Últimas indefectivações
quarta-feira, 13 de novembro de 2024
É o quarenta!
"Não. Nem o Benfica foi humilhado pelo Bayern, nem humilhou o F. C. Porto. Nem Lage é o treinador medroso que “ofendeu” a história do Benfica, nem o génio que sessenta anos depois “arrasou” o rival. Num mundo do oito e do oitenta, em que vale tudo por uns segundos de atenção ou por um “like,” e uma partilha “viral” é um objetivo de vida (e ainda nos admiramos com o que acontece lá por fora, como cá por dentro…), talvez fosse de aproveitar a semana do Benfica para refletir sobre a efemeridade do futebol, que, tal como a nossa, nos surpreende sempre.
Alguns dos que vergastaram Lage na quinta-feira, serão hoje os primeiros a sublinhar que começou a ganhar este jogo em Munique ao evitar uma goleada desmoralizadora e ao deixar Di María, que foi o melhor em campo, no banco. Nem uma coisa, nem outra. A tática, a malfadada tática de Munique, que se pensarmos com dois neurónios de racionalidade percebemos que o que se pretendia era “fechar” a baliza e surpreender no contra-ataque (nada de inovador, portanto…) e que não resultou por manifesta incapacidade de ter bola e pelo mérito da pressão do Bayern, teve o seu contraponto no clássico, interpretada pelos mesmos jogadores, que executaram quase na perfeição o que os “vitimara” dias antes - pressão máxima, precisão na posse de bola e eficácia na finalização.
É futebol! Bastava dizer isto, que o povo bem sintetiza, para explicar um jogo praticado por humanos que tentam surpreender outros humanos e às vezes conseguem e outras não. Mas só isto não chega para a gritaria reinante, nem justifica a cientificidade que se apregoa. Numa semana marcada pelas eleições nos EUA, apetece adaptar uma célebre frase de Clinton que as definiu: é o quarenta!"
Um Benfica reencontrado, um FC Porto desfigurado
"Os anos passam e continuo a guardar esta história. É um dos muitos exemplos que fazem de José Mourinho uma figura sem paralelo no futebol mundial. Estamos em agosto de 2003 e o FC Porto tinha acabado de perder a Supertaça Europeia frente ao Milan. Mourinho, sabendo com quem jogaria a seguir, não hesitou: «Estamos tristes, mas alguém vai ter de pagar a fatura. Vai ser o Sporting.» Assim foi. O Sporting acabou goleado 1-4 pelo FC Porto e o então jovem José Mourinho continuou a criar a sua aura, confirmada ao longo dos anos seguintes por uma série de acontecimentos que o próprio fez questão de prever.
Bruno Lage não ousou ter a mesmo confiança e arrogância, mas soube interpretar o momento pós-Munique quando afirmou, na antevisão do jogo contra o FC Porto, que esperava uma reação à Benfica. A noite de domingo não podia ter sido de outra forma. Há jogos em que se torna fundamental que as circunstâncias nos relembrem a nossa identidade. Entre adeptos, podemos ter longas discussões sobre aquilo que nos define, mas concordamos quase sempre acerca daquilo que não somos.
É bom que estes consensos se formem entre treinadores de bancada, mas é tão ou mais importante que sejam afirmados por quem está dentro de campo. A ciência diz-nos que falta oxigénio no cérebro após a prática intensa de exercício físico, mas não faltou lucidez a Di María depois de 88 minutos a jogar, mais uma vez, como se fosse a primeira. Disse tudo. Elogiou a exibição da equipa e reconheceu a importância de reagir ao jogo menos bom de Munique. Nas palavras de Di Maria, «não fomos nós». Explicações simples para problemas complexos são uma marca habitual em quem sabe muito, e Di María sabe. Sabe de futebol e sabe o que quer um Benfiquista depois de ver a sua equipa encolhida. Quer que o próximo pague a fatura. Assim foi.
Lage não é conhecido por exibir a arrogância ou a confiança de Mourinho, mas este domingo soube levar a água ao seu moinho e conquistar o capital de confiança de que precisava para passar à fase seguinte desta época. O treinador esperava uma reação à Benfica e acredito que a exigiu aos jogadores. Talvez a prudência aconselhasse um jogo em casa frente a uma equipa da segunda metade da tabela, mas felizmente o calendário era outro. A equipa entrou em campo para defrontar um adversário historicamente difícil e tornou o jogo historicamente fácil. Segundo uma velha máxima militar, nenhum plano sobrevive ao primeiro contacto com o inimigo.
O treinador do FC Porto sentiu isso de forma dolorosa, ao ver exposta a inferioridade da sua equipa em quase todos os momentos do jogo. Não houve trauma nem memória que lhe valesse. Uma equipa jogou muito melhor do que outra, teve mais fome, mais agressividade, mais bola, mais tudo, e por isso venceu justamente. Sim, foram só três pontos, mas foi um pouco mais do que apenas uma vitória. Vítor Bruno, treinador do FC Porto, sabe isso, ou não teria descrito o estado de alma da sua equipa como uma «agonia». Em nome da rivalidade clubística, agradeço-lhe o uso desta palavra. Brindemos à agonia dos derrotados!
E foi assim que chegámos ao melhor desfecho possível, que vale mais do que três pontos. Na intersecção entre a necessidade de uma «reação à Benfica» e o adversário conhecido por ser o mais difícil de ultrapassar, aconteceu uma coisa bonita de se ver. Dias depois de jogar em Munique numa versão profundamente descaraterizada, tida por muitos adeptos como imprópria do clube, a equipa do Benfica pareceu ter percebido o que lhe aconteceu e fez o mesmo ao FC Porto. Diminuiu o seu rival de sempre ao ponto de o tornar uma caricatura do espírito e da raça tantas vezes apregoada, frequentemente para mascarar a postura anti-desportiva. O FC Porto chegou à Luz convencido do seu destino. Saiu de lá desfigurado e com rumo incerto.
A equipa do Benfica fez tudo isto sem ceder uma vez que fosse à tentação de fazer aos outros aquilo que não gosta que lhe façam. Jogou à bola e limitou-se a tal. Quando percebeu que o seu adversário caíra e estava atordoado, fez aquilo que o jogo e as bancadas exigiam. Não desperdiçou a oportunidade de vergar ainda mais o adversário e chegar à goleada. Só parou quando o árbitro apitou pela última vez.
Moral da história? O Benfica manteve-se fiel a uma identidade e tirou o melhor partido das armas ao seu dispor. Foi categórico. Por via desta contundência, fez o FC Porto questionar a sua própria identidade. Qualquer vitória no jogo de domingo teria sido saborosa, mas nada é melhor do que sermos quem somos e vencermos por isso. É assim que deve ser, sempre. Bem sei que vivemos num país livre, razão pela qual existem pessoas que, munidas de um realismo algo entristecedor, chamam a esta ambição romantismo. Estão no seu direito. São pessoas que preferiam ter empatado em Munique sem rematar à baliza. Aos críticos do romantismo, respondo com a história que fez do meu clube o gigante que é: seja com quem for, seja onde for, o Benfica deve vencer ou morrer a tentar. E só esta última parte pode ser descrita como romantismo, porque o Benfica é eterno. Se não concordam comigo, ouçam o Di María. Estaremos sempre mais perto de vencer se seguirmos a máxima do melhor em campo. Basta sermos nós. Não conheço melhor romance."
O futebol que temos e o futebol que queremos
"Jorge Valdano, cuja voz tantas vezes ecoou nas páginas do jornal espanhol Marca com uma lucidez rara no desporto moderno, tem-se assumido como um guardião de princípios e de valores que, longe de se limitarem ao universo do futebol, tocam a essência do ser humano. O seu pensamento, que transcende a tática e a gestão, é um contributo precioso para o futebol, em particular para o futebol português que sonha em superar-se.
Inspirar-nos na visão de Valdano é, pois, projetar um desporto não apenas orientado para o sucesso, mas capaz de se ancorar numa autenticidade e numa verdade que são, afinal, o seu património mais valioso.
Um dos princípios centrais de Valdano é a valorização do talento como fonte de renovação do jogo. Em Portugal, onde a formação tem dado ao mundo jogadores de primeiríssima linha, o desafio passa por criar condições que não só revelem talentos, mas que os sustentem e preparem para o rigor da alta competição. Não se trata de reter os jogadores a qualquer custo, mas de lhes oferecer um ambiente onde possam crescer. Valdano defenderia a criação de um campeonato em que os jovens talentos portugueses tenham condições para amadurecer antes de se aventurarem no estrangeiro, fortalecendo o futebol português enquanto mercado e espetáculo.
Mas Valdano não ignora que o talento só prospera num ambiente onde a ética e a integridade sejam respeitadas. Portugal deve ser capaz de construir uma estrutura de governança que funcione como exemplo de transparência e rigor, onde os clubes estejam comprometidos com um fair play financeiro autêntico e onde outros interesses não tenham espaço para prosperar. O futebol que queremos, à imagem do que Valdano escreve, deve viver de clareza e responsabilidade, de forma a que cada adepto sinta o seu clube como uma instituição limpa e orientada para o bem comum.
Outro aspeto essencial é a construção de um modelo de gestão que valorize a cultura e a identidade de cada clube. O futebol português é rico em histórias e tradições, mas necessita de um novo ímpeto cultural que una as comunidades aos seus clubes e projetos. Valdano diria que o sucesso desportivo só tem verdadeiro valor quando se reflete em orgulho e pertença nas suas gentes. Em Portugal, uma liga com clubes mais culturalmente enraizados e competitivos reforçará a mística do campeonato, atraindo mais adeptos, mais apoio local e, inevitavelmente, mais receitas.
A modernização tecnológica, outra das bandeiras que Valdano tem erguido, deve ser um compromisso inadiável. A análise científica do jogo e as ferramentas digitais de gestão e promoção dos clubes são, hoje, instrumentos essenciais para que o futebol português se coloque ao nível das ligas mais avançadas. O uso inteligente da tecnologia não só otimiza a performance, como amplia a experiência dos adeptos, que exigem hoje conteúdos e envolvimento digital constante.
Por fim, Valdano lembra-nos sempre que o futebol é uma linguagem universal, capaz de comunicar sem palavras e de tocar o mais fundo dos sentimentos. Num mundo cada vez mais fragmentado, o futebol português deve ser uma plataforma de união, de identidade e de coesão social. Este é, aliás, o legado de Graça Moura e Prado Coelho, que, por várias vezes, pintaram o futebol como uma arte, um espaço de criatividade e emoção que, como tudo o que é verdadeiramente humano, merece ser tratado com dignidade.
O futebol que temos é o nosso ponto de partida. Mas o futebol que podemos ter, inspirado na clareza de Valdano, na integridade de Graça Moura e na profundidade de Prado Coelho, deve ser um ideal a que aspiramos. Que seja esta a nossa ambição: fazer do futebol português um símbolo de ética, cultura e paixão, à altura do que o desporto pode e deve representar para uma sociedade inteira."
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