
E havia, claro está, à falta de outra, a companhia da televisão. Durante a pandemia houve duas séries que me salvaram. A primeira foi “How To with John Wilson”, uma espécie de canivete suíço, um manual de instruções para momentos específicos da vida. Por exemplo: como fazer conversa de circunstância, como dividir a conta, como cozinhar um risotto perfeito ou, o meu preferido de todos, como montar andaimes, os 28 minutos de televisão que mais me emocionaram nos últimos anos.
John Wilson, etnográfico-mor do novaiorquismo, esteve na última semana em Lisboa para apresentar o seu filme “A História do Cimento” (sim, precisamente, a história do cimento). E eu culpo-vos a todos por ninguém me ter avisado que ele vinha.
E depois houve “Ted Lasso”. Lembrei-me de “Ted Lasso” esta semana porque a ficção verteu para a realidade, à sua escala. Cristo Fernández, o ator que faz de Dani Rojas (“Football is life!”), um dos craques do ficcional A.F.C. Richmond, foi contratado por uma equipa do segundo escalão do futebol norte-americano, o El Paso Locomotive. Não é propriamente a Premier League, mas é um contrato profissional. É uma história bonita, quando elas não abundam.
No verão, a série vai voltar, mas com um plot diferente, focado na equipa feminina do A.F.C. Richmond. Receio é que o espírito da série se tenha perdido para sempre entre os terríveis sinais dos tempos.
A primeira temporada de “Ted Lasso” estreou com o primeiro mandato de Donald Trump a cair de podre, com o ar da mudança a chegar, uma brisa esperançosa de que os anos de trevas estavam a passar e tinham sido apenas um interlúdio enganador. Um mal que se dissiparia, o mundo curar-se-ia naturalmente. Era uma série de comédia otimista e não cínica e, mais, tornava os norte-americanos mais simpáticos aos olhos europeus. Relembrou-nos a todos da importância das palavras de Walt Whitman: sê curioso, não julgador.
Olhando para o mundo hoje, para os Estados Unidos, parece que foi há uma vida e não há apenas seis anos. O interlúdio tornou-se política, ser julgador e não curioso uma forma de estar aparentemente normal, respaldada até por quem manda.
Dificilmente a nova temporada de “Ted Lasso” nos levará de novo para esses dias em que o céu clareava. Que sirva ao menos para dar umas risadas, pronto."
Houston? Soccer nem vê-lo
"Astros para aqui. Astros para ali. Astrologia completa. E não estou nem doido nem ainda afetado pela ultima e gloriosa Missão Lunar. Simplificando: o Houston Chronicle e as suas páginas desportivas, mais preocupados com o team de Baseball da metrópole texana, ligam pouco ao soccer.
A seguir ainda há o famoso draft da NBA e as hipóteses dos Rockets, a famosa marca de Basquetebol. A retirada de PJ Tucker, que o Jornal considera um herói local, pois esteve 14 temporadas na equipa. Um atleta que nunca tendo chegado a um nível superior, ganhou respeito e consideração de todos. E o tal de “ soccer”, esse estranho jogo com os pés mas muitas vezes decidido pelas mãos? O jornal dedica uma crónica à vitoria do Dynamo e aos dois golos marcados por um tal de Jack McGlynn, na vitoria fora sobre o Los Angeles FC!
A um mero mês do início da competição, as nuvens negras acumulam -se e alguns dos receios provocados pela atual situação geopolítica mundial acumulam -se. O Chronicle, como muitos outros periódicos estaduais, preocupa-se com os preços absurdos dos bilhetes, o “dynamic price", que e segundo o Chronicle afasta os simples fans do tal jogo esquisito dos estádios.
O temporariamente intitulado Houston Stadium receberá sete partidas no Mundial. E a montante: nos anos 90 os LA Galaxy jogavam no lendário Pasadena Bowl. Quase todos os fans eram hispânicos e com muito sentido de humor alguém me disse que era para facilitar o trabalho da “Migra”, nome mais fofinho para a inqualificável Ice.
A Oitava sabe que existe algum receio que em 2026 o trabalho da “ Migra” vai ser ainda mais fácil. E fazendo um transfer para as series dos Duffer Brothers, os produtoras da mega famosa Stranger Things), termina mais uma edição especial da Oitava dedicada ao Campeonato do Mundo de FUTEBOL, pedindo emprestado o título de uma das suas séries: Something Very Bad is Going to Happen! Cedo ainda para sentir um mau feeling que esta World Cup pode dar para o torto? Quem sabe, mas em 2030 o Futebol Volta a Casa !!!"
Um dia, tudo mudou
"Sentei-me para escrever este texto poucas horas antes de levantar o meu primeiro troféu como futebolista profissional. Trinta e três anos e um frio na barriga que me faz lembrar dos 13.
Era uma vez uma época que se fez com um início banhado em humildade. A equipa demonstra rapidamente nível de campeão, mas os primeiros jogos são uma sucessão de bolas que batem no poste e... saem.
Fechamos os olhos e estamos no jogo inaugural, em casa, concentração máxima... Expulsão aos 4 minutos de jogo. É difícil imaginar um início mais atribulado. Jogamos, marcamos, e marcamos outra vez; o feeling de campeão. Mas empatamos 2-2. Poucos dias depois, eliminatória da Taça com o Al Shabab, equipa de primeira Liga liderada por Yannick Carrasco. Ao minuto 104 sofremos o golo do empate! Mais uma vez superiores, mas eliminados nos penáltis. No regresso ao campeonato, passamos 45 minutos naquilo que parece um jogo contra juvenis (tal é o nível de campeão que sentimos em campo). Um sólido 1-0 termina 2-3 e mais um banho de água gelada. O jogo mais difícil de digerir da temporada.
O único feeling possível é o de encarar a época por aquilo que estes jogos nos mostravam o que iria ser: um trabalho longo e demorado, cheio de pedras pelo caminho. Pelos vistos, guardámo-las todas. Seguiram-se oito meses de construção do castelo mais alto que esta Liga já conheceu.
No total, podemos falar em nove meses de luxo desportivo no Abha Club: o nosso trajeto fez-se de 28 jogos seguidos (!) sem perder, um domínio sem igual na história deste campeonato e, individualmente, aquele papel de que eu gosto, que me motiva e do qual desfruto — o de liderar um grupo, marcar um ritmo e unir a malta. Curiosamente, a melhor época de sempre veio numa altura em que a minha vida já não se resume apenas às quatro linhas.
Quem não gosta de um bom desafio?
É constante a dicotomia no futebol entre a expectativa dos resultados e a construção de um qualquer caminho de sucesso. A nossa carreira, no seu todo, padece do mesmo mal. A cada final de época, de contrato, tentamos tomar decisões para as quais ninguém nos prepara: o futebol profissional não tem curso de faculdade. Tão-pouco me parece que a indústria queira que o jogador esteja preparado para esses momentos de decisão — fala, aqui, a voz da experiência.
Por trás desta voz está um adepto de psicologia: aquela que dá ferramentas, que gosta de separar bem aquilo que recai ou não sobre a nossa esfera de controlo. Num certo verão, refém daquilo que não, começo um caminho que me traz até esta página, cortesia de A BOLA.
Sempre me fui afastando, tranquilamente, da tradição imposta ao jogador: limitar-se a treinar e a jogar. Nunca fui muito fiel a esse protótipo, mas é curioso que desde os meus primeiros passos conscientes em direção ao Afonso Taira ex-jogador, o sucesso desportivo não me deixa da mão. É chato para os eternos críticos, que depois de uma derrota atiram-se ao pescoço dos que tentam coisas diferentes, mas eu só tenho a agradecer. Quem traz boas intenções começa, sem querer, a perguntar o que queremos fazer depois dos relvados. São pequenos lembretes inocentes de que a idade avança. Se estivermos bem preparados, estes momentos transformam-se apenas na clareza de começar a fazer a transição de carreira bem antes do nosso último golo.
Sou, sim, fiel a caminhos abrangentes. Penso que a minha única especialização em campo é o primeiro toque — tudo o resto na minha vida segue essa influência de interesses pouco individualizados. No relvado, é o coletivo que me inspira. Fora dele, fazendo uma breve visita ao passado, o padrão mantém-se: a licenciatura que escolhi foi em Gestão — possivelmente, um dos cursos menos especializados do cardápio. Caprichosamente, tenho muita dificuldade em responder à pergunta sobre o futuro e, para não destoar, escolhi ser abrangente.
Optei por comunicar porque a voz do jogador profissional tem, quase sempre, data de validade. É feitio — do mundo do futebol, entenda-se. Poucas vozes fazem eco depois da fase dos relvados, ficando pelo caminho muitas ideias, mensagens e histórias que poderiam contribuir para a evolução do nosso desporto. O meu trajeto ditou o Médio Oriente como sede atual futebolística e familiar — o que pode parecer um contrassenso para quem se quer fazer ouvir em Portugal —, mas nunca a minha voz foi tão ouvida.
O meu interesse por futebol, especialmente pelo espaço que ele pode representar para mim no futuro, evolui constantemente e tem ganho formas que também fogem das quatro linhas. Uma das perguntas para as quais não tenho resposta tem a ver com o futebol enquanto produto. Como é que os adeptos do futuro o vão consumir? As perguntas sem resposta são comichões constantes. O formato atual de ver um jogo corrido num estádio ou na televisão parece-me ter muita margem de evolução, e tenho quase a certeza de que o futebol 2.0 terá ao centro uma equipa composta por quem viveu o desporto desde dentro. Por outro lado, tenho em casa uma criança de 6 anos que já se senta a ver futebol como eu próprio nunca fui capaz na minha fase de jogar à bola. Vá-se lá entender a nova geração.
Vivo há três anos na Arábia Saudita e vejo que a visão do futebol como espetáculo está a criar raízes. Observar este fenómeno em primeira mão não apaga aquele ideal de uma noite fria e chuvosa em Stoke, mas o futuro não abranda para ceder passagem. Gosto muito do jogo, de desporto no geral e de tudo o que acontece para alimentar esta engrenagem, mas não ignoro que o mundo gira com a força do poder financeiro, ao contrário do que as leis da física nos tentam dizer. Dito isto, acredito que existe muito espaço para que nós, especialistas na receção e no passe, estejamos em sítios onde não respeitam apenas as velhas tradições do treino ou do agenciamento.
Toda esta preparação na transição de carreira com foco no jogo a jogo pode até ter momentos de investimento sem retorno aparente, mas isso não significa que ele não chegue. Gosto de falar da minha experiência e a verdade é que, recentemente, colhi um fruto que tem tudo a ver comigo: fui convidado para integrar a equipa de gestão de um fundo de venture capital, o COREangels SportsTech, com foco em start-ups europeias de tecnologia para o desporto. Sinto que é um passo importante porque me permite sentir — lá está — que posso contribuir para o desporto da minha vida noutra perspetiva.
Não sei, ainda assim, qual é o timing adequado para dar certo tipo de passos. Estou apenas a atravessar o momento e não a fazer retrospeções, mas se a pergunta fizer comichão a algum leitor, este texto já valeu a pena. No meu caso, os relvados continuam a ser o meu sítio favorito e não penso mudar de habitat em breve. Esta época em Abha foi mais um exemplo de que o futebol são dois dias e regresso agora à primeira frase deste texto.5 de agosto de 2025. Um dia, tudo mudou: a poucas horas de assinar o contrato que me levaria a uma descida de divisão, assino outro que me leva a ser campeão."
O «caso CD Tondela» e os limites da autonomia do futebol
"A recente decisão do Tribunal de Justiça da União Europeia no chamado «caso CD Tondela» é uma das mais relevantes dos últimos anos para o direito do desporto nacional e tem origem no acordo alcançado entre a Liga Portugal e os clubes das I e II Ligas durante a pandemia da covid-19.
O caso remonta a abril de 2020, quando, no contexto da suspensão das competições provocada pela covid-19, os clubes das I e II Ligas assumiram o compromisso de não contratar jogadores que rescindissem unilateralmente os seus contratos invocando motivos relacionados com a pandemia. O objetivo era claro: evitar um efeito dominó de rescisões que pudesse agravar ainda mais a fragilidade financeira das sociedades desportivas.
A Autoridade da Concorrência entendeu, contudo, que esse acordo constituía uma prática anticoncorrencial no mercado laboral desportivo, considerando tratar-se de um típico acordo no-poach, isto é, um entendimento entre concorrentes para limitar contratações. O litígio acabaria por chegar ao Tribunal de Justiça da União Europeia através de reenvio prejudicial.
E a decisão europeia merece uma leitura cuidadosa.
O Tribunal não declarou automaticamente ilegal o acordo. Pelo contrário, reconheceu que o contexto excecional da pandemia e a necessidade de preservar a integridade das competições desportivas são elementos que podem relevar na análise jurídica. O TJUE admitiu mesmo que o acordo possa revelar-se compatível com o direito europeu da concorrência, desde que o tribunal nacional conclua que a medida foi adequada, necessária e proporcional ao objetivo prosseguido.
Jurisprudência europeia reafirma o futebol profissional como atividade económica
Mas há um ponto essencial que não pode ser ignorado: o Tribunal europeu deixou igualmente claro que estamos perante uma restrição manifesta da concorrência no mercado de contratação de jogadores. E isso é particularmente relevante porque reafirma um princípio cada vez mais presente na jurisprudência europeia - o futebol profissional é uma atividade económica e, como tal, não está imune às regras da concorrência.
A decisão acaba por refletir um equilíbrio interessante. Por um lado, o TJUE reconhece a especificidade do desporto e a realidade extraordinária vivida durante a pandemia. Por outro, recorda que a autonomia regulamentar do futebol tem limites e não pode funcionar como uma exceção permanente ao direito europeu.
E talvez seja precisamente aí que reside o principal impacto deste acórdão.
O futebol europeu habituou-se, durante décadas, a resolver internamente muitos dos seus problemas estruturais. Mas as decisões mais recentes do Tribunal de Justiça demonstram uma crescente intervenção do direito europeu em matérias económicas, laborais e concorrenciais relacionadas com o desporto. O caso do CD Tondela surge como mais um sinal dessa tendência.
O processo regressará agora ao tribunal português, que terá de decidir se o acordo era efetivamente justificável à luz das circunstâncias excecionais da pandemia."
O processo de certificação de entidades formadoras
"A Federação Portuguesa de Futebol (FPF) voltou a registar um crescimento no número de entidades certificadas no âmbito do processo de certificação de entidades formadoras de futebol e futsal para a época 2025/26. Ao todo, foram certificadas 1.161 entidades com classificação entre uma e cinco estrelas, mais 84 do que na temporada anterior, representando um aumento de 7,8%.
No total, participaram no processo 1.579 entidades, demonstrando a crescente adesão dos clubes e academias a um modelo que procura elevar os padrões de qualidade da formação desportiva em Portugal. Entre as entidades distinguidas, 23 alcançaram a classificação máxima de cinco estrelas, enquanto 74 receberam quatro estrelas, 643 obtiveram três estrelas, 377 duas estrelas e 44 uma estrela.
A estes números juntam-se ainda as entidades reconhecidas como CBFF (Centro Básico de Formação de Futebol e Futsal), fazendo subir para 1.443 o número total de entidades reconhecidas e certificadas, o equivalente a cerca de 91% das candidaturas submetidas.
A certificação assume um papel central no desenvolvimento do futebol e futsal portugueses. O processo avalia critérios fundamentais como organização, recursos humanos, enquadramento técnico, acompanhamento médico, proteção de jovens atletas, infraestruturas e plano formativo. Desta forma, garante-se que os clubes proporcionam ambientes seguros, estruturados e adequados ao crescimento desportivo e pessoal dos praticantes.
A certificação tornou-se também um elemento essencial para a participação nas provas nacionais organizadas pela FPF, sendo um dos critérios de cumprimento obrigatório quer no processo de licenciamento quer, nas provas não sujeitas a esse processo, nas próprias exigências regulamentares."
Cabo Verde: Bebé, o Tiago que foi da rua para Old Trafford
"Vindo da Casa do Gaiato de Santo Antão do Tojal, em Loures, em 12 meses passou de marcar 40 golos em seis jogos num campeonato de futebol de rua para ser contratado por Alex Ferguson, mas “era impossível afirmar-se numa equipa com os melhores jogadores do mundo vindo da terceira divisão”, assumiu. Faria carreira em Espanha, onde de tempos a tempos marca golos com toques de Puskás.
Os guiões dos filmes sobre desporto são quase sempre exagerados. Irrealistas. Aquilo, simplesmente, não acontece.
O rapaz que cresceu numa instituição, jogando à bola na rua, e que subitamente capta a atenção do futebol profissional. Está uns meses num clube da terceira divisão, lidando com salários em atraso, até que chega à I Liga. Bastam umas semanas de pré-época, uma ou outra exibição inspirada, e um colosso do desporto internacional bate-lhe à porta.
Do anonimato para o estrelato. Da rua para o gabinete do mais lendário dos treinadores do seu tempo. Das margens da sociedade para um contrato milionário.
Um guião desadequado para a realidade. Exagerado. É a vida de Tiago Manuel Dias Correia, que no futebol foi sempre Bebé, tirando quando Jesus decidiu que Bebé era demasiado alto para ser Bebé e resgatou o Tiago.
Para os bebés como Tiago, sonhar costuma ter limites. Filho de imigrantes de Cabo Verde, passou a infância ao cuidado de uma avó, longe dos pais. Foi dela a iniciativa de levar Tiago para a Casa do Gaiato de Santo Antão do Tojal, em Loures, na esperança de um percurso de horizontes menos limitados.
Tiago já era Bebé quando, em 2009, brilhou num campeonato de futebol de rua. Uma equipa de jovens portugueses, escolhida pela CAIS, foi disputar um torneio na Bósnia, onde o adolescente da Casa do Gaiato apontou 40 golos em seis jogos. Seria o passaporte para a equipa principal do Estrela da Amadora.
Amadora, Guimarães, Manchester
Em 2009/10, Bebé era um assomo de alegria num Estrela que, atolado em problemas financeiros, caminhava para a extinção. Os salários chegavam quando chegavam, irregulares. Mas a energia, o físico, a força e o remate do jovem de 19 anos valeram um salto inimaginável quando se cresce com limite para os sonhos. Vitória de Guimarães, um lugar na I Liga nacional.
É aqui, no verão de 2010, que a já incrível ascensão de Bebé ganha toques irrealistas. De coisa que não sucede. De sonho que nem se atreve a ser sonhado.
A pré-temporada mostrou uma coisa desconhecida para o futebol português. Um talento por moldar, um talento bruto, selvagem, que conduzia a bola com urgência, para quem o relvado parecia pequeno, passada de sprinter, fôlego de meio-fundista. O objetivo era ganhar um lugar no plantel do Vitória. Era convencer Manuel Machado. Mas as notícias daquele objeto futebolístico não identificado chegariam mais longe.
Um olheiro em Portugal identificou o talento a Sir Alex Ferguson. Houve rumores de intervenção de Carlos Queiroz, então selecionador nacional nos entretantos em que não discutia com as autoridades anti-doping, governamentais ou com pesos-pesados do balneários pós-África do Sul.
Num dia de verão, o choque. Bebé para o Manchester United por €9 milhões. A contratação foi realizada sem que o contratado tivesse passado pelo olhar de Ferguson, sincero ao dizer que jamais vira o futebolista — ainda sem ter sequer uma posição definida, para alguns extremo, para outros segundo avançado, eventualmente médio-ofensivo — em ação.
No dia da apresentação, o jovem apareceu sem as rastas que o caracterizaram durante as efémeras semanas de Guimarães. A razão encontrava-se num recado de Sir Alex, que, ao ver Bebé no seu gabinete pela primeira vez, sugeriu que era preciso uma “mudança de imagem”. O cabelo foi cortado nessa mesma tarde.
Sem acreditar na sua própria realidade, passou de auferir — quando recebia — €1.100 por mês no Estrela para €97 mil no United. Ao receber o primeiro ordenado, pensava que era o pagamento por cinco meses, e não por um.
No entanto, o salto foi demasiado grande. “Foi complicado, vim da terceira divisão, nem joguei em Guimarães e fui para o Manchester. Era impossível afirmar-se numa equipa com os melhores jogadores do mundo vindo da terceira divisão“, diria, anos depois, ao ZeroZero. ”Não me deram tempo", completou ao Sapo Desporto.
Seriam apenas sete jogos pelos red devils, com dois golos. Há quem o rotule de flop, de precipitação, de um dos maiores erros de Ferguson. Para o Bebé da Casa do Gaiato, foi o início de uma carreira profissional, algo impensável pouco antes.
Houve uma passagem redentora pelo Paços de Ferreira, com ajuda de Jorge Costa, seguida do Benfica, o clube do coração, quando Jorge Jesus se recusou a chamá-lo Bebé — “Bebé? É Tiago! Não posso chamar bebé a um homem que tem 1,90 metros“ — e lhe disse: ”Tens um mês para te adaptar ao sistema do Benfica, à tática, se não, vou emprestar-te". Não resultou.
Bebé, que chegaria à seleção de Cabo Verde para fazer 27 partidas, marcando seis golos e sendo importante na caminhada até aos quartos de final da CAN 2023, protagonizaria uma respeitável trajetória em Espanha. Representou Córdoba, Rayo Vallecano, Eibar, Zaragoza e Racing de Ferrol, sempre entre a primeira e a segunda divisões, com 247 encontros divididos pelo dois primeiros patamares do país vizinho. Aos 35 anos, já em declínio, encontra-se no Ibiza, do terceiro escalão.
Foi havendo, ao longo da década de Bebé em Espanha, vislumbres do talento de rua que o levou a Old Trafford. Espécies de memórias futebolísticas daquela explosão de 2010. De tempos a tempos, há um remate feito a 30 ou 35 metros da baliza adversária, um tiro muitas vezes desprovido de sentido tático, selvagem, instintivo, como uma finalização de futebol de rua. São resquícios de outro tempo na vida de Bebé. É certo que muitas dessas ações acabam nas ruas adjacentes aos estádios espanhóis, mas algumas terminem em golos, em Puskás em potência. São lembranças da força e do talento que tornaram real um guião que levaria ao despedimento de quem o apresentasse para a realização de um filme."
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