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sexta-feira, 27 de março de 2026

Renascença: Jogo da Palavra - Carlos Godinho

Lanças...


História Agora


Um destino pior que a morte


"«Toda a gente fala da carência que existe hoje de árbitros, mas eu gostava de saber quem é que quer ir para árbitro»
Artur Soares Dias, antigo árbitro português, após conferência em Cascais

Podes conhecer o mundo, diziam. E é uma maneira de ganhares algum dinheiro. E mais uns quantos argumentos que fizeram a filha de um amigo tirar um curso de arbitragem e começar a apitar. Aguentou dois anos.
O desporto, sobretudo na adolescência, envolve muitos sacrifícios. São os treinos, são os fins de semana com compromissos, as noites em que não se pode estar com amigos. Para quem o faz por paixão, há recompensas — como qualquer praticante o dirá. Eu, que fui federado em basquetebol até aos 17 anos, não trocaria essas noites ou fins de semana perdidos pela camaradagem, pelas amizades, pelo prazer de jogar e competir.
Mas quando a recompensa das noites e fins de semana perdidos é ser-se insultado, ameaçado, tantas vezes agredido, é difícil fazer as contas e achar que vale a pena. Sobretudo porque, admitamos, poucos têm verdadeira paixão por arbitrar. Se tiverem um filho na escola, perguntem à turma, à escola inteira — quem sonha ser jogador de futebol? e quem sonha ser árbitro?
Se um miúdo em cem responder que quer ser árbitro, aconselho rápida ida ao psiquiatra. Pode até estar tudo bem, mas não é normal desejar um destino pior que a morte. E enquanto não mudarmos mentalidades, enquanto continuar a haver insultos, ameaças, agressões, nunca será resolvida a carência de árbitros."

Legends: Borrusia 1 - 1 Benfica

Zero: Saudade - S04E29 - Barroso...

SportTV: ReporTV - Fora de Estrada...

DAZN: F1 - Antevisão GP do Japão

Ronaldinho, a alegria do futebol


"No passado sábado, Ronaldinho celebrou o 46.º aniversário. E quando este jogador faz anos é o futebol que está de parabéns. «Quando tens uma bola de futebol nos pés, tu estás livre. Tu estás realmente feliz», nas palavras de Ronaldinho Gaúcho. E talvez seja mesmo isto que tanta gente tenta explicar sem nunca conseguir dizer tão bem.
Porque não se trata só de futebol. Trata-se de um estado raro, quase invisível, em que o tempo abranda e o mundo é muito mais leve. É aquela «gaveta do nada» fantástica, onde estamos realmente a aproveitar o momento. É curioso como esse tipo de felicidade não grita e, ainda assim, não falta nada naquele momento. É por isso que tantas pessoas voltam sempre ao mesmo. Ao futebol, à música, ao mar, à corrida... Qualquer coisa que as leve de volta a essa gaveta. Porque lá dentro não há obrigações nem fretes.
Ronaldinho Gaúcho foi tudo isso, e muito mais, no topo do desporto-rei. O camisola 10 não foi apenas um jogador de futebol, mas sim um estado de espírito. Um lembrete vivo de que o jogo, antes de ser tática e estatísticas, é alegria. É liberdade e arte.
Quando o futebolista brasileiro estava em campo, algo mudava. O futebol deixava de ser previsível e tornava-se surpresa. Cada toque na bola parecia carregado de imaginação, como se ele estivesse a brincar na rua, descalço, sem pressão, sem medos. O sorriso constante, mesmo nos momentos mais difíceis, dizia tudo. Para ele, jogar nunca foi um peso, foi sempre um autêntico privilégio.
Hoje, vivemos uma era em que o futebol é cada vez mais físico e mais controlado. Os jogadores são atletas quase perfeitos, as equipas funcionam como máquinas afinadas, cada movimento parece calculado ao milímetro e as amarras táticas falam mais alto do que a imprevisibilidade. Também há beleza nisso. Mas é uma beleza diferente. Mais eficiente do que espontânea.
Ronaldinho era o contrário disso tudo. Era o improvável. O gesto que ninguém esperava. O drible que parecia impossível. Ele jogava com a leveza de quem não precisava de provar nada a ninguém. E talvez por isso tenha provado tudo. Era o futebol em estado puro. Na verdadeira essência da palavra.
Comparar Ronaldinho aos tempos de agora é quase comparar um poema a um relatório. Ambos têm valor, mas só um faz o coração bater mais rápido. Num mundo cada vez mais sério e acelerado, ele foi a prova de que jogar com um sorriso pode ser a maior forma de genialidade.
Quando se fala de Ronaldinho Gaúcho, os 15 troféus conquistados ao longo da carreira são quase um detalhe. Uma das mais bonitas histórias aconteceu quando jogava no Barcelona, no El Clásico contra o Real Madrid, no Santiago Bernabéu. Depois de marcar dois golos incríveis, com dribles que deixaram toda a defesa perdida, algo raro aconteceu. Os adeptos do Real levantaram-se e aplaudiram-no, completamente rendidos ao futebol em estado puro. Num dos palcos mais difíceis do mundo, Ronaldinho não foi vaiado. Foi celebrado. Não como adversário, mas sim como um verdadeiro artista.
Há também a famosa história ocorrida na sua infância. Ainda jovem, num jogo de futsal, Ronaldinho marcou todos os golos da sua equipa numa vitória por 23-0. Mais do que o número, impressiona a naturalidade com que isso é contado. Como se já ali fosse inevitável que ele seria realmente diferente.
Ronaldinho Gaúcho nunca pareceu obcecado por ser o melhor do mundo. Talvez por isso tenha sido, à sua maneira, absolutamente único no mundo do futebol. As histórias dele não são só sobre vencer. São sobre encantar e inspirar. E isso, no desporto atual, é talvez o troféu mais raro de todos."

Orgulho de pertença


"O termo belonging ou pertença tornou-se um dos desafios mais críticos e também um dos maiores ativos no desporto nos dias de hoje. Num contexto de globalização, digitalização e crescente necessidade de aumentar as receitas, os clubes enfrentam um desafio estrutural: manter os adeptos, torná-los fiéis (em alguns contextos mundiais, a nova geração é bastante mais fiel aos atletas do que aos clubes) e transformá-los em participantes ativos, e não apenas consumidores ocasionais. A diferença entre estes estados define aquilo a que chamamos massa adepta, a sustentabilidade emocional (talvez o valor mais desafiante e diferenciador) e a vertente económica dos clubes.
Nos modelos associativos, como os grandes clubes portugueses, existe uma base histórica de pertença assente em identidade, território e participação formal. O sócio vota, influencia, critica ativamente e, em muitos casos, sente que o clube é uma extensão da sua própria identidade e que tem poder de decisão no seu futuro.
No entanto, este modelo traz grandes desafios. A nova geração exige proximidade contínua, muito mais transparência e experiências relevantes no dia a dia, não apenas em momentos de jogo ou em atos eleitorais.
Nos clubes com propriedade privada, o desafio é mais estrutural. A ausência de mecanismos formais de participação limita o sentimento de pertença emocional e orgânica. O adepto tende a posicionar-se como cliente de um produto de entretenimento, altamente competitivo, mas emocionalmente mais distante (Liverpool é um bom exemplo deste equilíbrio muito ténue). Nestes casos, o belonging é construído através de estratégias consistentes de engagement, narrativa e inclusão simbólica. Ou seja, casos como o do clube italiano Como, que torna a ida a um jogo numa experiência quase gourmet, com valores a rondar os mil euros, para que, durante o pré, durante e pós-jogo, os interessados possam ter outras experiências e, por vezes, o jogo fique quase para segundo plano.
O principal desafio para os próximos anos está na capacidade de operacionalizar a pertença. Isto implica três eixos muito críticos. Primeiro, acesso: criar canais reais onde o adepto sente que a sua voz é considerada (o grau de influência também varia consoante as culturas de cada país e as culturas organizacionais dos clubes). Segundo, continuidade: manter uma relação permanente, com conteúdo, experiências e interações relevantes fora do ciclo competitivo, e não aparecer apenas quando é preciso financiamento ou em momentos eleitorais. Terceiro, identidade: preservar a autenticidade num ambiente cada vez mais padronizado e orientado para escala global.
A tecnologia pode ajudar, mas não resolve o problema por si só e pode até tornar todo o processo demasiado plástico. Plataformas digitais, dados e personalização só geram valor se estiverem alinhados com uma proposta clara de inclusão. Caso contrário, reforçam o consumo, não a pertença.
O risco estratégico é claro: clubes que não conseguirem evoluir de audiência para comunidade perderão relevância emocional, mesmo que mantenham sucesso desportivo ou financeiro no curto prazo. O futuro não será definido apenas por quem ganha, mas por quem consegue fazer com que mais pessoas sintam que fazem parte."

Portugal de Pessoa é muito maior do que o dos venturas


"No dia do Livro Português, podemos (re)ler a Mensagem de Fernando Pessoa e perceber que Portugal é uma missão, uma ideia do tamanho do mundo, não um pequeno retângulo monocromático...

Há mais de cinco séculos, as caravelas portuguesas percorreram mares nunca antes navegados, acrescentando mundos ao Mundo. Sempre sonhei que Portugal se completasse cinco séculos depois como o centro do Mundo onde todos vêm dar. Uma viagem em sentido inverso. Portugal como o país europeu mais a sul; país africano mais a norte; país americano mais a nascente e país asiático mais a ocidente. Que reunisse a excelência do Mundo e a paixão de quem quer partilhar connosco caminho, com respeito absoluto por quem somos, mas sem terem de abdicar da identidade que trazem e que podem acrescentar à nossa. Um Portugal que fala várias línguas, canta vários estilos musicais, prova vários sabores, reza vários credos sem que tenhamos de abrir mão do português, fado, bacalhau ou missa.
Gerson Baldé nasceu em Albufeira e tem raízes guineenses; Agate de Sousa nasceu em São Tomé e Príncipe; Isaac Nader nasceu em Faro, filho de pai marroquino. São apenas os três mais recentes galardoados por feitos no atletismo ao serviço de Portugal. Uma história comum a tantos desportistas de eleição que competem e competiram por Portugal. O país que é meu e que é deles. De direito, de nascença ou de coração. País universal, diverso e tolerante. Assim não tenhamos a desventura de estragar tudo. E saibamos integrar, com controlo e de forma faseada, não um faz de conta de portas sem escrutínio.
Porque hoje é o Dia do Livro Português, porque não (re)ler A Mensagem de Fernando Pessoa? Que nos fala da ideia de que Portugal não é apenas um país, uma realidade geográfica confinada num pequeno retângulo. Portugal é uma missão espiritual e universal. Uma identidade que se realiza no encontro com o outro, com o mar, na viagem e no desconhecido. Deixando e colhendo impressões digitais. Tornando-se muito maior do que o tamanho geográfico. O meu País tem o tamanho do Mundo, não o façam pequeno ao querer que seja monocromático…

Desporto não tem de pedir desculpa
Recebi um simpático email de um fiel leitor, que muito aprecio, a questionar a febre presidencial a que António José Seguro já se terá rendido de receber e condecorar atletas por feitos desportivos. Como se não houvesse mais portugueses, com atividades mais relevantes, segundo o próprio, para condecorar.
Vejamos: não contando com Seguro, que está a começar, Marcelo Rebelo de Sousa condecorou quase 2300 pessoas. Dessas, cerca de 400 eram desportistas, um pouco abaixo de 20 por cento. Nomes como a notável investigadora Elvira Fortunato; o professor Manuel Heitor; os diplomatas Aristides Gonçalves e Vitor Sereno; o banqueiro António Horta-Osório; a pianista Maria João Pires ou a artista plástica Joana Vasconcelos; e muitos agentes económicos e culturais, em Portugal e pelo Mundo, foram galardoados no passado recente.
O desporto não tem de pedir desculpa por receber mais atenção do que outras atividades. É uma atividade importante. Económica e social. Para a projeção e auto-estima de um país. O mal nunca esteve no destaque que se dá ao desporto. O mal está na falta de interesse e divulgação em quase todas as demais áreas."

Pogacar é um génio perigoso


"Ninguém sabe como parar o corredor esloveno, na sua ambição de reescrever a história do ciclismo. A cada etapa, a cada, prova nova lição de superioridade que já parece normal. E se é normal, como viveremos perante a dura realidade da nossa pequenez?

Gosto de Tadej Pogacar, confesso. Quando penso que já não pode surpreender, eis que se reinventa e volta a deixar todos de boa aberta. Em San Remo, naquele monumento que lhe faltava caiu a 33 quilómetros da meta. «Acabou» exclamaram todos os entendidos, com razão. As imagens da televisão mostravam o caos. Rasgado, ensanguentado, levantou-se e voltou à estrada. De forma inacreditável, como se não sentisse dor, sofrimento ou medo. Encontrou forma de ganhar ao sprint. Quatro centímetros. Por quatro centímetros, transformou a corrida numa vitória impensável, memorável.
E ninguém questionou esta exibição de superioridade por se tratar de Pogacar. Parecia normal, foi normal, por ser Pogacar, que já mostrou que nada está fora do seu alcance. Mais do que ler – e li – as centenas de comentários nas redes sociais que cada vez mais questionam a naturalidade da sua competência e agitam a eterna e resistente bandeira do doping, colada irremediavelmente ao ciclismo, pergunto-me até onde esta normalização dos seus feitos nos levará.
Atacou, insistiu, venceu. No final, soube-se que o fez com uma bicicleta danificada, travões comprometidos! Como se não bastasse apenas a sua exibição de superioridade, ainda somos confrontados com mais este doce pormenor. Como não adorar um enredo destes?! Um final feliz para um herói que nem é particularmente expressivo ou entusiasmante, quando salta da bicicleta.
Às vezes, parece que oiço o saudoso Fernando Emílio e imagino o que diria de Pogi. Uma parte sei, mas não posso reproduzir aqui por pudor, ainda que a ideia me faça sorrir ao imaginar aquele sotaque alentejano a reproduzir as suas teorias.
Gosto de Pogacar, gosto dos heróis, mas questiono se estaremos a normalizar a sua superioridade e por que caminho isso nos leva. O problema não é o esloveno – assim espero, porque ninguém aguentaria mais um herói com pés de barro - que é, provavelmente, o ciclista mais completo da sua geração. Ou de várias gerações. O problema é o que projetamos nele. A necessidade quase infantil de transformar cada vitória num feito épico, cada risco numa virtude, cada limite ultrapassado numa prova de grandeza moral. E quando tudo isto for normal, então o que é que deixa de ser?
Chamam-lhe génio. Talvez seja. Mas há uma linha ténue entre o génio e a exceção perigosa — aquela que reenquadra o padrão e obriga todos os outros a segui-la. Quando o impossível se torna norma, o desporto entra num território onde ganhar já não chega — é preciso sobreviver ao absurdo para merecer.
Pogacar não tem culpa disso. Ele corre. E ganha. Como sempre se pediu aos campeões. O problema não é Pogacar não ser normal. É começarmos a achar que isto devia ser."