Últimas indefectivações

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Finalmente!

"Finalmente! Após uma série de títulos nacionais falhados por bem pouco em diversas modalidades, eis que, naquela com que menos se contaria, alcançámos uma difícil, sofrida, mas brilhantíssima vitória. Finalmente, ao fim, de 15 anos, o Benfica voltou a sagrar-se Campeão Nacional de Atletismo.


No decorrer da decisiva estafeta final de 4x400, resolvida na recta final(!), lembrei-me das derrotas que averbámos recentemente noutras modalidades, até nos desempates por grandes penalidades. No Atletismo não há penalties, mas se tivéssemos perdido a estafeta, ficaríamos em igualdade pontual com o Sporting e o desempate far-se-ia pelo número de vitórias. E o simples facto do Marítimo ter optado por colocar o melhor especialista nacional de obstáculos a correr os 3000m planos levou a que o Sporting tivesse então mais um título que o Benfica. Com tantos azares esta época, era só mais um... Felizmente, não foi.


No final, na festa benfiquista que se registou na pista do Estádio Universitário, não pude deixar de recordar a alegria vivida há já 44 anos, quando, como (modesto) atleta do Clube, tive a grande alegria de ter ajudado a quebrar uma série de 12 títulos consecutivos do Sporting. Foi um dia inesquecível!


Este título do Atletismo do Benfica tem um mérito muito especial. A equipa foi fruto de um trabalho de vários anos, durante os quais o Benfica se sagrou diversas vezes Campeão Nacional de Juvenis, Juniores e Sub'23. E, dos 20 elementos que alinharam, a maioria são Juniores(3) ou Sub'23(8)! O mais velho é Marco Fortes, com 28 anos.


Mas há mais. O projecto da equipa feminina é bem mais recente e, depois de 10 anos de ausência, o Benfica voltou ao Nacional de Clubes na época passada, sendo então 4.º com a mesma pontuação da 3.ª equipa. Este ano saltou para um destacado 2.º lugar, com uma equipa formada por 2 Juvenis, 10 Juniores, 6 Sub'23 e apenas uma (uma só) sénior!


Nos anos 80 meados dos 90, o Benfica foi 12 vezes Campeão Nacional masculino (em 17 anos) e 12 vezes Campeão Feminino (em 13). Perder depois a liderança. Recuperou-a agora nos rapazes. Se a Direcção continuar a apoiar como até aqui, o futuro pertence-nos!"




Arons de Carvalho, in O Benfica




PS: Reforçando o título absoluto da semana passada, este fim-de-semana, o Benfica venceu o Nacional de Sub'23, em Masculinos e Femininos. Mesmo abdicando de vários atletas, que participaram num Meeting em Mannheim, o Benfica venceu categoricamente... em masculinos quase dobrámos a pontuação do segundo classificado!!!

Foge cão que te fazem barão

"Os ingleses gostam de reis e de rainhas. E de duques. E de marqueses. E de condes e barões. Mal viram um cão d'água de pêlo arruivado aproximar-se das rochas brancas de Dover, arranjaram-lhe um tio conde e um primo barão. O cão d'água, orgulhoso, abanou a cauda, como aprendera a fazer com D. Palhaço. E a velha Inglaterra fez com que ganhasse sentido uma antiquíssima máxima lusitana: «Foge cão que te fazem barão! Para onde se me fazem conde?».
Ah! Nada como a bela canalhice portuguesa, à mercê da qual tudo vale, para valorizar o que pouco tem valor!
Ruivo, o fedelho, ganhou parentescos importantes. Será, hoje em dia, muito provavelmente, parente próximo da isabelinha rainha. Conde-barão, enfim! Coisa que a veia plebeia de D. Palhaço não deixava ser.
Perdido em noites quentes e viagens a Roma, presenteando as vistas míopes do papado com flausinas da mais baixa qualidade, D. Palhaço estrebuchou. O seu cérebro caliginoso, mais dedicado à apreciação de febras de porco e papas de sarrabulho, acordou do adormecimento alcoólico a que se dedica diariamente.

Houve quem lhe gritasse: »Alerta!» Mas ele não percebeu. Alerta a que propósito? Quem não tem cão d'água caça com os apitadores do costume. Desde quando o viam sair a correr atrás de bicharocos de estimação que lhe fugiam da casota?

Recostou-se no sofá. Talvez fosse o momento ideal para mandar chamar uma prostituta barata para lhe arrumar a casa subitamente desarrumada. D. Palhaço sorriu para si próprio, imaginando o cenário. Mas, de seguida, vendo que havia ali à mão, de cócoras, alguém que já não precisava de se baixar mais ainda para que se lhe visse o fundilho às calças, regozijou-se com a ironia.

-Agora sim! Tenho um árbitro a mandar nisto!

E de cócoras, como é hábito de quem dá por esse nome."

Afonso de Melo, in O Benfica

domingo, 3 de julho de 2011

Toque de classe

"Depois de ter feito votos, na semana passada, para que no plantel do nosso Benfica «se realizem algumas das aquisições faladas e que não se concretizem todas as saídas propaladas», fiquei feliz, ao que julgo saber pelas notícias, que Pablo César Aimar será dos que ficam. Se os adeptos do Benfica se habituaram a exigir que a equipa jogue bem e com eficácia, mas também com elevada «nota artística», Aimar está em todos os planos - técnico, táctico e artístico - e acrescenta um inegável toque de classe.

Todos os jogadores do plantel são importantes, alguns são decisivos, todos têm um papel a desempenhar individualmente e no jogo de equipa, direi mesmo que não há insubstituíveis e assim é que deve ser numa equipa equilibrada. Aimar pode entrar no 11 inicial, pode saltar do banco, pode ser substituído pelo cansaço da entrega ao jogo, porque ele é dos que não negam esforço ao trabalho colectivo. Mas nunca é a mesma coisa, Pablo Aimar estar ou não estar em campo. Tem uma visão de jogo que honra aquela camisola 10 que herdou de Rui Costa. E desequilibra, faz a diferença.

Diego Armando Maradona, sempre excessivo, disse um dia que «o único jogador por quem valia a pena pagar bilhete era Pablo Aimar». Não é o único mas é seguramente dos que valem o bilhete. O jogo de Pablo Aimar tem mais qualquer coisa. Já lhe chamaram perfume. Também talvez lhe possamos chamar filigrana ou alquimia, pedra preciosa ou magia.

E depois dá uma enorme vantagem ao plantel e ao 11: é que Pablo Aimar, jogador de fino recorte e homem de fino trato, amado pela bancada e respeitado pelo balneário, está feliz no Benfica."

João Paulo Guerra, in O Benfica

Money Talks, Bullshit Walks

"Uns quantos milhões de euros após ter feito juras de amor e de devoção que chegavam a abranger o dia seguinte à eternidade, o treinador Villas-Boas abandonou o seu clube.

Não está em causa o cómico de situação que o seu gesto de abandonar a “cadeira de sonho” acarretou. Aliás, aprende-se com o tempo e contactando com o futebol profissional que, salvo raríssimas excepções, o clubismo e o amor desinteressado ao clube é um exclusivo do 'adepto de bancada', seja em que clube for. Deste modo, rimo-nos todos da situação caricata em que o jovem André deixou o Sr. Costa, sabendo, no entanto, que isso pode acontecer em qualquer clube.

E aqui é que reside o cerne da questão. Durante anos, habituámo-nos a ouvir um estribilho por parte dos ‘opinadeiros’ de serviço do futebol luso que nos dizia, constantemente, que este tipo de situação nunca aconteceria no clube do Sr. Costa, pois este tinha uma “estrutura” de tal ordem perfeita e organizada que nunca isto seria permitido. Esta idiotice foi de tal forma repetida que ainda hoje oiço alguns companheiros de benfiquismo a repetirem esta cartilha como se fosse uma verdade insofismável. Prova-se, agora de forma mais visível, que não há “estrutura”, nem profissionalismo, nem organização, nem ameaças de guardas pretorianas, nem promessas, nem teoria alguma que possa fazer frente à lei do dinheiro. Isto acontece em todos os clubes, todos sem excepção.

Estranho apenas os especialistas que outrora garantiam a infalibilidade do Sr. Costa e que agora alternam entre o silêncio envergonhado e o malabarismo circense, tentando demonstrar que, afinal, o palhaço está travestido em imponente domador de feras. Por mais que tentem mascarar a realidade, a verdade é que a dita “estrutura”, pacoviamente qualificada como infalível, ficou com as calças na mão a uma semana de começar a época. E isto, tal como o aconselhamento familiar a árbitros na antevéspera dos jogos, é um exclusivo da tal “estrutura infalível”."


Pedro F. Ferreira, in O Benfica

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Nolito



As expectativas estão altas, o Nolito é um 'falso' extremo, que além das assistências, e dos dribles, marca golos. A comparação feita com o David Villa na entrevista parece-me justa. O drible curto, ao estilo do Futsal, será a sua imagem de marca, pode estar aqui o verdadeiro substituto do Di Maria. Com tantos 'Castelhanos' na equipa, a adaptação parece estar 'garantida'. Jogar na equipa B, do Barça, não envergonha ninguém...

Rodrigo Mora



Um jogador com poucas referências, mas parece-me com potencial. Outra das lacunas da última época, foi a falta de velocidade no último 'terço', esta contratação (e outras) parecem indicar que o Benfica vai ter jogadores mais explosivos na frente. O Mora começou a extremo direito, e depois passou a segundo avançado, as imagens do YouTube podem enganar, mas tenho fé neste jogador, tal como o ano passado tive fé na contratação do Jara!!! Sem querer exagerar, o Mora parece-me ter algumas carateristicas do Miccoli, sendo mais rápido!!! Apesar das últimas notícias, não me parece que o objectivo seja o empréstimo, depois do calvário dos últimos 6 meses, seria frustrante para o jogador...

Daniel Wass



Esta 'apresentação' já está desactualizada, mas as férias assim o obrigaram (felizmente). Não acompanhei os jogos do Europeu de sub-21, portanto não tenho uma opinião formada sobre o Wass. Sendo um defesa direito ofensivo, vem colmatar uma lacuna importante no plantel, será claramente uma segunda opção (Maxi), o que poderá ser-lhe benéfico, já que terá tempo para se adaptar...

Agradecimento...

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Que riso me dás

"De Split, a propósito da morte de Tomislav Ivic, até Buenos Aires, a propósito da morte do River Plate, passando por São Paulo, Génova e 'Luz', a propósito de guarda-redes


O croata Tomislav Ivic, que morreu na semana passada em Split, aos 77 anos de idade, teve duas brevíssimas e infelizes passagens pelo Benfica. Chegou à Luz pela primeira vez em 1984 para substituir Eriksson, que partira para a AS Roma, e não durou mais de duas semanas porque se terá incompatibilizado com Fernando Martins, o presidente à época, por questões que se prendiam com o seu contrato.

A história deste conflito nunca foi bem explicada em termos públicos, nem pelo Benfica nem pelo treinador, mas correu na altura que Tomislav Ivic pretendia ser pago em dólares e Fernando Martins, patriota, queria cumprir o acordo em escudos, o que levou à ruptura. Tratou-se portanto de um divórcio por razões de câmbio, o que não deixa de ter o seu piquinho de originalidade.

Três anos mais tarde, Pinto da Costa lembrou-se de Tomislav Ivic para ocupar o lugar de Artur Jorge que, depois da conquista da primeira Liga dos Campeões pelo FC Porto, saiu para o Matra Racing de Paris. Ivic foi muito feliz no Porto e ganhou quatro títulos: Campeonato, Taça, Supertaça europeia e Taça Intercontinental.

Foi com Ivic que, com a ironia do costume, Pinto da Costa, inaugurou aquilo que se haveria de tornar um sistema quase infalível nas Antas e, posteriormente, no Dragão: a contratação de treinadores desprezados pelos rivais. Aconteceria ao Sporting com Bobby Robson e aconteceria ao Benfica com José Mourinho e Jesualdo Ferreira. E os três foram campeões a Norte.

Ivic, o croata, regressaria ao Benfica em 1992 e, dessa vez, durou um bocado mais do que duas semanas. Durou quatro meses mas sairia vergado à derrota so seu conflito pessoal com o chamado 'grupo dos russos'. Incapaz de domar o questionável profissionalismo de Yuran e de Kulkov, que faziam o que queriam no Benfica, viu-se sozinho nessa luta e acabou despedido sem glória dando o seu posto a Toni.

Tomislav Ivic era uma figura única e um homem encantador. Estar com ele à mesa era um espectáculo cénico-futebolístico de grande intensidade porque logo transformava garfos, facas, colheres, saleiros, pimenteiros, guardanapos, pão, manteiga e tudo o mais que estivesse à mão em jogadores de futebol, desenhando tácticas sobre a toalha num frenesim empolgante para quem com ele partilhasse dessa paixão e para grande desgosto e perplexidade dos empregados de mesa.

Pegava, por exemplo no saleiro e dizia: 'Este é o Isaías'. E depois pegava num garfo e anunciava: 'E este é o Rui Costa. E quero que os dois joguem assim...'. Depois com o saleiro numa mão e o garfo na outra movia-os sobre a mesa, mudava-os de posição num galope de modo a que pudessem servir melhor João Pinto, na frente do ataque, representado por um saleiro ou por 25 gramas de pasta de azeitona.

Tomislav Ivic, enfim, era um mestre do xadrez com uma noção muito precisa e indiscriminada do tabuleiro porque qualquer tabuleiro lhe servia.

Dá hoje muito que pensar um dos pecados que cometeu, com grande escândalo, na sua segunda passagem pelo Benfica. Ivic entendia que o relvado do Estádio da Luz tinha umas dimensões absurdas que dificultavam a tarefa aos movimentos defensivos da sua equipa quando apanhada em contra-pé. O croata pediu então que o relvado fosse encurtado alguns metros na largura o que foi imediatamente vetado porque só um louco se atreveria a mexer nas dimensões sagradas do tapete da Luz.

Vivia-se ainda uma época em que só a ideia de roubar uns metros de relva ao velho Estádio da Luz era considerada um crime. No entanto, qualquer coisa de muito estrambólica se deve ter passado em tantos milhões de almas porque, dez anos mais tarde, os sócios do Benfica aprovariam com grande regozijo a implosão total da tão amada Catedral, com relva e tudo.

O novo estádio, inaugurado em 2003, tem logicamente um tapete verde novo. E com as dimensões que Tomislav Ivic quis impor em 1992. Ironias...




O último duelo entre o São Paulo e o Corinthians juntou em campo como adversários dois dos mais profícuos goleadores brasileiros dos últimos tempos. Do lado do Corinthians, o avançado Liedson e do lado do São Paulo, o guarda-redes Rogério Ceni que ao longo da sua carreira já marcou mais de 100 golos, números difícil de atingir até por muita gente que joga lá na frente.

Neste frente-a-frente saiu claramente vencedor Liedson até porque marcou três golos a Ceni e Ceni não só ficou em branco como ainda sofreu mais dois golos, sendo que o último, da autoria de Jorge Henrique, resultou de um pontapé de muito longe em que a bola rasteira rolou, foi rolando até ao bem colocado Ceni, mas o problema não foi esse. Ceni até estava no sítio certo só que, quando se baixou para agarrar a bola, deixou-a passar incrivelmente entre as pernas.

Numa tarde de desacerto total do São Paulo, o guarda-redes também teve direito à sua quota-parte directa de fiasco num resultado que terminou em 5-0 a favor do Corinthians.

Aurélio Márcio, um dos fundadores deste jornal, gostava de dizer, quando vinham a propósito assuntos como este, que 'só os grandes guarda-redes dão frangos'.

No seu jeito pragmático, o que Aurélio Márcio queria dizer era que os frangos dos guarda-redes medíocres ou banais nem sequer tinham direito a ser notícia de jornal. E que apenas as altas expectativas depositadas num guarda-redes com classe legitimam que lhes chamem frangueiro naqueles momentos aziagos que qualquer um tem na vida, sendo ou não sendo guarda-redes.

A propósito de frangos e de guarda-redes, o presidente do Génova disse na semana passada que Eduardo é 'um excelente guarda-redes mas dá sempre quatro ou cinco frangos por época'. De acordo com a velha teoria de Aurélio Márcio a única coisinha que estará a mais nesta frase do presidente do Génova é a palavra 'mas'. Porque se Eduardo é um excelente guarda-redes torna-se inevitável que dê por época quatro ou cinco frangos.

Ao estranho caso de Roberto no Benfica não se aplica nem o ditame de Aurélio Márcio nem a conclusão do presidente do Génova. O problema maior em que Roberto se tornou é de índole diferente. O guarda-redes espanhol ao dar quatro ou cinco frangos da praxe logo na pré-temporada, como estarão recordados, esgotou o stock a que legitimamente tinha direito para a época toda.

Num destes das, 'A Bola' puxava Roberto para a primeira página e titulava que o Benfica estava 'a tratar com pinças' do constrangedor tema da baliza encarnada. É um assunto sério de primeira página que não faz sorrir os benfiquistas. A não ser que estivessem, como eu, a ler 'A Bola' à mesa de um café de um bairro popular de Lisboa e fossem interrompidos por um cliente gingão que, deitando uma olhadela para o título do jornal, se saísse com esta:

-Pinças? Só agora é que vêm com as pinças? Cinco pinças tem este gajo em cada mão no lugar dos dedos... raios os partam a todos!




NA Argentina, o River Plate desceu de divisão. O clube tem 110 anos de história e 33 títulos de campeão que não foram suficientes para impedir a humilhação sofrida no domingo no seu próprio estádio, o mítico Monumental. Jogadores em lágrimas, adeptos desesperados, violência nas ruas e um presidente, Daniel Passarella, de cabeça perdida, jurando que só sai do clube 'com os pés para a frente'.

A frenética Buenos Aires, à semelhança de outras grandes cidades ainda que menos frenéticas, tem dois clubes cuja rivalidade faz parte do tecido social e cultural da cidade: River Plate e Boca Juniors. Como é normal nestes casos, as tristezas de um são as alegrias dos outros.

Permito-me, portanto, transcrever, e em castelhano porque tem mais salero, uma notícia do diário desportivo 'Olé', de Buenos Aires, relatando como é que a despromoção do River foi vivida no bairro do Boca. Sob o título 'Que risa que me das' pode-se ler: 'En La Boca, se festejó com caravana, pirotecnias, bombas y alegria. Sí, los habitantes de Boca salieron por las calles del barrio a gozar com la desfracia de lo rival de toda la vida.'

Futebol, esse esperanto social da modernidade."


Leonor Pinhão, in A Bola

O senhor Águas

"Nunca admirei tanto um atleta como admirei José Águas. Para quê, portanto, ir ao futebol se ele já não se encontra no estádio?
Há mais de trinta anos que não assisto a um jogo de futebol. Não conheço os estádios novos, vejo, às vezes, um bocadinho na televisão. Mas entre os dez e os vinte anos não falhava um jogo do Benfica. E não falhei enquanto Águas jogou. Claro que não era apenas Águas: era Costa Pereira, Germano, Ângelo, Simões, Eusébio, Cavém, o grande Mário Esteves Coluna que Otto Glória considerava o melhor jogador português, outros mais artistas que jogadores, como José Augusto, por exemplo, a todos estou grato pela beleza e a alegria que me deram, porém nunca admirei tanto um atleta como admirei José Águas. Para quê, portanto, ir ao futebol se ele já não se encontra no estádio? Era a elegância, a inteligência, a integridade, o talento, e ao pensar em escrever o meu desejo era ser o Águas da literatura. Vi Pelé, Didi, Nilton Santos, Puskas, Di Stefano, Santamaria, tantos outros génios, no tempo em que o futebol não era ainda uma indústria nem os jogadores funcionários competentes, comandados por esse horror a que chamam técnicos: era pura criação, uma actividade eufórica, uma magia cinzelada, uma nascente de prazer, uma inspiração, um entusiasmo. Águas foi tudo isso e, muito novo, ganhou o respeito dos colegas, dos adversários, dos jornalistas da época, que os havia de grande qualidade, Carlos Pinhão, Carlos Miranda, Aurélio Márcio, Homero Serpa, tantos outros. Não jogava futebol: criava futebol, respirava futebol, inventava futebol, e teria sido um privilégio para mim conhecê-lo. Não para falar com ele, para o ouvir. A sua beleza física invulgar distinguia-o de todos os outros, a forma de se mover em campo era única, a autoridade sobre os companheiros natural e humilde. Os miúdos que iam comigo à bola chamavam-lhe senhor Águas, sem sonharem que era desse modo que Simões e Eusébio o tratavam, como tratavam Coluna. Senhor Águas, senhor Coluna. Reconhecíamo-lo, do alto do terceiro anel, no estádio de então, onde, de tão longe, os jogadores minúsculos, pelo modo de correr, se deslocar no campo, passar, rematar, reconhecíamo-lo pelos seus golpes de cabeça, inimitáveis, pelo sentido da ocupação do espaço, pela simplificada geometria do seu futebol. Não tinha a garra de Ângelo ou Cavém, a força de Coluna, o gigantesco talento de Eusébio, o poder do drible de Simões, a velocidade de José Augusto: era uma espécie de rei sereno e eficaz, um aristocrata perfeito. Até a andar os olhos ficavam presos nele, na harmonia dos gestos, no modo de ajeitar bola, e eu, criança de dez anos ou adolescente de quinze, pensava tenho de trabalhar mais esta página, ainda não chego aos calcanhares de José Águas. Escrever como ele jogava, com a mesma subtileza e a mesma eficácia. Escrever como a equipa do Benfica, umas vezes à Ângelo, outras à Germano, outras à Coluna, e finalizar à Águas. Nunca deve ter ouvido falar em mim nem podia adivinhar que um garoto qualquer o tomava não apenas como mestre de futebol mas como mestre de escrita. Só, mais tarde, certos saxofonistas de jazz, Bird, Coltrane, Webster, Coleman, Hodges, alguns mais, tiveram, sobre o meu trabalho, influência semelhante. Mas Águas foi o meu primeiro e indisputado professor: escreve como ele joga, meu estúpido, aprende a escrever como ele jogava. Como morava em Benfica via-o, às vezes, no autocarro do clube e ficava, pasmado de admiração, a fitá-lo. Isto lembra-me o meu irmão Nuno chegando a casa de dedo no ar
- Toquei no Eusébio, toquei no Eusébio
como provavelmente, eu o faria, porque na infância e na adolescência o futebol era, para além de uma aprendizagem do mundo, um prazer infinito. A cor dos equipamentos
(o meu amigo Artur Semedo:
- Não sou um homem às riscas, sou homem de uma cor só)
a entrada em campo, o hino, tudo isto me exaltava e fazia feliz. E as vitórias, comemoradas em Benfica com bebedeiras eufóricas. Uma das minhas glórias secretas, confesso-o agora, consiste em ter visto a fotografia do meu pai no balneário do hóquei em patins do Benfica, de ele ter estado no Campeonato da Europa de 1936, em Estugarda, com vinte ou vinte e um anos, e de brincarmos com uma caixa de lata cheia de medalhas, a que o meu pai não dava importância alguma e eu considerava inestimáveis. Há pouco, a minha mãe
- O que faço eu a isto?
exibindo-me uma espécie de troféu ou de placas num estojo, que alguns anos antes de morrer a Federação de Patinagem lhe entregou, juntamente com outras antigas glórias, e que me recordo de o meu pai, que não saía, ir receber com satisfação secreta. Mas, claro, eu era só filho do Lobo Antunes, não era filho do Águas, e ainda sei medir as distâncias. Portanto, o que vou eu fazer a um campo de futebol se ele já não joga? Seguir os funcionários competentes de um negócio? Assistir ao bailado dos técnicos? Ver a fantasia substituída pela sofreguidão, a ambição pela avidez, o amor ao clube pela violência idiota? Claro que continuo a querer que o Benfica ganhe. Claro que sou, como em tudo o resto, parcial, sectário, por vezes sem bom senso algum. Mas há séculos que não sofro com as derrotas e, sobretudo, não choro lágrimas sinceras com elas: estou-me nas tintas. Contudo voltaria a trotar, radiante, para assistir à entrada em campo de Costa Pereira, Mário João, Germano, Ângelo, Cavém, Cruz, José Augusto, Eusébio, Águas, Coluna e Simões, a agradecer-lhes o facto de me terem, durante anos e anos, colorido a existência. E talvez no fim do jogo, postado junto ao autocarro, quando os jogadores saíssem do balneário, o senhor Águas me apertasse a mão."


Caminhada...

Fonte: Mágico SLB

Só falta conhecer os nossos 'verdadeiros' adversários, mas esses só na semana anterior aos respectivos jogos é que são conhecidos (publicamente!!!)...

O anúncio de shampoo e os 30 trafulhas...

" 'Diogo: que tens tu na cabeça', pergunta uma voz cândida. E o rapaz, que não sei o que terá na cabeça, mas sei não ter um pingo de vergonha na cara, responde: 'seriedade... idoneidade...'

De memória curta, o moço esqueceu-se que não há muitos anos plagiou uma peça de teatro de um actor polaco e a levou a cena como se fosse da sua autoria. Deve ser isso que ele entende por seriedade e idoneidade. O seu dicionário é muito particular. Ou talvez nem tanto. Se perguntarem àquele pobre imbecil que semanalmente vomita num jornal uma página de adoração e admiração por certa gentalha corrupta que há muitos anos deveria ter desaparecido do mundo do futebol o que tem na cabeça, ele certamente responderá: seriedade... idoneidade. E esquece as páginas inteiras copiadas de outros autores com que encheu as páginas da sua burlesca pseudo-obra histórica que vendeu com batata frita de pacote.

Seriedade... idoneidade... é isso que se espera que haja na cabeça de um juiz de Direito. Infelizmente, são cada vez mais os cretinos que abraçam a profissão. 30 deles, ainda na fase de aprendizagem, resolvem copiar em grupo num exame. São 30 trafulhas a pedir meças aos ladrões do Ali Babá. Que importa? Recebem o seu prémio em nota 10, e todos são aprovados administrativamente por uma direcção que aprova a pouca vergonha. São 30 trafulhas que em breve serão juízes. 30 juízes trafulhas, prontos a compactuar com as sinistras figuras corruptas que terão de julgar. E vocês estranham que apesar de todo o nojo trazido a público nas escutas do «Apito Dourado» ninguém tenha sido preso? Perguntem a cada um dos 30 trafulhas que se preparam para ser juízes o que têm na cabeça e ouvirão a resposta do actor tonto e do autor ordinário que plagiam peças de teatro e copiam parágrafos inteiros de livros: seriedade... idoneidade...

Perguntem a D. Palhaço o que tem ele na cabeça além de prostitutas baratas. Se calhar seriedade e idoneidade... E aí estão na forja mais 30 juízes prontos a acreditar nele como quem acredita em Deus."


Afonso de Melo, in O Benfica

Humildade

"Cumpriram-se recentemente 50 anos sobre a conquista da primeira Taça dos Campeões Europeus, momento que constitui, provavelmente, o ponto mais alto de toda a nossa história centenária.
Os relatos da altura recordam uma equipa com excelentes executantes, mas, sobretudo, com uma elevada dose de humildade. Ainda não havia Eusébio, e só com uma mistura perfeita de qualidade técnica, humildade, e capacidade de sofrimento, foi possível suplantar o poderosíssimo Barcelona - já então recheado de estrelas de renome mundial, e considerado o grande favorito dessa final.
Se recuarmos um pouco mais no tempo, veremos outra equipa de combate a triunfar extramuros. Falo do conjunto benfiquista que, em 1950, venceu a Taça Latina (competição que alguns querem agora menosprezar), arrecadando o primeiro troféu internacional da história do futebol luso. Foi com arte, engenho, mas sobretudo com muita humildade, que um clube então ainda pouco conhecido além-fronteiras, se superiorizou na prova europeia mais importante da altura. Por cá, vivia-se em plena época de “violinos”. Eram eles os grandes e famosos. Nós… apenas os outsiders, os “pés rapados” que, com arreganho, trabalho e luta, os conseguiríamos suplantar depois, tornando-nos então no maior e mais popular clube português.
A humildade está pois na génese dos nossos principais triunfos, e é parte integrante da matriz central da nossa identidade. Uma atitude humilde e lutadora, acompanhou sempre o crescimento do nosso clube, desde os tempos da Farmácia Franco até ao topo do mundo.
Decorridos muitos anos, e muitas vitórias, nem sempre temos sabido relevar esse passado. Do alto de uma gloriosa saga europeia, do alto dos muitos títulos nacionais, do elevadíssimo número de associados, e de um incomparável mediatismo, permitimos que o Benfica se tornasse, por vezes, um clube altivo e sobranceiro. E essa é, hoje, uma das nossas principais fraquezas.
Tenho abordado aqui, ao longo das últimas semanas, aspectos que, no meu modesto entendimento (e enquanto mero adepto de bancada), podem contribuir para que as próximas temporadas do futebol encarnado sejam substancialmente mais felizes do que aquela que terminou. Depois de falar da força física, e da força mental, creio que a humildade (a todos os níveis) deve também figurar no elenco.
O Benfica é o clube mais odiado do país. Não o é apenas nos recintos dos nossos principais rivais (FC Porto e Sporting, que competem entre si para ver quem mais nos detesta), mas também em quase todos os estádios que visita, seja em Braga, em Guimarães, em Setúbal, em Olhão ou em Leiria. Tratando-se de um clube que apenas foi campeão duas vezes nos últimos 18 anos, esta não é uma situação comum, sobretudo havendo quem tenha ganho muito mais títulos durante esse período, e não seja objecto da mesma antipatia. Haverá razões que se prendem com o mediatismo que sempre nos acompanha, mas muitos dos adeptos desses clubes são peremptórios quando nos acusam de arrogância, soberba, mania das grandezas, e outros epítetos similares. Independentemente das razões que os possam assistir, esta é uma situação que temos de saber reverter, e creio que um discurso de maior modéstia poderia ajudar bastante.
A paixão pelo futebol, e por um clube, não é coisa que se explique nas cátedras da racionalidade. É difícil exigir do adepto comum uma postura de total realismo e objectividade. Mas não há forma de encarnar a humildade de que necessitamos se não tivermos (todos) uma noção real daquilo que hoje somos, e daquilo que efectivamente valemos. O passado não ganha jogos, e o Benfica da actualidade, para crescer, não pode viver sentado à porta do seu extenso e cintilante salão de troféus. Há que perceber que, em termos futebolísticos (e é disso que aqui se fala), perdemos claramente a hegemonia interna, e que ninguém vai ficar parado à espera que – por direito divino - a reconquistemos. Há que perceber também que, no plano externo, não somos mais que um clube mediano, numa Europa onde outros têm conseguido, ainda assim, brilhar. Só partindo desta cristalina realidade, encontraremos a estrada que nos pode levar ao futuro de glórias que o nosso passado fez por merecer.
A humildade tem de começar em cada um de nós, benfiquistas, e estender-se até profissionais e dirigentes. Não podemos afirmar, no início de cada época, que vamos ganhar este mundo e o outro. Não podemos pensar que, só porque nos chamamos Benfica, a cada conquista corresponderá necessariamente um ciclo esmagador, como se os adversários não existissem. Não poderemos entrar em (nenhum) campo, convencidos de que as camisolas chegam para impor os resultados que desejamos, até porque somos aquele a quem todos querem ganhar.
A humildade tem de estar no discurso, e tem de estar na acção (de dirigentes, técnicos, jogadores e adeptos). É um fato que todos temos de vestir, e sem o qual não estaremos em condições de alguma vez fazer reviver as sagas vitoriosas que os primeiros parágrafos deste texto recordam. Sem humildade, não conseguiremos sequer beliscar a supremacia daqueles que, a bem ou a mal, tomaram o nosso lugar."


Luís Fialho, in O Benfica

Até breve!

"Nuno Gomes foi um dos melhores goleadores de sempre do Benfica, foi capitão de equipa ao longo de várias temporadas, foi um dos grandes ídolos dos adeptos, foi referência de balneário para os colegas mais jovens. Foi sempre um jogador respeitado (inclusivamente por adversários), porque sempre se soube dar ao respeito - quer pelo profissionalismo, quer pela dedicação, quer pelo fair-play demonstrado dentro e fora dos campos, ou até mesmo pela simpatia que nunca deixou de cultivar. Estando à beira de completar 35 anos, o treinador optou por prescindir dos seus serviços. O Nuno Gomes de há uns anos atrás teria lugar no plantel de qualquer equipa europeia. O Nuno Gomes de 2011-2012, no entender de Jorge Jesus (que o conhece bem, e trabalha com ele diariamente), talvez já não pudesse ser opção de relevo na luta pela titularidade.

Por muito que isso custe a aceitar àqueles que (como eu) mais o admiravam, o plantel do Benfica não pode manter jogadores por aquilo que fizeram no passado, mas apenas por aquilo que se espera poderem vir a fazer no futuro. E não creio que alguém esteja melhor colocado do que o treinador para proceder a esse tipo de avaliação.

Tratando-se de quem se trata, o Benfica propôs-lhe (e bem) um lugar na sua estrutura profissional. Nuno decidiu não aceitar, privilegiando a possibilidade de jogar durante mais uma época. Não lhe podemos levar a mal por isso.

Não creio que se deva, contudo, fazer drama à volta desta situação. Recordo que Eusébio terminou no Beira-Mar, depois do Benfica ter recusado o seu regresso. Infelizmente para ele, e para nós, aquele já não era o seu tempo, e esse episódio não impediu que o 'Pantera Negra' tenha hoje uma estátua no Estádio da Luz.

Nuno Gomes não foi Eusébio, mas nem por isso deixará de ter um lugar muito especial no afecto de todos os benfiquistas. Por agora, resta-nos agradecer-lhe o que fez no Clube, desejar-lhe felicidades para esta ponta final da sua carreira, esperando que em breve possa voltar a casa."


Luís Fialho, in O Benfica

Manuel Sérgio

"Manuel Sérgio foi convidado para membro da “estrutura” futebolística do Benfica. Terá a função de consultor.

Foi, nos últimos tempos, a notícia relativa ao Benfica que mais me agradou. Mostra-me um Benfica mais perto da vanguarda, mais perto dos saberes e, logo, mais perto da vitória. Mostra-me que alguém, consciente ou inconscientemente, deu o passo mais importante para se poder conseguir a melhoria. Alguém percebeu que só um Benfica capaz de reconhecer as suas fraquezas e potencialidades competitivas pode melhorar. Saber que o professor Manuel Sérgio foi a pessoa escolhida para ajudar ao desenvolvimento desportivo do Benfica é uma excelente notícia. Significa que alguém se preocupou em pensar a componente desportiva do Benfica como um todo e não como partes independentes. Alguém percebeu que o ‘princípio da complexidade’, o ‘princípio da relação’ e o ‘princípio da motivação’ deverão passar a ser os grandes subordinantes do treino e da competição.

Esta questão parece tão distante do relvado e dos momentos decisivos da bola na trave ou da bola na rede que aparenta ser despicienda. No entanto, que ninguém se iluda, pois já lá vai o tempo em que o futebol estava reduzido a princípios redutores e sujeitos ao carácter aleatório da vontade e da crença espontâneas do futebolista. Hoje, essencialmente devido a pensadores do fenómeno competitivo do desporto, sabemos que esses factores decisivos podem ser compreendidos e condicionados na sua aleatoriedade. A epistemologia da competição desportiva é essencial para compreender a própria competição. Saber que o Benfica deu esse passo é algo que me deixa orgulhoso.

Dado o passo, é importante que agora se saiba aproveitar o passo dado e que dentro da “estrutura” se perceba que o desporto, a competição e o futebol jogado dentro das quatro linhas pode e deve ser verdadeiramente pensado. Só assim, a racionalidade da ideia, do pensamento, pode agir sobre a aleatoriedade do jogo."


Pedro F. Ferreira, in O Benfica

Mentalidade ganhadora

"Na sequência dos textos das últimas semanas, que têm procurado identificar aspectos a melhorar no futebol do Benfica, fala-se hoje aqui de força mental, combatividade e agressividade competitiva - elementos que, afinal, definem uma verdadeira mentalidade de campeão.
Entenda-se por força mental, a aptidão para extrair todo o potencial de competências inerentes ao indivíduo ou ao grupo, independentemente dos contextos exteriores. Numa equipa de futebol, isto traduz-se na capacidade de jogar constantemente ao máximo que o potencial técnico-táctico dos jogadores permita, sem quebras causadas por factores anímicos, sem excessos de confiança nem medos, sem permeabilidade a qualquer tipo de pressão exógena, e com a saudável agressividade que se exige em todos (mesmo todos) os momentos de competição. Simplificando, trata-se de tornar cada jogo numa final, e cada momento desse jogo no momento de decisão dessa final, sejam quais forem as circunstâncias que o rodeiem.
Sei que a comparação não é simpática, mas se olharmos para o FC Porto, constatamos uma particular habilidade em lidar com todo o tipo de pressões e condicionalismos, quer os positivos (enfatizando-os e explorando-os ao máximo, nunca permitindo que resvalem para a sobranceria), quer os negativos (eliminando-os, ou revertendo-os a seu favor). O que daí resulta é uma equipa confiante, motivada e agressiva, capaz de render a top em qualquer campo, e em qualquer situação, durante um ano inteiro. Imagino que não seja tarefa fácil implementar tão forte mentalidade. Mas que ela significa meio caminho andado para a obtenção de títulos, não restarão muitas dúvidas.
No caso do nosso rival, o contexto geográfico e cultural ajuda bastante. Trata-se de um clube fundado sob uma bandeira regionalista, e que tem alimentado uma cultura de conflito, e de trincheira, que contribui para o manter em constante vigília. É dessa fonte que bebe o fanatismo dos seus adeptos, que, confundindo e misturando – deliberadamente -, o FC Porto com a (sua) cidade, e com a (sua) região, sentem derrotas e vitórias num plano diferente ao da mera paixão clubista, e reagem em consonância. Isso é habilmente transportado para o interior do grupo (com lavagens cerebrais intensivas, como contam antigos jogadores), e reflecte-se num balneário ferreamente determinado em vencer (e, particularmente, em vencer-nos), onde a disciplina e o recato não deixam de desempenhar um papel vital.
Transpor uma cultura deste tipo para o Benfica é bastante mais difícil. Somos um clube universalista e cosmopolita, nascemos e vivemos numa cidade que também o é, e o conflito não está no âmago da nossa matriz identitária. Os adeptos do Benfica não têm qualquer familiaridade política, cultural, regional ou religiosa a ligá-los entre si, olham para o futebol com paixão, mas sem rancores nem complexos paralelos, o que também lhes retira militância, realidade que escorre para a estrutura e para a equipa. Há pois que encontrar mecanismos capazes de dotar o nosso clube de equivalente vitamina motivacional, e aqui, creio que o próprio adversário, as suas vitórias, e a sua arrogância, podem ser um elemento a explorar melhor.
Por outro lado, é também necessário fomentar uma relação de grande cumplicidade entre jogadores e clube, cultivando exigências, mas também afectos. Por muito genial que seja a gestão, por criteriosas que sejam as escolhas, por melhores condições materiais de trabalho que existam, são os jogadores, dentro do campo, que transportam a mística, que marcam os golos, que obtêm os resultados, que nos dão as alegrias e tristezas, e que, em suma, determinam o sucesso ou o insucesso do clube.
Sendo o futebol uma espécie de representação da guerra - embora sem vítimas -, uma equipa forte terá de se assemelhar a um exército militar, onde a disciplina e o rigor não podem permitir hiatos, cedências ou excepções. O clube tem de estar acima de tudo e de todos, e a exigência tem de ser total e quotidiana. A pressão de trabalhar nos limites deve vir, contudo, acompanhada de uma cuidada protecção contra factores, externos ou internos, que possam de alguma forma tornar-se perturbadores. Jogadores infelizes, preocupados ou ansiosos, não poderão nunca explorar o seu potencial máximo, e é ao clube que cabe protegê-los.
Só com uma simbiose perfeita entre clube e profissionais ao seu serviço, só criando uma cultura de clã, que abra espaço a um forte sentimento de exigência individual e colectiva, e seja capaz de fazer concentrar todas as energias no combate aos adversários, poderemos ver os jogadores do Benfica a superarem-se, a comerem a relva (se necessário for), e a imporem a sua capacidade em qualquer relvado, em qualquer competição, em qualquer jogo, e em qualquer momento de cada jogo. Só deste modo será possível caminhar para um espírito de conquista que leve os nossos jogadores a alcançar ainda mais vitórias e títulos do que aquelas que o seu talento permita, construindo a sua e a nossa felicidade."


Luís Fialho, in O Benfica

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Aceito venda do Coentrao, se . . .

A noticia do Jornal "A MARCA" diz que o Real apenas oferece 15 M + 1 Jogador.

Bem:

Se esse jogador for um destes:

  • Casilhas
  • Ronaldo
  • KaKa
  • Xabi
  • Özil
e suportando parte do vencimento, qualquer valor a cima de 150.000 € era responsabilidade do Real.


OK pode ser.


Unidade benfiquista

"Por que será que quase ninguém percebeu que a derradeira temporada do Benfica foi a terceira melhor da última década? A razão tem muito a ver com a fase terminal do ano competitivo, excepção feita ao triunfo da Taça da Liga. A última imagem é a que perdura? No Benfica, seguramente, foi assim.

Maiores responsabilidades, perante um cenário de interrogações, esperam a equipa de futebol profissional na abertura da nova época. Um bom começo fará esquecer as angústias do ano anterior e só poderá reforçar o alicerce emocional de toda a nação benfiquista. Entretanto, são muitas as alterações. Ponderadas? Importa admitir que sim, importa conceder capital de confiança aos responsáveis directivos e técnicos. Só com a bola a rolar será possível perceber o que valerá o Benfica na nova versão. O defeso fica, por ora, recheado de incidências. Não há unanimidade no universo vermelho, há mesmo algumas vozes cépticas ou mesmo críticas? Fundamental é que, logo que se inicie a competição, nenhum benfiquista enjeite o apoio que a equipa justifica. Um Benfica unido, coeso, determinado, diz respeito a todos, não apenas aos profissionais que servem o Clube. O início da temporada anterior foi sinistro, tantas injustiças vitimaram a equipa e condicionaram o seu comportamento ulterior. O filme não se pode repetir e todos, todos mesmo, têm que perceber quão decisivo é cerrar fileiras e avançar com audácia para uma temporada de sucesso.

A bola não tarda a entrar em movimento. A equipa, essa, é que não pode esperar pelo apoio de todos os associados e simpatizantes. Só vence uma luta árdua quem apaixonadamente lhe empresta toda a convicção, toda a firmeza, toda a vontade."


João Malheiro, in O Benfica

Sem dívidas

"1. Não vi referência em nenhum lado e foi abordado ao de leve na Assembleia Geral da semana passada mas, para mim, foi dos raros pontos positivos daquela noite: o Benfica-Clube nada deve à banca. Zero. O ponto 12 dos 'pressupostos do orçamento', numa das primeiras páginas do documento, afirma: 'Inexistência de gastos com encargos financeiros em consequência do pagamento da totalidade da dívida bancária'. A Benfica-SAD tem um largo (mas julgo que controlado) passivo, mas o Benfica-Clube está a zero. Quando se fazem comparações com os outros, apenas se referem às SAD's, cujas contas são (obrigatoriamente) públicas. E as contas dos clubes e das outras empresas e eles associadas?


2. Ainda sobre a última AG. Houve várias intervenções a contestar a Direcção e o Presidente. Nada que não seja normal num clube democrático como o Benfica sempre se orgulhou de ser. Algumas destas, embora eu não concorde com o seu teor, foram correctas. Outras não estiveram à altura do Benfica. Como não estiveram alguns associados mais jovens, que não souberam respeitar quem estava no uso da palavra. E o Presidente fez mal em responder-lhes directamente. Aquilo era assunto para o presidente da AG, que aliás controlou a reunião de forma muita positiva.


3. A estrutura do futebol do Benfica foi reforçada com a entrada do António Carraça, que ficará próximo da equipa, libertando Rui Costa para funções mais abrangentes (e próximas do presidente Luís Filipe Vieira) e que passam pela contratação de jogadores. Afinal, onde estão todas as divergências de que alguns jornais se fizeram eco ao longo de várias semanas?...


4. Segundo refere a imprensa, o DIAP do Porto está a investigar um alegado jantar entre Pinto da Costa (e os seus habituais amigos) e a equipa de arbitragem do jogo com o Villarreal, noticiado em tempos pelo jornal espanhol Marca. Já se sabe que (desta vez...) o presidente do FC Porto não jantou com o árbitro. Mas, por acaso, dá jeito que o DIAP do Porto, neste caso, investigue...


5. Em Itália, chegou ao fim o processo do Calciocaos (escândalo da viciação de resultados). A Juventus já perdera os títulos conquistados em 2005 e 2006 e o seu antigo director-geral, inicialmente castigado por 5 anos, foi agora irradiado. Por cá, quem viciou resultados ficou impune e ainda é considerado o 'maior'..."


Arons de Carvalho, in O Benfica

Aviso prévio

"Um amigo meu que vê ao longe em matéria de desporto, em geral, e de futebol, em particular, previa um dia destes que as baterias do 'sistema' fossem atestadas novamente contra o Benfica no início do próximo campeonato. Na época finda, foi o que se viu: 3 derrotas nos 4 primeiros jogos do campeonato, cozinhadas porventura em alguma garrida marisqueira.

Para a época que aí vem, o propósito seria idêntico mas com um objectivo bem mais preciso, para além de atrasar o Benfica na pontuação em relação aos emblemas padrinho e afilhados do sistema: tratar-se-ia de desestabilizar a coesão entre a equipa técnica e a liderança e, se possível, levar a uma situação de ruptura. Claro que eu não acredito em bruxas. Mas como elas existem, independentemente da minha crença, fica desde já o aviso prévio. Nós, benfiquistas, estamos de olhos abertos, a prever e a ver as jogadas nos bastidores.

Mudando de assunto, quero daqui desejar as maiores felicidades a Nuno Gomes e que volte depressa e bem ao clube que, como fez questão de declarar a direcção, lhe mantém as portas abertas. A saída de Nuno Gomes, que não me parece ter sido resolvida da maneira mais feliz, foi usada contra o Benfica em certos casos com a mais refinada das hipocrisias. Um sempiterno dirigente federativo, por exemplo, disse mesmo que Nuno «faria falta a qualquer equipa», sendo que há muito que a FPF não sente a falta do jogador na selecção, tendo já mesmo recorrido à compra de portugueses para o seu lugar na loja das conveniências.

Quanto a entradas e saídas espero que se realizem algumas das aquisições faladas e que não se concretizem todas as saídas propaladas. E que o Benfica fique com um plantel capaz de lutar pelo título desde a primeira jornada, jogando o dobro e com elevada nota artística."


João Paulo Guerra, in O Benfica