Últimas indefectivações

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Lixívia 20

Tabela Anti-Lixívia
Benfica .. 47 (-4) = 51
Corruptos.. 49 (+3) = 46 (-1)
Sporting . 50 (+9) = 41

Jornada estranhamente isenta de erros graves nos jogos com os 'grandes'!!!
Inacreditável a decisão do VAR (Malheiro) no Boavista - Marítimo, ao não 'inverter' a decisão do árbitro de campo (Esteves), permitindo assim ao Boavista, beneficiar de um penalty claramente inexistente!!!

O Paixão em Belém esteve razoável, nas duas principais decisões esteve bem: penalty sobre o Cervi, marcou...; no lance do Almeida não marcou...! Bem, nas duas decisões, que o VAR confirmou...
Erros, nas faltas a meio-campo, e no critério disciplinar 'manso' a meio-campo... O empurrão no livre que dá o golo do Benfica é evidente!
Também esteve bem nos minutos de desconto: se os 5 minutos até foram 'curtos' para o anti-jogo dos Pastéis, depois com a actuação do VAR já nos descontos, soube compensar...!!!

Os Corruptos, não gostam de perder pontos, então com golos bem anulados nos últimos segundos da compensação, ainda ficam mais aziados!!!
Com dois adeptos Corruptos a 'tomarem' conta da partida (Luís Ferreira e Manuel Oliveira) estava à espera de muito pior... Mesmo assim, alguns erros, que acabaram por não influenciar o resultado final...
O 1.ª amarelo ao Fofona é num lance onde não existe falta; no livre lateral, que origina o 'saída' atrapalhada do guarda-redes do Moreirense, onde os Corruptos 'pedem' penalty, não houve falta; no falhanço escandaloso do Brahimi, o lance devia ter sido invalidado, já que o jogador dos Corruptos, que marcou a falta, fez 'transporte' de bola!!!

No Alvalixo, mais uma dupla totalmente Lagarta (Godinho: 4+1, Macron: 1+3), dois dos tais quatro árbitros (Tiago Martins: 2+5; Xistra: 3+2), que estão presentes, em mais de 50% das nomeações para os jogos do Sporting!!!
Não houve lances 'graves', mas a condução do jogo foi do mais nojento possível! Praticamente não foram marcadas faltas contra o Sporting... com mais um jogo sem cartões para os Lagartos, depois de várias faltas merecedoras!!!



Anexos:
Benfica
1.ª-Braga(c), V(3-1), Xistra (Verissímo), Prejudicados, (4-1), Sem influência no resultado
2.ª-Chaves(f), V(0-1), Sousa (Tiago Martins), Prejudicados, (0-3), Sem influência no resultado
3.ª-Belenenses(c), V(5-0), Rui Costa (Vasco Santos), Beneficiados, Sem influência no resultado
4.ª-Rio Ave(f), E(1-1), Hugo Miguel (Veríssimo), Prejudicados, Impossível contabilizar
5.ª-Portimonense(c), V(2-1), Gonçalo Martins (Veríssimo), Prejudicados, (4-0), Sem influência no resultado
6.ª-Boavista(f), D(2-1), Soares Dias (Esteves), Beneficiados, Prejudicados, Impossível contabilizar
7.ª-Paços de Ferreira(c), V(2-0), Xistra (Hugo Miguel), Nada a assinalar
8.ª-Marítimo(f), E(1-1), Sousa (Godinho), Prejudicados, (1-2), (-2 pontos)
9.ª-Aves(f), V(1-3), Almeida (Vítor Ferreira), Beneficiados, Prejudicados, Sem influência no resultado
10.ª-Feirense(c), V(1-0), Godinho (Xistra), Prejudicados, (2-0), Sem influência no resultado
11.ª-Guimarães(f), V(1-3), Soares Dias (Malheiro), Prejudicados, (1-4), Sem influência no resultado
12.ª-Setúbal(c), V(6-0), Godinho (Pinheiro), Prejudicados, Beneficiados, (8-0), Sem influência no resultado
13.ª-Corruptos(f), E(0-0), Sousa (Hugo Miguel), Prejudicados, Beneficiados, Impossível contabilizar
14.ª-Estoril(c), V(3-1), Pinheiro (Manuel Oliveira), Beneficiados, Sem influência no resultado
15.ª-Tondela(f), V(1-5), Tiago Martins (Malheiro), Nada a assinalar
16.ª-Sporting(c) E(1-1), Hugo Miguel (Tiago Martins), Prejudicados, (5-0), (-2 pontos)
17.ª-Moreirense(f), V(0-2), Mota (Godinho), Nada a assinalar
18.ª-Braga(f), V(1-3), Soares Dias (Godinho), Prejudicados, (1-4), Sem influência no resultado
19.ª-Chaves(c), V(3-0), Esteves (Vasco Santos), Prejudicados, (5-0), Sem influência no resultado
20.ª-Belenenses(f), E(1-1), Paixão (Rui Oliveira), Nada a assinalar

Sporting
1.ª-Aves(f), V(0-2), Tiago Martins (Pinheiro), Nada a assinalar
2.ª-Setúbal(c), V(1-0), Paixão (Hugo Miguel), Beneficiados, (0-0), (+2 pontos)
3.ª-Guimarães(f), V(0-5), Hugo Miguel (Sousa), Nada a assinalar
4.ª-Estoril(c), V(2-1), Godinho (Tiago Martins), Beneficiados, Impossível contabilizar
5.ª-Feirense(f), V(2-3), Soares Dias (Tiago Martins), Nada a assinalar
6.ª-Tondela(c), V(2-0), Manuel Oliveira (Tiago Martins), Nada a assinalar
7.ª-Moreirense(f), E(1-1), Godinho (Pinheiro), Beneficiados, (2-0), (+1 ponto)
8.ª-Corruptos(c), E(0-0), Xistra (Hugo Miguel), Nada a assinalar
9.ª-Chaves(c), V(5-1), Rui Costa (Esteves), Beneficiados, Prejudicados (5-2), Sem influência no resultado
10.ª-Rio Ave(f), V(0-1), Sousa (Capela), Beneficiados, (0-0), (+2 pontos)
11.ª-Braga(c), E(2-2), Xistra (Rui Costa), Beneficiados, (1-4), (+1 ponto)
12.ª-Paços de Ferreira(f), V(1-2), Tiago Martins (Xistra), Beneficiados, (1-1), (+2 pontos)
13.ª-Belenenses(c), V(1-0), Almeida (Godinho), Nada a assinalar
14.ª-Boavista(f), V(1-3), Godinho (Vasco Santos), Nada a assinalar
15.ª-Portimonense(c), V(2-0), Capela (Xistra), Nada a assinalar
16.ª-Benfica(f), E(1-1), Hugo Miguel (Tiago Martins), Beneficiados, (5-0), (+ 1 ponto)
17ª-Marítimo(c), V(5-0), Xistra (Esteves), Nada a assinalar
18.ª-Aves(c), V(3-0), Pinheiro (Sousa), Beneficiados, (2-1), Impossível contabilizar
19.ª-Setúbal(f), E(1-1), Veríssimo (António Nobre), Beneficiados, Sem influência no resultado
20.ª-Guimarães(c), V(1-0), Godinho (Hugo Miguel), Nada a assinalar

Corruptos
1.ª-Estoril(c), V(4-0), Hugo Miguel (Luís Ferreira), Nada a assinalar
2.ª-Tondela(f), V(0-1), Veríssimo (Malheiro), Beneficiados, Impossível contabilizar
3.ª-Moreirense(c), V(3-0), Manuel Oliveira (Tiago Martins), Prejudicados, Beneficiados, Sem influência no resultado
4.ª-Braga(f), V(0-1), Xistra (Esteves), Beneficiados, Impossível contabilizar
5.ª-Chaves(c), V(3-0), Rui Oliveira (Hugo Miguel), Nada a assinalar
6.ª-Rio Ave(f), V(1-2), Sousa (Godinho), Nada a assinalar
7.ª-Portimonense(c), V(5-2), Luís Ferreira (Sousa), Nada a assinalar
8.ª-Sporting(f), E(0-0), Xistra (Hugo Miguel), Nada a assinalar
9.ª-Paços de Ferreira(c), V(6-1), Manuel Oliveira (Veríssimo), Beneficiados, (5-1), Sem influencia no resultado
10.ª-Boavista(f), V(0-3), Hugo Miguel (Tiago Martins), Nada a assinalar
11.ª-Belenenses(c), V(2-0), Veríssimo (Luís Ferreira), Beneficiados, (0-2), (+3 pontos)
12.ª-Aves(f), E(1-1), Rui Costa (Esteves), Nada a assinalar
13.ª-Benfica(c), E(1-1), Sousa (Hugo Miguel), Beneficiados, Prejudicados, Impossível contabilizar
14.ª-Setúbal(f), V(0-5), Tiago Martins (Rui Oliveira), Beneficiados, (0-3), Impossível contabilizar
15.ª-Marítimo(c), V(3-1), Mota (António Nobre), Nada a assinalar
16.ª-Feirense(f), V(1-2), Veríssimo (Paixão), Beneficiados, Prejudicados, Impossível contabilizar
17.ª-Guimarães(c), V(4-2), Soares Dias (António Nobre), Prejudicados, Beneficiados, (4-2), Impossível contabilizar
19.ª-Tondela(c), V(1-0), Godinho (Soares Dias), Beneficiados, Prejudicados, (2-0), Impossível contabilizar
20.ª-Moreirense(f), E(0-0), Luís Ferreira (Manuel Oliveira), Nada a assinalar

Jornadas anteriores:
Épocas anteriores:
2016-2017
2015-2016

Pilhado... Luz!

Alvorada... do Martins

O arquivamento que se exigia

"O Sport Lisboa e Benfica regista com natural satisfação o arquivamento por parte do Ministério Público do inquérito que envolvia o Senhor Ministro das Finanças, Mário Centeno, e o Sport Lisboa e Benfica.
Em causa estava a absurda suspeita de crime de obtenção de vantagem indevida como contrapartida pela concessão de uma isenção de IMI ao filho do Presidente do Sport Lisboa e Benfica, Luís Filipe Vieira.
Realce-se que ficou provado a adequação social e política dessa isenção dentro do que está determinado pela lei.
O Sport Lisboa e Benfica reitera a sua indignação pelas constantes suspeitas públicas levantadas tendo por base meras especulações sem qualquer fundamento de facto ou de direito."

A sentença antes do julgamento

"Os arguidos não são acusados e os acusados não são culpados. Num dia como o de ontem em que ao final da manhã as redacções foram inundadas com notícias de buscas, detenções e acusações existe o risco facilitista de julgar tudo pela mesma bitola.
A dificuldade da justiça comunicar, reconhecida pela investigadora Conceição Gomes, não a inibe de avisar jornalistas para estarem à porta dos arguidos, mesmo antes de se iniciarem as buscas. O espectáculo mediático não ajuda a informar e, nas redes sociais, os comentários são servidos em forma de sentença.
Vários casos no mesmo dia não sustentam a conversa de café, segundo a qual vivemos num país de criminosos. Os três casos de ontem não têm, aliás, nada em comum. Acusação de peculato, suspeita de tráfico de influência e corrupção e roubo de cheques da Segurança Social.
A Polícia Judiciária e o Ministério Público cumprem o seu papel, mas entre uma rede organizada que roubou cheques no valor de 300 mil euros e um ex-secretário de Estado que é acusado de ter usado indevidamente 400 euros para comprar livros e revistas vai uma distância quase infinita. Sendo que, por ser quem é, o ex-governante interessa muito mais ao espectáculo. Tendo ao lado um ex-colega de governo acusado do mesmo mas no valor de 14 mil euros.
Ainda mais difícil de entender é a implicação de Filipe Vieira num dos casos. Foi preciso esperar horas para o Benfica negar que o seu presidente tivesse sido constituído arguido. Há um dirigente desportivo arguido, mas do Ministério Público nem ai nem ui perante as notícias de que é o presidente encarnado. Em que ficamos? Ficamos numa justiça a decorrer na praça pública e que, muitas vezes, parece não se preocupar com a verdade dos factos."

O partido justicialista

"Em 1946, Juan Domingo Perón criou na Argentina o Partido Justicialista, resultante da fusão de dois partidos. Mais tarde, este movimento político ficou conhecido como peronismo, devido à importância que o seu fundador conquistou na Argentina.

Este intróito serve apenas para capturar a nomenclatura partido justicialista e trazê-la como suporte para analisar a realidade portuguesa, profundamente marcada pela actividade judicial. Seja ela a investigação a Mário Centeno, por causa de ter pedido dois bilhetes para o clássico Benfica-Porto, seja a Operação Lex, que já constituiu arguidos o juiz Rui Rangel e o presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, seja o julgamento que resultou da Operação Fizz, ou ainda a acusação de dois secretários de Estado do Governo de José Sócrates, José Magalhães e José Conde Rodrigues, pelo crime de peculato pelo uso indevido de cartões de crédito.
Mas há mais. O chamado caso dos CMEC, que transformou em arguidos o CEO da EDP, António Mexia, e o ex-presidente da REN,_Rui Cartaxo, sem esquecer o caso BES e ainda a Operação Marquês, em que o principal visado é José Sócrates.
Há ainda o caso dos vistos "gold", envolvendo o ex-ministro do PSD Miguel Macedo, que já está em julgamento, ou das viagens ao_Europeu de França, pagas pela Galp, que conduziram à demissão de três governantes: Jorge Costa Oliveira, Fernando Rocha Andrade e João Vasconcelos.
Perante esta catadupa de investigações, umas absolutamente relevantes, outras mais questionáveis, a percepção dominante é a de que o ímpeto justicialista tomou conta do país. O problema de fundo não é do ímpeto em si, mas a forma como a actividade judicial tomou conta da praça pública, o que pode também fazer perigar a sua eficácia. O julgamento dos envolvidos começa muito antes de os casos chegarem à barra dos tribunais e as sentenças produzidas pela opinião pública ganham uma natureza irreversível.
A justiça transformou-se num partido, na medida em que uns defendem a sua acção, outros criticam-na, e pelo meio há quem a avalie casuisticamente. Na balança dos três poderes: o executivo, o legislativo e o judicial, este último desequilibra os pratos a seu favor. O putativo segredo de justiça encarrega-se de caldear todos os ingredientes. Porque mesmo antes dos factos já há culpados e não há memória de que algum agente da justiça tenha sido punido pela violação do referido segredo.
Os casos merecem ser investigados? Claro que sim. Os arguidos, deduzidas as acusações, devem ser julgados? Naturalmente. E mereceriam que a justiça lhes desse outro tratamento? Sem dúvida. O ponto é precisamente este. Será que a forma como a investigação se desenvolve é a mais adequada para a obtenção de resultados, sejam eles a condenação ou a absolvição? É na resposta a esta pergunta que se encontra a fronteira entre uma justiça efectiva e o justicialismo."

As duas faces do Estado de direito

"As buscas efectuadas pela Polícia Judiciária no Ministério das Finanças, no inquérito aberto pelo Ministério Público a propósito dos dois convites oferecidos ao ministro das Finanças para assistir a um jogo de futebol na tribuna presidencial do Benfica, mereceram uma proposta do líder parlamentar do Partido Popular Europeu para que o caso fosse debatido no Parlamento Europeu.
Chegámos a esse ponto.
Quando a polémica surgiu, pensei que o assunto morreria pelo ridículo. Não imaginei que alguém no Ministério Público considerasse o facto idóneo para iniciar uma investigação criminal.
Houve tempo em que o Código Penal definia com rigor a descrição dos factos puníveis criminalmente, para evitar que, numa matéria que implica com direitos fundamentais das pessoas, houvesse grande margem para interpretações subjectivas dos magistrados a quem compete a aplicação do direito.
Mas esse tempo já não é o nosso. Os legisladores do poder político, embalados pela demagogia e o populismo, foram incluindo no Código Penal novos crimes ou novas formulações de crimes já previstos, com definições imprecisas, escancarando a porta a interpretações que favorecem a discricionariedade ou mesmo a arbitrariedade.
Um dos exemplos desta deriva é a punição de funcionário que receba "vantagem patrimonial ou não patrimonial" para "um qualquer ato ou omissão aos deveres do cargo".
Nesta moldura tão vaga, cabe tudo o que alguém de má fé ou simplesmente impreparado quiser lá meter
 Alguém com um mínimo de inteligência e conhecimento das realidades acha que o ministro das Finanças recebeu dois convites para um jogo de futebol como compensação da prática ou omissão de um ato contrário aos deveres do seu cargo?
Pois alguém no MP achou isto plausível e abriu um inquérito criminal em que o ministro é visado. Ministro que chegou à presidência do Eurogrupo e agora se vê constrangido ao ponto de o líder do poderoso Partido Popular Europeu considerar dever o assunto ser debatido no plenário do Parlamento.
António Costa está agora a tomar o veneno da receita que defendeu ao ser um dos protagonistas da alteração ao Código Penal que agora querem aplicar a um seu ministro.
Os efeitos desta "ligeireza" com que se abrem inquéritos, se fazem buscas e outras diligências que afectam seriamente direitos individuais, com a cumplicidade dos meios de comunicação sempre muito bem informados do que se passa em processos em segredo de justiça, é a degradação contínua da imagem dos políticos e outras pessoas com notoriedade, exacerbando as pulsões populistas, como escreveu ontem Manuel Carvalho, num lúcido e certeiro artigo publicado no Público
Esta degradação não vai terminar bem. Os exemplos do que está a passar-se na Polónia, na Hungria e na Turquia, em que o poder político põe em causa a liberdade e a autonomia dos media e do sistema judicial, deveriam fazer-nos reflectir sobre os efeitos desta deriva.
É que não são apenas medidas que afectam a liberdade de imprensa e a separação de poderes que atentam contra o Estado de direito.
Também as ofensas aos direitos fundamentais das pessoas, pelo mau funcionamento desses poderes, constituem atentados contra o Estado de direito."

A indústria da desconfiança contra a democracia

"Como tudo o que é grande, a democracia representativa tem dentro de si própria as suas mais graves ameaças. As democracias podem ser agredidas do exterior, mas aquilo que as mata cresce dentro de si até à implosão. Dois estudos publicados nos últimos dias ajudam a perceber melhor o tema desta crónica. O primeiro deles é o "2018 Edelman Trust Barometer", e pode ser descarregado em linha. Como diz o título, este estudo anual, já na 18.ª edição, analisa e quantifica (numa escala de 0-100) o sentimento de confiança dos cidadãos em 28 países diferentes. Confiança em relação ao sistema político, à comunicação social, às ONG, serviços, etc. Alguns dos resultados, mesmo que não completamente inesperados, fazem pensar. Apesar do actual surto de crescimento económico mundial, só quatro dos 28 países se encontram numa "zona de confiança" (60-100). De entre os 20 países na "zona de desconfiança" (1-49), destacam-se oito dos nove países da União Europeia que entram no estudo (só a Holanda está na "zona neutra", com 54 pontos). Os EUA são o caso de perda de confiança mais notável, tendo caído nove pontos apenas num ano (de 52 para 43). A confiança viajou toda para Leste, para a China, Indonésia e Índia. Estes estudos medem percepções e sentimentos. Reflectem com mais rigor tendências do que realidades objectivas.
Duas conclusões provisórias podem ser retiradas: os europeus estão desconfiados e desanimados (dos 38 pontos da Irlanda aos 47 da Espanha). Se na Ásia a tendência é melhor do que o estado actual, na Europa ocorre o contrário. A desconfiança acentuada na Europa já não se explica no espelho da economia. Ela mergulha num pessimismo com raízes mais profundas e complexas. E isso é preocupante, pois a UE só poderá evitar a desintegração na próxima década se efectuar reformas e partilhar soberania. Ora, a desconfiança reinante está nos antípodas da visão, coragem e solidariedade que são necessárias para realizarmos e aprofundarmos um destino comum.
A segunda conclusão prende-se com os efeitos desastrosos e mensuráveis da presidência Trump. Como já escrevi há um ano nesta página, Trump acabará por dividir os EUA de um modo tão brutal como em 1860, antes da Guerra Civil. A desconfiança e o pessimismo dos norte-americanos com a política, contudo, não é um acidente natural, mas sim o resultado de um lento processo de erosão democrática.
E é aqui que importa chamar a atenção para o luminoso contributo prestado pelo economista George R. Tyler, no seu recentíssimo livro A Democracia Bilionária. O Rapto do Sistema Político Americano (BenBella Books). Com a autoridade de uma copiosa documentação, Tyler demonstra o que já o filósofo John Rawls denunciava há 20 anos: o Congresso tornou-se uma casa de leilões onde as leis são compradas e vendidas de acordo com o princípio "pagar para jogar" (pay-to-play). A "reforma fiscal" de Trump, retirando aos pobres para dar aos ricos, limita-se a acentuar uma tendência de décadas. Se hoje o inquilino da Casa Branca é uma espécie de Joker, muito antes disso o Congresso habituou-se à figura do "deputado-mercenário", raptado pelos subornos milionários dos super-ricos. 
A transformação da democracia em plutocracia mobiliza uma poderosa indústria de mentira geradora de desconfiança, visando manipular e intoxicar a vida pública. O soez ataque de carácter a Mário Centeno, caluniando o mais relevante político português no actual quadro europeu como alguém que se vende por um prato de lentilhas, talvez não seja só iniquidade espontânea. Talvez seja maldade industrial."

O dilema da justiça

"Vários desafios se colocam à justiça portuguesa: ser competente é o maior. Portugal, se esse for o caso, agradecerá. De outra forma ninguém mais a levará sério.

Zorro, uma personagem de ficção, era o disfarce de Don Diego de la Vega para dar voz aos fracos e oprimidos numa Califórnia sem lei. Zorro, com a sua espada e capa negra, fingia acobardar-se perante os poderosos quando não tinha a máscara. Mas, na realidade, era sagaz como uma raposa (daí "zorro"). A justiça portuguesa, depois de anos sem fim em que pareceu dormir uma longa sesta, gerindo investigações sem fim e pondo em causa os seus próprios objectivos, parece agora querer mostrar que pode ser o Zorro dos oprimidos portugueses. Os processos mediáticos dos últimos dias, desde aquele que parece apontar para o há muito visível casamento de interesses entre o mundo da política, dos negócios e do futebol até aos anedóticos (o que pretende "queimar" Mário Centeno e o da investigação à compra de livros e revistas por ex-secretários de Estado de José Sócrates), têm diferentes pesos e medidas. Mas começam com um erro: a justiça, em vez de se comportar com decoro, está a querer fazer a festa, atirar os foguetes e apanhar as canas ao mesmo tempo. É um erro que pagará caro.
Há muito para investigar neste aparente país de "brandos costumes". E casos que cheiram há muito a esturro, desde a acção de "facilitadores" de negócios ao pouco transparente universo do futebol casado com a política. A desertificação moral do regime tem muito que ver com estes conluios que devem ser investigados ao pormenor. Talvez, depois de muitos anos a ser vista como carro-vassoura do regime, a justiça portuguesa esteja a soltar o seu grito de Ipiranga. Mas tudo tem de ser levado a sério. Para que os portugueses, no caso de falhanço de tantas investigações, não comecem a encarar tanto foguetório como uma versão de uma telenovela mexicana. É preciso seriedade e bom senso (e acusações bem formuladas) para que depois ninguém possa invocar cabalas e teorias da conspiração ou da constipação. Vários desafios se colocam à justiça portuguesa: ser competente é o maior. Portugal, se esse for o caso, agradecerá. De outra forma ninguém mais a levará sério."

Benfiquismo (DCCXXXV)

Outros tempos...

Lanças... Guerra sem quartel !!!

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Em frente na Europa...

Benfica 3 - 1 Steaua Bucareste
25-19, 19-25, 25-15, 28-26

Estamos nos Quartos-de-final, depois de um jogo complicado, contra um adversário complicado, muito forte no Serviço... Excelente a forma como fechámos o 4.º Set... mesmo com os apitadeiros a dificultarem!!!

Agora, contra o Ravenna não somos favoritos, mas em dois bons dias, nunca se sabe!!!

'Kronica' sem Krovinovic

"O Benfica deu meia parte de avanço, aspecto que me custa a aceitar num clube ganhador que ainda quer alcançar o pentacampeonato.

Oportunidade falhada
Escrevo antes de finalizada a soluçante 20.ª jornada do Campeonato, mas depois de o Benfica ter jogado o clássico no Restelo, esse ainda hoje admirável estádio de olhos no Tejo.
O empate foi o resultado justo. O Benfica deu meia-parte de avanço, aspecto que me custa a aceitar num clube ganhador que ainda quer alcançar o pentacampeonato. E o Belenenses com as suas armas foi uma equipa competente. Assim sendo, nem o título provisório se pôde passar para a liderança e colocar pressão nos opositores.
Dois pontos perdidos e, dependendo embora dos resultados dos concorrentes, o título fica bem mais difícil de alcançar.
Custa a perceber como se ganha em Braga com classe, se joga muito bem contra o D. Chaves e mais de uma semana depois de desbarata a qualidade que parecia estar relativamente consolidada.
Durante todos estes dias que precederem o encontro, só de falou de ausência de Krovinovic. Depois de jogo, percebe-se melhor por que razão a sua falta foi importante, ainda que não decisiva. O jovem croata vinha dando uma consistência ao meio-campo e a ser o elemento que faltava para um 4x3x3 sustentado e sustentável. Azarado no inicio, azarado agora, o tempo que jogou foi o suficiente para se impor e jogar na equipa como se lá estivesse há muito tempo. Não tenho dúvida que será um jogador crucial na próxima temporada, assim ele recupere da grave lesão que tem.
Não jogando o médio croata, logo se ressentiu Pizzi que voltou ao tom mais lento e previsível, bem longe da época transacta. Jonas deixa de ter o municiamento mais fluído e constante do meio-campo. Deu também para perceber que Zivkovic será o jogador preferencial para o substituir, não querendo com isto dizer que João Carvalho, mesmo actuando do lado esquerdo, não possa melhorar. Mas, uma coisa é falar-se de ajustamentos ad hoc, outra bem diferente é ter uma alternativa indiscutível entre as quatro delineadas por Rui Vitória.
Entretanto, terminando hoje o período de transferências invernais, até concordo que não haja aquisições só por haver, como muitas das que se fizeram no início da temporada. A excepção foi o já citado Krovinovic. Até ao momento em que escrevo, houve oportunas saídas sanitárias, não houve entradas e houve um movimento em que não houve nem entrada, nem saída de um tal sueco. Continua à vista o deficiente planeamento da época, agora culminando com a lesão do Krovinovic sem substituto à altura.
Sobre o jogo, uma nota final. No rescaldo da partida, o Belenenses foi beneficitário e vítima de duas situações típicas de pouco fair-play, infelizmente cada vez mais presentes no nosso futebol. A primeira, depois de uma interrupção por lesão (?) do seu guardião, ao retomar o jogo em vez de enviar a bola para o meio-campo do Benfica, como é leal, mandou-a para lançamento lateral do qual acaba por resultar o seu golo. A segunda, fingindo um pretenso penálti depois dos 90 minutos que suscitou a consulta ao VAR, o que, por sua vez, levou a que o jogo tivesse mais seis minutos em vez dos indicados cinco. É nesse minuto que Jonas aponta o golo do empate. Enfim, mais do mesmo deste costume transversalmente endémico feito de manhas, artimanhas, espertezas e truques...

Uma 2.ª Liga emocionante
A mais simplificadamente chamada 2.ª Divisão de futebol tem várias denominações - sem considerar o aposto comercial ou patrocinador - consoante os países: na Itália (e também no Brasil) é uma questão de letra: Serie B, a seguir à Série A. Em Espanha, chama-se La Liga 2 seguida por um terceiro escalão regional que, todavia, é a Segunda Divisão B. Na Inglaterra, atrás da Premier League está o Campeonato (Championiship). Em Alemanha e França é uma questão de número ordinal: continua a ser a Segunda Liga. Assim como em Portugal, com a particularidade de já ter sido Divisão de Honra (estranha denominação para quem era despromovido da 1.ª Divisão sem honra...) e ser seguida por um 3.º escalão ora denominado campeonato de Portugal (então as outras divisões são de que país?).
Ora, esta introdução de mera curiosidade, serve para constatar que a nossa 2.ª Liga é um exemplo de competitividade e renhido interesse. Este ano, como em épocas transactas. Basta atender ao seguinte facto (antes de realizada a última jornada que ainda decorre): entre o segundo dos lugares que dá acesso à divisão principal e o 10.º classificado distam apenas 5 pontos, pouco menos da distância a que este está da despromoção! A 2.ª equipa menos batida (22 golos) é a do Gil Vicente que ocupa um dos lugares que dariam origem à descida de divisão. A Académica que, agora, ocupa o 1.ª lugar de subida (na classificação está atrás do FC Porto B) tem, em 21 jogos, apenas 11 vitórias e 4 empates e 6 derrotas.
Sem duvida emocionante e com jogos bem mais interessantes do que muitos da 1.ª Divisão. Sigo com muita atenção este campeonato, onde muitas equipas com tradição no 1.º escalão têm possibilidades de este ano serem promovidas: Académica, Nacional, Covilhã, Leixões, Penafiel além de Académico de Viseu, Arouca, Santa Clara, Famalicão.
É pena que só subam dois clubes. Bem mereciam ser três, ou, pelo menos, dois e um terceiro disputando um finalíssima com o antepenúltimo da 1.ª Liga.

Escolhas
Neste virar de volta, fiz um exercício de escolha do trio 'melhor jogador - maior revelação - mais decepção' para os três principais clubes. Escolha obviamente subjectiva, até para... mim.
Assim:
Benfica: Jonas; Krovinovic; Filipe Augusto
FC Porto: Brahimi; Marega; Óliver
Sporting: Rui Patrício; Bruno Fernandes; Alan Ruiz
Fora dos 3 grandes despertaram-me atenção jogadores como Raphinha (Vitória de Guimarães), André Horta (Sp. Braga), Fábio Martins (SC Braga), Yuri Ribeiro (Rio Ave), Rúben Ribeiro (Rio Ave), Lucas Evangelista (Estoril), Pedro TIba (Chaves), Gonçalo Paciência (Vitória de Setúbal), João Carlos Teixeira (SC Braga), Cláudio Ramos (Tondela), Nakajima (Portimonense), Salvador Agra (D. das Aves) e outros que a memória finita não me permite aqui identificar. Curioso é que alguns dos que indico estão emprestados pelos maiores clubes ou já a eles regressaram ou irão regressar, neste caso gerando um enorme abalo em equipas com fracos recursos...

Contraluz
- Aniversário: na segunda-feira A Bola fez 73 anos...
... um pouco mais velha do que eu e que sempre me tem acompanhado. Menino e moço, com o jornal tomei o gosto pela leitura e o prazer pelo ecletismo desportivo. Curiosamente, um aniversário no mesmo dia da minha neta Joana, benfiquista até à medula, com os seus sonhadores 15 anos.
- Taça da Liga I: nada tenho contra a Final Four da Taça da Liga em Braga.
Mas prolongar esta decisão mais uns anos, parece-me exagerado e injusto. Afinal, há 3 estádios completamente neutros (Algarve, Leiria e Aveiro) e um potencialmente neutro (Coimbra). E, falando em estádios de clubes que podem chegar à fase final, há Guimarães e Funchal, pelo menos...
- Taça da Liga II: a 1.ª vitória do Sporting e a 6.ª de Jesus (5 pelo Benfica).
Na Final Four só o Vitória marcou de bola corrida. De resto, FCP, SCP e Oliveirense não marcaram. E houve ao todo 23 penálties. Curioso é o facto de nos 5 jogos da competição o vencedor da Taça só ter ganho um jogo (2.ª jornada ao União da Madeira) e ter tido 4 empates (Marítimo, Belenenses, Porto e Setúbal). Até me fez lembrar a selecção portuguesa campeã da Europa...
- Porta giratória: Rakip
Médio Sueco que terá vindo a Lisboa assinar pelo londrino Crystal Palace. Até posso tentar perceber o movimento, mas para que é que temos uma equipa B?
- Arbitragem: em Barcelona.
Os catalães viraram o resultado desfavorável contra o Alavés, perto do fim, com a ajuda categórica do árbitro: um fora-de-jogo claríssimo e um penálti para os visitantes indiscutível. Ai se fosse cá..."

Bagão Félix, in A Bola

Dar o desconto

"1. Já andam por aí a dizer que Bruno Paixão e Luís Ferreira dão melhores descontos que o Continente, o Pingo Doce e o Jumbo. Que exagero. Bom, deixem-me ir ver se já acabaram os jogos do Benfica e do FC Porto.
2. Nélson, o treinador de guarda-redes do Sporting, vai começar a fazer part-time em casamentos. Fico atrás do padre a dizer os votos aos noivos. É muito discreto, ninguém vai dar por ele no altar.
3. O Sporting ganhou uma final que quase se esquecia de jogar e festejou como se a Taça da Liga tivesse a Liga na Taça (na impossibilidade de Bruno de Carvalho estar no relvado, por castigo, acho bem que tenha sido um dos capitães a levantar o troféu). Já o V. Setúbal, que tinha esgotado a sorte frente à Oliveirense, acabou por perder o jogo mas ganhou um guarda-redes: Podstawski.
4. O futuro dirá se Sporting e FC Porto ficaram mais fortes após mercado de inverno. Pelo menos tentaram, não achas Benfica?
5. Talvez não fosse má ideia a Polícia Judiciária abrir uma delegação junto ao Estádio da Luz. Ia poupar imenso nos quilómetros.
6. Roger Federer é, de facto, um desportista incomparável. De certeza que tem um grande director da comunicação. Só pode.
7. No meio de tanto ódio entre os grandes do futebol português, a Liga devia pedir a Salvador Sobral para criar um hino. O nome da música seria, obviamente, 'amar pelos três'.
8. Jorge Jesus eliminou o FC Porto nos penalties e falou em teóricos, profetas e tretas. E pediu juízo. Ganhou ao V. Setúbal nos penalties e falou em papagaios, espertalhões e sapos na garganta. E pediu respeito. Por acaso os papagaios também me irritam, confesso. E os pavões.
9. Ninguém me tira da cabeça que Sérgio Conceição saiu mais cedo do Sporting - FC Porto, antes dos penalties, para ir fazendo a mala de Soares. Quem manda o treinador 'tomar no cu' tem de estar preparado para ir tomar juízo na China ou noutro lado qualquer."

Gonçalo Guimarães, in A Bola

PS: Compreendo a necessidade de 'esticar' o argumento para fazer a piada, mas para memória futura, fica registado, que o tempo de desconto em Belém, foi mais do que justificado... com uma paragem para o VAR já após os 90 minutos...

Tempestade perfeita

"Primeiro o céu estava azul e o sol brilhava, radioso. Depois, pouco a pouco, uma névoa ténue foi tornando o ambiente mais cinzento e nem falhou uma brisa fria, prenúncio de males maiores. Que não tardaram. Castelos de nuvens foram-se acumulando e ficou a dúvida se a embarcação, fragilizada pela austeridade que obrigara a uma redução qualitativa da tripulação, era capaz de aguentar tanta agitação. Porque uma coisa é enfrentar tormentas quando se cumprem objectivos, outra é passar por essas provações sem uma dinâmica vitoriosa.
E quando a um vento ciclónico do norte se juntam outras forças, mais a sul, a situação agrava-se. Para a tempestade ser perfeita falharia apenas a chegada de um tsunami inesperado, produto de um terramoto com epicentro em causas estranhas à própria embarcação, qual fogo cruzado a que dificilmente se foge, apenas se aguenta, esperando que passe. Ou não...
Os momentos de crise são sempre testes decisivos à fortaleza das pessoas e à coesão das instituições, e não se resolvem com acções de propaganda ou tiradas demagógicas, superam-se através da consciência tranquila, da consistência do carácter e da força das convicções.
Dito tudo isto, falta recordar que toda a investigação, em qualquer circunstância, é bem-vinda porque o sistema judicial existe para nos defender, nem que seja corrigindo as suas próprias perversões; e por mais que a tentação de fazer julgamentos na praça pública seja levada à prática na sociedade mediatizada de hoje, haverá sempre que aguardar pelo veredicto das instâncias próprias, salvaguardando-se o primado da presunção de inocência."

José Manuel Delgado, in A Bola

A Justiça é burra

"O brasileiro Nelson Rodrigues, o melhor cronista da língua portuguesa - hei, direitolas, ele é quase dos vossos, mas inteligente, Nelson era de direita - foi dos primeiros a comentar futebol na televisão, anos 1960. Via o jogo - e via mal, era pitosga - e ia comentá-lo para o estúdio da Globo. Jogo de futebol, para ele, era como deve ser, um estado de alma, uma paixão que dura 90 minutos e cresce no prolongamento, metia mais emoções do que linhas de passe. Um dia, os adversários de palestra trouxeram um vídeo para mostrar quanto Nelson inventava. Tendo ficado demonstrada, num caso de penálti, a imaginação do cronista, este pediu para repetir o vídeo. Repetiu-se. E Nelson rematou: "O vídeo é burro." Ora aí está, há questões que devem ser discutidas no seu tamanho, e só. Tentar falar delas no patamar acima, ou abaixo, é pedir que desça a alma de Nelson Rodrigues para se repor o bom senso.
Um ministro das Finanças pediu para ver um jogo de futebol num camarote. O ministro e o clube do camarote varreram-se-me. Agora, magistrados do Ministério Público foram fazer buscas ao Mistério das Finanças. Segundo o jornal Expresso, "a Justiça quer perceber se há relação entre o pedido do presidente do Benfica (olha, o clube é o Benfica) para conseguir uma isenção fiscal para os filhos e a ida de Mário Centeno (olha, o ministro é Centeno) ao jogo Benfica e FC Porto, a que o ministro assistiu na bancada presidencial"... Sobre o assunto, cumpre-me dizer o que se segue. A Justiça quer perceber, diz o jornal; mas não pode, digo eu: a Justiça é burra. Isto é, é burra porque me quer convencer de que um ministro pede um bilhete de futebol a troco de um favor nas Finanças. Já, se calhar, não é burra se quer convencer os burros - e para isso a caixa de comentários o dirá sobre eventuais burros que haja por aí. A Justiça, não burra nesta última hipótese, lá saberá porque gosta de espalhar a suspeita. A ser assim, passa a certa justiça..."

Alvorada... com o Ricardo

Centeno, o Benfica e os romanos

"A ideia de que o ministro das Finanças poderia ter recebido vantagem indevida do Benfica - com um convite para ver um jogo no Estádio da Luz em troca da isenção de IMI para um prédio dos filhos do presidente encarnado - é estúpida. Em primeiro lugar porque ir ao futebol por convite para lugares que não estão à venda, como é o caso da tribuna presidencial, é a única forma de aceder a esses locais. Para ir ao estádio do seu clube, Mário Centeno nem precisa de convite porque é sócio do Benfica com lugar cativo, mas enquanto é ministro, por uma questão de segurança, não pode fazer o que lhe apetece. Em segundo lugar porque a isenção de IMI atribuída àquele prédio está prevista na lei e é decidida pelas câmaras municipais.
Pode ser que exista outro caso qualquer a requerer a atenção do Ministério Público, mas, se o caso é este, então quem tem de se explicar é a Procuradoria. Sabemos como costuma ser feita a recolha de prova, é uma pesca de arrasto que leva tudo o que encontra pela frente. Por causa disto, há agora quem tenha na sua posse todas as comunicações electrónicas do ministro das Finanças?
O que este caso nos mostra é a razão por que há cada vez menos gente disponível para ir para a política. Uma justiça que não faz distinção entre o que verdadeiramente importa e o que é polémica para alimentar debate político e páginas de jornais não procura fazer justiça. De igual forma, a comunicação social que não faz esta distinção não está a informar, está a entreter. É preciso parar para pensar. A política e a justiça não podem ser uma espécie de Porto-Benfica, um duelo entre claques. Por exemplo, escrevendo o que estou a escrever não estou a defender a política financeira de Centeno, estou apenas a dizer que o caso é estúpido. E é tão estúpido que já está a prejudicar-nos a todos, porque Centeno também é presidente do Eurogrupo. Se nós, justiça e jornalismo em Portugal, levamos a sério o que sabemos não ter importância nenhuma, é normal que os outros possam pensar que o presidente do Eurogrupo está metido em sarilhos sérios. Tem muitos séculos: há nos confins da Ibéria um povo que não se governa nem se deixa governar..."

Excesso de zelo?

"Suspeito que a investigação ao ministro das Finanças será a “montanha que pariu um rato”.

Ontem multiplicaram-se as notícias sobre buscas do Ministério Público, detenções de personalidades conhecidas, constituição de arguidos, etc.
Em Portugal, a justiça tem vindo a mostrar, nos últimos anos, que não distingue entre ricos e pobres, entre poderosos e a “arraia miúda”. Nem sempre foi assim. Se recuarmos algumas décadas, a “justiça de classe” era um facto entre nós.
Agora, porém, a justiça até investiga juízes desembargadores por suspeitas de corrupção, como Rui Rangel. E um anterior primeiro-ministro vai a julgamento. É positivo que seja assim, contribuindo para que haja menos desigualdades na justiça portuguesa.
Mas numa ou noutra vez pode haver excesso de zelo do Ministério Público. Parece-me estar isso a acontecer com o caso do ministro das Finanças, Mário Centeno. O ministro solicitou dois convites, para si e para um filho, na tribuna do Estádio da Luz, para assistir a um jogo de futebol.
Centeno invocou, com razão, que não deveria ir para a bancada por motivos de segurança. Soube-se que, dias depois, foi concedido a um filho do presidente do Benfica uma isenção de IMI num prédio por ele restaurado em Lisboa.
Terá Luís Filipe Vieira metido uma “cunha” ao ministro para que fosse dada a tal isenção? Não, porque esta não é concedida pelo ministro das Finanças, mas pela Câmara Municipal de Lisboa, visto que o IMI é um imposto municipal. A Câmara concedeu a isenção, porque ela estava conforme à lei. E passou o “dossier” para a Autoridade Tributária, devendo proceder ao averbamento da isenção. 
Pode especular-se se a Autoridade Tributária estaria a travar burocraticamente o averbamento e se uma palavra do ministro teria desbloqueado o assunto.
Duvido que tal se haja passado desse modo, mas se assim foi não configura crime algum – apenas um mau hábito infelizmente enraizado na sociedade portuguesa. Não sei se ainda acontece, mas em tempos passados alguns contínuos de ministérios recebiam pequenas “lembranças” para colocar na parte de cima dos processos empilhados para decisão ministerial aquele ou aqueles que interessavam a quem dava “gorjetas” para apressar a resolução do seu caso.
A declaração solene do primeiro-ministro de que Centeno continuaria ministro das Finanças ainda que viesse a ser constituído arguido reforça a minha convicção de que a investigação do Ministério Público não levará a algo de grave para Centeno e para o prestígio externo de Portugal.
A justiça deve ser alheia à política, com certeza. Mas o facto de o recém-nomeado presidente do Eurogrupo poder ser constituído arguido foi referida, com algum destaque, em alguns jornais estrangeiros, felizmente poucos. Sabe-se como alguma comunicação social está ávida de escândalos, para vender jornais ou conquistar audiências.
Por isso, sem interferir na investigação do Ministério Público, se agradece que tão cedo quanto possível este caso seja publicamente esclarecido."

Benfiquismo (DCCXXXIV)

1986