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segunda-feira, 2 de março de 2026

Observador: E o Campeão é... - Villas-Boas volta aos velhos hábitos e Mourinho toca na ferida?

Terceiro Anel: 122 ANOS DE GLÓRIA: Desabafo de um Benfiquista em dia de Aniversário!!

O Relatório e Contas do SL Benfica SAD do 1º semestre da época 2025/26

O grande Paulo Futre


"Futre fez 60 anos e permanece relevante bastante depois do derradeiro aplauso dentro de campo. Reinventou-se com inteligência, sentido de humor e, sobretudo, autenticidade. 'Hat trick' é o espaço de opinião semanal do jornalista

Paulo Cunha Paulo Jorge dos Santos Futre comemorou o 60.º aniversário no sábado, 28 de fevereiro. Um número redondo que convida a puxar pela memória para recordar o trajeto de um dos melhores jogadores portugueses de sempre, capaz de se sentar à mesa dos maiores da geração dele à escala planetária.
Velocidade estonteante, drible em progressão, cabelos ao vento, um estilo quase insolente enquanto deixava adversários perdidos e de rins em mau estado, alguns dispostos a fazer-lhe pagar as diabruras com entradas a matar que na atualidade seriam crime com castigo. Quantas temporadas teria jogado mais se tivesse beneficiado da proteção dada hoje pelos árbitros aos grandes talentos?
Da estreia oficial pelo Sporting, a 27 de agosto de 1983, pela mão de Jozef Venglos, até pendurar as chuteiras com a camisola dos japoneses do Yokohama Flugels, a 26 de setembro de 1998, escreveram-se páginas que resistem à erosão do tempo. Assim de repente, porque o esquerdino do Montijo é um daqueles génios inesquecíveis, lembro-me de uma série de episódios marcantes sem recorrer ao amigo Google…
Após a saída do clube leonino, aos 17 anos, já internacional na principal Seleção Nacional, rumou ao FC Porto, sagrando-se bicampeão nacional e vencedor da Taça dos Clubes Campeões Europeus. Nesse duelo do Prater com o Bayern por pouco não marcou um golo sublime, jogada de craque e finalização de jogador dos distritais, conforme reconheceria. A Bola de Ouro que lhe devia pertencer, em 1987, acabou nas mãos de Rudd Gullit, a mostrar que o segundo lugar é mesmo o primeiro dos últimos.
À boleia de um Porsche amarelo ajudou Jesús Gil y Gil a sentar-se na cadeira de sonho do Atlético de Madrid, relação de amor e ódio que assinalou uma era no futebol espanhol. Ainda hoje vibro com a conquista da Taça do Rei pelos colchoneros em pleno Santiago Bernabéu diante do Real Madrid, em 1992, numa das mais memoráveis exibições do nosso Paulinho, autor do segundo golo no 2-1 final — e aquele túnel a Chendo na linha de fundo…?
Com a RTP a dar uma mãozinha, regressou a Portugal para representar o Benfica, pretendido também pelo Sporting presidido por Sousa Cintra. No imaginário de quem viveu os anos 90, impossível não evocar com um sorriso aquela aparição no relvado da Luz, antes de um Benfica-FC Porto para a Taça de Portugal, à medida que gritava, ao lado do presidente encarnado, Jorge de Brito, «é ganhar c…, é ganhar c…».
Que bela viagem na cruel máquina do tempo que teima sempre em transportar-nos de volta para o presente.
Paulo Futre consegue permanecer relevante bastante depois do derradeiro aplauso dentro de campo. Reinventou-se com inteligência, sentido de humor e, sobretudo, autenticidade, apesar de nunca terem chegado os prometidos charters de chineses. Se a comunicação no mundo do futebol é demasiadas vezes calculista e previsível, ele preservou a espontaneidade. Ri-se dele próprio, aceita os excessos do passado e encara o desporto-rei com paixão contagiante. É uma figura transversal, admirada por adeptos de diferentes clubes, algo raro num país no qual as rivalidades se sobrepõem ao reconhecimento do mérito individual.
Aos 60 anos, Paulo Futre continua a provar que os verdadeiros artistas jamais saem de cena — apenas mudam de palco."

Infraestruturas: uma oportunidade estratégica para o futebol português


"Não se trata apenas de colocar uma cobertura numa bancada. O que se impõe é um verdadeiro plano nacional de infraestruturas, em que o futebol profissional, com o apoio da Liga e da FPF, tem necessariamente de ser exemplo. 'Tribuna livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de André Baptista, gestor desportivo e ex-presidente da SAD do Torreense

Imagine que, numa sexta-feira à noite de janeiro, sob chuva intensa e vento frio, tem de explicar aos seus filhos por que razão vale a pena ir ao jogo. As bancadas são descobertas, chove e a água acumula-se entre as filas, o vento e o frio atravessam o estádio... e o bar tem filas longas e uma oferta pouco apelativa — para um jogo que começa às 20h00, já numa hora pouco compatível com a rotina familiar. A experiência nada tem de confortável. A paixão até pode ajudar a vencer o conforto caseiro num dia ou outro, mas isso é uma exceção. Que não é de todo suficiente para garantir o envolvimento das gerações vindouras na rotina do estádio.
O futebol português discute competitividade, centralização de direitos televisivos e modelos de distribuição de receitas, entre outros pilares cruciais. No entanto, há um fator estrutural que influencia todas condições de valorização do produto e que continua a merecer atenção insuficiente: as infraestruturas.
Estádios, relvados e centros de treino não são apenas ativos físicos, mas sim elementos determinantes para a experiência do adepto, para a qualidade do jogo e para a valorização do principal capital do futebol português: os jogadores. A experiência do estádio é hoje um fator decisivo. Se os clubes não evoluírem neste plano, o risco não é apenas a ausência momentânea de público, mas uma quebra estrutural na renovação geracional dos adeptos. Num contexto em que os chamados três grandes têm sempre uma base consolidada, os clubes de dimensão média e regional são os mais expostos a perder identidade, público e relevância local.
Casos como FC Famalicão, Casa Pia, Estoril Praia ou Estrela da Amadora ilustram bem esta realidade. O Famalicão consolidou-se como um projeto moderno, exportador de talento e financeiramente estruturado, mas o crescimento desportivo foi mais rápido do que a evolução do Estádio Municipal 22 de Junho, evidenciando como a infraestrutura pode tornar-se um fator limitativo mesmo quando existe competência de gestão. O Casa Pia protagonizou uma subida histórica e estabilizou-se na Liga, mas viu-se impedido de competir no seu estádio, diluindo a ligação à comunidade e dificultando a consolidação de uma base de adeptos.
O Estoril Praia tem sido consistente na valorização de jovens talentos e na profissionalização da sua estrutura, porém o Estádio António Coimbra da Mota reflete as dificuldades de adaptação a um futebol cada vez mais exigente em termos de experiência e produto televisivo. Já o regresso do Estrela da Amadora ao principal escalão devolveu um símbolo da periferia lisboeta ao mapa do futebol nacional, mas o Estádio José Gomes, apesar do seu valor histórico, evidencia a necessidade de modernização para acompanhar a ambição competitiva do clube.
Em muitos destes casos, estamos perante estádios municipais onde a margem de intervenção estrutural é reduzida. A ambição existe, a competência de gestão também mas a infraestrutura não acompanha o ritmo da exigência competitiva e da experiência que o futebol moderno requer. Esta discrepância cria um bloqueio estrutural: projetos desportivos organizados e sustentáveis ficam limitados por condições físicas que não refletem a evolução do próprio jogo.
Melhores estádios significam mais do que cadeiras novas ou um design moderno. Significam mais público, maior regularidade de assistência, mais famílias, mais jovens e melhor ambiente. Um estádio confortável e funcional puxa pela equipa da casa, cria pressão positiva, valoriza o espetáculo e melhora a imagem do futebol português, tanto para quem está presente como para quem acompanha pela televisão. Mesmo num cenário de maior centralização de receitas, um bom relvado e uma infraestrutura que proporcione uma experiência qualificada valorizam o produto global que é o futebol português.
A qualidade dos relvados tem igualmente impacto direto e imediato. O piso influencia o jogo, a componente técnica, a integridade física dos jogadores e a própria identidade do futebol praticado. Num país reconhecido pela sua capacidade técnica e pela formação, jogar sistematicamente em más condições limita o desenvolvimento individual e coletivo e empobrece o espetáculo. Proteger e modernizar os relvados é proteger o ativo mais valioso do futebol nacional.
A questão dos centros de treino é outro pilar essencial deste ecossistema. Clubes com estruturas próprias conseguem planear melhor, proteger os relvados principais e oferecer condições adequadas à equipa sénior e aos escalões jovens. Portugal é, por natureza, um país exportador de talento. Valorizar o capital humano passa inevitavelmente por criar melhores condições de desenvolvimento, mas também por atrair novos talentos para as camadas jovens, algo que se exponencia quando as infraestruturas são uma mais-valia competitiva.
É aqui que a relação entre sociedades desportivas e autarquias se torna decisiva. Os clubes são, muitas vezes, os maiores embaixadores das suas regiões. Um projeto estruturado, competitivo e com boas condições atrai público local e visitantes, dinamiza a economia, aumenta a visibilidade do território e reforça a identidade regional. Investir em infraestruturas desportivas não é apenas apoiar um clube; é potenciar um ativo estratégico da própria comunidade.
No fundo, está tudo interligado. Melhores infraestruturas atraem público; o público dinamiza o jogo; o jogo valoriza os jogadores; os jogadores valorizam os clubes; e os clubes fortalecem o futebol português. Investir em estádios, relvados e centros de treino não é um luxo nem uma crítica ao passado. É uma oportunidade estratégica para proteger a identidade regional, elevar a qualidade do produto e garantir um futuro mais sustentável ao futebol português.
Se queremos afirmar o futebol português como um produto competitivo, valorizado dentro e fora de portas, capaz de formar talento e de atrair novas gerações aos estádios, podemos continuar a discutir modelos de receita e centralização sem colocar a experiência do adepto e a qualidade das infraestruturas no centro da estratégia? E não, não se trata apenas de colocar uma cobertura numa bancada. O que se impõe é um verdadeiro plano nacional de infraestruturas, em que o futebol profissional, com o apoio da Liga e da FPF, tem necessariamente de ser exemplo — no desígnio comum, na capacidade coletiva de financiamento e concurso a fundos e linhas de apoio, na capacidade política junto de autarcas e governantes, e, por fim, numa exemplar capacidade de execução."