"Sei sempre que tive um teste no dia 9 de junho de 2006. Não me lembro de que disciplina, mas não me esqueço da data nem da existência de uma avaliação. Porquê? Porque naquele mesmo dia, a 9 de junho, umas horas depois do meu teste, começou o Mundial 2006. Alemanha-Costa Rica, Munique, debaixo do sol bávaro.
O jornal “Record”, que por aqueles tempos eu lia religiosamente (obrigado, mãe), trazia, nos meses anteriores ao pontapé de saída da competição, uma contagem decrescente para o arranque. Faltam 90 dias, 60 dias, 10 dias, é hoje. Para mim, o countdown possuía um duplo significado, ajudando-me a saber quando se concluíam os testes e quando principiava o Mundial.
Era a combinação perfeita. O fim das responsabilidades, arrumar os livros até ao fim do verão, e o começo da diversão. Era o meu primeiro ano no liceu, no quinto ano, e coincidia com o meu primeiro Mundial, porque em 2002 ainda não seguia devidamente a bola.
O Alemanha 2006 arrancou quando eu tinha 10 anos, terminou já comigo tendo 11 voltas ao sol, e foi devorado pelo meu cérebro de menino. As camisolas, a bola, os jogos, os protagonistas. Faltar à aula da tarde para ver o Portugal-México (obrigado, mãe).
No dia da final, fui com a minha família para a praia dos Alteirinhos. Quando a tarde já ia longa, mesmo antes de regressarmos para a nossa casa na Zambujeira do Mar, eu e o meu pai simulámos um desempate por penáltis na areia. “É a final do Mundial”, gritávamos, um era Barthez, outro Buffon. Horas depois, estaríamos, efetivamente, a ver o Itália-França ser decidido daquela forma. Só não imitámos a cabeçada de Zidane.
A partir dali, todos os Mundiais foram uma pequena grande infância vivida durante um mês. É essa a essência deste pedaço de felicidade redonda vivido ao longo de algumas semanas: a vontade de voltar a ser criança, de ver o jogo como se fosse a primeira vez, a primeira eliminação injusta, o primeiro jogador desconhecido a revelar-se, saber onde fica o Equador ou Togo ou Colónia ou Frankfurt. Saber o que foram os Julgamentos de Nuremberga por Portugal ter jogado naquela cidade, travando uma batalha contra os Países Baixos que então todos ainda chamávamos Holanda.
Eis um certo paradoxo: os Mundiais afirmaram-se sempre como este pedaço de infância em retorno, ainda que, por se disputarem de quatro em quatro anos, cada um tenha marcado um momento diferente da minha vida. 2006 e o primeiro ano de liceu. 2010 e os exames para entrar no secundário (exame de Português a 16 de junho, meu dia de anos, dia em que Espanha, surpreendentemente, perdeu contra a Suíça). 2014 e o fim do meu primeiro ano de faculdade. 2018 e o fim da faculdade. 2022, primeiro Mundial como jornalista nesta casa. 2026, primeiro Mundial como pai.
É como se os Mundiais fossem um companheiro que vai observando cada mudança, cada nuance, diferentes fases da vida.
E eis que entra em campo o fim da inocência.
Sim, este vai ser o Mundial MAGA. O Mundial de Trump, do ICE, em que vai competir um país cujo chefe de Estado foi assassinado por um dos anfitriões.
2018 foi o Mundial da Rússia de Putin, o grande amigo da FIFA que teve de deixar de o ser. 2022 foi o Mundial do Catar, dos mortos na construção. Foram Mundiais de sportswashing, de lavagem de imagem, a Rússia a querer ganhar espaço no concerto internacional, o Catar projetando-se como importante jogador de soft power.
Este é o Mundial do anti-sportwashing. Se no sportswashing se pretende lavar imagem, ser simpático, “venham visitar-nos e descobrir como somos maravilhosos”, agora é o oposto disso. Querem visitar-nos? Paguem preços absurdos. Corram o risco de prisão ou deportação. Não levem águas para os estádios. Não vos queremos. A não ser que tenham uns milhares de dólares aí no bolso. Nesse caso, tomem lá este bilhete. Mas não levam águas. E não esperem sorrisos de volta.
Este uso do futebol, e particularmente do Mundial, não é novo. Para ir a exemplos com quase um século de vida, 1934 já foi a competição de Mussolini: transmitido via rádio para diversos países, teve merchandising próprio, bilhetes impressos em papel de alta qualidade, um cartaz oficial desenhado por Filippo Tommaso Marinetti, ideólogo do movimento futurista. Foi criada a Coppa del Duce, um troféu seis vezes mais alto que o Jules Rimet — a taça oficial do torneio — entregue em simultâneo aos vencedores como uma oferenda com a chancela de Mussolini. Em 2022, o Catar faria parecido ao cobrir Messi com o bisht.
O que fazer perante isto? Negar a vontade de ser criança, negar o Mundial? Bem, isso não é possível. Não é possível porque o futebol, para boa parte da humanidade, não é propriamente uma escolha. E aí reside parte do equívoco de quem coloca o futebol na competição por atenção existente, por quem o mete ao barulho com a Netflix ou a HBO ou o TikTok.
O futebol não é uma opção. O futebol acontece-nos, calha-nos. É parte da família. É muito mais religião, uma missa cada domingo porque os pais já iam e os avós já iam e é assim a vida, do que opção racional. Não há como o negar.
O que fazer, então? Pois bem, não deixar que quem se quer apropriar do Mundial, quem quer usar esta fábrica infinita de sonhos, fique sozinho na conversa. Escrutinar. Questionar. Lembrar que este é um património coletivo. Não permitir a usurpação. Ser crítico, mas não sair da sala.
Aí está outro Mundial. Aí estão mais semanas para ser criança. A que se devem essas olheiras hoje, dormiste mal? Não, simplesmente é dia 17 de manhã e houve um Argentina-Argélia às 2 da manhã e um Áustria-Jordânia às 5 da madrugada.
Fechado por futebol, escreveu Galeano. Aberto para ser criança, acrescento eu."