Últimas indefectivações
quarta-feira, 24 de janeiro de 2024
Até quando?
"Eis a pergunta que legitimamente poderemos fazer quando, de forma sistemática e num movimento de onda, o racismo teima em emergir nos recintos desportivos. Desta vez foi num jogo da liga italiana de futebol entre a Udinese e o Milan. A vítima foi o guarda-redes do Milan, Mike Maignan. Perante os insultos racistas, o atleta, juntamente com outros companheiros, abandonou o encontro em sinal de protesto. Um sentimento solidário foi gerado à volta de Mike e até Gianni Infantino, presidente da FIFA, veio pedir uma mão pesada para os clubes cujos adeptos têm atitudes racistas.
Apesar da legislação de combate ao racismo no desporto, em quase toda a Europa, ser bastante clara e assertiva, com sanções disciplinares e penais, ao que parece não é suficiente para dissuadir os adeptos destas atitudes nefastas e que destroem o espírito desportivo. O que está em jogo é a proteção da dignidade da pessoa humana e dos valores que fundaram a democracia ocidental, bem como o ethos desportivo, sem o qual não se pode celebrar o jogo. Enquanto o jogo for entendido como "combate", uma trincheira entre "nós" e "eles", o adversário como "inimigo", o árbitro como "gatuno", a violência e o racismo, neste caso, serão a parte visível desta "cultura invisível" de entendermos o jogo através de uma forma primitiva de vencer e não olhar a meios de "destruição" do outro.
Por isso, acreditamos que o caminho será formar, sensibilizar e educar para uma nova cultura das virtualidades do jogo, em que o valor que deve nortear, neste fito, a todos os agentes desportivos, dirigentes ou pais, será o valor da resiliência."
Por inveja ou maldição
"1. Mês de janeiro, mês de mercado de inverno. Um facto que ninguém ousará menosprezar neste janela de vendas e de contratações - mais do que um facto, trata-se, na realidade, de uma virtude - é o Benfica não ter esperado pelo último dia do mercado para resolver assuntos prementes do seu quadro de jogadores.
2. Acelerar os processos de integração dos que acabam de chegar parece ser a política. É, sem dúvida, uma boa politica. Marcos Leonardo aterrou em Lisboa no dia 4, foi convocado para o jogo com o Sporting de Braga para a Taça de Portugal no dia 10, estreou-se oficialmente na equipa principal do Benfica no dia 14 no jogo com o Rio Ave para o campeonato e estreou-se a marcar ao serviço do seu novo emblema na primeira vez em que tocou na bola. A sorte ajuda os audazes.
3. O diretor de comunicação do FC Porto, vá lá saber-se porquê, resolveu apontar os últimos cartuchos da sua caçadeira de brincar a António Silva e a João Neves. Por inveja ou maldição, clama e reclama que os árbitros não dão cartões amarelos aos dois jovens jogadores do Benfica, ao contrário do que acontece em relação a Francisco Conceição. 'Benevolência só há em relação ao João Neves e ao António Silva. Já o João Neves dar um pontapé na barriga de um adversário com o árbitro por perto e nem amarelo foi', foi esta a sua derradeira rajada de tirinhos de feira.
4. A ideia é, obviamente, condicionar os árbitros, o que, aliás, é uma prática corrente daquela casa. O choradinho/entrevista de Vítor Baía a O Jogo nas vésperas da recepção ao Sporting de Braga inclui-se nessa forma de pressionar travestida de forma da comunicar.
5. Kika Nazareth deu uma entrevista ao programa Titulares, da SportTV, e falou sobre alguns temas mais na qualidade de simples adepta do que na qualidade de extraordinária jogadora que é. Quando o simples e o extraordinário se juntam, acontecem coisas destas: 'É difícil falar sobre a possibilidade de João Neves sair. Além do talento e da influência que tem, é penoso ver partir um benfiquista que se entrega tanto nos jogos, especialmente nos clássicos contra o Sporting'.
6. Ao contrário do diretor de comunicação do FC Porto, que não quer ver Neves em campo, Kika Nazareth quer muito ver o Neves em campo por muito, muito tempo.
7. O Benfica reagiu por escrito e oficialmente a um comunicado do Sporting vagamente hostil para as nossas cores. Muito bem. E, agora, vamos lá terminar a semana com uma boa exibição no jogo com o Boavista e com um bom resultado. Muito bem, Benfica, é o que mais queremos."
Leonor Pinhão, in O Benfica
Burl G. Kreps, o primeiro americano no Benfica
"Vindo do país de origem do basquetebol, o jogador começou a colaboração no Clube em 1954
Burl Gene Kreps (1931-2021) nasceu na pequena localidade de Beatrice, no centro rural do Nebraska, filho de um padre metodista. Em 1952/53, foi campeão de basquetebol pela Wesleyan Nebraska University. Em 1954, como funcionário das missões americanas de África, foi deslocado para rumar a Angola.
Nesse ano, o jovem reverendo de 23 anos estabeleceu-se em Lisboa para aprender a língua portuguesa, acabando por integrar o plantel de basquetebol do Benfica, tornando-se o primeiro americano a fazê-lo.
O seu primeiro jogo foi em 5 de Outubro de 1954, como poste, num torneio da Associação de Basquetebol de Lisboa, frente ao Atlético CP, mexendo imediatamente com a estrutura e coordenação da equipa. Em alguma situações delicadas, como num jogo frente ao Boa-Hora para o Campeonato Regional, valeu ao Benfica 'a facilidade de encestamento de Burl Kreps e a sua boa actuação que permitiu passar este obstáculo'.
Apesar do ser autóctone do basquetebol, Kreps encontrou no Benfica grandes ases portugueses da modalidade que o superavam em campo, como Bernardo Leite e Sancho Freire. No entanto, a sua presença fazia-se sentir, tanto que, na primeira derrota que o Benfica conheceu na competição regional, 'Burl poucas vezes conseguiu fugir á marcação cerradíssima que lhe fizeram'.
Ainda assim, chegou a ser o melhor marcador em 5 dos 31 jogos de águia ao peito. Nesses 6 meses conheceu 27 vitórias, marcando 440 pontos dos 1898 pontos do Benfica, consagrando-se campeão regional, título que há meia década fugia aos encarnados.
O seu último jogo foi em 18 de abril de 1955, frente ao Belenenses (vitória por 84-60), com a braçadeira de capitão, cedida pelos colegas, enquanto os adversários 'aguardaram a entrada da nossa equipa em campo para cumprimentar Burl'. Este, emocionado, não controlou as lágrimas, que 'limpou à camisola que vestiu e honrou'.
Nessa noite, no restaurante da secretaria, a secção rendeu-lhe uma despedida. O vice-presidente Pinheiro Machado fez-lhe votos de felicidades para o futuro e 'colocou ao peito de Burl um emblema do Benfica, de ouro e pedras preciosas'. Agradecendo num português macarrónico, Kreps foi agraciado com uma caravela de filigrana pelo seu 'aprumo e suprema dedicação'. Três dias depois, embarcava para Angola, onde viria a ser grande promotor da modalidade.
Apesar da sua passagem efémera, marcou inevitavelmente o basquetebol encarnado, deixando saudades pela pessoa e atleta que fora e por se ter integrado 'perfeitamente na mística benfiquista'.
Conheça outros nomes da história do basquetebol do Benfica na área 3 - Orgulho Eclético, do Museu Benfica - Cosme Damião."
Pedro S. Amorim, in O Benfica
Máquina de propaganda
"A Liga Portuguesa de Futebol Profissional perdeu a pouca vergonha na cara que lhe restava. Terminada a 1.ª volta dos campeonatos profissionais, a Liga não perdeu tempo em dizer que foi alcançado o maior número de adeptos nos estádios da Primeira Liga das últimas 12 temporadas - 1,85 milhões. Diz a organização liderada por Pedro Proença que a média por jornada é de 109 mil adeptos nos estádios, o que dá pouco mais de 12 mil por jogo. A maquilhagem é, de facto, uma boa ferramenta para tapar o enorme buraco em que se encontra o futebol português.
Preocupada em manter uma falsa paridade entre os três maiores clubes (a negociação dos direitos televisivos está cada vez mais próxima), a Liga revela que o SL Benfica teve 471 mil espectadores nas bancadas, com o Sporting CP a ficar com 339 mil, e o FC Porto com 317 mil. Tudo muito bonito, não se tivessem esquecido dos jogos fora de casa. Dei-me ao trabalho de fazer essas contas.
O Glorioso jogou nos estádios adversários, para o campeonato, em 9 ocasiões, e apenas numa delas a percentagem de ocupação ficou abaixo dos 80%. No Bessa, à 1.ª jornada, mais de 21300 adeptos equivalem a 78% da ocupação do estádio (não foram mais porque o Boavista não quis vender mais bilhetes aos adeptos do Benfica); de resto, sempre acima dos 80%, com especial destaque para os embates fora com Estoril (97% de ocupação), Chaves (98%), Vizela (94%) e Moreirense (92%). Em números brutos, são mais de 91 mil espectadores dos jogos longe do Estádio da Luz. Juntando em casa e fora, chegamos à bonita cifra de 576 milhões, mais coisa, menos coisa. Ou seja, os clubes não são todos iguais, não têm todos a mesma capacidade de levar gente ao estádio. Eu sei que custa, mas habituam-se."
Ricardo Santos, in O Benfica
Faz-nos felizes, Benfica!
"Arranca hoje a 2.ª volta do Campeonato. Depois de uma entrada em falso, o Benfica partiu para uma positiva 1.ª metade da Liga. É evidente que todos tínhamos a expetativa de chegar a esta altura com 51 pontos somados. Porém, se considerarmos que no final da 1.ª ronda já podíamos ambicionar só 48, olhar para a tabela a ver que estamos com 42 deixa claro que o percurso até aqui em termos de resultados foi bastante proveitoso. Apenas 2 pontos abaixo da época passada e uma pontuação total superada somente em 5 ocasiões desde que as vitórias valem 3 pontos.
Depois de uma fase conturbada, construída com a colaboração dos media e alguns adeptos, o Benfica tem conseguido, de dezembro para cá, uma solidez bem maior nas exibições. Com dois laterais adaptados, uma dupla que era desconhecida no meio-campo, e os homens mais adiantados sem a continuidade de minutos suficiente para criar dinâmicas necessárias dentro da equipa e a corresponder na íntegra às expectativas dos adeptos. Bem sabemos como são os benfiquistas, muitas vezes excessivos. Eu faço um esforço intenso para ser sensato. Não me atrevo a pedir quatro ou cinco golos por jogo aos nossos avançados, como é evidente. Contudo, pelo menos um hat-trick parece-me uma exigência justa. Não tem sido assim. No entanto, nos últimos 7 jogos vimos Arthur Cabral celebrar por 3 vezes; Musa fez 2 golos; Tengstedt garantiu a vitória na Pedreira e, entretanto, lesionou-se; Rafa marcou 4 e deu 6 a marcar; até o Menino da Vila, Marcos Leonatdo, já se estreou a faturar. Uma avançado é mais feliz quando toda a equipa está feliz. Contamos todos com essa felicidade, nesta noite, diante do Boavista. Carrega, Benfica!"
Pedro Soares, in O Benfica
A Rafa o que é de Rafa
"Diz o povo que mais vale cair em graça do que ser engraçado. E se há jogador do Benfica que nem sempre caiu na graça dos adeptos é Rafa.
Com menos jogos, menos golos e menos títulos, outros tornaram-se lendas na história do Clube. Rafa, talvez devido a características de personalidade, teve de suar mais, de correr mais, de jogar mais e de marcar mais, até ser devidamente compreendido, até ser consensual entre os benfiquistas.
Os números são impressionantes: acima de 300 jogos, acima de 80 golos, 8 troféus (dos quais 3 campeonatos). Tem quase o dobro dos jogos do segundo jogador do actual plantel que mais vezes vestiu o manto sagrado, e tem mais do dobro dos golos do segundo melhor finalizador. Uma análise mais fina permite ainda identificar outros dados. Dos plantéis dos três grandes, Rafa é o melhor goleador em clássicos, com 6 tentos (3 ao FC Porto e 3 ao Sporting). Foram dele os golos que decidiram os últimos triunfos do Benfica no Estádio do Dragão - que, de resto, nos valeram os dois últimos títulos nacionais. Na época passada foi dele o golo solitário na recepção ao SC Braga, aquele que terá sido um dos momentos-chave para a conqusita do 38. Rafa é também o 6.º melhor marcador de sempre do Benfica na Taça/Liga dos Campeões, só atrás dos monstros Eusébio, José Augusto, José Águas, Torres e Nené.
Até pela fisionomia, é o jogador que mais me faz lembrar Fernando Chalana, meu ídolo de infância, porventura o segundo melhor da história do Benfica, e que, ainda assim, em 12 temporadas, realizou pouco mais jogos (311) e marcou muito menos golos (49) do que Rafa Silva.
Até ao fim da época, os registos ainda irão naturalmente crescer. E muito gostaria que a história de Rafa no Benfica continuasse a ser escrito para além de 2024. Ele merece. Nós merecemos."
Luís Fialho, in O Benfica
Futebol celta!
"Portugal é um país de futebol e de encruzilhadas, uma verdadeira síntese cultural entre o Mediterrâneo e o Atlântico que moldou a nossa história e a nossa cultura. O desporto e alguma forma de futebol, nas suas versões arcaicas, estiveram sempre aqui. Por isso é sempre interessante espreitar as nossas influências culturais mais importantes. Os Celtas, tendo habitado grande parte da Europa Ocidental há mais de dois mil anos, deram-nos muito do que somos, sobretudo a norte, mas é na Irlanda que as suas tradições se mantêm mais vivas.
Os Gaelic Games, os Jogos Gaélicos, que são hoje uma realidade importante na vida desportiva irlandesa, são jogos tradicionais irlandeses com raízes profundas na história e cultura celta. Estes jogos incluem o futebol gaélico, o hurling, o camogie e o futebol de mão.
Recebemos na Luz a Associação Gaélica irlandesa, que organiza os jogos e que veio divulgar a história, a prática e o potencial entre nós de dois destes desportos, o futebol gaélico e o hurling. Mas em que consistem estes jogos?
O futebol gaélico é um desporto semelhante ao futebol, com regras distintas, em que duas equipas de 15 jogadores competem para marcar pontos, colocando a bola por cima de trave ou na baliza
O hurling é considerado o desporto de equipa mais rápido do mundo. Envolve o uso de bastões (hurleys) e uma pequena bola (sliotar), sendo o objetivo marcar pontos acertando com a bola por cima da trave ou numa baliza.
Estes jogos ancestrais, que eram praticados pelos Celtas em celebrações e festivais sazonais, evoluíram ao longo do tempo, sendo regulamentados e preservando-se a sua tradição através da ampla participação da comunidade.
É que a sua importância na Irlanda vai muito para lá dos aspetos desportivos, eles são uma parte importante de identidade cultural irlandesa e desempenham um papel vital na coesão social, promovendo o envolvimento local e proporcionando uma forte ligação entre as gerações.
Uma vez mais, a bola mostra o seu poder social!"
Jorge Miranda, in O Benfica
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"1
O Benfica é campeão nacional de estrada (10kms) pela 8ª vez, com seis atletas entre os primeiros 10 classificados. Isaac Nader foi o vencedor;
3
Desde 2007/08, Rafa é o 3º futebolista do Benfica com mais assistências para golo, somando 63 e sendo superado apenas por Pizzi (94) e Gaitán (81);
16
Otamendi passou a ser o 16º com mais tempo de utilização em jogos oficiais no atual estádio da Luz (7084 minutos – inclui tempos adicionais), Di María integra agora o top30 (5390 minutos). Rafa tornou-se no 8º a superar os 11 mil minutos em campo;
O Benfica encontra-se numa série de 16 jogos consecutivos sem conhecer a derrota no Campeonato Nacional. Para se encontrar uma série mais longa, há que recuar a 2018/19;
29
Com a estreia auspiciosa de Marcos Leonardo, passaram a 29 os jogadores utilizados por Roger Schmidt na presente época nos 29 jogos oficiais. Apenas Aursnes, João Neves e Rafa marcaram presença em todas as partidas;
31
Rafa completou 303 jogos oficiais pelo Benfica, passando a ser, a par de Grimaldo, o 31º com mais jogos oficiais de águia ao peito pela primeira equipa do clube. No Campeonato Nacional, soma 193 jogos pelo Benfica e é agora o 35º no ranking, ex-aequo com André Almeida;
111
Hoje faz 111 anos que a ginástica começou a ser praticada no Sport Lisboa e Benfica, mantendo atividade ininterrupta desde então e contando com 517 praticantes. Desde o início, são mais de 60000 praticantes;
150
Di María atingiu a marca dos 150 jogos em competições oficiais pelo Benfica;
1000
O basquetebolista Toney Douglas atingiu a marca dos 1000 pontos pelo Benfica no jogo com o Portimonense. É o 83º a consegui-lo e fê-lo em apenas época e meia (82 jogos, 12.3 pontos por jogo)."
João Tomaz, in O Benfica
Por um futebol de camisola enfiada nos calções
"Na semana em que o miúdo João Neves foi eleito, pela terceira vez, o melhor médio do mês, e completou a bonita marca de 50 jogos oficiais pela equipa principal do Benfica, volto a este miúdo formidável para celebrar o raro refúgio, inacessível nos mapas tradicionais, que é ver jogadores de futebol cujo comportamento no relvado espelha exatamente aquilo que mais jogadores deviam ser no relvado e aquilo o futebol devia ser mais vezes fora de campo. Há uma beleza particular em quem faz tudo isto quase sem tentar, sem agenda nem ideologia, e mesmo assim é capaz de comunicar multitudes. Não sei se toda a gente vê o mesmo que eu, mas o privilégio destes 50 jogos com João Neves dentro de campo, sempre com a camisola impecavelmente vestida, dão-nos acesso a um romantismo que parece extinto de vez e que, arrisco dizer, nos pode ensinar qualquer coisa.
Comecemos pelo início, que é também o fim: João Neves entra em campo sempre devidamente aprumado. A sua marca registada é a camisola enfiada nos calções, uma escolha que nos faz parecer sempre que o jogo que estamos a ver é mais importante do que os outros. É mentira, como todos os Benfiquistas já perceberam. Se há coisa que João Neves demonstrou nos seus primeiros 50, é que não há jogos mais importantes do que outros. Todos os jogos contam na mesma medida. Em suma, tudo o que importa são as vitórias para conquistar ao serviço do Sport Lisboa e Benfica. Não me lembro de alguma vez ter visto João Neves interpretar a sua função enquanto atleta profissional de outra forma que não esta. Não consigo dizer o mesmo acerca de muitos outros jogadores. Apesar da exigência dos Benfiquistas, é sabido que toda a gente tem direito a um ou mais dias não, mas há quem, como o João, pareça abdicar deles em prol de uma causa maior. É também por isso, e não apenas pela sua qualidade e versatilidade futebolística, que devemos ensinar João Neves nos escalões jovens do Benfica.
Ver alguém com a camisola oficial devidamente enfiada dentro dos calções é, antes de mais, reconhecer um gesto estranhamente antigo no mais jovem dos jogadores. É quase subversiva esta ideia de um futebol de tempos idos ser personificada por um rapaz com idade para ser tiktoker, mas isso só torna a coisa mais admirável. É, simultaneamente, antigo e completamente novo. E nunca passa despercebido. Vejo nesta decisão de indumentária um pequeno avanço civilizacional e um momento de semiótica magistral. Nunca imaginei vir a apreciar tanto um gesto tão simples como este. É evidente que o talento futebolístico de um jogador pode ajudar a confirmar o acerto de uma preferência estética, mas dificilmente me verão elogiar os cortes de cabelo ou as tatuagens de muitos dos melhores futebolistas do mundo. Nada tenho contra essa liberdade criativa, mas entusiasma-me mais que um gesto tão simples e desusado possa ser, hoje, um vislumbre de progresso.
A camisola enfiada nos calções denota um toque de superioridade, mas esta nunca resvala em arrogância. E por muito que a postura em campo e a forma como se apresenta equipado tornem João Neves um jogador objetivamente superior à maioria, este nunca perde a noção da sua responsabilidade em jogo, que é tanto a de chefe executivo quanto de membro do operariado. Os colegas sabem que podem sempre contar com a sua solidariedade, com o seu pragmatismo, com a sua abnegação, e com a sua inteligência posta ao serviço de um bem maior.
Por último, as boas maneiras. João Neves ocupa o relvado com o único intuito de ajudar o Benfica a vencer por meio da prática futebolística.
Não o vejo perder tempo, não o vejo destratar adversários, e não o vejo condicionar árbitros. É notável observar como estes primeiros 50 jogos foram tão expressivos na articulação de uma ideia importante, a de que se pode vencer sendo decente na relação com os adversários. Atualmente, conhecemos demasiados jogadores e dirigentes cuja marca patenteada é diametralmente oposta a esta. Ao contrário do rapaz que enfia a camisola nos calções, o que mais encontramos são desfraldados orgulhosos que, à falta de melhor argumentário, usam e abusam de um expediente tantas vezes anti-desportivo. Das duas uma: ou a vida não deu maneiras, ou o clube que lhes dá abrigo patrocina essa forma de estar. Por exemplo, senti alguma vergonha este fim de semana quando, durante uma partida de futsal entre Benfica e Sporting, um desfraldado, imbuído das certezas garantidas por uma fraca inteligência, decidiu intervir num jogo e estragá-lo para todos. De um lado, as queixas legítimas. Do outro, os argumentos florais de um clube-alegadamente-diferente. Este é só um exemplo, mas quem lê jornais sabe que quase todos os dias o desporto em Portugal, e principalmente a família das modalidades futebolísticas, produz estes momentos deprimentes que nos deviam envergonhar um bocadinho. Sinto muitas vezes que estas modalidades mereciam perder adeptos até os seus responsáveis estarem dispostos a fazer mais.
Por isso digo: precisamos de mais jogadores e intervenientes que enfiem a camisola nos calções, antes de jogar, antes de falar, e até antes de pensar. Podem dizer-me que é apenas um detalhe ou que tudo isto é apenas a obsessão estética de alguém que apoia o Benfica e os seus jogadores. Estarão enganados ou, eventualmente, desapontados por não terem um jogador assim no vosso clube. Lamento. Mas prometo que o emprestamos à seleção, para poderem gostar tanto dele como nós."
Benfica mais exigente
"O Benfica está a operar uma discreta revolução no seu plantel, que abrange um duplo objetivo: aliviar o peso do orçamento com a dispensa de elementos que não justificaram uma relação prolongada e projetar o futuro, conseguindo a contratação de alvos que são encarados como investimentos seguros e de longo prazo.
Em teoria, estará tudo a ser bem pensado, mas é natural que a família encarnada se interrogue acerca dos motivos que conduziram à necessidade da administração fazer agora o que devia ter feito no final da última época, de modo a proteger a atual dos sobressaltos por que tem passado.
É verdade que, por muito que se pense, nunca se consegue prever tudo. As lesões, por exemplo, não pedem licença para entrar. No entanto, a questão central tem a ver com o plano de contratações, não podendo fugir-se à posição de lateral esquerdo em que emerge a ideia-de Grimaldo ter deixado o lugar embruxado. Alguma coisa correu mal num processo em que, obrigatoriamente, há responsabilidades a partilhar, desde quem sugeriu até quem decidiu.
Penso ser um erro arrastar a solução de recurso encontrada com Morato, porque é um remedeio de fraca consistência, pouca velocidade e que estreita o futebol ofensivo da equipa, simplificando o trabalho das defesas opositoras, como ficou demonstrado diante do Boavista, apesar de o brasileiro ter tido um desempenho elogiado pela crítica, como recompensa pelo esforço.
O problema existe. Por isso, foi sem surpresa que o jovem espanhol Álvaro Carreras (20 anos), será este o seu nome profissional, aterrou em Lisboa e Roger Schmidt imediatamente o integrou na convocatória, sinal de que o próprio treinador sente a urgência de o mais depressa possível equilibrar a estrutura, que o mesmo será dizer alargar a frente de ataque.
Situação semelhante à do avançado Marcos Leonardo (20 anos), que bem ele começou, tal como se compreende a chegada nesta janela de mercado do extremo argentino Benjamin Rollheiser (23 anos), previsível sucessor de Di María.
Em sentido contrário, o Benfica, apostando numa política que me parece ser a correta, ao elevar o grau de exigência para quem o representa, prescindiu de jogadores que não acrescentaram valor, designadamente Jurásek e Gonçalo Guedes, tendo este esbanjado, talvez, a última oportunidade para um dia regressar.
Outro caso resolvido, porque, do meu ponto de vista se tratava de um caso, foi o de Chiquinho. Sei que há muito boa gente que ainda recorda o golo que ele marcou ao Gil Vicente, na 30ª jornada do campeonato 22/23, já no sprint final para alcançar o título 38, mas, em rigor, o jogador precisava de exibir mais atributos para justificar um lugar no plantel. Pelo contrário, além de bloquear uma vaga aos jovens do Seixal, pecou por excesso de vulgaridade, embora estivesse convencido de ser incompreendido, de tal maneira que, na despedida, em vez de agradecer o privilégio de vestir a camisola da águia, disparou uma ameaça velada, porque «havia muito para contar». Nem um pingo de humildade, mas, por gentileza, destacou «as memórias e os bons momentos».
É assim a vida. O Benfica pecou por ter demorado a tomar esta decisão de o dispensar, mas na volta do correio recebeu a resposta, que não foi de agradecimento.
De referir que no último jogo do Benfica, entre titulares e suplentes utilizados e não utilizados, como os adeptos tanto apreciam, a academia do Seixal esteve muito bem representada.
Abençoado Carlos Carvalhal que vai resolvendo os seus problemas e os do Olympiakos, recorrendo ao mercado português que muito bem conhece e ajudando quem procurou a sua colaboração.
Fran Navarro, que prometeu muito no Gil Vicente e se apagou no FC Porto, está confirmado e talvez David Carmo, despromovido à equipa B do dragão, poderá ter em Carvalhal o colinho que Conceição não lhe deu.
Também André Horta, a lidar mal com a forte concorrência no SC Braga, e com 26 anos, precisa de um novo desafio para se afirmar ou continuar a ser uma eterna promessa, tal como Chiquinho, um jogador que pensa que é o que não é, sem se dar conta que nunca passou de suplente cada vez menos chamado a jogo.
É um desafio curioso para Carvalhal, um treinador competente e que muito admiro, mas sem feitio para aturar as manias de alguns dirigentes da lusa paróquia. Emigrou, fez o seu caminho, construiu a sua independência e voltou às origens para gravar a passagem quer no Rio Ave, quer no SC Braga, ao serviço do qual conquistou a Taça de Portugal, em 2021.
No entanto, poucos meses mais tarde, deu-se a separação, por solicitação do próprio Carlos Carvalhal, segundo a versão oficial, por ter manifestado o desejo de abraçar novos projetos. Como este, na Grécia."
O que Taynan ama é ganhar
"Nuno Dias tem razão: quiseram desvalorizar a vitória do Sporting...e foi um jogador leonino
O Sporting conquistou a Taça da Liga de futsal ao Benfica e acentuou a superioridade que tem exibido nesta modalidade, mas no rescaldo da final a oito só se fala da atitude de Taynan, que decidiu ignorar a condição de suplente e entrou em campo para travar um ataque encarnado, com pouco mais de um minuto por jogar.
«Estão a tentar desvalorizar a vitória do Sporting e isso é feio», queixou-se o treinador leonino, Nuno Dias, pleno de razão. O pior é que foi um jogador do Sporting a tirar brilho à conquista. É discutível que o lance não tenha interferido na entrega do troféu, tendo em conta que o Benfica, que perdia por um golo, estava em superioridade numérica no ataque, mas esse é o lado menos importante do debate. Pelo menos para quem estiver interessado em analisar o essencial e não o acessório.
Pela mesma lógica, a discussão relativamente à arbitragem não deve estar centrada na decisão dos gémeos Rúben e Cristiano Santos, que a própria APAF classifica como adequada aos regulamentos, o que choca com a exigência benfiquista de repetir o jogo. O foco deve estar no espírito de uma lei que determina cartão amarelo para uma atitude assim. É que a ilação inevitável, até para treinadores e jogadores em formação, é a de que compensa entrar em campo para cortar um ataque do adversário, mas um regulamento jamais pode dar margem a estratégias destas.
Taynan ainda acabou eleito o Melhor Jogador, através de uma votação dos jornalistas presentes, por norma pedida ainda antes do apito final (mais uma lição a tirar). Entrevistado pelo Canal 11, o jogador do Sporting não foi confrontado com a infeliz atitude — como se a melhor promoção à modalidade fosse varrer os maus exemplos para debaixo do tapete —, mas posteriormente ainda explicou, pelas redes sociais, que tinha jogado com o regulamento. A mensagem inicial, que deixava um pedido de desculpa «para alguns», foi depois apagada, o que também reforça a tendência para agir por impulso e deixar a reflexão para depois, que em Espanha já lhe tinha valido um pesado castigo por dar uma cabeçada a um árbitro.
Taynan terminava a mensagem a dizer que ama o futsal, mas faltou acrescentar que gosta mais de ganhar. É o problema de muita gente que anda no desporto, tantas vezes disfarçado de fome de vencer. Não vale tudo para alcançar o sucesso, e o jogador do Sporting desrespeitou um código de ética.
Entre vários momentos de louvor, o futsal português já teve episódios tão ou mais tristes do que este, como as imitações sonoras de very-lights que mancharam outros dérbis, mas a reputação de uma das melhores ligas do mundo não pode ser boicotada a partir de dentro.
(...)"
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