Últimas indefectivações
sábado, 2 de janeiro de 2021
Uma noite que parecia dia
"240 projectores orientados na direcção do relvado iluminaram uma festa gigantesca que terminou com um jogo entre Benfica e Flamengo (1-1). No meio de tanta alegria encarnada, os brasileiros saíram irritados por terem sofrido um golo fora-de-jogo a 2 minutos do fim
Sabem aqueles que têm a infinita paciência de ler estas minhas páginas há mais de dez anos que gosto particularmente de ir em busca de jogos já fugidos da memória que envolveram a equipa do Benfica ao longo dos tempos. Desta vez entretive-me na pesquisa de uma visita do Flamengo a Lisboa em Junho de 1958. Vinham os cariocas para uma festa. Uma festa de luz na Luz, já que se inaugurava o sistema de iluminação do estádio. Razão mais do que suficiente para que o orgulho encarnado inflasse como inflou.
Esperava-se uma enchente extraordinária.
Recordava-se que os encarnados nunca tinham conseguido bater os rubro-negros do Rio de Janeiro. Seria agora?
Vindos de França, onde tinham realizado o último encontro particular de uma digressão que os levara à Hungria e a Inglaterra, totalmente imbatíveis nos seis jogos realizados, os brasileiros chegaram ao aeroporto da Portela envoltos na habitual alegria que faz parte da sua idossincrasia. Tinham nomes sonantes para a altura, como Joubert, Décio, Carlinhos, Dequinha, Alfredinho e Luís Carlos, e um treinador pachola, de discurso simpático e correcto, Jaime de Almeida: 'Jogar contra o Benfica só pode ser, para nós, um autêntico prazer. Ainda por cima, porque nos sentimos em Lisboa como se estivéssemos em casa'. A imprensa portuguesa levou a bem estas palavras. Nada com um elogio para trazer ainda mais vida ao jogo do dia seguinte. Ou, melhor, da noite seguinte. Sob a luz mágica dos novos holofotes.
240 projectores e um offside
Ainda não seria desta vez que o Benfica haveria de bater o Flamengo. Aliás, a festa de amizade há tanto tempo programada acabou de forma feia, com os brasileiros a discutirem bravamente com o árbitro o golo que permitiu ao Benfica atingir o empate (1-1) a 2 minutos do fim.
Facto indesmentível e intocável: a exibição dos encarnados não foi das tais coisas. Talvez por causa da ansiedade de vencer um adversário até aí imbatido, talvez porquê faltasse ao conjunto o toque colectivo que se exige para que seja isso mesmo: um conjunto. É preciso acrescentar que o Flamengo estava desfalcado no seu onze titular: Joel, Dido, Zagallo e Moacyr estavam na Suécia, integrados na selecção brasileira que não tardaria a conquistar o seu primeiro título de campeã do mundo. Ainda assim, a linha defensiva carioca foi de uma ligeireza e de uma elasticidade notáveis, ao ponto de baralhar por completo a movimentação dos atacantes portugueses, sobretudo José Águas, que ficou perdido entre as torres adversárias.
Alegres e matreiros, os flamenguistas trataram de ensaboar a cabeça a Serra e a Coluna, os melhores do Benfica, que andavam por ali, campo fora, atrás deles com os bofes de fora, tamanho o descaramento das tabelinhas rápidas e precisas que iam sendo desenhadas a meio-campo.
O público, que era muito, ficou naturalmente desiludido.
A esperança de bater finalmente o Flamengo desvanecia-se, e mais ainda quando Henrique, um avançado poderoso, à europeia, marcou o golo que dava vantagem aos visitantes.
Com o passar do tempo, não se viam jeitos de alterar o resultado.
Verdade que, também como é seu costume, os brasileiros se preocupavam mais em divertir-se com a bola, em passes e repasses, do que propriamente em chutá-la à baliza de Costa Pereira, ainda assim protagonista de algumas defesas notáveis. Otto Glória, o brasileiro que estava sentado no banco dos portugueses, parecia ter sido apanhado desprevenido pela forma de actuar do opositor, com a infelicidade acrescida de não poder contar com dois dos seus mais lutadores elementos, Ângelo e Pegado, cuja ausência lhe esburacou o meio-campo.
Andavam as coisas por este caminho com o final do encontro cada vez mais próximo, quando Águas recebeu uma bola isolado frente ao keeper Fernando e repôs o empate. Festa nas bancadas, pois calro, mas confusão no relvado. Os brasileiros reclamaram fora-de-jogo, e as testemunhas presentes confirmaram, na sua maioria, a ilegalidade do golo benfiquista. Empurrão para cá e empurrão para lá, mas nada a fazer, a decisão estava tomada, o Benfica safava-se de uma derrota aborrecida em dia que deveria ser de festa. E foi. Porque, para lá do jogo, houve todo um espectáculo de luz e cor.
Procuro nos canhentos e encontro: Em tudo, foi uma festa 'à Benfica'! Multicolor, alegre, imponente, espectaular e rica de beleza. Tal como a luminosidade que brota de 240 projectores orientados para a tapete verde. O clube caprichou em delinear um programa variado, repleto de sugestão desportiva e que se documentou pela estafeta Chama do Benfica, cujos corredores passaram pelos locais onde existiram campos da colectividade, demonstrações de ginástica, todas impressionantes na harmonia e no ritmo, exposição campista e fecho com o jogo frente ao Flamengo'.
Foguetes estralejaram no ar.
Os brasileiros saíram irritados. Com razão, muito provavelmente. Mas, se calhar, naquele coite que parecia dia, o resultado do jogo nem era o mais importante..."
Afonso de Melo, in O Benfica
Benfica feminino?
"Com o futebol feminino a dar os primeiros passos, um grupo de jogadoras encontrou uma maneira de chamar a atenção.
Nas primeiras décadas do século XX, acreditava-se que 'o futebol era um desporto, varonil. Exigindo um fundo atlético de grande relevância, a sua prática era aconselhável a indivíduos de forte capacidade física e de grande resistência ao esforço' e, como tal, 'não parecia reunir grandes motivos de atracção do elemento feminino. Por boas e muitas razões se tem entendido que o futebol é um desporto... para homens'. Em meados do século, essa ideia começou a dissipar-se com o aumento de praticantes femininos dessa modalidade, especialmente no Brasil e em Inglaterra.
O público comparecia em massa para esse tipo de eventos, ainda para mais quando as partidas era frente a equipas estrangeiras. Assim, em Dezembro de 1959, quando o treinador da formação feminina do Darlston viu 'o papel timbrado com a palavra Benfica, supôs que se tratava de um grupo estrangeiro' e aceitou de imediato o convite.
O entusiasmo estendeu-se por toda a cidade, fazendo com que os habitantes de 'dirigissem em grande número ao campo de futebol'. A informação oficiosa de que seriam italianas fez com que António Morgillo, emigrado há vários anos e residente na cidade vizinha de Wolverhampton, quisesse assistir ao encontro por forma a contactar com as suas conterrâneas.
A expectativa era imensa, contudo, ainda na primeira parte, alguns 'espectadores começaram a ficar intrigados ao ouvir as «italianas» exclamarem frases em inglês corrente'. Morgillo aproveitou o intervalo para ir cumprimentar as jogadoras e saber novidades da sua terra natal, o que gerou um enorme silêncio, quebrado com o anúncio da guarda-redes: 'eh, nós não somos de Itália, somos de Lancashire'.
A situação foi desmitificada pela treinadora das 'benfiquistas'. Na verdade, eram todas inglesas, que tinham estado em Portugal e visitando as instalações do Benfica. As atletas ficaram tão fascinadas, que, ao regressarem a Inglaterra, quiseram formar um clube com o nome dos 'encarnados'. Ainda assim, no final do encontro 'a maior parte dos adeptos continuava sem compreender que não tinham estado a presenciar' um jogo de uma equipa feminina do Benfica, mas sim uma magnífica demonstração de puro fascínio pela mística e pela história dos 'encarnados'.
A equipa feminina do Benfica levou mais algumas décadas a ser uma realidade, mas finalmente aconteceu na época 2018/19. Conheçam algumas das suas conquistas na área 1 - Ontem e Hoje do Museu Benfica - Cosme Damião."
António Pinto, in O Benfica
sexta-feira, 1 de janeiro de 2021
Há muito por ganhar
"Diz-se que, no desporto, 'o que conta são os resultados'. A análise é condicionada por eles, incluindo a de dirigentes, devendo estes, no entanto, e recorrendo ainda a um aforismo, ter a capacidade de olhar para a floresta como um todo e não para as árvores que os rodeiam. Temos um exemplo paradigmático e de sucesso relativamente recente no Clube, quando, em 2013, na sequência de tudo perdido, Luís Filipe Vieira percebeu, contra a opinião da maioria, que deveria renovar o contrato de Jorge Jesus, dando assim um passo vital para o inédito tetra que se seguiu.
Perder uma Supertaça, mesmo sendo apenas um troféu, é péssimo, seja com um dos adversários que fazem do ódio ao Benfica uma das suas forças motrizes, o FC Porto e o Sporting, seja com outro qualquer. E não o é somente por se tratar de uma derrota, das quais ninguém gosta. É-o porque o etos benfiquista tolera a possibilidade de derrota. Já dizia a canção, concisa e acertadamente, 'o nosso destino é o de vencer'.
O repúdio à possibilidade da derrota não significa, no entanto, que neguemos a sua ocorrência ou que, acontecendo, devamos proceder a purgas desprovidas de sentido para acalmar as hostes.
Tivemos períodos de maior e menor fulgor desportivo, não me constando que, desde a consolidação da presença do Clube na sociedade portuguesa, o activo mais sólido do Benfica, o benfiquismo, tenha sido afectado por aí além por essas oscilações. E, presentemente, sabendo que só com a devida distância poderemos, de facto, estabelecer os limites de um período, creio que perdura um caracterizado por sucesso desportivo (diferentes de ganhar sempre) e as bases do sucesso permanecem sólidas. Espero ter razão, acredito que terei."
João Tomaz, in O Benfica
Foi-se 2020, finalmente!
"Hoje não vos vou falar de desporto, mas também se aplica. Este ano de 2020 foi tão invulgar e triste, que o campo desportivo foi apenas mais uma das áreas em que, enquanto sociedade, nos tiraram o tapete.
De Março para cá, as nossas vidas mudaram. Os afectos públicos deixaram de fazer parte das rotinas - há quanto tempo não abraçamos o beijamos, como merecem, os nossos pais e avós? As nossas liberdades enquanto cidadãos foram afectadas - ajuntamentos públicos e privados, acesso à cultura e ao ensino, tudo restringido. Em dados momentos, como o que vivemos nesta semana, até a possibilidade de nos movimentarmos pelo país foi proibida.
Centenas de milhares de portugueses e residentes em Portugal perderam os seus empregos ou viram reduzidos os seus empregos ou viram reduzidos salários, horários e transformada e organização do seu trabalho. No espaço noticioso fomos inundados pela covid-19, 24 sobre 24 horas. Tudo passou para terceiro plano. Em primeiro a pandemia, em segundo os cuidados a ter para evitá-la. No momento em que vos escrevo, os dados oficiais de mortes por covid-19 em Portugal estão à beira das 6700 pessoas, para um número total de casos que já ronda os 400 mil. Todos temos alguém, mais ou menos próximo, que já passou pelo quadro diário de números da Direcção-Geral da Saúde. A pandemia veio afectar-nos, como sociedade e individualmente, muito mais do que passaríamos. Provavelmente, mais do que alguém poderia prognosticar, mas estarmos cá.
Estamos prontos para enfrentar mais um ano com a palavra da moda: resiliência. A física diz-nos que resiliência é a 'capacidade de um corpo recuperar a sua forma original após sofrer choque ou deformação'. Tenho dúvidas de que voltemos à 'forma original', mas com coragem, ambição e capacidade de superação, com ganas, foco e querer, podemos até melhorar enquanto seres humanos. Que 2021 nos traga, pelo menos, isso.
E saúde."
Ricardo Santos, in O Benfica
Feliz 2021, Benfica!
"Então o senhor covid decidiu invadir o balneário dos nossos jogadores? Não seremos o primeiro nem o último clube no mundo a levar com uma visitinha do vírus, mas fiquei muito frustrado com este timing. Tenho pena de que o bicho não tenha aparecido uma semaninha mais cedo, a tempo de poupar os jogadores e os adeptos daquela exibição tão pouco conseguida na Supertaça. Paciência, pelo menos alguém na estrutura que encomende já uma remessa de vacinas para protegermos o quanto antes os elementos mais importantes: o Taarabt e o Luisão.
2020 já lá vai, o que significa que abandonámos finalmente um dos anos mais difíceis de enfrentar em toda a nossa vida. Fomos obrigados a ficar trancados em casa, a usar máscara e a assistir de longe à perda da confortável liderança que tínhamos em Janeiro. Qualquer um deseja entrar em 2021 com o pé direito, no entanto espero que o Grimaldo, o Vertonghen, o Nuno Tavares, o Gabriel, o Cervi, o Pedrinho, o Waldschmidt e o Seferovic entrem com o pé esquerdo.
Este primeiro mês de 2021 será decisivo, o que significa que não há espaço para erros. E e todos os benfiquistas continuamos à espera de um Benfica à altura das exigências. Garantiram-me que esta equipa ia jogar o triplo, e é dessa raça, crer e ambição que eu gosto. Mas é uma promessa que tem de ser convertida em realidade. Merecemos um 2021 muito mais generoso que o antecessor, onde fomos privados de tudo e mais alguma coisa. Que este novo ano recomponha o mundo de saúde, harmonia e, sobretudo, que volte a encher as bancadas da Luz com 65 mil apaixonados carregados de saudades de sentir a pele arrepiada enquanto toca o hino."
Pedro Soares, in O Benfica
Apagar 2020
"Ano para esquecer, ano maldito, ano terrível, todas as palavras seriam poucas para definir aquele que seguramente foi, para a humanidade, o pior ano do século.
Uma pandemia irritante e inesperada destroçou vidas, famílias, empresas e empregos. Obrigou hábitos até há pouco impensáveis. Confinou e violentou populações. E o pior é que, mesmo rasgando as folhas do calendário, este passado e presente de ansiedade ainda não se pode extinguir na totalidade.
Também no desporto, e em particular no futebol, tudo foi diferente, para pior. Campeonatos interrompidos, bancadas vazias, competições burocráticas, sem chama, sem luz, nem cor.
Desde Março que não vou à Luz. Um infeliz recorde mesmo forçado a viver o Benfica à distância, nem assim houve motivos para comemorar: perdeu-se um campeonato que à entrada de 2020 parecia cantado, perdeu-se uma final da Taça a jogar contra dez, e nem a Supertaça se salvou.
Também nas modalidades pouca coisa há para reter. O vírus retirou-nos campeonatos de voleibol, hóquei, talvez futsal, talvez até basquetebol, várias competições femininas. Quando o mundo parou, também os nossos juniores caminhavam para o título. E além do título de atletismo, da nova Taça 1947 de hóquei, da Supertaça de voleibol, e agora da Taça de futsal feminino, não me recordo de mais nada de relevante para mencionar nestes doze meses.
Que 2021 seja bem melhor é o desejo de todos. E para o Benfica, em particular, queremos vitórias e troféus, sobretudo naquele que é o principal barómetro para os grandes clubes portugueses: o campeonato de futebol. Jorge Jesus e os seus jogadores têm a palavra."
Luís Fialho, in O Benfica
2020, um ano inesquecível
"Chegou hora do balanço. Não fora o maldito vírus, esta seria uma época de muitas conquistas. Iniciámos o ano com a brilhante vitória da nossa equipa masculina de atletismo, no Campeonato Nacional de Estrada. Foi um 11 de Janeiro à Benfica, em Oeiras, com um quarteto de luxo - Samuel Barata, Rui Pinto, Samuel freire e Alexandre Figueiredo. Quase um mês depois, na Figueira da Foz, Samuel Barata, Duarte Gomes, Alexandre Figueiredo e Samuel Freire voltaram a brilhar no Campeonato Nacional de Corta-Mato Curto. A 22 de Fevereiro, em Braga, mais uma conquista - o Campeonato Nacional de Clubes em Pista Coberta. A 7 de Março, em Vagos, António Vital e Silva (martelo), Leandro Ramos (dardo), e Emanuel Sousa (disco) arrasaram no Campeonato Nacional de Lançamentos Longos. No dia seguinte, em Braga, a nossa equipa de sub-23 bateu toda a concorrência no Campeonato Nacional de Esperanças.
Após a primeira vaga da pandemia, no Estádio Universitário de Lisboa, foi escrita uma das mais brilhantes páginas do atletismo, com a conquista do décimo Campeonato Nacional de Clubes em Pista, em masculinos. Este ciclo vitorioso do atletismo terminou, no passado dia 18 de Dezembro, na Maia, onde o fantástico Samuel Barata se sagrou campeão de Portugal de 10000 metros.
Fechámos o ano com três brilhantes e categóricos triunfos - a Supertaça masculina de voleibol, em Gondomar, a Taça 1947 masculina de hóquei em patins, no Luso, e a Taça de Portugal feminina de futsal, em Matosinhos. Oeiras, Figueira da Foz, Braga, Vagos, Maia, Gondomar, Luso e Matosinhos, oito concelhos mágicos pintados de vermelho e branco.
Votos de um 2021 retumbante!"
Pedro Guerra, in O Benfica
De todos, um!
"Que 2021 seja o ano do regresso à normalidade. Deverá ser este o desejo de milhares de milhões de seres humanos no cair das doze badaladas e na despedida do ano áspero que acabamos de atravessar. Que não será exactamente assim, por milagre de calendário, que a Covid-19 passará aos manuais de história, também o sabemos todos. Mas a chegada do novo ano com notícias de vacinas a encherem os telejornais de todos os povos é um banho de esperança que há muito almejávamos. A ciência e o engenho humano, alinhados em cooperação e num grande objectivo comum, talvez o primeiro de que temos memória à escala planetária, mostram à sociedade que a humanidade não perdeu o futuro. Pelo contrário, sabe e quer superar-se a cada nova contrariedade, mostrando que não nos resumimos globalmente a uma sociedade supostamente sem valores e centrada apenas na economia e na competição. Pelo contrário, quando somos postos à prova, sabemos ir ao fundo do conhecimento, invocar a ciência e cooperar como nunca, até entre nações menos relacionadas entre si, para alcançar o bom comum.
Mas, se lições há que este ano de covid nos trouxe, a recentragem de valores, a importância da família nuclear e da solidariedade vicinal, as virtualidades indiscutíveis do Estado Social e a cidadania enquanto espaço de liberdade e responsabilidade individual de que depende o bem-estar coletivo são algumas dessas lições. Também aprendemos que todos somos poucos, e que ninguém se pode demitir dos problemas, mas antes assumir como suas as dores de todos e fazer parte das soluções, mesmo que isso pareça menos óbvio. E, neste particular, o Benfica, o clube secular que toca a vida dos portugueses muito além das alegrias do relvado, continua a mostrar-se exemplar. Não para exibir o que faz, mas porque os benfiquistas lhe exigem que faça que há a fazer em prol da sociedade. E foi assim, uma vez mais em 2020, com o Benfica a mobilizar-se e a oferecer luta musculada e sem quartel à pandemia, apoiando vultuosamente o SNS e levando ajuda aos mais vulneráveis no terreno. Será assim, sem dúvida, no próximo e em todos os anos vindouros, mostrando que é muito mais que um clube e que é, isso mesmo, 'de todos, um'.
E pluribus unum. Venha de lá 2021!"
Jorge Miranda, in O Benfica
Núm3ros d4 Sem4n4
"5
Nossos jogadores (Gonçalo Ramos, Jardel, João Ferreira, Pizzi e Seferovic) impedidos de defrontar o Portimonense devido ao teste positivo à covid-19, relembrando-nos a facilidade com que o vírus se propaga, a importância da testagem e a urgência da vacinação em grande escala;
6
Taças de Portugal, em 7 edições conquistadas pela nossa equipa feminina de futsal. A senda vitoriosa das tricampeãs nacionais perdura, para honra e glória do Benfica, hegemónico neste particular do panorama desportivo português (vencemos todas as competições desde 2016/17 inclusive);
14
Rafa, o homem do jogo frente ao Portimonense, com um golo e uma assistência, chegou à 14.ª posição do ranking de golos e assistências neste Estádio da Luz. Soma agora 19 golos e 13 assistências, totalizando 32 combinações os dois itens, igualando o registo conseguido por Mitroglou e Rodrigo. Em competições oficiais pelo Benfica, chegou aos 42 golos e é o 54.º neste ranking (a par de Iaúca (52.º) e Filipovic (53.º), mas utilizado em mais jogos);
16
Anos que Renato Paiva serviu o clube no futebol e formação. Por ele passaram alguns dos jogadores que mais se destacam no futebol nacional e mundial na actualidade. Ficará na memória a dedicação, a competência, a correcção e o benfiquismo de um treinador que tem agora a oportunidade de singrar num clube equatoriano que, em 2019, venceu a Americana e, em 2016, foi finalista da Libertadores.
1829
Ao fim de 22 jogos em competições oficiais, Vertonghen é o mais utilizado, com 1829 minutos em campo (incluindo tempos adicionais). Na peugada do belga estão Everton (1685), Vlachodimos (1543) e Darwin (1517). Vertonghen participou em 19 partidas e tem uma média ligeiramente superior a 96'15'' por jogo."
João Tomaz, in O Benfica
O melhor 11 de 2020 | SL Benfica
"2020 foi um ano extremamente difícil pelas razões que todos conhecemos. No entanto, foi ainda mais difícil para quem é adepto do SL Benfica.
Aliado ao aparecimento de uma pandemia, que veio condicionar as nossas vidas, o descalabro desportivo encarnado contribui, de certeza, para um agravamento (ainda maior) do estado de espírito de milhões de portugueses.
Com o ano a aproximar-se do fim, esta semana decidimos eleger o melhor XI encarnado de 2020, composto pelos melhores jogadores que estão (e estiveram) ao serviço do Glorioso ao longo deste ano.
Guarda redes
Odysseas Vlachodimos – O dono da baliza continua a ser o grego, que demonstrou, ao longo deste ano, ter evoluído consideravelmente o seu jogo. Imperial dentro dos postes, Vlachodimos melhorou o controlo da profundidade, ajustando o seu posicionamento fora dos postes de modo a dobrar os seus colegas de setor.
De resto, o grego, se quiser elevar-se a outro nível, terá de melhorar o seu timing no que toca a intercetar cruzamentos, assim como deverá treinar mais o seu jogo de pés.
Lateral direito
André Almeida – Os anos passam, pandemias surgem, mas há uma coisa que teima em não mudar: André Almeida continua a ser, face às alternativas que são utilizadas, a opção mais fiável para a lateral direita encarnada.
Face à sua lesão, temo-nos deparado com uma súbita saudade do português – muito por culpa das exibições de Gilberto -, que, apesar de não encantar, ia cumprindo o seu dever, marcando, ocasionalmente, golos dignos de prémio Puskas.
Defesa central
Rúben Dias – O dia que todos nós, benfiquistas, temíamos finalmente chegou. Rúben Dias, por força do falhanço da qualificação para a fase de grupos da Champions, rumou aos ingleses do Manchester City FC, deixando o clube do seu coração após dez anos ao serviço das “águias”.
Um líder nato, com uma leitura de jogo e uma capacidade de passe e desarme assinaláveis, Rúben foi um dos alicerces da defesa benfiquista e é, atualmente, um dos melhores defesas do futebol europeu.
Defesa central
Jan Vertonghen – Uma contratação inesperada, mas que veio engrandecer o Sport Lisboa e Benfica. Perspetivava-se uma dupla de ferro composta pelo belga e Rúben Dias, mas, pelas razões descritas anteriormente, a parceria foi sol de pouca dura, sendo que Vertonghen é, atualmente, um bombeiro que tenta apagar (muitas vezes sozinho) os incêndios que assolam a defensiva encarnada.
Um grande defesa, cujas capacidades técnico-táticas estão furos acima dos restantes companheiros de setor, mas que precisa de maior apoio por parte da equipa (e do treinador).
Lateral esquerdo
Álex Grimaldo – Um desequilibrador nato, que, se melhorar o aspeto defensivo, tem tudo para sonhar com a titularidade da lateral esquerda da La Roja e, possivelmente, de dar o salto para palcos maiores.
Grimaldo continua a ser um jogador fulcral para o futebol do Benfica, sendo que a sua vasta amplitude de recursos técnicos o tornam no melhor lateral dos encarnados.
Médio direito
Rafa – Apesar de ter sido um ano marcado por lesões e alguma irregularidade exibicional, Rafa cimentou o seu lugar no onze encarnado, através das suas arrancadas a rasgar as defesas encarnadas e dos golos que somou ao longo da temporada.
Além disso, o português melhorou o jogo em espaços mais curtos, tornando-se, também, uma alternativa viável para jogar em espaços mais interiores.
Médio centro
Adel Taarabt – Um jogador imponente, com uma fome de bola insaciável e uma capacidade técnico-tática acima da média, o marroquino foi, muitas vezes, uma peça importante para desbloquear os jogos para os encarnados.
No entanto, a sua (in)capacidade defensiva expõe demasiado a equipa, que, num sistema tático com apenas dois médios centro, vê-se constantemente desequilibrada devido à fraca transição defensiva de Taarabt.
Médio centro
Pizzi – Apesar de ter demonstrado alguma irregularidade exibicional ao longo do ano, é indiscutível que Pizzi continua a ser um jogador importante na manobra ofensiva encarnada, sendo prova disso os 31 golos marcados na época passada.
Com uma visão de jogo e uma capacidade de definição no último terço do terreno acima da média, o transmontano tem-se afirmado como um dos grandes jogadores do século XXI encarnado.
Médio esquerdo
Everton Cebolinha – Vindo do Grémio por 20 milhões de euros, Everton tomou a ala esquerda de assalto, afirmando-se como titular indiscutível nesta segunda passagem de Jorge Jesus pelo Benfica.
Rápido, com uma boa capacidade técnica e de definição, o brasileiro, que é o reforço com mais minutos de competição (1553’) soma já quatro golos na sua primeira época na Europa, deixando bons indicadores para o futuro.
Ponta de lança
Carlos Vinícius – O artilheiro da época passada, Carlos Vinicius abandonou a Luz após uma época, onde marcou 24 golos e somou 13 assistências em 47 jogos, sendo que em grande parte deles partiu do banco.
Aliás, é de realçar que o brasileiro fez um golo ou assistência a cada 77 minutos em campo, o que é o melhor rácio de minutos por participação num golo entre todos os jogadores com mais de 300 minutos na Primeira Liga em 2019/2020.
Ponta de lança
Darwin Núñez – Um avançado caro que se pode vir a tornar barato. Darwin, que chegou este ano vindo do UD Almeria por uns impressionantes 24 milhões de euros, já se afirmou como titular indiscutível no XI encarnado. Um avançado possante, raçudo, cuja velocidade e capacidade de explorar as costas das defensivas adversárias o tornam numa ameaça constante.
Com seis golos e quatro assistências em 17 jogos, espera-se que o jovem uruguaio se afirme como mais um dos grandes goleadores a passar pela Luz e que, após de conquistar muitos troféus, permita um bom encaixe financeiro aos cofres encarnados."
Sobre as crenças...
"“Explicar uma coisa, é retroceder facilmente aos seus antecedentes;
conhecer uma coisa, é prever facilmente as suas consequências.”
(William James, 1842-1910)
A criança é irrequieta: vai para o judo. O jovem não colabora com os colegas: vai para o basquete. O miúdo é hiperactivo: vai para o karate. A criança tem uma má postura: vai para a natação. O petiz é indisciplinado: vai para o aikido. O jovem é obeso: vai para o futebol. Não se mexe: vai para o atletismo. É desatento: mais um para o karate. Afinal o desporto acaba por ser uma clínica… devido a acreditar-se em generalidades.
Vem isto a propósito daquilo em que se acredita sobre o desporto, estando sempre à espera de benefícios por parte deste sem nos interrogarmos se o desporto é neutro ou se o desporto é inócuo.
E se a maioria das pessoas ainda possuem crenças positivas e fundamentadas em relação ao desporto durante a fase de formação de jovens desportistas (mas atenção à deformação!), essas mesmas pessoas e talvez muitas mais possuem crenças erradas em relação ao desporto profissional qualquer que seja a modalidade, dado o actual estado de mercantilização do mesmo.
– Mister, acredita que ainda vai a tempo de ganhar o campeonato? - pergunta o jornalista ao treinador.
– Claro que sim, temos de acreditar sempre que estamos sempre a tempo - responde o treinador.
– Com esta sua vinda, acredita que a prestação da equipa vai melhorar?
– questiona o comentador desportivo à recente aquisição. – Sim, eu vim para ajudar o clube e prometo trabalhar, trabalhar muito para ajudar o clube a ser campeão. E acredito que vamos ser campeões!
Mais uma vez, a propósito de crenças de jornalistas, de treinadores, de comentadores e de desportistas…
Vivemos desde os primórdios da nossa espécie sujeitos a crenças. A nível social em termos de superstições, de rituais e de opinião pública, a nível individual em termos de convicções. Nos tempos actuais essas crenças são ainda mais instiladas na nossa consciência pelos ‘mass media’.
As crenças são opiniões formadas, interiorizadas, provenientes da nossa educação, das nossas vivências, da nossa formação… ou são o impulso para tendências que seguimos devido aos nossos modelos, aos líderes em que depositamos confiança, ou graças à acção da publicidade, do marketing ou da propaganda… Está nos manuais.
As crenças influenciam os nossos valores, que por sua vez se reflectem nas nossas atitudes e que se demonstram nos nossos comportamentos. Também vem nos manuais.
Somos influenciáveis e manipuláveis, e mesmo que estejamos a isso atentos as pressões podem ser tantas que delas não conseguimos escapar. E sem darmos conta vamos construindo as nossas crenças, quer sejam baseadas em factos fundamentados quer nos sejam inculcadas pela repetição da apresentação de arquétipos quer de estereótipos.
Em tempos idos havia os que acreditavam na Santa Inquisição, hoje em dia há os que acreditam que a Terra é plana. Havia antigamente os que acreditavam no poder absoluto e agora há os que não acreditam na ciência. Havia os que acreditavam nos ideais da Revolução Francesa agora há os que acreditam nos ‘reality shows’. E ainda há aqueles que acreditam que o desporto é o remédio para todos os males.
Segundo Maria Luísa Soares (1), “submetemo-nos às crenças – como seguimos as regras –, sobretudo a essas crenças práticas sobre as quais se funda toda uma forma de vida e de conduta. E aqui dá-se a submissão: à regra, ao hábito, à nossa ‘imagem do mundo’, que não é uma teoria construída por nós, mas que nos é conatural, de certa forma herdada, pertence-nos e possui-nos, dominando-nos inconscientemente.” Há neste pequeno conteúdo três noções fundamentais: a) a nossa submissão àquilo em que acreditamos (porque só vemos aquilo que queremos ver), b) a noção de fazermos nosso aquilo que nos foi inculcado por outros (a nossa disponibilidade para sermos enganados sempre que haja alguém com disponibilidade para nos enganar); c) a noção daquilo que nos domina inconscientemente por não estarmos (nem sermos) preparados a equacionar a realidade dos factos e das suas interpretações por não termos (não nos ter sido) desenvolvido um espírito crítico.
O desporto, submetido às leis do comércio, apresenta-se apenas como espectáculo mas os seus fins últimos são económicos ou políticos. Basta um olhar atento sobre o mesmo e analisarmos criticamente quais os seus efeitos na sociedade e nos indivíduos. Basta não nos esquecermos das elevadas quantidades monetárias que movimenta e pensarmos nos interesses imobiliários dos clubes, no ‘namimg’ dos estádios, na publicidade ostentada pelos competidores, na presente nos painéis publicitários e nas conferências de imprensa dos treinadores de futebol, nos direitos de imagem e nos direitos televisivos. Basta interrogarmo-nos sobre o que produz um jogador de futebol por exemplo!
Como nos diz Manuel Sérgio (2), é necessário reorganizar os fundamentos do Desporto (e repare-se no “D” maiúsculo) através de uma séria crítica epistemológica, lógica e axiológica. E ética e moral, acrescentaríamos nós. De salientar que, segundo o mesmo, na mesma obra, “o Desporto só pode concorrer à transformação do mundo se, primeiro, se transformar a si mesmo.” Para isso não pode ser só um promotor da quantificação do sucesso, da exaltação exacerbada dos mais aptos ou mais capazes, ou do desportista-mercadoria, ou da simples hierarquização meritocrática. Nem da subserviência ao vil metal onde só o lucro interessa. Ainda estaremos a tempo?
No dealbar de um novo ano, que todos nós esperamos que seja melhor que aquele que termina dadas todas as vicissitudes por que ainda estamos a passar, nada melhor do que nos determos um pouco nas palavras de Augusto Curry (3): “quem não critica aquilo em que crê não lapidará as suas crenças, quem não lapida as suas crenças será servo das suas verdades. E, se as suas verdades forem doentias, certamente será uma pessoa doente.” Com a implícita consequência de poder fazer outros doentes…"
quinta-feira, 31 de dezembro de 2020
Os homens brutos da Floresta de Sherwood
"1973, Junho. O Benfica conquistou o Troféu Vinho do Porto à custa de vitórias sobre o Nottingham Forest (3-0 na Luz) e Boavista (1-4 no Bessa. Eusébio marcou, no fim da festa, um dos golos mais excepcionais da sua carreira excepcional.
O Nottingham Forest é, para mim, um dos mais fascinantes clubes do mundo. A começar por aquele pormenor adorável de ter mais Taças dos Campeões (duas) nas suas vitrinas do que taça de campeão de Inglaterra (apenas uma). Fundado em 2 de Setembro de 1865 na cidade de Robin dos Bosques, tem um campo pequeno mas terrível, o City Ground, à beira do rio Trent, de onde se vê, a pouco mais de um quilómetro de distância, na outra margem, o estádio do grande rival, o Notts County.
Em 1995 e 1996, na altura a trabalhar para o jornal A Bola, viajei por toda a Inglaterra, tanto para fazer reportagens sobre os lugares onde a selecção nacional iria jogar como para cobrir o Mundialito de 1995 e, em seguida, o Euro 96. Fiquei com um carinho especial por Nottingham, uma daquelas cidades que nos recebem bem e nos fazem sentir em casa.
Ontem lembrei-me de Nottingham. E lembrei-me, igualmente, de que o Benfica tinha defrontado o Forest nos anos 70. Mais precisamente em 1973, dia 20 de Junho. Estava em jogo o Troféu Vinho do Porto, e Boavista e FC Porto também estavam na liça. Uma espécie de meia-final, portanto, o Benfica - Nottingham do Estádio da Luz, à hora tardia das 21h45. Sempre cavalheiros, os ingleses resolveram fazer uma pequena festa na embaixada para agradarem tanto aos encarnados de Lisboa como aos encarnados de Nottinghamshire. A bola rolaria depois... Ou pelo menos era ssim que deveria ter sido.
A dureza dos ingleses
Nessa noite da Luz, o Benfica desfez o Nottingham por 3-0, mas os moços da floresta de Sherwood jogaram com a brutalidade de um João Pequeno. O facto foi indesmentível e entrou pelos olhos adentro: estavam mais interessados em acertar nas pernas de Jordão, Eusébio, Nené e Jaime Graça do que propriamente na bola. Azar o deles, podemos dizer. Os encarnados levaram a coisa a peito e não estiveram para aturar aquela agressividade excessiva, mesmo à escala britânica que vê no jogo qualquer coisa de bruto. A forma como os médios e os avançados, sobretudo Jaime Graça e António Simões, resolveram embrulhar a violência contrária foi notável. Os passes curtos, bem medidos, de uma rapidez estonteante, enervaram os ingleses ao ponto de os deixarem como baratas ziguezagueantes: quando chegavam ao portador da bola, para fazerem a pressão individual, já a bola ela tinha mudado de pés, e assim por diante.
É preciso acrescentar que, nessa altura, o Nottingham Forest estava na II Divisão inglesa. Depois, com a chegada de um treinador formidando, Brian Clough, explodiu por entre as estrelas: em dois anos consecutivos foi campeão da II Divisão e da I Divisão. Depois conquistou a Taça dos Campeões. Mas ainda iriam ter de esperar mais oito anos até lá.
Nelinho, Eusébio e Jordão marcaram os golos do Benfica. A vitória foi tão categórica, que, no final, os jogadores do Nottingham acabariam por pedir desculpa por alguns exageros. Que tinham sido muitos, mas não aleijaram nenhum dos artistas lisboetas. Distribuíram-se handshakes, soaram umas palmadas nas costas, e prometeu-se um reencontro que nunca veio a acontecer.
Na outra meia-final, se assim lhe quisermos chamar, o Boavista bateu o FC Porto por 1-0. O golo de um tal Rufino, que tinha vindo da Guiné-Bissau à experiência, e não deixou marca por aí além.
Belíssimo Boavista esse, com Rogério, Salvador e Moinhos na frente. Sendo o nome do troféu Vinho do Porto, entende-se que a final tenha sido marcada para o Porto. Neste caso, para o Bessa. E aí se encontraram, frente a frente, Boavista e Benfica.
Enquanto o FC Porto batia o Nottingham Forest no desempate por grandes penalidades e atirava os ingleses para o último lugar da classificação do torneio, Eusébio voltava a ter uma das suas tardes plenas de magia. Os joelhos massacrados podiam fazê-lo sofrer de uma forma que pude testemunhar muitas vezes, seu amigo que fui. Mas, de repente, soltava-se dele o duende do Lorca, e ninguém era capaz de pará-lo.
O resultado da partida foi de 4-1 para o Benfica, golos de Eusébio, Jordão(2) e Vítor Martins contra um de Salvador.
Diz quem viu que golo de Eusébio foi de dar arrepios na espinha. À beira do final, arrancou com a bola colada ao pé direito e começou a deixar adversários pregados ao chão. A cada passada, a sua velocidade aumentava como se se tratasse de uma locomotiva ganhando poder à medida que o carvão derrete nas caldeiras. Quando se encontrou com o guarda-redes pela frente e com o espaço cortado ao mínimo, decidiu picar a bola, assim com a parte de dentro do pé, num corte perfeito que levou a bola a bater na trave antes de entrar. Aimoré Moreira, o treinador do Boavista, figura ímpar no mundo do futebol, seleccionador campeão do mundo com o Brasil em 1962, não esconderia no final: 'O golo de Eusébio é das coisas mais extraordinárias que jamais vi num campo de futebol!' Falava quem sabia. E muito!"
Afonso de Melo, in O Benfica
'O Estádio da Luz «virou hoquista»'
"O Benfica foi o anfitrião do Campeonato Europeu de hóquei em patins de 1965 e Portugal sagrou-se tetracampeão europeu
Em 15 de Maio de 1965, no Estádio da Luz, inaugurou-se, qual 'jóia incrustada na grandiosamente' do 3.º anel, o Pavilhão dos Desportos, de 'traço simples mas grandioso'. As modalidades benfiquistas, antes obrigadas a receber os adversários em campos alheios, viram colmatadas e satisfeitas parte das necessidades pelas quais passavam.
A iluminação, 'especialmente concebida' para o complexo, era 'comparável à máxima do recinto do Parque Eduardo VII'. Outra 'das coisas boas que há ali dentro é justamente o piso', facto que animou os hoquistas, em particular. A modernidade das instalações permitiu que aí se realizasse a 27.ª edição do Campeonato Europeu de hóquei em patins, três semanas depois.
Participaram nove seleçoes: Alemanha Ocidental, Bélgica, Espanha, França, Holanda, Inglaterra, Itália, Portugal e Suíça. Os jornais imprimiam que 'Portugal é favorito' a campeão por ser 'dos melhores praticantes do Mundo'. Em boa verdade, Portugal estava em segundo, na soma de todas as conquistas na competição.
Funcionamento em sistema de poule, o Campeonato foi conquistado por um Portugal com 100% de eficácia. A dureza da prova e o equilíbrio entre as equipas expressaram-se quando, 'um a um, foram caindo os invictos'. A Suíça, que impôs 'sensacional derrota' sobre a Espanha, acabou derrotada por 8-1 frente aos portugueses.
A brilhar no 'cinco' portugueses esteve António Livramento, 'subtil e objectivo' jogador do Benfica, que com Adrião do FC Porto e Vaz Guedes do CA Campo de Ourique, formaram um 'trio de classe'. 'Com velocidade endiabrada', Livramento foi peça-chave nos colossais 10-0 frente à Holanda e nos 17-0 à Bélgica.
A competição foi gradualmente despertando o interesse do público, apesar das 'naturais dificuldades de transporte e acesso ao Estádio'. No último jogo, em 12 de Junho de 1965, frente a Espanha, o Pavilhão dos Desportos, com capacidade para cinco mil espectadores, 'registou enchente'. Aí, viu-se na selecção portuguesa 'um virtuosismo (...) presente em cada lance, transformando o hóquei em patins em algo mais que patinagem, dribles e remates'.
Portugal, que havia sido tetra-campeão europeu e 1950, repetiu a proeza em 1965, com pontuação máxima, 'no atraente pavilhão do Estádio da Luz'.
Na área 17 - Chão Sagrado, do Museu Benfica - Cosme Damião, poderá encontrar mais sobre as instalações benfiquistas na história do Clube e do país."
Pedro S. Amorim, in O Benfica
Mensagem de Ano Novo
"Benfiquistas, quero desejar-lhes um ano de 2021 com muita saúde e muito sucesso! O ano de 2020 foi um ano muito desafiante onde todos fomos confrontados com uma terrível pandemia. Nessa altura, todos souberam apoiar o Benfica de uma forma incondicional e bem expressa todos os dias. A minha profunda gratidão em nome de todos os profissionais do Sport Lisboa e Benfica!"
"2021 é um ano, para nós, também desafiante, onde temos grandes objetivos para cumprir. Tenho a certeza de que, se todos estivermos juntos, sempre juntos, iremos conseguir os objetivos que todos pretendemos. Merecemos sempre ser felizes, e tudo fazemos diariamente para tornarmos a Família Benfiquista muito feliz"
"Que 2021 nos traga a felicidade de termos a possibilidade de voltar a apoiar a nossa equipa ao vivo, dentro do nosso Estádio. Esse é outro objetivo bastante grande pelo qual todos nós ansiamos, porque sentimos a vossa falta, no dia a dia, junto da nossa equipa"
"Em 2021 queremos concretizar todos os nossos objetivos, a Família Benfiquista merece ter dias muito felizes. Fazemos tudo para concretizar todos os objetivos e sermos felizes. Muito obrigado! Um ano de 2021 com muita felicidade"
Mergulho dos hipócritas...!!!
"Sérgio Conceição sobre o anti-jogo: “Entendo o rigor defensivo. Entendo que as equipas usem de todas as formas para travar o Porto, mas há um limite. Eu nunca usaria esses meios para travar um adversário”.
As imagens falam por si. Hipocrisia e dissimulação sempre fizeram parte da génese do clube, plantel e equipa técnica."
Diferenças entre páginas !!!
"Para terminar o ano da melhor maneira, nada melhor que mais um bocadinho de ódio destilado pelo “Record”, liderado pelo grande anti-Benfiquista Bernardo Ribeiro.
Para fazer a “Liga da Verdade” convidam o ex-árbitro internacional Iturralde González, que diz que não há penálti. Na página seguinte, metem o jogo na “lista negra”, ignorando o que foi escrito pelo árbitro apenas e só porque o ódio fala sempre mais alto.
Mais, olhando para a "lista negra" vemos um Marítimo – Benfica, onde houve um penálti claro para marcar a favor do Benfica, mas segundo o jornal do oficial Sporting, o Benfica foi beneficiado (!).
Por outro lado, jogos como o “Porto – Braga”, “Marítimo – Porto”, “Paços de Ferreira – Sporting”, “Sporting – Farense”, “Santa Clara – Porto” ou “Vitória SC – Porto” foram “jogos limpos” na opinião do "Record".
O ódio ao Benfica é sempre maior que a idoneidade e ética que qualquer jornalista tem de ter."
Os 5 momentos mais impactantes de 2020 | SL Benfica
"Foi um ano inesquecível para o SL Benfica. Pelas más razões, claro está, com uma percentagem de vitórias que só encontra valor semelhante nos anos negros de 2000 e 2001.
Perdido o campeonato, a Taça de Portugal, a Supertaça e a entrada na Champions, o SL Benfica não conquistou qualquer título em 2020, circunstâncias antes vistas só em… 2008.
Foi um ano de grandes mudanças a nível de cargos técnicos, a nível de transferências – começou com a bombástica contratação de Julian Weigl, continuou pelo defeso recheado de chegadas sonantes e a novela Cavani e terminará com a novela Lucas Veríssimo – e de grandes mobilizações da massa adepta, onde, apesar da pandemia, houve a vontade de 38 mil almas de dar o seu contributo à causa benfiquista, nas eleições mais concorridas de sempre.
1.
Eleições Presidenciais (28 de Outubro) – Luís Filipe Vieira olhava para o lado e via João Noronha Lopes (entretanto apoiado pelo Movimento Servir o Benfica de Francisco Benítez), Rui Gomes da Silva e Bruno Costa Carvalho.
Nunca o presidente em funções há 17 anos tinha observado tanta concorrência para o seu posto e via, naturalmente, o caso mal parado: a época 19-20 tinha sido um desastre desportivo, a Justiça insistia em associá-lo a manobras duvidosas, a novela Cavani foi fracasso que demorou um mês e a eliminação da Champions cereja no topo do bolo.
Mas, bastou a contratação de Jesus e a dívida de gratidão da massa adepta, que o elegeu com 62,59% dos votos. Noronha, que fez campanha audível e que granjeou o apoio das camadas mais jovens, viu nos 34,71% – melhor resultado de sempre contra Vieira – enorme elogio aos seus esforços e o estímulo para continuar presente enquanto rosto da oposição.
2.
PAOK 2-1 SL Benfica (15 de Setembro, Terceira Pré-Eliminatória da Liga dos Campeões) – No Toumba, os encarnados viram-se impotentes para contrariar o 3-4-3 de Abel Ferreira e viram os seus sonhos despedaçados: os de Jesus, os das suas finanças e os de Luís Filipe Vieira, que contava com apuramento para impedir surpresas em Outubro.
Aos pés de Zivkovic, dispensado umas semanas antes, o SL Benfica sofreu o segundo e não teve traquejo de ir atrás do empate e muito menos da vitória. Contra todas as previsões, era eliminado à primeira e atirado para a Liga Europa, competição cuja fase-de-grupos não jogava desde… 2009-10.
3.
Apresentação de Jorge Jesus (17 de Julho) – Já depois de perder o campeonato e a Taça de Portugal, o SL Benfica via chegar o técnico português, que viu na pandemia o momento certo para deixar o projecto vencedor na América do Sul e voltar ao clube do qual saíra em maus termos.
Seria apresentado com pompa e circunstância, em cerimónia apoteótica, onde contou com o apoio da maioria das grandes personalidades do universo encarnado. Em tom de revisionismo histórico, prometeu «arrasar» e colocar a equipa a «jogar o triplo».
Com ele chegaria o maior investimento de sempre e a revolução num plantel onde as principais peças de 2018-19 continuavam presentes.
4.
Demissão de Bruno Lage (29 de Junho) – Se na semana anterior o 4-3 do CD Santa Clara na Luz não fora aviso suficiente, o SL Benfica viajava à Madeira em estado muito fragilizado, resultado das duas vitórias nos anteriores 11 jogos.
A equipa não encontrava forma de recuperar os índices anímicos, via o Porto a fugir-lhe na frente – depois de já ter estado a sete – e encontrou nos Barreiros o recordista olímpico Nanu, que foi o herói do jogo e provocou a queda de Bruno Lage, que dizia na flash interview ainda sentir o «apoio de toda a gente». Vítima ou culpado? Perceberia-se uns meses depois.
5.
FC Porto 3-2 SL Benfica (8 de Fevereiro, 20ª jornada da Primeira Liga) – O SL Benfica chegava ao Dragão depois de já ter ultrapassado prova de fogo na visita a Alvalade, mas o seu futebol há muito que não entusiasmava. Bruno Lage não conseguia impor o mesmo rendimento à equipa, apostava agora em Weigl e Taarabt para o meio e foi por aí que o FC Porto conseguiu vitória justa: ignorou um e condicionou outro, vingando a vitória categórica de um ano antes.
Começava a fase negra do técnico português, que perdera toda a aura mística de 2018-19."
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