Últimas indefectivações
segunda-feira, 20 de novembro de 2017
O futebol na sociedade portuguesa
"O futebol português apresenta-se básico e imediatista, submetido à ditadura do proletariado cibernético, em pleno primado do populismo.
O último fim de semana, sem surpresas de monta na Taça de Portugal, acabou por ser marcante quanto à guerrilha que continua a minar o futebol português. Da banda do Dragão, assistiu-se à apresentação de um livro que se perfila como lídimo sucessor do Eu, Carolina. E de Alvalade, pela pena de Bruno de Carvalho, surgiram alguns posts que não deixaram ninguém indiferente, essencialmente pela irreversibilidade dos conflitos abertos...
A este nível, o futebol português apresenta-se básico e imediatista, submetido à ditadura do proletariado cibernético, em pleno primado do populismos.
Mas será que é só no futebol que a sociedade portuguesa se revela com estes contornos? Não, o futebol está plenamente inserido num contexto temporal que nivela por baixo, menoriza protagonistas e vive por ditames circunstâncias.
É verdade que, nos últimos tempos, aquilo que no futebol, em termos de conflitualidade, já era mau, piorou exponencialmente, atingindo níveis de insanidade incompatíveis com uma sociedade civilizada. Mas a dimensão dada a outras matérias - e o caso mais recente de desproporção foi o jantar Web Summit no Panteão Nacional - mostra-nos que cada vez mais estamos sujeitos à influência de uma comunicação sem regras que se impõe através de redes alternativas baseadas na falta de critério e na ausência de escrutínio.
O que é que isto tem a ver com o que se verifica, desgraçadamente, no futebol? Tudo! É farinha do mesmo saco, de um populismo acéfalo que se alimenta do imediatismo, dos comentários impreparados e, last but not least, da escassez de jornalismo, numa era em que se confunde essa área nobre da nossa vida com propaganda e dissertação casuística e irresponsável nas redes sociais.
Regressemos ao futebol e a uma ideia de Henrique Calisto, partilhada na última Quinta da Bola: «Não há situações, por piores que sejam, que impeçam as partes desavindas de se sentarem à mesa para a resolução de problemas comuns». Em tese, Calisto tem razão. Na prática, na vigência dos mandatos de Pinto da Costa, Filipe Vieira e Bruno de Carvalho, tenho as mais fundadas dúvidas sobre a sua exequibilidade. A sensação que me fica é de que os clubes estão à beira do abismo e preparados para dar um passo em frente.
Ás
Carlos Pinto
A pouco e pouco o Santa Clara tem vindo a posicionar-se para nova aventura entre os maiores clubes do futebol nacional. A vitória sobre o Desportivo de Chaves, na Taça de Portugal, veio reforçar essa convicção e mostrar que poderá haver, nos Açores, mais cedo do que mais tarde, novo polo descentralizado da I Liga...
Ás
Marco Silva
O Watford regressou às vitórias e às boas exibições, no culminar de uma semana em que o treinador português andou nas bocas do mundo, assediado pelo poderoso Everton, que estava disposto a abrir muito os cordões à bolsa para garantir o seu concurso. Marco continua a protagonizar uma história de sucesso em fronteiras.
Duque
Oreste Vigorito
O presidente do Benevento, da Séria A italiano, fica na história por razões incómodas: o seu clube, ao perder ontem em casa com o Sassuolo, passou a ser o pior de sempre nas maiores Ligas europeias, com 13 derrotas nas 13 primeiras jornadas! Já trocou de treinador, Baroni saiu e De Zerbi entrou, mas nada mudou.
Tapie, caso de estudo na cidade de Marselha
«O que senti quando 50 mil pessoas me incentivaram no Vélodróme? Senti que devo ter feito alguma coisa relevante...»
Bernard Tapie, antigo presidente do Marselha
Bernard Tapie, antigo presidente do Marselha (afundou o clube em casos de corrupção), ministro nos idos de Miterrand e empresário do jet set, está muito doente, um cancro no estômago e esófago obriga-o a luta sem quartel. Deu ontem para entrevista e afirmou que vai encontrando força sobretudo no carinho que sente dos adeptos do OM. É verdade e dá que pensar...
Campeão do Mundo
Pedro Lamy, fazendo equipa com o austríaco Mathias Lauda e o canadiano Paul Dalla Lana, sagrou-se campeão mundial de resistência de 2017, na categoria LM GTE AM, ao vencer as 6 horas do Bahrain. Longe vão os tempos em que Pedro Lamy, agora com 45 anos, fazia um anúncio televisivo em que dizia «tenho cara de miúdo mas já sou muito rodado» e é uma pena que um acidente numa sessão de treinos em Inglaterra lhe tenha cortado uma carreira muito promissora na F1. Mas o talento continua lá, no melhor piloto português de sempre...
Forma directa de passar mensagem
A Itália falhou a qualificação para o Mundial da Rússia e a indignação dos media transalpinos traduziu a frustração de uma sociedade que há 60 anos não vivia tal provação. A manchete do Il Tempo, reproduzida ao lado, é paradigmática, na brutalidade, à medida da desilusão: «Vão mas é trabalhar!»"
José Manuel Delgado, in A Bola
Os árbitros cada vez mais expostos
"Olhemos para a arbitragem de João Capela no Benfica - V. Setúbal. Não para discutirmos quem foi mais ou menos beneficiado, mas para tentarmos perceber um pouco melhor as razões que podem ter levado ao infeliz trabalho do árbitro no Estádio da Luz. Veja-se as estatísticas: 48 faltas. Como escreveu o Hugo Vasconcelos, Capela «usou e abusou do apito». Se quisermos ir mais longe, fora das áreas marcou tudo, o que era e o que não era, talvez para não dar azo a que um daqueles lances divididos acabasse num golo que - na Taça não há VAR - viesse depois a revelar-se precedido de irregularidade. Dentro das áreas, pelo contrário, não apitou nenhuma das vezes que devia - e devia ter marcado, pelo menos, um penalty para cada lado.
Claro que poderíamos ir, simplesmente, pelo facto de haver, em Portugal como lá fora, bons e maus árbitros. E encaixar João Capela numa dessas categorias. Mas seria demasiado redutor. Pensemos, antes, na forma como os departamentos de comunicação dos três grandes passaram a comentar, em tempo real, a actuação dos árbitros, piorando o ambiente - já de si hostil - em torno da arbitragem. Haverá, é certo, os que lidam melhor com a pressão. Mas mesmo que de forma inconsciente, e por isso não assumida, parece impossível que haja algum que não se lembre, antes de apitar a favor ou contra Benfica, Sporting ou FC Porto, do barulho que a sua decisão criará e a quem, ou ao quê, passará a ser associado. Ficam, pois, mais expostos ao erro. E têm tendência a defender-se, como fez Capela na Luz. Bem vistas as coisas, talvez seja esse o objectivo dessa estratégia de bater só por bater. Porque ter razão deixou há muito de ser o mais importante. Interessa é ganhar, custe o que custar. Mesmo que com isso se vá matando, aos poucos, o futebol."
Ricardo Quaresma, in A Bola
PS: Duas notas:
- primeiro, houve 5 lances duvidosos nas áreas: 4 na área do Setúbal, e 1 na área do Benfica (duas mãos na bola e lances com o Jonas e outro com o Krovi; e o lance do Varela). Quando se diz que ficou pelo menos um penalty por marcar para cada lado, até parece que o mal foi distribuído pelas aldeias!!!
- segundo, esta estratégia de critica imediata logo a seguir ao final do jogo, começou há mais de um ano... parece que só agora, depois do Benfica começar a imitar os outros, é que os opinadores, acham que se está a matar o futebol... Quando o Benfica se mantinha calado, e os outros faziam barulho, estava tudo bem...!!!
Como treinar a sorte no desporto?
"Quem treina e compete quer acreditar que o seu desempenho e sucesso não depende da sorte. Nada ou quase nada. Mas temos de ser realistas, a sorte existe e, segundo Huizinga, é um dos quatro pilares que caracterizam qualquer jogo. E com isto não significa que treinemos menos ou que deixemos que o «acaso» possa ter mais peso do que já tem naquilo que são as nossas marcas, desempenhos ou objectivos. E a sorte também não dá mais ou menos trabalho. As vitórias regulares é que dão muito trabalho. Alcançar objectivos ambiciosos mas realistas é que torna a sua exequibilidade num esforço constante e construtivo.
Então como se treina para se ter sorte ou menos azar? Não se treina. A definição de sorte enquadra-se aí mesmo, nesse equilíbrio de hipóteses em que podem acontecer determinados acontecimentos e que não dependem nada ou quase nada dos intervenientes. O que se treina é o modo como nos relacionamos com ela e como reagimos aos mesmos acontecimentos que nos possam parecer justos ou injustos. E aí sim, o treinador pode ter um trabalho fundamental no modo como os seus atletas e as suas equipas reagem nos momentos seguintes à dita sorte ou azar. O modo como o atleta mantém o seu equilíbrio emocional ou perde o controlo sobre aquilo que são as suas prioridades e qualidades, que não podem ser distorcidas ou diminuídas em função do descontrolo emocional que se apodera de nós.
O treino serve para que possamos depender menos do fator aleatório que é a sorte, mas por muito que treinemos ou queiramos controlar tudo durante a competição, sabemos que isso raramente sucede. As equipas e os atletas melhor preparados são aqueles que reagem melhor e de modo mais célere ao que vai acontecendo no jogo ou na competição. E nós não conseguimos controlar tudo, por muito que nos esforcemos. As melhores equipas parecem nem nestes momentos perder o controlo sobre o que pode ser realizado e como tem de ser realizado.
O conhecimento que o treinador tem de cada atleta permite-lhe que cada momento possa ser potenciado e gerido em função dos acontecimentos que se encaixam naquilo a que o senso comum define como sorte. E um dos factores que mais nos rodeia e nós nem damos por isso e que se pode encaixar nisso que é a sorte são os factores contextuais, que favorecem mais uns do que outros, pela simples característica que enquanto seres humanos nos adaptamos mais ou menos a situações completamente distintas.
Em tempos tive um treinador que durante os treinos «provocava» a sorte e o azar e que nos criava sem nos apercebermos uma situação de completa frustração e injustiça pelos factos que aconteciam à nossa volta. Só mais tarde percebi que o modo e o tempo que demorávamos a reagir àquilo não dependia apenas da competência técnica ou da importância que aquele jogo ou resultado tinha para cada um de nós, mas sim pelo controlo ou descontrolo emocional e pela capacidade de foco."
domingo, 19 de novembro de 2017
Bom jogo...
Benfica 6 - 2 Modicus
Se com o Rio Ave jogámos um pouco abaixo do normal, hoje, voltámos às boas exibições, mesmo com um golo sofrido nos primeiros segundos...!!!
As melhorias são evidentes, as contratações estão mais rotinadas... e o Cecílio confirma que é provavelmente o melhor rematador do futsal português!!! Aqueles Cantos, com a bola pelo ar, para o remate de primeira, sem deixar bater, deviam ir todos para o Fábio!!!
André Vilanova
"André Vilanova pediu à sua equipa para marcar um na própria baliza. Um hino supremo ao 'fair play'
1. Sim terá que ler minha ou meu cara(o) leitor(a) um pouco para entender das razões deste titulo bem merecido. Por ora relembro que a maioria dos jogos da quarta eliminatória da Taça de Portugal se vão disputar ao longo deste domingo. Por exemplo em Leiria o União recebe Aves e nos Açores o Santa Clara confronta-se com o Chaves. E com encontros entre quase vizinhos como o Moreirense - Felgueiras ou bem distantes como o Farense - Leixões. E com os principais árbitros a marcarem presença nos diferentes jogos que dão acesso aos oitavos de final de uma competição que pode levar à Europa e que vai proporcionando - principalmente aos pequenos clubes - um significativo alívio de tesouraria. Mas os europeus, em razão da ajuda do calendário nacional, já todos jogaram. Resta, no final deste domingo, o Vitória de Guimarães que terá de ultrapassar um Feirense que sabe que, sob o ponto de vista financeiro, pode recorrer a outros interessantes mercados em razão da nacionalidade do seu principal investidor. E, desta forma, e também no futebol, começamos aperceber que a globalização tem interessantes consequências. Há clubes, em rigor SAD's, que em razão da titularidade dos seus principais accionistas, podem recorrer a operações de conforto financeiro fora do espaço português ou até europeu. O que é uma significativa diferença em relação a outras entidades e sociedades. Mas hoje é a Taça que permite a disputa entre equipas do Campeonato de Portugal e outros emblemas da principal competição profissional. E estes momentos, que permitem tombas gigantes, mostram a força e a singularidade do futebol. Mostram também uma solidariedade que está para além das disputas semânticas que inundam e perturbam o futebol português. Que como elas estão a incendiar consciências e a perturbar inteligências.
2. Nos últimos tempos muito se fala de Direito, da sua construção, da sua aplicação, da sua violação, da sua prevenção, da sua privação, das suas decisões tardias ou não percebidas. Há novos problemas, bem contemporâneos, que por excelência a Sociologia do Direito tem de analisar com todo o cuidado. A corrupção é um deles. Como o das minorias marginalizadas. Ou dos grupos radicais urbanos. Ou do crime organizado que ultrapassa todas as fronteiras. Ou da delinquência juvenil. Mas um relativamente recente livro de Mário Vargas Llosa - 'A Civilização do Espectáculo' - aborda, com interesse, a questão da globalização e do não respeito pela lei. Seja estadual, internacional ou da autoregulação das instituições. Aquele famoso autor, como nos diz o professor brasileiro Reinaldo Dias, numa das suas últimas reflexões, «aponta que o despego à lei contribui para enfraquecer a democracia e consiste numa atitude cívica de desprezo ou desdém pela ordem legal existente e na indiferença que faz que o cidadão transgrida e burle a lei quantas vezes puder para beneficiar a si próprio, ou para manifestar desprezo, incredulidade ou zombaria em relação à ordem existente». Acredito que a Faculdade de Direito de Lisboa - a minha Faculdade! - poderá ajudar também nesta reflexão agora que acaba de assinar um protocolo de colaboração com a Federação Portuguesa de Futebol. Mas não tenho dúvidas que há outras personalidades e outras escolas que, se escutadas ajudarão a reflectir acercas deste momento concreto do futebol português. Para além do novo movimento que estará para além dos três grandes... mas sem que os «empréstimos sejam postos em causa», estou convicto. Já que em muitos casos, e em vésperas do mercado de Janeiro, tais empréstimos - ou novos! - serão determinantes para o sonho da manutenção na principal Liga de futebol... e, logo, para uma mínima estabilidade financeira. É que três milhões de euros de direitos televisivos é bem diferente de quinhentos mil... É, apenas, uma diferença de seis para um! Só depende da Liga em que se está! Ou na estimulante primeira ou na complexa segunda. E já William Somerset Maugham, no seu extraordinário livro 'A Servidão Humana' nos ensina que «o dinheiro assemelha-se a um sexto sentido, sem o qual não podemos fazer uso completo dos outros cinco»!
3. Na próxima semana muito do futuro próximo do futebol português na Europa poderá ficar decidido. A difícil deslocação do Benfica a Moscovo exige ambição e determinação. Sabendo que joga antes do encontro entre o Manchester United e o Basileia - o jogo é as cinco da tarde portuguesas - tem de tudo fazer para conquistar três pontos e ganhar por duas bolas de diferença. É uma tarefa complexa mas bem possível. É um jogo em que o frio - e ao que consta a neve - de Moscovo determina que estejam presentes, desde o primeiro minuto, as sábias palavras de Eric Hoffer: «A única forma de prever o futuro é ter poder para formar o futuro». E acredito que Rui Vitória e todo o plantel do Benfica tudo farão para que o símbolo russo por excelência - a águia bicéfala - não deixe de olhar, com insistência, e no final do encontro para ocidente. Na próxima quinta feira, o regresso da comitiva do Benfica a Lisboa, é para ocidente. Desejamos com o sonho europeu ainda presente. Bem presente!
4. André Vilanova. Registem este nome. Não foi notícia. Não mereceu reportagem televisiva. Nem post no Facebook. Nem referências de agências de comunicação ou de diligentes directores de comunicação. André Vilanova é treinador da equipa de benjamins do Vitória de Setúbal. No passado dia 11 - salvo erro - a sua equipa marcou um golo ao Comércio e Indústria quando o guarda-redes desta equipa estava a chorar, e no chão, depois de ter apanhado com a bola na cara. O árbitro não interrompeu o jogo como devia. O Vitória marcou golo. E o seu treinador - André Vilanova - pediu à sua equipa para marcar um golo na própria baliza. Um auto golo. Um hino supremo ao fair play. Um marcante exemplo. Bem merecia ele, e a jovem equipa, um registo inequívoco por parte da Associação de Futebol de Setúbal e da própria Federação Portuguesa de Futebol. Aqui não há que ter nem receio nem medo. Aqui não há que pesar as consequências de uma actuação ou de um procedimento. Aqui não há que criar um notícia boa para apagar um momento menos bom. Aqui há tão só que enaltecer e aplaudir. Já que a bondade, esta bondade, «é o único investimento que nunca vai à falência»! Nunca mesmo!
5. Há poucos dias comprei um interessante livro de um dos grandes árbitros deste milénio: Howard Webb. É uma autobiografia que nos ajuda a perceber o que é ser árbitro em determinados momentos e em certas circunstâncias. E não esquecendo aquele 11 de Julho de 2010 em Joanesburgo. A final de um Mundial após vinte anos de dedicação à arbitragem. Entre nós faltam livros como este. Ajudariam e muito o futebol, o nosso futebol. O futebol jogado e, logo, o apitado!
6. Os tempos são bem diferentes. Bem o sabemos. A todos os níveis. A 1 de Junho de 1961 o Benfica perdeu com o Vitória de Setúbal por 4-1 na segunda mão dos oitavos de final da Taça de Portugal. Estreando-se o Senhor Eusébio da Silva Ferreira. Foi eliminado da competição. No dia anterior - sim a 31 de Maio - em Berna conquistara o título europeu frente ao Barcelona. Talvez seja oportuno recordar estas singularidades! Em semana europeia de futebol!"
Fernando Seara, in A Bola
O novo modelo veio para ficar?
"Falemos de futebol e deixemos de parte o circo do ridículo.
Curioso, no mínimo, que Rui Vitória tenha repetido a ideia de ter apenas Jonas na frente num jogo de Taça contra o Vitória de Setúbal. O 4x3x3 será, então, e daqui para o futuro, o novo modelo do Benfica?
A pergunta é pertinente e a resposta, a ser dada no futuro, torna-se especialmente importante. Em primeiro lugar, porque, a continuar, esta alteração surge como confissão de um modelo anterior falhado e, a ser assim, deve ser reconhecido que vem um pouco tarde; em segundo lugar, porque é preciso entender se a alteração resulta de um claro défice de qualidade e intensidade de jogadores nucleares do meio-campo, ou se resulta da constatação do treinador quanto à ineficácia da actual relação das duplas Jonas-Seferovic, ou Jonas-Jiménez; em terceiro lugar, a expectativa de se saber se Rui Vitória tomou uma decisão de sentido único ou se o modelo poderá alterar-se em função do adversário.
Antes de conhecermos a resposta, a ideia de que, no novo modelo, o Benfica parece mais confortável, é uma equipa menos vulnerável a defender, mas continua a precisar de melhorar, e muito, a sua dinâmica ofensiva e a sua previsibilidade atacante.
Aparentemente será seguro dizermos que a experiência é para continuar no próximo e decisivo jogo na Champions. Talvez uma oportunidade definitiva para percebermos se Rui Vitória encontrou, finalmente, a melhor solução para crise colectiva daquele que é campeão nacional em título. Sendo que foi campeão com outro modelo e terá de fazer muito mais para ser de novo campeão com este modelo."
Vítor Serpa, in A Bola
Samba de um Jonas só
"1. O assunto parecia já estar mais do que discutido, mas, no jogo com o V. Setúbal, Rui Vitória acrescentou-lhe nova nuance, com a utilização de Jonas sozinho no ataque. O encontro, em termos teóricos, seria de sentido único, com o Benfica, ao contrário de situações anteriores em que a opção foi utilizada, a exercer grande pressão sobre o adversário. A experiência, como era de calcular, não convenceu. Se Vitória quer encontrar um lugar para Krovinovic, deve fazê-lo em detrimento de Pizzi e não de um ponta-de-lança.
Os nervos não largam
Sérgio Conceição
2. Mesmo tratando-se de um treinador jovem, Sérgio Conceição já nada tem a provar na esmagadora maioria dos múltiplos aspectos que um técnico de uma equipa de alta competição deve dominar. Mas ainda não aprendeu de todo a controlar a sua própria irascibilidade. Protagonizando episódios mais graves do que outros, foi assim ao serviço de Olhanense, Académica, Sp. Braga e V. Guimarães. Com a ida para o FC Porto, e mesmo vencendo mais vezes, não ganhou tranquilidade, como se viu na partida com o Portimonense, em que foi expulso à beira do fim, com a sua equipa em desvantagem no marcador.
Quatro grandes ligas têm
campeões anunciado
3. Em Espanha, França, Alemanha e Inglaterra, quatro das cinco ligas mais importantes do Mundo (a outra é a italiana), os campeões parecem encontrados, quando ainda faltam disputar cerca de dois terços dos campeonatos. Barcelona, PSG, Bayern Munique e Manchester City demonstram uma superioridade tal, que se lhes antevê um passeio mais ou menos tranquilo até maio do próximo ano. Quando se fala em ligas pouco competitivas não se pode pensar só no fosso entre grandes e pequenos. Há também enormes diferenças (algumas conjunturais, é certo) entre grandes e enormes."
“Assinei pelo Benfica com o coração. Naquela altura, ia ganhar mais num clube alemão do que alguma vez ganhei no Benfica”
"Meio ano depois de ter encerrado a carreira de jogador, aos 32 anos, Rúben Amorim inicia outro percurso: o de treinador. Começou esta semana o curso de grau I na Associação de Futebol de Lisboa e também já estava a tirar uma pós-graduação, na Faculdade de Motricidade Humana, em que José Mourinho é professor — e é ele a grande referência de Amorim, confessa o ex-benfiquista à Tribuna Expresso, apesar da influência de Jorge Jesus na sua carreira.
Então queres ser treinador.
Quero, quero. No princípio ainda estava a ver outras coisas para fazer, porque para a vida familiar não é muito fácil, mas... Não é como jogar futebol, ainda não é aquela paixão, mas é uma maneira de ficar ligado ao futebol e ao campo, porque acho que, como terminei muito cedo, ainda me falta qualquer coisa e estou a tentar tapar esse buraco. Não me via como dirigente, muito menos como empresário, não tenho feitio para isso. Não é que não o fizesse, se não tivesse mais nada para fazer, teria de ficar ligado de qualquer maneira, mas é isto que quero tentar seguir. Não sei se vou ser bom, se vou ser mau, mas vou ser.
Quando treinavas, enquanto jogador, já pensavas na lógica dos exercícios e da forma de jogar?
Já, já pensava muito. Como toda a gente sabe, joguei em muitas posições e sei um bocadinho de cada posição. Costumo dizer que essa conversa de 'ah, aquele jogador só joga numa posição e aquele consegue fazer muitas' é uma treta. Porque se és um jogador inteligente e se estás atento... Pode existir talento para defender, mas saber como se movimentar, seja a ponta de lança, seja a central, consegues sempre saber e adaptares-te. Por isso, ou estás disponível para te sacrificares em prol da equipa ou não. Sempre me prejudiquei bastante. Houve outras vezes em que até ganhei, porque não estava bem no clube e ia à selecção por fazer várias posições, também tenho noção disso. Mas estava sempre atento e, por ter tido muitas lesões, tive de fazer muita recuperação e perceber o porquê dos exercícios, perceber por que razão me andava a lesionar tanto... Isso deu-me uma bagagem diferente. Mas nessa altura não pensava nisso, não te vou dizer que desde os 20 e tal pensava ser treinador. Mas o facto de pensar, enquanto jogador, no porquê das coisas que fazíamos, ajuda-me hoje em dia para ser treinador, porque já tenho uma bagagem boa para começar.
Dentro de campo há jogadores que são líderes e vão guiando os outros, "fecha aqui, vai para ali...". Eras assim?
Sim, bastante. Acho que é importante todos os jogadores saberem as coisas. Há certos jogadores que não gostam de falar. Não é que gostasse de falar, mas isso saía-me naturalmente. O facto de ter sido treinado por um treinador como o Jorge Jesus... tive pontos altos e baixos com ele, mas trabalhar com ele dá-te uma bagagem muito grande, tacticamente falando, e dentro de campo usas isso a toda a hora. 'Fecha aqui, fecha ali', estás sempre a corrigir. Mas não era só eu. Por exemplo, o Luisão era incrível nisso e acho que a longevidade dele tem a ver com isso.
Sabe ler o jogo rapidamente e posicionar-se adequadamente?
Não só sabe posicionar-se melhor do que ninguém como sabe comandar os outros. As pessoas nem imaginam o quão importante é esse comando e ser-se a pessoa que o Luisão é, especialmente numa linha defensiva. Tenho um bocadinho esse feitio também. Mas acho que não é uma qualidade que um jogador tenha que ter, percebes? Não dá vantagem em nada, às vezes até ficamos frustrados mais rapidamente. Como sabes, estou agora a fazer a pós-graduação [em High Performance Football Training, na Faculdade de Motricidade Humana] e um dos problemas que tenho é mesmo esse: não consigo controlar a minha linguagem corporal quando algo está, a meu ver, incrivelmente errado, porque é uma coisa que já se devia saber a um certo nível e quando vejo certos erros que os meus colegas estão a fazer... Não é que eu seja melhor, atenção, é que, a meu ver, está errado e fico rapidamente frustrado.
Consegues exemplificar?
Dou-te um exemplo da última aula prática. Pedi a um colega meu para fazer um movimento de desmarcação quando a bola estava de um lado, ou seja, que fizesse uma entrada para dentro de área, como um extremo. E o movimento que ele fez pareceu-me incrivelmente básico, porque ele não pensou. A bola veio para trás, praticamente todas as linhas defensivas do mundo sobem, e ele não fez o movimento circular para entrar, ou seja, entrou directamente de frente, portanto entraria logo fora de jogo. Para outras pessoas é só corrigir e é isso que devo fazer enquanto treinador, mas, para mim, ali, foi uma frustração imediata e não consegui esconder isso. É um dos problemas que advém dessa forma de ser enquanto jogador, de estar sempre a corrigir.
Mas sabes que quando começares como treinador, seja na formação ou em seniores, vais levar com muitos jogadores com pouco conhecimento do jogo.
Sim, a diferença é entre ter ou não ter conhecimento do jogo, não é tanto pela idade, apesar de se ir adquirindo mais conhecimento ao longo dos anos. Sei que vou ter esse problema enquanto treinador, mas também sei - não quero estar a dizer impossível, porque não sabemos o dia de amanhã, se tivermos dificuldade em arranjar oportunidades - que dificilmente me vejo a treinar de juniores para baixo, porque sei que não tenho a parte pedagógica necessária, tenho a parte mais profissional. Com esta formação que estou a ter e falando com treinadores e colegas, consigo perfeitamente perceber que não poderei treinar escalões mais jovens, devido a esse problema de não aceitar coisas que para mim são básicas para se ser jogador de futebol. Vou ensinar, mas vou tentar levá-los a jogar como equipa, acho que nas pequenas coisas não tenho aquele talento para ensinar. Por exemplo, em sub-19, o principal foco para mim seria ensinar-lhes o que é o futebol profissional, não tanto a chutar ou a cruzar ou... Não é isso que me vejo a fazer porque não é isso que sei ensinar, o que acho que posso dar é ensiná-los como se joga no futebol profissional, a minha forma de ver o jogo, como encarar as situações, o treino, a intensidade do treino, o tempo fora do treino... Aí acho que seria uma mais-valia. Mas o meu grande objectivo é treinar homens, como costumo dizer, em que possa ser como sou e expor as minhas ideias como qualquer treinador.
Estou a ver um bocadinho de Jesus em ti.
É engraçado, porque enquanto jogador tive muitos problemas com o Jesus. Mas tive como outros tiveram, porque o Jesus é um treinador que cansa. É muita intensidade e muita informação táctica, todos os dias a carregar em cima do jogador, é muito perfecionista. Trabalhei muitos anos com ele e é óbvio que o meu nível de exigência é um bocadinho parecido com o dele, porque foram muitos anos, percebes? Mas também trabalhei com outros em que o nível de informação não era nem de perto nem longe o mesmo, nem o estar sempre em cima do jogador, e têm muito sucesso, como o [Leonardo] Jardim, por exemplo. É um treinador que conduz o grupo de uma forma completamente diferente da do Jesus e tem muito sucesso, por isso as minhas ideias são assim porque este é o meu feitio. Mas não serei um treinador como Jorge Jesus, porque temos feitios diferentes, apesar de eu ter sido muito influenciado pelos anos em que estive com ele. Acho que serei duro, no sentido de ser chato, porque não consigo esconder as coisas, mas não serei como o mister Jorge Jesus.
Jorge Jesus foi treinador de Ruben Amorim no Benfica, durante cinco épocas, e no Belenenses, durante duas épocas. Ao todo, foram sete anos de convivência diária.
No primeiro ano de Benfica, passavam praticamente todo o dia no Seixal e ele não apresentava um programa semanal. Era demasiado para os jogadores?
Acho que ele tem vindo a mudar. No primeiro ano do Benfica, ele queria dar-te muita informação e para te dar muita informação tens de ter mais tempo de treino e tens de ver mais vídeos. É verdade que a equipa no primeiro ano dele melhorou muito e jogámos de uma maneira que ele queria, mas ele esgota muito os jogadores, e como toda a gente pode ver ele tem que, de dois em dois anos, limpar o plantel. E não estou a dizer isto no sentido pejorativo, estou a dizer que tem de limpar porque é impossível um jogador aguentar tanto tempo com tanta informação como o mister Jesus dá. Muitos são vendidos, porque ele ajuda muitos jogadores, mas também prejudica outros, devido ao seu feitio. Há uns que lidam bem com essa pressão, há outros que lidam mal. Ele no primeiro ano dá-te muita informação, porque tem de mudar muita coisa em pouco tempo, mas depois vai relaxando e é diferente. É um excelente treinador, tem vindo a aprender com os seus erros, acho eu, mas tem um feitio muito especial, nunca vai mudar completamente. Vai manter-se fiel a ele mesmo, porque já tem muitos anos de futebol e, se nunca mudou, não é agora que vai mudar. Hoje em dia, o que tenho vindo a aprender neste momento em que estou fora e em que penso mais nas coisas, é que às vezes as pessoas dão muita importância ao físico e à táctica, mas, no fundo, temos de gerir homens, porque tu podes ter muita táctica e muito físico, mas a mente estar cansada e não teres os jogadores contigo. Essa ligação que deves ter com os jogadores é algo a que se deve dar muito mais importância e eu vou dar - pelo menos tentar. Há que criar uma ligação com os jogadores, deixá-los sempre com um pensamento positivo, alegres para o treino, para o jogo, de forma a que eles possam ter um bom desempenho, porque às vezes a parte táctica e física é secundária.
Alguma vez sentiste isso no balneário?
Todos os jogadores sentem isso, mas também sentem um grande à-vontade dentro do jogo, quando as coisas correm bem e estás a ganhar porque vais confortável para o jogo quando tens a informação toda. Isso ajuda-te muito a ser melhor jogador. Se conheces os adversários e sabes o que tens de fazer em todas as situações do jogo, vais mais liberto para o campo e isso ajuda muito. Nós sentíamos isso no jogo e dizíamos 'eh pá, custou durante a semana, mas no jogo sentimo-nos bem'. Mas é impossível não sentir que, por vezes, é demais. Mas acho que isso acontece com muitos treinadores. É o que te digo, cada vez mais penso nisso: um treinador de futebol não é como um engenheiro ou assim, em que fazes isto assim [gesticula] e vai sempre dar certo. Não, é preciso ter muita química com o grupo que tens, depois não tens química com este grupo, tens um mau resultado; vais para outro grupo, fazes a mesma coisa e já tens um grande resultado... É tudo muito subjectivo e acho que tem muito a ver com a tua forma de ser, porque tu não te podes inventar. Não chego ali a dizer assim: "Quero ser um gajo muito porreiro. Não, agora quero ser um gajo muito mau". Isso não funciona assim, tens a tua maneira de ser e de pensar e é por aí que vais.
Há a imagem do jogador de futebol ser burro. És demasiado inteligente para ser jogador?
Não [risos]. Há tantos jogadores inteligentes. Tu és jornalista e sabes bem que só se pode dizer aquilo que os clubes querem. Hoje em dia tu se dizes uma palavra mal tens logo um problema e os jogadores tentam fugir disso. Como só podem dizer três frases numa entrevista, ficam muito limitados e as pessoas não veem o outro lado do jogador. Mas acho que isso já começa a ser diferente. Os jogadores já se começam a formar. Tens o Tarantini, tens o Nuno Gomes, que enquanto era director da formação do Benfica tirou um curso na UEFA, tirou uma licenciatura... Não sou mais inteligente do que outros, a sério, não digo isto por dizer. A maioria dos jogadores é bastante inteligente e as pessoas nem imaginam o quanto. É uma inteligência específica, mas jogar com 60 mil pessoas a fazer barulho e tu veres quem está do lado esquerdo, quem está do lado direito, quem se está a desmarcar lá à frente... É preciso ter inteligência e saber lidar com o momento.
Quem foi o jogador mais inteligente com quem jogaste?
O [Pablo] Aimar. O Aimar era muito inteligente. O João Moutinho também, porque ele deve ser o jogador que conheço que consegue esconder melhor as limitações que tem. Ele é um grande jogador, não digo limitações por não o ser, digo é que todos nós temos limitações e ele é muito bom a esconder as dele. Depois tens o [Cristiano] Ronaldo, que é um jogador diferente.
Pelo físico?
Não só, porque há jogadores mais rápidos do que o Ronaldo, há jogadores mais fortes do que o Ronaldo, mas tudo combinado já é difícil de encontrar. Mas a inteligência com que ele se move, com que ele percebe onde a bola vai cair, isso é um grande nível de intuição e inteligência que ele tem. Dos outros jogadores... gostei sempre muito do Zidane e adorava o Xabi Alonso. Quando jogava a 'seis', olhava para o que o Xabi fazia, assim como o Busquets. Costumo ter guerras com os meus colegas da pós-graduação, porque toda a gente gosta muito do Casimiro e de outros jogadores assim e, para aquela posição, gosto de jogadores com mais inteligência do que velocidade para recuperar a bola e agressividade. Ah, outro com quem joguei: o Luisão é extremamente inteligente. A forma como ele lida com as limitações que tem. Ele nos últimos anos jogou sempre no Benfica, numa defesa quase sempre subida, e não é um jogador rápido. A verdade é que vemos um ou dois lances e dizemos logo 'ei, o Luisão não consegue acompanhar'. Mas vemos, sei lá, três vezes isso, em 30 jogos durante o ano. Ou seja, como é que ele é que joga em defesa subida e é capaz de evitar esses problemas a toda a hora. Isso é que é a inteligência de um jogador. Olha-se muito para as fintas e para essas coisas e por vezes esquece-se estes jogadores que conseguem estar sempre a um nível alto. Mas, como te dizia, o jogador mais inteligente, que se sabia movimentar, que sabia identificar o espaço... isso era o Aimar. Foi um jogador que me marcou bastante e eu olhava para ele, a ver o que é que ele fazia, para fazer também. Aliás, acho que se falares com os jogadores do Benfica... e até o próprio Jorge Jesus, se falares com ele, ele diz-te que tirou muita coisa da forma de jogar do Aimar. Por exemplo, hoje jogas com o Alan Ruiz no Sporting ou com o Bruno Fernandes e de certeza que os treinos têm muito do que o Aimar trouxe para a nossa equipa naquela altura. O mister reparava bastante no que o Aimar fazia. Era um jogador diferente.
Influenciava o treinador e os colegas a jogar e a comunicar?
Comunicar ele não comunicava. Claro que comunicava no treino, 'passa aqui, joga aqui'. Mas ele comunicava mesmo era com os movimentos que fazia, com a forma de estar, com a forma como pedia a bola mais forte ou mais fraca... Era uma coisa que ele tinha e sabia sempre como receber a bola, com que pé, como girar com a bola... Lembro-me de exercícios que o mister Jorge Jesus fazia depois do Aimar, que eu sabia que eram do Aimar. Quer dizer, o exercício não era do Aimar, ele queria era que os outros fizessem o que o Aimar fazia. Isso foi algo que de certeza que ficou nos treinos dele. Um dia que fales com ele podes ter a certeza que te vai dizer isso.
Pablo Aimar e Jorge Jesus conviveram no Benfica entre 2009/10 e 2012/13.
Ainda falas com o Jesus?
Mandei-lhe uma mensagem quando o pai faleceu, mas não falo com ele... Por mais que as pessoas pensem que tinha uma relação especial com o mister Jorge Jesus, nunca tive.
Ele disse que eras o jogador que o conhecia melhor.
Estive muitos anos com ele, mas foi sempre uma relação de treinador com jogador. Posso dizer que falo com outros treinadores mais vezes do que com o mister Jorge Jesus. Agora, se me perguntares qual é que foi o treinador que mais me influenciou enquanto possível treinador, foi ele. Quando passas sete anos da tua carreira com ele, ficas marcado. Há jogadores que só aguentam uma época com ele e eu passei sete [risos].
Há diferença muito grande dele para outro treinador, no primeiro ano?
Sim. Ele no início teve muitos problemas no Benfica com isso que estavas a dizer, eram muitos treinos, depois banhos e massagens e vídeos à tarde, e isso às vezes é difícil para os jogadores, porque não estão habituados a lidar com isso. Parece um pouco um pecado, para o resto da população, mas o jogador tem o esforço físico do treino, faz o tratamento, os alongamentos, e depois tem de ir para casa, porque, como te disse, mentalmente, é uma pressão grande. Se estiveres sempre lá dentro estás sempre no jogo e no treino e isso cria-te mais ansiedade, mais problemas. Por isso é que os jogadores normalmente gostam de treinar de manhã e depois ir à vida deles. Mas no primeiro ano dele tínhamos muitos vídeos, muitas coisas. Lembro-me que havia jogos da Taça de Portugal em que jogávamos contra clubes da 2ª divisão B e nós tínhamos mais informação sobre eles do que eles sobre nós. Isso revela muito do pormenor com que o mister Jesus trabalha. Como passei muitos anos com ele, já sabia para o que ia. O primeiro choque é sempre diferente [risos].
Um jogador que treina de manhã depois faz o quê no resto do dia?
[risos] Ao início, quando és novo, vais para casa, almoças, vais beber um café, jogas Playstation... Depois quando tens a tua família vais tendo mais tempo para a família, estando com os teus filhos, tens outras preocupações. Começas a ter uma vida separada do futebol, a pensar no teu futuro e consoante vais subindo vais vendo o que queres fazer a seguir. Investes também na tua recuperação, à tarde, com aparelhos, com os Compex [eletroestimulador], com essas coisas... É uma vida normal. Quando és miúdo, treinas de manhã e tens paródia à tarde [risos].
Um jogador é muito assediado?
É, não vou dizer que não, principalmente no Benfica. Nós não somos parvos, eu não sou parvo. Mas também não é tanto como se pensa. Costumo dizer que os jogadores da bola têm essa fama, mas nós passamos o tempo todo com homens. Vamos para estágio temos homens, temos seguranças à porta, já não é como é antigamente, que diziam que se entrava no hotel [risos], é tudo muito controlado. Os médicos passam as noites nos hospitais e há enfermeiras, os actores têm actrizes... há montes de profissões que têm muito mais contacto com o sexo oposto do que os futebolistas. Acho que os futebolistas têm mais fama do que proveito.
Rúben Amorim foi emprestado pelo Benfica ao Sporting de Braga, em 2011/12 e 2012/13.
Um futebolista que geriu bem a carreira, quando se reforma, já não precisa de trabalhar mais? Já não precisas de trabalhar?
É mais por prazer, sim. Como é que hei-de explicar... Poderia ter ganhado muito mais dinheiro do que ganhei, às vezes as pessoas pensam que os jogadores ganham milhões a toda a hora e não é assim. Mas se não tiver nenhum azar... Porque podes ter um azar, podes pôr o teu dinheiro no BES e depois ficas sem ele. Mas neste momento só quero ser treinador para seguir uma paixão e ter chatices [risos]. Porque se quisesse estar sossegado, levo uma vida bastante normal - normal não, levo uma vida acima da média, mas acima da média controlada. Não tenho um estilo de vida em que tenha de arranjar trabalho se não daqui a cinco anos fico sem o dinheiro. Isso é mentira, não sou nada assim. Não sou nada de gastar, também porque tenho uma mulher que pensa como eu. Aliás, que é muito pior do que eu [risos]. Quando tens um ambiente familiar assim, que te ajuda a ser controlado e a pensar no futuro, sim, posso dizer que só vou trabalhar porque quero arranjar chatices [risos].
Um treinador tem muito menos tempo livre do que um jogador.
Muito menos. Há que preparar tudo e depois lesiona-se um jogador e tens de mudar tudo [risos]. Depois, sei lá, tens pressão a toda a hora dos adeptos, da direcção, tens de pensar em mil e uma coisas, as viagens, tudo passa pelo treinador, mas claro que se tiveres um staff... Costumo pensar que eu para ser bom treinador a primeira coisa que tenho de fazer bem é chamar pessoas para junto de mim para trabalhar bem, porque o staff faz mais de meio trabalho. Acho que um treinador é feliz com um staff quando só tem de decidir, basicamente, uma dúvida entre um jogador ou outro. Isso é um treinador feliz. Claro que decide o resto, mas está sempre tudo encaminhado, no tipo de treino tens alguém que pensa e que te dá o que queres, tens um staff que te arranja as melhores viagens, uns fisioterapeutas que deixam os jogadores sempre fresquinhos, assim como o fisiologista... Isso é meio caminho andado para um treinador, porque tu podes ser muito bom treinador, mas depois se o staff é mau e não tens ninguém que te diga não quando estás sempre a dizer que sim, ou que te diga as verdades à séria...
Quando falei com o Lima e com o Miguel Vítor, ambos disseram que o palhaço do balneário eras tu. Confirmas?
[risos] Sou um rapaz muito alegre, mas é mais no meu círculo fechado. Sempre fui dado assim às palhaçadas e fazia muitas. Tenho muitas saudades do balneário, porque, no fundo, tu és uma criança ali. Só entrei na fase adulta quando deixei de jogar futebol. Mas pronto, sempre fui dado à palhaçada e tenho algum jeito para imitar.
Rúben Amorim a festejar a conquista da Taça da Liga em 2009/10, na sua segunda época no Benfica - e primeira época de Jorge Jesus na Luz.
Imitavas o Jesus?
Sim, imitava várias vezes o Jesus e o mister sabe [risos]. Sempre com respeito. Lembro-me que quando ele ia para a reunião da UEFA de treinadores e faltava ao treino, eu é que dava a palestra. Vinham o Raúl [José, treinador adjunto], o Mário Monteiro [preparador físico], os fisioterapeutas... Todos vinham ver a palestra do mister JJ nesses dias [risos].
Depois vais um ano para o Qatar, em 2015/16, e não há nada disto no balneário.
É totalmente diferente. A cultura é outra. Também era para ir para uma equipa, depois fui parar a outra e era uma equipa muito pequena, com muitos problemas - aliás, todas as equipas lá têm muitos problemas, em termos de organização. Fui para um clube completamente diferente, mas não foi isso que me chocou. O que me chocou mais foi a minha frustração. Fui expulso duas vezes e nunca tinha sido expulso em Portugal. Fazia-me confusão como é que às vezes, sei lá como explicar, imagina que a bola estava de um lado e o lateral estava do outro lado encostado à linha... Eu ficava completamente... Não conseguia controlar. Tive muitos conselhos deles, do género 'Rúben, se levares isto a bem, podes ficar cá cinco anos a ganhar muito, muito dinheiro'. E eu dizia 'sim, sim, é isso que quero fazer'. Pensava que não queria saber da parte desportiva, mas depois chegava ao campo e não conseguia. Era impensável conseguir lidar com aquilo, jogadores a cumprimentarem-se e a falarem a meio do jogo, enquanto nós estávamos a perder... Fazia-me muita confusão e não conseguia lidar com isso. Eu que nunca tive problemas com ninguém, quando estava lá tive problemas com colegas, tive problemas com dirigentes, tive problemas com adversários... Numa expulsão dei um encontrão num rapaz, coisa que nunca fiz, e toda a gente me conhece e sabe disso. A outra expulsão foi porque fiz uma entrada que ia arrancando a perna de um rapaz e eu sou contra isso, nunca na vida queria fazer mal ao rapaz, mas estava tão enervado e tão frustrado... Foi difícil para mim adaptar-me a essa realidade. Não tanto a parte de quase não ter equipamentos para treinar ou não ter fisioterapeutas porque às vezes não iam... Isso não me fez confusão, o que me custou muito foi a parte desportiva.
Se já tens um nível alto de conhecimento, é difícil voltar atrás, por assim dizer.
É verdade, sim. Como já não estava bem fisicamente, tive outra vez muitos problemas nos joelhos no Qatar, custava-me muito lidar com os treinos e com os jogos, também porque não tinha uma preparação tão boa como tinha no Benfica, e isso fazia a diferença. Esse foi um dos pontos que me fez acabar, porque eu não quis baixar o nível. Baixei o nível para ir para o Qatar, claramente, mas para voltar ao futebol a sério, não queria baixar o nível. A última reunião que tive com o Benfica, com o presidente [Luís Filipe] Vieira, ele perguntou-me se eu queria mesmo desistir ou se queria voltar a jogar pelo Benfica. Fui sincero, disse que não sabia se conseguia e não queria arriscar. Agora consigo dormir descansado. Já tive mais mágoa. Fiquei frustrado por deixar deixar a bola cedo, mas já me passou. Se tivesse voltado, não sei o que seria, porque poderia não conseguir estar ao nível e seria muito difícil para mim lidar com isso e estar lá só por estar. Não queria que a minha imagem fosse diferente, porque como sabes a última imagem é que fica e não quis estragar isso.
As lesões foram a pior parte da tua carreira?
Sim. Tive lesões muito cedo, porque tive uma pubalgia em miúdo, pelos 20 anos, e naquela altura operava-se as pubalgias, o que me criou desequilíbrios nos adutores. Mas o ponto de viragem foi mesmo as tendinites nos joelhos, aí aos 24 anos. Vinha de uma boa época e fui ao Mundial-2010, mas já estava cheio de dores. Tinha um nível diferente, sentia-me de outra maneira antes das tendinites. Assim que começou a lesão... tentámos tudo no Benfica, mas tive de ser operado. E quando fui operado demorei dois anos a recuperar bem. Só quando saí de Braga, dois anos depois da lesão, é que comecei a treinar sem dores. Até lá, tinha muitas dores. Houve dias em que saí do treino, não podia fazer dois treinos por dia - há muita coisa que as pessoas não sabiam. Aí assustei-me, porque pensei que já não conseguia. Até que saí de Braga, voltei para o Benfica... Fui porque o presidente Vieira, sou sincero, disse que eu não saía, porque eu já tinha ido para Braga e não queria voltar porque não queria voltar a trabalhar com o mister Jesus, na altura. Não queria e ele e toda a gente sabe, mas foi o melhor que me aconteceu, porque voltei ao Benfica e voltei a ser importante. Ganhámos tudo nessa época, perdemos só a Liga Europa, e foi muito bom para eu poder encarar a minha vida de uma forma diferente, porque limpei um bocado aquela imagem de estar sempre lesionado, consegui aí ter uma certa estabilidade, voltei a ir a um Mundial [2014] e foi um ano muito importante na minha carreira - foi o único ano em que não tive dores. Para mim foi a maior felicidade, mais do que os títulos, foi esse ano limpinho. Até que no ano a seguir, no início de época do Benfica, em que estava muito bem e podia ter dado um salto diferente, tive a lesão no Bessa, no cruzado [rotura total do ligamento cruzado do joelho direito]. Depois recuperei do cruzado, mas as tendinites voltaram com muita força e senti que tinha de ir para o Qatar e falei com o presidente e disse-lhe que tinha de seguir outro caminho.
Rúben Amorim esteve no Mundial-2010 e no Mundial-2014 e acumulou 14 internacionalizações pela selecção A.
Vês-te como futuro treinador do Benfica?
Sim, mas para já ainda é cedo.
És benfiquista.
Sim. É certo que um treinador tem que ter as portas abertas em todo o lado, mas, a meu ver, é preferível ser sincero com as pessoas, porque se for treinar um clube qualquer que seja adversário directo do Benfica, acho que as pessoas preferem que diga 'sou do Benfica, mas sou profissional', do que estar a dizer que era um boato. Já joguei contra o Benfica mil vezes, mesmo emprestado, e toda a gente sabe que, quando chega o momento, separo as águas. Agora, vejo-me a treinar o Benfica, o que será treinar um grande clube mundial. Claro que só o tempo o dirá e é preciso tanta sorte, além do saber, por isso ainda nem penso nisso, só penso em começar a carreira e logo se vê.
Que equipas gostas de ver a jogar?
Vejo um bocadinho de tudo. Não sou treinador, estou a pensar ser, mas olho para um jogo e não estou a olhar só para a bola, estou a olhar para outras coisas. Sinceramente, a minha prioridade, neste momento, é o Miguel [o filho de um ano], e às vezes não consigo ver. Por exemplo, ao sábado, às vezes perco muitos jogos que são grandes jogos, para estar com ele. Mas sempre que posso, vejo. Gosto de ver o Nápoles, porque é uma equipa tacticamente muito forte, e gosto do United, porque o Mourinho é a minha referência. Há treinadores que têm uma forma de ver o jogo que eu gosto, como o Guardiola, mas, para mim, a referência é o Mourinho, porque vejo a bola de forma mais parecida com o mister Mourinho, ou seja, analisa muito bem os adversários e mete a sua equipa, não só com um determinado modelo de jogo mas a pensar muito como é que se adapta para ganhar. E eu sou um bocado assim. O Guardiola claro que também se adapta, mas nem tanto: a bola é para sair pelo guarda-redes e vai sempre pelo guarda-redes. Gostava de ser assim, porque são os que têm melhor reputação no mundo do futebol, são aqueles gajos do futebol bonito, mas eu identifico-me mais com o outro lado, mais a pensar como é que vou bater o adversário e como é que vou tentar que ele não marque golos. Portanto, vejo o Nápoles, o United, o City... gosto de ver o Real Madrid por prazer, não tanto pelo lado táctico, porque acho que aquilo sai muito da cabeça dos jogadores, não de um pensamento de um treinador. Apesar de achar o Zidane um excelente treinador, porque aquilo acaba por ser uma gestão de homens, chegas a um patamar em que, mais do que inventar, é gerir, e acho que ele foi fantástico a gerir no Real Madrid. Mas, para ver, tacticamente, e pensar no jogo, não é uma equipa que eu veja com olhos de ver.
Consegues apontar algum jogo especialmente perfeito, em que tenham entrado com determinada estratégia e conhecimento e aquilo tenha funcionado quase tudo? Ou, pelo contrário, um em que tenha corrido tudo mal.
Nos 5-0 com o FC Porto correu-nos tudo mal. E tudo bem ao FC Porto. O David [Luiz] foi para defesa esquerdo e ele é um jogador rápido e forte, toda a gente percebeu o intuito da mudança, mas não funcionou nada como nós queríamos e depois eles estavam embalados e foi um dia muito difícil. Há dias em que nada corre bem. E depois há outros em que corre tudo bem. Lembro-me, por exemplo, do jogo com a Juventus, em Itália. As pessoas podem pensar que estávamos ansiosos mas tínhamos a lição bem estudada e estávamos confortáveis no jogo. Acho que acabámos o jogo com nove ou oito, porque o Garay também teve de sair, mas sinceramente nós em campo estávamos confortáveis, porque sabíamos tudo sobre a outra equipa e isso deu-nos muita tranquilidade para encarar o jogo, mesmo com os 60 mil adeptos e contra uma equipa muito forte. Estávamos tranquilíssimos e confortáveis a gerir o jogo.
Há uma jogada no final, acho que foi num canto, em que eles passam a bola para trás e vocês encurtam todos rapidamente antes do cruzamento e eles ficam todos fora de jogo. É muito trabalho colectivo.
Sim, nós nesse aspecto... Há que dar mérito ao mister Jesus. Às vezes estou aqui e acordo cedo por causa do Miguel e ponho-me a ver um canal qualquer, porque agora há muitos canais de futebol, e vejo os juvenis, por exemplo. No outro dia estava a ver o Belenenses com o Sporting e vi os jogadores do Belenenses a construírem a três, vi a bola a ir para trás e a defesa a subir... Antigamente não se via nada disso e acho que o mister Jesus - não foi ele que inventou, não é isso que estou a dizer, porque é algo que já vem de Itália há muitos anos -, mas é algo que hoje em dia é banal ver-se na 1ª Liga e lembro-me que na altura em que comecei a trabalhar com o mister nunca tinha ouvido falar nesse tipo de movimentos. E em treinar esses movimentos, porque tu podes saber, mas a forma como se treina e como se liga as coisas é muito importante, e ele é muito forte nesse aspecto. Consegues ver pelos movimentos que toda a gente sabe o que tem de fazer e está uma linha mesmo certinha - isso só pode vir de muito treino.
Ruben Amorim a disputar a bola com Arturo Vidal durante o Juventus-Benfica (0-0) de 1 de maio de 2014, para a 2ª mão das meias-finais da Liga Europa (na 1ª mão, o Benfica tinha vencido por 2-1).
Os jogadores têm noção do que se diz cá fora deles? Por exemplo, agora há o Eliseu, que é tido como o gordo. Se calhar na tua altura era o Luís Filipe a ser apontado como o elo mais fraco.
É engraçado, porque o Luís Filipe é meu cunhado, as pessoas não sabem [risos]. Como é óbvio estive muito com o Luís e ele sofreu muito com o ambiente do momento em que entrou. Lembro-me que uma das coisas que me marcou bastante no Benfica foi o momento em que entrei. Estava no Belenenses, depois de Janeiro ficava livre e assinei pelo Benfica, tudo de acordo com o Belenenses, que recebeu bastante dinheiro da formação. Houve conversas do Benfica com o Belenenses para eu ir logo em Janeiro, mas o mister Jesus [era treinador do Belenenses] disse que era impossível e não fui. Foi a melhor coisa que me aconteceu, porque a diferença que houve de organização de um ano para o outro, quando chega o Quique [Flores], foi inacreditável, pelo que disseram no Benfica. E isso acho que prejudicou muito, por exemplo, o Luís Filipe, pelo momento. No caso do Eliseu, o Eliseu sabe o que dizem, mas ele tem uma coisa... Quanto mais um jogador é, não digo aluado, mas despassarado.... Eu sempre fui um jogador que pensava muito nas coisas, mas isso às vezes é prejudicial, porque estás sempre a pensar, sempre a remoer, e isso cria-te mais ansiedade e mais responsabilidade. E acho que o Eliseu não sofre nada disso, pelo contrário, por isso por mais que possam dizer mal do Eliseu, ele vai levar isso tranquilamente, porque passa-lhe ao lado.
É especial disputar um Mundial?
É muito diferente. Cresces a querer jogar na Liga dos Campeões e num Mundial. Mas sabes que sempre senti menos responsabilidade na selecção do que no Benfica, talvez por também não ter a mesma importância na selecção, tinha noção disso. Mas acho que tinha a ver com o facto de o Benfica sempre ter tido um peso na minha vida. A minha família é toda adepta do Benfica e eu venho de gostar do Benfica, era mesmo maluquinho pelo Benfica quando era miúdo. Isso criou-me um peso diferente.
Quem era a tua referência no Benfica?
Oh pá, eu gostava muito do João Pinto, porque eu sou do tempo dos 6-3, não é? [risos] Os 6-3 foi o melhor jogo que vi na minha vida. Foi, foi, mas de longe. Lembro-me de estar em casa, tinha uns 12 anos, e lembro-me de chegar ao intervalo cansado [risos]. Tenho esta noção, lembro-me de me sentar no sofá, porque aquilo de vez em quando era em pé, e de estar cansado. Acho que foi o jogo mais memorável que me lembro de ter visto.
Então quando assinas pelo Benfica é um sonho ou já é algo normal, por seres profissional de futebol?
Sim, já é algo mais normal, não tem nada a ver. Mas assinei pelo Benfica com o coração. Para teres noção, naquela altura, iria ganhar mais num clube alemão que me queria do que alguma vez ganhei no Benfica, mesmo no último ano, em que já tinha renovado e já com algum estatuto. Lembro-me de estar reunido com um empresário alemão, que fazia ligação com o Carlos Gonçalves, que era o meu empresário, e ele só metia as mãos na cabeça, não percebia como é que era possível eu assinar pelo Benfica, que nem me dava metade do que os alemães davam. E isto nem contando com os prémios. Hoje tu olhas para o Benfica e o Benfica é tetra, tem uma organização incrível, mas quando eu entrei era outro Benfica. Jogadores portugueses, nem pensar, e foi-me dito mil vezes para escolher outros clubes, porque, vindo eu de um clube mais pequeno, não teria hipótese lá, só me iria queimar, e fui contra tudo isso e consegui singrar. Na altura foi uma direção que tomei sem razão, só a pensar no coração. E estou feliz. Porque quando era miúdo gostava de ver o Benfica e o Milan. Lembro-me de ver cassettes do Milan com Maldini, Baresi, Gullit, Rijkaard, Savicevic... Os meus sonhos de miúdo eram jogar no Benfica e no Milan. Cumpri um. Agora tenho de ser treinador no outro [risos]."
Cadomblé do Vata
"1. Ganhamos ao Vitória do Couceiro... isto é tão invulgar, que sinto que hoje seria o dia em que conseguiríamos vencer uma final europeia.
2. Sim era penalty do Varela sobre o Paciência, mas não é erro de arbitragem porque o nosso guardião defendia-o... tal como defendeu o lance em que o Semedo apareceu a fazer uma recarga tão em fora de jogo, que o sitio onde ele estava, não sofria de seca severa como o resto de Portugal
3. Estou confiante que Keaton Parks vai ter muito sucesso no SLB... pelo menos nós sempre nos demos bem com estes nórdicos altos, loiros e (nada) toscos.
4. Depois de ver novamente Douglas em acção, só consigo pensar numa coisa... ele está no mesmo balneário do Rúben Dias e quem teve a apendicite foi o puto...
5. O Vitória levou 2 secos na Luz, foi eliminado da Taça de Portugal e o Arnold não acabou o jogo sentado no banco a chorar que nem uma Madalena... o rapaz está feito um homenzinho."
sábado, 18 de novembro de 2017
Vermelhão: Obrigação cumprida...
Benfica 2 - 0 Setúbal
Qualificação garantida, afinal o mais importante. Estes jogos, após-Selecções são sempre muito ingratos, muitos jogadores passaram este longo 'intervalo' nas Selecções, os que ficaram tiveram vários dias de folga... e alguns que tiveram a oportunidade de regressar à titularidade não têm o ritmo normal de jogo, por não serem opção principal nos últimos tempos! Tudo somado, uma equipa com muitos 'remendos'...
Discutiu-se no pré-jogo, qual seria a opção do treinador: manter o 433 ou voltar ao 442... Pessoalmente, defendo que neste tipo de jogos devemos jogar sempre com dois avançados... até posso compreender que os próximos dois jogos - Moscovo, Corruptos -, o 433 seja o ideal, e assim o treinador pretendeu reforçar os 'automatismos'. Regressar hoje ao 442 podia 'confundir' os 'mecanismos', mas assim jogámos com pouca presença na área...
Sendo que para Moscovo, ainda ira existir um problema extra: o Krovinovic não está inscrito na Champions!!! E este 433, tem resultado em alguns momentos, muito devido à qualidade do Croata!
O jogo não foi muito entretido, não houve muitas oportunidades... o Benfica atacou mais, a vitória é justa, mas o regressado Varela também teve algum trabalho...
Destaco a estreia do Keaton Parks, o norte-americano tem tudo para ser 'jogador': qualidade técnica, físico, inteligência... Joga simples, não complica, defende e ataca com qualidade, precisa só de ser um pouco mais agressivo...!
O Douglas confirmou que não pode ser defesa-direito no Benfica, pois defensivamente não tem qualidade...
Uma nota ainda para o Capela: péssima arbitragem. Mesmo considerando que as bolas na Mão dentro da área não foram deliberadas, no critério de faltas a meio-campo esteve simplesmente horrível. Se o jogo foi feio, muito se deveu às faltas e faltinhas que ele foi marcando, sempre em favor do Setúbal, assinalando todos os 'mergulhos', mesmo os mais escandalosos... Recordo que o Capela era um dos árbitros, com um critério mais 'largo' no Tugão, e por isso teve problemas em alguns jogos, mas aparentemente está totalmente condicionado pela campanha de coação que tem sido feita contra o Benfica!!! Esta semana, até o Setúbal se queixou da nomeação do árbitro no pré-jogo...!!!
Líderes...
Apertada !!!
Benfica 83 - 81 Ovarense
21-20, 21-14, 18-20, 23-27
Apesar do resultado 'apertado', deu sempre a sensação que se fosse necessário o Benfica teria 'acelerado', e daria o 'golpe final'... mas ao manter o adversário por perto, acabámos por dar esperança à Ovarense, e nos segundos finais tudo podia mudar...
Compreendo que não é fácil gerir o físico e a motivação com sucessivas semanas a jogar na Europa, mas seria mais prudente, gerir vantagens maiores!!!
Apesar do jogo abaixo do nosso potencial, a Ovarense só chegou ao final 'dentro do jogo, porque o trio de arbitragem permitiu uma agressividade defensiva muito 'acima' das regras! É habitual no Basket os árbitros, equilibrarem aquilo que deverá ser desequilibrado, mas hoje exageraram... Critérios completamente diferentes nos contactos, felizmente os jogadores do Benfica já estão 'vacinados' para este tipo de situações, e já nem sequer protestamos, pois só iria servir para os jogadores desconcentrarem-se...!!!
Mais uma...
Benfica 3 - 0 Leixões
25-16, 25-12, 25-21
Mais uma vitória, nas vésperas da estreia Europeia... contra um adversário acessível, mas que já deu trabalho a muita gente (por exemplo: perderam por 3-2 com o Sp. Espinho!).
Rotação completa na equipa, com a estreia do Winters, e com o Mrdak e o Dusan mais integrados na equipa... Creio que este ano, com mais alguns 'automatismos', vamos mesmo ter 2 equipas, quase ao mesmo nível!!!
1.ª classe e sem classe nenhuma
"Por onde anda António Pimenta Machado? Onde parará o homem que foi presidente do Vitória de Guimarães durante um quarto de século e que ficou para a história ao resumir numa frase a insofismável natureza da verborreia da indústria: "No futebol o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira", disse no século passado. A propósito de quê já ninguém se lembra – talvez do iminente despedimento de um qualquer treinador… – mas a realidade é que o seu axioma não só perdura como se revigora a cada dia. Esta semana, então, tem sido um exagero.
Faz falta aquela verve única e descomprometida de Pimenta Machado que, talvez por não ser presidente de nenhum ‘grande’ e por ter fortuna própria, podia dar-se ao luxo de dizer o que lhe ia na alma antes de haver redes sociais e directores de comunicação. Muitos gostariam de conhecer a opinião que terá hoje António Pimenta Machado, se ainda tiver paciência para estas coisas, ao ouvir "o pior funcionário do Mundo", o ex-futebolista Manuel Fernandes segundo o seu ex-actual-patrão, afirmar que o seu ex-actual-patrão não passa a vida a dizer que "trabalha 24 horas por dia" quando, comprovadamente, passa mesmo a vida a proclamar que trabalha 24 horas por dia? E o que teria a dizer hoje António Pimenta Machado, se é que segue estas aventuras culinárias, sobre "o melhor funcionário do Mundo", Francisco José Marques, publicando sobre cefalópodes neste outono quando ainda no último inverno as paredes das casas, dos escritórios e as montras dos restaurantes dos seus patrões e afins foram pintadas a tinta de choco por adeptos portistas – "híbridos", certamente – em fúria? Em fúria, sim, vá lá saber-se porquê.
Volta o futebol a sério neste final de semana com a Taça de Portugal depois de uma paragem devida a dois jogos amigáveis da nossa Selecção neste período que pode ser chamado de tudo menos de amigável no âmbito alargado do futebol português. Até insultos tem havido. Neste interregno, o presidente do Benfica, por exemplo, chamou "merceeiro" a um comentador afecto ao clube, o que pode ser considerado um insulto. O presidente do Sporting, para não ficar atrás, insultou Luís Filipe Vieira, António Salvador, Augusto Baganha, Octávio Ribeiro, Ribeiro e Castro, Pedro Madeira Rodrigues, Paulo Pereira Cristóvão, Rui Santos e todos os sportinguistas que não o amam a quem chamou "vermes", o que também poderá ser considerado um insulto. O presidente do Porto não insultou ninguém. Está a aprender francês.
A última prestação de João Gobern no programa ‘Trio de Ataque’, da RTP3, foi o melhor momento de comunicação em prol do Sport Lisboa e Benfica desde que Eliseu saltou para a lambreta na festa do ‘tetra’. Que classe, Gobern. Aliás, nestas coisas, só há duas classes: 1.ª classe e sem classe nenhuma."
O lado mais belo do futebol
"As palavras de Abel Ferreira, treinador do SC Braga, deviam fazer-nos pensar. «O segredo é sermos felizes, sendo intensos em todos os momentos da vida. A vida são dois dias e só nos lembramos disso quando acontece alguma coisa às pessoas mais próximas», disse ontem o treinador do SC Braga quando convidado a comentar as infelizes insinuações - de Nuno Saraiva, director de comunicação do Sporting, depois do encontro com os bracarenses. Cada um é feliz à sua maneira, mas querer responder a todos os ataques é (mais que uma perda de tempo) dar importância a quem não tem importância nenhuma. Percebessem todos isso e o ar seria bem mais respirável.
As palavras de Abel Ferreira fazem-nos também lembrar (não devia ser preciso, mas pronto...) aquilo que o futebol tem de melhor - em Portugal então, isso é cada vez mais flagrante: jogadores e treinadores. Isso ficou, de resto, bem claro nas entrevistas de Jonas e Luisão, o primeiro a dizer sem problemas que o FC Porto pratica, neste momento, o melhor futebol na Liga e o segundo a falar sem assombros da importância que Jesus teve na sua carreira. Pena que por cá, ao invés de ouvirmos os verdadeiros protagonistas do jogo, tenhamos de levar, todos os dias, com figurinhas que, com mais ou menos humor, mais não fazem do que tornar feio o que devia ser, sempre, belo. É o que temos. E talvez, se calhar, o que merecemos...
PS: O lado mais belo de futebol mostrou-o ontem também o Portimonense no Estádio do Dragão. Os algarvios foram eliminados, sim, mas a forma como abordaram o jogo merece todos os elogios. Devia ser sempre assim. Talvez de passasse a falar sempre do que de facto interessa."
Ricardo Quaresma, in A Bola
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