Últimas indefectivações

quinta-feira, 16 de julho de 2026

A História Gloriosa | 2004-2014 - Do céu ao inferno

Até vale tirar olhos!!!

Palha!!!

António Silva: cortar o mal pela raiz com o patinho feio


"Todos sairão a ganhar com a provável venda do central por parte do Benfica. António Silva tornou-se num alvo fácil e precisa de mudar de ares o quanto antes

Há momentos na vida dos clubes e dos jogadores em que é necessário fechar ciclos (veja-se a autêntica revolução que Frederico Varandas decidiu levar a cabo no Sporting depois da desilusão que foi 2025/26) e, apesar de o Benfica não o ter sabido fazer nalguns casos no passado recente, como o de Nicolás Otamendi, estará a tomar a decisão correta ao permitir a saída de António Silva neste defeso.
Não só porque, face à relutância do central em renovar contrato, é a última oportunidade de ainda encaixar dinheiro — e, sem Champions, tão necessário que ele é para fazer face às exigências, já públicas, de Marco Silva para retocar um plantel caro mas desequilibrado —, mas também por se ter percebido que o defesa chegou ao fim da linha na Luz. Não terá sido, certamente, pela prestação aquém desejado no amigável com o Flamengo, entre uma equipa em início de pré-temporada e outra a meio da época, mas foram várias as falhas ao longo das últimas temporadas que foram deixando António Silva com espaço de manobra reduzido. Não só no Benfica, mas também na Seleção, e a ausência dos convocados de Roberto Martínez para o Mundial foi apenas mais uma das muitas machadadas na confiança que o jogador sofreu nos últimos tempos.
Como se isso não bastasse, o ex-selecionador, em mais um dos seus momentos comunicacionais de levar as mãos à cabeça, preferiu queimar um jovem de 22 anos em praça pública por causa de um episódio no Euro 2024, ao invés de o proteger e disso não fazer caso.
António Silva tornou-se numa espécie de patinho feio e o alvo para o qual é fácil apontar o dedo quando as coisas não correm bem. E, perto dos 23 anos, está numa fase crucial da carreira: ou faz o reset longe do Benfica, e vai muito a tempo disso, ou corre o risco de vir a ser mais um dos que muito prometeram mas acabaram por nunca corresponder às expectativas. Não há tanto tempo assim, com Ferro, o Benfica teve esse exemplo na mesma posição.
Perder António Silva e Otamendi de uma vez só obrigará a refazer as fundações da equipa e contratar com critério, até porque a condição física de Tomás Araújo é um constante ponto de interrogação. Com Lenglet, o Benfica ganha qualidade com bola e experiência, mas terá de acrescentar agressividade e poder físico ao companheiro de setor do francês. A águia tem ignorado o mercado interno, mas olhar para Ibrahima Ba (Famalicão) pode ser a aposta certa para a sucessão."

O orgulho de ser Portugal


"O desporto universitário português viveu mais uma página dourada da sua história em Varsóvia, com a conclusão do Campeonato Mundial Universitário de futsal de 2026. Numa competição que reúne anualmente a elite mundial da modalidade, ver as nossas Seleções Nacionais universitárias, feminina e masculina, subirem ambas ao pódio como vice-campeãs do mundo constitui um feito notável que deve encher todos de um orgulho incomensurável.
Não escondemos que o desfecho das duas finais frente ao Brasil trouxe o amargor próprio de quem compete focado em vencer, pois quem veste a camisola de Portugal ambiciona sempre o lugar mais alto do pódio. Contudo, uma análise ponderada dos resultados alcançados na Polónia leva-nos a uma interpretação mais aprofundada e justa, na qual a medalha de prata consagra um processo contínuo de excelência, resiliência e crescimento.
Estes resultados refletem um trabalho estruturado e, sobretudo, a parceria estratégica entre a Federação Académica do Desporto Universitário e a Federação Portuguesa de Futebol. Esta cooperação institucional e técnica na gestão das Seleções Nacionais universitárias de futsal eleva e prestigia enormemente a modalidade, permitindo proporcionar aos nossos estudantes-atletas condições de preparação de excelência. É este esforço conjunto que capacita as nossas equipas para competirem ao mais alto nível internacional e transportar a identidade e o ADN do futsal português para o contexto universitário mundial.
A Seleção feminina, liderada por Ricardo Azevedo e Luís Conceição, demonstrou em campo a qualidade técnica e a maturidade de quem já habituou o país a estar presente nos grandes palcos. Acabou por ser derrotada pela formação brasileira por três bolas a zero, num jogo em que a equipa portuguesa se apresentou superior na primeira parte e dispôs de oportunidades suficientes para mudar o curso da partida. Faltou lucidez na finalização nos momentos-chave, mas nunca faltaram alma e entrega por parte de um grupo renovado que honrou com distinção o legado do futsal feminino universitário.
Por seu turno, a Seleção masculina, orientada por Pedro Palas e Luís Silva, protagonizou uma notável caminhada de superação. Depois de ter ficado pelos quartos de final na edição de 2024, Portugal apresentou-se em 2026 com aquela que era, provavelmente, a equipa mais jovem do torneio. Na final, perante uma pesada desvantagem na primeira parte, estes jovens mostraram um caráter gigante, fizeram o adversário vacilar, lutaram com o coração em campo e mantiveram o jogo em aberto até aos segundos finais, fechando o marcador num expressivo, mas injusto, oito a cinco.
Ao longo de 36 anos de história, a Federação Académica do Desporto Universitário tem trabalhado arduamente para que o desporto seja uma dimensão preponderante da vida académica. A participação em Varsóvia é o espelho exato dessa missão, ao demonstrar que é perfeitamente possível conciliar a exigência do ensino superior com o rendimento desportivo de alto nível.
Como os nossos selecionadores e capitães referiram no encerramento da competição, estes torneios proporcionam o crescimento de que uma equipa jovem precisa para amadurecer. Em finais mundiais, os pormenores fazem a diferença e os erros são caros, mas é precisamente através destas lições e do sofrimento desportivo que se constrói o caminho para os títulos de amanhã.
A todas as nossas e nossos estudantes-atletas, às equipas técnicas e a todo o staff que representaram Portugal na Polónia, deixo o meu mais profundo agradecimento por terem demonstrado que o desporto universitário português tem um presente e um futuro brilhantes. Regressamos a Portugal de cabeça erguida, como vice-campeões do mundo, conscientes de que somos uma nação académica que sabe trabalhar e lutar, e que continuará a elevar o nome do país além-fronteiras."

Zero: Mercado - Cardoso Varela regressa ao FC Porto

BF: Marco...

5 Minutos: Diário...

Terceiro Anel: Diário...

Zero: Tema do Dia - Da «fúria» ao «tiki taka»: a Espanha e um ADN vencedor

Observador: E o Campeão é... - Será a Argentina a mesma que conhecíamos?

Observador: Três Toques - França: 4 avançados, 0 ideias e um banho espanhol de brinde

Bola na Trave - Algarve...

A Bola Não Mente - S01E57 - LeBron decide o futuro e Wemby recebe menos do que podia

Sem Filtros #51 - Helton Leite

Zero: Dinheiro - Taira...

Quando um clube histórico fecha as portas perdemos todos


"Quando um clube histórico fecha as portas, perdemos todos
Hoje o Boavista fechou as portas.
Independentemente das decisões judiciais, das responsabilidades de quem dirigiu o clube ao longo dos anos ou das circunstâncias que conduziram a este desfecho, há uma realidade impossível de ignorar: o futebol português ficou hoje mais pobre.
O Boavista não é apenas um emblema. É um campeão nacional. É um vencedor da Taça de Portugal. É um estádio cheio de memórias. É uma identidade construída ao longo de mais de um século por milhares de famílias que passaram o amor ao clube de geração em geração.
Quando um clube destes desaparece, não desaparece apenas uma sociedade desportiva.
Desaparece um pedaço da nossa história.
Infelizmente, o Boavista não está sozinho. Antes dele caíram o Vitória de Setúbal, o Beira-Mar, o Salgueiros, o Olhanense e tantos outros que fizeram parte da identidade do futebol português. Clubes que deram internacionais, encheram estádios, conquistaram títulos e escreveram capítulos que jamais poderão ser apagados dos livros.
A pergunta que devemos fazer é simples: como chegámos aqui?
Durante anos fomos convencidos de que a sustentabilidade do futebol se mede quase exclusivamente pela apresentação de declarações de não dívida, pelo cumprimento de obrigações fiscais e por controlos salariais. Tudo isso é importante. Ninguém o discute.
Mas será suficiente?
Os números dizem-nos que não.
No encerramento das contas da última época, 11 dos 18 clubes da I Liga apresentavam capitais próprios negativos. Em conjunto, acumulavam um passivo superior a 1.732 milhões de euros. Em termos contabilísticos, a maioria do futebol profissional português vive numa situação de enorme fragilidade.
Perante esta realidade, será legítimo perguntar se o modelo de controlo que seguimos há tantos anos está verdadeiramente a proteger o futebol… ou apenas a adiar problemas maiores.
Ao mesmo tempo, assistimos a um fenómeno silencioso.
Cada vez mais investidores escolhem clubes sem massa associativa, sem pressão e sem história. É uma opção perfeitamente legítima do ponto de vista empresarial.
Mas o resultado está à vista.
Temos estádios vazios. Clubes desligados das suas comunidades. Equipas que jogam a dezenas de quilómetros da cidade que representam. Recintos com capacidade para mais pessoas do que habitantes existem na própria localidade.
E, enquanto isso acontece, os clubes históricos continuam a desaparecer.
Perde o futebol.
Perdem as cidades.
Perdem as regiões.
Perdem as novas gerações, que deixam de crescer com a rivalidade saudável entre clubes que davam vida às suas comunidades.
O futebol nunca foi apenas um negócio.
O futebol é pertença.
É memória.
É identidade.
É o avô que leva o neto pela primeira vez ao estádio. É a camisola herdada do pai. É a rua cheia depois de uma subida de divisão. É uma cidade inteira que encontra no seu clube uma forma de se reconhecer.
Quando um desses clubes morre, nenhuma nova sociedade desportiva consegue substituir esse património emocional.
Falo disto também por experiência.
Quando aceitei ajudar a reconstruir o Estrela da Amadora, fi-lo porque acreditava que a história não podia terminar ali. O mérito dessa refundação pertence, antes de mais, aos seus refundadores, que nunca deixaram morrer a chama do clube. A partir dessa base, houve quem acreditasse que era possível devolver o Estrela ao lugar onde a sua história sempre o colocou.
Recuperar um clube histórico não significa apenas voltar às competições.
Significa recuperar uma identidade.
Recuperar um estádio.
Recuperar símbolos.
Recuperar memórias.
Recuperar o orgulho de uma comunidade inteira.
É um caminho longo, difícil e muitas vezes incompreendido. Mas quando se acredita verdadeiramente no valor da história, percebe-se que há patrimónios que não podem ser medidos apenas por um balanço financeiro.
Por isso, hoje não escrevo apenas sobre o Boavista.
Escrevo sobre todos os clubes históricos que lutam diariamente para sobreviver.
Porque o futebol português precisa dos seus grandes clubes regionais. Precisa das suas rivalidades. Precisa das suas cidades representadas ao mais alto nível. Precisa da emoção que só a história consegue criar.
Espero sinceramente que, tal como aconteceu com o Farense, com o Estrela da Amadora e com outros exemplos de resistência, também o Boavista encontre força para renascer.
Os clubes centenários podem cair.
Mas a sua história nunca deve morrer.
Porque há instituições que pertencem aos seus adeptos, às suas cidades e ao património coletivo do nosso país.
E enquanto houver alguém disposto a acreditar nelas, haverá sempre esperança.
Ao Boavista, deixo apenas uma palavra:
Até já."

Que significará para a Europa se a final do Mundial de 2030 for em Casablanca?


"A escolha da cidade da final do Mundial de 2030 será uma decisão geopolítica. Se a FIFA atribuir a final a Marrocos, essa escolha constituirá uma das mais simbólicas evidências da perda de influência da Europa no mundo contemporâneo.
O Mundial do centenário será disputado em seis países e três continentes. Começará na América do Sul, prosseguirá na Europa e em África. Terminará em Casablanca?
Muitos europeus diriam que a escolha de Casablanca teria resultado de interesses políticos ou de jogos de bastidores. A realidade é mais exigente. Se isso acontecer, será a consequência natural de uma transformação da ordem mundial iniciada há muitas décadas.
A Europa habituou-se a pensar que a sua história lhe garantia influência permanente. Porém, a influência nunca é um direito adquirido. Conquista-se, preserva-se e, quando deixa de existir estratégia, perde-se.
Essa dificuldade revela-se até na forma como a União Europeia escolheu representar-se. Ao fixar o seu centro político em Bruxelas, em vez de Roma, optou por uma capital administrativa e não pelo maior símbolo da continuidade histórica da civilização europeia.
Roma representa o direito, a cidadania, a administração pública, a construção de um espaço político comum e a ideia de uma vocação universal que moldou o Ocidente durante séculos. Os símbolos não governam, mas ajudam as civilizações a acreditar em si próprias. Quando deixam de os valorizar, já estão a perder muito mais do que a memória.
Durante séculos, a Europa foi o centro económico, científico, político e cultural do mundo. No século XX, duas guerras mundiais deslocaram progressivamente o centro do poder para os Estados Unidos.
O futebol acompanhou essa evolução. Foi aqui que nasceu o jogo moderno, onde foram fundados os maiores clubes e ainda hoje se disputam as competições mais prestigiadas. Mas uma coisa é concentrar talento, tradição e riqueza; outra, muito diferente, é conservar a capacidade de definir as regras.
João Havelange percebeu essa diferença antes de todos. Em 1974 compreendeu que, na FIFA, a história e os títulos não votavam. Votavam as federações, todas exatamente com o mesmo peso.
Enquanto a Europa continuava a olhar para a FIFA como uma extensão natural da sua superioridade futebolística, Havelange percebeu que o verdadeiro poder estava nos novos países independentes de África e da Ásia e nas federações da América Latina.
Stanley Rous, presidente inglês da FIFA e símbolo da velha ordem europeia, acreditava que a tradição e a autoridade histórica bastariam para vencer. Não bastaram.
A vitória de Havelange representou muito mais do que uma mudança de presidente. Foi a primeira grande derrota política da Europa dentro da FIFA e marcou o início de uma nova distribuição de poder que perdura até hoje.
A Europa deixou de controlar o centro de decisão. A partir desse momento, manter a influência passou a depender muito mais da capacidade de construir alianças do que da força da sua própria história.
A perda de influência começa quando se perde a estratégia. E a estratégia começa a perder-se na forma como o poder decide.
A tradição política grega valorizava o confronto de argumentos antes da decisão. Muitos dos melhores governantes romanos rodeavam-se de homens livres, independentes o suficiente para discordarem. Sabiam que as decisões mais sólidas nascem do contraditório e não da unanimidade.
O declínio instala-se quando os mais livres e competentes passam a ser incómodos e são substituídos pelos mais obedientes. O debate desaparece, instala-se o pensamento de grupo e as decisões deixam de ser verdadeiramente testadas.
O início do declínio de uma organização não é a falta de talento, é a expulsão do pensamento livre da proximidade do poder.
Hoje, Marrocos é um dos países estrategicamente mais relevantes do mundo.
É parceiro essencial dos Estados Unidos e da União Europeia no Magrebe, plataforma logística entre a Europa, África e o Atlântico e uma potência diplomática crescente no continente africano e no mundo árabe.
Percebeu igualmente que o futebol se transformou num instrumento de projeção internacional. A organização do Mundial faz parte de uma estratégia nacional muito mais ampla de afirmação geopolítica.
Também a FIFA mudou profundamente e o momento decisivo foi o FIFAGate.
Em maio de 2015, dirigentes da FIFA foram detidos, em Zurique, pelas autoridades norte-americanas. O escândalo revelou um sistema de corrupção instalado durante décadas, conduziu à queda de Joseph Blatter, afastou Michel Platini da sucessão e provocou a maior transformação institucional da história da organização.
O mais relevante não foi a corrupção revelada. Foi perceber que a FIFA deixara de ser suficientemente poderosa para viver acima da geopolítica internacional.
Gianni Infantino, eleito presidente da FIFA poucos meses depois, assistiu de perto ao colapso do antigo sistema.
No século XXI, os votos continuam a ser indispensáveis, mas já não são suficientes. Hoje, compreender a FIFA implica compreender a geopolítica.
Se a FIFA escolher Casablanca, não estará apenas a indicar onde se joga uma final, estará a reconhecer que o centro de gravidade da influência global não coincide com o centro histórico do futebol.
Mas esta reflexão não diz respeito apenas à Europa ou à FIFA.
Também o futebol português deveria fazer este exercício de consciência. As suas instituições cultivam verdadeiramente a proximidade de homens livres, capazes de discordar sem receio e de melhorar as decisões? Ou tendem a afastar quem manifesta pensamento independente, premiando sobretudo a lealdade pessoal e a conformidade?
Uma organização que transforma o contraditório numa ameaça começa, muitas vezes sem o perceber, a perder estratégia muito antes de perder resultados.
As derrotas tornam-se visíveis no dia em que chegam os resultados. Mas começam muito antes, no dia em que o poder deixa de ouvir quem pensa de forma diferente."

A equipa que falta


"Portugal nunca teve falta de jogadores.
Ao longo das últimas duas décadas habituámo-nos a ver portugueses nos maiores clubes do mundo. Tivemos Bolas de Ouro, vencedores da Liga dos Campeões, campeões europeus e jogadores que discutem, todos os anos, o lugar entre os melhores do planeta. Há poucas seleções que possam apresentar um património individual desta dimensão. Se olharmos apenas para o talento, Portugal entra em qualquer competição com legitimidade para pensar em ganhá-la. 
O problema é que o futebol nunca se resolveu apenas com talento.
Uma equipa não nasce da soma dos melhores jogadores. Nasce quando esses jogadores deixam de parecer onze carreiras brilhantes e passam a parecer uma ideia comum. Quando cada um melhora o outro. Quando existe uma forma de jogar suficientemente clara para sobreviver aos dias em que o talento individual não resolve tudo.
É por isso que continuo convencido de que Portugal teve, muitas vezes, mais jogadores do que equipa.
Não é uma crítica destrutiva. É apenas uma constatação.
Seria profundamente injusto ignorar aquilo que esta geração conquistou. Ganhou um Campeonato da Europa. Conquistou duas Ligas das Nações. Habituou-nos a discutir qualquer competição com as melhores seleções do mundo. Tudo isso ficará para sempre na história do futebol português.
Mas os títulos não impedem uma reflexão.
Poucas vezes tivemos uma Seleção que impressionasse de forma consistente pelo futebol que praticava. Houve grandes exibições, naturalmente. Houve jogos memoráveis e momentos de enorme qualidade. Mas também houve demasiadas partidas em que ficava a sensação de que a qualidade individual escondia problemas coletivos que nunca chegaram verdadeiramente a desaparecer.
O Mundial voltou a deixar essa impressão.
Portugal tinha soluções para quase todas as posições, jogadores decisivos nos maiores campeonatos da Europa e recursos que qualquer selecionador gostaria de ter. Ainda assim, raramente deu a sensação de controlar os jogos através da sua própria identidade. Havia talento suficiente para dominar. Nem sempre havia uma equipa que dominasse.
Talvez seja injusto exigir isso a uma seleção nacional. Os treinadores trabalham poucos dias por ano com os jogadores. Não constroem automatismos como um treinador de clube. Não escolhem reforços. Não contratam perfis específicos. Herdam uma geração e tentam aproveitá-la da melhor forma possível.
Tudo isso é verdade.
Mas também é verdade que algumas seleções conseguem, apesar dessas limitações, criar uma identidade reconhecível. Não dependem apenas do resultado para serem lembradas. Dependem da forma como jogam.
Foi por isso que gostei da escolha de Jorge Jesus.
Não porque ache que exista um treinador capaz de resolver tudo.
Também não porque acredite que uma conferência de imprensa muda o destino de uma equipa.
Gostei porque Jorge Jesus sempre me pareceu um treinador obcecado por uma ideia muito simples: construir equipas que se reconhecem.
Ao longo da carreira ganhou muito. Também perdeu muito. Teve equipas extraordinárias e outras bastante menos conseguidas. A segunda passagem pelo Benfica ficou muito longe da primeira e seria absurdo fingir o contrário. Quem acompanha futebol sabe que a carreira dele está longe de ser uma linha reta.
Mas há uma característica que nunca perdeu.
As equipas dele tinham identidade.
Podíamos preferir umas às outras. Discordar de opções, discutir substituições, questionar insistências ou criticar resultados. O debate fazia parte. O que dificilmente podíamos dizer era que aquelas equipas não tinham uma marca. Bastavam alguns minutos para percebermos o que procuravam fazer, onde queriam recuperar a bola, como ocupavam o campo e que tipo de jogo tentavam impor ao adversário.
Isso vale muito mais do que às vezes estamos dispostos a admitir.
Hoje o futebol evoluiu imenso. Os treinadores estão mais preparados, trabalham com mais informação, conhecem melhor o jogo e têm ferramentas extraordinárias à sua disposição. O conhecimento aumentou e isso tornou o futebol melhor.
Mas também tornou muitas equipas mais parecidas.
É cada vez mais difícil identificar a mão de um treinador apenas a olhar para um jogo. Muitas equipas jogam bem. Poucas parecem verdadeiramente diferentes. Poucas têm uma identidade tão forte que dispense a legenda.
Jorge Jesus sempre escapou a essa uniformização.
Não apenas nas equipas que treinou.
Também na forma como vive o futebol.
Nunca me interessou particularmente a discussão sobre as calinadas ou sobre a maneira como comunicava. Sempre achei que isso dizia muito menos sobre ele do que aquilo que acontecia ao domingo dentro das quatro linhas.
O que me interessa é outra coisa.
As equipas refletiam a personalidade do treinador.
Tinham intensidade porque ele acreditava nela.
Tinham coragem porque ele a exigia.
Tinham defeitos, naturalmente. Também herdavam algumas das timosias do treinador. Mas nunca davam a sensação de serem equipas sem rosto.
Essa coerência sempre me pareceu uma qualidade rara.
Dentro de campo havia uma identidade.
Fora dele também.
É precisamente por isso que olho para esta chegada à Seleção com curiosidade.
Não espero milagres.
Nem acredito que Portugal vá, de repente, transformar-se na melhor equipa do mundo.
O futebol não funciona assim e a história ensina-nos a desconfiar das expectativas demasiado altas.
O que espero é muito mais simples.
Gostava de voltar a reconhecer Portugal pelo futebol que joga e não apenas pela qualidade dos jogadores que apresenta.
Gostava que deixássemos de depender, tantas vezes, do momento de inspiração de um talento individual para passarmos a depender de uma ideia coletiva.
Gostava que, ao fim de dez minutos, fosse possível perceber o que esta equipa quer ser.
É uma ambição exigente.
Mas parece-me uma ambição à altura dos jogadores que temos.
Quando terminou a conferência de imprensa de apresentação de Jorge Jesus, reparei numa coisa.
Não fiquei a pensar em quem seria convocado.
Nem em quem perderia o lugar.
Nem sequer comecei a construir um onze na cabeça, como tantas vezes acontece quando muda um selecionador.
Fiquei a pensar apenas numa pergunta.
Como vai jogar Portugal?
Talvez seja essa a pergunta que devíamos ter feito mais vezes nos últimos anos.
Porque os jogadores sempre estiveram lá.
A equipa é que continua por construir."

A equipa, sempre!


"Duas ideias, duas identidades. Uma engoliu a outra. A Espanha nem precisou que a sua maior estrela, que não chegou ao Mundial na maior das condições, fosse decisiva. Mesmo quando arrancou o penálti de Digne, houve mais infantilidade do lateral do que génio do menino. Apenas matreirice. Yamal deu algumas dores de cabeça e não foi necessário mais.
A Roja quis, como sempre, a sua mais-que-tudo. Com esta, estabeleceu as condições em que se ia jogar. Diminuiu o número de situações em que podia ser ferida. Sem bola, foi agressiva, ativou a contra-pressão para recuperá-la, mas esteve sobretudo blindada. Rodri nunca perdeu de vista o melhor francês do torneio, Olise, e a entreajuda anulou sucessivamente Dembélé, Mbappé e Barcola (e depois Doué e Cherki). Unai Simón esteve fortíssimo no controlo da profundidade. E permitam-me que sublinhe novamente Olmo. Joga como se fosse sempre obrigado a provar algo e fá-lo com gosto.
Les Bleus não deixaram o relvado sem ouvir olés. E, apesar de não ser bonito, mereceram-nos. Não houve vertigem. O génio foi totalmente anulado. A equipa com maior densidade de talento por cromossoma, hiperfavorita, caiu diante de um jogar consolidado, que de tempos a tempos ressurge, com alelos um pouco diferentes, para reconquistar o mundo.
Em casa, dentro das suas fronteiras, os gauleses viram um espanhol levar o PSG ao bicampeonato continental. Só que não há nenhum Luis Enrique, um verdadeiro arquiteto, no gestor Deschamps. O selecionador terá sempre 2018 e o seu capítulo na história, ainda que tenha passado várias vezes ao lado da glória sem consequências. Virá Zidane e terá uma Geração de Ouro para trabalhar. Já Mbappé daqui a umas semanas voltará a Madrid, mas não como herói. Para uma equipa dependente do individual, ainda que com um novo treinador. E uma ideia bem coletiva no topo do ecossistema: o Barcelona."

O império do impulso


"Minuto 44 do empolgante Noruega-Inglaterra. Está 1-0 para a Noruega. De repente, uma recuperação rápida de bola e a seleção inglesa é apanhada completamente em contrapé: dois para um à entrada do meio-campo inglês! Sørloth conduz a bola pela direita. Pela esquerda está o temível Haaland. Stones vai recuando, preenchendo o espaço no meio, na expetativa de como a jogada se irá realizar. Todo o estádio e todo o mundo que assiste ao jogo antecipa o 2-0.
Stones posiciona-se entre os dois atacantes e dificulta o passe direto, mas deixa as suas costas completamente livres para um passe em profundidade que isolaria Haaland. Mas eis que Sørloth, em vez de passar a bola, dá um toque para a frente e, depois, decide caminhar para área e tentar marcar. Stones e um companheiro, que entretanto veio em seu auxílio, aproximam-se e bloqueiam o remate.
Em vez de golo, a bola morre nas mãos de Pickford, o guarda-redes inglês. Fica Haaland a apontar para o terreno à sua frente, como que a dizer que lhe deveria ter passado a bola no espaço livre. Oportunidade perdida por uma má decisão, ninguém duvida. Aos 45+2, golpe de teatro, com Jude Bellingham, a empatar. A Inglaterra acabaria depois como é sabido, a virar o resultado no prolongamento e a passar às meias-finais.
Pouco depois as redes sociais ficaram repletas de vídeos e mensagens a criticar Sørloth. Uma autêntica avalanche. Façam scroll e vejam as centenas de vídeos. 'Foi por isto que a Noruega perdeu!', 'Puro egoísmo de Sørloth!!'. Num tom sempre muito inflamado.
Críticas, críticas e mais críticas. Mas não ficou por aqui. Ficamos a saber pela companheira de Sørloth, Lena Selnes, que houve mensagens mais intimidantes dirigidas ao jogador e também a ela. 'Diz ao teu marido para deixar a Noruega e saltar de um penhasco', 'Pega no teu namorado e morram, é a única maneira' ou 'Vou matá-lo'.
Ódio puro, à solta. Muitas vezes à boleia do anonimato. Absolutamente condenável, é certo, e condenado por vários meios de comunicação social. Porém, julgo ser importante fazer algo mais do que condenar. É algo tão aberrante que é preciso ser compreendido para sermos mais capazes na sua prevenção. Que provavelmente nunca será total, mas valerá a pena ser pensada.
Sørloth nem sequer é caso único neste Mundial. Jáminton Campaz, da Colômbia, talvez ainda mais pesado. Falhou uma ocasião de golo no prolongamento contra a Suíça. A equipa acabou depois por perder nas grandes penalidades. Resultado: ameaças de morte dirigidas a ele e à família. Campaz acabou por restringir os comentários nas redes e a não regressar à Colômbia com a equipa, como medida de segurança.
E aqui a memória trouxe-lhe com toda a certeza à mente a tragédia de Andrés Escobar, assassinado em 1994, depois de anotar um autogolo no Mundial dos EUA. Não havia redes sociais, mas já havia armas e já havia ódio. Estaremos todos, ou quase todos, de acordo que isto são coisas a erradicar. Porém, não é isso que vemos acontecer. Como os incêndios de verão, que se reacendem quando a temperatura sobe.
É tão absurdo, isto, que só apetece berrar para a humanidade que “isto é só um jogo”. Mas mesmo que fosse mais do que um jogo. São vidas humanas, e toda a vida merece-nos um profundo respeito, que aqui vemos a serem calcadas. Por isso, paro aqui um pouco para tentar perceber o que se passa na mente humana sobre estes momentos.
As reações extremadas dos adeptos revelam algo que já sabemos: antes de pensar, sentimos, e o que sentimos dita grande parte do que conseguimos pensar. Em condições normais, depois de surgir um sentimento, há oportunidade de elaboração, ou seja, usar a nossa mente reflexiva e analítica para pôr em palavras (ou noutras formas complexas de elaboração) o que de outro modo fica como afeto meramente corporizado.
Quando tal elaboração não acontece, as nossas capacidades de pensamento ficam empobrecidas. A realidade, os factos reais, passam a ser interpretados por um número muito reduzido de elementos. Reduz-se drasticamente a capacidade de raciocínio. O resultado é que o afeto se torna um impulso de muito difícil gestão e passa a tomar conta da pessoa. É o império do impulso.
É o que acontece quando a nossa equipa joga. Um jogador cai na área. É nosso? Afetivamente queremos penálti, logo pensamos que o é. É deles? Torna-se óbvio que não é. A todo o adepto acontece isto, pelo menos por momentos. As regras, a elaboração, as explicações poderão atenuar o primeiro olhar, mas a tendência é natural. Porque, de facto, a capacidade de raciocínio fica toldada pelas nossas preferências. É o nós contra eles, os bons e os maus, os amigos e os inimigos.
Voltemos a Sørloth. Aos olhos do adepto, não passar a bola deixa de poder ser outra coisa. Passa a ser uma traição. E já não é um lance que está em causa, é a pessoa inteira. O ódio não distingue entre o lance, o jogador, ou a companheira e até o filho: o afeto totalizador não conhece fronteiras entre objetos, funciona como um campo que tinge tudo o que toca. E, depois, toma conta do controlo das ações, a pessoa passa a agir de modo impulsivo, inundada com um enorme desejo de destruição.
O mais grave é que isto não se passa apenas na esfera do futebol. Não é novo, e o caso de Andrés Escobar mostra-nos isto claramente. Porém, a extensão e facilidade com que acontece é de um (pouco) admirável mundo novo. Escrevi há uns 10 anos uma outra crónica sobre o ódio andar à solta, preocupado com os tempos que estávamos a atravessar. Isso só se acentuou desde então, com a expansão contínua das redes sociais e da facilidade de contacto.
O adepto que ameaça Sørloth e o eleitor que precisa de um inimigo político estão a fazer, semioticamente, a mesma coisa. O estádio passa a ser apenas um laboratório do que se passa na sociedade.
O que fazer, então. Elaboremos. Falemos articuladamente do que se passou. Aprendamos a viver com a frustração e a lidar com os sentimentos penosos que tal acarreta. A raiva destrutiva não deve ser apenas temporariamente contida; deve haver lugar a que o adepto frustrado – ou qualquer pessoa com tal sentimento – que se expresse, que o ponha em palavras. Gradualmente, à medida que o sentimento se apaziguar, haverá oportunidade para se pensar de um modo distinto e considerar outras possibilidades de interpretar o que se passou. E finalmente, de agir de outro modo.
Porque mesmo que seja feito de modo anónimo, como disse Bakhtin, não temos álibi na existência e haverá sempre alguém que sabe o que fez: o próprio autor da agressão. E essa sombra tenderá a ser muito, muito longa e amarga."

BolaTV: Dias de Mundial...

AA9: OMG ARGENTINA DO IT AGAIN 2-1 ENGLAND | WORLD CUP SEMI FINAL

Observador: Minuto 90 - Estão quase eliminados? Calma, esta é a garra dos campeões do mundo

LiveMode: Late Night #21

Zero: Negócio Mistério - S06E17 - Navas...

No Princípio Era a Bola - A melhor exibição da história de Espanha nos Mundiais foi um exercício de identidade e superioridade coletiva

ESPN: Futebol no Mundo #609

TNT - Convocados...

LiveMode: Aquece vais entrar #39

Observador: Minuto 90 - Afinal, não pareceu assim tão mau sermos eliminados pelos espanhóis

Prata da Casa #59 - Los Galácticos, Conferência de JJ, Password

LiveMode: Late Night #20

TugaFut: Espanha...

Possessivo: Espanha...

Renascença: Jogos Sem Fronteira - Inglaterra x Argentina

Quezada: ESPANHA: A CRIPTONITA DA FRANÇA ESTÁ NA FINAL

Rabona: France COMPLETELY SILENCED by Spain’s Brilliance! | World Cup Day 31

AA9: SPAIN DOMINIATE & EXPOSE FRANCE 2-0 | WORLD CUP SEMI FINAL

SportTV: Inglaterra - Argentina

SportTV: França - Espanha