quarta-feira, 30 de setembro de 2026

A geração dos nossos filhos


"Chamaram criminosa à geração dos nossos filhos e ninguém os defendeu. Podemos estar entre os melhores do mundo sem pedir licença nem nos sentirmos menores por sermos portugueses. Nós é que não cumprimos a nossa parte.

Num recente congresso sobre o futebol português, um dos oradores afirmou que estamos a formar uma «geração de criminosos», que considera normal roubar no digital.
Todos temos frases infelizes e o objetivo deste texto não é promover o linchamento digital de quem a proferiu. Mas a crítica que diariamente se faz à geração dos nossos filhos tem de ser desmascarada e combatida.
A pirataria é ilegal. Prejudica o futebol, o cinema, a música, os livros e a imprensa — se ninguém pagar pela informação, um dia deixará de existir quem possa produzi-la.
Se o problema atingiu a dimensão que nos dizem, por que razão não o resolvemos?
Os operadores de telecomunicações ocupam uma posição central no acesso à Internet e recebem as mensalidades dos clientes, incluindo daqueles que utilizam os seus serviços para consumir conteúdos ilegalmente.
Se a pirataria é praticada através do acesso à Internet, não fará sentido discutir uma contribuição sobre esse acesso destinada a compensar os meios e os produtores de conteúdos afetados, ajudando a garantir a sua sobrevivência e a dos seus trabalhadores?
Dissemos aos nossos filhos para estudar. Estudaram. Para aprender línguas, tirar licenciaturas e mestrados, fazer Erasmus e prepararem-se para competir num mundo global. Fizeram-no.
E estão tão bem preparados que competem no mercado de trabalho global com os melhores do mundo, sem o complexo de inferioridade de serem portugueses, como a camisola 7 da Seleção Nacional já lhes tinha ensinado com Figo e Ronaldo.
Duas gerações que ajudaram a normalizar uma ideia que hoje parece evidente, mas nem sempre foi: podemos estar entre os melhores do mundo sem pedir licença nem nos sentirmos menores por sermos portugueses.
Nós é que não cumprimos a nossa parte.
Quando comparamos as condições que encontrámos com aquelas que lhes estamos a deixar, teremos autoridade para dar lições?
Portugal sempre foi um país de emigrantes. Durante décadas emigraram sobretudo aqueles a quem a pobreza não permitira estudar.
Hoje partem também médicos, engenheiros, investigadores, gestores e outros jovens altamente qualificados em cuja formação o país investiu durante vinte anos.
A nossa geração conseguiu, com exceções e dificuldades, ter uma sequência relativamente normal para a vida: trabalhar, sair de casa dos pais, constituir família, comprar casa e ter filhos.
Para demasiados dos nossos filhos, essa sequência deixou de ser possível. Podem ter um mestrado, trabalhar a tempo inteiro e não conseguir arrendar uma casa. Depois criticamo-los porque viajam, uma das poucas formas de realização que ainda conseguem pagar.
Passar um fim de semana em Londres é possível. Arrendar um T1 em Lisboa, não.
Não é falta de ambição. É a diferença entre um objetivo concretizável e outro praticamente inalcançável.
Há uma expressão para aquilo que estamos a fazer: egoísmo intergeracional.
A nossa geração utiliza a sua posição económica, política e demográfica para preservar as vantagens de que beneficiou, deixando a conta à seguinte.
Beneficia de um Estado social que os nossos filhos ajudam hoje a financiar e continua a ocupar grande parte dos lugares onde são tomadas as decisões que determinarão quanto eles pagam, quanto recebem e com que idade poderão reformar-se.
Transformamos as vantagens circunstanciais da nossa geração em virtudes pessoais e as dificuldades estruturais da geração seguinte em defeitos de caráter.
Nós comprámos casa porque éramos responsáveis; eles não compram porque preferem viajar. Nós trabalhávamos; eles querem qualidade de vida. Nós constituímos família; eles adiam os filhos. Nós poupávamos; eles gastam.
É uma narrativa confortável, falsa e profundamente injusta.
Edmund Burke escreveu em Reflections on the Revolution in France, publicada em 1790, que a sociedade é uma parceria entre os vivos, os que morreram e aqueles que ainda estão por nascer.
Esquecemo-nos da última parte da parceria.
Hoje, os nossos filhos trabalham, pagam impostos e descontam para financiar o Estado social e as pensões das gerações anteriores, sem saberem em que condições se reformarão numa sociedade muito mais envelhecida.
E ainda nos surpreendemos porque saem tarde de casa, têm filhos mais tarde, emigram ou gastam algumas centenas de euros numa viagem.
Não são uma geração de criminosos, preguiçosos ou irresponsáveis.
Precisam que sejamos justos, até porque a nossa geração não realizou nenhuma das grandes ruturas históricas que transformaram Portugal.
Não fomos nós que combatemos na Guerra Colonial. Não fomos nós que lhe pusemos fim e conquistámos a democracia. Quando chegámos à idade adulta, outros tinham feito a parte mais difícil: Portugal vivia em paz e em liberdade.
Também não fomos nós que negociámos a adesão à Comunidade Económica Europeia. Recebemos um país integrado na Europa e beneficiámos dos fundos que ajudaram a construir infraestruturas, escolas, hospitais, redes de água e saneamento, modernizar empresas e qualificar portugueses.
Estudar, trabalhar, viajar ou criar uma empresa olhando para a Europa passou a fazer parte do nosso horizonte natural.
A geração anterior entregou-nos um país incomparavelmente diferente daquele que tinha recebido: sem guerra, democrático, europeu e muito mais desenvolvido.
Nós recebemos essa herança.
Vamos entregar aos nossos filhos um país melhor do que aquele que recebemos dos nossos pais?
Um país onde trabalhar lhes permita sair de casa, estudar continue a compensar, constituir família seja um objetivo realista e emigrar seja uma escolha, não a melhor forma de transformar qualificações em qualidade de vida.
Uma geração não deve ser avaliada apenas pelo que conquistou para si, mas pelo que deixa à seguinte.
Antes de julgarmos a geração dos nossos filhos, está na altura de a nossa geração prestar contas à deles."

Gravidez não é cartão vermelho


"Uma futebolista anuncia ao clube que está grávida, como aconteceu agora no Benfica. Pode continuar a jogar? Pode, se a sua saúde e os médicos o permitirem. Pode o clube afastá-la só porque vai ser mãe? Não. Tem proteção especial? Também não. Mas precisa, não concorda, caro leitor?
A Lei n.º 54/2017 regula o contrato de trabalho desportivo e manda aplicar, subsidiariamente, as regras gerais do trabalho compatíveis com o desporto. A atleta tem direito a consultas pré-natais e à proteção da sua saúde. Se a atividade oferecer riscos, o clube deve adaptar as condições, atribuir-lhe tarefas compatíveis ou dispensá-la de trabalhar.
Depois do parto, há licença parental inicial de 120 ou 150 dias, que pode ser partilhada com o pai, e dispensa para amamentação. A FIFA exige, para as futebolistas, pelo menos 14 semanas de licença de maternidade e apoio médico e físico no regresso. E se o clube quiser despedi-la enquanto está grávida? Em Portugal, é preciso solicitar um parecer prévio à Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego. Sim, tenha consciência: a gravidez não é justa causa.
O Regulamento da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) garante alguns direitos às jogadoras grávidas: o artigo 41.º prevê o direito a «continuar a prestar serviços ao clube», eventualmente em funções «alternativas»; a possibilidade de «determinar livremente a data da licença de maternidade» e o direito a «regressar à atividade desportiva».
Como se vê, há uma tentativa de melhorar o regime legal. Mas parece evidente que as jogadoras precisam de mais apoio e melhores soluções legais. O trabalho desportivo tem especificidades muito grandes: ter um filho não pode ser um ato de coragem. Tem de ser um ato normal. O Sindicato dos Jogadores entregou, em fevereiro de 2023, uma proposta à FPF.
Há três anos que a bola está, pois, dentro da área da FPF. Há ainda outra questão: o contrato de trabalho desportivo tem prazo. Se este acabar, caduca, sem renovação automática, mesmo durante a maternidade. Isso não dá ao clube licença para usar a gravidez como critério para não renovar. Mas será difícil provar discriminação, caso exista. Difícil para as profissionais, não é?
Ter um filho não pode significar perder a carreira. A jogadora tem direito a voltar ao campo; o clube tem o dever de a tratar como profissional, antes e depois de ser mãe. E Portugal precisa de mais crianças.
O Direito ao Golo vai para Vasco Vilaça, ganhou ontem, em Pontevedra, o Campeonato do Mundo de triatlo, e ainda para Jorge Jesus e a Seleção Nacional. Dois jogos, duas vitórias. Impossível começar melhor."

Coisas habituais


"1. Não há campeões em setembro. Ninguém é campeão e ninguém deixa de ser campeão nesta altura do ano. Não sirvam estas considerações básicas de consolo, porque não é essa a intenção. O Benfica terá de fazer o seu campeonato com o olhar posto nos 3 pontos, jornada a jornada, apenas isso.

2. O treinador do FC Porto ganhou na oratória. Atirou com o conceito das “coisas estranhas” e viu-se, no decorrer do jogo, como árbitros e video árbitros tudo fizeram para que nada de estranho acontecesse. Fez bem Marco Silva ao recusar-se a entrar neste lamaçal.

3. Nesse sentido, pode dizer-se que o clássico foi um repertório de clássicos. Houve momentos em que o decorrer do jogo até forneceu a sensação de estarmos numa festa temática dos anos 90.

4. Na primeira parte, por exemplo, os donos da casa fizeram 9 faltas e receberam 1 cartão amarelo. Os visitantes fizeram 6 faltas e receberam 3 cartões amarelos e um cartão vermelho. Há jogos, nomeadamente entre os emblemas mais importantes, que ficam para a História ligados a um episódio, a uma conjuntura, a uma jogada, a um jogador, a uma frase… Falaremos sempre do FC Porto-Benfica “do César Brito” ou do Sporting- -Benfica “do João Vieira Pinto” ou do Benfica- -FC Porto “do golo do Saviola”.

5. Este último clássico bem pode ficar para a História como o jogo da “dualidade de critérios”, que foi a expressão mais usada por todo o país mal o árbitro deu por terminados os seus trabalhos. Crianças de tenra idade recém-iniciadas no gosto pela bola, anciões que veem futebol há décadas e décadas, gente de todas as profissões e condições que se interessa pelo fenómeno desportivo independentemente das suas afeições clubistas, analistas profissionais, analistas amadores e o próprio presidente do Benfica, não houve quem não utilizasse o chavão da “dualidade de critérios” para resumir os acontecimentos da noite de domingo.

6. No fim do FC Porto-Benfica “da dualidade de critérios”, o treinador do Benfica apresentou-se na sala de imprensa e recusou-se a dar troco ao treinador do FC Porto. “Venho de uma cultura diferente”, disse. Deve ser, de facto, um retrocesso civilizacional, depois de quase uma década a trabalhar em Inglaterra, voltar a Portugal e constatar que nada mudou.

7. Vem aí mais uma pausa no Campeonato por força das seleções. O Benfica dá 17 jogadores às suas respetivas equipas nacionais. Três deles – Samuel, Araújo e Palhinha – foram chamados por Jesus, o que faz do Benfica o clube português que mais contribui para a seleção nacional. Isto é que já não era habitual."

Leonor Pinhão, in O Benfica

A despedida do Bom Gigante


"JOSÉ TORRES REALIZOU O SEU ÚLTIMO JOGO PELO BENFICA EM JULHO DE 1971, DEPOIS DE 12 ÉPOCAS NA LUZ.

A 21 de julho de 1971, jogou-se a final da Taça Ribeiro dos Reis. Empurrada para a equipa de reservas, a importância da prova já não fazia jus ao nome que ostentava. O Benfica disputou a final da prova, com a sua equipa de reservas, frente ao Sporting de Braga, no Estádio do Restelo, “muito bem emoldurado de público”.
José Torres era o capitão da equipa e, como alguns dos seus companheiros, realizava o seu último jogo com a camisola do Benfica. Neste dia, “Torres não quis abandonar o Benfica sem deixar saudades entre os benfiquistas. Atrás, à frente, bolas na trave, um golo, enfim… Torres”. Marcou o primeiro dos 3 golos encarnados, de cabeça, aos 10 minutos da segunda parte, e foi com orgulho e emoção que, no final do encontro, levantou mais um troféu para o clube que representou durante 12 épocas.
Aos 33 anos, José Torres deixava o Benfica para representar o Vitória Futebol Clube. Mas a despedida do Bom Gigante não podia ficar assim! Então, José Torres foi homenageado no Estádio da Luz, a 31 de julho de 1971, antes do jogo amigável frente ao Arsenal. O elogio ao jogador foi lido por Osvaldo Branco, vice-presidente da Direção, e, de seguida, Torres alinhou no seu lugar habitual e jogou, durante dois minutos, “no ataque que tantas vezes conduziu e fez brilhar”. Seguiu-se a despedida para sempre, “sublinhada com os quentes, sinceros e demorados aplausos dos que sempre o acarinharam e incitaram”.
O amor de José Torres ao Benfica foi descrito da melhor forma por Osvaldo Branco, quando, no elogio ao jogador, referiu a resposta de Torres ao ser questionado sobre a sua dispensa do Benfica: “Se eu no decurso de 12 épocas ajudei a resolver tantos problemas futebolísticos ao Benfica, pois se o Benfica de mim precisa para a resolução de mais um, pode contar com a minha colaboração.”
José Torres conquistou 9 Campeonatos Nacionais, 4 Taças de Portugal e 3 Taças de Honra, marcou 284 golos em 347 jogos pela equipa principal e, em 1962/63, conquistou a Bola de Prata, por ter sido o melhor marcador do Campeonato Nacional, com 26 golos.
Saiba mais sobre o Bom Gigante na área 23 – Inesquecíveis, do Museu Benfica – Cosme Damião."

Marisa Manana, in O Benfica

Campo inclinado


"Prestianni foi pontapeado, esbofeteado, ficou a sangrar e acabou por ser ele a ver o cartão amarelo. Lenglet tocou com a ponta dos dedos na orelha de um adversário e foi expulso. Estas situações retratam bem o “Clássico” do Estádio do Dragão, onde, uma vez mais, a arbitragem impeliu o Benfica para a derrota – fazendo lembrar tantas outras ocasiões do passado, designadamente nos tempos do “Apito Dourado” e do antigo Estádio das Antas.
Não foram esses os únicos momentos em que a dualidade de critérios se fez sentir. Tal aconteceu em quase toda a partida. O FC Porto parece ter recuperado velhos métodos de jogo subterrâneo, carregado de provocações, simulações e agressões, e tudo isso foi sendo permitido por Miguel Nogueira. Pelo contrário, ao Benfica o juiz aplicou um critério bastante restritivo. Ora, num jogo destes, se uma equipa pode ser agressiva (ou mesmo violenta) na disputa dos lances, e a outra não pode sequer respirar, mesmo sem penáltis nem golos anulados, a influência da arbitragem no resultado é clara. É este o paradigma da chamada arbitragem “habilidosa”.
Numa jornada extremamente importante, em que o Benfica podia assumir a liderança, ou, pelo contrário, ficar a 5 pontos de distância do primeiro lugar, foi para esta última situação que nos empurraram. Infelizmente, nem as suspeitas de corrupção que mancham o Conselho de Arbitragem dos pés à cabeça têm alterado uma tendência que se vem acentuando ao longo dos últimos anos. Perdemos uma Taça de Portugal como perdemos, vimos 9 grandes penalidades por assinalar a nosso favor na época passada e este Campeonato parece ir no mesmo caminho. Assim, de facto, é difícil.
O Benfica tem tentado jogar futebol. Acontece que a liga portuguesa não se ganha a jogar futebol. Se havia dúvidas, este “Clássico” dissipou-as."

Luís Fialho, in O Benfica

Ao serviço de todos!

"Cumpre-se o Desporto e eleva ao máximo expoente a sua função social quando consegue chegar a todos e não apenas aos mais jovens, aos mais talentosos ou aos que têm melhores condições para o praticar. Quando é capaz de chegar, também, a quem encontra na idade, na deficiência, na condição económica ou no seu percurso de vida obstáculos à participação. É neste princípio basilar e simples que assenta muito do trabalho desenvolvido pela Fundação Benfica, com o desporto adaptado a demonstrar diariamente que a deficiência não deve significar afastamento da prática desportiva, sendo, pelo contrário, o desporto um poderoso instrumento de autonomia, participação e reconhecimento social.
Também o envelhecimento ativo ocupa um espaço cada vez mais importante nos projetos de desporto inclusivo da Fundação, com enfoque na saúde e na cidadania, numa sociedade envelhecida como a nossa em que é imperativo criar oportunidades para que as pessoas continuem fisicamente ativas, socialmente envolvidas e integradas nas suas comunidades. Mas o papel do desporto inclusivo não se esgota aqui. Com refugiados e pessoas em situação de particular vulnerabilidade, assume ainda outra dimensão quando, através duma simples bola, uma equipa e regras partilhadas, podem criar-se de forma ágil e segura relacionamentos, confiança, sentimento de pertença e comunidade.
Esta capacidade de incluir, que torna o desporto verdadeiramente transformador, amplifica-se quando um clube com a dimensão do Benfica usa o seu poder de mobilização e comunicação ao serviço das pessoas: de todas as pessoas!"

Jorge Miranda, in O Benfica