Últimas indefectivações

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Quando Pelé trovejou na Luz!


"Na recente dia 23 de Outubro, Pelé cumpriu 80 anos. Jogador dos momentos impossíveis, realizou no Estádio da Luz, em 11 de Outubro de 1962, uma das mais brilhantes exibições da sua vida. Segunda mão da Taça Intercontinental: o Benfica trouxe um bom resultado do Maracanã (3-2), mas não resistiu ao vendaval de Edson Arantes do Nascimento (2-5).

Pelé fez anos. Oitenta. Aquele que foi para muitos o melhor jogador de todos os tempos (entre os quais se inclui o jornalista que assina estas linhas) assinou no Estádio da Luz uma das mais extraordinárias exibições da sua extraordinária carreira. Azar do Benfica, campeão europeu, que sofreu um vendaval impressionante por parte da linha avançada do Santos. E os encarnados até tinham obtido um resultado bom na primeira mão, no Maracanã (3-2), deixando tudo em aberto para essa noite de 11 de Outubro.
Contra o Benfica não era uma guerra: era um jogo de irmãos. Ganharia quem jogasse melhor. Ganhou o Santos. No Rio de Janeiro, de aflitos, com mais de 170 mil pessoas nas bancadas: ao golo de Pelé, aos 31', respondeu Santana, aos 58'; aos golos de Coutinho (64') e Pelé (86'), voltou a responder Santana (87').
A corda esticara-se ao ponto de rebentar: em Lisboa se decidiria para que lado...
Nelson Rodrigues, o grande cronista brasileiro: 'Não sei se vocês se lembram de um Benfica - Santos, disputado em Lisboa, há anos. Seria uma partida como outra qualquer, se a presença de Pelé não a transfigurasse, dando-lhe uma dimensão gigantesca. O que o crioulo fez, não há Homero que o descreva. Ele atravessava aos adversários assim como um fantasma atravessa as paredes. Lembro-me de um gol, em que ele, numa penetração fulminante, driblou cinco adversários e entrou com bola e tudo. Dizer que foi bom, foi grande, foi sensacional é pouco. Foi muito além de todos os adjectivos. Sua coxa aparecia forte, crispada, vital como a anca de um cavalo negro. A defesa do Benfica não sabia o que fazer, nem havia o que fazer. Pelé era uma força da natureza. Ele chovia, ventava, trovejava, relampejava. Seus passos era límpidos, exactos, macios. Ou fazia ou dava gols. A multidão já nem respirava, sentido que estava vivendo momentos de eternidade'.

É preciso espaço!
Confesso: o que se passou na Luz merece espaço alargado. Vou pedir-vos paciência. Se não se importam, a crónica de hoje vai prosseguir na próxima edição deste nosso jornal.
Não foi à toa que baptizaram esse Benfica - Santos como 'O Maior Desafio de Sempre em Portugal'!
Por outro lado, há quem diga que Fernando Riera encarou este segundo jogo de uma forma leviana: porque terá deixado que o optimismo tomasse conta da equipa; porque terá considerado que fazer uma marcação dura a Pelé seria um crime lesa-futebol, preferindo deixar o brasileiro mais à solta, mesmo, sabendo dos riscos que corria com essa atitude.
Foi fatal! Absolutamente!
0-1, aos 17 minutos: contra-ataque dos brasileiros, passe em diagonal de Coutinho para Pepe; Jacinto está adiantado, e o extremo-esquerdo do Santos aproveita o espaço nas suas costas; Raul persegue-o, mas debalde; Pepe centra rasteiro para a entrada da grande área, Pelé surge fulgurante, em corrida, e remata de primeira. Soberbo!
0-2, aos 27 minutos: Pelé faz tudo sozinho (leram o Nelson Rodrigues há quatro parágrafos?); finta um, dois, três adversários; à saída de Costa Pereira, coloca-lhe a bola fora do alcance.
0-3, aos 49 minutos: Pelé outra vez; primeiro hipnotiza Cruz com uma simulação mágica, depois é a vez de Raul; sem seguida corre pela direita como se fosse perseguido por um bando de assaltantes de estrada; chegado à linha de fundo, centra rasteiro para a frente da baliza, onde Coutinho faz o golo fácil.
0-4, aos 64 minutos: Pelé, ele e só ele, dono da Luz, dono do Mundo; um, dois, três adversários/uma, duas, três fintas como meneios de toureiro; sempre a caminho da baliza, sempre em progressão; ângulo apertado, remate preciso, Costa Pereira impotente. Maravilhoso!
0-5, aos 77 minutos: passe de Pelé para Coutinho, rasgado, largo; Coutinho vai sozinho para a baliza, Costa Pereira sai, vai tomar conta da bola, mas escorrega, larga-a, deixa-a fugir para a frente de Pepe; Pepe faz um golo facílimo.
1-5, aos 86 minutos: de longe, de muito longe, Eusébio volta a rematar à baliza de Gilmar, já o tinha feito por meia dúzia de vezes, já acertara num dos postes; desta feita o remate é impressionante de força e colocação. Grande!
2-5, aos 89 minutos: rápido movimento do ataque do Benfica; Eusébio solta-se e faz um passe suave para a frente de Santana; em corrida, de primeira, Santana remata, em arco e com precisão.
Que jogo! Que jogo!
Felizes os que tiveram a oportunidade de assistir a tudo o que se passou nessa noite lisboeta. A história dos grandes clubes, como o Benfica, como o Santos, é feita de vitórias maravilhosas e de derrotas estrondosas. Ninguém pode fugir ao destino que é marcado pela bola, a mágica senhora das paixões. Eusébio abraçou Pelé, seu amigo, seu irmão. O povo, nas bancadas, aplaudiu com o respeito que se deve aos que conseguem ser enormes. A melhor equipa da Europa fora batida, mas nessa noite ninguém seria capaz de aguentar o monstruoso Pelé.
Aceitar essa realidade demonstrava dignidade e nobreza.
O Benfica perdeu. Mas com um cavalheirismo notável.

(continua na próxima semana)"

Afonso de Melo, in O Benfica

Cosme Damião: fundador, jogador, treinador e... escritor!


"Em mais de cem páginas, dedicadas aos sócios do Clube, Cosme Damião explica o que é preciso para jogar bom futebol

Em Abril de 1925, foi editado o livro Apontamentos e Recortes Sobre Football Association, o primeiro e único livro de Cosme Damião. Uma obra extremamente completa que descreve, ao longo de 131 páginas, os requisitos necessários para se desempenhar bem as várias funções de um praticamente de futebol, algo inédito em Portugal. Este livro revelou, também, um Cosme diferente. Um Cosme que vai para além do jogador e do capitão-geral, função que desempenhava quando o escreveu. Estes Apontamentos deixam antever um homem culto e inteligente. Um pensador, com vontade de fazer mais e melhor.
O livro, que tem na capa Álvaro Gaspar, jogador do início do século e grande amigo de Cosme Damião, que o descrevia como 'o melhor entre os nossos melhores jogadores no seu logar', foi dedicado aos sócios do Benfica. O seu objectivo era claro: 'conseguir, que se corrijam, ainda que só em parte, defeitos com que a quasi totalidade dos nossos jogadores e praticam e para que ele seja jogado com a arte e sciencia a que tem direito'.
Os capítulos iniciais são dedicados a uma reflexão acerca do estado do futebol naquela altura, que não era brilhante, e sobre as origens deste desporto. Porém, a temática do jogador é a mais abordada e começa logo com a idade ideal para se iniciar a modalidade: 'Não poderá ser um futebolista completo, aquele que se inicia no jogo depois dos desoito anos'. Já dizia o ditado: 'É de pequenino que ... se começa a dar pontapés certeiros na bola'! Já no que toca à idade limite para se praticar futebol, Cosme revela-se mais flexível, afirmando que os jogadores que o fazem há mais tempo não devem ser descartados apenas por serem mais velhos. Antes pelo contrário a sua sabedoria deve ser usada em prol do jogo! O mister defende, também, que um bom jogador tem de ser inteligente. 'Não poderá ser um elemento bom, o jogador, que (...) careça, por desgraça, de espírito entusiasta, ou seja tacanho de cérebro'. A técnica de jogo ocupa mais de metade do livro. Está lá tudo. Como parar uma bola? Como passar o esférico aos colegas de equipa? Como jogar de cabeça? Qualquer dúvida que houvesse, Cosme respondia!
Com este preciso manual de como jogar bom futebol, Cosme não tinha a ambição de ser um best-seller. O seu desejo era, apenas, que fosse 'útil aos rapazes do meu Sport Lisboa e Benfica, que carecem colher dele alguns ensinamentos'. Estaria longe de imaginar que, décadas mais tarde, esse mesmo livro iria a estar em exposição no museu do seu Benfica, baptizado com o seu nome, na área 18 - 'E Pluribus Unum'."

Marisa Furtado, in O Benfica

Derrota inesperada


"Não era de todo esperado o desaire, ontem, no Bessa. O percurso incólume da nossa equipa desde que se iniciara a Liga NOS, com sete triunfos consecutivos (cinco no Campeonato e dois na Liga Europa), acrescido do bom nível exibicional apresentado ao longo deste período, justificava o nosso otimismo para a deslocação ao reduto do Boavista, mesmo cientes dos problemas que o nosso adversário poderia criar e da calendarização muito apertada.
Jorge Jesus apontou a desorganização defensiva, nomeadamente na reação à perda da bola, e a complacência do árbitro relativamente às muitas faltas cometidas por jogadores do Boavista como fatores que afetaram o rendimento da equipa e influenciaram o resultado. Assim como reconheceu que se sentiu "a carga de todos os desafios que temos vindo a disputar", acrescentando que "isso faz parte de uma equipa que quer estar em todas as frentes".
Acerca da condescendência da equipa de arbitragem, ao não admoestar os jogadores axadrezados por faltas sucessivas, chega a ser caricato que o primeiro cartão amarelo mostrado na partida tenha sido a Vertonghen e o primeiro boavisteiro admoestado o tenha sido só aos 59 minutos.
Importa agora reagir à derrota, tirar ilações sobre o que se poderá melhorar, recuperar a condição física dos jogadores e direcionar o foco para o jogo seguinte.
O próximo adversário será o Rangers (quinta-feira, dia 5, às 17h55), na Luz, numa partida a contar para a Liga Europa. O objetivo passa por vencer e somar mais três pontos, alcançando, nesse caso, a liderança isolada do grupo à terceira jornada. Só depois se pensará no Braga, próximo adversário na Liga NOS (domingo, dia 8, na Luz, às 20 horas).
De todos, um!"

Mata, mata, mata...


"Nós avisámos. Um festival de porrada patrocinado pelo Hugo Macron. Aos 28 minutos avisa o Mangas. Do outro lado, ao Vertonghen foi à primeira, num lance em que corta a bola, por acaso. Só por acaso. 3 amarelos (sendo 1 por perda de tempo) no total para a equipa do Boavista, contra 4 ao Benfica. A piada está feita!
São mais de 30 faltas de uma equipa que não parou de correr do 1º ao último minuto (Que pilhas são aquelas? Também queremos!). A equipa que tem a maior média de faltas do campeonato até ao momento, hoje dobrou praticamente essa média. Sem qualquer tipo de consequência da parte da arbitragem. O Vasco Seabra aplicou a velha táctica do "passa a bola, não passa o jogador". Em pleno Século XXI. Ou chegavam primeiro, ou faziam falta. Foi este o jogo do Boavista. Os constantes "mata, mata, mata" que se ouviram durante todo jogo foram completamente permitidos pelo representante da marca que veste o actual 1ºclassificado da Liga.
(...)"

Cadomblé do Vata (azia!)


"“Algarve, Europe’s most famous secret” é uma das frases publicitárias mais bem conseguidas da região que habito e pode-se aplicar aqui também. Penso que, por já ter falado nisto tantas vezes, a minha inabilidade para a prática do futebol já é um segredo bem famoso entre quem me lê. Juntando a essa falta de talento, um físico atarracado e a posição que ocupava em campo, é possível que eu não só tenha sido o guarda redes mais pequeno dos campeonatos distritais no escalão de juvenil a nível nacional, como também o pior dos guarda redes baixinhos. E isto não é um acto de auto comiseração para fins humorísticos. Quem viu sabe que é verdade. Tinha aliás um colega de turma e de equipa que várias vezes me dizia “a minha mãe queixa-se que lá de fora, não te consegue ver na baliza”, que tanto podia querer dizer “és muito pequeno e ao longe és imperceptível”, como podia significar “tudo o que vai à baliza é golo, parece que não está lá ninguém”.
Apesar dos defeitos evidentes, por falta de alternativas, no primeiro ano de juvenil ainda fiz muitos jogos e claro, sofri muitos golos, ressalvando aqui que fui suplente num fabuloso empate 6-6 em Monchique, em que o nosso treinador adjunto foi fiscal de linha ou bandeirinha (atenção ao PS1 no fundo do texto), porque os árbitros assistentes ainda não tinham sido inventados. Das peladinhas que joguei, a que melhor recordo foi uma derrota em casa por 0-4 contra o Alvor e ficou-me na memória pelas piores razões: foi um poker de frangalhadas, incluindo um canto directo ao primeiro poste. Lembro-me bem, também porque no final do jogo chorei no balneário e enquanto os colegas me olhavam com cara complacente de “chora aí palhaço, perdemos por tua causa”, o treinador disse algo que não mais esqueci “é bom sinal estar a chorar. Quer dizer que se preocupa com isto”.
A azia incontrolável é o choro do adepto adulto. É aquele sinal de que preocupa com o Clube. Tem a vantagem em relação à lágrima, de ser mais expansiva e libertadora. Enquanto barafustamos com presidente, treinador e jogadores soltamos a tempestade da frustração que temos cá dentro. A azia é bem melhor do que o choro. Sei disto porque já chorei 1,5 vezes pelo SLBenfica. Na primeira vez ainda era miúdo e foi nos penaltis de Estugarda. Na meia vez foi no golo do Kelvin. Na primeira vez ninguém me segurou. Na meia vez pude contar com o “então pah, estás parvo” da minha esposa para me poupar à humilhação. É que uma coisa é abrir as comportas por um Van Breukelen (atenção ao PS2 no fundo do texto), outra é não aguentar a corrente por um Kelvin.
Para que conste definitivamente: a derrota de ontem doeu muito (venham de lá essas piadas com o "doeu" porque o sentimento é mesmo esse). Como já não doía há uns bons meses deste ano atípico. Confesso que a azia que sinto desde ontem é reconfortante. Assim sei que ainda me preocupo com o SL Benfica como um Benfiquista se deve preocupar. Isto também acontece porque o grau de exigência este ano aumentou bastante. Entenda-se que uma coisa é levar 3 no Bessa com Miguelitos e Manús no 11 titular e o Fernando Santos no banco. Outra bem diferente é enfardar 3 secos com 100 milhões a saírem da conta em campo e 6 milhões a voarem todos os anos no banco. A conversa do “são 11 contra 11” não funciona este ano, porque nunca funciona quando levamos 4 e 5 batatas nas competições europeias de equipas que gastam mais 80 ou 90 milhões do que nós em reforços. Convenhamos, que não me recordo de enfaixarmos 3 bolachas numa dessas equipas, com a limpeza que levamos ontem. Aziar, barafustar e ficar fodido com o resultado de ontem, não é ser “dragarto”, “noronhista” ou “desunir a Nação”. Quem está como eu estou desde o segundo golo boavisteiro, é Benfiquista. Agravada por 3ª e 4ª feira serem dias de Liga dos Campeões e nós só jogarmos 5ª feira.

PS1 - a frase que se dizia nos anos 80/90 “o Bandeirinha é do FC Porto”, só raramente se referia ao jogador homónimo que fazia parte do plantel deles.

PS2 - num Natal ou aniversário, os meus pais ofereceram-me umas luvas “de marca” (talvez Uhlsport, talvez Reusch, por aí). A parte de trás da embalagem era um cartão com fotos “tipo Panini” de guarda redes que usavam essa marca de luvas. Entre os míticos Preud’homme (à Bélgica), Bento, Shilton, Dassaev ou Zoff, estava Van Breukelen. Guardei religiosamente essa folha de cartão, mas antes recortei a figura do holandês e deitei-a fora. Devia-a ter dado a uma feiticeira haitiana."

Rescaldo...

Fever Pitch - João & Markus... Alemanha!

Vermelhão: Alerta...


Boavista 3 - 0 Benfica


Primeira perda de pontos da época, com exibição desastrosa. Não fiquei surpreendido, tenho destacado o calendário super-apertado, e hoje sofremos a primeira consequência visível... Em condições 'normais', este tipo de jogos, onde jogamos mal, onde aquilo que pode correr bem, corre mal e o adversário 'acerta' em tudo, normalmente, com um bocadinho de esforço (ou estrelinha de 'campeão'!!!), até nos safamos com os 3 pontos, mas com a equipa 'cansada' e provavelmente a pensar (treinador incluído...) nos próximos dois jogos que vamos fazer até domingo, a derrota é quase inevitável... As outras variáveis: porrada constante, com o primeiro amarelo para o adversário a 'sair' quando já tinham feito praticamente 20 faltas; super-motivação... etc... etc... Essas outras variáveis, já não são variáveis, são constantes em todos os nossos jogos, portanto, hoje nem dá para justificar por aí...!!!

A rotação tem sido 'curta', se calhar não temos plantel para rodar em todas as posições, mas o Everton devia ter sido poupado com o Liège, por exemplo...
Se por acaso, o Gabriel ficou 'amuado' com o que se terá passado no jogo com o Standart, então o melhor será ficar em casa...
A insistência do Pizzi na direita, em detrimento por exemplo do Rafa é difícil de compreender: o Rafa até pode ser inconsequente no ataque, mas este ano, nos jogos que foi titular, na transição defensiva foi dos jogadores mais importantes... e hoje, a transição defensiva praticamente não existiu!

Rangers e Braga vão ser jogos ainda mais importantes, após esta derrota. Ambas as equipas, estão com calendários iguais ao nosso, mas o Braga tem rodado mais de metade do 11 titular... Não são jogos decisivos matematicamente, para qualquer uma das competições, mas serão testes importantes, para perceber onde está a 'cabeça' dos jogadores!!!

Espero que este resultado sirva de alerta para jogadores, treinadores e directores, mas também para os adeptos, principalmente aqueles adeptos, que com o investimento que foi feito, com o regresso do treinador, com a fraca qualidade dos principais adversários, julga que o Benfica vai ser Campeão 'fácil'!! Pois, o Benfica nunca terá um campeonato 'fácil', nunca... nem com os melhores do mundo no plantel... 


segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Mário Dias

Honrar Mário Dias


"Faleceu Mário Dias, considerado o pai do novo estádio da Luz, uma referência do benfiquismo a quem o Sport Lisboa e Benfica muito deve e agradece penhoradamente.
A dívida de gratidão a Mário Dias por parte dos benfiquistas é incomensurável. Não haveria o Sport Lisboa e Benfica, como conhecemos hoje, sem o seu contributo inexcedível, abnegado, corajoso, qualificado e visionário.
Principal impulsionador do Estádio da Luz, a infraestrutura que permitiu o extraordinário desenvolvimento do Clube nos anos subsequentes, foi também um homem que soube cativar e inspirar todos os que beneficiaram do privilégio de com ele conviver e trabalhar. O entusiasmo e o espírito de missão com que abraçou o projeto da construção do Estádio, assim como a competência e liderança na prossecução da obra, foram absolutamente decisivos.
O Presidente do Sport Lisboa e Benfica, Luís Filipe Vieira, descreve Mário Dias como "personalidade ímpar que ficará para sempre na nossa história pela forma íntegra e generosa como serviu o Benfica, de que se destaca o seu contributo único, incansável e inexcedível como grande impulsionador da construção do nosso novo Estádio da Luz".
As manifestações de consternação e pesar vão-se multiplicando, prestando-se assim a devida homenagem a um vulto da história do Sport Lisboa e Benfica que agora partiu.
Fica a satisfação de o nosso querido Clube ter contado com a colaboração e empenho de um homem da estirpe de Mário Dias, homenageado diversas vezes em vida justa e merecidamente, sempre reagindo a essas homenagens com a humildade que o caracterizava e a imensa felicidade por ver todo o seu esforço recompensado pelo crescimento ímpar do Clube que tanto amou e a que se dedicou.
Obrigado, Mário Dias!

P.S.: Hoje, às 21 horas, terá o início o Boavista – Benfica, a contar para a sexta jornada da Liga NOS. Trata-se de uma deslocação tradicionalmente difícil, frente a um adversário que se reforçou para a presente temporada. A nossa equipa procurará dar continuidade ao pleno de triunfos conseguido desde o começo da prova e, assim, manter a liderança da classificação."

Dor e pesar por Mário Dias


"É com enorme consternação e tristeza que, em nome do Sport Lisboa e Benfica e em meu nome pessoal, manifesto a mais profunda dor e pesar pelo falecimento de Mário Dias.

Personalidade ímpar que ficará para sempre na nossa história pela forma íntegra e generosa como serviu o Benfica, de que se destaca o seu contributo único, incansável e inexcedível como grande impulsionador da construção do nosso novo Estádio da Luz.
Fica também a mágoa por esta perda em todos aqueles que tiveram o privilégio de o conhecer, figura maior por todo o seu trajeto e pelos princípios e provas de amizade que ficarão nas nossas memórias.
A toda a sua família e amigos, apresentamos as mais sentidas condolências e os votos de solidariedade e profundo respeito nesta hora tão difícil.
Que descanse em paz, ficará eternamente nos nossos corações como uma referência para todos nós.

Time Added On - 1.º Novembro

Boavista FC x SL Benfica | 5 jogos míticos para recordar


"Boavista FC e SL Benfica defrontam-se esta segunda-feira (21h), em jogo a contar para a sexta jornada da Primeira Liga. A reedição de um clássico do futebol português, num frente-a-frente que conta já com 57 embates, em saldo positivo a pender para os lisboetas: ganharam 25 deslocações ao Bessa, enquanto os da casa não vão além das 12 vitórias.
Um historial que Vasco Seabra tentará contrariar com o seu Boavista (que ainda não é Boavistão, mas tem tudo para o ser) e encarrilhar definitivamente para um campeonato tranquilo. A equipa não corresponde às enormes expectativas e ao plantel mediático que soube construir, estando à quinta jornada na cauda da tabela classificativa – 17.º posto –, onde o melhor alcançado foram três empates. 
Um dos maiores problemas está no processo defensivo, com o emblema axadrezado a partilhar a pior defesa do campeonato com o Famalicão, ambos com 12 golos sofridos, o que não augura nada de positivo quando o próximo adversário é precisamente o melhor ataque, com 15 golos marcados.
E Jesus certamente que terá esse dado em conta. Não só a provável maior facilidade em furar o bloco adversário e resolver o jogo cedo – no campeonato, marcou sempre antes do 20 minutos de jogo e foi sempre para o intervalo a vencer – como a predisposição atacante de uma equipa comandada por um homem de ideias inovadoras e de tracção à frente, como Vasco Seabra, se perfila como oponente ideal para os encarnados, que, com um calendário apertadíssimo, querem o quanto antes gerir esforços e focar na preparação para o jogo europeu frente ao Rangers FC.
Algo que se torna ainda mais apetecível no imaginário dos adeptos mais optimistas é observar que o Boavista perdeu os dois jogos que disputou no Bessa, além de não marcar qualquer golo e sofrer… seis, o que parece ainda pior quando se sabe que Javi García, o pêndulo de meio-campo, está de fora por castigo.
Quando atendemos ao jogo de bancos, a estatística continua a favorecer os mesmos, com Jorge Jesus a contar sete vitórias em oito jogos com o Boavista desde que estes subiram novamente ao primeiro escalão – o jogo que falta deu empate, ao serviço do Sporting (0-0, 2015/2016).
Ao comando do Benfica, Jesus venceu a última vez no Bessa com recurso a bomba de Eliseu (0-1, 2014-15). Outro dado merecedor de destaque é a possível terceira vitória consecutiva do Benfica em deslocações ao Porto (0-2 em 2018-19 e 1-4 em 2019-20), assinalada pela última vez na longínqua temporada de 1959-60.
Em jeito de top, reunimos cinco dos mais emblemáticos encontros entre águias e axadrezados, reavivando memórias e relembrando grandes golos – que todos esperam voltar a ver em 2020.


1. Boavista FC 0-1 SL Benfica, Primeira Liga 2015-16 – Ao rubro estava a corrida ao título: Rui Vitória tinha revitalizado uma equipa moribunda no final da primeira volta com a introdução de Renato Sanches ao onze.
Depois da vitória em Alvalade na jornada 25, o Benfica ia na frente com mais dois pontos. O Sporting CP tinha esmagado o Arouca por 5-1 no Sábado e, no Domingo, a onda vermelha teve que esperar até aos 94 minutos para ver Jonas a sorrir para o esférico e a finalizar bem perante Mika: explosão de euforia no Bessa e a definitiva certeza de que era possível aguentar o título.


2. Boavista FC 1-1 SL Benfica, Primeira Liga 2004-05 – 11 anos depois, o tão ansiado título nacional para os encarnados confirmado em jogo de nervos à flor da pele. Ao Benfica bastava o empate depois da vitória frente ao Sporting na Luz, e a onda vermelha lotou o Bessa para segurar a equipa e ajudar Trapattoni e escrever em letras d’ouro o seu nome na história do clube.


3. Boavista FC 3-2 SL Benfica, Taça de Portugal 1996-97 – Com Manuel José do outro lado da barricada, o Boavista vingou-se da pesada derrota de ’93 com uma demonstração de superioridade bem assente na qualidade de remate de Erwin Sánchez, autor de dois golos.
Ricardo ganhava o seu primeiro grande título como titular das balizas e Nuno Gomes justificava a sua futura transferência para a Luz com um golo. Nessa época, formou parelha ofensiva com um tal de… Jimmy Floyd Hasselbaink, futura estrela europeia com passagens por Leeds United, Atlético de Madrid e Chelsea FC, tendo já em final de carreira conseguido comandar o Middlesbrough de Steve McClaren à final da Taça UEFA de 2006.


4. SL Benfica 5-2 Boavista FC, Taça de Portugal 1992-93 – Meses depois, a grande demonstração de força de um plantel que justificava aposta na continuidade, prometendo voos maiores até em contexto europeu.
Não quiseram os responsáveis benfiquistas: as dificuldades financeiras obrigaram à venda dos principais craques como Futre, que cumpriu exibição superlativa no Jamor, e o sonho desfez-se para a massa adepta; não sem antes deixarem a massa adepta a salivar com festival de nota artística e cinco fabulosos aperitivos, alimentando gigante ‘se’ no imaginário geral.
Não quis o destino, ficando na história mais um grande confronto entre Manuel José e Toni, nomes lendários dos bancos, como a última lembrança desse 1992-93.


5. Boavista FC 2-3 SL Benfica, Primeira Liga 1992-93 – Jogo que marcou toda uma geração de benfiquistas, dadas as circunstâncias especiais: dilúvio em pleno Bessa, grande incerteza no marcador e Paulo Sousa na baliza, a evitar por diversas vezes um empate que se justificava.
Num plantel de qualidade internacional, aglutinavam-se talentos únicos – Mozer, Veloso, Schwarz, Kulkov, Rui Costa, Paneira, Mostovoi, Futre, João Vieira Pinto, Isaías, Yuran, César Brito e Rui Águas – ainda assim insuficientes para levar avante época gloriosa, vítimas da instabilidade criada por Ivic e só corrigida, já tarde, por Toni."

Golaço de Isaías ao Boavista em 1995


"Golaço de Isaías ao Boavista, para o jogo do Campeonato 94/95, que o Glorioso venceu por 3-1. O Profeta fez aqui o 2-0. Mario Stanic marcou os outros 2 golos."

Pinto da Costa & Fernando Gomes: dupla de mágicos nortenhos, ventríloquos corresponsáveis pelo Grand Canyon de €116 milhões


"Menino e moço, via siderado os programas de magia na televisão. Deliciava-me com os ilusionistas e os seus truques de pombas esvoaçantes e partenaires serradas ao meio, lenços infinitos tirados de cartolas sem fundo tão grandes que nelas cabiam ainda coelhos alvíssimos. De um momento para o outro estes mágicos de final da tarde desapareceram da televisão e deixaram atrás deles, na minha memória, um rasto de brilhantes, fatos resplandecentes e truques impossíveis. Não faziam desaparecer a Golden Gate ou um Jumbo, não namoravam com a Claudia Schiffer como o sombrio e enigmático David Copperfield, mas para mim serão sempre os verdadeiros magos, os primeiros e inesquecíveis. 
Anos depois ainda devo ter visto dois ou três espetáculos do Luís de Matos, já sem aquele espanto infantil e crédulo de que todo o ilusionista precisa. Na semana passada regressei por instantes àqueles tempos de infância ao ver a atuação da dupla de mágicos nortenhos, Pinto da Costa e Fernando Gomes, que, após longas carreiras na gestão desportiva e na política, enveredaram agora pelo entretenimento. Estes dois artistas, corresponsáveis pelo misterioso e colossal buraco – o Grand Canyon das SAD – de 116 milhões de euros, proporcionaram um extraordinário espetáculo de variedades no qual, além de um número de magia, tivemos direito a ventriloquismo, malabarismo verbal e a um arriscadíssimo número em que, passeando na corda bamba, sacudiram em uníssono a proverbial água do capote.
Se eu não tivesse mudado de canal para acompanhar as eleições do Benfica, tenho a certeza de que teria sido hipnotizado por estes zandingas da circunvalação porque ao fim de cinco minutos estava convencido de que o astronómico prejuízo nas contas da SAD portista era, afinal, necessário e uma bênção que todos os portistas deviam agradecer porque revelava dotes de gestão incompreensíveis para os leigos que, muito leigamente, se assustam com a magnitude do número e são incapazes de ver os tremendos benefícios que o mesmo acarreta. Na conversa destes prestidigitadores, um prejuízo de 116 milhões passa, num passe de magia, de um facto catastrófico para um resultado invejável.
Quem os ouvisse a culpar a pandemia e o diabo a quatro e a festejar o investimento cirúrgico no plantel e o triunfo no campeonato e a contar com os ovos no cu da galinha da Champions ficaria com uma vontade súbita de abrir uma empresa só para sentir a adrenalina de perder 116 milhões de euros num exercício. Naquele momento não eram tanto como os mágicos da minha infância, mas como aquele capitão vaidoso do Costa Concordia a conduzir o navio alegremente para as rochas enquanto acena para as beldades em terra.
Mas eu não queria falar de mágicos nem de administradores nem de prejuízos. O que me interessa é como isso se reflete em campo. Hoje, os portistas, quando procuram figuras de referência que os animem e lhes permitam encarar os próximos tempos com otimismo, só têm Sérgio Conceição e Pepe. São eles os baluartes de uma ideia, de um modo de ser que já não tem respaldo na gestão financeira. O FC Porto simplesmente não pode continuar a viver como até aqui. O endividamento e os prejuízos têm limites, sobretudo neste período de pandemia e depois dos anos dourados do fácil financiamento bancário.
A sorte é que a paciência de Sérgio Conceição aparenta não ter limites. Qualquer outro treinador a quem pusessem sobre os ombros, qual Atlas, o peso brutal do futuro institucional e desportivo do clube já teria arriado a carga e partido em busca de um emprego menos tóxico. Mas, por muito que às vezes solte um tímido queixume, é inegável que Conceição gosta do desafio de fazer muito com pouco, de lhe atirarem para a bancada da cozinha uns ingredientes pouco nobres e com eles ter de criar uma receita capaz de alimentar várias famílias, mesmo que o sabor nem sempre seja requintado.
Há duas razões para essa atitude e que explicam a longevidade do treinador em tempos de grande instabilidade: a primeira é a personalidade amiga do atrito de Conceição, a segunda é a independência financeira. Tem sido esse o seu segredo, o seu truque de magia, para retirar o melhor de jogadores que se recusam a renovar com o clube ou que teriam justas expetativas de já ter saído. A presença de Pepe no balneário e em campo, um jogador cuja independência financeira e histórico recente lhe dão uma autoridade que só fica abaixo da do treinador, é outro ingrediente fundamental para dar coesão e força a um grupo com o tipo de jogadores que antes de saltarem para um grande costumam fazer um tirocínio em clubes como o Braga ou o Vitória de Guimarães.
Com as saídas de Alex Telles e Danilo – e veja-se como foram desvalorizadas, quase como se jogadores destes estivessem por aí ao virar da esquina – e a entrada de jogadores sem provas dadas e outros emprestados cujo grau de compromisso vai ser questionado a cada falhanço – e veja-se como a política desesperada dos empréstimos foi saudada como mais um golpe de génio dos mesmos produtores do buraco de 116 milhões – o que se pede este ano a Sérgio Conceição talvez esteja para lá do que é humanamente aceitável. Mas, para um homem da sua têmpera, não haverá melhor combustível do que o desafio de roubar um campeonato a um rival que se abastece nos supermercados gourmet enquanto o seu clube anda a escolher a dedo a fruta feia. Se chegar ao fim em primeiro – e seria uma estupidez pôr o Porto fora das contas – será a prova de que o maior ilusionista do Dragão não está nas cadeiras da SAD, mas no trono do banco.

PS: a consistência de resultados do Sporting de Rúben Amorim e, sobretudo, esta última exibição contra o Tondela, além do descanso proporcionado pela ausência das competições europeias, complicam os prognósticos sobre a corrida ao título (e não nos esqueçamos do Braga). Mas sobre este Sporting descontraído e descomplexado de Amorim falarei na próxima semana."

A República e os Açores com as sequelas do vale tudo


"(...)
Notas Finais
São Papoilas Saltitantes
A pujante manifestação de vontade dos sócios do Sport Lisboa e Benfica e a vitória inequívoca de Luís Filipe Vieira sublinham a singularidade da força do clube, o compromisso com a memória e a ambição de ser resiliente perante o quadro pandémico, afirmando a competitividade desportiva das equipas e das modalidades. Sendo tempo de realizar esforços de reforço da união, sem esquecer as linhas vermelhas ultrapassadas na campanha eleitoral pelas alternativas, e de respeito pela expressão da vontade da maioria, é também uma oportunidade para definir um novo quadro de referência na relação com os sócios. Tarjas como a que foi colocada no jogo da Liga Europa são inaceitáveis e nada têm a ver com a liberdade de expressão, são serviços prestados aos adversários e às CMTV’s desta vida. Miserável.

Brincar Com Coisas Sérias
A arbitragem do jogo Paços de Ferreira-FC Porto ultrapassou todas as linhas vermelhas da falta de vergonha, devendo só ser defendida pelo insolvente da comunicação do clube ou por um qualquer adjunto de indigência criativa. Isso e o prejuízo de 116 milhões de euros."

Actividade física e desporto? Haja saúde!


"Atenção: este singelo artigo tem que ver com Policies e não com Politics. O tema versa sobre a política desportiva, a política de saúde e a combinação de ambas, com conexão com a política orçamental.
A intenção é, tão-só, e de forma sumária, a partir do Orçamento de Estado para 2021, e no contexto pandémico actual, alertar para aquilo que reputo de grave erro do Governo, ao arrepio da Constituição da Republica Portuguesa (CRP) e da lei. Um erro que, lamentavelmente, não é de agora, nem exclusivo deste Governo, mas que ganha maiores contornos no ‘quadro COVID’.
A CRP (artigo 79.º) consagra o “direito ao desporto”, do qual decorre que todos temos direito à cultura física (hoje o termo será actividade física) e ao deporto, incumbindo ao Estado (ainda que em colaboração com os privados) uma missão primária e preponderante na promoção, estímulo, orientação e apoio da prática e da difusão da cultura física e do desporto.
Por outro lado, a mesma CRP (artigo 64.º) prevê que o “direito à protecção da saúde” se realiza, designadamente, “pela promoção da cultura física e do desporto”. Estamos a falar de dois direitos económicos, sociais e culturais concretizáveis de forma gradual, progressiva e na dependência dos recursos disponíveis (em particular os financeiros), sob a reserva do possível. Por seu turno, há duas relevantes leis de valor reforçado a ter aqui em conta: a Lei de Bases da Actividade Física e do Desporto (LBAFD) e a Lei de Bases da Saúde. Na primeira, destaque-se um preceito (artigo 6.º), segundo o qual “[i]ncumbe ao Estado, às Regiões Autónomas e às autarquias locais, a promoção e generalização da actividade física, enquanto instrumento essencial para a melhoria da condição física, da qualidade de vida e da saúde dos cidadãos” (registe-se a palavra “saúde” e enfatize-se a incumbência do Estado). Na segunda, e apesar da sua revisão muito recente (2019) começa-se por lamentar a total (e sintomática …) omissão de referências à actividade física e ao desporto; ainda assim, na Base 1 – sob a epígrafe “Direito à protecção da saúde” - infere-se (implícita ou tacitamente…) que a actividade física e o desporto contribuirão para a concretização do “direito de todas as pessoas gozarem do melhor estado de saúde físico, mental e social”, tal “pressupondo a criação e o desenvolvimento de condições económicas, sociais, culturais e ambientais que garantam níveis suficientes e saudáveis de vida, de trabalho e de lazer” (sublinho aqui as condições económicas e sociais). Acresce legislação ordinária vária com incidência no binómio desporto/saúde, que por economia de espaço, não se menciona aqui.
O quadro constitucional e legal é, pois, bem claro. A actividade física e o desporto devem ser encorajados junto de e para todos, também enquanto instrumentos susceptíveis de promover a saúde, devendo o Estado, os poderes públicos em geral, assumir primacialmente as rédeas para a consecução de tal objectivo: não é uma obrigação de resultado, mas pelo menos é uma inalienável obrigação de meios. Assim sendo, a política pública desportiva deve, entre outros fins, orientar-se para a saúde e, em simultâneo, a política de saúde (na prevenção e na promoção) deve abarcar a actividade física e o desporto.
Aqui chegados, olhando para os últimos tempos, para o Orçamento de Estado para 2021 e, tendo em conta o contexto pandémico actual, afigura-se-nos incompreensível, para além de contrário à CRP e à lei que: (i) o Estado atribua tão pouco dinheiro ao sector do desporto, em particular ao movimento associativo (colectividades, clubes, associações, federações desportivas … ), num constante caminho de redução real de verbas, mais a mais em ‘contexto COVID’, à inversa do que sucedeu noutros países em que houve auxílios de emergência para sobrevivência aos efeitos da pandemia; (ii) embora se iniciem (o que não deixa de se aplaudir) medidas orçamentais em sede de IRS, em particular no sector do fitness, tal é feito de forma muito tímida e insipiente, com reduzidos efeitos práticos no bolso e na saúde dos Portugueses praticantes e nas receitas dos ginásios e afins enquanto prestadores de serviços de exercício e saúde [sem esquecer o que fica por fazer, por exemplo, no IVA …]; (iii) se trate de forma desigual certas modalidades desportivas no que tange à possibilidade de realização de provas e/ou de ter público nos recintos desportivos, com inerentes prejuízos desportivos e financeiros de algumas; (iv) se discrimine negativamente o acesso a apoio financeiro para o desporto, quando comparado a outros sectores de actividade (igualmente relevantes, não se nega), nomeadamente a cultura.
Os dinheiros públicos são finitos, escassos, e devem, naturalmente, ser muito bem alocados (quanto escrutinados). Mas a política é feita de estratégia, de opções. A saúde pública, no combate ao COVID 19, deve ser, obviamente, a prioridade máxima. Mas se, a par, não se promover a saúde pública através do desporto, muito brevemente teremos mais Portugueses sedentários, obesos, com sobrepeso, mais ausentes do trabalho (com inerente redução da produtividade, em prejuízo dos empregadores e da economia nacional …). Pessoas não saudáveis, mais doentes física e mentalmente, carecendo (ainda) mais de … cuidados de saúde … num contexto de inevitável redução da oferta do Serviço Nacional de Saúde…
Não me oferece dúvidas: o Estado tem de evitar, a todo o custo, e urgentemente, o fecho dos entes privados que colaboram no acesso dos cidadãos à actividade física e ao desporto, em especial os jovens (a formação!!!), os quis, aliás, “gozam de protecção especial” no acesso ao desporto (pelo menos deveriam gozar…), por força de outra norma constitucional (artigo 70.º). Concomitantemente com o dever estrutural, constitucional e legal de agir (sob pena de responsabilidade por omissão caso não adopte as devidas prestações positivas), incumbe ao Estado um dever conjuntural, mas com impacte evidente no médio/longo prazo, de intervir já, no imediato. Porque também o desporto está doente. Depois? Será tarde. Em muitos casos será irreversível, como a morte."

Morreu o desporto? Viva o desporto!


"Carl Diem, secretário-geral do Comité Organizador dos Jogos Olímpicos de Berlim (1936) e simultaneamente um intelectual bem provido de ideias que muito ajudaram ao desenvolvimento do desporto alemão e do desporto em geral, sem hesitação afirmava: “o desporto é sempre um jogo e, quando deixa de ser jogo, deixa de ser também desporto”. Ora, o desporto, hoje o mais publicitado e propagandeado, deixou de ser jogo e, se bem pensou o Carl Diem (e se bem penso eu, que o acompanho, neste seu pensar) deixou portanto de ser desporto. Morreu o desporto que eu conheci, pois que nele trabalhei, onde as figuras primeiras eram os jogadores e um ou outro dirigente de relevância social e de bom comportamento moral e onde mais se falava de desporto do que de empresários, euros e SAD’s. Atualmente cabem, no conceito de desporto, uma diversidade de atividades físicas que visam principalmente a saúde e o recreio e a educação, as quais, com a alta competição, formam o “sistema desportivo contemporâneo”. No entanto, na nossa “sociedade da comunicação generalizada” (Vattimo) só o que é espetáculo e altamente competivo se publicita, só o que é mercado “é”. A partir da escola fisiocrata (finais do século XVII e princípios do século XVIII) a economia, ao mesmo tempo que apresenta matriz teórica independente, torna-se verdadeiramente amoral e entroniza na sociedade o “homo oeconomicus” racional, individualista, egoísta. Por outro lado, a censura nunca foi mais impositiva em muita da Comunicação Social: o que não é alta competição não se publica. Por isso, não deverá estranhar-se que continue inalterável a ignorância sobre a contribuição da “motricidade humana”, na formação e desenvolvimento de uma população sadia e socialmente ativa; ou sobre o papel da medicina desportiva, no quadro da medicina preventiva; ou sobre a cultura desportiva, quando se sabe, sem margem para dúvidas, que o desporto é o fenómeno cultural de maior magia no mundo contemporâneo.
O “discurso competente”, neste sistema desportivo, é de alguns dirigentes e de certos jornalistas. Nele, a essência do desporto-mercadoria não se discute. Há mesmo, com uma aura de sageza, uma Internacional Situacionista, corporizada por federações internacionais e nacionais, que institucionaliza este “discurso competente” até à obscenidade, tendo em conta que o obsceno reside, aqui, na publicidade desmesurada da riqueza e do fausto em que certos “agentes do desporto” se pavoneiam, deixando de lado, nas suas crónicas e reportagens, o lado pedagógico e humanizante da prática desportiva. Parece-me importante relembrar que os gregos viam, na ginástica, uma condição “sine qua non” da “paideia”, ou seja, do seu itinerário educativo. Por isso, Platão e Aristóteles dedicaram ao tema páginas imorredouras da sua obra. Devemos, de facto, aos gregos esta atmosfera de aprazimento que rodeia a presença do desporto, no ato educativo. No entender de Habermas, são três os momentos pelos quais importa passar para que se complete o ciclo da evolução humana. Mas, para tanto, há que mudar de paradigma. As sociedades devem estruturar-se, organizar-se, segundo o modelo da comunicação entre sujeitos. Pela comunicação, a relação humana não será a de sujeito-objeto, marginada de suspeitas e desconfianças, mas a de sujeito-sujeito. Mas será tudo isto possível, sem a erradicação do “princípio da performance”, típico do capitalismo? “Mantendo firme a nossa adesão ao otimismo antropológico da tradição iluminista e querendo prosseguir no quadro analítico, proposto por Habermas, diremos então que é preciso desbloquear a racionalização das dimensões até agora sacrificadas às exigências unilaterais da produção económica. E o tempo primordial para efetuar, com indeléveis efeitos, esse desbloqueamento é o tempo escolar. Determinada pelo princípio da sobrevivência, a escola tem sido a fábrica onde industrialmente se transforma o princípio do prazer infantil, no princípio da realidade adulta – e mais precisamente no princípio da performance” (Fernando Cabral Pinto, A Idade da Realização, na História da Vida, na Vida da História, Instituto Piaget, Lisboa, 1993, p. 57).
Porque o tempo do trabalho é, no capitalismo (como nos “capitalismos de estado”, mascarados de socialismo, que se conhecem) o tempo social dominante, o “princípio da performance” inquina a própria prática desportiva – o que significa que o modelo civilizacional, que o espetáculo desportivo assume, integra-se na ordem neoliberal. Do JL (Jornal de Letras, Artes e Ideias), de 21 de Outubro a 3 de Novembro de 2020, de um ensaio de Boaventura de Sousa Santos, recorto o seguinte: “Não admira que os analistas financeiros, ao serviço dos que criaram a ordem neoliberal, prevejam agora que estamos a entrar numa nova era, a era da desordem (…). A pandemia veio agravar a situação e é muito provável que dê azo a muita agitação social (…). A dívida externa de muitos países, em resultado da pandemia, será impagável e insustentável e os mercados financeiros não parecem ter consciência disso. O mesmo sucederá com o endividamento das famílias, sobretudo da classe média, já que foi este o único recurso que tiveram, para manter um certo nível de vida (…). O modelo atual assenta na exploração sem limites da natureza e dos seres humanos, na ideia de crescimento económico infinito, na prioridade do individualismo e da propriedade privada, no secularismo. Este modelo permitiu avanços tecnológicos impressionantes, mas concentrou os benefícios em alguns grupos sociais, ao mesmo tempo que causou e legitimou a exclusão doutros grupos sociais”. Ora, se nada se compreende como individualidade ou singularidade, se não se estabelece como elemento de uma totalidade; se uma visão imediata da realidade nos empurra para uma visão abstrata do mundo e da vida – o desporto pelo desporto significará sempre uma absolutização do parcelar, e portanto uma visão defeituosa, canhestra do “fenómeno desportivo”. Ninguém vale só por si, ou seja, ninguém é indissociável do sistema ecológico e do social e do cultural, em que o seu viver e conviver se determinam.
Portanto, o desporto, porque o individual nunca se encontra isolado, repito-me: “o desporto mais publicitado e propagandeado”, só poderá entender-se como parte de um todo, como elemento de um modelo civilizacional, de uma totalidade, quero eu dizer: a ordem neoliberal. É verdade que qualquer totalidade se apresenta como uma totalidade de contradições, que se movimenta precisamente porque essas contradições se movimentam, se entrechocam. Perdoem-me uma citação mais: “Pensar o real como totalidade corresponde, deste modo, à tomada de uma perspetiva sobre ele, que nos habilita, não só a melhor e mais adequadamente o poder refletir e, por conseguinte, o tornar inteligível, como igualmente a melhor e mais eficazmente poder atuar sobre ele” (José Barata Moura, Totalidade e Contradição, Livros Horizonte, p. 112). Mas pensar o desporto, como totalidade, impele-nos a falar do neoliberalismo mundializado e, porque uma totalidade se desenvolve pela força das contradições que lhe dão vida, outros modos de desporto deverão pensar-se também. Segundo um documento que o Vaticano há pouco publicou, “a pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, é mais importante do que o desporto. O ser humano não existe em função do desporto mas, pelo contrário, o desporto deve estar ao serviço da pessoa, tendo em vista o seu desenvolvimento integral” (Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, Dar o Melhor de Si, Paulinas, 2018, p. 62). Que o mesmo é dizer: o desporto que reproduz e multiplica as taras do neoliberalismo dominante deverá sofrer, o mais depressa possível, um corte epistemológico e uma transição paradigmática, começando pela resposta a esta interrogação: como deverá organizar-se o desporto à luz de novos valores? Quais são as condições de possibilidade de conseguir-se um acordo, entre o Ter e o Poder, relativamente à vivência de novos valores, no desporto, quando, como se sabe, os interesses mediáticos, económicos e políticos prevalecem sobre os demais? Afirma o Boaventura de Sousa Santos: “Uma coisa é certa, o tempo das grandes transições inscreveu-se na pele do nosso tempo”. Será que os desportistas ainda o não sentiram? Também no desporto é preciso que nasça um desporto novo!"