Últimas indefectivações

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Coisas habituais


"1. Não há campeões em setembro. Ninguém é campeão e ninguém deixa de ser campeão nesta altura do ano. Não sirvam estas considerações básicas de consolo, porque não é essa a intenção. O Benfica terá de fazer o seu campeonato com o olhar posto nos 3 pontos, jornada a jornada, apenas isso.

2. O treinador do FC Porto ganhou na oratória. Atirou com o conceito das “coisas estranhas” e viu-se, no decorrer do jogo, como árbitros e video árbitros tudo fizeram para que nada de estranho acontecesse. Fez bem Marco Silva ao recusar-se a entrar neste lamaçal.

3. Nesse sentido, pode dizer-se que o clássico foi um repertório de clássicos. Houve momentos em que o decorrer do jogo até forneceu a sensação de estarmos numa festa temática dos anos 90.

4. Na primeira parte, por exemplo, os donos da casa fizeram 9 faltas e receberam 1 cartão amarelo. Os visitantes fizeram 6 faltas e receberam 3 cartões amarelos e um cartão vermelho. Há jogos, nomeadamente entre os emblemas mais importantes, que ficam para a História ligados a um episódio, a uma conjuntura, a uma jogada, a um jogador, a uma frase… Falaremos sempre do FC Porto-Benfica “do César Brito” ou do Sporting- -Benfica “do João Vieira Pinto” ou do Benfica- -FC Porto “do golo do Saviola”.

5. Este último clássico bem pode ficar para a História como o jogo da “dualidade de critérios”, que foi a expressão mais usada por todo o país mal o árbitro deu por terminados os seus trabalhos. Crianças de tenra idade recém-iniciadas no gosto pela bola, anciões que veem futebol há décadas e décadas, gente de todas as profissões e condições que se interessa pelo fenómeno desportivo independentemente das suas afeições clubistas, analistas profissionais, analistas amadores e o próprio presidente do Benfica, não houve quem não utilizasse o chavão da “dualidade de critérios” para resumir os acontecimentos da noite de domingo.

6. No fim do FC Porto-Benfica “da dualidade de critérios”, o treinador do Benfica apresentou-se na sala de imprensa e recusou-se a dar troco ao treinador do FC Porto. “Venho de uma cultura diferente”, disse. Deve ser, de facto, um retrocesso civilizacional, depois de quase uma década a trabalhar em Inglaterra, voltar a Portugal e constatar que nada mudou.

7. Vem aí mais uma pausa no Campeonato por força das seleções. O Benfica dá 17 jogadores às suas respetivas equipas nacionais. Três deles – Samuel, Araújo e Palhinha – foram chamados por Jesus, o que faz do Benfica o clube português que mais contribui para a seleção nacional. Isto é que já não era habitual."

Leonor Pinhão, in O Benfica

A despedida do Bom Gigante


"JOSÉ TORRES REALIZOU O SEU ÚLTIMO JOGO PELO BENFICA EM JULHO DE 1971, DEPOIS DE 12 ÉPOCAS NA LUZ.

A 21 de julho de 1971, jogou-se a final da Taça Ribeiro dos Reis. Empurrada para a equipa de reservas, a importância da prova já não fazia jus ao nome que ostentava. O Benfica disputou a final da prova, com a sua equipa de reservas, frente ao Sporting de Braga, no Estádio do Restelo, “muito bem emoldurado de público”.
José Torres era o capitão da equipa e, como alguns dos seus companheiros, realizava o seu último jogo com a camisola do Benfica. Neste dia, “Torres não quis abandonar o Benfica sem deixar saudades entre os benfiquistas. Atrás, à frente, bolas na trave, um golo, enfim… Torres”. Marcou o primeiro dos 3 golos encarnados, de cabeça, aos 10 minutos da segunda parte, e foi com orgulho e emoção que, no final do encontro, levantou mais um troféu para o clube que representou durante 12 épocas.
Aos 33 anos, José Torres deixava o Benfica para representar o Vitória Futebol Clube. Mas a despedida do Bom Gigante não podia ficar assim! Então, José Torres foi homenageado no Estádio da Luz, a 31 de julho de 1971, antes do jogo amigável frente ao Arsenal. O elogio ao jogador foi lido por Osvaldo Branco, vice-presidente da Direção, e, de seguida, Torres alinhou no seu lugar habitual e jogou, durante dois minutos, “no ataque que tantas vezes conduziu e fez brilhar”. Seguiu-se a despedida para sempre, “sublinhada com os quentes, sinceros e demorados aplausos dos que sempre o acarinharam e incitaram”.
O amor de José Torres ao Benfica foi descrito da melhor forma por Osvaldo Branco, quando, no elogio ao jogador, referiu a resposta de Torres ao ser questionado sobre a sua dispensa do Benfica: “Se eu no decurso de 12 épocas ajudei a resolver tantos problemas futebolísticos ao Benfica, pois se o Benfica de mim precisa para a resolução de mais um, pode contar com a minha colaboração.”
José Torres conquistou 9 Campeonatos Nacionais, 4 Taças de Portugal e 3 Taças de Honra, marcou 284 golos em 347 jogos pela equipa principal e, em 1962/63, conquistou a Bola de Prata, por ter sido o melhor marcador do Campeonato Nacional, com 26 golos.
Saiba mais sobre o Bom Gigante na área 23 – Inesquecíveis, do Museu Benfica – Cosme Damião."

Marisa Manana, in O Benfica

Campo inclinado


"Prestianni foi pontapeado, esbofeteado, ficou a sangrar e acabou por ser ele a ver o cartão amarelo. Lenglet tocou com a ponta dos dedos na orelha de um adversário e foi expulso. Estas situações retratam bem o “Clássico” do Estádio do Dragão, onde, uma vez mais, a arbitragem impeliu o Benfica para a derrota – fazendo lembrar tantas outras ocasiões do passado, designadamente nos tempos do “Apito Dourado” e do antigo Estádio das Antas.
Não foram esses os únicos momentos em que a dualidade de critérios se fez sentir. Tal aconteceu em quase toda a partida. O FC Porto parece ter recuperado velhos métodos de jogo subterrâneo, carregado de provocações, simulações e agressões, e tudo isso foi sendo permitido por Miguel Nogueira. Pelo contrário, ao Benfica o juiz aplicou um critério bastante restritivo. Ora, num jogo destes, se uma equipa pode ser agressiva (ou mesmo violenta) na disputa dos lances, e a outra não pode sequer respirar, mesmo sem penáltis nem golos anulados, a influência da arbitragem no resultado é clara. É este o paradigma da chamada arbitragem “habilidosa”.
Numa jornada extremamente importante, em que o Benfica podia assumir a liderança, ou, pelo contrário, ficar a 5 pontos de distância do primeiro lugar, foi para esta última situação que nos empurraram. Infelizmente, nem as suspeitas de corrupção que mancham o Conselho de Arbitragem dos pés à cabeça têm alterado uma tendência que se vem acentuando ao longo dos últimos anos. Perdemos uma Taça de Portugal como perdemos, vimos 9 grandes penalidades por assinalar a nosso favor na época passada e este Campeonato parece ir no mesmo caminho. Assim, de facto, é difícil.
O Benfica tem tentado jogar futebol. Acontece que a liga portuguesa não se ganha a jogar futebol. Se havia dúvidas, este “Clássico” dissipou-as."

Luís Fialho, in O Benfica

Ao serviço de todos!

"Cumpre-se o Desporto e eleva ao máximo expoente a sua função social quando consegue chegar a todos e não apenas aos mais jovens, aos mais talentosos ou aos que têm melhores condições para o praticar. Quando é capaz de chegar, também, a quem encontra na idade, na deficiência, na condição económica ou no seu percurso de vida obstáculos à participação. É neste princípio basilar e simples que assenta muito do trabalho desenvolvido pela Fundação Benfica, com o desporto adaptado a demonstrar diariamente que a deficiência não deve significar afastamento da prática desportiva, sendo, pelo contrário, o desporto um poderoso instrumento de autonomia, participação e reconhecimento social.
Também o envelhecimento ativo ocupa um espaço cada vez mais importante nos projetos de desporto inclusivo da Fundação, com enfoque na saúde e na cidadania, numa sociedade envelhecida como a nossa em que é imperativo criar oportunidades para que as pessoas continuem fisicamente ativas, socialmente envolvidas e integradas nas suas comunidades. Mas o papel do desporto inclusivo não se esgota aqui. Com refugiados e pessoas em situação de particular vulnerabilidade, assume ainda outra dimensão quando, através duma simples bola, uma equipa e regras partilhadas, podem criar-se de forma ágil e segura relacionamentos, confiança, sentimento de pertença e comunidade.
Esta capacidade de incluir, que torna o desporto verdadeiramente transformador, amplifica-se quando um clube com a dimensão do Benfica usa o seu poder de mobilização e comunicação ao serviço das pessoas: de todas as pessoas!"

Jorge Miranda, in O Benfica