Últimas indefectivações

terça-feira, 21 de julho de 2020

O sossego de um homem inquieto...

"Vítor Silva não escondeu as lágrimas emocionadas na tarde do seu adeus, nas Amoreiras, em Setembro de 1936. Tinha apenas 27 anos, mas problemas com varizes numa das pernas obrigaram-no a abandonar o futebol de uma forma emocionante, contra o rival de sempre: o Sporting.

'Vítor Silva, um nome popularíssimo e grande jogador, despediu-se hoje do football. O Campo das Amoreiras registou a primeira grande enchente da temporada': era assim o início da notícia naquele dia 13 de Setembro de 1936.
Avançado terrível, não parava um segundo quieto, e essa inquietação arrastava a equipa para a insatisfação, e os adversários para cargas de nervos de provocar ataques de bexigas. Realizou 235 jogos com a camisola encarnada e marcou 202 golos. Tudo nele era velocidade, reflexos e espírito do golo. O golo no topo das prioridades. Aquele espaço balizado entre os postes e a trave fascinava-o. A forma como ultrapassar os guarda-redes também.
Nesse dia de Setembro abandonava os campos. Chegara ao fim.
'Abaterem-se bandeiras. Os aficionados da modalidade mais valorizada juntaram-se todos, esquecidos de ressentimentos clubistas, a fim de apresentarem uma grande homenagem àquele que deu tardes de glória ao futebol português. O dia desportivo de hoje, em Lisboa, pôde chamar-se Dia Vítor Silva'.
Houve de tudo um pouco.
E um Benfica - Sporting, claro está! Nem os seus adversários leoninos quiseram ficar fora da grande festa do adeus de um homem universal.
Eram exactamente cinco horas e três minutos da tarde.

Cinco horas e três minutos em ponto da tarde!
Os jogadores do Benfica formaram alas. Por entre eles passa Vítor Silva, o enorme Vítor Silva, um fulano magrinho, cinco-réis de gente e uma alma na qual cabiam mundos inteiros. O público ergue-se numa ovação comovida. Vítor não esconde as lágrimas. É impossível. Um momento que o marca sobremaneira. E não existe nenhuma maneira fácil de dizer adeus.

Até um golo
'Caloroso, sentido, sincero, o público não faz intervalos nos aplausos'. Vítor Silva também não fazia intervalos nos jogos. Era noventa minutos de perpétuo movimento. As equipas de Benfica e Sporting estão agora  formadas no meio do terreno. O dr. Oliveira Duarte, num acto de enorme gentileza, abraça Vítor Silva e entrega-lhe um enorme galhardete do Sporting feito para a ocasião.
O jogo virá a seguir.
Há sempre, antes de um Benfica - Sporting, seja ele qual for, um nervoso miudinho que perpassa a multidão. Nessa tarde não foi diferente. Apesar do peso da despedida.
O encontro é suficientemente histórico para ser arbitrado por Cândido Oliveira, o seleccionador nacional.
Vítor Silva iria jogar, embora o seu problema de varizes nas pernas lhe limitasse os movimentos. Tinha apenas 27 anos e tanto para dar ao Benfica e ao futebol. O Destino traíra-o de forma velhaca.
Mas estava lá. Por inteiro.

O Benfica entra melhor no jogo, ameaça a baliza de Dyson como uma alcateia de lobos famintos, faz o 1-0 por Valadas. O Sporting responde de imediato e empata por João Cruz. As pessoas estão felizes com o espectáculo. Têm boas razões para isso!
De repente Vítor Silva entra na área dos leões. Tem a bola controlada, vai rematar, alguém o agarra: penálti!

O povo ainda mais feliz. Vítor vai marcar o penálti e fazer um golo na sua tarde de despedida. A bola sai potente do seu pé direito, mas bate no poste: 'Ooooh', ouve-se nas bancadas.
Mas eu já disse antes: Vítor Silva estava ali por inteiro. Pouco tempo depois, num lance de cabeça, estabelece o resultado final.
Deixara a sua marca. Calara os que ainda duvidavam disso.
Veio o intervalo. O momento derradeiro.
No centro do terreno, as equipas novamente reunidas. Benfica e Sporting, mas agora também representantes de outros clubes, tal como o Carcavelinhos, onde Vítor Silva iniciara a sua carreira. Dirigentes de vários organismos desportivos. Saudações efusivas.
Vítor Silva percorreu, um a um, os jogadores presentes. A todos eles entregou uma medalha comemorativa da sua despedida. De todos eles recebeu o abraço sentido de admiração que lhe era devotada por companheiros e adversários. As lágrimas voltam a assomar-lhe às pálpebras. Não consegue contê-las.
Os jogadores do Benfica e do Sporting erguem-se em ombros. Com ele lá no alto, saem de campo numa imagem bonita que raramente se repete. Dão uma volta triunfal ao campo enquanto as palmas e os 'hurras!' estralejam. Vítor Silva não voltará a encher os olhos dos adeptos com o seu futebol fulminante, mas não há quem não anseie por saudá-lo e desejar-lhe uma nova vida para lá desta vida que acaba de deixar para trás.
As suas lágrimas têm resposta com outras lágrimas que bailam nos olhos das gentes que enchem as bancadas. As palmas continuarão a ecoar pela tarde, pelas tardes que se seguem, até ao fim dos tempos..."

Afonso de Melo, in O Benfica

Belenenses de emoções

"As três primeiras vezes que Santana jogou contra os 'azuis' tornaram-se especiais

Há registos contra determinada equipa que marcam a carreira dos futebolistas, seja pela falta ou pelo elevado número de golos ou por um episódio peculiar. Para Santana, 'essa equipa' era o Belenenses, por as três primeiras vezes em que defrontou os 'azuis' terem sido determinantes na sua carreira.
O avançado começou a jogar no Sport Clube Catumbela, com 14 anos. A ascensão no clube angolano foi meteórica, em três anos passou dos juniores à equipa de honra. A sua qualidade técnica não deixava ninguém indiferente, apesar de 'não ter pressa' a jogar, o que lhe valeu a alcunha de 'molengão'. Em 1954, foi contratado pelo Benfica, cumprindo o sonho de garoto.
Mesmo acompanhado os 'encarnados' desde novo através dos jornais, quando presenciou o elevado nível dos jogadores ficou estarrecido: 'notei principalmente que seria extremamente difícil vir ao de cima. Até pus as mãos na cabeça!'.
Começou por jogar nos juniores e, na segunda época nas reservas, foi promovido por Otto Glória à equipa de honra. Estreou-se frente ao Belenenses, numa partida amigável, a 17 de Fevereiro de 1957. No início da temporada seguinte, a derrota contra o Sevilha por 3-1, na 1.ª mão da 1.ª eliminatória da Taça dos Clubes Campeões Europeus, fez soar os alarmes, o que motivou o técnico brasileiro a operar uma verdadeira revolução na equipa para o encontro seguinte.
Com 'alterações que atingiram todos os sectores do grupo: defesa, médio e ofensivo', Santana foi um dos escolhidos. O avançado correspondeu plenamente, ao apontar um hat-trick na vitória por 7-0, perante o Oriental, na 3.ª jornada do Campeonato Nacional. A partir daí tornou-se presença habitual no 'onze' do Benfica.
Contudo, a derrota frente ao Belenenses por 2-1, na 22.ª jornada, fez com que saísse das opções. Regressou às reservas, iniciando uma 'travessia no deserto', em que esteve próximo de ser emprestado. O fim do calvário seria decretado por José Valdivieso, que sucedeu a Otto Glória no decorrer da época 1948/59. Após a derrota no Restelo, para a 1.ª mão dos quartos de final da Taça de Portugal, 'o sr. Valdivieso chamou-me e disse-me que ia pôr no «team» convencido de que eu seria o homem que ele necessitava'.
O avançado retribuiu com uma prestação brilhante: 'Santana soube corresponder à chamada dando à equipa a «cabeça» que, na zona central do terreno, porventura lhe terá faltado nos últimos tempos'. O Benfica ganhou por 3-0 e eliminou o Belenenses...
Após terem vencido o Sporting e o FC Porto, os benfiquistas conquistaram a prova rainha. Santana foi apontado como 'um dos elementos primordiais dessa extraordinária vitória'. Estabeleceu-se na equipa de honra e contribuiu para a conquista do bicampeonato europeu.
Saiba mais sobre este brilhante jogador na área 23 - Inesquecíveis do Museu Benfica - Cosme Damião."

António Pinto, in O Benfica

Deslocação a Aves

"Hoje, às 21h15, tem início agendado o nosso jogo referente à penúltima jornada da Liga NOS, para o qual a nossa equipa se preparou com o objectivo de conquistar três pontos.
Tanto a nossa como a posição do Aves na tabela classificativa já não sofrerão alterações, o que não invalida que uma equipa do Benfica, quando se apresenta em campo, tenha sempre a obrigação de jogar para ganhar.
A equipa do Aves, não obstante os escassos pontos conseguidos e o momento conturbado, tem demonstrado capacidade para causar dificuldades a qualquer adversário. Recentemente empatou com o FC Porto, na primeira volta havia ganho ao Braga. E, na Luz, saiu derrotada pela margem mínima, numa partida em que reagimos bem à inesperada desvantagem e demos a volta ao resultado com golos de Pizzi e André Almeida.
O nosso treinador Veríssimo assegurou ontem, em conferência de imprensa de antevisão ao jogo, que a equipa se encontra unicamente focada na deslocação ao reduto do Aves e que se preparou com a presunção de que o jogo será realizado. Realçou ainda que acredita, independentemente da situação que afecta os jogadores e treinadores do nosso adversário, que estes se empenharão ao máximo, pois sabem que se trata de "uma oportunidade para se mostrarem individualmente enquanto jogadores, mas também enquanto equipa".
Estamos convictos de que conseguiremos o triunfo e, só depois, nos focaremos no dérbi da última jornada."

Benfica FM #122 - Guimarães... e o resto!

«Deixa-me triste ver o Benfica a passar por esta situação, em que não se vê a liderança»

"Directamente de Londres, Great Britain, fala com o Bola na Rede uma das torres de Loulé. Idalécio Rosa, defesa central que fez carreira no futebol português, abre a porta para muitas histórias que têm como protagonistas figuras bem conhecidas do nosso futebol. Do duelo com Giuly e companhia no calor do Algarve à mudança para frio do Minho, das instruções do “capitão” Ivo Vieira na Madeira às lições a Fábio Coentrão em Vila do Conde, sem nunca esquecer um título da Segunda Liga que…não celebrou. O Idalécio ganha esta Bola nas alturas e cabeceia para o fundo da Rede.

– A torre de Loulé no rumo ao Estrelato –
«Acordava cedo e arriscava chegar e levar umas cinturadas, mas o gosto pelo futebol sempre se sobrepôs»

Como é que tens vivido a pandemia?
Para já, agradecer mais uma vez a oportunidade de estarmos aqui à conversa, e depois dizer-te que este período de pandemia, que nos afectou a todos, tem sido de preocupação e apreensão pelas notícias que vieram a público, pelas mortes que foram sendo notícia, sem sabermos muito bem o que era, como era, alguns produtos que temos nos hipermercados estavam esgotados. Depois, foi ter o cuidado, uma vez que o lockdown aqui não foi obrigatório. Aqui, as pessoas sempre puderam andar à vontade, mas não havia máscaras e luvas, e optámos por ficar em casa e ir só ao supermercado. Sempre que íamos às compras, íamos com a sensação de estar a entrar num sítio contaminado, foi complicado e continua a ser porque não sabemos onde o vírus está e temos de ter os cuidados necessários.

Têm sido tempos distintos.
Os nossos trabalhos fecharam a 20 de Março e ainda não regressamos. Não sabemos quando vamos voltar, nem eu nem a minha mulher. Estamos num plano do Governo, em que somos apoiados em 80%, o que não é bom nem é mau. Sabemos que há pessoas em muito piores condições que nós, temos de dar graças a que tudo esteja a correr dentro da normalidade. Quanto ao vírus, não sabemos se o tivemos ou não. Antes de entrar em lockdown, estive com tosse e falta de apetite, que são sintomas, mas nunca foi feito nenhum teste, nem se fala em fazer testes. Temos passado o tempo em família, fazemos vídeos juntos para o Tik-Tok e vemos muita televisão e muitos filmes.

Durante toda a tua carreira, não sofreste o impacto das redes sociais que os jogadores actualmente sofrem, com as suas vidas expostas todos os dias. Como vês esta interferência das redes sociais no futebol?
De facto, na altura não havia o acesso às redes sociais e a facilidade que há hoje. Tem a sua coisa positiva, em termos de promoção dos atletas e de visualização, mas cada um tem que ter mais cuidado, uma vez que têm sido vários os episódios em que eles, enquanto profissionais, têm celebrado situações em alturas que não o podem fazer, e publicam essas fotos e vídeos, o que lhes tem trazido muitos problemas.

Como o caso do Mirko Antonucci, do Vitória FC.
Eles alegaram que tinha que ver com isso, com o caso dos Tik-Toks no hotel. Acho que isso acaba por ser um motivo de distracção, mas a distracção tem de ser bem gerida. Isto é viciante e giro, mas há toda uma profissão onde os jogadores têm de se salvaguardar e proteger para não serem apanhados em situações dessas. Eu acho imensa piada às redes sociais, uso para me divertir, não é para me gabar nem armar. Mando uma boca, os meus amigos em Portugal mandam outra, e é assim. Mesmo no restaurante, eles diziam que eu publicava demais e bloquearam-me, mas depois eram os primeiros a incentivar-me a tirar as fotos.

Tu começas a tua carreira profissional no Louletano.
Eu sou natural de Alcochete, do Montijo. Com 12 anos, os meus pais separaram-se e eu já praticava futebol 7 no Atlético do Montijo, num gimnodesportivo, além do futebol nas ruas, na calçada. Nunca tive muito o apoio do meu pai, queria que fosse médico e advogado, mas a minha mãe foi-me encobrindo um bocadinho, e lá acordava cedo e arriscava chegar e levar umas cinturadas, mas o gosto pelo futebol sempre se sobrepôs. Então vou para Loulé com a minha mãe, e começo a jogar em iniciado de segundo ano. Já tinha ingressado no Montijo como federado, assinei o contrato de formação com 11 anos, então, no Louletano, tive de esperar. Estive um ano só a praticar, fiz lá a minha formação toda até chegar aos seniores. Com 18 anos, idade de júnior, assinei contrato profissional de três anos, em que fui emprestado, uma vez que os juniores do Louletano estavam na distrital, não havia competição nacional, e fui convidado para ir para o Almacilense, da terceira divisão, para disputar o campeonato nacional com os seniores.

Durante toda a tua formação foste defesa central?
Sim, talvez pela estatura, pelas características. Eu sou da opinião que, na formação, devemos experimentar várias posições. O treinador faz essa análise, ou deveria fazer, tendo em conta características físicas, técnicas, e então a posição que me foi atribuída, embora tivesse alguma técnica, foi defesa central. Adaptei-me e foi por ali que fiz o meu percurso no Louletano.

E ficou uma grande torre em Loulé.
Sim, sempre me destaquei dos outros por ser muito alto, e, a partir daí, nomearam-me uma das torres do Louletano. Na altura, nos seniores, eu, o João Carlos e o Pagani éramos as três torres louletanas. Eu jogava mais do lado esquerdo, tive a oportunidade de jogar a defesa esquerdo, já que os defesas centrais eram muito fortes e experientes, e isso permitiu-me crescer muito e aceitei isso de bom grado. O importante era estar no onze e é isso que muitas vezes os jovens não entendem, amuam e perdem oportunidade de dar continuidade às suas carreiras por essa falta de humildade e espírito de sacrifício. Falta em alguns deles ambição, as coisas vêm tão fáceis hoje em dia. Antigamente era uma guerra para ter umas sapatilhas para jogar à bola, hoje em dia têm, é normal pela evolução dos tempos, e querem ter tudo do bom e do melhor, e esquecem-se que os pais fazem sacrifícios enormes para lhes poder dar isso, e depois não se sacrificam. É a opinião que eu tenho, e que eu vejo, e por ter passado pela formação.

Tu falaste na adaptação ao balneário, que era completamente diferente antigamente do que é agora, mas também há a questão da adaptação à posição. Tiveste de te adaptar a defesa esquerdo, uma posição que mudou em relação aos dias de hoje, em que o defesa esquerdo é mais um ala, enquanto que antigamente era muito posicional. Tiraste vantagem disso talvez, mas o teu sucesso derivou dessa adaptação, concordas?
Exactamente, temos de nos adaptar às necessidades da equipa, do treinador, e pôr em prática as nossas características, reconhecendo as dificuldades que cada um de nós tem, mas tentando aperfeiçoá-las em cada treino, em cada jogo, em todos os momentos que tenhamos essa oportunidade. Jogando como titulares ou cinco minutos, essa sempre foi a minha mentalidade, dar o meu melhor e adaptarmos as necessidades do treinador e da equipa.

Depois vais para o Farense, e aqui eu gostava de destacar a tua primeira experiência na Europa. Podes contar-nos como foi?
Foi extremamente positivo. O Farense vinha de várias excelentes épocas, mas aquela com o apuramento para a Taça UEFA foi espectacular. Houve uma razia no plantel, até porque havia muita qualidade na equipa, e devido às dificuldades financeiras do clube muitos jogadores foram embora com rescisões e para clubes melhores, mas vendas não foram concretizadas. A única que foi concretizada foi o Jorge Soares, que foi para o Benfica, mas continuou por mais um ano, e houve a entrada de algum dinheiro, mas foram muitos os jogadores que saíram sem que entrasse nenhum dinheiro.

Mesmo assim, formaram um grupo muito competitivo.
Assim sendo, o mister Paco Fortes teve a necessidade de recorrer a alguns jovens que estivessem pela zona do Algarve, e, em conjunto com jogadores bastantes experientes, Cacioli, Paiva, Djukic, Hajry, depois trouxe Pedro Miguel, defesa central, Carlos Costa, formámos uma excelente equipa. Mas, para lutar frente a um Lyon cheio de jovens talentos de muito valor, onde se destacavam o Giuly e o Maurice, era complicado. Foi muito bom, foi uma grande experiência, tive a oportunidade de realizar os dois jogos, foi um motivo de grande orgulho, mas foi tudo muito rápido. É tudo muito rápido, chegas à primeira divisão, começas a jogar, tens a oportunidade da Taça UEFA, para um jovem é muito gratificante, e tenho muito orgulho de ter feito parte do Farense dessa época e de ter participado nesses jogos da Taça UEFA.

Foste tu que lidaste directamente com o Giuly?
Não, com o Maurice. O Giuly tinha mais alguma liberdade, o Maurice era um avançado mais fixo.

Mas já se destacavam pela classe e qualidade que viriam a mostrar mais tarde?
Sim. O Giuly depois acaba por ter um percurso de grande destaque no Mónaco, Barcelona, mas o Maurice nem tanto. Acabou por fazer em França, e foram internacionais franceses, o Giuly foi o que atingiu o patamar mais elevado. O Lyon já era fortíssimo na altura e foi uma experiência incrível, o Estádio de São Luís com os nossos adeptos foi lindíssimo e jogar em Lyon foi também muito gratificante.

Aproveito, já que estamos a falar do Farense, o clube vai estar na Primeira Liga para a próxima época. Achas que pode fazer uma “gracinha” à moda de Famalicão?
Eu gostava. Estou muito feliz e até tive a oportunidade de falar para a SportTV e dar os parabéns ao Farense e ao Nacional, curiosamente dois clubes que eu representei, que este ano lhes foi atribuída a subida, embora tenha sido da forma que foi, com a interrupção do campeonato e consequente subida conforme a posição que atravessavam no campeonato. Mas muito feliz por isso e por saber as dificuldades que o clube atravessou, a chamada travessia no deserto. Sei que está muito bem estruturado, com um bom presidente, uma pessoa muito séria e que gosta muito do clube, não quer dizer que os outros não tivessem gostado, mas houve muitos anos em que as direcções levaram com muitos problemas. Oxalá que consigam encontrar o caminho que lhes permita fazer tão bem como o Famalicão ou que lhes dê o equilíbrio de permanecerem muitos anos na primeira divisão, é o que os adeptos gostam e merecem, não só os do Farense, mas todos os que conseguem subir à primeira. Espero que consigam ficar por muitos anos, que consigam fazer uma gestão equilibrada e com resultados positivos, sei que estão a trabalhar muito bem a formação, não é de agora, e pode ser um clube muito interessante no futuro a nível de jovens valores a aparecer.

– O RP do Minho –
«Sei que não são a Santa Casa da Misericórdia, mas não esperava mais sair do SC Braga pelo percurso que tinha feito lá»

Voltando à tua carreira, sais do Farense e vais para SC Braga, e temos aqui dois factores nesta transferência: a mudança para o Norte do país, que antigamente era mais difícil, também a pressão dos primeiros lugares, de um SC Braga que era quarto classificado. Como se deu essa chegada?
Deixa-me dizer-te que o SC Braga não era aquilo que é hoje. Era um clube que vinha com alguns problemas, o mister Cajuda já lá estava, tinha feito uma boa época, com jogadores desconhecidos. Eu tinha alguns problemas de salários no Farense e pedi ajuda ao Sr Manuel Barbosa para encontrar um clube melhor, e o SC Braga organizou-se para fazer um trabalho sério, não prometia muito, mas prometia pagar a tempo e horas. Fui ao escritório, a Lisboa, e assinei contrato, foi quando conheci o presidente, estava eu e Leonel, defesa esquerdo. Eu sempre fui considerado algarvio, chamavam-me torre do Algarve, porque fui para lá muito novo, mas muitos jogadores não tinham conseguido essa transição do Algarve, do sol, do futebol com mais espaços, com menos pressão, mais lento e menos agressivo, para o norte, que é exactamente o contrário: frio, chuva, mais agressividade, as equipas são mais combativas, se calhar devido ao clima também, tinham uma preparação mais forte. 

Adaptaste-te bem?
Felizmente, tive um grupo de trabalho e equipa técnica que me souberam receber e preparar para todos esses obstáculos, ainda era novo, tinha 22 anos, não era o clube que é hoje, mas foi um bom percurso. Nesse ano ficamos em quarto lugar, com um plantel competitivo, mas o importante foi ter cumprido sempre que tive oportunidade de jogar, dei o meu melhor. Só assinei por um ano, depois por dois anos e depois por três anos, foi um percurso de confiança e gratidão da minha parte, sempre suei a camisola, fui profissional e humilde para respeitar as decisões e acontecimentos do que é a nossa profissão enquanto jogador de futebol.

Disseste que na tua primeira época no SC Braga atingiram o quarto lugar, depois ficaram em nono e décimo nas seguintes. O que foi fora do normal? O quarto lugar ou o nono/décimo?
Definitivamente foi o quarto lugar. Não sei se te lembras, mas entre os três grandes havia sempre Boavista e Vitória de Guimarães, que eram fortíssimos nessa altura, acho que o que foi extraordinário foi o quarto lugar, não o resto. Depois, com a exigência dos adeptos e da direcção, a partir do momento em que ganhas alguma visibilidade, tens de te reforçar mais. Tens mais custos, depois tudo isto traz-te mais competitividade, acaba por existir o “este ganha mais que eu”, é uma guerra de conflitos que acaba por acontecer, muitas vezes os jogadores que já lá estavam viam os que vinham de fora, sendo que os estrangeiros eram vistos com bons olhos, e isso gerava conflitos na cabeça de muitos. Eu preocupei-me só comigo, devemos preocupar-nos connosco e deixar essas decisões para quem as toma. Mas equipas começaram a conhecer-nos melhor e a criar mais dificuldades também.

Tu eras um jogador com um ego alto ou um apaziguador do balneário?
Tentei sempre ser um elemento de boa disposição no balneário, apaziguador, se tivesse de dar uma palavra de incentivo, numa situação menos agradável para algum colega, dava. Sempre tive conforto e procurei sempre ser um elemento saudável no ambiente de trabalho. Para brincadeira, vinham desafiar o Idalécio. Procurei sempre ajudar quem chegava, punha-me sempre no lugar desses jogadores que chegavam a um país diferente, e muitas vezes os directores diziam-me: “Idalécio, eu não posso ir, vê se podes ir com o teu colega às finanças ou ao supermercado”, e muitos colegas brincavam comigo e diziam que eu era o Relações Públicas (RP) do clube.

Fizeste 12 jogos na primeira época, três épocas com 26 jogos e depois, em 2000/2001, fazes sete jogos pela equipa B. Que aconteceu?
O clube começou a ter expectativas muito grandes, a haver uma competitividade muito grande, jogadores de muita qualidade. Salvo erro, o Odair faz 11 golos nessa época, era Odair e Artur Jorge a dupla de centrais, e a equipa B surge num período em que era difícil sermos convocados, em entrar nos 18. Era preferível ir para a B do que ficar sem jogar. A equipa B estava com algumas dificuldades também, era bom para todos, só não o era para os jovens da equipa B, que não iam jogar porque íamos nós lá jogar, era uma oportunidade para nós, que não éramos convocados. Foi uma boa gestão do clube, também levamos experiência para a equipa B, que precisava de resultados. Se calhar, nem todos aceitariam bem a decisão, mas para mim foi gratificante, tinha contrato com o clube, tive de aceitar.

Depois sais para o Nacional, para a Madeira. Foi uma mudança amigável?
Foi uma mudança inesperada. Não esperava mais sair do Braga pelo percurso que tinha feito lá. Sei que não são a Santa Casa da Misericórdia, mas o problema foi que o presidente João Gomes Oliveira sai, e o clube fica um bocado perdido, com elementos sem capacidade para gerir, antes da chegada do presidente Salvador. Não foi só comigo, aconteceu com muitos outros colegas essa situação, acabámos por sair. O senhor que ficou a presidente era um elemento que me elogiava, estava sempre à conversa comigo, isto enquanto era elemento de direcção, mas depois, quando foi para renovar contrato, pôs-me à conversa com a pessoa que era contabilista. Queriam oferecer-me três anos pela mesma quantia que já vinha a ganhar há Três anos, e eu queria melhorar as minhas condições. Não pedi uma fortuna, sei que andaram a dizer que fui ganhar uma fortuna para o Nacional mas isso é mentira. Foi uma má gestão, foi inesperado, mas tive de dar continuidade ao meu percurso. Queria vingar e tive a oportunidade, a partir do Óscar Dias, o empresário, de resolver a situação com o SC Braga. Antes de sair, ainda se ouviu falar da hipótese de ir para o estrangeiro, para o Bolton, Coventry ou Celtic, mas nunca se concretizou, não sei se era apenas especulação para promoção dos empresários, não sei se chegou uma proposta ao clube. Se calhar, eles pensaram que os agentes estavam a jogar com a direcção e deu-se então a oportunidade de ir para o Nacional da Madeira, com o mister José Peseiro.

Como foi a experiência na Madeira?
O Nacional tinha acabado de subir, o José Peseiro vinha de um excelente trabalho à frente do Nacional, com várias subidas de divisão. Foi um orgulho ter representado o Nacional e ter sido treinado pelo mister Peseiro, na altura um treinador jovem muito admirado por todos, onde aprendi também muito. Assino por três anos, formou-se uma grande equipa, entre eles o Adriano, o avançado, que esse destacou, o Rossato, defesa esquerdo, integramos uma equipa onde havia Jokanovic, Hugo Carreira, Hugo Freire. Integramos essa estrutura, uma equipa jovem considerada uma das melhores a jogar bom futebol, mas a precisar de algo mais. Esse algo mais chegou em dezembro, Paulo Assunção, que depois faz um percurso tremendo. Chega, nessa época, mal fisicamente, irreconhecível para o que foi depois o seu percurso. Depois, mais no final, atingiu a forma e foi um sucesso, um jogador de uma humildade e de uma capacidade tremendas. Eu depois acabo por sair, só fiz uma época, por causa de uma situação de saúde do meu pai.

Não ficou nenhum ressentimento com o SC Braga?
Eu estou de consciência tranquila completamente, por aquilo que fiz, pelas amizades, pelo profissionalismo, nunca ficou nenhuma situação de mágoa. Se eles a têm para comigo, acho que não, porque fui convidado a participar num programa do clube e conversar com uns colegas a recordar o 1º de Maio. Tive pena de não apanhar o presidente Salvador, ou até não, até podia ter sido pior, mas em função do crescimento que o presidente trouxe ao clube, gostava de ter podido fazer parte desse crescimento. Foi um choque sair de Braga e passar a viver numa ilha, mas tinha a família por perto, nunca foi um problema. Não podíamos ir de carro, mas podíamos ir de avião, saí apenas pelo estado de saúde do meu pai.

– Aconselhar e ser aconselhado –
«Todos no Rio Ave pensávamos que o Fábio Coentrão se ia perder»

Falaste no Nacional, onde jogaste também com um jovem Ivo Vieira. Como o vias enquanto jogador e já lhe reconhecias alguma qualidade e visão para ser treinador?
O grande Ivo era nosso capitão. Tinha sofrido uma lesão no joelho, ainda estava a recuperar dos ligamentos, mas foi um elemento sempre importante no plantel, um elemento que já transmitia muita maturidade. Ele é que nos dava as boas-vindas, passava a mística do clube, tinha um enorme carácter. Jogasse ou não, dava já muitas indicações na altura, não sei se alguém levava a mal, eu não levava, mas ele já tinha esse intuito de orientar e equilibrar alguns colegas que precisavam, sendo sempre com o mister Peseiro como líder, mas ele, pelo que representava para o clube, sempre foi um elemento que demonstrava uma capacidade de liderança, de forte carácter e de bom futebol. É com muito agrado que vejo o sucesso que ele tem alcançado, o percurso que tem tido. Há pouco tempo tive a oportunidade de lhe dar um abraço quando ele veio aqui jogar com o Arsenal.

Falaste ainda no Paulo Assunção, que veio a ser um craque autêntico do FC Porto. Como disseste, já vinha a fazer isso no final de época do Nacional.
Sim, ele dá nas vistas logo a partir do momento em que atinge a melhor forma dele. Aliás, ele marcou um golo ao Paços de Ferreira, que ficou como o melhor golo da época, onde ele dribla vários adversários e faz um golo tremendo. Veio a confirmar todo o seu valor, era engraçado que ele parecia que nem transpirava, era o que chamávamos a formiguinha do meio-campo. Poucas faltas, mas com grande capacidade física e técnica muito grandes, e fico muito feliz de poder ter sido colega dele e ter visto o seu percurso em ascensão, e mereceu sem dúvida. E os filhotes dele são uns craques. Esta época tem sido muito positiva para o Gustavo no Famalicão, vai ajudar certamente a ter uma carreira brilhante, oxalá.

Devido aos problemas familiares, voltas para o continente, e para um Rio Ave que tinha alguns colegas conhecidos no panorama nacional.
Sim, fui integrar uma equipa que vinha da Segunda Liga, com o Carlos Brito, que foi um treinador com quem tive grande prazer em trabalhar. Tive a oportunidade de agradecer a chance que me deu, isto porque na altura comecei a ligar directamente para os clubes para arranjar clube. Não havia a necessidade de ter um empresário porque já toda a gente me conhecia. Então liguei directamente para o Carlos Brito, tinha saído o Peu e sabia que faltava um elemento com alguma experiência e tive a felicidade ele me dizer: “Idalécio, se conseguires resolver com o Nacional, acertas com o Rio Ave e será um gosto ter-te aqui”. Foi assim. Cheguei a acordo com o Nacional para rescindir, sem qualquer contrapartida, com alguns acertos por fazer da direcção para comigo, e fui para o Rio Ave.

Mais uma mudança.
Mais uma mudança, chegar e ter de demonstrar quem tu és, o que consegues fazer, mas deu um gozo tremendo e foi um prazer. Não fui logo titular, havia Franco e Bruno Mendes, que tinham feito grandes épocas e em quem Carlos Brito confiava muito. Depois, fui conquistando o meu espaço e acabei por ter um percurso interessante, enquanto ele foi treinador. Ele quis levar-me para o Boavista quando foi para lá, no ano seguinte, só que o Boavista não pagava qualquer indemnização ao Rio Ave, o Rio Ave não me queria deixar sair, disseram que era um elemento muito importante na defesa e tudo mais, e acabou por não se concretizar a ida para o Boavista. Apesar de todos os problemas que teve, o Boavista ainda era um clube muito interessante de representar e teria sido um orgulho ter podido representar o Boavista, mas acabei por ficar no Rio Ave, com o míster António Sousa. Foi mais um treinador, com quem eu tive também muito orgulho de ser treinado e de aprender, mas não houve resultados nem a união que tinha havido nos dois anos anteriores. Se calhar foi por causa das mudanças de ego, e é culpa de todos. A determinada altura, deixei de ser opção e acabei por respeitar e sair da equipa, até que infelizmente acabamos por descer de divisão.

No primeiro ano no Rio Ave, apanhas jogadores como Vandinho, Paulo César, Mozer, que vieram a ganhar grande notoriedade no Braga.
Foi uma agradável surpresa porque não os conhecia. O Mozer sim, já tinha sido meu colega no Braga durante vários anos. Se calhar ele acabou por ter alguma influência na minha ida para o Rio Ave junto do mister Carlos Brito. Mas depois todos esses foram surpresas para mim. Também o Jaime, o Niquinha, que era uma grande referência, nunca saiu do Rio Ave, fez um percurso brilhante em termos do clube. Um profissional e pessoa espectacular. Evandro, que se destacou em termos de golos, mas já lá estava…

E um jovem Fábio Coentrão na segunda época.
Sim, o Coentrão na segunda época, já muito irreverente, e que todos nós pensávamos que se ia perder. O Carlos Brito deu uma grande ajuda e tentou motivá-lo de forma a que isso não acontecesse, e mesmo no grupo de trabalho recebemo-lo de braços abertos, mas ele esteve quase a ficar pelo caminho.

Era a personalidade?
Sim, era a personalidade irreverente. O chegar atrasado, se és miúdo e chegares atrasado não é muito bom. Houve algumas situações que foram resolvidas pela equipa técnica e por nós. É normal, quando és novo, aquela transição de juniores para seniores, nunca sabes bem, e ele já tinha muita qualidade, já fazia a diferença. Não sei se achava que era o melhor da rua dele, mas chegando ali ao clube é diferente, apanhas jogadores mais velhos e mais experientes. Fico muito feliz pelo percurso que ele teve, e ver onde ele chegou, aos patamares a que chegou, as exibições que fez, é sempre gratificante ver que jovens com tanta qualidade têm as oportunidades que desejam e merecem.

– O lado negro do futebol –
«Os directores disseram-me que, se não rescindisse, a equipa técnica ameaçava pôr-me a treinar à parte no início da época»

Depois sais do Rio Ave e vais para o Trofense, onde, na segunda época, eles vencem a Segunda Liga, mas tu estás no Gondomar. Como viveste essa época e como celebraste o título estando emprestado?
Aí se calhar é um dos períodos, não digo negros, porque acho que não tive períodos negros, mas de recordações, de comportamentos pouco dignos, inesperados. Isto para dizer que, quando termino contrato no Rio Ave, o João Eusébio, que já tinha sido durante alguns meses e ia ser ele o treinador principal na época seguinte, disse-me que não estava nos planos do Rio Ave. Custou, mas foi frontal, e amigos à mesma e lá fui eu. Depois, o que acontece no Trofense não. Eu não era um miúdo para brincarem com a minha vida ou com a minha dignidade. O que acontece é que a primeira época com Daniel Ramos fazemos uma temporada brilhante, e depois, no ano seguinte, porque havia dinheiro que não era dos directores que andavam lá no clube, mas que era do presidente, do Sr Rui Silva – que tive uma pena tremenda da situação em que ele se viu ali envolvido – era só jogadores de Primeira Liga a chegar ao clube: Pinheiro, André Barreto, Milton do Ó, Valdomiro, Paulo Sérgio. Aquilo era o Real Madrid lá da zona, a juntar a nós que lá estávamos da época anterior, e que tínhamos feito uma época boa, mas a ideia foi investir para subir.

O que correu mal?
A única coisa que me desagrada nisto tudo é que aguardei pela minha oportunidade, sempre calado, como profissional. Tive essa oportunidade em dezembro, de realizar vários jogos. Num desses até fiz um golo da vitória ao Feirense, e nunca o Trofense tinha atingido o primeiro lugar, tínhamos ido ganhar a Gondomar, que era um adversário dificílimo, nesses jogos tinha havido lesões e castigos dos meus colegas meus e eu aproveitei as oportunidades. Depois, uma vez que eles estavam todos recuperados, e disponíveis para a equipa, eu pensei que já não ia perder o meu lugar, porque estava a jogar e bem, a merecer continuar a jogar, mas depois o treinador, na altura, chamou-me e disse-me: “Parabéns pelo que tens feito, outra coisa não seria de esperar (…) mas vou optar pela equipa que vinha a jogar”, e eu respondi: “você é o treinador, você é que sabe, não me peça para ficar satisfeito, não vou ficar satisfeito”.

É algo complicado de ouvir.
Saí porta fora, a partir daí as coisas não ficaram fáceis, eu não era nenhum menino, ele era uma pessoa que eu já conhecia de outros caminhos, de outro percurso da minha carreira em que eu o tinha ido ajudar enquanto jogador, e começam clubes a ligar-me a saber se eu queria ir emprestado. Da segunda B, da segunda, e eu disse: “não, eu tenho contrato com o Trofense, não sei nada dessa conversa, o meu clube é o Trofense, quero ficar aqui e dar o meu melhor para atingir os objectivos do clube, que é a subida de divisão. Por isso, se isso acontecer, terão de ser os responsáveis do clube a comunicar-me, não é você por telefone, que diz que é do clube tal, desculpe lá, agradeço, mas falem com o clube e entendam-se”. E assim foi. As coisas começaram a tomar um rumo com um não muito bom ambiente, e começaram a tentar sacudir-me dali para fora, sendo que eu tinha contrato durante mais um ano.

E surge o Gondomar.
Respeitei a situação de empréstimo, sabia que o Gondomar estava em situação de descida de divisão e disponibilizei-me. A partir do momento em que houve um acordo para salvaguardar as minhas condições financeiras, porque isso não ia abdicar, não era responsabilidade minha tomar aquela atitude, aceitei, até porque me sentia bem e há sempre aquela coisa de querer continuar a jogar. Via o Gondomar como a possibilidade de poder continuar a provar o que eu gostava de fazer e continuar a jogar.

E como foi essa estadia em Gondomar?
Foi um clube com umas condições completamente diferentes das do Trofense, na altura. Bem mais humildes, mas com uma seriedade, com um presidente, o Álvaro Cerqueira, com quem tenho uma grande amizade e respeito pelos anos que está à frente do clube. O que ele tem feito não é fácil, um clube como o Gondomar sobreviver todos estes anos sem entradas de fundos e de vendas de atletas e tudo isso. Foi giro, apanhei uma equipa com Fernando Aguiar, Feliciano, Vítor Fróis, Rómulo...

Zequinha, que joga agora no Vitória de Setúbal.
Sim, o Zequinha também. Foram seis meses de grande experiência. O treinador era o Nicolau Vaqueiro, um treinador com quem tive muito gosto em trabalhar, também já com uma história grande no futebol. Foi gratificante chegar ao final e salvarmos a equipa da descida de divisão. No final da época, o Nicolau vai para o Moreirense, e mal ele sabe que vai para o Moreirense convida-me: “Idalécio, como é a tua situação lá no Trofense?”. E eu disse-lhe: “mister, não sei, eu tenho mais um ano de contrato com o Trofense, vamos disputar a Primeira Liga, tenho contrato com a equipa, tenho as condições, não sei o que vai acontecer, ficamos em contacto”. Então, regressei ao Trofense. Apesar de ter jogado, não fiz parte das celebrações do título, naturalmente, porque tinha saído naqueles seis meses de lá. Fiquei à espera de notícias, contactaram-me para ir lá a uma reunião durante o período de férias, acabei por me deslocar. Queriam rescindir comigo, o treinador não contava comigo, e eu disse-lhes: “se o treinador não conta comigo, que me diga na cara”.

Mas o treinador ainda era o Daniel Ramos?
Até me dá arrepios dizer, mas era o António Conceição, ele é que pegou na equipa no segundo ano para subir.

Vejo-te mais exaltado a falar neste assunto.
É triste haver pessoas assim no futebol, é o que eu acho. Porque cada um tem os seus gostos e preferências, mas homenzinhos todos devemos ser, e eu não era uma pessoa qualquer, tendo em conta o meu percurso. Não que eu seja mais que ninguém, mas pronto. Deu-se essa situação e ofereceram-me um valor irrisório para rescindir, que eu naturalmente não aceitei, porque queria permanecer no clube, e tinha a possibilidade, para a qual eu achava que tinha contribuído, do regresso à Primeira Liga, embora não tivesse ficado lá naqueles meses. Andamos ali embrulhados até ao início da época, sem qualquer palavra por parte do treinador. As propostas continuavam, numa de gozo, eu comecei a ver o filme, não era parvo, já tinha alguns anos daquilo, e começou-me a gerar alguma revolta, alguma situação de mal-estar, passar por aquilo, onde os directores me disseram que a equipa técnica ameaçava pôr-me a treinar à parte no início da época, quando começassem os trabalhos. Eu começo a tratar de salvaguardar o futuro e falo com o Louletano, no sentido de pegar na família e irmos para próximo dos nossos, sentir aquele apoio familiar, que começávamos a precisar, e por achar que era melhor para as miúdas.

Mas com a proposta do Moreirense, porque não decidiste aceitar?
Como te disse, essa conversa foi no final da época no Gondomar, com o mister, e depois de muito falar com a família e tomar a decisão de ir para baixo para próximo da família, e chegando a acordo com o Louletano, salvaguardando aquilo que eram os meus interesses, achei que podia ser útil para o Louletano. Não fui para tirar o lugar a ninguém, fui para ser útil e sempre valorizei o facto de ter feito lá a formação, mas uma coisa é o que eu acho, outra é o que as pessoas acham ou te dão a oportunidade de fazer. A partir do momento em que falo com a família, é ir embora, mudar tudo para o Algarve, desfrutar da praia, do sol, da família, e a partir do momento em que tomei a decisão, nem quis ouvir Moreirense nem propostas. O objectivo foi: “vamos e vamos à procura do que vai ser melhor para nós”.

E como ficou a situação no Trofense?
O Trofense, uma vez que não chegávamos a acordo, pediram para me apresentar. Tiro sangue, faço os testes médicos, reunião logo de seguida e mediante aquilo que eram as minhas exigências para sair, chegamos a um acordo. Tendo a salvaguarda do Louletano, abdicando do que tive de abdicar, e cheguei a acordo, as pessoas da direcção do Trofense foram espectaculares a cumprir o acordado, não tive de meter em tribunal nem nada, mas foi uma situação triste, que estamos sujeitos a que aconteça, que não estava a espera que acontecesse no meu percurso profissional, mas fui muito agradecido para o Louletano. Fui treinar com o mister Balela, que já tinha sido meu treinador na Segunda B.

Queria só fazer-te uma pergunta ainda em relação ao Trofense. Tu coincidiste com um jovem Fábio Paím, que podes dizer dele?
Tive o prazer de apanhar o Paím. Fizemos muitas amizades, muitos convívios, era uma das pessoas que tentava aconselhá-lo, vendo sempre que faltava algum apoio familiar. Ele ouvia-me quando conversávamos, mas depois eu ia para casa para junto da família e ele já estava numa situação diferente, ao estar sozinho ou com a namorada, e se calhar os comportamentos já se mudavam. Ele tinha de facto muita qualidade, era um miúdo que, quando tu és líder, treinador, tens de ter um comportamento para com os jogadores, e no Trofense acho que também lhe faltou essa pessoa para lhe dar apoio, e depois lamento o percurso que ele acaba por ter, desde aí do Trofense.

Ainda tem algumas oportunidades.
Sim. Aliás, ele depois do Trofense tem muitas oportunidades, o Jorge Mendes ainda lhe dá muitas oportunidades. Foi para o Paços de Ferreira, ainda vai para o Chelsea, estava Scolari lá, para a equipa B. Apesar de tudo isso ainda tem um percurso onde podia ter agarrado boas oportunidades, mas depois o empresário também se cansou das situações que foram acontecendo no percurso dele como atleta e acaba por “desligar” e é pena para o Paím, pelo potencial que tinha. Felizmente, as últimas notícias têm sido muito positivas, tem mais uma oportunidade e espero que a agarre, tem uma família lindíssima, com dois filhotes, a esposa, a Patrícia, e oxalá ele consiga encontrar o caminho certo.

– Hora de voar –
«Não havendo projetos nem coisas interessantes, decidi emigrar. Foi um grande risco»

Tu depois vais para o Louletano e acabas a carreira.
Vou para o Louletano, faço a época toda, subimos de divisão e depois chega ao final e a direcção não conta comigo para ficar. Eu pretendia jogar por mais um ano, tínhamos atingido a Segunda B e queria continuar a jogar. Ali no Algarve fica difícil, e o Farense queria fazer uma equipa para subir da Terceira para a Segunda B, fizeram-me o convite como amadores, para treinar à noite, e, no Farense, os adeptos eram incansáveis, mesmo na distrital. Foi bom reviver todas as memorias que tinha vivido em 1995.

Como foi voltar ao São Luís?
Voltar àquele estádio foi bom, com condições muito inferiores às que eu tinha encontrado antes, mas foi um orgulho representar e fazer parte do projecto que culminou com a subida de divisão. Eu pretendia continuar, também não me convidam para continuar e surge o Quarteirense, e com 37 anos acabo lá. Termino a carreira com quatro subidas, sendo que a mais significativa foi a do Trofense, já que garantiu um lugar na Primeira Liga, mas todas as outras foram muito gratificantes.

Belo resumo.
No Quarteirense termino e fico como coordenador. O treinador tinha-me convidado para ficar mais um ano na terceira divisão para subir para a segunda B, mas depois ligou-me a dizer: “desculpa lá Idalécio, mas afinal não vai dar para ficares”, e depois a direcção convidou-me para ficar como coordenador da academia de formação do Quarteirense.

Acabaste a carreira aos 37 anos, como vês por exemplo um Pepe na Primeira Liga, ao nível a que está, com a idade com que tu acabaste a carreira? Tempos diferentes, condições diferentes ou apenas depende da fisionomia de cada um?
São tantos os factores a juntar a isso… acho que em termos de mentalidade mudou um bocadinho, porque na minha altura, em Portugal, aos 30 anos éramos velhos, enquanto em Inglaterra se via 35/36, e em Itália também. Em Portugal, felizmente essa mentalidade mudou, mas também mudou a mentalidade dos treinadores. Alguns sentiram-se ameaçados pela pessoa que eu era, e quando falo de mim, falo de outros que passaram pelo mesmo que eu na carreira, e o medo dos treinadores era que lhes fôssemos tirar o lugar. Isso agora já não acontece porque é preciso ter a formação, antes não, essa possibilidade podia acontecer num estalar de dedos e dependia de ti, se estavas preparado para a agarrar. Mas acho que os erros de alguns treinadores e presidentes levaram a que muitos não tivessem uma continuidade na sua carreira como treinadores.

Tu depois acabas por emigrar para Inglaterra. Porque emigraste e como tem sido a tua experiência?
Em Portugal, aqui há uns anos, o período era difícil de oportunidades de trabalho, de abrires negócio, de salários. Investias para estares a pagar impostos aos políticos, isso não. Não havendo projectos nem coisas interessantes, decidi emigrar. Foi um grande risco, mas calculado, porque primeiro vim eu, fiquei com o meu cunhado que já estava cá, e tive um sítio para ficar, que era o mais difícil. Então vim à procura de trabalho e depois veio a minha mulher e as minhas filhas, quis que viessem estudar cá e que lhes abrisse outras portas, o que em Portugal não estava a acontecer. Essencialmente procurar alguma estabilidade que não tinha em Portugal.

Depois trabalhaste num casino, num restaurante e agora num hotel.
Agora estou no hotel como Concierge, é uma posição completamente diferente das áreas dos restaurantes. Quando cheguei, andei na rua a distribuir currículos. Passado um mês, arranjei emprego no Casino, e depois estive lá seis meses. Os horários eram nocturnos, eu aceitei porque era uma melhor posição, sempre fui uma pessoa de desafios ao longo da minha vida. Muito derivado ao futebol, uma vez estava no autocarro a ir embora e um homem reconheceu-me e dirigiu-se a mim: “você é o Idalécio, que jogava no Braga”. Encontramo-nos várias vezes e ele disse que trabalhava num sítio, que era um café-restaurante, que precisava sempre de staff. Eu fui lá fazer um trial, que é obrigatório, e decidiram que me queriam lá, e que me iam ajudar. Eu disse que não sabia se o nível de inglês seria suficiente, mas que ia dar o meu melhor, e estive lá. Subi várias posições até chegar ao management.

Um exemplo para muitos.
Depois, tu começas a ter a noção que à tua volta há outras oportunidades onde podes crescer mais, então fui para outro restaurante. Estive nesse durante três meses, mas depois surgiu a oportunidade do Novikov, um projecto melhor onde acabei por estar durante quatro anos. Comecei por baixo, temos sempre de começar por uma posição inferior e demonstrar o nosso valor, e foi um projecto onde conheci muitos portugueses, muitos estrangeiros, fiz muitas amizades. Mas tive de mudar, tive de ir à procura de novos desafios diários, noutra profissão, e assim saí da restauração. Estou como Concierge, ou seja, trabalho na recepção do hotel, trato de toda a bagagem, recomendar e arranjar bilhetes para espectáculos, continuo a ser um bocadinho um Relações Públicas [diz Idalécio enquanto solta uma gargalhada].

No restaurante, encontraste muitos jogadores conhecidos. Tens algum episódio caricato?
O mais caricato foi com o Evra, que, apesar de ser uma pessoa de um trato espectacular, acho que nos foi visitar numa altura em que não devia, ou que não podia. Então fomos tirar uma fotografia juntos, ele aceitou, mas disse: “Vocês não vão publicar essas fotos”. E eu tirei com um colega italiano no telefone dele, e ele ficou com tanto medo daquela conversa que nunca me mandou a fotografia. Não sei se era a brincar a conversa, mas o meu colega nunca me chegou a mandar a foto.

– O adepto Idalécio –
«Deixa-me triste ver o Benfica a passar por esta situação, em que não se vê a liderança»

Enquanto adepto e apreciador de futebol, como viste a chegada do Bruno Fernandes aí a Inglaterra?
Dentro daquilo que nos é possível, pelos horários, tenho acompanhado, não com grande assiduidade, os jogos de futebol. Prefiro estar com os amigos. Em relação ao Bruno, já sabíamos da qualidade dele em Portugal, víamos também que o Sporting CP começava a ser pequeno para o seu futebol, havia a necessidade de aposta de um clube estrangeiro. Essa aposta demorou, não foi se calhar também pelos valores que o Sporting CP merecia, mas sem dúvida é um orgulho ver o Bruno e outros que cá estão a fazer um percurso com a qualidade que ele demonstra, e aquilo que ele já representa para a equipa. Parece fácil para quem está lá em casa, mas tem muito mérito pela sua qualidade, pela sua mentalidade, porque não é fácil vir do futebol português para o inglês, a questão do clima, a exigência do novo clube. Tem um mérito tremendo, está de parabéns e merece o nosso apoio.

Tu, que és um assumido benfiquista, como tens acompanhado o clube e o que tens a dizer da situação que o SL Benfica vive?
Sim, eu sou benfiquista assumido, nunca o escondi. O SL Benfica sempre esteve presente em casa com os familiares, mas como profissional sempre soube dar o meu melhor em campo em prol dos clubes que representei. Tenho visto com alguma tristeza, aquilo que parecia a construção de um grande clube, com boas vendas de jovens com muito valor, a cair agora nesta situação, onde o discurso do presidente era de mais conquistas a nível da Europa e tem-se verificado o contrário. Não é fácil suportar os salários e a exigência desses jogadores que se destacam, mas deixa-me triste ver o SL Benfica a passar por esta situação, em que não se vê a liderança, onde se vêm muitos jovens. O Sporting CP já passou por isso, quando se quer conquistar, ter muitos jovens pode ser mau, e de facto isso tem vindo a verificar-se, pelas dificuldades que o clube tem atravessado. Oxalá que se venha a organizar o mais rápido possível para que os adeptos possam voltar a celebrar.

Por fim, que central no futebol actual é mais parecido contigo?
Eu costumo dizer, em jeito de brincadeira, que não há outro Idalécio…

Se calhar o Mathieu, pela estatura e o pé esquerdo?
Sim, pela sua tranquilidade, por exemplo. Era discreto, eficaz. Acho que acertaste porque não há muitos outros com o pé esquerdo a jogar actualmente que sejam calmos. Se calhar também me assemelho um bocadinho ao Ferro, no seu período bom, mas o Mathieu é o mais próximo."

O fim (será?)!!!

"Chegou ao fim. Com o devido tributo, Carlos Xistra despediu-se no Estádio e com o clube no qual foi mais vezes decisivo esta época. Foi provavelmente a época mais escandalosa de um árbitro na 1ªLiga. Perdeu a vergonha e desatou a pagar favores de forma indiscriminada a quem lhe permitiu esta época extra, que em condições normais não teria direito a disputar.
Eles fazem tudo o que querem e à vista de toda a gente. Neste momento, já se estão cagando para as consequências, até porque a Comunicação Social está controlada de cima a baixo com os Manuel Queiroz desta vida.
Dia de festa e de esperança no futuro. Menos um peão do sistema do Calor da Noite no activo. O problema é que eles não dormem, e por cada um que cai, dois ou três se levantam. Os Claudios Pereiras e os Rui Oliveiras já estão aí preparados para os próximos anos, para nem falar dos Manuel Oliveiras.
O Benfica que não faça nada que depois diga que nem com Cavanis consegue ganhar campeonatos em Portugal..."

Recordações: Rita Martins...

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Bem-vindo, Jorge Jesus

"Está de volta o treinador que mais jogos (325) e vitórias (229) tem ao serviço do Benfica, números alcançados em seis temporadas notabilizadas pelos títulos conquistados e pelo reconhecimento generalizado da qualidade do futebol apresentado.
Todos nos recordamos da sua chegada ao Clube e das suas declarações, logo na apresentação, em que não se coibiu de afirmar que iria conquistar títulos e que, consigo, a equipa jogaria o dobro.
De facto, foi isso mesmo que aconteceu, ao revalidarmos o título da Taça da Liga e ao sagrarmo-nos campeões nacionais logo na sua primeira época à frente da nossa equipa. Na retina ficaram as grandes exibições, as muitas goleadas (quatro ou mais golos obtidos em 14 dos 51 jogos nessa época e, por exemplo, os inéditos cinco golos marcados a uma equipa inglesa ou os oito conseguidos ante o V. Setúbal, uma marca que, no Campeonato Nacional, fugia desde 1994).
Recordista de triunfos na Taça da Liga, ao vencer cinco dos sete títulos conquistados pelo Benfica nesta competição, contribuiu ainda para o sucesso numa Taça de Portugal, numa Supertaça e ainda mais dois Campeonatos Nacionais, os primeiros do inédito Tetra, perfazendo um total de três de águia ao peito, um feito apenas superado por Otto Glória e somente igualado por Janos Biri, Jimmy Hagan e Sven-Göran Eriksson.
Ao todo são dez títulos e troféus (três Campeonatos Nacionais, uma Taça de Portugal, cinco Taças da Liga e uma Supertaça), o que faz de Jorge Jesus um dos técnicos mais titulados ao serviço do Benfica.
O Bicampeonato conseguido em 2015 tratou-se de um feito que o Benfica já perseguia desde 1984 (31 anos) e a dobradinha (campeão e vencedor da Taça de Portugal na mesma temporada) alcançada na época anterior já não era celebrada desde 1987 (27 anos).
Também na Europa o Benfica deu cartas com Jorge Jesus. A disputa dos quartos de final da Liga dos Campeões, em 2011/12, aconteceu seis anos depois da última presença nessa fase da prova. Nas duas épocas seguintes, o Benfica foi finalista da Liga Europa, sendo que se encontrava arredado da disputa de uma final europeia desde 1990. Em 2012/13 perdemos com o Chelsea no tempo adicional. Em 2013/14 saímos derrotados pelo Sevilha no desempate por pontapés da marca de grande penalidade, vítimas de uma péssima arbitragem, conforme até a comunicação social espanhola reconheceu. 
Bem-vindo de volta, Jorge Jesus! Boa sorte e desejamos-lhe que contribua para que sejam acrescentados muitos mais troféus ao nosso magnífico Museu Benfica – Cosme Damião! 
#PeloBenfica"

Recordações: António Tavares...

Recordações: Alexandre Pires...

Antevisão...

A (Re)volta de Jesus

"Está tudo mais calmo?
Já é seguro dar a minha opinião sobre o regresso de Jorge Jesus?
Vamos lá analisar isto com calma e por partes.
Primeiro só eu é que reparei que ao nível do timing o Benfica esmerou-se?
Anunciar uma “bomba” destas dias depois do fracasso e derrota no campeonato é uma operação de marketing fantástica.
De repente ninguém fala do Porto campeão.
Ninguém esmiuça as virtudes do Porto.
Ou escrutina as debilidades do Benfica.
Os sete pontos perdidos.
Os oito de vantagem.
Tudo esquecido pelo anúncio da contratação de Jorge Jesus.
Pessoalmente não sou amante de Jorge Jesus.
Nem amante, nem marido, nem namorado.
Não simpatizo com o estilo.
Quem me conhece sabe que preconizo outras posturas.
São vários os episódios onde não me revejo e não gosto.
Estão à espera do “Mas”, né?
Aguentem mais um bocado.
São vários os comportamentos censuráveis de Jesus.
Pelo diálogo e pela falta dele.
Pela arrogância e sobranceria.
Isto tudo ainda no Benfica.
Depois vem o Sporting.
Onde curiosamente Jorge Jesus foi igual a si mesmo.
Onde fez precisamente o mesmo que fazia no Benfica.
Ofendeu colegas de profissão.
Dirigentes.
Terminou conferências quando não lhe convinha.
A minha pergunta é:
Todos se lembram que a decisão de sair do Benfica não foi de Jesus?
Todos sabem da história em que ele foi “empurrado”?
Que por sua vontade ainda hoje lá estaria caso os resultados o permitissem.
Não havia Sporting, nem Arábias, nem Flamengos.
Pronto.
É que às vezes parece que Jorge Jesus quis sair do Benfica para o Sporting.
Agora sim vem aí os “Mas”.
Jesus é a meu ver um dos melhores treinadores do Mundo.
Um criador.
Para o bem e para o mal.
Quem não se lembra da criação de David Luiz a defesa esquerdo nos 5x0 do Dragão.
Mas se é para contratar um técnico que não invente.
Deixem ficar os que por lá estavam.
Não inventavam muito.
Mas quando o modelo ou as estratégias ficavam “gastas”.
Perdiam e perdiam-se.
Jesus é muito bom naquilo que domina.
No futebol.
E muito mau naquilo que não é para ele dominar.
Comunicação.
Acredito que essa será uma das aprendizagens que o estrangeiro trouxe ao técnico da Amadora.
Mas alguém duvida que o Benfica vai jogar o triplo?
Que para o que vimos este ano até nem é muito.
Que vai valorizar jogadores e fazer vendas astronómicas.
Neste momento o cozinheiro e o roupeiro já valem 10 milhões de euros.
Ninguém valoriza ou tira rendimento de jogadores como ele.
Tem erros de casting.
Claro que sim.
Mas são mais as vezes que acerta.
Entendo e respeito a contestação.
Malta que preferia um homem menos controverso e mais cordial.
Que apostasse mais na formação.
Tipo Rui Vitória ou Bruno Lage.
Para se poder maltratar à vontade.
E gritar aos sete ventos que falta alguém com “pulso forte nos jogadores”.
Porque amigos com Jesus “ninguém brinca”.
Nem árbitros.
Nem jogadores.
Nem adeptos.
E ninguém defende mais a sua profissão e o seu clube que ele.
Com ele não existe formação.
Existe qualidade.
Com ele não existe Seixal. Existe Aimar e Saviola.
Ficará sempre ligado a Bernardo Silva como lateral esquerdo.
Mas também a Fabio Coentrão.
E com ele não existem aquelas conferências insossas e amorfas que mesmo depois de ser ofendido “responder a quem quero quando quero”.
Jorge Jesus cospe a pastilha e responde a quem nada lhe pergunta.
Ele não compra guerras.
Ele é a guerra.
Eu não sou fã do estilo volto a dizer.
Mas reconheço o maior mérito ao conteúdo.
Arriscado era contratar alguém sem créditos.
Sem provas dadas.
E sem competência.
E repito.
Compreendo a contestação.
Jesus na minha opinião não fez nada de mal.
Mas disse muitas coisas de mal.
No entanto e no fim se ganhar.
Todos vão festejar, mesmo sem o perdoar.
Até os que rasgam o cartão de sócio.
Para vencer Jesus não precisa de bons adeptos.
Precisa de bons jogadores.
O resto ele resolve.
Para finalizar.
Claro que não vale tudo para ganhar.
Mas felizmente ainda vale contratar o Campeão da Libertadores e do Brasileirão.
Há dias ouvi algo que me fez muito sentido.
Os clubes são sempre maiores que os treinadores e que os jogadores.
E dão sempre mais a ganhar a uns e a outros.
Quando isso não acontece.
Faz-se uma estátua.
Por isso é que no Estádio da Luz só existe uma."

Se Vieira esperava que contratar Jesus pusesse o benfiquista a dar pulos, a esta hora deve perguntar-se “o que passou-se?”

"Tinha tudo para ser um grande arraial, um festival nesta época sem festivais, com direito a fanfarra e desfile em autocarro aberto pelas ruas da cidade até a apoteose no Estádio da Luz e, no entanto, o regresso de Jorge Jesus sabe a quarta-feira de cinzas. Ou, então, sabe apenas a cinzas, a fim de festa, o slow na discoteca às cinco da manhã quando as luzes se acendem. Não devia ser assim.
E o foguetório? O regresso triunfal do homem que, em dezembro do ano passado, era senhor do mundo (pelo menos do mundo de língua portuguesa)? Nada. Hoje há cinzas e resignação, é o que se arranja. Sobras de um banquete antigo com sabor a renúncia. Renúncia de Jesus. O homem que volta ao lugar onde foi feliz e miserável, ídolo carregado em andor e Belzebu de efígie queimada em praça pública (ou, pelo menos, retirada de um grupo de cartazes sorridentes), desistiu de apontar às estrelas. Convenceu-se, finalmente, de que a oportunidade para treinar um dos grandes da Europa, uma daquelas cinco ou seis equipas que lutam, mas lutam a sério, pela Liga dos Campeões, nunca chegará. E assim volta ao Benfica, com o prestígio técnico reforçado e a firme impressão de que o fim da linha está próximo.
Se Luís Filipe Vieira esperava que a contratação de Jesus pusesse o adepto benfiquista a dar pulos de contentamento, a esta hora deve estar a perguntar-se “o que passou-se?” Uns deixam de pagar quotas, outros declaram publicamente que nunca mais vão ver um jogo do clube, outros não sabem se hão de rir ou chorar com as curvas e contracurvas, os mortais à retaguarda e as guinadas imprevistas do “sólido” projecto de Vieira. Jesus não serve para o projecto, Rui Vitória é para muitos anos, vi uma luz, o Vitória já era, o Lage fica porque o Mourinho não quer, Lage forever, Lage na próxima época dê lá por onde der, enter Jesus.
O problema pode ter sido o timing. Anunciar a contratação de Jesus devia servir de antídoto à azia pela perda do campeonato. Essa deve ter sido a intenção do presidente. Mas o tiro saiu-lhe pela culatra.
A malta está cansada e não é a contratação de um treinador, por brilhante que este seja, que apaga o essencial: ninguém sabe para onde vai o Benfica. Ninguém sabe que Benfica é que Luís Filipe Vieira tem na cabeça. Dizia o poeta que o amor é eterno enquanto dura. No Benfica, os projectos também são eternos enquanto duram, como castelos de areia na praia até vir uma onda ou, às vezes, um murmúrio de água.
A hegemonia interna. O Seixal. A Europa. Não há dinheiro, só prata da casa. Vendem-se as pratas da casa para sustentar o vício da vitória. Depois não há vitórias, só o vício a seco. Vão-se os anéis, os dedos, a mão, primeiro a esquerda, depois a direita. No fim, só resta a lábia. Afinal, já há dinheiro. Volta, Jesus. Cem milhões para reforçar o plantel. Gastar à tripa-forra. Vamos lá que ninguém nos pára. A não ser que o Porto desencante um vítor-pereira da vida para ajoelhar o catedrático. A não ser que o Porto, cujo projecto se chama, há quase quarenta anos, Pinto da Costa, consiga ganhar dois campeonatos em três, mesmo sem dinheiro para mandar cantar um cego, mesmo com jogadores a que ninguém chama coxos só por consideração aos coxos.
Os benfiquistas perderam a esperança. Não a esperança de ganhar – essa está sempre lá e, com a chegada de Jesus, pode até sair reforçada – mas a esperança de que dentro do clube alguém saiba o que anda a fazer. Quando nem um treinador como Jesus devolve a esperança aos adeptos é porque a desilusão vai muito para além do que acontece nas quatro linhas.
Quando Vieira decidiu manter Jesus após o ano do quase, teve o seu momento de génio. Quando Bruno de Carvalho foi buscar Jesus quando ninguém o esperava, teve o seu momento de génio. Ir buscar Jesus agora, ao contrário do que Vieira possa pensar, não é de génio. É uma confissão milionária de impotência."

Semanada...

"1. Tudo em Cima do Joelho. Nos últimos dias tem-se falado na imprensa que o Benfica vai fazer um grande investimento neste verão. Não sabemos ao certo se a notícia é verdade ou não, mas o Empréstimo Obrigacionista indica que há pelo menos um fundo de verdade, visto que o clube não tem outro motivo para aumentar o EO a não ser que vá de facto investir. Só que há um problema nisto tudo. O Benfica aparentemente só percebeu que era preciso investir no plantel depois da época já estar quase terminada. Para agravar a situação, só percebeu isto em Julho, depois do ano fiscal do clube já ter terminado. Tudo o que o Benfica gastar neste mercado de transferências, vai contar para o ano fiscal de 2020-2021. Isso significa que vamos terminar o ano fiscal 2019-2020 com um lucro quase nos 100 milhões e que o ano fiscal de 2020-2021 vamos ter um prejuízo bastante significativo. Possivelmente na ordem das várias dezenas de milhões de euros. Isto não deverá criar um grande desequilíbrio financeiro nas contas do clube, mas pode vir a criar sérios problemas no que respeita ao Fair-Play Financeiro. Porque na época de 2022-2023, o ano fiscal de 2019-2020 já não vai contar para a regra do FPF e vamos estar obrigados a fazer vendas significativas para balancear e respeitar o FPF devido a este investimento todo. Se não o fizermos, podemos ficar suspensos de participar em competições europeias Vai haver certamente alguns comentários a dizer “criticam por não termos reforços, criticam por termos reforços, criticam por tudo e por nada”. Eu não estou a criticar o facto do Benfica ir ao mercado. Estou a criticar a “Estrutura” por gerir o clube conforme os resultados e não conforme o que se joga. Porque se gerisse conforme o que se joga, tínhamos ido buscar reforços mais cedo. O Benfica deveria ter aproveitado a folga financeira do ano fiscal 2019-2020 para trazer reforços antes de 30 de Junho de 2020 de maneira a que esse investimento não entrasse nas contas do clube no próximo ano. Foi tudo gerido, mais uma vez, em cima do joelho.
2. Scouting. Ganhámos contra o Guimarães, mas mais uma vez não fizemos um jogo digno do futebol que exige ao clube. No outro lado esteve um Guimarães, que mais uma vez demonstrou porque é que é o clube com melhor departamento de scouting do país. Com pouco, o Guimarães lá vai descobrindo verdadeiros craques. Primeiro foi o Tapsoba que já foi para o Leverkusen por 18 milhões. Agora já devem estar a esfregar as mãos com o Marcus Edwards onde também deverão fazer um grande encaixe. Enquanto nós, é o que todos já sabemos. Qualquer reforço que o Benfica faça neste verão, a probabilidade de ainda estar no clube em Janeiro, com base nos últimos dois anos, é inferior a 50%. 
3. Operação Saco Azul. A Operação Saco Azul trata-se de uma investigação da Autoridade Tributária em que o Benfica terá pago 1.9 milhões por um serviço de uma empresa de informática que aparentemente nunca terá usufruído. A AT está investigar questões relacionadas com o IVA e IRC nessa operação. Aparentemente, esse dinheiro terá sido levantado da conta e o seu destino é uma incógnita. Inicialmente só a empresa de informática estava a ser investigada. Agora também está o Benfica e os seus dirigentes, o que possivelmente poderá indicar que o dinheiro terá regressado ao Benfica sob a forma de numerário para servir de “saco azul” - dinheiro solto para fazer pagamentos por debaixo da mesa a alguém. Um “saco azul” não é uma novidade em Portugal, nem sequer no Futebol Português. O Sporting também tinha um. Mas no caso do Sporting era de 60 mil euros. Não há muito a dizer daqui. Já cansa ver o Benfica e seus os dirigentes envolvidos em tantas práticas pelo menos suspeitas. A pergunta que se impõe é mesmo até quando é que os sócios vão aceitar que isto seja normal.
4. Dilema Weigl v. Florentino. Julian Weigl tem sido o nosso melhor jogador desde da retoma da Liga. Por outro lado, Florentino voltou a jogar na terça-feira e as indicações foram muito boas. Imediatamente surgiram as questões nas redes sociais de porque é que Florentino não joga mais. A resposta é fácil. Julian Weigl tem sido o nosso melhor jogador desde da retoma da Liga e a equipa precisa de ter um elemento no meio campo mais ofensivo. É um dilema complicado que Jorge Jesus terá que procurar resolver. O Ajax jogou muita vez este ano com dois médios mais defensivos (Lisandro Martinez e Edson Álvarez). Talvez possa ser uma inspiração. Mas com Jorge Jesus, não acredito muito.
5. Youth League. A Taça de Portugal vai decorrer no início de Agosto. A meio da Agosto vai decorrer a Fase Final da Youth League e pouco depois deverá começar a pré-época. Na Youth League poderão estar jogadores como Tiago Dantas, Nuno Tavares, Tomás Tavares, Morato, Gonçalo Ramos, Leo Kokubo ou Paulo Bernardo que provavelmente teriam algumas hipóteses de ser chamados para fazer a pré-época com a equipa principal e até ficar no plantel. Estou curioso para ver como é que essa gestão irá ser feita. O clube nunca escondeu a ambição de ganhar a Youth League, mas será que os jogadores não irão ter férias?
6. Mexidas Oficiais no Futsal. A saída de André Coelho foi oficializada e entretanto já oficializámos os primeiros dois reforços: o fixo internacional português ex-SC Braga Nílson e o ala internacional brasileiro ex-Barcelona Arthur. Dois bons reforços, a quem se deverão juntar ainda Ivan Chishkala e Hossein Tayebi. O plantel da equipa de Futsal parece estar fechado. Só deverão faltar uns ajustes finais com os jovens que vão estar na equipa. A nível de estrangeiros vamos ter muitos jogadores muito talentosos. Vamos estar um pouco curtos na posição de Fixo, mas parece-me uma grande aposta em Afonso Jesus, visto que Joel Rocha não terá grandes alternativas além de Nílson e o jovem português. O ano passado fizemos uma aposta muito parecida em Rafael Lisboa e os resultados foram manifestamente bons. Se Afonso Jesus confirmar o que se espera dele, esta também vai ser uma boa aposta."

Recordações: José Janeiro...

Recordações: Ricardo Silva...

João, Pedro & Miguel... Trio !!!

Comparação dos sistemas desportivos contemporâneos nas suas relações com outros campos e espaços sociais

"Se colocarmos em perspectiva os sistemas desportivos de vários países europeus, verificamos que a sua história não é linear e que é impossível, como gostaria a lógica culturalista, reduzi-los a uns meros princípios estruturantes aplicáveis a todas as épocas e no conjunto da sociedade.
Nos seus primeiros textos, os sociólogos franceses Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron denunciaram os efeitos simplificadores mencionados por alguns burgueses, que viam o “culto aristocrático na proeza”. Podemos procurar as estruturas dos diferentes movimentos desportivos nos inevitáveis compromissos entre as escolhas individuais, resultante da história política e cultural de um país, e as variantes que resultam dos incontornáveis constrangimentos, sobretudo no que diz respeito ao desporto de alto rendimento, das exigências técnicas e das competições internacionais. 
Tomemos aqui, de forma breve, os exemplos da Alemanha, da França e de Portugal. Na Alemanha, o movimento desportivo é uma organização que tem uma autoridade e que regula a prática desportiva, em todas as modalidades e em todos os níveis. Fruto de uma fusão em maio de 2006, entre a União do Desporto Alemão e o Comité Olímpico Nacional, o Deutscher Olympischen Sportbund enquadra todas as instâncias desportivas, que conservam a sua autonomia, e representa-as nas negociações com o Estado Federal (Bund).
O sistema alemão não atribui um estatuto particular aos atletas de alto rendimento. Reconhece-se a herança de uma concepção liberal, segundo a qual o compromisso de alto rendimento é fruto de uma escolha individual. Em França, como em Portugal, o desporto de alto rendimento é uma fonte de enriquecimento e de progresso humano e o atleta assume um papel social, cultural e nacional de primeira importância. O desenvolvimento das actividades físicas e desportivas incumbe ao Estado e ao movimento desportivo, constituído por clubes, associações e federações desportivas, muitas vezes com o apoio das autarquias, das empresas e de instituições sociais. Nesta perspectiva, a lógica é diferente da Alemanha.
As relações são contrastadas entre as organizações desportivas, os Estados e os praticantes. É completamente em vão querer comparar os sistemas desportivos e o seu “grau de autonomia”."

Como proteger a mente? O vírus n.º 2 - PN

"Tinham passado uns dias, desde a última conversa com o Detective Colombo, e o Treinador Wooden continuava surpreendido, com as múltiplas aprendizagens que tinha realizado, nas diversas conversas com o Detective Colombo e curioso por conhecer quais seriam os outros vírus da mente, que condicionavam o comportamento e as consequências dele próprio e dos seus atletas.
Podia ter ficado à espera de que o Detective Colombo o abordasse, mas sendo proactivo, decidiu convidá-lo, para tomar um café, no centro de estágio do F.C. os Galácticos, onde se encontravam ambos, naquele momento. Passada a euforia e autógrafos, que os muitos sócios solicitaram ao Treinador Wooden, o café de ambos, teve finalmente lugar.
“Detective Colombo, as nossas últimas conversas (aqui e aqui) foram muito esclarecedoras e despertaram-me a curiosidade, para saber mais. Que outros vírus podem comprometer a forma como pensamos e, por isso, necessitamos de nos proteger?” – começou por perguntar o Treinador Wooden. 
A esplanada costumava estar muito agitada, mas passada a euforia, a presença do Treinador Wooden deu lugar a uma acalmia inabitual, até parecia que todos estavam a proporcionar o sossego necessária à conversa de ambos e, ao mesmo tempo, a tentar ouvir um pouco do que conversavam. Enquanto observava quem os circundava, o Detective Colombo viu que estavam três pessoas de alguma idade, na mesa à direita– “deviam ser avôs de alguns dos jogadores” – pensou, na mesa à sua frente, encontravam-se duas senhoras, uma mais velha, com um chapéu verde e outra mais nova – “devem ser mãe e filha” – congeminou e, na mesa à esquerda, estavam dois casais – “devem ser pais de dois jogadores das escolas” – matutou.
“Treinador Wooden, sei que agora treina um grande clube, mas recorda-se quando treinava equipas que lutavam pela sobrevivência, pela manutenção?” – perguntou o Detective Colombo. “Sim” – respondeu o Treinador Wooden. “Lembra-se de algum jogo, contra uma das equipas candidatas, que tenha corrido mal?” – inquiriu o Detective Colombo. O Treinador Wooden lembrou-se de imediato de um, enquanto o Detective Colombo começou a pensar que tinha provocado algum desconforto ao Treinador Wooden e, por isso, perguntou-lhe – “a minha pergunta deixou-o desconfortável?” e o Treinador Wooden acenou positivamente com a cabeça. “Se não quiser, não vamos por este caminho?” – perguntou o Detective Colombo, mas o Treinador Wooden respondeu – “não, é importante aprendermos com os momentos em que as coisas não nos correram bem, vamos a isso”.
O Detective Colombo encostou-se à cadeira, como que a dar espaço e tempo ao Treinador Wooden e este respondeu – “recordo-me de um jogo, em que treinava uma equipa que lutava para não descer, estávamos na recta final do campeonato e a pressão era enorme. Tínhamos preparado o jogo o melhor possível, mas o resultado foi catastrófico, perdemos 5-0, olhe precisamente contra o F.C. os Galácticos”.
“Antes do jogo, aconteceu alguma situação inabitual?” – perguntou o Detective Colombo. “Agora que pergunta” – começou por dizer o Treinador Wooden e continuou – “realmente aconteceu. A caminho do jogo e já no autocarro, o nosso camisola 10 o jogador que organizava e criava o jogo da equipa abordou-me e disse-me algo que me surpreendeu”.
Naquele momento, todas as mesas ficaram em silêncio e as pessoas inclinavam-se ligeiramente na direcção da mesa do Detective Colombo e do Treinador Wooden.
“O que é que lhe disse esse jogador?” – perguntou o Detective Colombo. Depois de hesitar um pouco, o Treinador Wooden partilhou – “o jogador disse-me que não podia jogar, porque se o fizesse, iria lesionar-se e, mesmo depois de lhe dizer que era um disparate o que estava a pensar, não consegui demovê-lo, porque continuou toda a viagem a dizer-me que se jogasse se iria lesionar, acabou por não jogar e as consequências foram desastrosas” – levantou a mão com os 5 dedos abertos, como que a lembrar-se dos 5-0 finais.
Enquanto o Detective e o Treinador fizeram uma pausa, parecia estarem a reflectir sobre a situação, naquele momento e nas mesas circundantes, aconteceram algumas coisas.
Na mesa da direita, dos avôs, um deles disse aos outros – “já me aconteceu uma coisa semelhante com a minha neta. Estava a levá-la para o jogo, eu conduzia e ela estava sentada no banco de trás, nas minhas costas, e estava em silêncio, o que não era habitual e, por isso, perguntei-lhe o que estava a pensar e ela disse-me que o jogo lhe ia correr mal. Embora lhe tivesse dito não penses isso, o certo é que assisti ao jogo e correu-lhe mal”.
Na mesa da frente, a mãe disse à filha – “recordas-te quando fizeste o exame de Matemática, do 12º ano, pela primeira vez, também passaste a véspera a dizer que te ia correr mal e foi isso que aconteceu”.
Na mesa da esquerda, a dos dois casais, um dos pais congeminou que já tinha passado por situações idênticas e partilhou a seguinte história – “quando comecei a trabalhar no banco, passados poucos meses, fui confrontado com a situação de ter que apresentar a forma como conseguia bons resultados nos PPR’s, durante 3 minutos, numa reunião a nível nacional, por ser o colaborador com melhores resultados, e embora fosse bom no que fazia, só pensava que aquela apresentação ia correr mal e foi isso que aconteceu.”
Entretanto o Detective Colombo perguntou – “Treinador Wooden preocuparmo-nos com o futuro, pensar que vai correr mal e viver essa preocupação em vez da realidade é um pensamento deliberadamente construtivo, útil, aceitável e agradável, e sensato?”
O Treinador Wooden olhou o Detective Colombo e respondeu – “não”. “Então, Treinador Wooden encontrou mais um vírus da mente, o vírus PN ou Predições Negativas, isto é, quando as pessoas são pessimistas, pensam que alguma coisa no futuro lhes vai correr mal e depois, paradoxalmente, porque não querem que lhes corra mal, ao pensarem que lhes vai correr mal, acabam por desviar a atenção e, ao fazê-lo, alimentam e concretizam, frequentemente, o prognóstico, a predição negativa, e as coisas acabam por correr mal, não por falta de capacidade, mas por não protegerem a mente do vírus PN” – disse o Detective Colombo.
“Agora que colocou as coisas nestes termos” – começou por dizer o Treinador Wooden e prosseguiu – “este vírus já me visitou várias vezes” – e como parecia que o Treinador Wooden queria partilhar mais uma situação, o Detective Colombo ficou calado, à espera e o Treinador Wooden continuou – “a determinada altura, treinava uma equipa pequena e não tinha departamento de scouting. Por isso, tinha de me desdobrar. Como necessitava de observar um jogador que jogava em Ferrol, meti-me no avião e, depois da escala em Madrid, acabei por aterrar em Vigo. Contudo, depois de alugar um carro, quando sai do aeroporto, chovia torrencialmente e estava uma ventania fortíssima. Entrei no carro e comecei a viagem em direcção à Corunha e quando entro na autopista, para além da chuva e do vento, a estrada estava cheia de ramos das árvores. Nessa altura, pensei que podia ter um acidente, que as coisas iam correr mal, que o melhor era voltar para trás e esquecer a observação do jogador”. 
“Por que razão pensou isso?” – perguntou o Detective Colombo. O Treinador Wooden olhou para o lado e para o chão, depois para o Detective e disse – “já tinha passado por uma situação idêntica e o resultado foi péssimo, tive um acidente e acabei no hospital”.
“Lamento. O que fez, voltou para trás ou prosseguiu a viagem?” – perguntou o Detective Colombo. “Continuei a viagem” – respondeu o Treinador Wooden. “O que aconteceu, para seguir para a Corunha?” – perguntou o Detective Colombo.
“Recordei a viagem semelhante, em que tive o acidente, e lembrei-me que o acidente aconteceu por conduzir demasiado rápido, para as condições da estrada, embora abaixo do limite de velocidade. Por isso, se conduzisse rápido, embora abaixo do limite, o acidente tinha mais probabilidades de se repetir, mas se conduzisse ainda mais devagar, podia ser bem-sucedido, mesmo demorando mais tempo” – respondeu o Treinador Wooden.
“Qual foi o desfecho dessa viagem a Ferrol?” – perguntou o detective Colombo. “Cheguei ao jogo mesmo no início, observei todos os jogadores, regressei a casa são e salvo e acabei por contratar um jogador que veio a ser decisivo no sucesso da equipa” – disse o Treinador Wooden.
Nas mesas ao lado, começou-se a ouvir as pessoas a falar sobre o vírus PN (predições negativas) e como o jogo da neta, o primeiro exame do 12º ano e a apresentação pública poderiam ter sido diferentes, para melhor, se as pessoas soubessem que o vírus PN nos visita a todos, de quando em vez, e se pensassem que o futuro pode não ser uma repetição do passado, se for planeado, preparado e executado de maneira diferente de quando as coisas correram mal, em função das aprendizagens desses momentos.
Na mesa do Detective Colombo, o Treinador Wooden pensava – “no impacto de nos protegermos das predições negativas e as desfazermos, quando se “instalam” nos jogadores, mas também nos treinadores, nos dirigentes e nos sócios.”
“Detective Colombo, obrigado por me ajudar a conhecer mais um vírus da mente e da necessidade de protegermos a mente, se desejarmos fazer e conseguir o que somos capazes. Tenho muito que reflectir, sobre situações na minha vida pessoal e profissional, como Treinador, em que este vírus influenciou negativamente a minha iniciativa ou falta dela e estou curioso por saber se há mais vírus da mente” – disse o Treinador Wooden.
“Infelizmente, há mais vírus da mente. Por exemplo, ao pensar na nossa conversa, verifique que houve dois vírus da mente que me sequestrou a determinada altura. Um eu consegui desfazer, mas o outro não” – disse o Detective Colombo.
“Que vírus foram esses?” - perguntou o Treinador Wooden. “Um deles, abordamos na nossa última conversa, o outro, podemos deixar esses vírus para a próxima conversa?” – indagou o Detective Colombo.
Embora curioso, o Treinador Wooden acenou que sim e, nas mesas ao lado, cada uma das pessoas pensou - “espero que a conversa tenha lugar nesta esplanada”.