Últimas indefectivações

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Reviver o passado na TV

"À falta de futebol em directo, os principais canais de desporto têm apostado na transmissão de jogos antigos. Para mais, gratuitamente, é de saudar a ideia.
E lamentando-se que não possam, ou não queiram, ir mais atrás, designadamente às décadas de sessenta, setenta e oitenta - nas quais, sobretudo no que diz respeito ao Benfica (mas não só), haveria muito para contar -, ficamo-nos pelos últimos quinze anos, o que ainda assim dá para recordar alguns momentos inesquecíveis. Num destes dias revi o magnífico Benfica - Fernerbahçe de 2013, e fiquei espantado como um jogo disputado há sete anos me prendeu ao ecrã durante noventa minutos. Que exibição! Que intensidade! Que equipa! Atente-se ao meio-campo: Matic, Salvio, Enzo Pérez e Gaitán! E à dupla de ataque: Cardozo e Lima! E aos centrais: Luisão e Garay! Que injustiça essa equipa, a de 2012-13, ter ficado à porta de todos os títulos! E tão infeliz foi a subsequente final com o Chelsea - que, entretanto, também tive oportunidade de rever, ainda com a secreta esperança de que o cabeceamento de Ivanovic saísse enfim por cima da trave...
Durante esta quarentena vi também o Liverpool - Benfica de 2006. Que golo de Simão Sabrosa! Que golaço de Miccoli! Que vitória épica, no terreno (e agora) campeão europeu! No plano nacional revi, e aconselho vivamente a rever, dois dos melhores golos a que me lembro de alguma vez assistir no Estádio da Luz: o de Matic no Benfica - FC Porto, e o de Lima no Benfica - Sporting, ambos na já referida temporada de 2012-13.
Enquanto não voltam as grandes emoções, vamos vivendo com estas gratas recordações."

Luís Fialho, in O Benfica

So VAR

"Os doutos membros do International Football Association Board reforçaram a importância do VAR a partir do próximo dia 1 de Junho. Estando de acordo com as alterações às leis do futebol, confesso que o rumo imprimido ao VAR me satisfaz. Devido às implacáveis regras do confinamento, tenho aproveitado os dias e as noites para pôr em dia as minhas estatísticas dos campeonatos disputados nos últimos 10 anos. O balanço é deveras positivo, pois conquistámos seis e perdemos quatro.
Acontece que dos quatro perdidos só um foi por demérito nosso. Refiro-me à Liga 2010/11, em que ficámos a 21 pontos do 1.º lugar. Quanto aos campeonatos de 2011/12, 2012/13 e 2017/18, são conhecidas as decisões de arbitragem que nos penalizaram em 13 jogos. Sempre sustentei a tese de que se já houvesse VAR, em 2011/12 (época em que nos sonegaram 12 pontos), e em 2012/13 (foram 6 pontos tirados), o Benfica teria sido campeão nacional. Acontece que em 2017/18 já havia VAR e fomos impedidos de conquistar o tão ambicionado penta, pois fomos prejudicados em 5 jogos por erros de arbitragem que nos custaram a conquista de 7 pontos. O que falhou?
Os árbitros de campo e, sobretudo, os VAR. Parece contraditório mas não é. O que falhou foram os utilizadores do VAR! Foram 25 pontos sonegados em três ligas perdidas por erros claros e óbvios de arbitragem. Já para não falar nos 34 penáltis que ficaram por assinalar a nosso favor nessas épocas. Contas feitas, em vez de estarmos a lutar pelo 38.º título podíamos já estar a caminho do 41."

Pedro Guerra, in O Benfica

Vou sair daqui a pé!

"É esta a fibra de que é feito Aliu Camará. Quem acompanhou a sua história e leu as notícias da tragédia pessoal que o atingiu na longínqua República Centro-Africana foi Ferro. O mesmo Ferro que agora lhe telefona para dar ânimo e se confessa fã dessa coragem indómita que o faz erguer-se na adversidade. São ambos audazes, cada um no seu campo, e não viram costas à luta nem recuam perante os obstáculos, por mais difíceis que se ergam na sua frente. Interessam pouco agora os pormenores do triste acontecimento, e ninguém gosta ou quer revisitar a dor física e mental de uma dupla amputação. Muito menos Aliu, para quem a vida continua a ser feita de sonhos e projectos e que não se verga perante esta fatalidade que arrastaria com os demais. A vida segue para a frente, e o futuro constrói-se hoje, aqui e agora. Essa é a grande lição deste jovem de quem nos recordamos nos torneios e actividades do projecto 'Para ti Se não faltares!', no bairro da Boba, na Amadora, há exactamente dez anos.
Tal como os seus colegas, Aliu frequentava então o projecto da Fundação Benfica porque adorava futebol e aceitava, em troca, aplicar-se na escola, mais ainda porque, embora não fosse condição, também era benfiquista, e o seu orgulho redobrava! Mas Aliu não aprendia apenas a jogar à bola, assimilava valores e cultivava atitudes, aprendia a desenvolver os seus talentos, a decidir o seu destino, a traçar caminhos e a mantê-los resilientemente. Como a maioria dos seus colegas do projecto, mais de quatro mil nesta década de trabalho, descobria o seu valor e queria dá-lo ao mundo. E Aliu tinha muito valor, e deu-o ao mundo à sua maneira servindo o seu país e lutando pela paz onde quer que seja, mesmo na mais longínqua África.
Ferro impressiona-se com esta história, como todos nós, quer ajudar este jovem a manter o moral no difícil caminho que o espera. Por isso oferece-lhe o melhor de si. Porque Ferro sabe muito bem o poder que tem o Grande Jogo para acender as paixões humanas, emocionando e motivando cada um de nós de maneira muito particular e profunda. Ele sabe  que o que oferece alegra e moraliza Aliu, mas sabe sobretudo que este jovem sairá desta situação a andar, porque Ferro faz parte da Alma do Benfica e sabe por experiência própria, tal como os Comandos, que a sorte protege os audazes!"

Jorge Miranda, in O Benfica

Grande, muito grande, é o Benfica

"É perante as maiores dificuldades que melhor se pode avaliar a capacidade e a resiliência das instituições, escoradas (ou não) na força estrutural dos seus modelos e dispositivos e mais particularmente, de que modo, com que disposição e com que celeridade se mostram os seus responsáveis capazes de assumir as suas decisões, definindo as respostas oportunas para enfrentar a crise. Assim que o mal se começou a desenvolver em Portugal, a Direcção do Benfica considerou prioritário que todas as primeiras decisões apenas atendessem à emergência defensiva, na estrita determinação de impedir que os contactos físicos e de proximidade da vida e do trabalho 'normal' entre atletas e colaboradores eventualmente pudessem contribuir para a disseminação de uma peste da qual pouco mais se sabia então do que ser caracterizada por um poderoso e velocíssimo grau de contágio.
Em Portugal como no mundo inteiro, mais cedo ou mais tarde, todos acabámos por tomar consciência de que estaríamos mergulhados num dos períodos mais calamitosos dos últimos cem anos: de repente, toda a humanidade se vira dolorosamente fustigada pela inesperada pandemia, cuja extensão e consequências ainda agora são incalculáveis no plano individual e para a generalidade dos sistemas de vida em comum a que estávamos habituados...
Mas, naquela altura, nada era mais decisivo - nem campeonatos, nem raciocínios de gestão, nem contas de somar ou subtrair. A preocupação essencial era a vida das pessoas, das famílias e da comunidade, e havia que agir com muita determinação.
Em todo o caso, pelo que logo a seguir todos confirmávamos, grande, muito grande, é a instituição cujos dirigentes não tremeram e não tremem, diante de um cataclismo tão imprevisto e severo e, ainda menos, não hesitam em continuar a cumprir escrupulosamente todos e cada um dos seus compromissos anteriores de longo ou curto prazo, sem qualquer solução de continuidade, quebra de cadência ou desfalecimento!
O Benfica conhece o Futuro? Saberá aqui, alguém, antecipar como virá a ser a 'nova normalidade', no campo dos Desportos e na sociedade portuguesa?... Evidentemente que não. O que vier... virá, que o Benfica estará sempre pronto e preparado para vencer todas as dificuldades. Porque o que os nossos Dirigentes, conhecem bem é o Benfica - a incrível força do Benfica! E o que os Sócios e adeptos do Benfica também bem conhecem é a história do Benfica, assim como o rumo e a estabilidade que, no plano da ética e dos compromissos assumidos, o Benfica cumpre inflexivelmente, sem sofismas nem interrupções, de há dezassete anos para cá.
E com esta confiante segurança baseada em factos, inequivocamente reafirmada pelo Presidente Luís Filipe Vieira na carta enviada a cada um de nós na passada quarta-feira, não restam dúvidas de que 'juntos vamos conseguir' vencer e convencer em todos os obstáculos que esta crise nos levantou e da qual, com a mesma determinação, certamente ainda sairemos mais fortalecidos!"

José Nuno Martins, in O Benfica

Regresso gradual

"Passado cerca de mês e meio da interrupção das competições, vislumbramos finalmente uma luz ao fundo do túnel. Esta é ainda ténue, pois perdura a incerteza quanto ao futuro que se avizinha, mas é com esperança e optimismo que encaramos a possibilidade do restabelecimento da normalidade ou, pelo menos, de darmos passos conducentes a ela.
Este percurso terá, por força das circunstâncias, de ser feito de forma gradual. A retoma dos trabalhos do nosso plantel está prevista para a próxima segunda-feira, dia 4 de maio, cumprindo o acordado com todos os clubes sob o patrocínio da Liga.
Ao longo da presente semana, começando já hoje com a equipa técnica e os elementos afectos à estrutura profissional do futebol, serão efectuados testes de diagnóstico à COVID-19, no Seixal, em sistema de "drive-thru". Ou seja, estes testes serão feitos nas viaturas e não haverá qualquer contacto entre cada um dos testados. No dia seguinte será a vez dos jogadores e seus familiares. Só após a obtenção dos resultados, sendo estes negativos, se procederá a uma avaliação médica individual de cada atleta.
Após o anunciado final do estado de emergência, previsto para 2 de maio, será efectivado o regresso de todo o departamento de futebol ao Seixal, com a realização de testes físicos aos jogadores. No dia 4 dar-se-á o arranque dos treinos individuais, antecedidos por análises clínicas. Os jogadores estarão divididos por quatro grupos, com dois a trabalharem pela manhã e os outros dois pela tarde. Não haverá qualquer contacto entre os membros do plantel, observando-se o distanciamento adequado, e o trabalho com os fisioterapeutas, enfermeiro e médicos ocorrerá com os devidos cuidados e equipamentos de protecção.
Acrescem ainda limitações no acesso ao Benfica Campus, a implementação de procedimentos adequados de higienização, a prevalência do princípio de menor contacto possível, além da operacionalização de um processo de triagem à entrada do centro de treinos e estágio. Os balneários colectivos não serão usados, tendo os jogadores, à sua disposição, quartos individuais, com casa de banho privativa, onde poderão equipar-se e tomar banho.
O cumprimento escrupuloso das normas e recomendações definidas pelas autoridades de saúde tem sido, e continuará a ser, o que norteia todas as decisões tomadas relativamente à actividade do Clube, incluindo, naturalmente, o Futebol Profissional.
É nosso desejo que as competições sejam terminadas, mas nunca transgredindo as regras definidas pelas autoridades para enfrentarmos esta pandemia.
Cabe-nos, por último, enaltecer o contributo social do Clube, no seu todo, neste período, através do próprio clube e SAD, da Fundação, das Casas do Benfica, dos colaboradores e, também, das suas equipas técnicas e atletas. No caso particular do futebol, orgulha-nos o empenho aos níveis da solidariedade, responsabilidade, profissionalismo e compromisso de jogadores e treinadores, destacando-se os contactos, à distância, com adeptos e as avultadas doações de alimentos e material e equipamento médico.
Desconhecemos ainda o que nos reserva o futuro próximo, mas estamos certos de que todos continuaremos a trabalhar afincadamente em prol do Sport Lisboa e Benfica.
#PeloBenfica

P.S.: Ao longo desta semana, sempre às 19h04, o nosso antigo jogador Ricardo Rocha tomará conta do Instagram Live do clube e convidará ex-colegas para conversas descontraídas à volta de jogos marcantes ao serviço do Benfica. A não perder!"

Golo: Rodrigo

Made in Benfica #2 - Paulo Bernardo

Como dizia o outro: concorrência desleal !!!


""Eu vou lhe usar"
Tariq Panja like this."

PortoaoColo, in Facebook

Benfica, FC Porto e o 25 de Abril

"Como bom Benfiquista que sou, não gosto nada do FC Porto. Mas mesmo nada. Mas mesmo, mesmo nada. Mas mesmo, mesmo, mesmo...bom, já passei a mensagem. Só que numa coisa eu tenho que os elogiar: são fortíssimos na comunicação. Seja na imprensa, seja nas redes sociais têm sempre diversos elementos a trabalharem para passar a mensagem (alguns chamariam de cartilha) que mais lhes convém. E a pintar a realidade de azul e branco. Uma das vertentes passa por desvalorizar e achincalhar tudo o que é vermelho. Para eles, o Benfica nunca ganha nada com mérito. Campeões em 2005? Estorilgate. Campeões em 2010? Campeonato do túnel. Campeões em 2014? Aqui a superioridade foi tal que nem se atreveram. Campeões em 2015? Já não me lembro, algo terá havido. Campeões em 2016? Campeonato da mala. Campeões em 2017? A culpa é do Benfica. Campeões em 2019? Campeonato do polvo.
Referi 7 campeonatos do Benfica. E os outros 30? Não há mérito também! Porque muitos foram conquistados antes do 25 de Abril de 1974. E eles já decidiram que o Benfica era o "clube do regime". Pouco interessa que o Benfica tenha sido censurado por ser os "vermelhos" ou ter como hino "Avante p'lo Benfica". Pouco importa que o FC Porto tenha inaugurado o seu estádio num 28 de Maio, em homenagem ao regime, e o Benfica a 1 de Dezembro, em homenagem à restauração da independência. Pouco importa que o Benfica tenha sido o único clube a manter eleições livres e democráticas. Pouco interessa que a FPF tenha obrigado o clube a jogar uma eliminatória da Taça de Portugal no dia a seguir à final da Taça dos Campeões Europeus de 1961. Pouco importa que a Selecção Nacional só tenha jogado pela primeira vez no Estádio da Luz em 1971. Pouco importa que o Benfica tenha tido presidentes comunistas e jogadores membros da resistência em Moçambique. Pouco importa que tirando a história desvirtuada de Inocêncio Calabote (num ano em que foram campeões), pouco mais tenham para apresentar. Pouco importa que o Benfica fosse o clube do coração da maioria dos Portugueses, na Europa ou em África.
A mensagem que tem que ser passada é que o Benfica ganhava muito antes de 1974, porque era apoiado pela ditadura e pouco ganhou depois, já que deixou de ter o apoio da mesma. Porque de outra maneira, como explicariam o embaraço do tal clube que está "a vencer desde 1893", ter chegado a 1983 com apenas 7 campeonatos? Então a realidade alternativa é criada: eles pouco venciam antes porque eram vítimas do sistema e muito ganharam entretanto porque são os "campeões da democracia". E porque são os campeões da democracia? Porque neste período venceram mais que os outros. Ou melhor, porque venceram mais que o Benfica. O que é verdade. Mas vendo os números a diferença não é tão significativa como tentam vender. Desde 1974 o FC Porto venceu 23 campeonatos. O Benfica 17. O FC Porto venceu 13 Taça de Portugal, o Benfica 11. E quanto às outras menores competições, se o FC Porto venceu 21 Supertaças e o Benfica apenas 8, o Benfica venceu 7 Taças da Liga e o FC Porto 0. Imagine-se o seguinte: da mesma maneira que o Benfica venceu 5 dos últimos 6 campeonatos, que vencerá 7 dos próximos 10 campeonatos. E que o Sporting ganha os outros 3 (ok, admito que esta é a parte mais difícil de imaginar). Ficaria o Benfica com 24 campeonatos no pós-25 de Abril e o FC Porto 23. Ou seja, passaria o Benfica a ser em 2030 o "campeão da democracia"? E ruiria assim toda a conversa do Benfica sofrer com a liberdade? Querem mesmo continuar dependentes dessa linha imaginária para a contagem de títulos? É que poderá vir um dia a mordê-los onde menos esperam (repito, a diferença já só é de 6 campeonatos)...
É que desmistifique-se outra lenda: o Benfica não parou de vencer em 25 de Abril de 1974. Sabem qual era a média de campeonatos do clube encarnado no fim da temporada 1973/74? 50%. Ou seja, o clube tinha tantos campeonatos como os outros clubes juntos. E 20 anos depois, em 1994 qual era a média? Adivinhem. Sim, 50%. Nos 20 anos seguintes ao 25 de Abril o Benfica continuou a vencer exactamente ao mesmo ritmo que antes. Depois sim, o clube caiu. E caiu porque havia eleições de 4 em 4 anos no país? Porque os jornais podiam escrever sem censura? Não. Caiu porque houve investimento desmedido nos anos 80. Porque houve Manuel Damásio. Porque houve Artur Jorge. Porque houve Vale e Azevedo. Nada a ver com a revolução dos cravos. O clube caiu porque os sócios escolheram maus presidentes, que por sua vez escolheram maus treinadores, que por sua vez escolheram maus jogadores. E quinze anos levou o clube a recuperar o seu lugar, mas já por lá andamos outra vez com regularidade.
E porque ganhou tanto o FC Porto? Porque nas ruas se pode criticar livremente o governo? Porque quem é da oposição já não vai para o Tarrafal? Não, o FC Porto muito ganhou porque apareceu José Maria Pedroto. Porque apareceu Pinto da Costa. Porque apareceu Futre. Porque apareceu Jardel. E sim, hão-de haver razões sociológicas: o país evoluiu no pós-25 de Abril, descentralizou-se e outras regiões do país, que não Lisboa, cresceram económica e futebolísticamente (tanto que actualmente a Liga de Clubes está sediada no Porto e 90% do campeonato é disputado no norte do país).
O 25 de Abril é uma data demasiado bonita para cair em clubismos. Para ser instrumentalizada por um clube que quer reescrever a História como lhe convém. 25 de Abril é para todos. Para os vermelhos, para os azuis, para os verdes, para todas as cores. Para todos os Portugueses.

Ps: Curiosamente, quem passa sempre pelos pingos da chuva neste ridículo debate é o Sporting. Que pós-25 de Abril só venceu 4 campeonatos. Num total de 18. Sim, 18. Já chega de reescrever a História."

Da Holanda, um sinal

"A temporada terminou sem que seja proclamado o vencedor do campeonato nem alteradas as classificações que se registavam a nove jornadas do seu termo.

Quando a dúvida atravessa ainda uma grande parte dos países da Europa, a Holanda acaba de tomar uma decisão radical, ficando apenas por se saber se, neste continente, virá a ter ou não outros seguidores.
Para os responsáveis federativos dos Países Baixos a temporada terminou sem que seja proclamado o vencedor do campeonato nem alteradas as classificações que se registavam a nove jornadas do seu termo. Pura e simplesmente, a temporada não existiu e por isso não fará parte da história.
Como principal justificação para esta tomada de posição foi apresentado o facto de não ser possível concluir a prova nas mesmas condições em que havia decorrido até à data da sua interrupção, uma realidade à qual não pode ser feita qualquer contestação.
Em Portugal pensa-se de forma contrária, como de resto tem sido propalado com insistência. Há apenas dúvidas quanto a datas precisas e modelos que permitam chegar ao fim da temporada sem atentar contra a verdade desportiva. E estes são aspectos que ainda continuam a merecer reflexão, embora haja uma parte substancial que não hesita em qualificar como necessário o cumprimento do calendário até ao fim.
Claro que no meio de tudo isto há uma forte razão, não desportiva mas sim financeira, que acabará por influenciar todas as decisões a tomar. Os clubes estão em estado de falência técnica, agravada com a paragem que decorre, e há que procurar uma saída para evitar o descalabro total. No entanto, pelo meio, será inevitável também a análise de outros factores, sobretudo de ordem sanitária, que poderão vir a constituir-se como elemento importante, quiçá decisivo.
A evolução da pandemia que nos atormenta a todos é ainda uma incógnita. E, por isso, há que dar algum tempo até se chegar a conclusões que satisfaçam todas as partes."

E se o futebol nacional acabasse?

"É sabido que 80% dos clubes profissionais (a principal e secundária ligas de Portugal) já se encontravam, antes de irromper a crise em que vivemos, em falência técnica. Perante este cenário, não se augura um futuro promissor para os clubes e ligas profissionais de futebol. Face à incapacidade de sobrevivência da grande maioria dos clubes profissionais, sem a intervenção da solidariedade da indústria do futebol, sobejarão os mais fortes financeiramente, que se estimam ser cerca de 5 a 6 clubes nacionais. Insuficientes para manter uma liga nacional.

Estamos há mais de um mês sem futebol. Com vontade de ir ver a bola ao café, para alimentar a nostalgia, no meio do zapping, revejo por minutos alguns lances dos grandes clássicos da primeira liga de futebol portuguesa e principais ligas europeias. Estes canais desportivos de sinal aberto, onde, agora, passa em diferido a história do futebol, têm, neste momento, maior relevância que os canais desportivos codificados. Estes, sem matéria para transmitir em directo, perante a invasão global do novo coronavírus, suspenderam abruptamente a relevância que vinham impondo. Mas, apesar da oferta de ouro para os tempos de hoje, não perco muito tempo com esta narrativa, uma vez que nunca gostei de rever partidas de futebol. E sigo com o zapping. A repetir, antes um filme que um jogo de futebol. O futebol só em directo na TV ou ao vivo no estádio, preferencialmente repleto de emoção e com assistência esgotada e ruidosa. 
Com a chegada da Peste e declarado o estado de medo, fecharam-se todas as portas. Inclusivamente as dos estádios. Não com o objectivo de ocultar a táctica e estratégia de jogo, mas para fintar um adversário comum, que favorece o individualismo, em detrimento do jogo colectivo. Os clubes profissionais carecem, naturalmente, de ajuda financeira. E privados momentaneamente de render, valorizar ou vender os seus activos, planeiam um recomeço à actividade desprovidos de receitas de bilheteira, de publicidade, de verbas provenientes dos direitos televisivos, de sócios pagantes e de jogadores com ritmo. É sabido que 80% dos clubes profissionais (a principal e secundária ligas de Portugal) já se encontravam, antes de irromper a crise em que vivemos, em falência técnica. Perante este cenário, não se augura um futuro promissor para os clubes e ligas profissionais de futebol. Face à incapacidade de sobrevivência da grande maioria dos clubes profissionais, sem a intervenção da solidariedade da indústria do futebol, sobejarão os mais fortes financeiramente, que se estimam ser cerca de 5 a 6 clubes nacionais. Insuficientes para manter uma liga nacional. Será que iremos assistir ao brotar de uma liga única europeia com a participação dos clubes profissionais sobreviventes? E a liga dos campeões, contará com a participação dos clubes profissionais do resto do mundo? As crises pandémica e económica irão, certamente, impor um ambiente moderno e globalizado no futebol."

A Bola da Noite...

A Quinta da Bola...

Benfiquismo (MDIX)

Céu...!!!

A História Gloriosa - Cap. VIII (1974-1984)

Benfica de Quarentena #50 - Filipovic

domingo, 26 de abril de 2020

O #11DaBancada de (..): um novo jogo para entupir as redes sociais

"O período de confinamento trouxe ao de cima as grandes qualidades humanas de muitos, mas também alguns defeitos. Por exemplo, a nossa tendência para propagar passatempos de gosto discutível. Não sei se viram este que passo a explicar: chama-se jogo das capas. A pessoa passa 10 dias a enumerar os 10 discos que mais influenciaram o seu gosto musical, com ou sem grande explicação, e convida mais não sei quantos amigos para fazerem o mesmo. Resultado: o Facebook transforma-se numa banca de vinil usados da Feira da Ladra. Já sei o que vão dizer: não gostas, não olhes. É precisamente isso que tenho feito. Escusam de relembrar aquele disco do Frank Zappa que vos libertou da puberdade. Já cliquei onde diz “esconder post”. Amigos como dantes.
Neste contexto de união nacional em que todos arregaçam as mangas e fazem algo pelos outros, também eu dei por mim a pensar no que poderia fazer para ajudar o país: no meu caso, isso passa necessariamente por tentar entupir as redes sociais com outro conteúdo de gosto discutível. Foi assim que cheguei à minha variação do jogo das capas: o jogo dos grandes adeptos.
Cada adepto escolhe 11 adeptos do seu clube que o tenham influenciado de alguma forma e deverá depois desafiar outros 3 adeptos.
O jogo é válido para adeptos de todos os clubes. Podem publicar um por dia durante 11 dias ou despejar os 11 nomes em cinco minutos. É-me indiferente. O jogo termina quando todos acharmos que isto se tornou mais uma modinha insuportável nas redes sociais. Uma vez que sou eu o inventor do jogo, este irá arrancar não com 11 mas com 12 benfiquistas que me influenciaram. É a vida. 
Escreverei um número de caracteres ligeiramente excessivo para cada um deles, já que é para isso que a Tribuna Expresso me paga. Vocês não precisam de escrever tanto. Lanço o convite à Catarina Pereira e ao Diogo Faro, meus colegas aqui na Tribuna, e a quem mais se quiser juntar. Utilizem o hashtag #11DaBancada para eu poder acompanhar as vossas participações.

Vítor Paneira
É a principal razão por que me lembrei de fazer este jogo, logo após ler a entrevista dele publicada na Tribuna. Para além disso, foi um ala direito que nasceu à frente do seu tempo. Só assim se explica que os primeiros 200 resultados de uma pesquisa pelo seu nome no YouTube não utilizem os termos “SKILLS | GOALS | ASSISTS” no título dos vídeos. É que foram muitas skills, goals e assists, as melhores das quais vestindo de encarnado. Curiosamente, o vídeo com mais visualizações que encontrei tem o título “Vítor Paneira, um ala romântico”. Talvez seja essa a mais adequada forma de descrever o jogador-adepto que nos fez berrar quando bisou frente à Juventus de Baggio, Vialli, Moller, e Conte, uma equipa fria e algo aristocrata que irritava de tão em que jogava, até se deparar este génio de Vila Nova de Famalicão. Esse era o jogador que ajudaria a arrumar com o Bayer em Leverkusen, o mesmo que hoje valeria dezenas de milhões e seria o hype de meia Europa, e o mesmo que pouco tempo depois seria dispensado do Benfica por um lunático de bigode mal aparado licenciado em Filologia Germânica. Felizmente, Paneira não guardou rancor ao clube, e o adepto que hoje conhecemos não fica atrás do jogador. Recordo—me há poucos meses de o termos avistado na bancada em Vila do Conde a celebrar uma importante vitória rumo ao 37, como se fosse um de nós. Em bom rigor, já não se faz destes.

Bernardo Silva
Para além do enorme benfiquismo demonstrado em numerosas ocasiões, o Bernardo é o tipo de jogador a quem nós nos dirigimos pelo primeiro nome, porque é membro da família. Vimo-lo nascer, até que subitamente nos privaram de assistir à sua infância. Foi um pouco como se nos tivessem retirado a custódia do filho e agora os seus novos pais esfregam-nos na cara que são melhores do que nós, apesar de o próprio filho afirmar publicamente que gostaria de voltar a casa. 15 milhões não pagaram aquilo que perdemos e não devíamos olhar a meios para o fazer regressar, mesmo que o Bernardo adepto regressasse sem receber um cêntimo.

Mário Wilson
Eu não conheci o Mário Wilson jogador e capitão. Só conheci o bombeiro e condutor de homens que se sacrificou num tempo em que os plantéis pareciam sempre compostos de destroços e o Benfica se via diminuído em campo e na bancada. E isso bastaria para nunca mais me esquecer dele, mas, entre outras coisas, Mário Wilson foi também responsável por 3 minutos e meio de amor ao clube num discurso pouco preparado mas saído do coração que justificaram a existência da gala do clube no seu 108º aniversário e emocionaram até os figurantes presentes na plateia. Brincadeiras à parte, é e será sempre um dos maiores da história do clube, por ter lá estado quando este mais precisava.

Paulo Parreira
Não sei se esta será a melhor escala, mas sempre que o vejo apetece-me dizer que o benfiquismo do estádio vai de 0 a Paulo Parreira, o adepto possuído e artista musical que em 2012, se não me falha a memória, deu a receita para os melhores momentos do Benfica nesta década, ao comparar os adversários a “peixes debaixo de água” para depois explicar que dessa forma os ditos peixes não seriam capazes de respirar. A expressão “nem respiram” perdura, mas a dúvida científica permanece. Vocês perguntam: peixes debaixo de água não respiram? Isto faz algum sentido? Não. Mas, como muitas coisas no benfiquismo mais apaixonado, nem tudo se explica ou tem que fazer sentido, especialmente depois de umas Sagres. É aí que reside a magia de Paulo Parreira, na intersecção entre a cevada e o maior clube do mundo. O estádio ganharia em ter mais como ele.

David Luiz
Por ser um de muitos jogadores que demonstram o quão marcante é representar o Benfica. Não querendo entrar muito em comparações, parece-me evidente que os atletas que passam pelo Benfica e que se dedicam ao clube na exacta medida da grandeza do clube são precisamente os que nunca mais se esquecem do que aqui viveram. E são muitos, quase sempre mais do que conseguimos recuperar nas conversas entre benfiquistas. Felizmente são os próprios quem faz questão de lembrar as saudades do tempo que viveram connosco e o carinho que continuam a ter pelo clube. Não sei se o David Luiz está no pico da sua carreira, mas aceitava-o já de volta.

Júlio António
O Júlio será para muitos uma cara e voz conhecida da BTV, mas para além disso é pai de um grande amigo meu, o que deu o privilégio de o conhecer e com ele privar um pouco para perceber que, apesar dos anos que nos separam, os benfiquistas acolhem os seus como se de família se tratasse. Além disso, é um formidável contador de histórias e tem muito Benfica em si. Um abraço, Júlio. Vamos combinar o tal almoço assim que este suplício terminar.

João Gonçalves
Antes de o João ser uma das vozes mais sensatas, cultas e apaixonadas da BTV, já era um dos benfiquistas mais activos que eu encontrara nas lides digitais. Agora que penso, são quase 20 anos e ler o que o João diz. Já concordei muitas vezes com ele, já discordei uma ou outra, e até acho que já me senti visado de alguma forma por textos do João, não por ele se dirigir a mim, mas porque pensa o Benfica de forma crítica e sempre com os olhos na vitória, ou em ganhar por mais. Se ele criticou, é porque provavelmente o merecemos. O João consegue ainda o raríssimo feito de escrever todos os seus textos metaforicamente de pé na bancada, onde os melhores adeptos se encontram. Digo “os melhores” porque isto do benfiquismo também tem a sua hierarquia. Eu não tenho pruridos nenhuns em afirmar: o João é melhor benfiquista do que eu. Não sei se é mais benfiquista, mas é melhor. Nunca se deixa perturbar no seu amor militante pelo clube, nunca se afasta da bancada, quase nunca perde uma deslocação, e, apesar de tudo isto, não perde a lucidez. Eu nunca perco os seus textos no Red Pass, um blog essencial, repito, essencial para todos os benfiquistas.

Sérgio Engrácia
Se os adeptos do Benfica que eu sigo nas redes sociais fossem uma equipa de futebol, o Sérgio seria o mais talentoso e trabalhador dos centrocampistas (já agora, eu seria o Pesaresi). Ouvi falar do Sérgio pela primeira vez, penso, com o Conversas à Benfica, um magazine digital em que o Sérgio discute e pensa o Benfica com adeptos, atletas e treinadores. Curiosamente, o primeiro convidado foi o João Gonçalves. Depois disso vi-o ligado, entre outras coisas, ao projecto Benfica Independente, que é uma manifestação de vitalidade do clube - que inclui o óptimo Benfica FM, entre outros - composta por um punhado de grandes adeptos que me habituei acompanhar e, mais recentemente, passei a apoiar com um pequeno donativo mensal feito na plataforma Patreon. Já recebi uma caneca toda catita oferecido por estes amigos, mas não pensem que é suborno. Como se tudo isto não fosse suficiente, o Sérgio vê-se confinado como os restantes portugueses e, ao contrário da maioria deles, decide criar uma epopeia de conversas sobre o clube chamada #BenficaDeQuarentena que é, literalmente, o conteúdo mais interessante, oficial ou não oficial, que se viu sobre o Benfica nos últimos 2 meses. E, se não estou em erro, o Sérgio faz ou participa em literalmente tudo isto que acabei de vos descrever por um só motivo: amor ao Benfica. A sua compensação tem sido maioritariamente o reconhecimento de uma franja de adeptos benfiquistas ligados às redes, mas deveria conhecer palcos maiores. Suspeito que lá chegaremos.

Ciclista de Campo de Ourique
Há uns anos vivi em Campo de Ourique e pude constatar a beleza que é ter um adepto que nos lembra a existência do Benfica dezenas de vezes ao dia. Não que precisemos, mas nunca me cansei de ver passar este senhor, ar de vencido da vida sobre o selim, a pedalar à volta dos quarteirões com a sua bicicleta equipada à Benfica. Se me parece louco sempre que o vejo passar? Sim, parece. Qual é o problema?

Grupos de Whatsapp
É uma espécie de benfiquista de 50 cabeças que me habituei a apreciar. Muitas formas de sentir o Benfica, quase sempre de forma civilizada e respeitosa, mesmo quando se diverge.

Aquele gajo da Casa de Benfica em Paris
O dia em que eu confirmei a grandeza geográfica do Benfica aconteceu em agosto de 2004, por culpa de um emigrante residente em Paris. Procurava ingenuamente um sítio que transmitisse o jogo do Benfica junto à cité universitaire e fui vagueando pelas ruas, sem Google Maps mas com muita vontade de ver o jogo, até me perder definitivamente e encontrar milagrosamente uma porta com um emblema do Benfica. Fui recebido por um emigrante que me convidou a entrar e explicou sim, que o jogo passaria ali, mas que iam começar a jantar, portanto teríamos de nos juntar. Foi ele que me serviu e exigiu que repetisse por três vezes o melhor arroz à valenciana da minha vida, num jogo de fraca memória que até hoje permanece como um dos meus favoritos.

+
O meu presidente do Benfica (se um dia puder escolher)
É uma menção honrosa a um tipo que não precisa de ser nomeado, mas é uma grande referência do benfiquismo, o meu e o de muitos outros adeptos. Ele sabe quem é."

Um 11 de jogadores desaproveitados pelo SL Benfica na última década

"O SL Benfica é um clube reconhecido pela sua grande capacidade de “ressuscitar” e, até, catapultar carreiras, sendo o caso de Adel Taarabt o paradigma dessa mesma afirmação.
Esta semana, mais uma em que nos encontramos privados do desporto-rei, tentámos elaborar um 11 de jogadores que, por diversos factores, não se conseguiram afirmar no Glorioso. Vê connosco, então, um XI inicial, organizado num 4-4-2 clássico, de jogadores mal aproveitados pelo SL Benfica. 

Guarda-redes
Mile Svilar – Chegou à Luz em 2017, proveniente do RSC Anderlecht, com o rótulo de craque. Uma das jóias da formação do clube belga, Svilar chegou num contexto de grande instabilidade em torno das redes encarnadas. Júlio César tinha acabado a carreira e Bruno Varela, então titular, não inspirava confiança devido à irregularidade exibicional que apresentava. Então, o jovem foi “lançado às feras”, tornando-se até, na altura, o guarda-redes mais jovem a jogar na UEFA Champions League, com 18 anos e 52 dias, frente ao Manchester United FC.
No entanto, e depois de alguns erros – e de algum azar – em partidas importantes, Svilar tornou-se numa ovelha negra para o universo benfiquista, e é por essa razão que o incluo neste XI porque, se não for dado o devido tempo de maturação, o Benfica pode, porventura, perder um grande guarda-redes.

Lateral direito
João Cancelo – Um dos melhores laterais direitos a sair do Benfica Futebol Campus, Cancelo nunca teve uma verdadeira oportunidade na equipa principal das “águias”. Titularíssimo na equipa “B” dos encarnados, esteve sempre ofuscado por André Almeida e Maxi Pereira, perdendo a oportunidade de entusiasmar os benfiquistas com as suas arrancadas portentosas.

Defesa central
Cristian Lema – Eleito, a par de Gérman Conti, como um dos melhores defesas centrais da liga argentina da temporada 2017/18, Lema chegou ao Benfica com a esperança de se afirmar no onze titular das “águias”. No entanto, tal não aconteceu, tendo o argentino apenas somado uma partida oficial pelos encarnados – o defesa central foi titular frente ao FC Porto, numa partida em que os encarnados venceram por uma bola a zero. O imponente central deixou boas indicações, mas a aposta do treinador teimou em não passar por ele.

Defesa central
Lisandro López – Proveniente do Arsenal Fútbol Club em 2013, numa verba a rondar os sete milhões de euros, o argentino só começou a jogar pelos encarnados em 2015, após ter sido emprestado ao Getafe CF por duas temporadas. Lisandro chegava com o chavão de “central goleador” e, enquanto esteve ao serviço das “águias”, justificou essa alcunha ao marcar golos decisivos, sendo o golo ao minuto 92’ em pleno Dragão o mais memorável. Apesar das boas exibições, nunca foi uma aposta constante, estando sempre destinado ao papel de terceiro central do plantel.

Lateral esquerdo
Marcelo Hermes – Titularíssimo no Grêmio, Hermes chegou ao Benfica com a perspectiva de ser o sucessor da lateral esquerda encarnada caso Grimaldo saísse. Nem uma coisa nem outra aconteceu e, apesar de ter chegado com o rótulo de promissor, a verdade é que não lhe foi dada a devida oportunidade de mostrar o seu real valor. O brasileiro ficou-se apenas pela equipa “B”, seguindo-se um empréstimo ao Cruzeiro EC.

Médio centro
Bryan Cristante – Chegou ao Benfica por cerca de 5,2 milhões de euros, e era apontado pela imprensa internacional como um dos médios mais promissores de Itália, pelo que a sua vinda para as “águias” deixou muitos adeptos rossoneri chateados. Esperava-se que pegasse de estaca e assumisse um lugar no onze inicial, mas as oportunidades tardavam em aparecer, sendo que Cristante deixou a Luz com apenas 746 minutos de competição.

Médio centro
André Horta – Após uma excelente temporada ao serviço do Vitória FC, André Horta, um fervoroso adepto encarnado, vê cumprido o sonho de representar o clube do coração. Apesar de ter começado a temporada 2016/17 como titular, Horta foi, gradualmente, perdendo espaço no plantel principal, sendo utilizado esporadicamente ou como suplente. Fica a sensação de que André Horta poderia ter dado um pouco mais ao Benfica, daí integrar este XI.

Médio direito
Bernardo Silva – Na ala direita ofensiva está, porventura, o maior desperdício da História do Benfica. Bernardo Silva, um dos criativos de maior renome no futebol internacional, saiu dos encarnados com apenas 31 minutos de jogo pela equipa principal, rendendo “apenas” 15 milhões aos cofres benfiquistas. Ficam as saudades daquilo que não vivemos, Bernardo.

Médio esquerdo
André Carrillo – Contratado ao eterno rival, onde tinha dado provas de ser um extremo de imensa qualidade, a vinda de Carrillo para o Benfica prometia ter tudo para correr bem. Alto, rápido e com golo, o peruano pode ser considerado um extremo completo, mas nunca o conseguiu demonstrar nos encarnados.

Avançado-centro
Raul Jiménez – Um ponta de lança à Benfica, Raúl deixava sempre tudo quando entrava em campo. A “eterna arma secreta” dos encarnados, o mexicano tinha o dom de aparecer sempre nos momentos decisivos. No entanto, e apesar da sua dedicação e esforço em prol do colectivo, Jiménez nunca foi verdadeiramente uma opção para titular, por escolha de Rui Vitória. Agora, depois de duas épocas ao serviço do Wolverhampton Wanderers FC, é que percebemos o grande avançado que tivemos, mas não aproveitámos.

Avançado-centro
Raúl de Tomás – O ponta de lança espanhol, contratado por 20 milhões de euros ao Real Madrid, era apontado como o próximo goleador das “águias”. Após um início de época bom – mas sem golos -, começou a surgir sobre RDT quase que como uma nuvem negra – imposta pelos media – que parecia afectá-lo no último terço do terreno. No caso de RDT, penso que não lhe foi dado nem o tempo, nem as condições necessária para que o espanhol se adaptasse a um novo campeonato e a uma nova função dentro do rectângulo de jogo. Fica um sabor amargo na boca, porque perdemos um jogador de enorme qualidade, que podia ter contribuído muito para o Benfica."

O peso de um regresso urgente às competições nacionais

"Hoje falamos sobre um eventual regresso. FC Paços de Ferreira x Vitória SC, Leixões SC x SC Farense, Clube Condeixa ACD x CD Fátima e Sporting CP x SL Benfica: o que têm em comum estes jogos? Antes da interrupção forçada causada pela pandemia covid-19, estas foram as partidas que nos deram o último vislumbre de Primeira e Segunda Ligas, Campeonato de Portugal e Campeonato Nacional Feminino, respectivamente.
Quase dois meses volvidos e a competição continua parada. Com a luz ao fundo do túnel anunciada pelo Presidente da República e com os clubes a firmar datas para o regresso ao trabalho, importa perceber o que está em causa e de que forma é que isso pode ser feito.
Em primeiro lugar, há que perceber que para além do espectáculo “da bola” e do fanatismo, estão jogadores, treinadores e funcionários, todos com famílias, e cujos rendimentos estão ameaçados. Os jogadores a ganhar milhões em Portugal são poucos e convém estender o olhar até ao Campeonato de Portugal, onde os treinos semanais e o jogo ao fim de semana traz o essencial pão para a boca daqueles clubes e respectivas estruturas.
Quanto às vozes que se levantam relativamente ao quão bem se vive sem futebol, também me merecem algumas palavras. Pegando numa expressão tão querida a Sérgio Conceição e uma ideia repetida por Bruno Lage desde a sua chegada ao SL Benfica, as pessoas preferem “falar do futebol do que de futebol”.
A táctica, o aspecto psicológico, as escolhas arrojadas ou as decisões falhadas são sempre relegadas para segundo plano – ou plano nenhum – e sobrepostas pelas quezílias entre clubes, guerras de comunicação e perguntinhas que não lembram a ninguém. Desconfio que se valessem pontos, os programas de comentário desportivo teriam mais audiência que o próprio jogo.
O futebol, aquele da relva, do nervoso miudinho pré-jogo, da cerveja no sofá e da euforia ou desilusão após o apito final, esse é essencial a uma sociedade tão dependente do sucesso do seu clube. Visto como um escape para o seu quotidiano, salários ou situações profissionais negativas, o futebol é onde todos se nivelam pelo mesmo gosto, clubes diferentes.
Perante tudo isto, não concebo que se não ache urgente fazer regressar o futebol. No entanto, o regresso não deve ser à força toda nem a troca de qualquer coisa. É de suprema importância garantir a segurança de todos os envolvidos numa partida de futebol, a começar pelos adeptos.
Pelo bem do futebol e dos clubes, o adepto tem de perceber que o seu lugar, até ao fim da época, é em casa. Este primeiro ponto tem de ficar bem esclarecido, ou os pontos seguintes não interessarão para nada. Os ajuntamentos estão proibidos e assim deve ser cumprido. O futebol é do e para o adepto, é certo, mas de forma a ter estádios cheios amanhã, é imperativo que hoje estejam às moscas.
Outra das soluções apontadas seria restringir o fim da competição a uma zona geográfica do país. Os clubes entrariam num estágio prolongado num determinado hotel ou centro de treinos e por lá ficaria até ao fim da prova. Os jogos seriam disputados em dois ou três estádios e evitavam-se as deslocações de ponta a ponta do país. No caso do Campeonato de Portugal, onde as séries já estão divididas geograficamente, esta medida seria redundante.
À semelhança do que se estuda em Espanha, também os grandes clubes podiam abdicar de jogar nos seus estádios e utilizar os centros de treinos para a realização das partidas. Ao não ser permitida a entrada de adeptos neste regresso, a lotação dos estádios deixava de ser importante, a logística seria menor, implicaria menos custos com iluminações, acessos e policiamento.
Na linha dos rumores e “meias-confirmações” que circulam, as conferências de imprensa pré e pós-jogo, bem como as flash, seriam através de vídeo conferência, sendo apenas admitidos no recinto os jornalistas e profissionais destacados exclusivamente para a transmissão da partida.
Um dos maiores problemas, e para o qual não vejo solução agradável, é a interrupção das receitas das bilheteiras para clubes com menor tesouraria, como seria o caso da quase totalidade dos participantes do Campeonato de Portugal.
Ainda que esta prova tenha sido cancelada e os mecanismos de subidas e descidas desactivados, há ainda salários para pagar, famílias que desesperam por algo para pôr sobre a mesa. As notícias de solidariedade de presidentes e colegas que albergam e ajudam outros surgem diariamente, mas não é só pela solidariedade que se resolve este problema colossal.
Há uma reforma urgente deste escalão que tem que ser feita. As receitas não são desculpa para tudo. A pandemia covid-19 veio só destapar e agravar os problemas que eram, a muito custo, disfarçados. Os jogos já davam prejuízo quando tudo corria normalmente, mas isso despontaria um novo artigo. 
Até lá, desesperamos pelo nosso campeonato, mas com a consciência que o nosso papel, longe da bancada, é, neste momento, um dos mais importantes para que aconteça o regresso e a bola volte a rolar, saudável."

“O futebol não se ensina, aprende-se” (ou a responsabilidade de um treinador: ser o 25 de Abril de cada um dos seus jogadores)

"O título do texto é uma frase roubada ao genial professor Vítor Frade que, de forma simples e numa linha, consegue teorizar sobre um tema tão complexo como a formação de jovens jogadores. Para quem tem inquietações constantes com este tipo de questões, é uma tormenta diária a procura por respostas à pergunta: “Como é que posso ajudar estas crianças a transformarem-se em jogadores?”
A pergunta não tem uma resposta certa, mas acredito que o caminho passa por lutar contra o meu ímpeto de querer ser importante, passando assim a dar importância ao fundamental; devem ser os jovens a seleccionar o seu caminho, e a criar o seu mapa dentro do território definido pelas regras de um jogo de futebol. Não se trata de menorizar o trabalho do treinador – pelo contrário -, é valorizá-lo, tão raros são, daqueles que conseguem fazer o jogador trabalhar para que desenvolva o factor mais diferenciador do futebol: a criatividade.
De certa forma, é relativamente fácil melhorar um jogador nas capacidades condicionais e nas qualidades técnicas, mas o que é cognitivo e sensitivo não se desenvolve da mesma forma mecânica das orientações programáticas que nos ensinaram durante o nosso percurso de vida. O caminho não é objectivo, como a estrutura do nosso modelo de ensino, que de forma simpática apelidamos de pedagógico, enquanto ele nos guia à memorização.
Há vários problemas de fundo que contribuem para isso, e um deles é, sem margem para dúvida, a forma como enquanto crianças não nos ensinam a pensar. Como tal, por sermos seres miméticos, também nós adoptamos esse método quando nos compete ajudar outros a aprender, e não é fácil lutar contra esse problema de fundo que surge em surdina na forma de responder às inquietações dos mais pequenos, ou de, em larga medida, nem deixar que as dúvidas apareçam. Como nos deram fórmulas para resolver tudo, como pensaram tudo por nós, muito facilmente abraçamos a escravatura dos conhecimentos objectivos do factual e do mecânico, quando é a criatividade que permite dar respostas à problemas inéditos. Portanto, a criatividade é a competência essencial do progresso e para a valorizar temos de começar a pensar, de forma séria, noutras estruturas de ensino que nos permitam estimular esse tipo de qualidade.
Dizemos que o futebol é um jogo caótico, concordámos que é imprevisível e que não há situações que se repetem, e depois prescrevemos aos miúdos uma data de princípios e conceitos como se pudéssemos de antemão prever as circunstâncias e com isso programar um modo exacto de reagir. É este um dos maiores problemas do treino: a necessidade de se perceberem resultados no imediato. O treinador planeia cada exercício no detalhe para que possa ter como consequência daquele trabalho de exercitação resposta imediata dos jogadores, conforme o objectivo que traçou. Em cada condicionante, em cada tempo de exercitação, em cada pausa, todas as respostas estão calculadas. O jogador vai fazer isto nesta situação, aquilo naquela, e outra coisa qualquer noutra. Tudo está prescrito e, por isso, limitado. Não há espaço para a criação, para a liberdade, para a improvisação. 
Dennis Bergkamp, um dos jogadores mais criativos do futebol moderno, escreveu o seguinte sobre os treinos que observa actualmente: “Eles sabem exactamente o que fazer em todos os exercícios, de tal forma que não são capazes de pensar por eles. Os treinadores dão-lhes as respostas todas e eles não têm de se esforçar por resolver nada com a própria cabeça – isso é um problema. Quando surge uma situação nova eles olham para o treinador à espera de que este lhes diga como é que resolve o problema, e o treinador sente-se importante por demonstrar conhecimento ao jogador. Isto é 'overcoaching'. É demasiado, e acredito que ultrapassa o limite da influência do treinador no treino e no jogo. Deixem-nos ser livres e criem os ambientes para que eles possam ser únicos e não clones”. 
Quando o jogador procura por respostas, não é de respostas que precisa, mas sim de dúvidas. Responder às questões que os jogadores vão tendo durante o jogo, durante o treino, limita a cabeça dos pequenos. Eles precisam é de informação! Informação que os ajude a perceber o contexto e que em conjunto as suas capacidades os ajude a resolver o lance. A maior necessidade é a de começarem a antecipar e imaginar o que se pode fazer para que consigam marcar ou evitar o golo, e esta coisa aparentemente simples, o colocar dificuldade ao jogador, acaba por ser a mais difícil de se colocar em prática no treino; dificuldade que o ajude a evoluir nos aspetos em que ainda é pouco desenvolvido, dando-lhe a liberdade para escolher não entre A e B mas entre A e outra coisa qualquer que lhes surja.
Pegando em situações práticas, quando os meus jogadores estão numa situação em que recebem de costas, eu digo-lhes: "Se estás apertado, toca de frente, se tens espaço, enquadra". No futebol, como em muitas outras actividades, o ensino é encarado como uma forma de transformar os aprendizes em máquinas para resolver determinado tipo de problemas, e o maior problema dessa forma de ensino-aprendizagem surge quando não existem problemas tipo. Se o jogo não tem situações que se repetem, por que motivo devo eu ter a presunção que existem apenas duas respostas para os jogadores quando enfrentarem esta situação? Por que motivo limitei eu a quantidade de respostas?
Imaginemos que um defesa faz um passe vertical para um médio sem oposição e, no mesmo instante, há outro médio que estando mais recuado inicia a marcha e que se aproxima daquele que vai receber a bola. Quando a bola chega ao primeiro médio, ele já está suficientemente próximo do colega e em movimento. De acordo com a ideia que prescrevi de que sem pressão ele deve enquadrar, a hipótese de esse jogador jogar de frente no colega que está em movimento é um erro. Pese embora o tempo que ele próprio demoraria a enquadrar e a ganhar embalo tornar mais rápido aproveitar o espaço através do passe para o colega que vem de frente, e já embalado. A minha ideia de que, com espaço, um jogador se deve enquadrar assim que recebe estava, portanto, errada. Pensemos também em quantas vezes o avançado ou médio que está de costas, e pressionado, simula que vai entregar, dando a entender ao seu marcador que não vai rodar, e depois roda, surpreendendo-o?
O problema destes supostos por mim idealizados é que não contemplam a imprevisibilidade. Se, sempre que estas condições se verificassem, os jogadores agissem de acordo com as minhas soluções, os defesas saberiam de antemão o que eles iriam fazer e nunca seriam surpreendidos. Ora, o futebol não é nada disto.
E o problema não é do conhecimento que tenho do jogo ou dos princípios de jogo que eu idealizo, mas sim da forma como traduzo essa informação para influenciar as minhas crianças. É uma espécie de síndrome de Mourinho. O fenómeno Mourinho convenceu muita gente da ideia de que um treinador é responsável por tudo o que acontece dentro do relvado. E os treinadores começaram a formar-se a julgar que o seu trabalho consiste em conseguir que os seus miúdos repliquem as suas ideias. Há muita gente que ainda não percebeu que ser formador não é nada disso. O principal objectivo do treinador não é dar respostas; é criar dúvidas. Os jogadores não precisam de decorar comportamentos; precisam de alargar os horizontes cognitivos e de desenvolver o espírito crítico.
E sim, é possível criar problemas no treino para resolver este tipo de problemas dando-lhes o problema e não a solução. Por exemplo: quando um dos meus jogadores joga com os do escalão acima, vai ao choque, perde e cai. Depois disso ele vai ajustar a resposta a esse tipo de lance, e vai tentar arranjar estratégias para evitar o choque sempre que recebe. Afinal, ninguém gosta de ir ao chão, não é? Nos lances seguintes ele já não pisa e espera pelo adversário, já não encosta para proteger a bola. Solta mais depressa, antes de receber já viu para onde deve seguir, procura colocar-se de forma a receber com espaço, movimenta-se para desequilibrar sem bola e também usa os colegas para tal efeito. Pode até optar por tentar segurar e rodar, por tentar tirar vantagem do ímpeto com que os jogadores mais velhos abordam os lances, mas como não recebe a bola dos mais velhos, por estes não terem ainda confiança na sua capacidade para dar o melhor seguimento ao lance, cuida de cada bola que recebe como se fosse a última. Porque se falhar é bem provável que seja mesmo a última, e que passe o jogo todo sem tocar nela.
E quais foram as condicionantes desse exercício de treino? Quais eram as regras? A importância do treinador é esta: criar contextos favoráveis ao crescimento e ao desenvolvimento do jogador; marcar o território e deixar que seja o jogador a escrever o seu mapa; ajudar a criança a descobrir o caminho para resolver um problema que ele identificou.
No fundo, trata-se de não cair na preguiça de jogar o que o jogo dá, mas sim de pensar que o jogo dá o que jogamos. De ser proactivo na procura de soluções para influenciar o jogo em benefício próprio. Isto é, como queres ser forte a aproveitar o espaço com ataques rápidos se és lento e não és extraordinário no 1x1? Mais, tu percepcionas o contexto de forma diferente de todos porque o fazes de acordo com as tuas capacidades. Ou seja, numa mesma situação em que um jogador com boa capacidade de passe longo percepciona uma oportunidade de aproveitar o espaço nas costas do adversário isolando um colega, outro jogador percepciona a falta de espaço no centro de jogo e de linhas de passe próximas e joga para trás.
Afinal o que é que o jogo dava? Aproveitar o espaço nas costas ou conservar a posse de bola por não haver linhas de passe? Ambas as decisões foram as mais acertadas e estamos a falar da mesma situação. O jogo não dá só uma coisa a cada momento, dá uma infinidade de coisas porque as circunstâncias são ímpares, pelo que é impossível o treinador preparar os jogadores com respostas condicionadas para a esmagadora maioria dos momentos.
Até quando se trata do mesmo jogador, há tanta coisa que o pode influenciar naquele momento, como fadiga, momento de maior ou menor confiança nas próprias capacidades e nas capacidades dos colegas, percepção da qualidade do adversário, resultado, estado do campo, clima, vícios de aprendizagem, etc, que é impossível definir, à priori, com precisão o que o jogador deve fazer.
Se não estimularmos a criatividade da criança, estamos a coartar a criatividade do jogador. Se os ensinamos a ver futebol pela ficha técnica e estatística, eles não podem perceber o que é intraduzível por números ou dados objectivos, quer sejam as subestruturas através das quais se atinge determinado fim, ou aquilo que poderia ter acontecido se em vez de o gajo ir à linha e cruzar tivesse procurado o colega livre com um passe em vez de um charuto para o centro da área.
Resumindo, o jogador consegue analisar tanto melhor os processos individuais ou colectivos quanto mais capaz for de os perspectivar, não só perante o resultado obtido, mas, e sobretudo, perante as outras possibilidades que, a qualquer momento, se apresentem. Também aqui é preciso saber ver que está nas entrelinhas.
As maiores dúvidas deste exercício estarão, porém, na ausência de resultados imediatos, que posso não vislumbrar de forma óbvia ao final de cada época, bem como na falta de espírito crítico que alguns meninos possam não desenvolver. Sobre o segundo ponto, também ele é consequência de um treino que estimula as inquietações mais do que dá respostas. Questionar os jogadores sobre as suas ações obriga-os a reflectir sobre a sua prática. Essa é uma forma de criar necessidade de ir atrás e procurar os porquês do sucesso ou insucesso dos seus lances, e dos lances de outros que o rodeiam (colegas, adversários, ídolos, etc). Quanto ao primeiro ponto, o único consolo é o de que a evolução não se faz de um dia para o outro. Sabemos que o ritmo evolutivo e de aprendizagem é lento e gradual, e apenas passados muitos anos conseguimos perceber a influência dos primeiros anos de aprendizagem.
Assim como a Revolução dos Cravos foi o início de uma sociedade que levou muitos anos a organizar-se para chegar onde está hoje, cada treinador tem a responsabilidade, ou, se quiserem, a possibilidade de ser o 25 de Abril de cada um dos seus jogadores. Revolucionar a vida desportiva da criança de tal forma que ela aprenda o valor da liberdade, da liberdade criativa, e a utilize no futuro para se distinguir dos outros jogadores.
Por fim, deixo umas linhas do Nuno Amado, que nunca treinou uma equipa de futebol, mas que consegue intuir mais e melhor sobre treino, sobre formação, sobre aprendizagem e sobre criatividade do que muita gente do meio; talvez por ele ser também um produto da liberdade criativa.
"A matemática, por exemplo, ensina-se nas escolas de forma convencional. Os alunos são incentivados a identificar o tipo de problema e a aplicar uma determinada fórmula (que decoraram previamente) para o resolver. Aqueles que são bons nas duas tarefas têm geralmente pontuações altas. Mas há muitos matemáticos que criticam este método de ensino. O prejuízo, para mim, é óbvio: preparam-se os alunos para um determinado conjunto de situações (e até conseguem que alguns alunos sejam bons a resolvê-las), mas limitam-lhes a capacidade de responder a situações imprevistas. E esses alunos, por melhores que sejam a resolver exercícios, nunca serão matemáticos de excelência. Os melhores são aqueles que aprenderam a resolver os problemas pensando neles, e não por estímulo-resposta. Os grandes génios da matemática são justamente aqueles que não desenvolveram as suas competências desta maneira, são os que, lidando com os problemas de forma mais livre, desenvolveram a criatividade pela necessidade de lhes responder de uma forma não-condicionada. Isto devia fazer reflectir as pessoas. No fundo, há três hipóteses:
1) ensinar os jogadores a agir segundo princípios, e ficar com jogadores com meia-dúzia de ideias teóricas na cabeça;
2) não fazer nada, deixá-los assimilar instintivamente o que houver para assimilar, e ter a sorte de ficar com dois ou três jogadores competentes, no máximo;
3) procurar oferecer os estímulos para que eles, pela própria diversidade e complexidade desses estímulos, aprendam a desenvencilhar-se, assimilando o que dificilmente assimilariam de outra maneira.""