Últimas indefectivações

terça-feira, 7 de abril de 2020

Não vá. Telefone! - Odysseas

A ponte é uma passagem

"Com a pandemia em curso não se deu a atenção devida a uma decisão corajosa da FIFA, que não pode ajudar a mudar o negócio do futebol. Foram finalmente proibidas as 'transferências ponte', isto é, um clube deixou de poder contratar e transferir os direitos desportivos de um jogador na mesma janela de mercado. A decisão produz efeitos já no próximo defeso. Para se perceber melhor, negócios como o que o Benfica fez com Yony González, contratado em Janeiro ao Fluminense e cedido ao Corinthians, deixam de ser possíveis.
Para além do passo para a humanização do negócio do futebol, contrariando-se a propensão a tratar jogadores como mercadorias (pode alguém deixar de se sentir desconfortável com as apresentações artificiais, nas quais um homem veste a camisola de um clube pelo qual nunca jogará, apenas para assinar um contrato e logo ser despachado para outro destino?), esta decisão pode ajudar a diminuir a opacidade do futebol global.
O recurso a 'transferência ponte' tem uma explicação: encontrar um clube que aloja temporariamente um atleta, funcionando como ponte para outra paragem, foi uma forma de empresários e fundos contornarem os entraves à 'third party ownership' (isto é, jogadores que não são detidos por clubes). No fundo, continuou a ser possível ocultar quem, de facto, detinha o passe de um futebolista. Sintomaticamente, alguns jogadores passaram a estar envolvidos num verdadeiro carrossel de mais-valias, percorrendo um circuito de clubes sempre em valorização (muitas das vezes sem correspondência nas suas prestações desportivas), sem que as contas dos clubes reflectissem em toda a sua extensão os resultados financeiros das transferências. É, aliás, a explicação para uma minoria ter enriquecido muito com o negócio do futebol, enquanto a maioria dos clubes vive uma situação financeira estruturalmente frágil.
Para além do mais, a FIFA parece ter sido prudente na decisão. Na verdade, continua a ser possível contratar um jogador e emprestá-lo imediatamente. Só que agora o ónus da prova recai sobre o clube e já não sobre a FIFA (que até aqui tinha de demonstrar o ilícito). A questão não é irrelevante. Para nos mantermos em exemplos com o Benfica, há casos em que fez sentido contratar um jogador que ainda não tinha condições para ocupar um lugar no plantel mas que era uma aposta de futuro. Pizzi, por exemplo, foi contratado e logo emprestado ao Espanyol de Barcelona,onde fez uma época a alto nível, antes de se afirmar no Benfica.
Mesmo um clube que tem sido useiro e vezeiro em transferências ponte, há negócios que devem poder continuar a ser feitos, desde que devidamente justificados. O que é preciso impedir é que o futebol continue a ser terreno fértil para negócios opacos que escapam à racionalidade económica. Pode ser que, passada a pandemia, alguma coisa mude."

Mensagem da atleta mais medalhada no Judo, Telma Monteiro

"Vivemos um período que apanhou o mundo de surpresa. Primeiro que tudo, quero realçar o orgulho que sinto em Portugal. Era impossível prever e estarmos preparados para uma situação destas, mas o que vejo é um país que, sob uma liderança competente – assim como no meu Clube, desde muito cedo, com as melhores decisões! –, conseguiu reagir a tempo de se evitar uma situação ainda mais dramática. Os portugueses, de um modo geral, estão a cumprir as medidas adoptadas pelas autoridades nacionais. Tenho... Temos, por isto, de estar todos bastante orgulhosos.
Bem sei que ainda falta algum tempo para que as coisas se resolvam – acredito que tal acontecerá! – e voltem à normalidade, mas se continuarmos no rumo certo, com as atitudes mais corretas e responsáveis, vamos vencer esta batalha e ser um exemplo também a nível internacional. 
Pessoalmente estou tranquila. Tento ter uma rotina diária de treinos e tarefas que me mantêm ocupada e me ajudam a passar o tempo de maneira saudável. No início, a incerteza de quanto tempo tudo isto iria durar, causava-me obviamente inquietação. Agora, aceitei que isto é uma situação temporária, que vai passar, ainda que se vá prolongar um pouco mais nas nossas vidas.
No panorama desportivo, tudo está suspenso. Os Jogos Olímpicos foram adiados por um ano, o que acabou por ser a decisão mais sensata. Para qualquer atleta, um ano é muito tempo, foi este o meu primeiro pensamento. No entanto, rapidamente reestruturei a minha mente, e agora penso que é mais um ano que tenho pela frente para melhorar. E este período pode ser isso, também, para nós todos. Um pouco por todo o planeta, fomos obrigados a desacelerar. Não tínhamos tempo para nada, para estar com a família, fazer coisas banais, pensar em novos projectos. Esta é, portanto, uma oportunidade: temos de reflectir, é essencial crescermos como pessoas.
Depois deste complicado desafio de saúde pública global, virá provavelmente um tremendo desafio económico. Mas também sei que, quando sairmos deste isolamento social, nada será igual e poderemos ser mais fortes enquanto civilização. Saberemos o quão longe podemos chegar. Este é um momento histórico, e nós podemos fazer a diferença, desde já, com atitudes solidárias e optimistas, pensando sempre no bem comum!
Quero sublinhar, com sinceras palavras de gratidão, aquilo que me parece ser o sentimento que prevalece em Portugal e no mundo: Obrigada! Obrigada a todos os que, dia após dia, saem de casa para permitir que o país não pare e que nós possamos ficar em casa, em segurança.

Telma Monteiro"

A Porta #1

Ferro e companhia...!!!

Benfica FM #107 - O nosso melhor 11...

Benfica de Qaurentana #28 - Adil Amarante

SL Benfica | Os 3 emprestados que podem regressar a casa

"O rol de emprestados é extenso, mas nem todos têm perspectivas de voltar a integrar o plantel do SL Benfica na próxima época (seja lá quando ela for). Uns por estarem em fim de linha, como Fejsa, outros por estarem no início da mesma, como Nuno Santos, outros por simplesmente não contarem, como Caio Lucas ou Cádiz.
Alguns serão seguramente vendidos, outros novamente emprestados, outros colocados nas equipas secundárias. No entanto, três emprestados podem integrar o próximo plantel encarnado, dada a qualidade e consistência demonstradas e as lacunas e necessidades dos quadros principais do clube da Luz.
Segue a lista desses mesmos três futebolistas, em ordem crescente de qualidade e probabilidade de virem, de facto, a integrar o plantel.

1. Diogo Gonçalves – É um dos produtos verdadeiramente Made in Benfica. Ingressou no clube com 11 anos e cedo mostrou ser uma das maiores promessas ofensivas dos encarnados. Alinhando como extremo/ala direito, o bejense foi fazendo furor nas equipas de formação do clube da Luz. Na época 17/18, fez os primeiros jogos pela equipa principal, concretamente treze.
A inexperiência, no entanto, fazia-se notar. Faltava capacidade regular de tomar decisões acertadas. Muita habilidade, mas pouco pragmatismo. Clube e futebolista consideraram que seria boa ideia uma experiência no segundo escalão inglês, ao serviço do Nottingham Forest FC. Não o foi. Diogo participou em apenas dez partidas e não fez mossa a qualquer adversário. Esta época, surpreendentemente, tudo mudou.
A surpresa não reside na qualidade ou falta dela do jogador, mas no facto de Diogo Gonçalves se ter afirmado numa posição mais recuada. João Pedro Sousa apostou nele a lateral-direito e o jogador cresceu de sobremaneira. Demonstrou uma boa capacidade defensiva sem perder a sua qualidade ofensiva, que conseguia exponenciar quando, por vezes, alinhava na sua posição de origem. 
Tornou-se um futebolista polivalente, sendo capaz de dar conta de todo o corredor direito. Além do mais, fê-lo numa equipa com uma filosofia de jogo semelhante à dos encarnados e numa equipa que guerreava pela Europa até ao momento da suspensão, o FC Famalicão.
Com 23 anos e muita qualidade, esta pode ter sido a época-catapulta para Diogo Gonçalves, que poderá e deverá regressar a casa para ser pronto-socorro de um lado direito que bem precisa de alternativas.

2. Filip Krovinovic – O croata chegou aos encarnados como uma grande promessa e na única época que pôde fazer “em condições” ao serviço das águias demonstrou qualidade e magia. Não contribuiu muito para as estatísticas, tendo apontado “apenas” dois golos, pouco para o que construía, e somente fez dezanove jogos. Uma lesão grave travou o que se perspectivava ser um crescimento contínuo até um estatuto de craque nacional e internacional.
Na época transacta, após a recuperação, esteve em três jogos da equipa B e nove da equipa principal. Contudo, precisava de jogar constantemente para voltar ao nível mais próximo possível do que havia apresentado anteriormente. Para isso, tinha que ser emprestado e foi-o. O West Bromwich Albion FC, candidato claro à subida à Premier League, apostou nele e deu-lhe a camisola número “7”.
O médio de 24 anos correspondeu, tendo sido aposta regular (34 jogos) e tendo provado o seu valor. Notícias veiculadas antes da suspensão do futebol a nível mundial (excepção feita à Bielorrússia) davam conta da vontade dos ingleses avançarem para a contratação em definitivo de Krovinovic, caso subissem ao principal escalão do futebol inglês.
Face à suspensão em curso, à qualidade do croata e à premente necessidade de criatividade e magia do plantel encarnado, Filip Krovinovic pode muito bem voltar a jogar de águia ao peito.

3. Facundo Ferreyra – O argentino chegou com 27 anos a Lisboa para ser aposta imediata, por força da idade, mas também da veia goleadora que havia apresentado ao serviço do FK Shakhtar, com 53 golos em três épocas. Todavia, a falta de golos na primeira metade da temporada 18/19 forçaram clube e jogador a acertar um empréstimo de dois anos ao RCD Espanyol de Barcelona.
No primeiro meio ano em terras catalãs, Ferreyra não fez mais nem melhor do que mimetizar o que havia feito na Luz: nove jogos e um golo. Na época agora suspensa, o cenário melhorou um pouco: 24 jogos e oito golos num clube a atravessar um mau momento. Sete desses golos foram conseguidos em nove jogos na Liga Europa.
Raúl de Tomás e Calleri tornam difícil a vida do argentino na Catalunha e o regresso a Lisboa também não seria fácil. Ainda assim, caso as águias optem por vender Haris Seferovic (o que seria mais provável se houvesse Europeu este ano), Ferreyra pode ser uma solução sem custos e de qualidade, tendo características interessantes para o estilo de jogo do SL Benfica, sendo forte nos movimentos de ruptura, de profundidade, de tabela com o segundo avançado/médio-ofensivo e na capacidade de prender os centrais."

Coluna Vermelha #51

Assiste a vídeos em direto de ColunaVermelha em www.twitch.tv

Benfiquismo (MCDXCV)

Fechado!

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Odysseas...

#BenficaEmCasa - Chiquinho

150 !!!

Mensagem da capitã do andebol, Patrícia Rodrigues

"Esta situação pela qual o mundo está a passar é nova para todos, e nós, atletas, não fugimos à regra. Se há uns dias praticávamos os habituais treinos e jogos, hoje em dia tudo mudou. Aceitámos esta nova realidade e mudámos os nossos hábitos!
Nesta fase, é essencial ganharmos consciência do que se passa, mantermo-nos informados sobre a evolução desta pandemia e cumprir as recomendações da Direcção-Geral de Saúde (DGS), da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de instituições com responsabilidade social, como é o Sport Lisboa e Benfica.
É certo que a pandemia COVID-19 teve um impacto global, não só no mundo desportivo, financeiro e político, mas também na vida de cada um de nós. Fez com que muitos dos nossos projectos pessoais e profissionais ficassem para segundo plano, pois agora a nossa preocupação passa por nos mantermos em isolamento.
Dando-vos o meu testemunho pessoal, estou lesionada desde Fevereiro e continuo a aguardar uma cirurgia que certamente não será a prioridade neste momento – e está tudo bem! Nos últimos tempos, realizei fisioterapia todos os dias na clínica do Benfica, algo fundamental na minha recuperação. Entretanto, nestas circunstâncias, tive de me adaptar. Hoje em dia, a minha recuperação está dependente de videochamadas e chamadas com o médico e o fisioterapeuta, do meu esforço e dedicação para chegar ao objectivo final – voltar a praticar desporto e continuar como atleta de andebol!
Mantenho-me ocupada com o que me deixa satisfeita. Continuo a ter aulas universitárias (online!), a ter contacto com as pessoas mais próximas de mim e com as minhas colegas de equipa. Esta é uma nova realidade para mim, e certamente para os que leem este artigo, e é assim que deve ser! 
Aproveito também para apelar ao bom senso das pessoas e à responsabilização social que cada um de nós deve ter. Para os que continuam a exercer o seu trabalho de forma a garantir que continuemos a ter acesso a bens de primeira necessidade e cuidados de saúde, um especial obrigado!
Unidos, iremos superar esta pandemia!
Vai ficar tudo bem.

Patrícia Rodrigues"

Benfica de Quarentena #27 - Jean Jaques

A pirataria, que “chatice”, afinal!

"Campeia a depressão colectiva, e com boas razões (e a procissão ainda vai no adro), pelo que devemos contribuir, podendo, para realçar aspectos positivos destes tempos amargos e sombrios. Pois bem, cá vai o meu contributo de hoje, oferecendo-me desde já para colocar a minha assinatura no abaixo-assinado, petição ou o que queiram fazer. Talvez depois de, porventura, lerem o que se segue, não a queiram, mas aqui fica a oferta, e é de boa-fé.

Parece que há muita pirataria de jornais e revistas, e as gentes da comunicação social insurgiram-se. E têm toda a razão, pois trata-se de uma clara violação dos direitos de autor. Não é ético, é crime, e é até uma ameaça à sustentabilidade financeira das empresas, à informação livre e independente, e pode colocar em causa postos de trabalho. Pois é. Indiscutível. Eu vou ao posto de venda – como, aliás, vou trabalhar fora de casa sempre que é mesmo necessário, embora com os devidos cuidados, e seguindo as recomendações razoáveis, claro, da mesma forma que o faço quanto ao supermercado ou à farmácia, et cetera, embora os “devidos cuidados” ainda não me tenham dado para o afastamento de quatro metros ou mais nas filas ou para os maus modos e a hostilidade que vão crescendo por aí à medida que os dias passam. Também ainda não me atirei para debaixo do sofá, seja a espreitar a televisão, seja depois de a espreitar.
Faço o que posso, e também me juntarei, com gosto, aos reclamantes contra a pirataria. Até porque eu já descobri há muito tempo, não foi só agora, que a pirataria é, afinal, uma grande “chatice”. Pois é. Há quem só descubra quando lhe toca. Quando toca aos outros, e até põe em causa coisas bem mais graves do que os direitos de autor, a pirataria ou lhe é indiferente (não a todos, é verdade) ou até acha bem, e alguns (não todos, justiça se faça), não resistindo, consomem e dão a consumir. Aí, a ética, o crime, a sustentabilidade, os direitos dos outros, et cetera, ficam postos de lado ou acomodados debaixo do tapete. Mas agora, Deus meu, agora dói que se farta. Ah, dir-me-ão, mas noutros casos há que louvar ou, pelo menos, consumir e “traficar” a pirataria (até mesmo quando se lhe junta a truncagem, a adulteração e/ou até a invenção) porque estão em causa valores mais altos.
Ah é?! Eu digo que não, e digo que não por uma razão de princípio, que é aquele ensinamento básico e quase universal de que, em regra, os fins não justificam os meios, e também por uma razão a benefício dos que agora reclamam (e bem, repito): é que daqui a uns tempos, quando meio mundo estiver totalmente à míngua e não tiver meios para sequer comprar no posto de venda ou para a assinatura digital ou por correio, os fins do acesso à informação não justificarão os meios? Se calhar. Estão a ver onde nos leva a lógica dos fins acima de tudo, e também onde conduz a hipocrisia (por ação ou por omissão)? Dói, eu sei. Desagrada, eu sei. Mas é mesmo assim. Ponto."

Um tributo a Roberto Severo e a todos os outros “não sei quem a caminho do Real Madrid”. Estamos juntos

"Ruas desertas. Filas indianas e obedientes à porta dos supermercados (só falta um árbitro munido de spray para marcar a distância regulamentar). Milhões de desempregados ou lay-officializados em todo o mundo, aviões em doca seca, autocarros da Carris cheios de lugares vazios a cruzar a cidade como fantasmas rodoviários, turismo de massas com atum, surto de padeiros domésticos em furiosas experimentações, massa-mater dolorosa, cruzeiros tomados pela peste a navegar nas águas territoriais do desconhecido, um louco bolsobravo a jurar que é só uma gripezinha e que, seja como for, o brasileiro não pega nada, tráfico de ventiladores, morcegais maldições, negócios da China, curvas exponenciais, achatamentos, tabelas de mortos em vez de índices dow-jones, curas cubanas, serenatas à varanda, clubes riquíssimos a reduzir custos e, no meio de tantas novidades, surpresas e temor, há coisas que não mudam: lá está o Rodrigo Guedes de Carvalho a apresentar o noticiário, a RTP insiste no Preço Certo para que os grupos de risco, sem sino da aldeia que lhes valha, não se percam no tempo, e, no mundo do futebol, ainda há alguém, há sempre alguém, a caminho do Real Madrid.
Não tenham dúvidas. Quando, neste mundo que julgávamos dominar, não sobrarem mais do que uns milhões de baratas, vírus protegidos por uma fina camada de gordura e os pangolins voltarem a passear pelas ruas de Wuhan, é certo e sabido que uma dessas baratas, um único e coroado vírus ou um atónito pangolim estará a caminho do Real Madrid. Quando as repartições fecharem e os porcos pedalarem livres e as vacas voarem, haverá ainda um funcionário zeloso num gabinete subterrâneo do Santiago Bernabéu a atender a chamada de um agente em teletrabalho e a ultimar os pormenores de uma transferência que “poderá ser confirmada a qualquer momento”.
Cientistas unem esforços para desenvolver uma vacina e, enquanto isso, no gigante espanhol, há quem se dedique à humanitária tarefa de resgatar Luís Maximiano da baliza leonina, preparando uma oferta estrondosa em máscaras, gel desinfetante e paracetamol.
Pois é, meus amigos, podem os jogadores distrair-se a dar toques em rolos de papel higiénico ou, como o defesa do Manchester City, Kyle Walker, mitigar a solidão com acompanhantes que servem ao domicílio, que na linha da frente do futebol estarão sempre esses soldados desconhecidos que encaminham futebolistas para o Real Madrid. Ninguém sabe quando é que os campeonatos recomeçarão, quem serão os campeões, que competições europeias teremos na próxima temporada. Só sabemos que não sei quem está a caminho do Real Madrid.
Como não recordar Roberto Severo, a.k.a. Beto, central-símbolo do Sporting e protagonista da maior não-transferência, ou quase-transferência, de sempre? Todas as noites de todos os defesos, Beto adormecia vestido de branco e, no dia seguinte, lá acordava de leão ao peito.
De todos os jogadores que nunca jogaram no Real Madrid, Beto foi o que mais não-jogou. Foram épocas espectrais, de quase jogos e quase títulos, em que no lugar que deveria ser o de Beto víamos usurpadores como o vetusto Sanchís, o eterno Hierro ou até aquele perna-de-pau chamado Woodgate. Beto está para o futebol como Peter O’Toole estava para o cinema. O actor irlandês teve oito nomeações e nunca ganhou o Óscar, até que, por caridade ou cansaço, lhe atribuíram um Óscar honorário. Beto merecia uma camisola honorária do Real Madrid. 
E enquanto escrevia isto, aparece-me a entrevista de Carlos Secretário à Tribuna, magnífica entrevista. E não é que Secretário vestiu mesmo a camisola do Real Madrid? Mais. Toda uma carreira foi reduzida praticamente a essa passagem desastrosa pelos merengues.
Eu lembrava-me disso – e do que, na altura, nos rimos com a transferência – e daquela assistência para Acosta num Sporting-Porto que quase entregou o título aos leões (quem é que era um dos defesas-centrais do Sporting nesse jogo? Beto.) e nem sabia que, no dia em que Secretário se estreou pela seleção nacional, num jogo contra o Liechtenstein, eu estava lá no Estádio da Luz, com um grupo de amigo debaixo de uma chuva torrencial a aproveitar o desconto do Cartão Jovem. E o que a entrevista fez, e bem, foi lembrar-nos, a todos nós, que no peito de um jogador desafinado também bate um coração, atrás de um atleta que se tornou uma espécie de anedota nacional há um homem e há sombras e negrume.
Secretário, tantas vezes lembrado como o infeliz sortudo que um dia, sem que soubéssemos como, se viu a caminho do Real Madrid, teve a coragem de falar desses tempos negros, do demónio do meio-dia a que chamamos depressão e, de repente, todas as piadas, todas as situações caricatas, as declarações deselegantes de Capello (diz que Secretário treinava bem, mas que antes dos jogos se borrava), soam a uma maldade gratuita de quem facilmente se esquece que somos frágeis, todos nós, que por trás do biombo da fama há uma pessoa e que essa pessoa pode sofrer enquanto nós nos rimos no sofá.
Foi tragicómica a passagem dele pelo Real Madrid? Foi. E então? Para ele, a vida continuou. Com altos e baixos aprendeu o suficiente para, já no fim da entrevista, dizer isto: “permitam-me, antes de mais questionar-vos: antes de se tornarem profissionais, seja de que área for, perguntaram-se qual foi o vosso principal papel quando nasceram?
Pois eu lembro-me, todos os dias, foi o de filho. E antes de ser jogador de futebol, um atleta de alta performance, porque a profissão assim me obrigou, fui filho, fui uma criança como qualquer um de vocês.” Sim, há sempre um não sei quem a caminho do Real Madrid, e isso tem graça. Mas esse não sei quem é, antes de tudo, filho de alguém. Esta entrevista de Secretário foi a melhor exibição que lhe vi fazer com a camisola do Real Madrid. Perdão, com a camisola de ser humano."

SAD ou Sociedade Antagónica Desportiva?


"Se queremos manter as SAD como parte integrante do tecido empresarial nacional, são necessários mais mecanismos de apoio que salvaguardem a sua sustentabilidade.

Por força do isolamento social imposto por vários países europeus, o mundo do desporto e as suas actividades e eventos continuam suspensos. Como consequência disso, treinadores e jogadores – os designados trabalhadores com contrato de trabalho desportivo – estão impedidos de prestar a sua actividade e as Sociedade Anónima Desportiva (SAD) (os empregadores) começam a ressentir-se desta paragem dos campeonatos e a sofrer as consequências que isso acarreta a nível económico e financeiro, nomeadamente no que respeita ao pagamento de salários.
Pergunta-se então: como podem os dirigentes das SAD salvaguardar os interesses das sociedades que representam e dos seus investidores, em paralelo com os interesses dos trabalhadores, credores e demais stakeholders das SAD?
Para começo de resposta, socorremo-nos do velhinho e já estudado à exaustão número 1 do artigo 64.º do Código das Sociedades Comerciais, que refere que os gestores ou administradores das sociedades comerciais (e, portanto, também os das SAD) devem observar “b) deveres de lealdade, no interesse da sociedade, atendendo aos interesses de longo prazo dos sócios e ponderando os interesses dos outros sujeitos relevantes para a sustentabilidade da sociedade, tais como os seus trabalhadores, clientes e credores”.
Em tempos que apelidamos “de normalidade”, nas Sociedades Comerciais, assim como nas Sociedades Desportivas, em concreto, assistimos por via de regra a uma simbiose entre os diversos interesses em presença: os interesses dos trabalhadores são, geralmente, paralelos ou mais ou menos coincidentes com os interesses dos accionistas e dos demais agentes económicos envolvidos, sejam eles fornecedores ou credores bancários. Na verdade, em circunstâncias normais, todos beneficiam e dependem do exercício da actividade de cada um para que a Sociedade cumpra o seu objectivo e se constitua como verdadeiro motor da economia do país.
Isto é assim, como se disse, em tempos “de normalidade”; perante uma situação como a presente, de pandemia do Covid-19, os interesses individuais dos trabalhadores – desde logo, a protecção da sua saúde, a par com a protecção dos seus rendimentos, mesmo estando impedidos de desempenhar a sua atividade – são antagónicos com os interesses da sociedade, dos investidores e dos credores. Por isso, se a SAD deixar de realizar o pagamento dos salários, terá tal atitude respaldo na protecção do interesse da Sociedade? E se, pelo contrário, a SAD utilizar a tesouraria disponível para pagar aos seus trabalhadores, um eventual incumprimento dos seus deveres perante os credores bancários será justificável pela defesa dos interesses próprios dos trabalhadores? Todas estas perguntas, até agora analisadas pela doutrina de um ponto de vista meramente teórico, são hoje colocadas na prática nas SAD e no conjunto imenso de Sociedades comerciais que, por força das restrições governamentais, viram a sua actividade – e, consequentemente, os seus rendimentos – drasticamente reduzidos. Seja qual for a resposta, uma coisa é certa: se queremos manter as SAD como parte integrante do tecido empresarial nacional, são necessários mais mecanismos de apoio que salvaguardem a sua sustentabilidade e que, no limite, garantam a sobrevivência do desporto como o conhecemos. 
Enquanto tais mecanismos não são uma realidade, é reconfortante observar as várias demonstrações de solidariedade que vão muito além daquilo que a legislação assegura e que esperamos sejam replicados no universo desportivo português. Desde logo, a iniciativa levada a cabo pelos quatro maiores clubes alemães (que, por serem financeiramente mais poderosos)que se comprometeram a doar 20 milhões de euros aos clubes mais afectados pelo surto; por outro lado, a atitude exemplar de Cristiano Ronaldo, que abdicou de receber parte do seu salário (cerca de 11 milhões de euros), que foi canalizado para o pagamento dos salários dos funcionários do seu clube Juventus. Haja idêntico espírito solidário e empático por cá, em sintonia com todas as manifestações de grandeza de espírito e de abnegação a que temos assistido nas últimas semanas."

Benfiquismo (MCDXCIV)

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