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quarta-feira, 1 de abril de 2026

Sono, emoção e juízo


"1. É verdade que o jogo com o Vitória SC, no sábado passado, não foi grande coisa. Houve até quem admitisse que aqueles 90 minutos, correspondentes ao desafio da 27.ª jornada, deram ao público mais sono do que emoção. Quem viu o jogo não terá grande dificuldade em concordar com isto. Jogando na Luz, a equipa de Guimarães somou mais posse de bola, mais remates e mais pontapés de canto, mas nada que motivasse sobressaltos nas bancadas.

2. Quanto ao Benfica, somou mais golos. Somou exatamente 3 golos, e não tendo o Vitória SC somado nenhum golo, nem nada que se parecesse, o resultado quedou-se num 3-0 favorável às nossas lindas cores. Por muito sensaborão que tenha sido o jogo com o Vitória SC, não há nada que retire o mérito do triunfo do Benfica. A eficácia foi premiada e, desde sempre, a eficácia é um dom. Esse dom tem-nos faltado, às vezes.

3. Tivesse o Benfica sido eficaz nos 5 jogos que empatou em casa nesta Liga de 2025/26 e não teria desperdiçado os 10 pontos que tanta falta nos fazem, quando restam 7 jornadas para o fim da longa prova. É em casa que se ganham e se perdem campeonatos. Percursos imaculados em casa são atributos do campeão. Nesta edição do campeonato, o Benfica empatou 5 vezes em casa – uma enormidade de esbanjamento – e empatou apenas 3 vezes fora de casa, o que é um registo aceitável.

4. Voltando ao jogo com o Vitória SC e ao sono que terá provocado, convenhamos que é bem melhor ter sono e ganhar 3-0 do que não ter sono e não ganhar.

5. O Estádio da Luz, outrora conhecido nacional e internacionalmente como o Inferno da Luz, por ser infernal para as equipas visitantes, não pode ser infernal para os donos da casa. Como é que se dá a volta a esta situação? Ora, ganhando, ganhando sempre, seja quem for o adversário, seja qual for a competição. O Benfica tem de voltar a habituar- -se a ganhar sempre em casa. Os adversários do Benfica têm de se habituar a perder sempre na Luz. E os árbitros que apitam os jogos do Benfica têm de habituar-se a respeitar sempre o Benfica, quer o jogo seja na Luz ou fora da Luz.

6. Esta questão do respeito é merecedora de atenção. No jogo em Arouca, a contar para o Campeonato, quis-me parecer que o árbitro de serviço – o seu nome, francamente, pouco importa – desrespeitou, com gesticulação absurda, o capitão António Silva e, para mais, mostrou-lhe um cartão amarelo quando Silva se dirigia ao juiz da partida em termos exemplarmente cordatos.

7. É verdade que se deve exigir sempre aos jogadores que tenham juízo. Mas também é legítimo exigir aos árbitros exatamente a mesma coisa. Com juízo tudo melhora."

Leonor Pinhão, in O Benfica

A um atleta desconhecido


"MANUEL OLIVEIRA DE SOUSA É UM EXEMPLO QUE TAMBÉM MERECE SER RECORDADO.

A memória desportiva tem a natural tendência de recordar, por norma, os nomes dos atletas que mais se destacaram na sua área de atuação. Contudo, passaram pelo Sport Lisboa e Benfica inúmeros atletas “desconhecidos” que deixaram a sua marca e que também fazem parte da história do Clube.
Manuel Oliveira de Sousa é um desses atletas, tendo praticado andebol e hóquei em campo pelos encarnados, desde os anos de 1940 até ao virar dos anos de 1960. O seu percurso no Benfica teve início em 1944, quando foi aprovado como sócio, aos 13 anos. Em 1949/50, começou a praticar andebol de 11, começando pelos juniores e ascendendo até à equipa principal em 3 épocas. Apesar de não ter conquistado títulos nesta modalidade, as suas atuações tiveram algum eco na imprensa da altura, como na seguinte crítica: “Ao intervalo ganhávamos por 2-1, golos de Oliveira, que aproveitou uma abertura no centro do terreno para se infiltrar e marcar vitoriosamente.” Eclético, praticou também hóquei em campo durante 8 épocas pelos seniores, oscilando entre as reservas e a equipa principal. Começou igualmente em 1949/50, fazendo a seguir uma pausa nesta modalidade e retomando a sua atividade em 1953/54. Foi um recomeço auspicioso, sagrando-se campeão de Lisboa de reservas.
Viria a interromper, mais tarde, a sua atividade desportiva, retornando em 1957/58, período que seria coroado com a conquista de dois Campeonatos de Lisboa de reservas, em 1959/60 e 1960/61. Neste último, o hoquista de campo alinhou no jogo que deu o título ao Benfica, tendo marcado um dos golos da vitória, por 6-0, frente ao Palmense. E foi com esta chave de ouro que encerrou a sua carreira desportiva no Benfica.
Manuel Oliveira de Sousa foi um atleta entre muitos que merecem e têm o direito de ser relembrados. Saiba mais sobre outros desportistas que contribuíram para o engrandecimento do Sport Lisboa e Benfica na área 3 – Orgulho Eclético, do Museu Benfica – Cosme Damião."

Lídia Jorge, in O Benfica

Conheceram-se no Tinder


"Dois presidentes de clubes de futebol entram num bar. O que se diz mais abastado começa a contar a sua história e como ali chegou. Está hoje bem na vida, depois de uns amigos lhe terem emprestado dinheiro e nunca lho ter pago de volta. Mas tudo legalmente, defende-se. Não tem muito jeito com as palavras, mas lá consegue explicar, depois de 15 minutos de banalidades, que quem pagou foram os contribuintes. E ri-se. Como tem excelentes relações no campo da Justiça, puxou uns cordelinhos e viu-se sempre afastado de problemas judiciais, sejam suspensões por cartões amarelos, agressões selváticas em campo ou manobras financeiras duvidosas. E quando me questionam, confessa, bato muitas vezes no peito e digo que sou diferente.
O outro presidente, moço novo e de boas famílias, mas com a conta no vermelho há vários anos, escutou-o com pouca atenção. Estava ali porque precisava de um favorzinho. No meu caso, começou, herdei uma dívida monstruosa, financeira e moral, mas faço de conta que não se passou nada. Estou à frente de uma empresa que tem por base um saco azul, sem fundo, mas tenho uns assuntos para resolver que me andam a tirar o sono: uma condenação por roubo de e- -mails e espionagem corporativa, e esses teus amigos na Justiça dar-me-iam muito jeito. É que os meus só resolvem questões locais, como invasões a centros de treino de árbitros, violência em estádios de futebol, bullying a jogadores e treinadores, distúrbios em estações de serviço e férias pagas no Brasil.
Fizeram um brinde com o whisky mais barato da ementa, terminaram o pires de amendoins e seguiram os seus caminhos. O primeiro pediu fatura – tem lá na empresa um funcionário que ainda vai transformar aquela despesa num perdão fiscal. O segundo, mal tocou na bebida – gosta mais de fruta e café com leite, mas naquele bar não serviam.
Qualquer semelhança com a realidade é pura ficção."

Ricardo Santos, in O Benfica

À volta dos números


"É lugar-comum afirmar que uma equipa joga aquilo que a outra deixa jogar. Isso é válido para qualquer partida. É válido, também, para um campeonato inteiro.
Uma prova que se desenrola, semana a semana, durante meses a fio, é necessariamente uma prova de regularidade. Mas é igualmente uma prova de relatividade, de correlação de forças. Na qual, como diria Ortega y Gasset, cada equipa é ela e as suas circunstâncias.
Deixemos de lado a matéria relacionada com as arbitragens (que é determinante, mas não cabe agora aqui). Foquemo-nos apenas em números.
À 27.ª jornada, o líder do Campeonato soma 72 pontos. O Benfica foi campeão 8 vezes neste século, e em nenhuma dessas temporadas obteve 72 pontos em 27 jogos. Nos anos do “Tetra”, na mesma altura, o Glorioso somava 70, 68, 67 e 65 pontos respectivamente. Em 2010 tinha 70, em 2019 tinha 66 e em 2023 tinha 71; em 2005 tinha… 54.
Na época passada, à 27.ª jornada, Sporting e Benfica lideravam a prova com 65 pontos. Precisamente a nossa pontuação actual. Outro número: na 2.ª volta deste Campeonato, o Benfica fez mais pontos do que qualquer outra equipa. Desde a dobragem do calendário, o conjunto de Mourinho totalizou 26 pontos, en - quanto os dois rivais somaram 23 – sendo que o Sporting tem uma partida a menos.
Sublinhe-se ainda que há 42 jornadas consecutivas que o Benfica não perde para o Campeonato. A série começou em Janeiro de 2025, ainda com Bruno Lage. E continua. Em toda a história do Clube, apenas John Mortimore, com 56 jogos entre 1976 e 1978, conseguiu melhor.
A conclusão? Que o campeonato do Benfica até ao momento, não sendo brilhante, está longe de ser uma catástrofe. Paga, isso sim, o preço de um FC Porto anormalmente regular, e de um Sporting muito diferente de outras décadas. Paga, digamos assim, o preço das circunstâncias."

Luís Fialho, in O Benfica

Quando todos ganham!


"O desporto adaptado é muito mais do que prática física: é um espaço de superação, inclusão e construção de comunidade onde todos ganham. Ganham os jovens participantes com uma oportunidade de descoberta das suas capacidades, de autoestima e desenvolvimento de competências tão importantes como a disciplina, a resiliência e o trabalho em equipa.
Ganham as famílias, com um caminho de esperança e partilha, e com uma alegria ao verem os seus filhos envolvidos, ativos e felizes, reforçando laços de amizade e confiança no futuro. O desporto cria pontes, aproxima pessoas e reduz o isolamento, eterno companheiro da deficiência. Ganham os técnicos, por sua vez, encontrando no desporto adaptado uma dimensão profundamente humana do seu trabalho. Cada treino é um desafio e uma aprendizagem, exigindo sensibilidade, criatividade e dedicação. Mas é também uma fonte única de realização profissional e pessoal.
Ganhar é o sal da competição, mas incluir, capacitar e inspirar é essencial. E é aí que reside a verdadeira grandeza do Desporto."

Jorge Miranda, in O Benfica