Últimas indefectivações

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Eram cinco em sombra da tarde!

"Organizou-se para obter verbas para a construção do Estádio da Luz. A I Corrida de Touros Sport Lisboa e Benfica, no Campo Pequeno. A chuva não afastou o entusiasmo. Salvação Barreto, que estava na moda por ter pegado uma fera no filme Quo Vadis, em exibição em Lisboa, quis repetir a façanha e teve ordem de prisão.

Vítor Gonçalves gostava de touradas. Era um jogador de classe. Primeiro como avançado puro, depois recuando um pouco no campo, tornando-se um médio de personalidade rara.
A sua paixão maior era a bola. Depois vinha a arena.
Quando o Benfica cumpriu 25 anos, foi um dos entusiastas pela garraiada promovida na velha Praça de Algés. Nessa tarde, Vítor estava feliz como nunca.
Não sei se, como dizia Garcia Lorca eram 'las cinco em punto de la tarde'.
Sei que a garraiada foi comandada pelo tenente-coronel Ribeiro dos Reis. Foi uma estreia, sim. Mas algo para repetir-se.
Goste-se ou não se goste, a tradição do touro está aí, na alma portuguesa. O Benfica não poderia fugir a esse chamado. Como não podia fugir ao chamado do Lorca, porque tem entranhada na existência um mundo de poesia: 'Ay, qué terribles cinco de la tarde! Eram las cinco em sombra de la tarde! Las heridas quemaban como soles!'.
Cinco em sombra da tarde. Nenhum de nós consegue fugir ao apelo do poema. Mesmo que as feridas queimem como sóis...
No dia 26 de Outubro de 1952, os dirigentes do Benfica decidiram ir ainda mais além. Organizaram a I Corrida do Sport Lisboa e Benfica. A receita reverteu em favor da construção do Estádio da Luz. O assunto era para ser levado a sério. Não se tratava de qualquer chinfrineira. De tal ordem, que o Benfica - SC Braga para o campeonato nacional até foi antecipado. Leiam, leiam: 'Não sofre dúvidas: acontecimento e dos maiores, esta formidável corrida de toiros que se efectuou no Campo Pequeno para o fundo de construção do novo estádio e parque de jogos do Sport Lisboa e Benfica'.

Festa e cadeia
Era a última corrida da época. Sublinhava a partida para o México do matador Manuel dos Santos. Cavaleiros: Simão da Veiga, João Branco Núncio, José Rosa Rodrigues e Francisco Sepúlveda; espadas: Manuel dos Santos, António dos Santos, Joaquim Marques e Francisco Mendes; moços de forcados: Amadores de Lisboa, com Salvação Barreto como cabo. 'Cartel primoroso que só o Benfica conseguiu organizar neste final de época. Todos os aficionados estão de parabéns, como também estão todos os adeptos do grande e popular clube português, que, uma vez mais, percebeu como é amado pela população de Lisboa'.
Não importava sol ou sombra. Nem foi caso para isso, porque desatou a cair uma chuva miudinha, irritante, daquela a que o povo gosta de chamar de molha-tolos.
Francisco Sepúlveda montante o Gama com laivos de pertinácia, sempre de frente para a fera, sem medos, com alegria e sem demoras. Mereceu a ovação. Tremenda ovação.
Manuel dos Santos, em trânsito para Tijuana, houve-se com um novilho de estadão, bicho largo, ancho, com a valentia e o pundonor que a afición lhe reconhecia, exponde-se com a capa e a muleta, deixando o bicho aproximar-se, quase lhe tocando de raspão, para arquear as costas, fugindo-lhe aos cornos cortantes, adornando-se em molinetes, entrando a matar al encuentro. Os sócios do Benfica ergueram-se para a despedida. O México esperava por ele.
Os pormenores tiveram fascínio. Leiam, leiam: 'Nuno Salvador Barreto, que em Lisboa está a pegar um touro desembolado num filme que se exibe três vezes ao dia (era o Quo Vadis, recordam-se?), quis repetir o facto ao vivo, e o representante da Direcção-Geral dos Espectáculos levou o seu zelo ao excesso de requerer a sua imediata prisão, que deveria, pelo menos, ser retardada para o fim do espectáculo para não privar o público do que estava anunciado, as pegas, porque o seu grupo, privado do cabo, que é a cabeça, ficaria acéfalo se não se tivesse, naturalmente, retirado'.
Há sempre uns figurões que gostam de impor a sua autoridade, por mais bacoca que seja. Salvação Barreto foi posto em liberdade pouco depois, mas impedido de assistir ao jantar oferecido pela direcção do Benfica na Adega Mesquita.
Entrou Francisco Mendes, acenderam-se as luzes do Campo Pequeno, que a tarde ia longa. O touro estranhou e baralhou-se. Perseguiu, aqui e ali, a própria sombra e estragou e baralhou-se. Perseguiu, aqui e ali, a própria sombra e estragou o trabalho do toureiro. Depois, no seu jeito de bem muletear, garantiu os aplausos de uma gente alegre.
Bem a chuva estragaria a noite do Benfica.
'Todos os cavaleiros, toureiros e forcados amadores brindaram ao Sport Lisboa e Benfica, cujos adeptos devem ter ficado satisfeitos com a gente dos touros sempre pronta para tudo que contribua para as boas relações da família portuguesa'.
Os touros, esses recolheram aos curvos, vermelhos de feridas em fundo negro.
O povo continuou a festa, aqui e ali, um pouco por toda a parte. A tarde não tivera futebol, mas fora popular como poucas..."

Afonso de Melo, in O Benfica

Mensagem Ricardo Rocha...

O Benfica retratado por Roland Oliveira

"Na fotografia de Roland Oliveira há 50 anos de história. Como salvaguardar o património do Clube para as gerações futuras?

No mês em que se comemora o centenário de Roland Oliveira (25 de Março de 1920 - 7 de Setembro de 2007), homenageamos este fotógrafo do desporto português. Sócio do Sport Lisboa e Benfica, colaborou desde os anos 1950 como repórter desportivo com o jornal O Benfica e, mais tarde, com O Benfica Ilustrado.
Após a sua morte, a família doou o seu acervo fotográfico ao Património Cultural do Sport Lisboa e Benfica. Este conjunto é composto por cerca de 80 mil imagens fotográficas de diversas tipologias (negativos e provas com diversos formatos, imagens a preto e branco e a cores). De imagem em imagem, somos levados a percorrer a história do Benfica. O seu trabalho acompanha as mais variadas modalidades, eventos e vivências, desde meados do século XX até ao início do século XXI, constituindo um dos importantes para o Clube.
Este espólio reflecte, para além da história benfiquista, a história da fotografia e a evolução dos processos fotográficos e equipamentos técnicos. Através da observação do acervo, percebemos que Roland, à semelhança de outros fotógrafos, utilizou câmaras de médio formato, entre a década de 1950 e 1970, e câmaras de pequeno formato, a partir dos anos 1970. As câmaras de médio formato usam filme em rolo de 120mm ou 20mm produzindo imagens com o popular formato 6x6cm, e permitem a criação de uma série de imagens em sequência, com muito boa resolução. Estas viriam a ser substituídas por câmaras de pequeno formato, usando o filme 35mm conhecido por todos, por serem mais leves, rápidas e versáteis, e por produzirem mais fotogramas, sendo ideias para um repórter fotográfico. As películas fotográficas contêm uma estrutura físico-química complexa, são espécies extremamente frágeis e, se não forem devidamente cuidadas, a sua deterioração é inevitável. De forma a divulgar e salvaguardar estas valiosas imagens, o Património Cultural do Sport Lisboa e Benfica iniciou o seu tratamento documental e a sua conservação. Neste contexto, estão a ser realizadas acções de conservação preventiva, como a higienização, reacondicionamento e digitalização, bem como a descrição arquivística. No fim deste projecto, os negativos (matrizes fotográficas) irão ser acondicionados a temperaturas negativas em arcas congeladoras, de modo a retardar a sua decomposição natural e prolongar o seu tempo de vida útil.
Para saber mais sobre a fotografia de Roland Oliveira, veja a rubrica #100anosRoland nas redes sociais do Museu Benfica - Cosme Damião."

Joana Silva e Sandra Garrucho, in O Benfica

Mensagem do presidente do Sport Lisboa e Benfica, Luís Filipe Vieira

"Tal como tive oportunidade de transmitir ao grupo de trabalho do futebol profissional do Benfica e a todos os jogadores em particular, é enorme o orgulho que sinto, partilhado por todos os órgãos sociais, sobre a forma exemplar e solidária como, desde o primeiro momento, procuraram unir-se para ajudar aqueles que mais necessitam e os que, de forma mais corajosa, nos protegem desta terrível pandemia.
Os gestos de doação de alimentos para com os sem-abrigo e, agora, o elevado contributo dado para a aquisição de diverso material e equipamento de protecção médica ficarão para sempre na nossa memória, e definem o carácter e o espírito de entreajuda de um grupo de jovens de diversas nacionalidades que comungam da necessidade de todos podermos, de alguma forma, contribuir para ajudar quem está na linha da frente deste combate.
Aproveito também para realçar o exemplo ímpar que tem sido dado pelos técnicos, atletas e profissionais ligados às mais diversas modalidades do Benfica e dos mais diversos clubes pelas diferentes iniciativas e incansável empenho em publicamente darem voz e incentivos a todos os que se encontram em recolhimento ou que trabalham nos sectores de actividade que nos garantem o acesso aos bens essenciais, segurança e salvaguarda da nossa saúde.
Elogios extensíveis a todas as acções de solidariedade da Fundação Benfica e dos exemplos que nos chegam um pouco por todas as Casas do Benfica, sem esquecer a forma como toda a estrutura profissional do clube, funcionários e colaboradores, desde logo, planearam e implementaram as medidas de prevenção e contingência e, em teletrabalho, demonstram uma inexcedível dedicação para normalizar, tanto quanto é possível, a actividade de gestão e administração do Clube.
Mas, neste momento, gostaria sobretudo, do fundo do coração e da forma mais veemente, de prestar a mais justa das homenagens a quem tanto merece pelo seu exemplo e abnegação.
Justa homenagem e agradecimento público a todos os profissionais de saúde, jovens e menos jovens que, dia a dia, de forma incansável e com enorme coragem, salvam vidas e nos motivam a todos a acreditar que a solidariedade e a ajuda ao próximo é o bem mais precioso que temos.
As imagens e relatos que todos os dias nos chegam do vosso trabalho são de uma grandeza humana inexcedível. Que coragem a vossa!
A todos, o meu profundo agradecimento para quem melhor do que ninguém dá corpo ao lema,
De todos um!

Luís Filipe Vieira"

Gordos

"1. Em Janeiro, quando o futebol ainda era importante, disse Thomas Tuchel sobre Cavani. «Há coisas piores na vida do que ficar no PSG». E também há coisas piores na vida do que ficar em casa, por mais que agora não pareça.
2. O treinador Luís Castro resumiu tudo muito bem num artigo na Tribuna Expresso. «Há 10 dias pensava em futebol. Hoje penso na arriscada viagem ao supermercado, mais complexa do que jogo contra o Man. City».
3. As notícias de milhares de mortos chegam-nos diariamente com a naturalidade de um boletim meteorológico. Eu também gostava que a época fosse terminada, nada seria mais justo, mas querer jogar à força é a maior fraqueza que o futebol pode ter.
4. Entre outras coisas (a começar pelo risco para saúde pública, mesmo à porta fechada), como iriam explicar ao povo que há vidas apagarem-se como velas ao vento enquanto se joga futebol) E em cada jogo há dois médicos à espera de ir meter spray...
5. A pressa é inimiga da perfeição e amante da irresponsabilidade. É a altura de assumir que a época, provavelmente, não será mesmo retomada e começarmos a pensar nas decisões mais difíceis e injustas mas inevitáveis: as de secretaria.
6. Diz a ministra que para nos voltarmos a abraçar é preciso ficarmos longe. É como dizer-nos que só podemos ganhar marcando um autogolo.
7. Nem de propósito, a música You'll Never Walk Alone, de Gerry and the Pacemakers, adoptada como hino do Liverpool, é a mais ouvida no Reino Unido na era do Covid-10. Faz tanto e tão pouco sentido ao mesmo tempo.
8. Nesta luta não pode haver dois Rambos. O dos dias de chuva (papel higiénico, gel desinfectante e lata de atum) e o dos dias de sol (toalha, chapéu e bronzeador). Se o vírus é inteligente, não o ajudemos sendo burros.
9. Talvez tenhamos mesmo de sair disto mais gordos, como dizia Guardiola. Para não sairmos menos vivos."

Gonçalo Guimarães, in A Bola

Benfica de Quarentena #23 - Carlos Manuel

Benfica Podcast #360 - Sports Talk

Magia Pedrinho



"Foi o número dez da selecção pré-olímpica do Brasil, numa equipa que reuniu Paulinho (Leverkusen), Bruno Guimarães (Lyon), Matheus Cunha (Hertha), Yuri Alberto (Santos) e Reinier (Real Madrid), e chega aos vinte e um anos ao SL Benfica para retomar uma história de jovens brasileiros talentosos que rumam à Liga NOS para potenciar capacidades antes de voos mais altos.
Apesar das características de corredor central, no Corinthians Pedrinho tem jogado maioritariamente na ala direita – A equipa do estado de São Paulo defende em 4x4x2, e no seu ataque posicional assume uma configuração parecida à do SL Benfica de Bruno Lage, com o corredor direito entregue a Fagner (lateral direito), e Pedrinho a ocupar espaços centrais entre linha média e defensiva do adversário.
O talentoso – Boa e veloz execução – jogador que chegará ao Benfica na temporada vindoira é portanto uma alternativa clara a Pizzi. Características de médio ofensivo que defende na ala, mas não é um extremo puro, antes procura definir em espaços interiores."

A maior competição desportiva do mundo

"Esperava-se um retorno de mais de 2 mil milhões de dólares em turismo, 4 mil milhões de dólares em patrocínios e o mesmo valor em direitos de transmissão televisiva Nenhum país ou sociedade podem hoje em dia passar à margem deste fenómeno tão rico como é o desporto. Ele está presente nas escolas desde as mais tenras idades até ao patamar universitário. Depois de adultos, é-nos proposto outro tipo de actividades físicas. A terceira idade passou também a ser um alvo prioritário para o incremento da actividade desportiva. Muitos países elegem o desporto como a sua principal força de afirmação no contexto internacional. As grandes competições fazem parar toda a sociedade. Os Jogos Olímpicos são a maior de todas.
Neste cenário o desporto precisou de se posicionar perante a sociedade fazendo valer os seus argumentos como elementos de atracção. Se pensarmos bem, estamos perante uma indústria de entretenimento onde a televisão, o cinema, a música, o teatro ou a internet ‘lutam’ pela atenção individual de cada indivíduo. Onde é que as pessoas vão investir o seu tempo de lazer é claramente o objecto de disputa entre estas áreas. Se conseguirmos que as pessoas gastem o seu tempo connosco, provavelmente conseguiremos também que gastem connosco o seu dinheiro...
Numa sociedade tão mediatizada, o desporto também não passa ao lado desta realidade, bem pelo contrário. A maior parte de nós saberá o nome do treinador da equipa de futebol do Manchester City. Poucos saberão o nome do Ministro da Defesa do Reino Unido. Os media vieram maximizar a importância do desporto na sociedade actual contribuindo, decisivamente, para a mistificação dos melhores atletas. Os grandes feitos estão cada vez mais acessíveis a todos. Os grandes ídolos são reconhecidos em qualquer continente.
Todos, diariamente, sentimos a pressão que a globalização exerce sobre nós nas mais variadas actividades rotineiras. Ora o desporto não escapa desta verdade absoluta. A crescente industrialização do negócio do desporto induziu ao novo conceito dos eventos desportivos globais. O maior de todos, os Jogos Olímpicos, arrastaram consigo várias modalidades que foram capazes de produzir mega eventos onde o palco era tão só...o mundo. Os campeonatos mundiais de futebol, a Fórmula 1, o rally Dakar, o circuito ATP de ténis, a volta a França em bicicleta, o circuito PGA de golfe, o circuito mundial de voleibol de praia e tantos outros reduziram a nada as distâncias entre países. Deixou de ser estranho competir na mesma semana em Moscovo e no Rio de Janeiro. As distâncias pouco valem no esforço de fazer cada vez mais e de chegar a mais e mais pessoas, perdão... consumidores.
É neste contexto que recebemos esta semana a notícia do adiamento para 2021 dos Jogos Olímpicos de Tóquio. O Governo Japonês investiu mais de 12 mil milhões de dólares neste evento esperando receber mais de 30 milhões de visitantes. Esperava-se um retorno de mais de dois mil milhões de dólares em turismo, quatro mil milhões de dólares em patrocínios e o mesmo valor em direitos de transmissão televisiva. E foram já vendidos mais de oito milhões de bilhetes para esta edição. Será um enorme desafio para todos manter estes valores em 2021."

Olheiro BnR: Neemias Queta

"Do Barreiro para o mundo
No Barreirense começou a lançar ao cesto, no SL Benfica cresceu como jogador e na universidade de Utah State mostrou-se ao mundo. Neemias Queta continua a fazer sonhar os amantes de basquetebol portugueses, podendo ser o primeiro luso a pisar as quatro linhas da NBA.
Depois de ajudar a sua faculdade a conquistar dois títulos da conferência Mountain West, os olheiros da liga milionária já ligaram o radar até ao talento do número 23 dos Aggies. No ano passado, as médias de 12 pontos, nove ressaltos e 2,5 desarmes de lançamento catapultaram o poste até ao NBA Combine, uma montra para os jovens que esperam ser escolhidos no Draft.
Várias equipas convidaram Neemias para um treino privado, mas o natural do Barreiro decidiu voltar mais um ano para continuar os estudos e a carreira universitária na NCAA. Entretanto, fez parte de uma página dourada da selecção portuguesa de basquetebol: a conquista do grupo B do Campeonato da Europa de Sub-20.
Durante o torneio que se realizou em Matosinhos apareceu uma lesão no joelho que o afastou da primeira parte da temporada. Depois de uns jogos menos conseguidos, as boas exibições a que nos habituou voltaram, e as expectativas para o March Madness eram elevadas. O sonho NBA voltou a ganhar peso, mas cabe ao atleta decidir se é o momento certo para tal.


Quando vemos o jovem basquetebolista a actuar, os seus 2,11 metros de altura mostram-nos uma habilidade defensiva acima da média. Neemias é, sem dúvida, um jogador de “garrafão”, sempre pronto para massacrar o aro do cesto ou a bloquear lançamentos dos adversários. Por outro lado, demonstra pouca velocidade e perde algumas vezes a bola em transição.
Nas previsões que diversos meios de comunicação social realizam alguns meses antes do Draft, Neemias Queta aparece como uma sólida escolha de segunda ronda. Espera-se que uma das 30 equipas se encante com as variadas qualidades do português e nos encha de orgulho quando Adam Silver trouxer o nome do nosso país naquele papel."

Benfiquismo (MCDLXXXIX)

Capitão...

terça-feira, 31 de março de 2020

E depois?

"Esta chamada indústria também se pôs muito a jeito, ignorando sempre as crises cíclicas para as quais se achava imunizada

1. Não há 'bola', o que é bem diferente de não haver A Bola. Esta continua a acompanhar-me, diariamente, desde Fevereiro de 1995 e, antes, durante muitos anos, três ou quatro vezes por semana. Nesta rarefacção de inexistência de 'bola', bem compreendo a direcção e os jornalistas e os aplaudo pelo modo como têm sabido enfrentar esta inédita situação. Eu próprio, neste cantinho semanal que me é proporcionado, passei a deparar com a síndrome da angústia do tema ou temas a tratar. Todavia, também vejo estes tempos de bola adormecida - nem sempre bela adormecida - como uma oportunidade para reflectir sobre assuntos que, antes, eram sugados pela maior predominância actualista dos jogos e dos golos. Estamos, pois, numa espécie de defeso impositivo, diferente do defeso de Verão, onde sempre há (havia) o incomparável Tour de França que, este ano, até teria sido acompanhado pelos Jogos Olímpicos de Tóquio.
Pressinto que vamos assistir, no próximo futuro, a uma revolução no futebol mundial e, por tabela, no futebol nacional, em razão de um vírus pandémico e de uma economia global ferida em alguns dos seus fundamentos e alicerces. E se, no momento em que escrevo, há uma indisfarçável dificuldade em ver com clareza o fim do roteiro sanitário de combate ao vírus, o que se passa na economia e no plano social é de todo incalculável e jamais previsto nesta magnitude e nesta escala planetária.
Sendo assim, também todos os parâmetros nos quais se tem baseado a actividade futebolística estão a sofrer um abalo tsunâmico, de que ainda estamos longe de alcançar todas as consequências. A única certeza que podemos prever é que nada ficará como dantes. O que vai, quando vai e como vai acontecer não se pode garantir.
Em boa verdade, esta chamada indústria também se pôs muito a jeito, ignorando sempre as crises cíclicas para as quais se achava imunizada, não cuidando de encurtar diferenças profundas entre clubes num mesmo país e entre clubes em competições internacionais, promovendo um ambiente de um futebol sinónimo de riqueza, de ricos e de ricaços, ignorando que a larga maioria dos seus players estiveram sempre na margem da subsistência, consentindo que os custos de intermediação fossem uma forma de saque e do domínio consentido sobre a rentabilidade futura dos clubes, deixando-se enlevar por uma espiral de custos salariais suportados por uma bolha de publicidade enganosa, promovendo o excesso do número de jogos e competições inventadas, e fechando os olhos a formas ínvias de negócios designadamente em modo off shore.

2. O futebol oscila entre tudo inflacionado e tudo mendigado. Entre a exportação selectiva do produto e a sua importação aos magotes. Entre protegidos e protectores, e esquecidos e tutelados. Onde aparentemente tudo é igual, mas sempre se cuida de haver algo que é mais igual que o resto. Onde o fascínio da árvore das patacas frondosa e imponente anula ou dificulta a visão da floresta de todos as árvores grandes e pequenas.
Na grande maioria dos clubes, o equilíbrio só se vinha alcançado por via de receitas extraordinárias (designadamente transferências), pelo inchamento das receitas resultantes de direitos televisivos mal distribuídos e de outros proveitos de natureza comercial ou publicitária, pelo endividamento que mais não é que a fuga para a frente que outros terá de pagar, ou, em certos casos, pela alteração da estrutura societária, pelo comprometimento do futuro em razão do presente, pouco se cuidou da parcimónia e sustentabilidade da despesa. Assim se inverteu a lógica racional de um (qualquer) negócio: em vez de uma melhor e mais racional despesa presente e futura para não se estar tão dependente de receita contingente, preferiu-se desta para continuar a alimentar custos que não deixaram de subir. Por outros palavras: em vez de gastar em função do rigor da certeza, optou-se por partir da incerteza para 'falsificar' a despesa.
Muitas perguntas se põem neste tempo tão imprevisível. Como irão evoluir as receitas televisivas, por sua vez, financiadas por publicidade e marketing, por sua vez, sujeitas drasticamente a uma redução da produção de bens e serviços? O que vai acontecer ao 'mercado do futebol' com valores de transferências e montantes das cláusulas de rescisão, que agora se vê tão claramente como desajustados e provindos de um mundo à parte? Este ponto é de grande importância para os clubes portugueses que têm feito de alienação de 'activos' a principal fonte de um instável equilíbrio, sabendo-se agora que, além do efeito temporário da recessão económica, estarão feridas estruturalmente as possibilidades de negócios como o de João Félix ou até Bruno Fernandes, recordes dos seus clubes que jamais serão batidos. Como vai ser reduzida a lógica de intermediação que atingiu percentagens elevadas a montantes injustificados? Como vai a ainda rica UEFA conciliar a gulosa Champions de uns muito poucos com um novo paradigma mais racional e justo? Como vão as federações e ligas compatibilizar todos estes riscos em novos formatos que asseguram uma mais justa competitividade entre equipas? Como vão os clubes encontrar receitas alternativas para compensar as que vão desaparecer a previsível diminuição, ainda que temporária, de receitas de bilhética e de lugares de época nos estádios)? O que vai acontecer a clubes assediados por capitalismo endinheirados de ocasião, que prometem o paraíso? E há muitas outras perguntas, ainda sem resposta...

3. Volto à possibilidade ou não de se poderem finalizar as competições nacionais. É quase um dado adquirido que não haverá recomeço desta época. Mas, tenho lido que, pelo menos, se coloca a hipótese de a concluir com os estádios vazios. Já nesta coluna falei com isso é a negação do desporto. E não deixa de ser irónico que 'jogo à porta fechada', que era até agora considerado uma punição disciplinar, se pudesse transformar para 80 jogos (os que falta fazer na Liga) numa solução. A ironia do paradoxo...
No imediato prazo, há um ponto que se coloca. É o relativo aos salários de todos os que trabalham nas sociedades desportivas (e não apenas dos jogadores e técnicos). Com duas abordagens evidentemente distintas. Começando pela dos clubes cuja médica salarial é baixa (a maioria), e que poderão entrar rapidamente em incumprimento, importa salvaguardar na aprovada legislação sobre lay-off a sua elegibilidade nos termos gerais, ou seja a de uma redução de 1/3 do salário durante a forçada inactividade e de financiamento de 70% dos outros 2/3 pela Segurança Social (até ao limite de 3 vezes o salário mínimo). Quanto aos (poucos) clubes com salários elevados ou muito elevados, agora sem jogos, sem actividade, com quebra de receitas, parece óbvio que se deve aplicar a mesma legislação (à data em que escrevo, ainda não são conhecidos os decretos), obviamente com um encargo bastante mais elevado das SAD, por que o limite atrás citado pouco compensa a média salarial dos jogadores. Assim haveria a redução temporária salatial de 1/3, nos meses de obrigatória inactividade. Não vale a pena inventar ou tentar encontrar outros caminhos quando a lei geral aí está. Nunca se poderá justificar que a inactividade implique a redução de 1/3 nos trabalhadores em geral e que, mais uma vez, os futebolistas dela estivessem isentos. Além de que há futebolistas que ganham mais num mês do que muita gente em grande parte da sua carreira.

Contraluz
- Exemplar: Os quatro mais poderosos e abastados clubes da Bundesliga (Bayern, Borussia Dortmund, Leipzig e Leverkusen) vão ajudar outros clubes da mesma competição. Não que seja por lá inédito, pois, há anos, até o grande clube de Munique ajudou o seu principal rival de Dortmund a sair de uma falência anunciada. Alguém imagina isto noutros ligas?
- Comparação: O Papa Francisco, no meio da Praça de São Pedro completamente vazia, a falar ao mundo, numa tão expressiva e comovente alegoria espiritual sobre os tempos que ora vivemos. Estádios desportivos onde se jogou (e pode vir a jogar) sem pessoas, numa outra alegoria que significa e desvirtuação do espírito do desporto.
- Aniversários: Dois grandes benfiquistas fizeram anos da passada semana de quarentena (o que me vai também acontecer). Refiro-me a Artur Santos, um meu ídolo dos anos 50 e início de 60, um senhor exemplar, com quem, há semanas, tive a oportunidade de estar numa visita guiada ao Benfica Campus com a minha neta Joana. E, 41 anos mais novo, Rui Costa, um jogador que fazia do futebol um poema sobre a relva através da sua bola-caneta e que continua, felizmente, sempre ligado ao seu clube de coração. A ambos, aqui do Alto Alentejo, os meus parabéns."

Bagão Félix, in A Bola

Play: Cervi...

Mensagem do canoísta Olímpico, Fernando Pimenta

"Acções para o bem comum!
As nossas rotinas são, por estes dias, diferentes. Como poderiam continuar iguais? Há notícias pouco animadoras, mas é muito importante que sejamos o mais positivos possível a carregar boa energia para quem nos rodeia. De certa forma, é como quando preparamos uma grande prova desportiva: se confiamos em nós, só podemos visualizar superação e vitória. Nas redes sociais chegamos a um grande número de seguidores e, também por esta via, devemos passar boas sensações e confiança de que conseguiremos estar juntos de novo, sem temer este vírus que anda na boca do mundo.
Mantenho os hábitos de treino que são possíveis. A expansão da COVID-19 exigiu que nos reprogramássemos, não podemos trabalhar em grupo nem em locais fechados. Uma das coisas que um atleta de alta competição tem de desenvolver é a capacidade de se adaptar a novas realidades. Foco-me numa rotina próxima daquela que tinha antes, para alcançar rapidamente a forma física necessária e o corpo e a mente não se "sentirem" quando regressarmos à tranquilidade de antes. 
Ainda é complicado falar sobre esta estranha conjuntura. É bom verificar que a maioria dos portugueses acatam as regras e esforçam-se por cumprir aquilo que o país lhes está a pedir. Por outro lado, entristece-me ver que haverá ainda uma minoria que menospreza aquilo que vem sendo estipulado. Este é um momento para os portugueses trabalharem como "formiguinhas", cada um a somar acções para o bem comum.
Estas semanas de pressão sobre a organização dos Jogos Olímpicos foram difíceis de gerir. Desanimámos por não saber ao certo o futuro dos Jogos, já que temos vindo a fazer enorme investimento na preparação para Tóquio 2020. Passámos já muito tempo longe de casa, num grande esforço de trabalho e de treino. Estávamos a alcançar um nível que nos dava grande confiança em bons resultados. Mas também nós, atletas, temos de dar o exemplo e apoiar esta decisão de adiamento do evento: sem dúvida que primeiro está a saúde de todas as pessoas envolvidas, inclusivamente a dos muitos espectadores, provenientes de todo o mundo, que estavam preparados para ir a Tóquio, entre Julho e Agosto. Agora que temos novas datas, podemos definir opções e o caminho a seguir.
O futuro do país vai depender muito da capacidade e rigor dos portugueses para seguir regras imperativas. É urgente vivermos juntos no "agora". Isso será preponderante para o nosso futuro. Será duro recuperar o fulgor de Portugal e reequilibrar a economia, por isso é fundamental proteger a nossa saúde e logicamente o potencial do país. Sinceramente olho para o "amanhã" com grande esperança e confio que conseguiremos dar a volta por cima, como é nosso hábito. Havemos de ficar bem.
A doação de um milhão de euros em material ao Serviço Nacional de Saúde encheu-me de orgulho e creio que ninguém no país pode ter ficado indiferente. Estamos a falar do jogo da vida e o meu Benfica continua a saber entrar neste jogo em grande e em equipa. Aos benfiquistas apelo que sigam aquilo que tem sido, também, o exemplo do nosso Presidente. O Benfica é enorme, mas temos de nos manter unidos, sem olhar a cores de camisolas. Alimentar um pensamento positivo, continuar a apoiar o Clube e motivar os atletas das várias modalidades. Estaremos no bom caminho se continuarmos todos juntos.
Força, Portugal!

Fernando Pimenta"

Vá lá, Rui Costa, deixa-te de merdas, escreve aos jornais e diz-lhes que se enganaram. Vá, pega na bola e mostra-lhes que tens 28 anos

"Leio nos jornais que Rui Costa, antigo príncipe florentino, fez 48 anos. Fake news, claro. Rui Costa, toda a gente sabe, tem menos vinte anos, tem 28, a idade que tinha naquele jogo em Eindhoven, contra a Inglaterra, no Euro 2000. Ontem revi o jogo.
Portugal 3, Inglaterra 2 e vi o único Rui Costa que existe e existirá para sempre, o que tem 28 anos, a pisar o relvado como um ser imaginário pesadíssimo sem bola e capaz de levitar quando a bola lhe chegava aos pés, com aquele ar de falso cansado de quem pensa o jogo todo por antecipação, qual bilharista batido, a descobrir companheiros nas nesgas de terreno esquecidas pelos ingleses, a cruzar a bola com precisão, mas não demasiada, apenas o suficiente para João Vieira Pinto voar ao encontro dela e aplicar-lhe o golpe que a lançou numa trajectória milagrosa, todo um tratado de física, de movimento e dinâmica dos corpos, ao qual o pobre David Seaman assistiu com o espanto de um aluno do 8.º ano.
Rui Costa, quase em queda, a isolar Nuno Gomes. Rui Costa a ver o jogo de cima, como um urbanista, a decidir onde irá construir o parque, a escola, a fábrica e todas as alamedas rasgadas pelos seus passes e, depois, com um só toque, um daqueles toques com o lado exterior da bota que faziam passar indecorosamente a bola por entre as pernas do adversário (será um dos melhores cuequistas de sempre?), a destruir o projecto por ele idealizado e a erguer um novo num segundo.
Como é que este Rui Costa pode fazer 48 anos? Impossível. Um génio destes tem 28 anos. Ponto. Vá, 32, no máximo. A idade que tinha naquela noite no Estádio da Luz, em 2004, outra vez contra a Inglaterra. Desta vez, vindo do banco. Já não era o príncipe incontestado. Da geração de ouro, restavam poucos.
Deco, n.º 20 nas costas, era o novo 10. Os anos já lhe iam pesando nas pernas, mas a cabeça via melhor do que nunca. Além disso, estava em casa. O estádio era novo, mas era o mesmo. Foi ali, foi que eu vi, logo na primeira vez que entrei no estádio da Luz, Junho de 1991, meia-final do mundial de juniores contra a Austrália, as torres de iluminação, o ruído de 110 mil almas, uma sensação de vertigem, foi ali que ele marcou o primeiro golo à Rui Costa e nunca mais o esquecemos.
Foi ali, sabem, que três anos depois, contra o Parma, ele fez aquele passe de génio a pôr Isaías na cara do guarda-redes e que lhe pôs no passaporte o carimbo com destino a Florença. Foi ali, numa noite chuvosa, que ele arrancou mais um formidável pontapé que confirmou a nossa viagem para Inglaterra, para o Euro-96.
Portanto, eles deviam saber que ali era a casa dele e que não há melhor lugar para um guerreiro que vê chegar o fim, e ele, velho de batalhas, levantou-se e levantou o estádio com outro golo saído dos pés que as redes daquelas balizas bem conheciam e amavam.
Vá. Trinta e dois anos ainda acredito, 48 é que não. É idade de professor de educação física saturado de dar aulas em escolas da periferia de Lisboa. É idade de secretário de estado. De fiscalista.
Não, não me enganam.
Bem pode Rui Costa aparecer de fato e gravata, administrador da SAD, e até pode ser muito competente nas suas funções, mas o que é a competência administrativa comparado com o que ontem revi, aquela primeira parte contra a Inglaterra?
Compatriotas, nunca jogámos assim.
A verdade é essa. Fernando Santos pode agradecer aos santinhos, invocar Nossa Senhora do Jogar Feio, agradecer ao Éder-do-outro-mundo, mas aquela primeira parte contra a Inglaterra, no ano 2000 de tantos prodígios imaginados e tão poucos cumpridos, desculpem lá, mas fico eu com ela.
Naquela tarde, eu estava de regresso a casa vindo de Lisboa. Quando saí do barco no Barreiro, perdíamos por 2-0. Cheguei a casa a tempo de ver João Pinto a fazer o empate e, na emoção do momento, atirar o meu avô, leve como uma pena, leve como o João Pinto, ao ar, e levantei-o mais como se tivesse sido ele a marcar o golo, e ele esticou os braços, quase derrubando o velho candeeiro da sala, como se o tivesse marcado, e a minha avó, que não gostava de jogos, ria-se com a nossa coreografia feliz, um bailado entre gerações, quarenta anos num único salto de alegria.
Hoje os meus avós já não estão cá, eu já não tenho os 22 anos que tinha e agora sou escritor e tenho uma boa idade para ser escritor, 42 anos, idade de escritor, mas o Rui Costa é que não tem, nem nunca terá, 48 anos, porque ainda ontem o vi em Eindhoven, um príncipe, ainda ontem o vi a pintar aquele futebol pontilhista, desenhado de cor com os seus cúmplices, Figo e João Vieira Pinto. Ainda ontem ele tinha 28 anos, como é que os jornais podem dizer que fez 48, idade de administrador da SAD?
Vá lá, Rui, deixa-te de merdas, pá, escreve aos jornais e diz-lhes que se enganaram. Vá, pega na bola e mostra-lhes que tens 28 anos, príncipe, 28 anos acabados de fazer ontem, em Eindhoven, na tarde em que, nos meus braços, o meu avô foi pena."

Benfica de Quarentena #22 - Zé Carlos Guimarães

Que jogos devo rever nesta Quarentena? SL Benfica 3-1 Fenerbahçe SK



"Quinta-feira, dia 2 de maio de 2013. O SL Benfica recebia no Estádio da Luz o Fenerbahçe SK na segunda mão das meias finais da Liga Europa.
Na primeira mão, na Turquia, os encarnados foram derrotados por 1-0. Em Istambul, a equipa turca foi superior, dominou grande parte do jogo e poderia mesmo ter trazido uma vantagem maior para a segunda mão. 
 Depois do inferno turco vivido no Estádio Sukru Saracoglu, o ambiente no segundo jogo seria igualmente espectacular. Apesar da vantagem, o Fenerbahçe SK tinha à sua espera um Estádio da Luz completamente cheio. Os adeptos encarnados tinham esperança de ver o SL Benfica alcançar a nona final europeia e a primeira em 23 anos.
20:05h. O árbitro francês Stéphane Lannoy apita para o início do jogo. O SL Benfica entra muito forte na partida e rapidamente fica visível a intenção dos encarnados em assumir o jogo.
Logo aos oito minutos de jogo, um desequilíbrio no lado direito dos encarnados deixa Lima com espaço na ala. O brasileiro cruza para Nico Gaitán, que, já dentro da área, finaliza de trivela e bate o guardião turco Volkan Demirel. Foi a loucura no estádio, os encarnados empatavam a eliminatória e estavam claramente por cima do jogo.
Nos minutos que se seguiram, a equipa das águias esteve por diversas vezes perto do segundo golo. Contudo, aos 22 minutos, Garay jogou a bola com a mão no interior da sua área. Penalty para a equipa turca.
O habitual batedor de castigos máximos do Fenerbahçe SK, Christian Baroni (que tinha, inclusive, falhado um na primeira mão), deu a oportunidade a Dirk Kuyt para bater.
O veterano holandês não tremeu e enganou Artur Moraes. Bola para um lado, guarda-redes para o outro. 1-1, o Fenerbahçe estava agora em vantagem na eliminatória.
O golo de Kuyt gelou o Estádio da Luz. A esperança diminuía agora, visto que os encarnados necessitavam de marcar dois golos e não sofrer nenhum para assumirem a liderança da eliminatória. 
A equipa orientada por Jorge Jesus reagiu bem ao golo dos turcos, tendo mantido ou até mesmo elevado o nível exibicional.
Logo aos 35 minutos, Salvio é derrubado perto do meio campo. Os encarnados aproveitam a desatenção turca e cobram o livre de forma rápida. O esférico chega a Cardozo, que tira da frente um defesa do Fenerbahçe SK e remata rasteiro para dentro da baliza. 2-1. O paraguaio, no meio de uma explosão de esperança no estádio, apressa-se a recolher a bola do fundo da baliza dos turcos e coloca-a no meio campo.
Pouco tempo depois, chegou o intervalo. O resultado manteve-se: 2-1, os encarnados precisavam de mais um golo para passar na eliminatória.
No início da segunda parte, a toada foi a mesma. O Benfica mantinha-se por cima do encontro, mas, ocasionalmente, o Fenerbahçe assustava através de perigosos contra-ataques.
Contudo, o golo encarnado teimava em não aparecer. Com a passagem de cada minuto, acentuava-se o ambiente de nervosismo que se fazia viver no estádio. Apesar de tudo, acredito que não existia um único benfiquista nas bancadas que não acreditasse a 100% na passagem da sua equipa à final. 
Empurrados pelas fervorosas bancadas, os encarnados continuavam à procura do “golo da glória”. 
Aos 66 minutos, Salvio enviou um lançamento de linha lateral para dentro da área. Um ressalto ao primeiro poste levou a bola a Luisão que, no interior da área, desviou como pôde e fez chegar o esférico a Cardozo. O “Takuara” rematou com força deixando o guardião da equipa de Istambul sem qualquer hipótese.
O gigante paraguaio desatou a correr de braços abertos e deslizou de forma graciosa no relvado, em frente de milhares de benfiquistas frenéticos. Do outro lado do campo, Artur colocava as mãos à cabeça e parecia não estar em si.
A felicidade tinha que ser ainda, temporariamente, adiada: faltavam cerca de 30 minutos para o final do jogo, tudo poderia acontecer. Naturalmente, o Fenerbahçe SK assumiu a iniciativa no jogo, mas o resultado manteve-se até aos instantes finais.
Já para lá dos 90’, Kuyt aparece sozinho do lado direito do ataque turco e cruza para o interior da área encarnada. Moussa Sow eleva-se e cabeceia. A bola pareceu parar no ar. Os milhares de adeptos no estádio e os milhões em casa contiveram a respiração por um segundo.
A bola foi parar às luvas de Arthur Moraes. A nação benfiquista respirou de alívio. Apesar de terem existido mais cruzamentos para a área, esta foi a última oportunidade do Fenerbahçe.
Depois de uns agoniantes minutos de espera, o árbitro apitava para o final da partida. 23 anos depois, o Benfica estava numa final europeia. Nas bancadas, os sorrisos misturavam-se com as lágrimas de alegria. Os abraços dos adeptos confundiam-se com as celebrações dentro de campo.
A erupção do estádio, quando o árbitro apitou, ficará, para sempre, na memória de todos os benfiquistas.
Mesmo que as semanas que precederam este jogo tenham ficado marcadas, negativamente, na história do SL Benfica, vale sempre a pena rever este jogo. Seja pelo que foi a partida em si, seja pelo ambiente vivido no estádio, seja simplesmente para revermos a incrível equipa que os encarnados tinham e o futebol de grande nível que praticavam. 

Link para assistir ao jogo completo:
https://footballia.net/matches/sl-benfica-fenerbahce-sk

Onzes Iniciais e Substituições:
SL Benfica: Arthur Moraes, Maxi Pereira, Luisão, Garay, André Almeida, Matic, Enzo Perez, Salvio, Nico Gaitan (Roderick Miranda), Lima, Cardozo (Urreta).
Fenerbahçe SK: Volkan Demiral, Gonul (Irtegan), Korkmaz, Yobo(Miroslav Stoch), Erkin, Ziegler, Sahin (Topuz), Salih Uçan, Christian Baroni, Dirk Kuyt, Moussa Sow."

Que jogos devo rever nesta Quarentena? Interviú Madrid 2-3 SL Benfica



"Dia 25 de Abril de 2010. Podia ser mais um dia da celebração do feriado de um dos acontecimentos mais importantes de Portugal (Dia da Liberdade), mas estava reservado para este dia mais uma bela história para os portugueses em geral, e para os adeptos benfiquistas em particular, estando desta vez ligada ao Desporto.
No Pavilhão Atlântico, o SL Benfica, campeão português, encontrava na final da UEFA Futsal Cup o Interviú Madrid, detentor do título europeu do ano transacto. Antes mesmo do início do jogo, um recorde já tinha sido batido. Estavam presentes no pavilhão 9.400 pessoas e este foi um número que, na altura, ainda não se tinha visto no Futsal.
Uma equipa do SL Benfica composta por muitas estrelas, na qual se destacava um “pequeno” prodígio de 24 anos nas quadras: Ricardinho. Os encarnados não tinham tarefa fácil e a partida começou com um grande equilíbrio entre os dois emblemas. Contudo, as águias estavam, claramente, a ser embaladas por um pavilhão a rebentar pelas costuras.
Quem começou na frente foi mesmo o Interviú Madrid. Aos sete minutos, Marquinho recuperou a bola, trabalhou bem o lance sob Pedro Costa e só teve de meter a bola por entre as pernas de Bebé. Uma jogada sensacional que gelou por completo o ambiente em Lisboa e não era para menos, pois o Interviú estava agora em vantagem por 1-0.
O SL Benfica continuava mais forte e perigoso, mas era o Interviú que ia tirando “tinta aos postes”. Desta vez, foi Luis Amado que, de uma ponta a outra do campo, com a mão enviou a bola ao poste! Se entrasse não era golo porque não tinha tocado em ninguém, mas foi impressionante de ser ver. De realçar também a bela exibição que Luis Amado fez durante os 50 minutos.
Mas foi preciso esperar apenas quatro minutos depois do golo espanhol pela resposta encarnada. Ao minuto 11, houve falta marcada a favor do Benfica numa posição muito perigosa à baliza do Interviú. Ricardinho passou a bola para o lado onde apareceu Joel Queirós, a vir disparado para rematar uma bomba indefensável para Luis Amado. Estava feito o empate a um, resultado que chegaria até ao intervalo, e o pavilhão ia totalmente abaixo.
A segunda parte começou de feição para os comandados de André Lima, pois, aos dois minutos, houve novo golo para o SL Benfica. Canto do lado esquerdo com Ricardinho a bater para César Paulo na área. O pivô brasileiro contemporizou e com um pequeno toque para trás deixou para Arnaldo, que rematou para o fundo da baliza do Interviú. Digamos que foi quase semelhante ao primeiro golo e feito novamente de uma bola parada (1-2).
Mas houve pouco tempo para festejar, pois três minutos depois houve novo empate (2-2) na partida. Ao minuto cinco, Schumacher recuperou a bola e deixou o SL Benfica totalmente descompensado na defesa. O número oito do Interviú passou para Jordi Torrás e depois o espanhol encontrou Betão, que com um toque e habilidade meteu a bola muito devagar na baliza de Bebé.
Oportunidades não faltaram para ambos os lados, mas a partida foi mesmo para prolongamento. Estes dez minutos finais estavam reservados para que se escrevesse uma bela página no Futsal português e também para que se descobrisse um herói improvável.
A primeira parte do prolongamento trouxe a mesma tendência no jogo: mais SL Benfica e um Interviú completamente desconcentrado no jogo. Tanto que a 2.10 de terminar os primeiros cinco minutos, houve um erro monumental de Luis Amado. Davi estava mais atento do que Betão, interceptou a bola e só teve de bailar à frente da defensiva espanhola para dar vantagem aos encarnados de novo (2-3). Um golo de muito longe e de “bico” como mandam as regras do Futsal foi o suficiente para entregar o título de campeão europeu ao SL Benfica.
Os segundos cinco minutos foram o sufoco total por parte do Interviú com a aposta no cinco para quatro. Os espanhóis até tiveram oportunidades para fazer o empate, mas parecia que o título europeu estava destinado a ficar em Portugal e com o SL Benfica.
No meio de tantos festejos, as melhores imagens no final da partida são as de André Lima a chorar de alegria, após a conquista da UEFA Futsal Cup. O treinador tinha noção daquilo que a sua equipa tinha conquistado, pois tornavam-se na primeira equipa portuguesa a erguer o troféu europeu mais importante a nível de clubes.
Depois da derrota em 2003/04 numa final a duas mãos, frente, precisamente, ao Interviú Madrid, o SL Benfica conseguiu vingar esta derrota da melhor maneira. Uma equipa encarnada que contava com André Lima, mas como jogador. Uma data que ficará marcada na história do Futsal português e também do SL Benfica, porém é um jogo de alta emoção e de indecisão do vencedor até ao final, e que merece, sem dúvida, ser revisto.



Cincos Iniciais:
Interviú Madrid – Luis Amado (GR), Betão, Schumacher, Gabriel e Jordi Torrás (Treinador: Jesús Candelas Rodrigo)
SL Benfica – Bebé (GR), Arnaldo, Joel Queirós, Davi e Ricardinho (Treinador: André Lima)"

Os 6 filmes de Modalidades para ver nesta Quarentena

"Já viu todos aqueles filmes ou séries de que mais gosta e também já não há mais grande coisa para fazer? Então, temos a programação certa para si para os restantes dias que vai ter de ficar em casa. Actualmente, é fácil de ter acesso a quase tudo do mundo cinematográfico, seja através da nossa box ou então das plataformas que têm estes filmes e, por isso, temos uma excelente programação de filmes de Modalidades para si.
Seis filmes que equivalem a seis histórias que o farão ver que no Mundo do Desporto também se pode construir um belo trajecto nesta vida do lado de fora dos trilhos, dos courts, dos pavilhões ou dos circuitos. Todas as adversidades conseguem ser ultrapassadas com muita vontade e muitas destas histórias contam isso mesmo.
Por isso, queremos passar a você, caro leitor, neste Top BnR esta mensagem, essencialmente, de esperança para conseguirmos ultrapassar este pequeno percalço nas nossas vidas. Respeitem as vossas quarentenas, mantenham-se em casa seguros e tenham uma boa sessão dos filmes que vamos recomendar de seguida!

     

1. Race: 10 Segundos de Liberdade (2016) – Gosta dos Jogos Olímpicos? Boa, este é o filme ideal para si. Estamos em 1936 e surgiu, talvez, uma das melhores histórias do Desporto mundial. Este filme conta a história do velocista Jesse Owens, tendo como grande foco principal os Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim, Alemanha.
O filme toca nos pontos mais importantes da vida do velocista americano e também em questões que realmente interessavam durante o período tanto da Alemanha Nazi com a questão do antissemitismo como nos Estados Unidos com a segregação racial, que o próprio Owens chegou a sofrer na pele. Todos os personagens que fizeram parte do enredo principal na vida real estão retratados na película. 
Se é amante de Desporto e se se interessa por questões ligadas à história, tem aqui o prato mais do que servido para o seu enorme apetite. Um momento de viragem na história do Desporto e também na vida mundial com o início da Segunda Guerra Mundial, três anos depois. Se quiser saber mais sobre estes Jogos Olímpicos pode também ver o nosso artigo sobre os mesmos. Por fim, espero que desfrute do filme e também que possa dar uma vista de olhos no nosso texto.

 

2. McFarland, USA (2015) – Quem diria que uma pequena cidade no Estado da Califórnia poderia ter o seu próprio filme? Digamos que a história que envolve o filme é simplesmente fenomenal. Um personagem é fulcral para mudar o destino de sete jovens e, consequentemente, dos restantes ao longo dos anos. Ah! Sem esquecer, claro, da própria cidade. Jim White chegou a McFarland (Califórnia, EUA) para ser uma coisa e acabou por ser outra.
Não sabemos das dificuldades dos outros até passarmos por elas, certo? De certa forma sim, mas é sempre bom termos consciência de histórias como esta. Uma pequena cidade com recursos reduzidos, e onde a sua população ultrapassa imensas dificuldades, junta-se em torno de uma equipa de corta-mato, algo totalmente novo para os lados americanos. Uma história de superação, de coragem e de muita determinação. Afinal, não é disso que o desporto sobrevive?
É um filme que mostra a todos os espectadores que somos capazes de tudo desde que queiramos muito alguma coisa. Temos de saber aproveitar todas as oportunidades e adaptar-nos àquilo a que temos ao nosso dispor. Agora, prepare os seus olhos, pois, provavelmente, acabará por chorar com esta linda história.

 

3. Coach Carter: Treino para a vida (2005) – Esta é uma história que irá comover até as pessoas mais sisudas. Ao longo das nossas vidas, temos muitas pessoas que nos podem marcar como verdadeiros exemplos a seguir e «Coach Carter» ou Kenny Ray Carter, o seu verdadeiro nome, é um desses exemplos.
Em Richmond (EUA), a criminalidade era elevada e as probabilidades de sucesso académico eram baixas para os mais jovens enquanto que a probabilidade de acabarem na prisão era extremamente elevada. Ken Carter experienciou esta situação de perto como jogador ao ver os seus colegas a caminharem nessa estrada e queria, agora como treinador, mudar estas estatísticas com a sua perseverança.
O treinador não só se preocupava com o sucesso desportivo dos seus atletas como com os seus sucessos académicos. Digamos que esta é uma das grandes questões para os jovens jogadores, seja de que modalidade forem. É certo que o Desporto não dura para sempre e o que fazer depois? A resposta está precisamente neste filme. Uma história que inspira qualquer um, principalmente, aqueles que gostam de um desporto e querem fazer disso a sua vida. E acredite… Isto não acontece só nos filmes.


4. Ford vs Ferrari (2019) – Protagonizado por Matt Damon e Christian Bale, Ford vs Ferrari conta a apaixonante história de Ken Miles (Christian Bale) que, com a ajuda do ex-piloto Carroll Shelby (Matt Damon), se torna a (polémica) estrela das corridas em representação da Ford.
Baseado em factos verídicos, o grande objectivo de Ken Miles, para além de cuidar da sua família, é conseguir chegar, e dominar as 24h de Le Mans de 1966, numa luta intensa entre a construtora americana e a Ferrari.
Um filme arrepiante, do início ao fim, que retrata a melhor época que as corridas de resistência viveram, com muita emoção e tragédia à mistura.

 

5. Rush – No Limite da Emoção (2013) – Rush volta aos anos 70, e retrata, a partir de factos verídicos, uma das rivalidades mais intensas da Fórmula 1: A polémica superstar James Hunt (Chris Hemsworth) e o talento nato Niki Lauda (Daniel Brühl).
Por um lado, James Hunt é um polémico piloto dado aos prazeres mundanos; por outro, Niki Lauda parece querer levar a vida da forma mais correta possível.
Focando-se, principalmente, no campeonato mundial de 1976, é neste ano que a rivalidade parece acender-se a cada corrida realizada. O campeonato está renhido e as adversidades de corrida, naquela época, eram muito fortes. Quem irá vencer?

 

6. Borg vs McEnroe (2017) – Desta vez, sobre ténis, reunimos mais uma incrível história verídica. 
Dentro dos anos 80, este filme foca-se na famosa rivalidade entre o tenista sueco Bjorn Borg (Sverrir Gudnason) e o americano John McEnroe (Shia LaBeouf).
Disputando ambos o lugar de número um no ranking mundial, o filme foca-se na final de Wilmbledon de 1980, em que os dois tenistas se encontram para disputar o troféu.
McEnroe, em vista do seu primeiro troféu de Wimbledon, seria uma ameaça óbvia para Borg, que procurava a sua quinta vitória no torneio e, assim, bater o recorde. Mas, afinal, quem é que sairá vencedor?
Emoção e drama de início ao fim, é uma biografia muito bem conseguida, que retrata algo que, no ténis, não vemos tão claramente: as rivalidades."

O desporto na prisão: um pouco de liberdade

"Segundo Erwing Goffman (1922-1982), que foi considerado o sociólogo norte-americano mais influente do século XX, existem instituições totais. Podem ser definidas como locais de residência e de trabalho, onde um grande número de indivíduos estão numa situação semelhante, separados da sociedade por um período de tempo e têm uma vida fechada e formalmente administrada.
Os estabelecimentos prisionais inserem-se nesta perspectiva. Melhorar o bem-estar dos reclusos, modificar os seus comportamentos e atitudes, desenvolver as suas capacidades de viver juntos, aprender a respeitar os outros e de se conformar às regras, facilitando, assim, a sua reinserção na sociedade, são alguns dos objectivos prosseguidos pela política prisional. Neste âmbito, o desporto tem um papel a desempenhar.
O Conselho da Europa e a Organização Mundial de Saúde preconizam o recurso às actividades desportivas junto da população prisional, enquanto factor de equilíbrio e na prevenção da reincidência, permitindo às pessoas detidas de se integrar num grupo e de respeitar as regras. Por outro lado, favorece a adopção de uma higiene de vida e preenche um objectivo de saúde. Do ponto de vista normativo, constam diversas disposições no Código de Execução das Penas e Medidas Privativas da Liberdade e no Regulamento Geral dos Estabelecimentos Prisionais.
Direcção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP) é o organismo responsável pela prevenção criminal, execução de penas, reinserção social e gestão dos sistemas tutelar educativo e prisional. No âmbito da sua missão, tem a “programação e organização de actividades socioculturais e desportivas”. Um relatório de actividades e autoavaliação da DGRSP, de 2014, dá-nos conta que foram realizadas 485 actividades desportivas em estabelecimentos prisionais de grau de complexidade de gestão elevado e médio, com o envolvimento de entidades externas. O EP de Caxias, com um grau de gestão elevado, foi o que mais beneficiou, com 28 actividades na área desportiva. O EP de Bragança, com um grau de gestão médio, registou 120 actividades desportivas. Em 2018, um outro relatório da mesma entidade, informa que, no âmbito das medidas de flexibilização das penas, foram concedidas 92 licenças de saída administrativa por razões desportivas (31,1%, n=92), ficando em segundo lugar. As de razão laboral foram as primeiras com 41,4% (n=115).
O testemunho de um recluso, que foi condenado a nove anos e meio de cadeia, é elucidativo do que se passa em muitos estabelecimentos prisionais: “quando se fica em preventiva, nas instalações junto da polícia judiciária de Lisboa, não existem condições para a prática desportiva. Aquilo não tem nada: uma bicicleta estática e uma máquina de remos. O páteo é exíguo. Em outras instalações, as condições são também precárias, os aparelhos de ginástica estão ultrapassados e cheios de remendos, que vão sendo reparados pelos reclusos. Quem tem mais conhecimentos lá dentro, utiliza os ginásios e muitos são discriminados. Para se utilizar o espaço, é preciso fazer-se uma inscrição prévia, na medida em que existem várias classes. Quando o ginásio é gerido por um professor de educação física, realizam-se uns campeonatos de futebol, andebol ou ‘crossfit’, pois eles têm que justificar o ordenado. Algumas associações promovem internamente workshops de ioga. Quando o ginásio é gerido por uma outra pessoa interna, é tudo mais complicado. Os jogos de futebol são de evitar, pois existem picardias e é promotor de conflito e de problemas, sobretudo para aqueles mais ‘picados’ que não têm fair-play. A prática de artes marciais e desportos de combate são interditas, pois os guardas prisionais têm receio. Para aqueles que fazem muitas horas de “ferro” (musculação), é complicado porque depois ficam com muita fome e a comida dos estabelecimentos prisionais é péssima. É a lei da selva. O que eles nos querem dar é medicação, para andarmos todos calmos e a dormir”. Será que a concepção laudatória do desporto e dos seus poderes (educativo, pacificador, socializante, etc.) no meio prisional suscitam algum debate na sociedade portuguesa?
Será que a prática desportiva pode ajudar a suportar a encarceração, oferecendo um espaço de descontração e de sensação de liberdade? De acordo com as características dos estabelecimentos prisionais (muitos com sobrelotação crónica desde há muitos anos), e das instalações disponíveis, quais são verdadeiramente as actividades desportivas “oferecidas”? Será que a prática desportiva no meio prisional é uma recompensa oferecida para aqueles que não incomodam a ordem interna estabelecida? A prática desportiva é somente lúdica ou serve para a convivência social ordenada? Muitas questões que merecem resposta."