"A contenda entre o selecionador nacional Jorge Jesus e a nossa mega-estrela Cristiano Ronaldo monopolizou a discussão no espaço público português. Tudo foi já passado a pente fino, do ponto de vista futebolístico, psicológico e social. Conhecidas as versões das duas partes, o caso parece resumir-se à insensibilidade de Jorge Jesus na forma como tratou a sua maior estrela e à hipersensibilidade de Ronaldo quanto à forma como foi tratado. Nada que justificasse tamanho barulho. Uma explosão que parecia de bomba atómica e que afinal parece não passar de uma granada de pólvora seca. É o problema destes casos; “todos sabemos como começam, mas ninguém sabe como acabam ou como acabar com eles”.
Considero Jorge Jesus um dos melhores treinadores do planeta e Cristiano Ronaldo, a par de Messi, os dois melhores jogadores de sempre. Talvez o problema resida aí: ambos têm um ego à dimensão do seu valor, e isso leva-os a achar que podem tudo. Mas, sendo a matéria em causa de fraca qualidade, bastaria que houvesse um adulto na sala quando o caso eclodiu para de imediato por um ponto final no mesmo.
Esse adulto tinha de ser a Federação. E a verdade é que o seu Presidente, também ele dono de um ego considerável, demitiu-se do seu papel e não foi a jogo quando o problema ainda estava no início.
Este caso é como os incêndios florestais: ou se apaga nos primeiros momentos, ou depois é deixar arder tudo. Foi o que aconteceu. A FPF tem uma estrutura de futebol profissional numerosa e principescamente paga: Pedro Proença, Helena Pires, Óscar Tojo, Lourenço Pereira Coelho, João Vieira Pinto, os vogais Daniel Carriço e Domingos Paciência, para além do gabinete de comunicação, que parece servir sobretudo para não deixar os jogadores falar. Tenho a certeza de que várias destas alminhas faziam parte da comitiva quando tudo aconteceu. A sua intervenção? Zero. Bola.
Até a reunião entre Cristiano e Jorge Jesus foi mediada por Simão Coutinho, diretor do Al Nassr, com Tiago Craveiro, antigo dirigente da FPF e hoje na estrutura de CR7, a participar via Zoom. Ninguém da FPF se apercebeu do problema, ou andavam em turismo pela Noruega e pela Dinamarca? Ninguém explicou a Jorge Jesus e a Cristiano Ronaldo que aquilo se resolvia numa conversa entre os dois, e que o assunto não tinha dignidade para se tornar um caso desta dimensão e que, se o deixassem crescer, as consequências reputacionais para ambos seriam brutais?
Se ninguém se apercebeu, há duas coisas a fazer rapidamente: obrigar Jesus e Ronaldo, ainda que momentaneamente, a esvaziarem os seus egos e a fumarem o cachimbo da paz e de seguida, a despedirem aquela gente toda, que serve para muito pouco. A solução passava, e continua a passar, pelo bom senso. Coisa que, pelo que se viu, parece não existir, nem nos envolvidos, e muito menos nas pessoas que os circundam, e que pelo que se viu, valem muito pouco, muito pouco mesmo."

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