Últimas indefectivações

domingo, 11 de outubro de 2026

O complexado!!!

Sensibilidades...

Birra!!!

Nada má ideia...

 

Hoje e para sempre


"O Monumental em silêncio.
Na Argentina, um estádio calado parece um erro. Falta qualquer coisa. Um tambor. Uma garganta. Um homem pendurado nas redes. Um pai que ergue o filho recém-nascido nos braços. Mas nesta noite o silêncio tem gente dentro. Tem dor. Tem nostalgia. Tem milhares de lágrimas prontas a saltar da cara, à espera de um gesto que lhes dê licença.
E ali está Messi. Pela última vez.
Há cânticos. Há aplausos. Há um último golo. Quando chega a hora de o ouvir, porém, o Monumental parece uma casa onde alguém acaba de anunciar que vai embora. Ninguém sabe onde pôr as mãos. Ninguém quer ser o primeiro a mexer na cadeira. Basta um ruído para tornar o último tango numa dança demasiado rápida. Acaba quando o árbitro pergunta ao ator principal se pode terminar. É aí que tudo bate mais forte.
Messi segura o microfone. A bola parece-lhe sempre mais fácil. Com a bola pode inventar uma saída. Encontrar uma passagem entre dois corpos. Dar mais um toque. Ali, cada palavra aproxima-se do fim. Diz que gostaria de voltar durante toda a vida. Chama à despedida o dia mais triste da carreira. E admite que não quer deixar o campo. Um homem que passa a vida a fintar tudo e todos.
Um homem que sabe, sente, pensa que este é o momento. E, mesmo assim, naquele instante, esse homem fica preso.
Durante muitos anos, a Argentina é o lugar onde Messi chega e parece faltar sempre alguma coisa. Onde parece que o culpam por ter saído em criança para a Catalunha. Onde o seu distanciamento do país, a sua forma mais introspetiva de estar, choca totalmente com aquilo a que os argentinos se habituaram em relação a Maradona.
Ganha o Mundial de sub-20, em 2005. O ouro olímpico, em 2008. Depois vêm as finais que se transformam em quartos vazios. Brasil, na Copa América de 2007. Alemanha, no Mundial de 2014. Chile, em 2015. Chile, outra vez, em 2016. Quatro finais. Quatro maneiras de regressar a casa com as mãos vazias.
O futebol dá-lhe quase tudo.
Ele dá muito de volta. Mas o seu país continua a pedir-lhe a única coisa que Messi não consegue entregar. Um homem pode ser o melhor do mundo e mesmo assim sentir-se impotente para travar a tristeza e a fúria dos seus.
Nessa final de 2016, falha um penálti e violentamente criticado por parte de uma nação que nesse momento se polariza, com muitos a olharem para ele como um estrangeiro no próprio país. Perante este cenário de extremos, anuncia a saída da seleção. Já não aguenta. Também os génios têm um limite. Também se sentam no chão. Também confundem o fim de uma noite com o fim de tudo.
Regressa ainda nesse ano. E depois, em 2018... Scaloni.
O novo treinador é uma escolha altamente criticada por aqueles que agora o endeusam na Argentina. Mas traz algo diferente. Não começa pela tática, pelo estilo, pela ideia de jogo. Começa pelo coração. E transmite esse sentimento puro a Messi.
Onde havia peso, saturação e frustração, passa a estar um artista de alma leve. A admiração, respeito e carinho que os colegas de equipa passam a sentir por ele só encontram paralelo na forma como ele também retribui.
Nunca se comporta como alguém mais importante. Nunca concorda com quem diz que os colegas não lhe chegam aos calcanhares. A sua maneira de estar recusa essa distância. O talento dá-lhe soluções que os outros não têm. Não lhe dá o direito de os diminuir.
Em 2021, no Maracanã, chega a Copa América. E em 2022, finalmente, o Mundial. Os deuses do futebol a serem justos com um dos seus maiores milagres. Em 2024, outra Copa América. O rapaz das finais perdidas aprende o peso dos troféus. Em 2026, volta à final do Mundial. Com 39 anos. Perde, e perde bem, contra a Espanha. Mas a história está escrita. Sem precisar de nova vitória.
Voltamos ao Monumental. Ao seu silêncio ensurdecedor.
Na despedida, Messi fala dos colegas. Diz que aquele grupo lhe realiza o sonho de criança. Agradece-lhes. Pede que continuem unidos. Pede aos adeptos que estejam com eles quando vierem os dias difíceis. Conhece esses dias. Conhece a facilidade com que o amor das bancadas muda de nome se a bola não entra.
Os colegas ali. Ao lado dele. Alguns, como Enzo Fernández, a chorar como crianças. E Messi está ao lado deles. Nem acima, nem abaixo. Ao lado. Aqueles homens são a sua equipa. Merecem sempre uma palavra. Especialmente nos momentos difíceis. Um abraço quando falham. Messi amadurece também aí. Percebe que a grandeza pode caber numa relação de igualdade. Que um capitão pode ser extraordinário sem obrigar os outros a sentirem-se pequenos.
Por isso choram. Perdem o homem a quem podem entregar a bola quando tudo se fecha. Perdem também uma presença no pequeno mundo do balneário. Alguém que os defende, que os sente. Perdem um líder, sim. E antes de tudo isso, perdem um amigo que por mais que sofra de fora, por mais que mantenha o contacto, deixou de estar ali todos os dias para os ajudar e inspirar.
A despedida de Messi da seleção argentina não é apenas a merecida homenagem a um dos maiores artistas da história do futebol. Mais importante do que isso: é a celebração de alguém que soube amadurecer dentro de campo. Que consegue deixar a imagem de uma pessoa como as outras. Uma boa pessoa. Simples nos gestos. Genial no ofício.
O Monumental continua em silêncio. Como se ficar calado fosse uma forma de lhe guardar o lugar na equipa. Para sempre."

A Última Ceia de Cristiano Ronaldo não foi em Oslo


"Se Jorge Jesus quisesse afirmar a sua autoridade sobre Cristiano Ronaldo, não teria encontrado melhor ocasião do que a que teve no domingo à noite.
Depois das quatro vitórias e, sobretudo, do prazer de voltarmos a ver a Seleção Nacional jogar como joga agora, poucos reclamam o regresso de Cristiano para além de um jogo de despedida. Ninguém quer que Jesus saia.
Ao contrário do que proclama a vox populi, no futebol não são apenas os resultados que importam. A alegria vivida na noite da derrota na final do Euro 2004 desmente essa ideia.
Queremos um futebol de que nos orgulhemos: corajoso, ambicioso e de qualidade. Se ganharmos, como em 2016, tanto melhor.
O insuportável é a letargia morna e sem sal do último Mundial, jogado a passo, em que nem à RD Congo conseguimos ganhar.
Quando Jesus foi anunciado, esperávamos voltar a ver Portugal praticar um futebol que o mundo admirasse. Quatro jogos depois, acreditamos que o vai conseguir.
Ganhar o Mundial de 2030 seria uma alegria sem divisões, que imortalizaria os seus protagonistas. A probabilidade é baixa, mas não é zero. Com Jorge Jesus, aumentou. O selecionador foi o ponto fraco em 2026 e vai ser o ponto forte em 2030.
Jesus sabe que só dez milhões de portugueses o julgam. Os restantes habitantes do planeta não têm Portugal como primeira Seleção. Cristiano não está nessa situação.
E Jesus sabe, como poucos, que a gratidão pode ser mortal para um treinador. A frase de Estaline, segundo a qual a gratidão é a doença dos cães, traduz uma lógica brutal: só os resultados interessam. A Jesus, só ganhar interessa.
Tivesse menos confiança em si próprio e menos personalidade, depois de quatro vitórias e de perceber que os portugueses estavam do seu lado, a conferência de imprensa de domingo teria sido diferente: cheguei, vi e venci. Cristiano is finished.
Não o fez.
No Benfica, depois de Óscar Cardozo o confrontar de forma desrespeitosa na final da Taça de Portugal, Jesus perdoou. Na época seguinte, ganhou as três provas nacionais e disputou a final da Liga Europa.
Um treinador inseguro teria feito daquele episódio uma questão de autoridade. Jesus preferiu recuperar o jogador e continuar a ganhar.
Quanto ao comunicado de Cristiano Ronaldo, não o li até ao fim, mas não gostei do que li. Também foi demasiado longo, como os quarenta minutos de aquecimento.
A personalidade de Cristiano não é novidade. Os seus defeitos não começaram agora, nem a sua grandeza terminou com um erro.
Pedro Proença poderia ter feito como Pôncio Pilatos: lavar as mãos e deixar à multidão o veredicto final. Jesus ou Cristiano? Hoje, a decisão seria óbvia. Em vez disso, procura uma saída institucional.
A decisão técnica pertence ao selecionador; uma eventual infração disciplinar exige o apuramento dos factos e o respeito pelas competências da Federação. Cristiano revelou ter falado com Proença antes de sair do estágio. Importa saber o que foi dito, em vez de condenar primeiro e perguntar depois.
E o que resolverá um castigo?
Uma semana de discussão mundial, milhões de pessoas polarizadas, a Seleção transformada num campo de batalha e o nome de Portugal a ser enxovalhado pelo mundo inteiro?
Muitos dos que hoje reclamam uma sanção seriam os primeiros a contestá-la quando fosse aplicada. O castigo, em vez de encerrar o caso, vai ampliá-lo.
No recato de um treino, fazer vinte flexões sozinho, com os colegas à volta dele a rirem-se e pagar um almoço a todos não seria uma solução equilibrada e suficiente?
Há uma frase atribuída a um general romano sobre os povos da Hispânia: não se governam nem se deixam governar. A autoria é incerta, mas o retrato é atual.
Perante um problema, a nossa abordagem clássica é encontrar culpados. Nunca perdemos tempo a procurar soluções.
Com Cristiano, descobrimos subitamente defeitos que sempre conhecemos. A personalidade não mudou; mudou a disponibilidade para o criticar. Os golos deixaram de lhe garantir a imunidade.
É agora, mais vulnerável, que precisa, e merece, o nosso apoio. Não para desculpar os erros, mas porque tantas vezes nos deu alegria e orgulho em sermos portugueses.
Admiro-o profundamente e considero, ao mesmo tempo, que já não devia jogar na Seleção. Não há qualquer contradição.
Se Jesus entende que Cristiano pode ajudar a ganhar a Liga das Nações, confio no seu julgamento. Não por ser Cristiano. Por ser Jesus. 
A homenagem a Cristiano não devia ser um jogo de futebol. E seria extemporâneo fazê-la agora. Pense-se nela, naturalmente, mas reserve-se para o final da sua carreira de futebolista.
Roma sabia homenagear os seus generais vitoriosos em vida. Não lhes oferecia uma última batalha no Coliseu: abria-lhes as ruas, para que a multidão os saudasse. Porquê limitar a 50 mil espectadores a homenagem ao português mais conhecido de sempre?
Cristiano foi muito mais importante para Portugal do que Messi para a Argentina. Antes de Messi, a Argentina já tinha conquistado dois Mundiais e tivera Maradona, que disputava com Pelé o reconhecimento como melhor jogador de sempre.
Cristiano levou o nosso nome a todos os continentes e ajudou a transformar a autoestima de gerações. Há cinco séculos, os portugueses deram a conhecer novos mundos à Europa. No seu tempo, Cristiano deu a conhecer Portugal ao mundo.
No Triunfo Romano de César, o desfile que celebrou as suas conquistas, manteve-se a tradição de um escravo segurar uma coroa de louros sobre a cabeça enquanto lhe repetia ao ouvido que era mortal e não um deus.
A homenagem não exigia a ausência de pecados, mas que o homenageado também ouvisse críticas no momento da sua consagração, para não se esquecer de que não era mais do que um homem.
Cristiano será imortal na história do futebol, mas é humano. A sua grandeza não apaga os erros, nem os erros diminuem tudo o que deu ao país.
Cristiano não precisa de uma Última Ceia em Oslo nem de uma despedida à pressa.
Quando chegar o momento, que Portugal o homenageie nas ruas, como Roma fazia com os seus generais: celebrando o extraordinário, sem esquecer o homem."

Cristiano, a glória e o adeus


"Ao falarmos do futuro da Seleção Nacional, dele não faz parte CR7. Aos 41 anos, ele próprio tem absoluta noção de que o seu caminho terminou, e devia ter percebido isso antes de cometer a imprudência (ou fazer a asneira) de abandonar a concentração.

O futebol foi criado no século XVI. Mais de 150 anos de história podem ter mudado o jogo, evoluído as regras e aumentado a visibilidade, mas não substituíram a paixão, a dedicação do adepto e até a devoção máxima, quer quando se trata de clubes, quer, sobretudo, quando estão em jogo seleções. A superlativa razão do coração faz com que tudo seja exacerbado, da exaltação das vitórias ao subterrâneo das derrotas.
Muitos foram os nomes que marcaram a História do jogo, e definir o melhor (ou um grupo de melhores), nunca é tarefa fácil e, muito menos, homogénea nas opiniões.
Portugal tem tido sorte. É um alfobre de grandes talentos, desde Eusébio, claro, a Cristiano Ronaldo, não podendo esquecer, nas páginas brilhantes, nomes como Luís Figo, Paulo Futre ou Fernando Chalana. E muitos, felizmente muitos outros.
O estatuto que Cristiano Ronaldo atingiu tem explicações simples: uma vocação excecional para o trabalho, uma dedicação total à profissão, a exploração de um inato talento para se tornar, provavelmente, no melhor atleta de sempre ao serviço do futebol mundial.
E, claro, a mediatização de toda a sua carreira, alicerçada em grandes clubes internacionais, na transversalidade da comunicação e na utilização sublime do fenómeno em rede.
Cristiano conseguiu tudo, e tem, obviamente, tudo para ficar na História de Portugal, da sua Seleção Nacional, do seu desporto e da sua diplomacia, fazendo muito mais pelo País, nos últimos 23 anos, do que consecutivas rondas à volta de mesas ou visitas oficiais.
Dito isto, todos sabemos que, ao falarmos do futuro da Seleção Nacional A de Portugal, dele não faz parte CR7. Aos 41 anos, ele próprio tem absoluta noção de que o seu caminho terminou, e devia ter percebido isso antes de cometer a imprudência (ou fazer a asneira…) de abandonar a concentração da equipa das quinas na véspera de um tão importante jogo na Dinamarca.
Porque foi, de facto — só consigo concebê-lo e qualificá-lo deste modo — um ato irrefletido, brusco, impetuoso, momentâneo e não cruzado com a sua entourage. Só desse modo se compreende (e mesmo assim muito dificilmente…), que o capitão abandone o barco do modo e nos timings em que o fez.
Cristiano percebeu que não é primeira opção de Jorge Jesus, e quase todos nós já o tínhamos percebido, aos soluços, desde o Mundial 2022 e, de modo bem objetivo e claro, no Mundial das Américas, este ano.
E não vem mal nenhum ao mundo por isso. É o inexorável peso do tempo, o ditame mais forte e certo com que todos nós podemos e devemos contar, em vida.
Jesus entrou para a Federação Portuguesa de Futebol com uma única ideia, se bem o conheço: ganhar. O verbo é o único que o treinador da Amadora continua a conhecer, e é o único que pretende conjugar, no seu consulado com a Seleção portuguesa. E não é o verbo que todo o adepto português mais sente e conjuga, do coração até à boca?
Outra coisa é a gestão do adeus de Cristiano Ronaldo. Os mais inflexíveis apontam, numa primeiríssima análise, a necessidade de uma punição, sobretudo para que não haja abertura de perigosos precedentes. Completamente de acordo, embora o reconhecimento do erro tenha projetado, de imediato, o jogador para uma moldura penal de metade da original.
Agora, poderá ter uma suspensão de 15 dias a três meses e, considerando todas as atenuantes e a dimensão supra-nacional do jogador em causa, é natural que se fique pela zona mais baixa da janela.
Por isso, é forçoso perceber a cautela com que a FPF, designadamente o seu presidente, tem lidado com a situação. Bem sabemos que um silêncio prolongado por demasiado tempo é um espaço comunicacional imediatamente ocupado por fenómenos especulativos e, ganhando lugar, são dificilmente rebatíveis e contraditáveis a posteriori. Porém, a sensibilidade da situação, envolvendo quem envolve, aconselha a outra regra de ouro da comunicação de crise: 'menos é mais', permitindo uma leitura transversal e equidistante, e uma decisão mais ponderada, menos transportada pela espuma dos dias ou pela imensa pressão mediática nacional e estrangeira.
Proença esteve bem na reação, ponderada, equilibrada e, acima de tudo, não extremada. Porque importa garantir a Cristiano uma despedida condigna da Seleção, onde marcou posição, bateu recordes e impôs a presença de Portugal no mundo durante quase duas décadas e meia.
A extraordinária homenagem prestada pela Argentina a Lionel Messi é o melhor exemplo que se pode e deve seguir para a despedida do seu maior rival contemporâneo. Já muitos o escreveram, e sublinho: muita sorte tivemos nós, os adeptos do belo jogo, em poder ser brindados, durante tantos anos, por dois génios tão distintos nas origens, nas personalidades, nas características técnicas e competitivas, mas tão próximos no modo como sempre dignificaram as suas camisolas e honraram o que o mundo lhes concedeu.
Saibamos, portanto, encontrar o ponto de equilíbrio para a grande saída de cena de Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro, sendo tão certa a sua despedida da Seleção Nacional — onde um extraordinário grupo de jogadores saberá conjugar o tal verbo de Jorge Jesus, bem notório nos primeiros quatro jogos da Liga das Nações — como a necessidade de ter memória e agradecimento por uma carreira ímpar e notável.
Mas sempre, e isso é, agora, o mais importante, não confundindo gratidão com competição, não misturando emoções e sentimentos, e fazendo do tempo o melhor de todos os conselheiros, na medida certa e na hora exata.

Cartão branco
Conheço o Fernando Eurico há quase quarenta anos. Sei exatamente que uma das suas grandes qualidades é a tentativa de agregação numa boa gestão.
O Fernando é, agora, o responsável máximo pelo setor de desporto da Antena 1, a rádio pública onde comecei a minha carreira, a nível nacional, a 21 de dezembro de 1987.
E também sei dos seus planos: revitalizar, aumentar a abrangência das coberturas, fazer com que a equipa saia cada vez mais das redações e faça o que a telefonia deve fazer: informação global e pessoal. Do longe se faz perto e, por isso, não me surpreendem estes primeiros tempos de mais coberturas no estrangeiros, mais olhares para o interior e para as ilhas, mais rádio próxima do ouvido de todos nós.
Há já dedo do Fernando Eurico. E sei que o melhor ainda estará para ouvir."

Futpedia #30 - FUTDRAFT LEILÃO 💰 VERSÃO LENDAS 👴

A Bola é Minha, Eu é que Sei - S04E08 - ROCKY RONALDO vs JORGE JESUS

Zero: Negócio Mistério - S07E03 - Bruma...

Saúde mental no desporto: da reflexão à ação


"Dos atletas que decidiram parar aos profissionais que trabalham nos bastidores, a saúde mental ganhou visibilidade. Mas estarão as organizações desportivas preparadas para transformar essa preocupação em condições reais de proteção?
Em 2024, Filipe Toledo, bicampeão mundial de surf, decidiu interromper a participação no circuito profissional para cuidar da sua saúde mental. Disse que uma década a competir ao mais alto nível tinha tido um custo e que precisava de parar para recuperar. Este ano, João Fonseca abdicou da digressão asiática de ténis, reconhecendo que precisava de dar tempo ao corpo e à cabeça depois de uma sucessão de lesões. Já em 2022, Declan Rice, internacional inglês e hoje jogador do Arsenal, se tinha tornado embaixador da CALM, uma organização dedicada à prevenção do suicídio, utilizando a sua notoriedade para incentivar outras pessoas a procurar ajuda.
Três atletas, três formas diferentes de reconhecer a importância e contribuir para uma preocupação que se tornou particularmente visível na última década. Já não falamos apenas de atletas que reconhecem dificuldades psicológicas. Falamos também de campeões que decidem parar, de jovens que aprendem a respeitar os seus limites e de figuras do desporto que assumem publicamente a defesa da saúde mental.
Multiplicaram-se as campanhas, os programas de apoio e as recomendações internacionais. Em agosto, o Comité Olímpico Internacional (COI) publicou uma nova declaração de consenso sobre saúde mental no alto rendimento, atualizando a de 20191. A investigação que a acompanha ajuda a perceber a dimensão do desafio.
A meta-analise (72 estudos) que sustenta a este consenso, estima que cerca de um em cada três atletas no ativo reporta sintomas de sofrimento psicológico. Aproximadamente um em cada cinco reporta sintomas de depressão, ansiedade ou perturbações do sono. Os comportamentos alimentares desordenados surgem em mais de um quarto dos participantes2. Saúde mental Saúde mental

Mas os atletas são apenas uma parte desta história.
Os treinadores vivem igualmente sob pressão. São avaliados pelos resultados, tomam decisões difíceis, gerem expectativas e trabalham, muitas vezes, com uma enorme incerteza sobre o futuro. Espera-se que transmitam confiança e estabilidade às equipas, mesmo quando a sua própria estabilidade está a ser posta à prova.
A investigação confirma que o desgaste é significativo. Num estudo longitudinal com 299 treinadores de alto rendimento, quase um quarto apresentava níveis elevados de exaustão no final da época3. A carga de trabalho e a dificuldade em conciliar a profissão com a vida pessoal surgem associadas a maior desgaste. Não se trata apenas de uma questão de resistência individual. As condições em que se exerce a profissão também contam.
Esta realidade estende-se a todo o tipo de profissionais que atuam nos bastidores: médicos, fisioterapeutas, psicólogos, preparadores físicos e outros elementos das equipas de suporte vivem sujeitos a calendários exigentes, viagens constantes, responsabilidades elevadas e à pressão de garantir que tudo funciona quando chega o momento de competir.
Num estudo australiano com 252 treinadores e profissionais de suporte, cerca de quatro em cada dez atingiram o limiar de rastreio para uma possível condição psicológica4, o que faz das preocupações associadas à saúde mental um assunto muito mais abrangente do que simplesmente um tema de atletas.
Na realidade, na generalidade das (poucas) situações em que o apoio existe, ele é especificamente direcionado a atletas – esperamos que treinadores e equipas técnicas cuidem do bem-estar de quem compete, mas nem sempre lhes proporcionamos condições equivalentes.
Quem cuida de quem cuida?
Durante muito tempo, a resposta à saúde mental no desporto concentrou-se sobretudo no indivíduo. Desenvolver competências para lidar com a pressão, gerir emoções, recuperar de um erro ou adaptar-se à adversidade. Tudo isto continua a ser fundamental. O alto rendimento exige preparação psicológica, tal como exige preparação física, técnica e tática.
Mas há uma pergunta que a investigação começou a colocar com maior insistência: e se parte do problema estiver também nas condições em que estas pessoas vivem e trabalham?

O papel das organizações desportivas
O desporto tem sido um enorme impulsionador da visibilidade do tema, inclusive na sociedade. Há mais atletas a falar sobre o assunto, mais investigação, mais programas e maior reconhecimento institucional. É um progresso importante, mas o verdadeiro compromisso não se mede pelo número de campanhas, pelas declarações de princípios ou pela existência de um gabinete de apoio psicológico. Mede-se pelas condições que as organizações oferecem e pela disponibilidade para modificar aquilo que as compromete.
Em 2024, um grupo internacional de especialistas descreveu situações em que psicólogos atendiam atletas no lobby de hotéis durante estágios e competições. Noutros casos, os gabinetes estavam localizados em zonas onde treinadores e dirigentes conseguiam observar quem entrava e saía – as organizações disponibilizavam apoio psicológico, mas não as condições para que o mesmo se pudesse efetivar.
Há uma diferença grande entre querer fazer e fazer de facto. E fazê-lo bem.
Construir uma cultura que proteja a saúde mental dos atletas, treinadores e demais colaboradores obriga a rever práticas de liderança, critérios de avaliação, políticas de confidencialidade, formas de comunicação e decisões organizacionais que se tornaram habituais, antecipando o impacto direto na qualidade dos contextos onde as pessoas desenvolvem a sua atividade.
O próprio processo de seleção e recrutamento do especialista que deverá ser responsável pela área de saúde mental tem levantado sérias questões éticas em muitas organizações, pois a visibilidade dada ao tema trouxe consigo também uma multiplicação de ofertas de apoio de carácter científico e ético duvidoso.
A naturalidade com que outras áreas encaram poder “fazer uma perninha” na área do apoio psicológico, saúde mental e mesmo na área do treino de competências emocionais é verdadeiramente assustadora e resulta, em última instância, no agravamento das condições de saúde mental de quem a eles recorre.
Ter alguém a desempenhar uma função não significa que essa função esteja a ser desempenhada por quem tem legitimidade e preparação para o fazer. E essa responsabilidade começa no recrutamento, e termina na organização que contrata.
Contribuir para ambientes que a protejam é também um dever, proporcional à influência e ao poder de cada um. A responsabilidade de quem dirige uma equipa, um clube ou uma federação não é a mesma de quem está sujeito às suas decisões.
A proposta de Orçamento do Estado para 2027 prevê uma dotação de 76 milhões de euros para o Desporto, quase 30% mais do que a relativa ao corrente ano. Mas saberemos qual a percentagem que será efetivamente canalizada para esta área (se é que haverá alguma)? Não seria expectável que a atribuição desta dotação viesse acompanhada de um compromisso por parte de quem a recebe, definindo que parcela será aplicada neste setor? Será que uma medida deste género é realmente tão inviável de concretizar?
Não, não é.
Precisa é de haver vontade política (diria coragem e visão) no sentido de orientar as organizações desportivas para um rumo que é uma necessidade cada vez mais emergente."