Últimas indefectivações

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Dérbi promete... Não estragar, sff

"Promete muito o Sporting - Benfica agendada para as 17.30 do próximo domingo, em Alvalade. Jogo de enorme importância para as aspirações no campeonato dos eternos rivais (ambos muito atentos ao que se passará em Guimarães, onde o Vitória recebe os dragões), este dérbi apanha o Benfica na melhor fase da época - aquilo que se vislumbrara em Braga com o FC Porto teve ontem confirmação na goleada ao Boavista - e o Sporting, hoje favorito na deslocação ao Bonfim, moralizado pela conquista na Taça da Liga. Há, pois, condições para que os 90 minutos no anfiteatro leonino sejam transformados numa grande jornada de propaganda ao futebol, assim quem não tem acesso às quatro linhas não incendei o ambiente. O futebol português precisa de paz, civismo, educação, fair play e sentido de responsabilidade, uma mão-cheia de atributos que tem andado arredado das práticas indígenas.
Sobre o jogo de ontem, entre águias e axadrezados, há que realçar o que o Benfica melhorou no capítulo da agressividade, criando condições para uma recuperação de bola consentânea com as necessidades de uma equipa grande. E depois... João Félix, cada vez mais a mostrar que é, de facto, um caso sério, com asas para voos que hão de levá-lo, mais cedo do que mais tarde, para lá das nossas fronteiras.

PS - Ainda em relação ao VAR (e não é vontade de embirrar, só gostava mesmo era de perceber...), como foi possível que Carlos Xistra e Pedro Mota não tivessem visto uma grande penalidade clara e evidente, do vimaranense Sacko, na deslocação dos conquistadores a Santa Maria da Feira? Assim, não há sistema que resista..."

José Manuel Delgado, in A Bola

Azeitona

"1. Não raras vezes usamos no dia a dia o famoso slogan de Pessoa: «Primeiro estranha-se, depois entranha-se» Com o VAR, porém, ao cabo de ano e meio, a coisa tem funcionado ao contrário: primeira estranha-se, depois entranha-se. Pensei que a final da Taça da Liga pudesse ser o desejável recomeço, mas só durou dois dias, até ao Feirense - V. Guimarães.
2. É pena, para o Benfica, que Bernardo Silva esteja tão ocupado a brilhar no Man. City. Caso contrário, poderia ser um bom reforço para a comunicação dos encarnados, como demonstrou no bate-boca com Francisco J. Marques. Ser voraz é fácil, ser mordaz não é para todos.
3. Os números do FC Porto, em matéria de penáltis, nos últimos tempos, são tão devastadores como o relatório preliminar da auditoria à CGD.
4. Há coisas que não entendo. No espaço de dois meses, o Benfica contratou Chiquinho e transferiu-o em definitivo como fosse um Chicozito, sem oportunidades. Agora olhamos para o Moreirense e vemos um Chicão (mas mesmo que não víssemos...)
5. O mau perder está para Sérgio Conceição como as massas de ar frio e a boa música estão para a Islândia. Algumas atitudes podem ser criticáveis, mas não é por acaso que a equipa do FC Porto tem o eye of the tiger.
6. É difícil encontrar justificações para o fiasco da passagem de Ferreyra na Luz. Mas porque se tratou de uma presença-fantasma, talvez algum deputado possa tentar explicar.
7. Tomei conhecimento há pouco tempo que existem torneios de lançamento (com a boca, sim) do caroço de azeitona (não estou a brincar, o recorde mundial já vai em mais de 20 metros). Luís Filipe Vieira, António Salvador e Frederico Varandas deviam experimentar.
8. «Podia ir para o Barcelona, mas assinei pelo Sporting», disse o jovem reforço leonino, Gonzalo Plata, 18 anos. Eu também podia escrever na última página de A Bola, aos sábados, no lugar de Jorge Valdano, mas optei por estar neste cantinho à quarta-feira."

Gonçalo Guimarães, in A Bola

Trio maravilha

"Grande exibição do Benfica, com destaque para João Félix, Seferovic e Pizzi. Venha o dérbi

Regresso à Luz
1. Ponto prévio: 23 dias após último jogo na Luz, o Benfica regressou a casa com o intuito de reagir à derrota no clássico. Era importante perceber qual seria a reacção da equipa a esse resultado e sentir a força dos adeptos depois de uma derrota é sempre importante. O desafio que era lançado ao Benfica era ganhar e criar pressão sobre o FC Porto e também manter a distância para o Sporting antes do dérbi de Alvalade. Com todos estes desafios, o Benfica teve desempenho extremamente positivo, com um resultado dilatado mas justo.

Onze base
2. Bruno Lage fez apenas uma alteração no onze, tirou Svilar e entrou Vlachodimos, com isso surge a ideia que Benfica tem o seu modelo de jogo e o onze bem definidos. A equipa da casa começa a desenhar a boa exibição depois do susto aos 7 minutos, em que Tahar aproveitou desatenção de Gabriel e atirou ao poste. Foi um abanão que a equipa levou e que obrigou o Benfica a dar grande intensidade ao jogo e a dar problemas a este novo Boavista - órfão de Jorge Simão, sob gestão de Jorge Couto e na expectativa da entrada de Lito Vidigal, que me parece que anda não deve ter tido influência no jogo. O Benfica empurrou o Boavista para o último terço, com Pizzi em trocas posicionais a mostrar-se vagabundo por todo o terreno. E aqui destaque para a forma como João Félix se posicionava e o bom entendimento que revelava com Seferovic, que fez dois golos e podemos dizer que este é o melhor Seferovic que já vimos no Benfica. Os três juntos formaram um trio maravilha.

Onze base
3. O Benfica teve futebol envolvente, mas asfixiantes, simples, rápido com e sem bola, jogadores próximos uns dos outros, um Benfica reactivo a responder a perda de bola. O Boavista ainda foi feliz ao marcar em cima do intervalo, que podia ter obrigar o Benfica a algum abanão emocional. Mas após o intervalo voltou ao registo de equipa dominadora. Com o João Félix a desequilibrar muito - é de facto um miúdo prodígio - descobrindo passes e linhas para os golos. O Benfica está leve, solto, com dinâmicas novas... a equipa tem crescido de jogo para jogo com Bruno Lage e demonstrou isso. Tem havido jogadores com novas oportunidades, caso de Samaris, que fez uma grande penalidade imprudente, mas está mais confiante e a crescer. Rafa não foi um jogador tão explosivo, foi mais pausado, mas equilibrado, jogando mais no meio campo, não sei se isso será um sinal para aquilo que Lage pretende dele. A vitória é inequívoca perante Boavista que não teve argumentos. Destaque para a raça e pulmão do Benfica durante o jogo. O Boavista está um bocadinho refém de não ter um médio de construção e transição, face à saída de David Simão e da lesão do Fábio Espinho. Ainda assim Mateus foi dos que deu sequência ao futebol do Boavista perante um Benfica que, com Gabriel no meio campo, nunca se desorganizou defensivamente. Com a entrada de Gedson, o Benfica transformou o 4x4x2 para o plano B em 4x3x3. Já no final da partida de salientar a grande defesa do Vlachodimos e defender em penálti e, numa segunda parte em que o Boavista nem à área do Benfica chegou. Esta vitória convincente serve de inspiração para o dérbi de domingo."

Vítor Manuel, in A Bola

Detesto perder... a carteira

"Confesso que sim, detesto perder a carteira. É coisa para me estragar a semana.
Ligar para o banco a cancelar o cartão, acordar de madrugada para ter lugar na loja do cidadão, discutir com o cabeleireiro para me devolver os carimbos acumulados para o corte gratuito.
Perder a carteira é perder o registo escrito de metade da nossa vida: e recuperá-la leva-nos muitas vezes a perder a cabeça.
Por falar nisso, também detesto perder a cabeça. Deixa-me com os cabelos em pé, e sem saber como os encontrar. Perder a cabeça é perder a razão, o discernimento, a lucidez. É ficar despido, mesmo que coberto de roupa. É esquecer os modos e deitar fora a calma. É fechar a sensatez num quarto escuro e bater com a porta.
Já agora, e como a conversa veio parar a portas, também detesto perder as chaves.
Há coisas que faz sentido não saber perder. Outras nem tanto.
Fui criança num tempo em que tudo o que um homem tinha de melhor era a honra. Dava-se um aperto de mão e valia mais do que um papel assinado.
Nas nossas pequenas comunidades, era normal a estima por uma pessoa medir-se em honradez: aquele é honrado, aquele não é honrado, aquele é muito honrado. A honradez mede-se no fundo em bons princípios: respeitar e fazer-se respeitar. Ser honesto, íntegro e educado.
Para alguém como eu, que tem ainda uma vaga ideia da importância da honra, é complicado aceitar esta moda de garantir que se tem mau perder como se isso fosse uma virtude.
Esta terça-feira foi Sérgio Conceição, e é naturalmente nele que penso ao escrever estas linhas, mas não apenas nele: tornou-se vulgar entre os homens do futebol gritar que se tem mau perder, como se isso fosse uma extraordinária qualidade. Ou fazer um elogio a alguém referindo que ele tem mau perder. Ou, no caso dos adeptos, ouvir alguém dizer que tem mau perder e bater palmas.
Ter mau perder, meus caros, não é um dom. É um defeito.
É não saber respeitar o adversário, o jogo e o espírito competitivo. Quem não sabe perder também não sabe ganhar e, como se diz, pior do que perder é não saber perder.
Nem vale a pena vestir a pele de La Palisse para dizer que é melhor não saber perder do que gostar de perder: porque entre gostar de perder e não saber perder há um enorme oceano de estados de almas. Não aceitar uma coisa não implica gostar da outra.
Pode-se não gostar de perder, mas saber-se perder. Pode aceitar-se, sem com isso ficar feliz. E sobretudo pode-se aceitar perder e não ficar de sorriso nos lábios.
Infelizmente vivemos numa sociedade, e num futebol, em que vale tudo. Uma sociedade vaga em princípios e em valores. Em honra, lá está.
Há coisas que não devíamos dizer nem numa troca de desabafos: não as devíamos confidenciar nem ao melhor dos nossos depósitos de confiança.
Mas em vez disso gritamo-las como se fossem um grande mérito. Não são.
Não saber perder é não ter desportivismo e não ter desportivismo é um péssimo exemplo: é um mau modelo para os nossos filhos, para as nossas crianças, para a nossa comunidade. Convém não inverter os conceitos.
É uma falha moral, um defeito, um atropelo à grandeza do ser humano. É uma falta de educação e de princípios. Uma falta de grandeza. Uma agressão aos fundamentos da honra. Respeitar e fazer-se respeitar, lembram-se?
Por isso, e porque quero pensar que o mundo ainda é um sítio com ética, não me peçam para elogiar o não saber perder.
A não ser que o que se perdeu foi a carteira. Ou a cabeça. Ou as duas coisas, pronto."

Sunderland: «Eu vi-vos a chorar na Netflix»

"No nordeste de Inglaterra há um caso sério de amor pelo futebol.
Sunderland e Newcastle mantém uma das maiores rivalidades do futebol inglês, mas as circunstâncias mudaram significativamente desde há duas épocas, quando os «Black Cats» caíram sucessivamente duas divisões no futebol inglês.
A série «Sunderland ‘Til I Die» retrata precisamente esse ponto crítico na vida do clube.
Quem não perdoa são os adeptos do rival Newcastle, que a cada oportunidade troçam da situação, cantando no estádio coisas como eu vi-vos a chorar na Netflix.
«We saw you crying on Netflix…»
A derrocada desportiva do Sunderland da Premier League para a League One é um drama desportivo. Aliás, depois de ver Sunderland ‘Til I Die, contemplamos o sentimento de uma cidade pelo emblema que a representa.
Até que, por fim, entendemos: não há vergonha nenhuma em chorar.

Ver:
«Sunderland ‘Til I Die»
Género: série documental
Produtores executivos: Leo Pearlman e Bem Turner
País: Reino Unido
Duração: 40 minutos (x8 episódios)
Depois de vermos estes oito episódios, tornamo-nos todos um pouco mais adeptos do Sunderland. 
Aliás, basta escutar o melancólico tema Shipyards, do genérico de abertura, para percebermos que esta série disponível na plataforma Netflix é uma das melhores coisas sobre futebol que pudemos ver nos últimos tempos.
A ligação umbilical entre o emblema desta cidade portuária do norte de Inglaterra e a classe trabalhadora, que compõe a sua base de apoio, salienta a relevância social do futebol numa comunidade.
Em certa medida, Sunderland ‘Til I Die é uma antítese de All or Nothing, conteúdo produzido pela Amazon sobre o Manchester City.
A história do sucesso dos milionários citizens, com craques de nível mundial a interpretarem o inebriante futebol de Pep Guardiola, contrasta em grande medida com o fracasso do Sunderland, que em duas épocas consecutivas cai da elite do futebol inglês para dois patamares abaixo.
Depois da despromoção na Premier League, Ellis Short, proprietário do clube, resolveu desinvestir no clube e é nesse momento difícil que se foca toda a ação, que tem como palco primordial o majestoso Stadium of Light.
A série acompanha a época 2017/18 do Sunderland no Championship. O que se esperava ser um período de renascimento, acaba por transformar-se numa longa agonia, com o clube a descer à League One.
O documentário foi lançado a 14 de dezembro de 2018, está disponível em Portugal na plataforma Netflix e tem o selo de garantia da produtora Fulwell 73 – a mesma da Class of 92, sobre a geração de ouro do Manchester United.

Ouvir:
Shipyards
Autores: The Lake Poets
Género: folk
País: Reino Unido
Duração: 4:11 minutos
On a river where they used to build the boats
By the harbour wall the place you loved the most
I can see you there but all you know
I'll be there soon
All your life you worked your fingers to the bone
You worked hard for every little thing you owned 
But you gave away for yours as if you'd known
They will call and out
Call and out 2x
But if you could see me now
But if you could see me now
I hope that I'm making you proud
I hope that I'm making you proud 2x
proud
Like a ship you built you're long gone from the coast
Where you are and where we go we'll never know
On a ship you built that's where
I see you most
If your smile and I
But if you could see me now 2x
I hope that I am making you proud 3x
Proud 3x

Um dos encantos de Sunderland ‘Til I Die é a banda sonora.
A música de abertura cativa logo a atenção do espectador.
The Lake Poets, o mesmo será dizer o cantautor Marty Longstaff, sintetiza o espírito da cidade portuária do norte de Inglaterra e das suas gentes numa balada folk que entra no ouvido desde os primeiros acordes.
Sem ser um tema sobre futebol, Shipyards – estaleiros, traduzindo para português –, é uma declaração de amor à cidade portuária e ao rio Wear, «onde faziam barcos». É a relação entre clube e cidade que faz o tema, cujo EP foi lançado em 2015, adaptar-se à narrativa da série.
Além da versão de estúdio, poderá também ver aqui a performance acústica de Martin Longstaff na catedral de Durham, cidade vizinha a Sunderland."

Penáltis, quando a ciência vence o improviso

"O acaso desempenha um papel secundaríssimo quando se trata de um teste de competências.

Na lista de escolhas de Marcel Keizer para abordar o desempate por grandes penalidades na final da Taça da Liga, foi o nome de Bas Dost que surgiu à cabeça. Não foi por acaso. A expertise e a taxa de sucesso do holandês, que minutos antes já relançara o jogo da marca dos 11 metros, inflacionavam as possibilidades de êxito e prometiam uma rampa de lançamento importante para o Sporting nesse tira-teimas. O avançado cumpriu e validou não só a opção do treinador, mas todo um trabalho de bastidores que hoje reduz ao mínimo a suposta aleatoriedade da saga dos penáltis.
Na verdade, o acaso desempenha um papel secundaríssimo quando se trata de um teste de competências. Especialmente nos dias que correm, em que o cruzamento refinado de dados e a sua análise detalhada são já parte do quotidiano do futebol profissional, lugares-comuns como “lotaria” ou “jogo de sorte e azar” fazem cada vez menos sentido.
Para compreendermos quão profunda é a aposta neste gesto particular, basta atentarmos no facto de grande parte das equipas orientar a selecção dos cinco jogadores inicialmente escalados para o remate com base em dados científicos e em informação psicométrica, que permite avaliar quem reage melhor a um ambiente de pressão acrescida.
Comecemos por aí, pela preparação mental. Há estudos, como o que foi conduzido pelo investigador Ken Bray, da Universidade de Bath (autor do livro How to Score: Science and the Beautiful Game), que apontam para dois tipos de stress, um sintomático (que provoca garganta seca ou aumento da frequência cardíaca) e outro cognitivo (que gera pensamentos negativos).
Para os contornar, o autor sugere que os jogadores devem visualizar a bola a entrar na baliza e construir imagens na cabeça que lhes elevem os níveis de concentração. Ou que adoptem um outro procedimento, mais personalizado, que optimize os índices de atenção. A esse respeito, há quem aponte o “ritual” de Cristiano Ronaldo antes das bolas paradas como um exemplo elucidativo: o recuo de forma quase robotizada, o afastamento das pernas e o modo enfático como enche e esvazia o peito de ar.
“Um marcador de penáltis deve ter uma linguagem corporal correcta, que o torne difícil de decifrar. O peito deve estar aberto, os ombros para trás e deve sempre olhar o guarda-redes quando recua a partir da marca de penálti”, sugere Daniel Memmert, que trabalhou como consultor para a federação alemã de futebol.
Depois, entra a questão técnica na equação e a tentativa de apontar àquela porção da baliza considerada como “zona indefensável”. Tendo em conta o limite de alcance dos guarda-redes, os alvos preferenciais serão as zonas acima do ombro de quem defende e o mais possível junto a um dos postes — segundo as estatísticas, quatro em cada cinco remates dirigidos para esta área são bem-sucedidos. Para isso, é preciso garantir um gesto perfeito, tendo um estudo da Universidade de Portsmouth concluído que uma abordagem à bola entre 45 e 60 graus pode alterar a técnica de remate, ao influenciar a rotação da pélvis e a forma como a coxa se movimenta para proporcionar um melhor contacto com a bola.
É vasto, pois, o conjunto de variáveis a controlar no exacto momento da execução, desde a colocação dos apoios à gestão da relação força/precisão, por exemplo, mas um marcador “glaciar” tem de ter também a capacidade de não se deixar abalar pela interacção visual com o guarda-redes. E convém levar em linha de conta que hoje os guarda-redes têm a lição mais bem estudada do que nunca.
Para essa mudança, tem sido decisivo o advento das empresas especializadas em estatísticas e no tratamento de dados. Por um valor generoso (nalguns casos a subscrição trimestral do serviço custa ao clube cerca de 350 mil euros) é possível ter uma radiografia da performance de cada atleta e até um modelo estatístico complexo, que avalia a sequência dos últimos penáltis cobrados, para tentar prever qual a opção seguinte do marcador.
É um upgrade face à célebre base de dados da federação germânica, que esteve na origem da cábula utilizada por Jens Lehmann para travar duas grandes penalidades diante da Argentina e garantir o acesso da Alemanha às meias--finais do Mundial de 2006. Nesse encontro, provavelmente como em nenhum outro, ficou provada à saciedade a necessidade de o marcador diversificar as decisões tomadas em cada desafio apresentado. Afinal de contas, e em última análise, o penálti há-de sempre ser um jogo de enganos."

A Liga que (quase) todos queremos

"O jogo que ontem se disputou na Luz é um daqueles exemplos que contribuem para a boa imagem do futebol português: um espectáculo de qualidade, sem casos de arbitragem e com respeito entre todos os intervenientes. E mesmo para uma 3ª feira de inverno, com início às 19 horas, um jogo com assistência acima de 40 mil espectadores é um registo que impressiona.
Espectáculos de qualidade, sem casos de arbitragem, com respeito entre todos os intervenientes e com assistências acima dos 40 mil espectadores é coisa que, infelizmente, não acontece muitas vezes no nosso futebol. Ganhou o Benfica, porque foi melhor, mas o adversário não deixou de ser um digno vencido – que nunca baixou os braços, nem deixou de contribuir, na medida do que lhe foi possível, para a qualidade do espectáculo.
A questão dos erros de arbitragem, apesar da ‘trégua’ ontem vivida na Luz, é um tema que continua na agenda por razões que estão bem à vista. O desejo do Benfica – e de todos aqueles que pugnam por um futebol mais saudável – é que o assunto deixe de ser debatido diariamente. Seria bom sinal. 
Temos todos consciência, ainda assim, de que o erro nunca deixará de existir. O que não pode continuar, de forma persistente, é o erro inexplicável e incompreensível sempre em benefício da mesma equipa. Foram decisões desse calibre que ajudaram a ‘construir’ o líder do campeonato que hoje temos. É obrigatório que, daqui até ao final da temporada, impere maior verdade desportiva. 
Quem está na origem do problema? Quem invade centros de treino, quem ameaça árbitros (e respectivas famílias) e quem agride adeptos na hora da derrota. São os mesmos que, seguramente, vivem obcecados pelo regresso a um passado que a (quase) todos envergonha.
Já lá vai o tempo em que havia quem interferisse nas subidas e descidas. Em que havia quem interferisse nas nomeações dos árbitros a seu bel-prazer. Em que havia quem fizesse aquilo que lhe apetecia. Não é esse futebol que queremos. Não é esse futebol que faz falta. É preciso que alguém lhes diga isso.

PS: Uma notícia surgida ontem nas redes sociais da Rádio Renascença tinha um título provocatório, pouco compatível com a qualidade e isenção a que a sua informação sempre nos habituou. Em boa hora houve quem se apercebesse e corrigisse o erro. Quem o cometeu insultou o prestígio da sua rádio."

Cadomblé do Vata

"1. Gabriel: uma semana a dizer que os treinos agora são mais intensos do que com o Vitória. 6 minutos de jogo, deixa-se dormir e isola um adversário... Bruno, preparação para o derby tem que ser de chibata na mão, pah.
2. Aquele sexto minuto foi de imensa nostalgia para todos os adeptos do SL Benfica... há 20 anos que não viam um Tahar fazer merda na Luz.
3. Já se esperava o jogo simples em que esta vista do Boavista se tornou... aliás, se antes do jogo me perguntassem se estava a contar com um jogo difícil, eu tinha respondido: "difícil? Difícil é o Jorge Couto juntar os joelhos".
4. Samaris demonstrou inteligência ao cometer falta clara para penalty... com a visita a Alvalade no horizonte, era importante para o Vlachodimos treinar a defesa de castigos máximos.
5. Félix é João, craque e ajeita a marrafa de 2 em 2 minutos... para ser Menino de Ouro, só lhe falta um hat trick em Alvalade."

Conhecemos muito, ignoramos muito mais

"Das consultas que por vezes faço, há bem 40 anos, na Lógica das Ciências Sociais, de Karl Popper, retive algumas ideias que se me antolham sejam o ponto fulcral deste livro. Sumariando, comecemos por esta: conhecemos muito, mas ignoramos muito mais. Ao nível do conhecimento, mormente do conhecimento científico, ignorância e conhecimento completam-se pois que, no princípio e no fim de um conhecimento, sempre se descobre uma tensão constante entre o conhecimento e a ignorância. “Portanto (argumenta Karl Popper) poderíamos dizer que não há nenhum problema sem conhecimento, mas também não há problema, qualquer que ele seja, sem ignorância”. Um outro ponto quero salientar: as ciências sociais e humanas começam com problemas, como as chamadas “ciências exactas”. A pobreza, o analfabetismo, a democracia, a política (incluo, aqui, a política desportiva), etc., etc. são problemas práticos, que conduzem à especulação, à teorização, em poucas palavras: a problemas teóricos. É impossível expungir a teoria da prática e a prática da teoria, no conhecimento humano. Quando John Locke (1632-1704), como empirista que era, escreveu: “Nada está na inteligência que primeiro não tenha estado nos sentidos” – tornou assim evidente que o corpo sobreleva a razão, o todo as partes e a unidade a multiplicidade, no ato cognoscitivo. Para Newton e os físicos do seu tempo, as teorias inferiam-se, deduziam-se dos fenómenos, não de criações do espírito humano, em poucas palavras: deduziam-se tão-só por abstracção da experiência. Tratava-se portanto de uma concepção das ciências, que excluía formalmente a actividade da imaginação. Além disso acreditou também piamente que a mecânica de Newton descrevia a realidade de modo rigorosamente exacto e objectivo. No entanto, a teoria da relatividade veio colocar em questão essa verdade que parecia inquebrantável” (Hilton Japiassu, Questões Epistemológicas, Imago Editora Lda., Rio de Janeiro, p. 22).
Aliás, a questão do método, nas ciências, não é pacífica. Paul Feyerabend (1924-1994), sempre com um fichário de grande actualidade, ofereceu inúmeros exemplos de teorias de indiscutível rigor e que chegam a não ser aceites pela comunidade científica. Um método que contenha princípios firmes inalteráveis e absolutamente obrigatórios que norteiem a prática científica tropeça com dificuldades consideráveis, ao ser confrontado com os resultados da investigação histórica. Descobrimos então que não há uma só regra, por plausível que seja e por firmemente baseada que esteja na epistemologia, que não seja infringida numa ou noutra ocasião. Torna-se evidente que essas infracções não são acontecimentos acidentais, consequência de uma falta de conhecimento, ou de atenção, que poderia ter-se evitado. Pelo contrário, vemos que são necessárias para o progresso” (Tratado contra el método, Tecnos, Madrid, 1981, p. 53). Depois do princípio da incerteza de Heisenberg, em 1927, e do surgimento das geometrias não-euclideanas, despontou um extenso questionamento do próprio conceito de evidência. Por seu turno, fugindo à tirania da tradição e do corporativismo e à férula do princípio da verificabilidade (só um enunciado verificável, pela observação ou pela experiência, transmite informações factuais) – Karl Popper, partindo do pressuposto que não se encontra critério seguro para avaliar da racionalidade de uma teoria, pois que da razão podem despontar uma longa e árdua maratona de interpretações várias, levanta a questão: então, qual o critério que nos permite distinguir a ciência da não-ciência? Para Popper, o mais fiável critério de cientificidade não é a verificabilidade, mas a falsificabilidade, ou seja, uma teoria que não sabe, nem pode, formular as condições da sua própria falsificação, não deverá considerar-se uma ciência. E, se bem penso, a história das ciências não se apresenta, desta forma, como um “objeto dado”, mas um “objeto construído”...
Do positivismo comteano dizia J. Piaget, no seu Biologie et Connaissance (p. 43). que ele tinha em mente um duplo objectivo: ideológico, isto é, “delimitar as fronteiras das ciências contra qualquer intromissão metafísica”; e metodológico, ao “fixar de uma vez por todas os princípios e os métodos destas mesmas ciências”. No positivismo, entre os pecados que se lhe podem assacar, eram muitas as certezas e as verdades. Mas não é verdade que a história das ciências não passa de um processo de “verdades” provisórias? Aliás, se há ciência, tal se deve ao facto de ao processo cognoscitivo em curso faltar mais evidência. Por maior que seja o academismo e afectação, na hora da proclamação das certezas, a evidência plena é sempre de uma indigência confrangedora. A ciência é processo, nada mais do que processo. A evidência plena é crendice, ou cegueira, ou dogma. Ainda há pouco me questionaram se eu, prestes a atingir os 86 anos de idade, considerava feita a minha obra. Respondi-lhes: “Falaram em obra feita? Mas eu não tenho uma obra feita, tenho, sim, algumas ideias em permanente devir. Por isso, o meu pensamento se encontrar tão inextrincavelmente ligado à escola hegelo-marxista. A lógica dialéctica é-me indispensável, para entender a História. Eu sei que rodeia a dialéctica um círculo ondulante e agressivo, onde topo Hannah Arendt, Edouard Bernstein e outros”. E uma alegria juvenil me tomou, quando perguntei: “E é possível a transcendência, sem dialéctica?”. Eu sou, em 40% do meu pensar, hegelo-marxista e, nos 60% finais, sou cristão, profundamente cristão, sem recusar a dialéctica mas introduzindo nela o objectivo final da transcendência. Gostava de ter conhecido, pessoalmente, Teilhard de Chardin, para o interpelar vivamente. É que me sinto muito próximo dele e do Papa Francisco, quando penso na transcendência. Com eles aprendi, que a própria ideia de transcendência é um processo em permanente construção. É da compreensão crítica da dialéctica que a transcendência surge mais instrutiva e mais instigante. Baudelaire escreveu que a modernidade significa a tensão entre o efémero e o eterno. Por mim, direi que a vida significa a tensão entre o efémero e o eterno - pela dialética da imanência, a caminho da transcendência…
Mas a dialética da transcendência traz-me à mente o “mundo-da-vida” da fenomenologia (aproveitado depois por Habermas, na sua Teoria da Ação Comunicativa) que assim tento definir “é o conjunto de crenças, sentimentos e valores, que traduzem significados da vida quotidiana. E, ao produzir conhecimentos, o mundo-da-vida surge como um pressuposto pré-científico de significados emergentes das práticas culturais”. Ou seja, o jogo, o desporto e a dança, quando são investigados e estudados cientificamente, já trazem consigo os valores, as crenças colectivas, que presidiram ao seu nascimento histórico e presidem, depois de racionalizados, à sua prática habitual. O “mundo-da-vida” é o mundo do “homo sapiens sapiens”, consciente do seu ser histórico, temporal e da sua relação com os outros seres falantes (e portanto com quem pode dialogar-se). Parece-me oportuno relembrar as Investigações Filosóficas de Wittgenstein, onde toda a linguagem é solidária de uma determinada “forma de vida”. A linguagem não blasona de “qualquer coisa de único e de sublime, como uma dádiva dos deuses ou uma faculdade transcendente que faria o ser humano participar num mundo imaterial, imutável, ideal, espiritual. De facto, a linguagem é empírica, evolutiva e complexa, integra afinal a história natural e cultural dos seres humanos” (Gilbert Hottois, História da Filosofia – Da Renascença à Pós-Modernidade, Instituto Piaget, Lisboa, 2003, p. 314). Daqui se infere que podemos fazer a distinção entre “valores do desporto” e “valores no desporto”: aqueles são o fundamento onde assenta o modo-de-ser do desporto, uma prática físico-motora informada de valores morais; estes são os valores que o processo histórico, na sua dialéctica incessante, acrescenta aos valores do desporto. Sou até em crer que de uma síntese, entre os valores do desporto e os valores no desporto, poderá resultar uma inelutável metalinguagem, onde o jogo, o desporto, a dança e a motricidade humana em geral, porque não são apenas biologia, nem inteligência tão-só, possam evidenciar a complexidade humana, no movimento intencional da transcendência.
Convivi muito com o Acácio Rosa. Foi das primeiras pessoas, em Portugal, a jogar basquetebol e andebol, ou seja, indubitavelmente, um pioneiro do desporto lusitano. Jantava, todas as semanas, com ele e com o Mariano Amaro, futebolista internacional do Belenenses das décadas de 30 e 40. Recebia-me sempre, com muita festa. Começava a ouvir o que eu lhe expunha, normalmente assuntos ligados à documentação e à informação do Desporto. Mas, a certa altura, o nome de um desportista, a menção de um estádio, o afloramento de uma data suscitavam-lhe a memória de factos distantes da vida do Belenenses, ou do desporto nacional. E então era o Acácio que falava, ininterruptamente. Recordo perfeitamente que, para ele, a figura primeira do nosso futebol era o Cândido de Oliveira (o meu Amigo-Irmão Homero Serpa dizia o mesmo). Jogador, treinador, seleccionador nacional, jornalista, ideologicamente um democrata sem mácula e deixando uma obra variada e multiforme de um verdadeiro pensador do futebol – Mestre Cândido, para o Acácio Rosa, tem lugar ímpar, na história do futebol português. E notava, por fim: “E homem bondoso, simples e acessível, capaz de dar a própria camisa a quem dela necessitasse”. Desportistas, como o Acácio Rosa, “homens da prática” (como é hábito dizer-se), são importantes aos historiadores para que os factos históricos não despontem descontextualizados e precedidos de especulações simplistas e simplificadoras. Em geral, os desportistas, normalmente pessoas aprumadas, disciplinadas, de olhar firme e voluntarioso, conhecem mal o papel da filosofia, na formação da História do Desporto. Vivem o Desporto como uma atividade autónoma, que se desenvolve, sem qualquer relação com a vida económico-social e com o mundo das ideias, quero eu dizer: que converge fatalmente para a “verdade”, sem o arrimo dos conceitos filosóficos e da realidade histórica, no seu conjunto. Enfim, uma concepção idealista da História. E só com a “filosofia espontânea dos cientistas” a História pode converter-se numa revoada de lugares comuns, postos a correr na base da superficialidade e da falsidade, onde se aceita como verdade apodítica o que se julga a via do progresso, dos “amanhãs que cantam”. Ora, não há revolução que não apresente também desmandos da liberdade, uma avultada conta de vítimas e um número razoável de mentiras. E muitas vezes a História se faz, escondendo o que seja considerado ao arrepio da vontade dos vencedores. E também aqui conhecemos muito, mas ignoramos muito mais."

Foi criado um observatório das Artes Marciais e Desportos de Combate em Portugal - OAMDCP

"O objectivo dos desportos de combate, sejam eles da tradição ocidental (e.g. boxe, as lutas amadoras) ou oriental (e.g. judo, aikido, karaté, taekwondo), é de colocar o Homem face a face com o seu semelhante. Assemelha-se à experiência ancestral da luta dos homens entre si mesmos. Se o “homem é um lobo para o homem”, as regras definidas eliminam ou limitam as lesões corporais e estabelecem uma fórmula de “regulação de contas” de forma leal. Os desportos de combate são considerados como um espaço susceptível de confortar e de preservar a identidade masculina, controlando e reprimindo a expressão da violência física. Aquilo que nós agrupamos com o termo “artes marciais” (desportos de combate orientais) faz referência a um conjunto complexo de práticas conhecidas depois do período Kamakura (fim do século XII) no Japão, que se repartem entre Budô (pacíficas, sem armas) e os Bugei (utilizando armas), fundadas sobre o respeito do Bushidô (código de princípios morais) ou a “via dos guerreiros”.
No século XX, com a ocupação americana do Japão (1945-1952), estas práticas foram proibidas. As artes marciais tinham sido transformadas no final do século XIX em práticas desportivas, isto é, codificadas, regulamentadas de forma a que fossem inofensivas para os praticantes, e algumas inscritas num quadro competitivo. Esta codificação teve a ver com a globalização/mundialização das práticas da tradição oriental para o Ocidente, ou por outras palavras, receberam influências do modelo de desporto moderno criado no Ocidente.
Depois da sua introdução no Ocidente, as práticas de combate asiáticas, popularizadas e depois mediatizadas, não pararam de suscitar interrogações quanto às razões do sucesso da sua implantação e difusão. Na sua origem são, antes de tudo, um fenómeno urbano, ainda que durante muito tempo sofrendo de má reputação, pois foram conotadas com movimentos políticos extremistas. Este fato levanta então a questão de como se poderá explicar o seu sucesso a partir dos anos 1970 na Europa? Uma parte da resposta encontramo-la em Braunstein (1999) quando afirma que: “a criação de clubes deve-se à desestruturação familiar, sobretudo com as separações e divórcios, dando origem a um individualismo”. Com o intuito de estudar e divulgar o conhecimento mais actual em matéria das artes marciais e desportos de combate em Portugal, foi criado, em Janeiro de 2019, o Observatório das Artes Marciais e Desportos de Combate. Tem por vocação estudar e promover os valores das artes marciais e desportos de combate enquanto instrumentos de educação e bem-estar no desenvolvimento humano. Da sua missão destaca-se:
• Promover o estudo e a investigação acerca das AM&DC em Portugal;
• Fomentar o diálogo de culturas, apoiando e promovendo o intercâmbio entre instituições de educação e de ensino;
• Contribuir para o estreitamento das relações de cooperação existentes entre os clubes, associações e federações; • Estimular a crescente participação dos jovens em iniciativas de cooperação para a promoção das AM&DC;
• Dinamizar e apoiar projectos de cooperação para o desenvolvimento desportivo em Portugal;
• Organizar modelos de formação de quadros, no âmbito das políticas de promoção do desporto;
• Cooperar com os clubes, associações e federações em projectos de interesse comum.
Encontra-se em curso a realização de um estudo sociológico comparativo de três modalidades de combate dual (judo, aikido e lutas amadoras). Esperemos ter, brevemente, alguns resultados para melhor se conhecer os treinadores portugueses e as modalidades em apreço."

Benfiquismo (MLXXX)

Esquina Gloriosa !!!

Vermelhão: Golos...

Benfica 5 - 1 Boavista


Vitória relativamente fácil, num jogo onde a uma coisa estranha, foi o Boavista ter marcado um golo, sem nada ter feito para o merecer... e ainda terem desperdiçado um penalty, com uma enorme defesa do Ody!!!
Não é fácil fazer uma avaliação sobre as melhorias da equipa, contra um adversário como o Boavista. Os Axadrezados limitaram-se a tentar defender, ofensivamente foram inofensivos... Mas mesmo assim notou-se uma grande preocupação dos nossos dois médios (Samaris e Gabriel) em estarem sempre colocados atrás da linha de bola sempre que o Boavista tinha 'posse', protegendo assim os nossos Centrais, fechando a zona central do terreno.
Ofensivamente, tentámos variar o jogo, atacando pelas faixas, mas também pelo meio... e tentando aproveitar as costas da defesa contrária. Sendo que esta noite, tivemos um 'inimigo' raro na Luz: a chuva, persistente, que tornou o relvado mais lento... Mesmo assim, parece-me que ainda temos muito que evoluir, nos ataques posicionais: com os dois Alas a jogarem de preferência em zonas interiores, deixamos os Laterais muitas vezes desacompanhados...
Agora, onde estamos mil vezes melhores, é nas transições rápidas, algo que praticamente não fazíamos anteriormente!!!
Não gostei da ansiedade no início da 2.ª parte: o golo injusto do Boavista, reduziu para 2-1, mas parecíamos que estávamos a perder!!! Aliás o 3-1, nasce num ataque semi-perigoso do Boavista!!!
Gostei, e muito, da forma como festejámos a defesa do Ody ao penalty, numa altura onde 5-1 ou 5-2 mudava pouca coisa...!!!
O Félix, foi considerado o MVP do jogo, com justiça: um golo, uma assistência e uma semi-assistência no 4.º golo!!! Mas o Gabriel também fez um excelente jogo (mesmo com aquele erro logo no início...), o Pizzi também esteve bem... o Grimaldo também, e ainda por cima terminou a partida com o golo da noite!!!
O Rafa nestes jogos, contra blocos baixos, tem mais dificuldades em encontrar espaços... espero que a substituição, não tenha sido por motivos físicos!!! O Seferovic com dois golos merece aplausos, mas não pode continuar a falhar golos, em jogadas onde aparece isolado, só com o guarda-redes pela frente...
O Zivko entrou mal na partida, tal como o Gedson o fez nos últimos jogos. É preciso saber aproveitar todos os minutos, os jogadores não podem 'desanimar' quando vão para o banco!
Uma nota especial sobre o Samaris: não sei se o Samaris está a jogar para a 'renovação' (não me parece...), mas ao contrário dos mais jovens, mesmo quando está fora das opções por muito tempo, quando é chamado, normalmente responde bem. Pode ter algumas limitações, mas em termos posicionais, tem estado perfeito... Algo que por exemplo, o Fejsa, raramente consegue fazer! Eu renovava... pelo peso no balneário, mas também pela forma profissional como encara a não titularidade e também pelos sinais do início do declínio do Fejsa! Mesmo com o Florentino a 'subir' precisamos de experiência na posição!
Impossível não falar do apitadeiro: Rui Costa, mais uma arbitragem absurda!!! Não marcou uma única falta a favor do Benfica, nos últimos 20 metros!!! Só na 1.ª parte, foram cerca de 6 faltas que ficaram por assinalar, em zonas perigosas, algumas em zona frontal...!!! Mesmo depois de tudo o que se passou na última semana, continua tudo com 'medo' de aparentar errar a favor do Benfica!!!
Agora vem aí mais uma jornada dupla, desta vez com a Lagartada!!! Temos tudo para triunfarmos nos dois jogos... mas não será fácil: primeiros vamos ter Lagartos, como árbitro de campo, e no VAR, de certeza absoluta! Depois, os Lagartos vão quase de certeza jogar em contra-ataque... o treinador deles, já demonstrou que não tem problemas em usar esta estratégia, mesmo em Alvalade!
O primeiro jogo é para o Campeonato, e é o mais importante... até porque para os Corruptos, o resultado ideal é o Benfica perder pontos... portanto vamos ter mais uma vez, a frente Dragarta em força!!! No jogo da Taça, até poderemos fazer alguma rotação, porque as Meias-finais são em duas mãos, mas para o Campeonato, temos que ir com tudo...
O nosso Mister, esteve muito bem esta noite, na conferência de imprensa, no final da partida. Como era esperado, a CMTV tentou destabilizar, como fazem sempre, ainda por cima nas vésperas dos jogos com a Lagartada... Hoje, não levámos Amarelos, portanto, sem lesões, acredito que vamos repetir o onze... e é para ganhar!

Vitória molhada!!!

Belenenses 0 - 1 Benfica


Jogo atribulado em Massamá, com muita chuva, um apagão e ainda um choque violento de cabeças, com o nosso João Ferreira a ser obrigado a sair de ambulância... numa 1.ª parte que demorou mais de 1 hora!!!
Acabámos por chegar à vitória no 2.º tempo, com o Umaro a finalizar...

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Chovia como se o céu doesse

"25 de Janeiro nascia da Mafalala. A mãe queria uma menina. O Destino resolveu trazia um Mercúrio negro que voava com asas nos pés a caminho da eternidade.

Eusébio, Eusébio e mais Eusébio.
Janeiro é mês de Eusébio: digo e repito! Não será certamente o paciente leitor destas crónicas a fartar-se de Eusébio. Quando muito, fartar-se-á do cronista. Quanto a isso, as minhas sinceras desculpas.
Eusébio faria hoje anos: 25 de Janeiro.
A morte levou-o para a planície da eterne saudade onde florescem as rosas da memória...
Se Nelson Rodrigues dizia de Garrincha que foi o melhor jogador que o Brasil jamais viu depois de Pedro Álvares Cabral, então nós podemos dizer, descansadamente, que Eusébio foi o melhor jogador que Portugal jamais viu depois de D. Afonso Henriques.
É a minha opinião: por ela sou responsável. Odeio comparar jogadores de futebol. Sobretudo quando o tempo é tão diverso, que as contradições se tornam inevitáveis.
Eusébio não é comparável. Ele foi Portugal antes deste Portugal moderno, embora injusto. Ele foi para lá das fronteiras de um país tacanho, mazombo e triste e subiu até ao lugar mais alto do planeta ao qual os homens podem ambicionar. Ele foi para lá do mundo e estará ainda hoje a traçar órbitras arbitrárias nas quais os astros fingidos perdem a majestade, como dizia Miguel Torga, o poeta da montanha.
Às vezes, perguntaram-me: 'Como é que, depois de tantos anos, de tantas páginas de jornais, de dois livros dedicados a Eusébio, ainda consegues ter algo para escrever sobre ele?'
A resposta é simples: Eusébio escreve-se a si próprio!

Multiplicando letras...
Outras vezes reescrevo-me. Passo as letras do QWERT atrás das imagens.
Como a imagem de Eusébio depois de marcar o primeiro golo ao Brasil no Mundial de 1966.
Corre, de braço no ar.
Corre, Eusébio, corre! Passada felina de pantera. Divino negro.
A cabeça está erguida, imperial, reparem bem: há no seu olhar, que abarca todo o estádio de Goodison Park, em Liverpool, a consciência de que a História está a passar por ele, pela sua agilidade elástica, veloz, o redor move-se em câmara lenta, só ele tem vida para além da vida corriqueira, insignificante, só ele ganha luz para além dessa vida-vidinha de que falava Alexandre O'Niell e que acabrunhava o país triste.
Corre, corre, corre, Eusébio, corre.
Estava apenas a comemorar um golo, mas até disso dir-se-ia depender a sua própria existência. Aquela corrida parece durar horas e horas. Aquela corrida merecia durar horas e horas.
Prestem bem atenção, agora: ele eleva-se no ar como se tivesse as asas nos pés de um Mercúrio negro. O seu braço erguido estende-se para lá do estádio, quase tocando o céu num soco vigoroso, vibrante. Não tirem os olhos dele: deixem-no ficar assim para sempre na parede lisa da vossa memória.
Dificilmente Eusébio poderá ser tão Eusébio.
Eusébio reescreve-se a si próprio.
Lá em Lourenço Marques, d.ª Elisa Anissabani, a mãe de Eusébio, já tivera três rapazes. Queria uma menina. O dia 25 de Janeiro de 1942 não lhe fez a vontade. Nasceu-lhe outro rapaz. Chamou-se Eusébio. Da Silva Ferreira. O mundo saberia, a devido tempo, decorar-lhe o nome.
O mundo não tardou a confundi-lo com Portugal.
'Chego a convencer-me de que, enquanto os outros bebés aprenderam a andar, eu aprendi a chutar', diria Eusébio, dezanove anos depois, numa entrevista concedida a Carlos Miranda. Um ano depois de chegar a Lisboa e à Metrópole, como então se dizia, Eusébio já era o Eusébio, e tinha uma história completa para contar.
'Não me lembro de brinquedos, não me lembro de jogos ou de partidas', continuava. 'Lembro-se da bola. Sempre da bola A trapeira, se coisa melhor não se conseguia arranjar, lá nos coqueiros, em desafios sem fim, sem prazos de tempo nem balizas medidas. Jogar à bola, fosse como fosse, era tudo quanto desejávamos'.
A bola morreu com ele nesse mês de Janeiro no qual chovia como se o céu doesse.
Ou melhor: ele levou-a comigo, debaixo do braço, preparado para voltar a chutá-la no pedaço mais pequeno de relva que encontrasse vago. Acredito que continuarão juntos. Donos ambos da eternidade dos únicos!
25 de Janeiro: nascia Eusébio, na Mafalala.
Para mim, nunca morreu!"

Afonso de Melo, in O Benfica

Mulheres ao volante

"Uma novidade no desporto feminino e um actor famoso, os ingredientes certos para mais um sucesso com o cunho do Benfica.

Em 1963, o Sport Lisboa e Benfica voltou a inovar: organizou o primeiro rali feminino em Portugal.
A prova, designada I Rali Feminino do Benfica, teve lugar a 15 de Setembro de 1963 e contou com o patrocínio do Cinema S. Jorge, da Rank Filmes de Portugal Lda., da Junta de Turismo da Costa do Sol, do Casino Estoril e do Rádio Clube Português. O actor britânico Stanley Baxter foi o convidado de honra do evento, aterrando em Lisboa no dia que antecedeu a competição. 'Escocês de nascimento, desembarcou tipicamente trajado com o característico saiote (kilt)' e depressa conquistou todos quantos o aguardavam, entre eles os dirigentes 'encarnados'.
No dia do Rali, domingo, 'os veículos concentram-se na parte sul do Parque Eduardo VII, ante o interesse de inúmeros curiosos e dos familiares das gentis competidores', atraídos 'pela novidade da competição e, também, pela presença do mais popular actor do cinema inglês'. Às 10 horas, o próprio Stanley Baxter - que 'envergava um fato castanho, aos quadrados, o casaco com duas rachinhas. Uma camisa branca, picotada, servia de fundo a uma gravata amarela. Óculos escuros' -, 'após uns ditos que despertam a boa disposição', empunhou a bandeira quadricula e deu o sinal da partida.
Em competição, trinta senhoras, 'todas em traje que lhes permitisse a maior liberdade de movimento', ao volante de 'carros, das mais diversas marcas', percorreram o itinerário que contemplou 'Odivelas, Caneças, Belas, Venda Seca, Tala, Recoveiro, Baratã, Algueirão, Granja do Marquês, Lourel, Sintra, Ramalhão, Linhó, Alcoitão' e terminou no Estoril. Após o 'percurso total de 46,6 Km', foi a vez de disputarem a prova complementar no Estoril, frente ao Casino.
As 'três dezenas de participantes alegraram, como só o sexo feminino sabe fazer, a interessante competição'. E Gisele Araújo, com o seu Austin 850, sagrou-se vencedora absoluta da competição.
Prova terminada, foi tempo de rumar ao 'salão de cinema do Casino Estoril' para assistir à antestreia do filme A Respeitável Carcaça (com o título original The Fast Lady), interpretado por Stanley Baxter. Após a exibição do filme, foi servido um jantar no restaurante do Casino, durante o qual foram distribuídos os prémios do Rali e houve ainda tempo para um acto de variedades e uma baile.
Na exposição permanente do Museu Benfica - Cosme Damião pode saber mais sobre as modalidades femininas praticadas no Benfica."

Mafalda Esturrenho, in O Benfica

“Fui apanhado na noite, um copo aqui, acolá, fiz muitos erros, aprendi. E sou um romântico: tenho todos os livros do Nicholas Sparks”

"Aos 37 anos Jorge Ribeiro garante sentir-se com força para jogar até aos 40, a sua meta. Depois disso, ainda não pensou bem no que vai fazer, desde que seja ligado ao futebol, embora ser treinador esteja fora de questão. Com um percurso que começou no Benfica, passou por clubes como o Santa Clara, Varzim, Desportivo das Aves, Dínamo de Moscovo, Málaga, Granada, Boavista, Atlético e agora Farense, entre outros, confessa que fugiu sempre do irmão, Maniche, isto é, de jogar em clubes onde este também estava, tendo inclusivamente recusado convites por causa disso. Casado e com três filhos, diz que começou benfiquista mas acabou por desenvolver simpatia pelo Sporting, um clube feliz, como ele diz

Nasceu em Lisboa e durante muitos anos era conhecido como o irmão de Maniche. Pode apresentar o resto da família?
O meu pai chama-se Ulisses, a minha mãe Esmeralda, quando eu era miúdo trabalhavam os dois numa fábrica de bolachas. E tenho mais dois irmãos, só da parte do pai, mais velhos, um rapaz e uma rapariga.

Então o seu pai casou com a sua mãe, depois do outro relacionamento.
Sim, o meu pai teve uma namorada antes, nunca foi casado com essa senhora, e depois juntou-se com a minha mãe e casou com ela. A minha mãe é mais velha do que o meu pai.

Cresceu em que zona de Lisboa?
No Bairro da Boavista, ali perto da Buraca, perto do campo do Casa Pia.

Quais são as primeiras memórias que tem de infância?
Vivia num bairro social e tinha contacto com miúdos de rua. Lembro-me que foi uma infância muito boa que não a desprezo, foi ali que cresci é ali que estão as minhas raízes.

Quando era pequeno o futebol já lhe dizia alguma coisa, jogava à bola na rua?
Foi o meu padrinho que nos ensinou a jogar à bola na rua. Também fui muito cedo para as camadas jovens do Benfica. Com oito anos já jogava na formação do Benfica.
Como é que lá vai parar?
O meu irmão já estava no Benfica e eu brincava na rua. Tinha um pontapé forte, ainda por cima esquerdinos havia poucos na altura, e tinha jeito para a coisa. No bairro havia um pavilhão recreativo onde jogávamos com os amigos. O meu irmão dizia-me que eu tinha jeito para o futebol e insistia para eu ir ao Benfica fazer testes. Um dia, fomos cinco ou seis miúdos do bairro, tentar a nossa sorte e acabei por ficar. Eu e mais um colega meu.

É verdade que não ficou convencido e que não voltou logo?
Na altura o treinador era o Arnaldo Teixeira, o pai, não o que está com o Rui Vitória, disse-me que eu ficava, falou com os meus pais também, mas eu não queria nada com a bola queria era brincar na rua. Era um “índio” (risos). No bairro era tudo muito familiar, todos se conheciam.

Por quem é que torcia o Jorge Ribeiro quando era pequeno?
Eu era do Benfica mas agora tenho um carinho muito especial pelo Sporting.

O seu pai e o seu irmão são do Sporting?
São. Eu queria era brincar e o meu irmão chateava-me a cabeça “Não queres ir e estão fartos de te chamar. Tens jeito até já te deram o diploma para ires”. E eu “Mas eu não quero nada com isso Nuno”; “Mas tu tens de ir, tens de ir”. O Nené, que coordenava o futebol juvenil do Benfica naquela altura, também insistiu, mandou várias cartas para casa e pronto, acabei por ir, até agora.

Quando começou a ir regularmente tinha quantos anos?
Tinha nove para os dez.
Lembra-se quando é que começou a ganhar consciência de que podia ser jogador de futebol?
Foi um bocadinho depois, quando comecei a ver que subia sempre de escalão. Nos iniciados já comecei a ter essa noção, de que podia chegar lá. Entretanto, comecei a ir às selecções.

É quando começa a treinar no Benfica que define a sua posição em campo ou se já vinha da rua.
Não vinha da rua, foi o mister Arnaldo Teixeira que nas captações me pôs a lateral esquerdo. Até me comparavam com o Schwarz que jogava no Benfica. E a lateral esquerdo fiquei até agora.

Encaixou bem na posição.
Sim, tinha muita velocidade, tinha um remate forte, batia bem as bola e, a partir dos iniciados, por volta dos 13 anos, comecei a ter mais essa consciência.

Como é que era a sua relação com a escola?
Não era um fã da escola, mas tinha que ser. Os meus pais sempre incutiram primeiro a escola e depois o futebol. Fiz o 9.º ano e deixei de ir porque tive de optar. Ou escola ou futebol. Ia para as selecções, ia para fora e perdia muita matéria escolar. 

O seus pais nunca se opuseram a que largasse a escola?
Eles perceberam. Entretanto nos juvenis, com 15 anos, comecei a ganhar algum dinheiro.
Lembra-se do valor do seu primeiro ordenado?
Lembro, primeiro era o valor do passe, dois contos e quinhentos (12,50€). Era a minha mãe que ia buscar-me aos treinos. Tenho de agradecer-lhe porque foi graças a ela, que me acompanhou sempre para os treinos, à chuva e ao vento, íamos a pé apanhar o autocarro…

Isso eram umas ajudas de custo. Mas quando assina e ganha o seu primeiro contrato?
Foi nos juniores e ganhava 2500 euros, quinhentos contos na altura. Tinha 16 para 17 anos.

Houve alguma coisa que quisesse comprar logo?
Não. Nessa altura tudo o que ganhava entregava aos meus pais. Era justo, foram eles que me ajudaram sempre, que gastaram dinheiro comigo e não era justo que eu não lhes entregasse o dinheiro. Eles também tinham feito um esforço. Depois, mais tarde, quando comecei a ganhar mais dinheiro e saí de casa, a partir daí é que decidi ser eu a ficar com o dinheiro.

Quando faz a sua estreia na equipa principal do Benfica?
Estreio-me com 17 anos, com o Jupp Heynckes.

O que sentiu?
Era júnior, o Jupp Heynckes assume o comando técnico da equipa principal, escolhe três jogadores dos juniores para fazer parte do plantel e eu fui um dos eleitos. Fiquei todo contente. Estava nas nuvens, saí em todas as capas dos jornais desportivos; era um miúdo, não tinha a noção das coisas. Fui para a equipa principal e quando não era convocado, jogava nos juniores.
Lembra-se do primeiro jogo na equipa principal?
Foi para a Taça de Portugal contra o Amora. Ganhamos 7-1 ou 7-2.

Foi titular?
Fui. Até foi engraçado porque o meu irmão estava nesse plantel também, fomos de estágio, ficámos no Radisson em frente ao estádio do Sporting, no mesmo quarto, e dissemos um ao outro: ou tu fazes um golo e eu faço o passe para ti, ou eu faço o passe para ti e tu fazes o golo. E aconteceu. Eu faço o cruzamento e ele faz o golo.

Nessa altura o seu irmão já tinha saído de casa?
Já. O meu irmão saiu de casa no tempo dos juniores.

Estreia-se e na época seguinte vai logo para o Santa Clara. Porquê?
Vou para o Santa Clara porque vi que não ia ser opção no Benfica; era jovem e entretanto surgiu essa opção de ser emprestado ao Santa Clara, que na altura estava na II Liga. Fui de bom grado porque não estava a jogar no plantel da equipa principal.
Quem eram os seus concorrentes?
Era o Bruno Bastos e um jogador estrangeiro. Fui para o Santa Clara para ver se jogava mais, mas também não joguei muito. Tinha empresário? Tinha, era o Paulo Barbosa. Desde os juniores.

Quando foi para o Santa Clara, é a primeira vez que sai do ninho. Custou-lhe muito?
Claro que custou. Lembro-me que o meu pai tinha folga e foi levar-me ao aeroporto. Eu nem sabia bem ao que ia. Era um miúdo que estava habituado a ter a comida na mesa. Passámos algumas dificuldades mas nunca faltou nada de comida.

Já tinha namorada?
Tinha. Era a Débora, com quem casei. Ela era lá do bairro e é a mãe dos meus dois filhos mais velhos. Separámo-nos há quatro anos.

Ficou a viver onde nos Açores?
Fui viver para um T0, tinha que fazer comida, tinha de me desenrascar, só sabia fazer arroz, massa e ovos (risos). Mas tinha um restaurante que o clube tinha disponibilizado e quase sempre ia lá comer. Quando estava fechado, ou quando vínhamos dos jogos fora, é que fazia a minha comida e desenrascava-me bem. Telefonava à minha mãe, ela dizia-me como devia fazer. Agora já sou um bom cozinheiro (risos).

Quem era o treinador do Santa Clara?
O Manuel Fernandes. Mas só lá fiquei seis meses.

Porquê?
Porque eu estava emprestado pelo Benfica e o Shéu ligou-me a dizer que eu ia fazer outra vez parte do plantel do Benfica. E voltei ao Benfica.
Voltou para a equipa principal ou para a equipa B?
Para a equipa B. Depois, vou outra vez para a equipa principal já era o Toni o treinador. Depois o Toni saiu e veio o Jesualdo, tudo na mesma época. O Jesualdo era adjunto do Toni.

Como correu essa época na equipa principal?
Fiz alguns jogos com o Toni, com o Jesualdo também, mas depois apareceu uma proposta boa do Varzim. O meu empresário ainda era o Paulo Barbosa, estava a acabar o meu contrato com o Benfica e o Varzim estava na I Liga.

O Benfica não queria renovar?
Não era o Benfica não querer renovar, eu é que queria ter mais jogos na I Liga. E apanhei um treinador no Varzim que apostou em mim, o Alberto Costa, que foi adjunto do Queiroz. Depois tive o Luís Campos e o Rogério Gonçalves. Fui para o Varzim, assinei por quatro anos e desvinculei-me do Benfica de vez.

Não lhe custou desvincular-se do Benfica?
Custou. Custou mas nessa altura era muito difícil os jogadores das camadas jovens conseguirem vingar, não é como agora em que eles apostam muito nas camadas jovens. Na minha época não eram muitos os que subiam. Na altura fui eu, o Pepa, e o Rui Baião. E fomos esses três que depois vamos para o Varzim. Era o mesmo empresário.

Ainda antes do Varzim, quando volta à equipa principal do Benfica, depois de ter estado nos Açores, o facto de não estar lá o seu irmão, para si era uma coisa que o aliviava ou sentia falta dele?
Vou ser sincero. Tenho um lema de vida. Se o meu irmão estiver como treinador numa equipa eu não vou para lá. E se estiver como jogador, também não vou. Tive que ir naquela altura porque era mais novo, mas não gosto. Estive com o meu irmão noutro clube em Moscovo, mas quando ele chegou, eu nem sabia que ia, e também não gostava.
Por causa da comparação?
Da comparação e não só. Por exemplo, se há uma guerra no campo, há sempre guerras mesmo nos treinos, depois uma pessoa vê o irmão ali no meio e vai ter que se meter, é sempre um problema. 

Criava-lhe ansiedade?
Claro. E depois é assim, eu gosto de ser eu próprio, não gosto de ser associado: “Ah, ele é jogador por causa do Maniche”. Isso nunca aconteceu, eu fui pelo meu valor e ele foi pelo dele. Já estive para ir para vários clubes onde ele esteve, como adjunto, já estive para ir para o Paços, já estive para ir para a Académica, e não fui por causa disso.

Escolha sua?
Escolha minha. A Académica estava interessada quando o meu irmão lá estava e eu não fui. Não fui para uma I Liga, fui para a II Liga. Sou mesmo assim. Para depois não dizerem: “Ele está ali por causa do irmão”. As pessoas são assim.

Gosta que reconheçam o seu valor independentemente do seu irmão.
Claro, como aliás reconheceram. Mas é engraçado porque muitas vezes diziam: “Ah, eu conheço-te, tu és o irmão do Maniche”. Eu era sempre associado a ser o irmão do Maniche.

Isso chateava-o muito?
Não me chateava, para mim até era um orgulho. Mas criava ali um bocado... eu tenho que ser eu. Depois as pessoas começaram a inverter isso. Mas hoje em dia já não ligo muito a isso.

Quando vai para o Varzim também vai sozinho ou ai já está casado?
Só casei em 2005, para o Varzim ainda vou sozinho, mas como já tinha estado sozinho no Santa Clara, não me custou. A minha ex-mulher ia visitar-me mas como estava a tirar o curso, não ficava sempre comigo.
Aos 16, 17 anos começam as saídas à noite. Como é que o Jorge se safava? Sabia fazê-las ou foi alguma vez apanhado?
Fui várias vezes apanhado (risos). Um miúdo com 16, 17 anos que começa a ganhar dinheiro e aparece nos jornais, nas televisões, há a tentação de puxar sempre os tais pseudo-amigos, como eu chamo agora que estou calejado. Vamos beber um copo ali, e agora vamos ali.... Vou dizer-lhe: fiz muitos erros.

E foi castigado por causa disso?
Fui. No Benfica castigaram-me uma vez ou duas. Estava na equipa A e mandavam-me para a B.

Qual foi a dura que lhe custou mais ouvir?
Foi quando estava a jogar, e estava a jogar bem, e um dia vou beber um copo. Depois disso quando chego ao treinos, o Jesualdo Ferreira com um ar ríspido diz-me: “Vais começar a treinar na equipa B, porque aconteceu isto e isto...”. Eles sabem tudo não é. Eu ainda “Então, mas...”; “Não, não há mais conversas. Ainda és novo, ainda tens muito que aprender. Vais para a B e quando eu achar que deves vir outra vez, vens” (risos).

Quem eram os amigos com quem costumava sair?
Do Benfica era o Pêpa, o Hélder Ramos, o Bruno Aguiar, o Cândido Costa, vários. 

As saídas foram-se mantendo ou começou a cortar?
Depois comecei a cortar. Ainda saí mais umas vezes, mas não para me expôr.

Voltemos ao Varzim. Como é que correm as duas épocas?
Adaptei-me bem, comecei a fazer mais jogos na I Liga. Lembro-me que tinha um pré acordo com o FCP quando fui para o Varzim. Na altura do Mourinho mas depois isso não se concretizou.

Porquê?
Não sei porquê. Não accionaram a opção. Era eu e o Rui Baião.

Acha que isso não aconteceu por causa do seu irmão estar lá?
Não sei. Ainda não consegui compreender como é que foi.
Gostava de ter ido para o FCP?
Sim. É sempre bom passar de um clube pequeno para um grande. Mas continuei no Varzim e correu bem, ia à selecção.

Quando é que chamado a primeira vez à selecção? Tinha quantos anos?
Tinha 15 anos quando fui chamado à selecção de sub-15. Fui sempre às selecções todas depois.

Era muito diferente o ambiente de selecção do ambiente dos clubes?
Sim, ali estão os melhores praticamente. Criei amizades com todos. Havia os grupinhos, o do FCP, do Sporting e do Benfica, mas nunca tive chatices com ninguém, fui sempre bem recebido.

Foi praxado ou praxou alguma vez?
Fui praxado na equipa A. Em 2002 na minha primeira internacionalização pela selecção principal, o treinador era o Agostinho Oliveira. Foi em Braga, contra a Escócia e ganhamos 2-0. Estava a chover muito nesse jogo. Fomos uns oito ou nove que se estrearam. Já tínhamos o Fernando Couto, o Vítor Baía, Jorge Costa, Sérgio Conceição, Costinha, o Rui Jorge, o João Pinto, o Figo, o Pauleta, uma data deles, o Simão, o Nuno Gomes…

Sentiu-se pequenino ao pé deles?
Na altura estava no Varzim. Vir de um clube pequenino e chegar à internacional A, olhar para aqueles jogadores todos... Alguns nem me conheciam... Encontrei o Fernando Couto e o Rui Costa na bomba de gasolina, eles lá com os seus carrões, eu fui com um amigo que me deu boleia. Parei na bomba, eles olharam para mim, mas nem sequer sabiam que eu ia à selecção. Era um respeitinho tremendo com aqueles jogadores. Não era fácil, eles diziam: “Ó miúdo tens que esperar até todos se sentarem para te sentares no lugar que sobrar.” Em todo o lado, na camioneta, no restaurante, em todo o lado era assim e aquilo era um respeitinho, não é como agora.

Como é que foi a praxe?
Quando cheguei fizeram um corredor para eu passar e levar calduços. Depois tive que falar e dizer o que é que sentia por estar ali. Lá falei, um bocado a tremer, mas desenrasquei-me (risos).
Houve algum que o tenha surpreendido mais ou que tenha sido mais simpático?
O Figo foi simpático porque o meu treinador, o Alberto Costa, era treinador-adjunto do Carlos Queiroz, no Sporting e o Figo falou-me dele. Perguntou se estava a gostar de ser treinado por ele. Havia uns mais frios, tipo o Fernando Couto, os do norte eram um bocado mais frios.

Consegue resumir o seu percurso na selecção?
Faço sub-15, sub-16, sub-17, sub-18, sub-20, sub-21, equipa B, faço os Jogos Olímpicos, equipa A e o Torneio de Toulon, que ganhámos.

Entretanto sai do Varzim e vai para o Gil Vicente.
Eu tinha quatro anos de contrato com o Varzim, faço um ano na I Liga, depois o Varzim desce e eu tenho que me apresentar. Ainda fiz 24 jogos, mas decido, eu e o meu empresário, ir para o Gil Vicente para estar outra vez na I Liga. Rescindo com o Varzim e vou para Barcelos. Estou lá meia época época, vou para o Dínamo de Moscovo, transferido.

Entretanto casa.
Sim, em 2005 quando vou para o Dínamo.

Era algo que ambicionava, jogar fora do país?
Era.

Havia algum campeonato que gostasse mais?
Quando vou para o Dínamo já tenho outro empresário, o Jorge Mendes. Desligo-me do Paulo Barbosa e é já o Jorge Mendes que me leva para o Dínamo. Mas ainda no Gil Vicente eu deixo de ir aos treinos.

Porquê?
Porque o presidente diz-me para não ir aos treinos. Estava num jantar de equipa, na Trofa, e liga-me o presidente: “Não vás aos treinos porque temos uma transferência para ti, para ires embora. É bom para nós e é bom para ti”. Tanto que eu andava desaparecido e já diziam que eu tinha um processo disciplinar, mas foi tudo feito de maneira a que eu pudesse ir para o Dínamo de Moscovo. As pessoas ligavam, mas eu não atendia telefones; depois liga-me o Jorge Mendes e rescindo com o Gil às quatro da manhã, num cartório em Barcelos.

Às quatro da manhã? Porquê?
Porque é assim, os negócios na altura eram assim. Lembro-me que o presidente do Gil Vicente andava de um lado para o outro preocupado com os dinheiros. Mas eu queria era resolver a minha vida.
Quando lhe disseram que ia para a Rússia qual foi a primeira reacção?
Foi de medo. Pensei, vou para lá e aquilo é só bombas e é frio. Era o que via na televisão.

Foi o único português a ir nessa altura ou já lá estavam outros?
Pensava que era o único, tanto que estou a jantar na minha casa e liga-me o Jorge Mendes a dizer que eu tinha que estar às sete da manhã no aeroporto de Lisboa para ir para a Turquia que eles estavam em estágio, em Antalya. Fui com um amigo de carro e chorei a viagem toda. Para onde é que eu vou, Rússia, sem a família, seja o que Deus quiser. Dormi em casa dos meus pais para estar no aeroporto de manhã. No aeroporto encaro com o Danny e com o Cícero. Pelo menos já tenho com quem falar. Eles também eram do Jorge Mendes e fomos os três para a Antalya onde na altura estavam uns 40 graus. Saio dali, venho a Portugal buscar roupa e quando chego à Rússia, quando saio do avião, estão 24 graus negativos. Disse logo que ia voltar para Portugal outra vez, que ali não me apanhavam com aquele frio (risos). Mas depois lá me habituei.

Nessa altura como é que comunicava, em inglês?
Não falava muito inglês, mas tinha um tradutor e desenrascava-me bem.

Ficou a viver onde?
Num hotel em frente à Praça Vermelha. Trataram-me sempre bem, quando cheguei ao quarto tinha roupa de neve, foi espectacular. E fiquei no hotel durante um mês. Depois fui para uma moradia. 

Sozinho?
Não, o meu pai e um amigo meu foram ter comigo e ficaram por lá bastante tempo para eu não estar sozinho.

Adaptou-se bem ao futebol russo?
Adaptei-me.

Jogar na neve não lhe fez confusão?
Aquilo tinha um sistema diferente na relva. A neve saía, tínhamos todo o equipamento necessário, collants, luvas, cremes. Tinha é que ir uma hora antes para me equipar mas correu bem. Fiz alguns golos e o primeiro ano correu bem.

A sua mulher não ficou na Rússia consigo porquê?
Ela só lá esteve um mês. Não aguentou e veio embora. Eu tive de aguentar mas depois rescindo, e vou para a Liga Espanhola.

Ainda jogou com o seu irmão?
Sim, ele esteve lá seis meses e depois foi embora para o Chelsea. Quando ele foi embora eu ainda fiquei.

Esteve dois anos no Dínamo, mas tinha quatro de contrato.
Sim. Pagaram-me um e deixei lá outro, para ir para o Málaga.
Queria sair de lá, já estava farto?
Não era farto. Até estava a correr bem, mas depois aquilo mudou, o dono do clube saiu, era ele que metia o dinheiro no clube…

Foi para o Málaga porque era uma forma de estar mais perto de casa?
Optei por ir porque o Málaga porque também estava na I Liga. Estavam lá três portugueses: o Edgar, o Duda e o Litos, que era do Boavista. O Litos ajudou-me imenso, ele e a mulher, já lá estavam há três ou quatro anos.

Não esteve muito tempo no Málaga.
No Málaga não tinha jogado muito e o Desportivo das Aves estava na I Liga.

Com o professor Neca, certo?
Sim, o professor Neca ajudou-me. Aquilo que levo do futebol, são as pessoas que me ajudaram. Apesar de dizerem que ele é muito táctico, muito para trás, adaptei-me bem a ele, fiz muitos jogos com ele. Mas já chego ao Aves numa fase em que aquilo não estava nada bom, só tinham um ponto. Entretanto, o Jorge Mendes apresenta-me uma boa proposta.

Para o Boavista.
Sim, do João e Valentim Loureiro. Era um clube com tradição, um clube com boas condições e fui. 

Com o Jaime Pacheco como treinador.
Sim. Também aprendi muito com o Jaime Pacheco. O Boavista foi o clube que me permitiu a ascensão para ir outra vez para o Benfica. Fiz uma época muito boa com o Jaime Pacheco. Havia muita gente que dizia que ele só queria corrida mas eu na altura já tinha 26, 27 anos e disse para mim mesmo, é aqui que ou vai ou não vai. Correu bem, adorei trabalhar com o Jaime Pacheco e muitos treinadores deviam ser como ele, muitos.
O que quer dizer com isso?
Porque é um treinador que incute nos jogadores o que é a mística de qualquer clube. É do norte, as pessoas do norte são mais aguerridas. Ele não gosta de perder, para ele é trabalho, trabalho, trabalho. E só assim se chega a um patamar elevado no futebol. Foi campeão num clube que ninguém estava à espera, como o Boavista, por causa disso mesmo.

Era um sonho voltar ao Benfica?
Era e vou explicar porquê. Fiz lá a minha formação, fui bem acarinhado e até tive um bocado de receio porque na altura também tinha o Sporting interessado e o Sampdoria, mas optei pelo Benfica. 

Tinha um contrato melhor também.
Também mas optei porque vim de lá, da formação. Ainda estive com dúvidas, porque as pessoas podiam pensar: então este saiu, rescindiu com o Benfica, foi-se embora para o Varzim e agora quer voltar outra vez para o Benfica? Nem todas as mentes são iguais. Mas foi o que aconteceu, volto ao Benfica com um bocado de receio, falei com o presidente mas o Luís Filipe Vieira disse-me: “Isso não tem nada a ver Jorge, o teu trabalho fala por si. Tem oito golos, várias assistências e tens sido um dos melhores da Liga".

O treinador era o Quique Flores.
Era. Era para ter ido em dezembro com o Camacho, mas como tinha um pré-acordo com o Benfica, optei por ficar no Boavista porque no Boavista jogava e o Benfica tinha o Leo que, era bom jogador e se fosse logo para lá, se calhar não jogava e como tinha o Europeu esse ano, queria tentar ir ao Europeu. Por isso continuei no Boavista a fazer bons jogos e fui chamado para o Europeu.

O seu irmão não foi. O que é que sentiu nessa altura? Um orgulho diferente por finalmente ter “descolado” do seu irmão?
Não porque sempre tive ambição de três coisas: jogar com o meu irmão na equipa principal do Benfica, jogar na selecção e ir a um evento como o Mundial ou o Europeu com o meu irmão. Pensava que era nesse ano que ia ao evento e fechava as três, mas não aconteceu. Não sei porque é que ele não foi, mas são opções do seleccionador. Lembro-me perfeitamente quando fui chamado para o Europeu, os telefones não paravam. Diziam sempre a mesma coisa. “Então você vai ao Europeu e o seu irmão não vai, o que é que sente?” Estavam sempre a falar disso.
O que ele lhe disse?
Ele ficou muito feliz por mim, foi a primeira pessoa com quem falou quando soube da convocatória: “Tu mereces, é fruto do teu trabalho. Gostava de ir contigo mas são opções”. Claro que se fica sempre chateado de não ir a um evento como o Europeu. 

Ainda apanha o Jorge Jesus no Benfica?
Apanho.

Ele não o queria.
Como é que hei-de dizer, foi o Benfica que me deu tudo. Deu-me os valores todos como homem e como futebolista. Fiquei triste porque acho que foi injusto da parte do mister Jorge Jesus, e eu falei com ele sobre isso. Porque com o Quique Flores faço quase 30 jogos, contando com as competições europeias, era titular. Não foi uma época exuberante mas foi uma época regular da minha parte.

Ele explicou-lhe a razão?
Não, disse simplesmente que não contava comigo, na altura o director desportivo era o Rui Costa, disse que não contava comigo mas eu disse-lhe “Mister mas eu tenho mais três anos de contrato com o Benfica”. Fiquei um ano sem jogar com ele.

Custou-lhe.
Custou-me muito porque um jogador tem de jogar. E quando um jogador faz quase 30 jogos supostamente é para ficar no plantel, na minha opinião. Mas cada um tem as suas, ele teve as dele e fiquei um ano sem jogar. Claro que custou muito. Treinei à parte, não é a mesma coisa.
Conseguiu perceber porque é que ele não o queria na equipa?
Não cheguei a perceber porque ele quando me dispensa, diz-me que tinha o Shaffer e o Sepsi para o meu lugar. OK, são opções, só tenho que respeitar, mas tenho mais três anos de contrato. Tenho que ficar aqui, é a minha vida também. E ele: “Eu sei que sim, mas ficas a treinar ai à parte”. Está bem. O que é certo que que começou a época e ele dispensou o Shaffer e o Sepsi, foi buscar o César Peixoto e recuou o Fábio Coentrão para lateral esquerdo. Foi no ano em que ganhou o campeonato. E esteve muito bem, com um plantel muito bom, sem dúvida ele é bom treinador, já lhe disse, que é um bom treinador. Um treinador exigente também, um treinador que tem a sua maneira de estar e de ver as coisas, mas nunca compreendi o porquê até hoje.

É nesse ano que nasce a sua filha?
É , em 2010, a Maria Inês.

Assistiu ao parto?
Assisti. Dos três, assisti a todos. É uma sensação única. Ser pai é a melhor coisa do mundo. 

Entretanto vai para Guimarães.
Sim, vou para o Vitória de Guimarães emprestado pelo Benfica. Foi também uma experiência boa, apesar de ao início não jogar. O treinador era o Manuel Machado. Tenho uma história com ele muito boa.

Conte.
Ele é um treinador muito calado. Quando lá cheguei ia emprestado pelo Benfica, e não tinha que ser mais do que os outros só por vir do Benfica. Para eu jogar, tinha que treinar bem e fazer por merecer a confiança do treinador. Passei a primeira volta sem ser convocado, sem jogar e eu sempre a trabalhar, sempre a treinar. Começa a segunda volta, e lesiona-se o rapaz da minha posição, que nem era bem a minha posição porque eu era lateral e ali joguei a interior esquerdo, e o Manuel Machado mete-me a jogar com o Olhanense. A partir daí nunca mais saí da equipa. Depois vou para o Granada e um dia estou lá e recebo uma chamada. Um número português? O que é isto? Era o Manuel Machado a dizer que queria que eu fosse com ele, para a primeira aventura dele na Grécia, no Aris. “Tu foste um bom profissional. Treinaste sempre a sério, nunca viraste a cara à luta”. Só que era impossível porque os do Granada não me deixaram sair.
E Granada que tal?
Muito bom, gostei da cidade. Mas eles defendem muito o que é deles.

Está a falar em relação aos jogadores?
Também.

Então não foi bem recebido?
Fui bem recebido mas nós, os portugueses, acolhemos melhor os estrangeiros.

Correu-lhe bem essa época?
Não joguei muito.

É por isso que vem embora para o Desportivo das Aves?
Sim.

Entretanto nasce o seu segundo filho.
Sim, o Francisco.

É o Jorge Mendes que lhe arranja o contrato com o Desportivo das Aves?
No Granada já não era o Jorge Mendes, fui eu que fiz o contrato e a partir daí fui sempre eu.

Porquê?
Ele nunca mais me ligou e foi opção minha, não dependo de ninguém, nem que seja o homem mais rico do mundo, e segui a minha vida. Já tinha estado no Aves antes, eles gostaram de mim e ligam-me para saber se eu queria voltar. Disse logo que ia porque foi um clube que me acolheu bem, nunca me faltou com nada, sempre me deu tudo aquilo que eu queria.

Para um jogador que jogou em equipas como o Benfica, que jogou lá fora, quando volta para uma II liga o choque é muito grande?
Não. Eu tinha clubes interessados da I Liga e fui para uma II.

Porquê?
Não me prendo a que sejam clubes da I ou da II Liga, porque já estive na I Liga. E também nunca fui muito pelo dinheiro. Claro que isto é a nossa vida e é bom ganhar dinheiro, mas chega uma fase da carreira em que já tive tanta experiência de vida antes que, porque é que vou para a I Liga? Vou ver o que é a II Liga. E se tenho pessoas que acreditam e confiam em mim e que dizem: “Jorge vens para aqui, nós gostamos de ti, nós acarinhamos-te”. Eu prefiro assim.

É também uma altura em que começa a perceber que já não tem 20 anos...
...Exactamente

Começa a ter noção de que se calhar brilha mais n II Liga do que na I?
Em relação ao brilhar, quem tem qualidade, tanto brilha na I como na II. Costumo dizer que a II Liga é mais competitiva do que a I porque tem mais jogos, tem 40, 45 jogos, as equipas são mais bola no ar, mais possantes, os campos são diferentes, são mais pesados. Enquanto na I Liga é tudo mais bonitinho, há mais espaço para jogar, melhores condições. Na altura fui para o Aves e gostei. Estivemos a um passo de subir à I Liga. Estive dois anos no Aves, entretanto já estava farto de estar no norte e decidi ir para Lisboa, para o Atlético. Entretanto separo-me da minha ex-mulher.

Como é que surge o Farense?
Através do presidente João Rodrigues. Ele diz que não liga às idades, desde que o jogador corresponda dentro do campo. O que é certo é que os anos em que faço mais jogos são os anos em que tenho mais idade. Ele disse-me: “Conto contigo, quero que venhas para aqui. Isto é um clube histórico, vou levantar este clube”. O que é certo é que está a correr bem. Foi isso que me cativou, um presidente dizer: “Vens para aqui, eu estou contigo e confio em ti”. E, pronto, aconteceu. Vim para aqui, para a II B e estamos na II Liga, subimos.
Está com 37 anos. Faz alguma coisa de diferente para se manter em forma? Mudou alguma coisa nos seus hábitos?
Cuido-me bem. Faço uma boa alimentação, descanso. Um jogador com 37 anos tem de descansar, hidrato-me bem, tomo as minhas vitaminas e as minhas proteínas, tudo certinho às horas, para poder estar bem no jogo. E graças a Deus também nunca tive uma lesão muito grave. Porque as lesões com esta idade demoram mais a cicatrizar e a recuperação custa muito.

Está a gostar de viver no Algarve?
Estou. Entretanto casei-me outra vez. Com a Geni, que nasceu na Venezuela, é filha de pai português e mãe venezuelana. E já temos um filho, o Afonso que tem sete meses.

O que faz a Geni?
É consultora de beleza.

Já lhe passou pela cabeça a ideia de que qualquer dia tem de pendurar as botas?
Eu sei que não vou ser eterno mas ainda não me passou pela cabeça.

Sabe o que quer fazer depois?
Sim. Algo ligado ao futebol.

Treinador?
Não, director desportivo. Treinador não. Lidar com muitas cabeças não é para mim. Sou capitão do Farense este ano e as cabeças funcionam de maneiras diferentes. Dou muito valor aos treinadores porque não é fácil gerir um plantel com 30 jogadores. Um pensa de uma maneira, o outro de outra. E depois há sempre aquelas chatices e aqueles amuos. Para se ser treinador tem que se ser líder e ser um bom líder porque não é fácil.

Já fez ou tenciona fazer alguma formação na área da gestão desportiva?
Sim, vou começar a fazer porque vão surgir uns cursos. O sindicato também ajuda e vou-me informar e vou andar para a frente com isso.

Como surge a sua simpatia pelo Sporting? Afinal, começou por ser benfiquista.
Porque fui ver um jogo com o meu pai. O meu pai era muito fanático pelo Sporting e fui ver um jogo com ele, era miúdo. Não sei, foi um sentimento quando entrei naquele estádio antigo do Sporting. O meu pai levou aquelas almofadinhas, sento-me e vejo o jogo todo. Nunca tinha estado num estádio assim. E depois é um clube simpático, que não tem muita pressão, é um clube que não está habituado a ganhar muitas vezes, é um clube feliz (risos).

Onde é que ganhou mais dinheiro?
Na Rússia.

Onde é que foi investindo o seu dinheiro ao longo dos anos?
Em casas.

Nunca se meteu em nenhum negócio?
Não. Eu para me meter num negócio tenho de estar presente. Quando acabar o futebol, já estou a planear com a minha mulher, um negócio. Mas não vou dizer o quê.

Gostava de jogar até quando, tem alguma meta?
Gostava de jogar até aos 40 anos, de acabar com essa idade. Sinto-me bem, tenho feito os minutos todos, tenho estado muito bem e sou o primeiro a dizer, quando não der, quando eu sentir no meu corpo que já não consigo, sou o primeiro a dizer, já não quero mais e penduro as botas. Porque um dia vai ter que acabar.

Não tem receio de sentir saudades do cheiro do balneário, da relva...
Isso vou sentir sempre. Por isso é que passo aos jovens a mensagem de que o futebol são 10 anos para ganhar dinheiro. Há uns que se mantêm lá porque têm outro perfil, outros não. Mas enquanto andam nisto é aproveitar ao máximo. Somos remunerados, treinamos uma hora e meia, duas horas por dia e fazemos aquilo de que gostamos. Há trabalhadores que andam nas obras, têm que se levantar às cinco da manhã e dar no duro para dar de comer à família. Nós somos uns sortudos. Por isso é que há muita inveja.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Não foi em carros. Nunca fui de carros, agora tenho um Kia. Mas comprei um relógio que me custou 5000 euros.

Tem algum hóbi? Joga Playstation?
Gosto de ver filmes, gosto de ler. A televisão é uma perda de tempo para mim.

O que é que lê?
Várias coisas. Sou muito romântico, tenho os livros todos do Nicholas Sparks. Gosto de conversar, aprendi isso com os meus pais. Estamos à mesa e eu estou a olhar para uma televisão, com a família? Não. Desligo a televisão e falo. Porque são esses momentos que temos para conversar.

Há algum outro desporto que pratique ou que siga com atenção?
Gosto muito de ténis. Jogo com a minha mulher que também joga bem.

Tem algum tenista favorito?
O Federer.

Não sente falta da confusão de Lisboa?
Não, a melhor coisa que me aconteceu foi vir para Faro.

Qual é a sua maior frustração no futebol?
Nenhuma, não tenho.

Conquistou algum título?
Conquistei o campeonato com o Jorge Jesus, ele pôs-me a jogar a 10 minutos do final.

Mas não sabe à mesma coisa pois não?
Claro que não. Fui campeão da II Liga pelo Santa Clara, subimos à I. Ganhei com o Quique Flores a Taça da Liga, duas vezes.

Qual foi o título que lhe deu mais gozo?
O Torneio de Toulon, de sub-20. Já não éramos campeões há 10 ou 12 anos. Senti uma sensação muito boa.

Quando fez a primeira tatuagem e quantas tem?
A primeira foi quando nasceu a Maria Inês, é uma coroa. Depois fiz o diamante que é o Francisco, depois tenho um relógio com a hora a que eles nasceram os dois. Tenho o meu nome. Tenho as alianças deste último casamento e a data. E tenho o meu outro filho que é o arcanjo Miguel, o anjo poderoso, e a data de nascimento Afonso. Tenho o nome da minha atual mulher, com umas orquídeas que ela gosta muito. Estão todas no meu braço direito. E tenho um escorpião, que é o meu signo, num gémeo da perna."