Últimas indefectivações

quarta-feira, 13 de julho de 2016

A fé de Fernando Santos

"Passados estes dias de justificada euforia e de orgulho pelo ceptro europeu, decanto, aqui, um acontecimento que em mim permanecerá. Como português e como católico. Refiro-me ao agradecimento que, premonitoriamente, Fernando Santos fez muito antes da final ganha. Num tempo em que não acreditar é mais fácil do que crer, num tempo em que a nova moda é o ateísmo relativista, num tempo em que tanta gente prefere o absurdo ao mistério, o material ao espiritual, o instante ao permanente, num tempo, enfim, em que expressar-se publicamente como católico e dar testemunho de fé quase exigem coragem, Fernando Santos disse-nos, de alma aberta e livre, que para um verdadeiro cristão não existe diferença entre o pensamento, o coração e a oração. Desta maneira: «Em primeiro lugar e acima de tudo, quero agradecer a Deus Pai por este momento e tudo aquilo da minha vida [...]. Por último [...) falar com o meu maior amigo e sua mãe. Dedicar-Lhe esta conquista e agradecer-Lhe por ter sido convocado e por me conceder o dom da sabedoria, perseverança e humildade para guiar esta equipa e Ele a ter iluminado e guiado. Espero e desejo que seja para glória do Seu nome».
Fernando Santos não é um treinador católico, pois que católico não é nele um adjectivo, antes um substantivo. Por isso ele é treinador no trabalho e é católico na vida. Um homem que se deixa iluminar pela luz da fé, com a audácia da esperança e a fortaleza da generosidade, e que sabe que, sem Deus, nada é completo.
Aplicam-se-Ihe as palavras de Bento XVI, ditas em Portugal: «fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza»."

Bagão Félix, in A Bola

Maracanazo dos tempos modernos

"São muitos os episódios à volta do dia em que a confiança insolente de um povo foi confrontada com aquilo que o antropólogo Roberto DaMatta considerou "a maior tragédia da história contemporânea do Brasil". A lenda do Mundial de 1950 tem um enorme protagonista: Obdulio Varela, o capitão que, contra a evidência de um circo romano em que os uruguaios seriam as vítimas, criou uma contracorrente emocional decisiva. Diz-se que, em plena cabina, pegou no jornal 'O Mundo' e, depois de ver a capa, lhe urinou em cima. Havia um motivo: a foto da selecção canarinha era gigante e enquadrava a frase "Estes são os campeões mundiais". Quando as equipas, se formaram para o registo da praxe, 'El Negro Jefe' ficou furioso com os repórteres fotográficos que foram, quase todos, para o lado errado da história. Gritou ofendido: "Deixem esses macacos em paz e venham para aqui. Tirem fotografias, sim, mas aos campeões, que vamos ser nós:"
O sucesso de Portugal, que não precisou de um chefe como Obdulio, começou quando Fernando Santos fez os seus soldados acreditarem nas ideias, no estilo e nas prioridades do futebol que escolheu. Pacho Maturana, o 'Sacchi dos Trópicos', afirmou que "temos de morrer sem nos atraiçoarmos", alertando para a necessidade de os treinadores não abdicarem do que pensam face a pressões ou fracassos iminentes. FS resistiu à mudança mas acabou por moldar algumas linhas orientadoras do guião sem beliscar as suas mais íntimas convicções. Chama-se a isso bom senso. 
Pouco importa agora incidir a reflexão da vitória no Euro se o futebol de Portugal devia ter calibrado melhor ordem e entusiasmo; disciplina e liberdade; luta e criatividade; responsabilidade e irreverência. Se, no fundo, o talento não permitia tomar decisões mais ousadas quando confrontado com ter ou não ter bola; jogar com esperança ou receio; fazer do jogo uma festa ou uma guerra. FS definiu um rumo e todos, incluindo os principais artistas, se comprometeram com as suas opções. A Seleção foi uma equipa temível, por ter coordenado todos os elementos que influenciam o colectivo e pela cumplicidade entre comando e comandados, prova de que só acreditando no líder o treinador consegue transmitir o que pretende e os jogadores aceitam o rumo que lhes é dado.
FS resolveu alguns problemas corrigindo o primeiro instinto: Renato, Adrien, Cédric e Fonte acabaram titulares; o 4X3X3 foi mais utilizado do que seria de esperar e Éder pôde aplicar o tiro mais importante da história do futebol português. O resto foi não dar crédito às imbecilidades de ex-jogadores e comentadores franceses; sorrir perante as certezas irreflectidas do senhor que tira macacos do nariz e põe na boca; venerar o apoio dos emigrantes e não cometer erros. Nunca cometer erros. Acima de tudo, Portugal foi uma equipa competente, que nunca ofereceu, por exemplo, penáltis como o de Schweinsteiger, muito menos reeditou as falhas infantis de Kimmish e Neuer que empurraram a França para a final. O futebol da Selecção não deslumbrou. Mas a paixão, enquadrada por estratégia bem assimilada, também pode ser um espectáculo deslumbrante.
No Stade de France, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, cumprimentou sorridente a equipa portuguesa, deu os "parabéns" a FS e não manifestou sinais de surpresa no momento da festa que silenciou Paris. Já Jules Rimet, líder da entidade máxima do futebol em 1950, grato pela organização do Mundial canarinho, terá afirmado num círculo de amigos: "Estava tudo previsto naquela tarde, menos a vitória do Uruguai." Lá tinha as suas razões: entregou a Taça a Obdulio Varela na cabina porque, no relvado, hão houve condições físicas e emocionais para fazê-lo. Em Saint-Denis não se chegou a esse extremo. O espírito do Maracanazo esteve lá, é certo. Os tempos é que são outros."

Figo-Rui Costa 'vs.' Raphael-Renato-Éder

"Podemos recuar a Eusébio, Coluna, Hilário, Vicente, Jaime Graça, José Augusto, Torres, Simões - 3.º lugar no Mundial-66, meia-final perdida (2-1) com Inglaterra que jogou em casa e seria campeã, Eusébio estrela universal, rei dos goleadores (9 golos em 6 jogos). Geração de ouro - vincou excepcional Benfica bicampeão europeu e 3 vezes vice-campeão, bem como o Sporting vencedor da Taça das Taças -, a qual, porém, vítima de amadorismo na FPF, não voltaria a qualquer fase final! 
Podemos lembrar Humberto Coelho, António Oliveira, João Alves, elite que a Selecção desperdiçou. E a geração de Bento e Damas, Jaime Pacheco e Sousa, Diamantino e Carlos Manuel, Fernando Gomes, Nené, Manuel Fernandes, sobretudo de Chalana e Jordão - 3.º lugar no Europeu-84, meia-final perdida (3-2) no prolongamento com França campeã. Geração dilacerada por dentro, na mesquinhez de clubite Benfica-FC Porto, e que, no Mundial-86, reforçada com o menino Paulo Futre, caiu de borco em guerra total com a direcção federativa!
E a Selecção-2012, a um triz da final... (penalties com Espanha campeã). Mas lembramos, sobretudo, a 2.ª geração de ouro, erguida em dois títulos mundiais de sub-20, liderada por Figo, Rui Costa, Vítor Baía, Paulo Sousa, João Pinto, Fernando Couto, Jorge Costa: 3.º lugar no Euro-2000, e, ainda com alguns deles ao lado de novas estrelas - Ricardo Carvalho, Jorge Andrade, Deco, Costinha, Maniche, Ricardo, Nuno Gomes, Pauleta e... o menino Ronaldo - 2.° no Euro-2004, 4,º no Mundial-2006. Esta geração perseguiu a fundo o grande sonho e tão pertinho esteve de o alcançar... Que sentirão agora Figo, Rui Costa & companhia, vendo os recém-chegados Cédric, Raphael, Fontes, William, Danilo, Adrien, Renato, Éder... serem, logo à 1.ª, campeões da Europa?!"

Santos Neves, in A Bola

Ó mar salgado, quanto do teu sal [voltam a ser] lágrimas de Portugal

"PARIS - Decidi escrever mais um Sous Le Ciel de Paris, porque ontem, já em Orly, apercebi-me, depois de ler a Imprensa francesa, de que ainda havia alguma coisa que estava por dizer. Mas, antes disso, não posso deixar de partilhar a emoção que foi ver, a quase dois mil quilómetros de Portugal, a festa de Lisboa, uma celebração com uma dimensão inédita no nosso País, um sentimento de pertença e de união comovente.
Um sentimento de amor pela Pátria. Um sentimento feito de coisas positivas, sem amarras a um passado que procurou colar essa ideia a outras práticas. Não me envergonhei nunca do orgulho que tenho em ser português, da ancestralidade do nosso legado, do que demos ao Mundo e de quem somos. Mas, durante décadas, este sentimento puro foi muitas vezes - estupidamente - confundido com reaccionarismo. Qual quê. É o que somos, quem somos! E acaba por ser a Selecção Nacional a estar na primeira linha da destruição deste complexo contranatura que impedia muitos de gritarem o amor à Pátria.
Com a vitória de Portugal no Campeonato da Europa de 2016, o imaginário pessoano foi recuperado e podemos de novo cantar, «Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal!» Porque em cada canto do mundo onde há portugueses ou onde a cultura portuguesa significa alguma coisa, derramaram-se lágrimas de felicidade, lágrimas há muito contidas e que serão recordadas para todo o sempre. Quem viveu o 10 de julho jamais o esquecerá. E a maré encheu com as lágrimas salgadas de Portugal.
Quase não tenho palavras para a imagem fortíssima que foi ver Xanana Gusmão, um dos heróis do Portugal moderno, que dá novos mundos ao mundo e defende a liberdade e os direitos humanos, em Dili, sentado na janela de um automóvel a celebrar os heróis de Saint-Denis. O mesmo Xanana a quem tive oportunidade de oferecer, nas faldas do monte Ramelau em Timor-Leste, um emblema de ouro de A BOLA e que me disse: «A BOLA é um grande jornal, representou sempre muito para nós.»
Além deste turbilhão de emoções, confesso que foi com agrado que acabei de ler as edições de terça-feira do L'Équipe, do France Football e do Le Monde. Em todos eles, a contragosto, como se lhes estivessem a arrancar a pele, encontramos o reconhecimento ao mérito de Portugal, à excelência da liderança de Fernando Santos (sublime o artigo de António Bagão Félix, que já li, e que se encontra na página dois desta edição), ao primado da ideia que sempre balizou o percurso da turma das quinas e à liderança de Cristiano Ronaldo, a inspiração de um um grupo que, noutros tempos, valeria, por certo, um Canto d'Os Lusíadas."

José Manuel Delgado, in A Bola

A taça e as traças

"Entre as ridicularias de alguns opinadores, bloggers e outros adeptos franceses com as suas 'dégueulasses' (faz mais sentido, já agora, traduzir esta palavra por 'perverso' ou 'sujo', do que insistir no 'nojento'), as suas petições para a repetição da final (o jogo tem sido reproduzido nas televisões e Portugal ganha sempre...), as suas comichões homofóbicas ou as suas azias mal disfarçadas - e o tempo perdido por muitos portugueses a indignar-se e a responder (alguns na mesma moeda...) a estas opiniões ignorantes e retardadas, nem sei dizer quem faz a figura pior. A Selecção Nacional é campeã europeia com todo o mérito, desde logo porque ninguém ganha uma competição destas sem o ter, e ponto final. Só isso interessa. O resto são 'fait-divers'.
O futebol da Selecção não teve 'nota artística', mas teve 'nota técnica' e 'nota táctica', sobretudo esta última. Portugal defendeu muito? Sim, mas também atacou muito. Aliás, o grande mérito desta equipa foi saber defender com todos e atacar com todos. Ninguém se limitou a lutar pela sobrevivência. Houve paciência e concentração para deixar os adversários subir no terreno, não lhes dar espaço de (grande) manobra e roubar-lhes a bola para iniciar o contragolpe. A táctica resultou, porque todos a souberam interpretar bem e foram eficazes na hora das decisões.
Não foi melhor, nem pior. Foi diferente o jogo português. Pragmático e cínico, sim. E qual é o mal? É deixá-los falar. A taça está cá e as traças ficaram lá."

Santos, Ronaldo & associados

"A Selecção Nacional é campeã da Europa de futebol porque tem uma identidade muito própria. Com Fernando Santos sabemos quem somos: uma equipa organizada e disciplinada, com sentido estratégico e talento colectivo. Depois, Fernando Santos é daqueles treinadores que conta com a estima, o respeito e a admiração dos seus jogadores - aliás, nunca vi Cristiano Ronaldo elogiar tanto um treinador como o faz com ele. Fernando Santos sabe de futebol - atente-se na sua visão no momentos das três substituições na final com a França, o que evidencia sabedoria - e sabe ser líder. Atente-se na sua gestão ao longo de todo o percurso que encerrou com o título europeu, confirmando aí que a nossa equipa tem um líder e tem um rumo, um líder que sabe transcender-se nos momentos mais difíceis - e como eles foram tantos durante toda esta nobre competição.
A Selecção Nacional chegou ao título europeu porque provou, em cada um dos seus jogos, que temos uma equipa segura. Uma equipa que entende o jogo de forma a que nada a surpreenda e que tem um treinador que tem a rara capacidade de preparar atletas que se lideram a si próprios nos momentos de alta pressão, como se viu ainda na final de domingo, e sobretudo depois da saída de Cristiano Ronaldo um líder natural, especialmente pela capacidade de contagiar os outros, mas também porque é um líder moral ao influenciar as atitudes dos seus colegas. Mas de Cristiano Ronaldo deve ainda dizer-se que é também o líder do espectáculo e do 'perfume' que, com os anos, se tornou também um líder de comportamentos. O que só lhe fica bem.
Nestes momentos de orgulho nacional, uma palavra para os outros 22 jogadores que souberam formar uma equipa de hábitos e intencionalidades, que souberam ser solidários e eficazes nas suas tarefas; e é por tudo isto e por nada disto que temos Selecção, uma Selecção que foi modelada por Fernando Santos e pensada por Fernando Gomes, que nos enche de orgulho, e isso é que é importante, num país que bem precisava deste colinho tão bom, mas que dispensava ainda mais o aproveitamento de alguns, afinal, o aproveitamento dos do costume."

Mundial é um objectivo obrigatório

"O estatuto que Portugal passou a ostentar após a memorável jornada do Stade de France não lhe permite outra coisa que não seja assumir, quando chegar a hora certa, o objectivo de lutar pelo próximo Campeonato do Mundo, na Rússia. É um desafio gigantesco, o maior de todos, mas o campeão europeu não pode ficar de fora da lista de candidatos. Não há pressas nem angústias porque o momento é para desfrutar e também porque 2018 ainda vem longe. Pelo caminho há muito a fazer e o primeiro passo de todos - assim que a euforia acalmar e for altura de voltar a arregaçar as mangas - será confirmar a renovação de Fernando Santos. Depois disso, então sim, surgem duas etapas pré-Mundial. 1.ª: a qualificação para o próprio Campeonato do Mundo, obviamente. 2.ª: a primeira participação na Taça das Confederações, que decorrerá entre 17 de Julho e 2 de Julho de 2017.
Há uma base extraordinária para atacar os próximos dois anos, talvez os mais aliciantes e sedutores na longa vida da Selecção Nacional. Os mais velhos do onze que disputou a final de Paris são Pepe, José Fonte e Cristiano Ronaldo. E esses terão, no Mundial da Rússia, 35, 32 e 33 anos respectivamente. O caso do central do Real Madrid poderia ser o único a suscitar algumas dúvidas. Mas se Pepe é hoje, aos 33 anos, o melhor central do Mundo, então há boas razões para acreditar que em 2018 ainda será indiscutível. O mais fantástico de tudo, no entanto, é saber que aqueles que vão assegurar o futuro também já ajudam a garantir o presente. Sobre Renato Sanches já quase tudo se disse. Talvez só falte dizer que se tornou impossível fazer planos a longo prazo que não o incluam. Pensar que ainda há poucas semanas havia tanta gente ilustre a duvidar das condições do jovem médio para ser titular neste Europeu... Acontece aos melhores, claro."

Benfiquismo (CLX)

Taça Ibérica

Uma daquelas Taças oficiais...
organizada pela FPF e a RFEF...
entre o Campeão Português e o Campeão Espanhol,
que o Benfica venceu...
1984

Orgulho nacional

"Aprendi, ao longo da carreira, que para ser árbitro competente e imparcial, deveria ser o mais pragmático e racional possível, em campo. Embora as emoções estejam sempre presentes, estas devem ficar guardadas para o homem, para o amante do futebol que há em cada árbitro. Mas essa linha, a que separa essas realidades, é ténue. A capacidade de a traçar, sabendo que ela quase se confunde, é a que distingue o bom do excelente. Nesta ou em qualquer carreira.
É certo que seremos sempre o resultado da competência e do saber com as inerências emocionais, mas há profissões em que apenas a razão devia impor-se, deve decidir, com distanciamento das tentações que o coração tantas vezes nos tenta impingir. É assim na arbitragem como na advocacia, na magistratura, na medicina e em tantas áreas.
No domingo, o ex-árbitro Duarte Gomes torceu pelo seu colega inglês e equipa. Torceu para que ele fosse competente, para que tivesse noite feliz e para que soubesse encontrar a sorte. Torceu para que ele acertasse muito e para que não ficasse ligado ao resultado.
No mesmo domingo, o Duarte Gomes pai, filho, irmão, amigo e colega de muita gente, quis que Portugal vencesse. Quis que Portugal derrotasse a França, sem dó nem piedade. Quis que Portugal desse a chapada de luva branca que a humildade devia à prepotência. Quis que Portugal representasse a vitória dos oprimidos contra os opressores, da crença e do querer contra o chauvinismo e a arrogância. No domingo, o Duarte Gomes homem quis que Portugal vingasse derrotas do passado e que fosse campeão europeu. Conseguem compreender o dilema ao ver aquele jogo, enquanto trabalhava? A luta interior que foi analisar com a razão sem sucumbir aos desvarios da emoção? Era a arbitragem de uma das mais importantes finais desportivas do planeta, em que uma das equipas presentes era a Selecção de todos nós! Sabem uma coisa? Não foi tão difícil quanto imaginei. Foi até bem mais fácil do que supus. Quando os anos e a experiência ensinam a separar a razão do coração, tudo se torna mais fácil. E essa é uma dívida que jamais poderei pagar à arbitragem. Uma de muitas. 
Mas a história, por estes dias, não se escreve com páginas sobre árbitros. Não deve nem pode, aliás. Escreve-se pela brilhante etapa que uma geração ultrapassou em nome de um povo. Um povo que há muito merecia alegria assim, que lhe devolvesse a esperança e que lhe transmitisse mensagem: a de que quando a vontade é grande, não há obstáculo, dor ou medo que não se ultrapasse, que não se vença ou que não se supere.
Well done, boys. E obrigado..."

Duarte Gomes, in A Bola

Ronaldo: herói e mártir

"Quando Cristiano Ronaldo disse que queria vencer o Campeonato da Europa para dar uma prenda ao povo português terão sido poucos que lhe deram importância. Pelo contrário, foi criticado por estar a banhos em Ibiza quando os companheiros já trabalhavam no Jamor, sem se dar conta que acabara de triunfar na Liga dos Campeões com a camisola do Real Madrid. Ele e Pepe gozavam o descanso merecido e concedido pelo seleccionador. Confesso que também eu não me fixei nessa declaração que era o anúncio do momento encantador que estamos a viver. Classifiquei-a, na altura, como simples gesto de simpatia da parte de quem desfrutava a terceira Champions da carreira. Avaliei mal a situação, porém. Erro meu, por não ter levado em devida conta que Ronaldo é viciado em vitórias e em títulos e obstinado em conseguir sempre mais e melhor, revelando uma ambição sem limites na descoberta de patamares suficientemente elevados que lhe permitam tocar a perfeição.
Este foi o Europeu que Ronaldo quis oferecer a todos os portugueses e aquele em que muito se sacrificou para alcançar esse objectivo. Ultrapassada a barreira dos 30 anos, sentiu que, provavelmente, se lhe deparava a derradeira oportunidade de alcançar conquista de grande dimensão internacional pela Selecção. Se já era o melhor jogador do Mundo, a partir de agora deve ser visto também como o melhor capitão do Mundo, a extensão perfeita de um treinador junto do grupo de jogadores.

Ronaldo foi o guia, dentro e fora do campo. Foi o arquitecto da ponte de amizade que se estabeleceu entre a Selecção e a maravilhosa comunidade lusa em França. Foi o psicólogo que levantou o moral de companheiros em períodos críticos, como a história da grande penalidade apontada por Moutinho no jogo com a Polónia e o empurrão revitalizador ao esgotado Raphael Guerreiro, com a França. Foi amigo de todos nos treinos, com infinda disponibilidade para dar sorrisos, abraços e afectos. Na noite de domingo, ao lado do seleccionador, no banco de suplentes, foi sofredor e o braço direito de Fernando Santos na ajuda que lhe deu no envio de mensagens de confiança e de motivação para o interior do recinto de jogo.
Depois das lágrimas do capitão provocadas pela lesão e consequente saída de cena, depressa emergiu a tal força de acreditar que emprestou a esta equipa portuguesa uma solidez granítica na defesa dos seus interesses desportivos, além de contar com a comovente cumplicidade de milhares de portugueses e portuguesas, os quais viram o seu inestimável apoio recompensado quando Ronaldo ergueu o almejado troféu.

A nossa Selecção apresentou-se em Paris, não para estragar a festa dos franceses, mas sim para fazer a festa dos portugueses e para provar que apesar de ser um país pequeno em superfície é, confirmadamente, uma potência do futebol mundial. Estivessem os nossos governantes ao nível dos nossos futebolistas em talento, dedicação, garra e vontade de ganhar, de certeza que em Bruxelas olhariam para nós com mais respeito...
Ronaldo assumiu-se como líder e, além disso, foi o maior dos heróis. Pelo que jogou, apesar das pesadas consequências de temporada exigente, disputada ao mais alto nível e em cenários muitas vezes desfavoráveis, e pelo que representou na Selecção e no relacionamento com o povo. No entanto, pagou factura pesada pelo facto de ser a grande referência de Portugal.
Na conferência de imprensa da projecção do jogo, Didier Deschamps teve duas frases enigmáticas:
1. «Se existe plano anti-Ronaldo ninguém sabe a receita»;
2. «Neutralizar Ronaldo seria perfeito, mas reduzir a influência que tem na Selecção de Portugal já seria bom».
As palavras são dele e trago-as à colação sem qualquer intuito bacoco, mas não deixa de ser um raio de coincidência a entrada desabrida de Payet precisamente sobre o joelho mau de Ronaldo: o esquerdo. Não quero insinuar sequer que houve a intenção por parte do jogador francês de excluir o capitão português do palco do jogo em maca, de o transformar em mártir da arrogância gaulesa, mas acredito na intenção de entrada rijinha para provocar dor e inibição. Não significa que tenha sido assim, mas os treinadores que se dão ao trabalho de me lerem sabem que não estou a dar nenhuma novidade... Há quem recorra a esses estratagemas com a ideia de fragilizar o opositor.
Enfim, como prémio de consolação Payet aparece no primeiro lugar do barómetro da UEFA. Tenham paciência... O novo campeão da Europa é Portugal: Ronaldo quis, Santos acreditou e a obra nasceu."

Fernando Guerra, in A Bola

Obrigado, Bekim Balaj

"Há outro herói ignorado na história do primeiro título europeu de Portugal

Ontem, durante a inevitável viagem diária pelas redes sociais, reparei num agradecimento recorrente a Arnór Ingvi Traustason, o simpático médio que garantiu o triunfo da Islândia sobre a Áustria no último segundo da derradeira jornada da fase de grupos, atirando Portugal para o terceiro lugar e, com isso, afastando a Selecção Nacional dos tubarões. Claro que agora é fácil dizer que os tubarões não assustam ninguém, mas não fica mal o reconhecimento, até porque um tubarão por Europeu chega muito bem para encher barriga. Entretanto, e já agora que estamos em maré de agradecimentos, provavelmente faz mais sentido agradecer a Bekim Balaj. Quem? Bekim Balaj, o albanês que marcou o único golo do primeiro jogo da fase da apuramento para o Europeu. Graças a ele, Portugal perdeu contra a Albânia. Foi, aliás, o último jogo que perdeu: Fernando Gomes decidiu não esperar mais e chamou Fernando Santos, que trouxe com ele este realismo mágico que nos traz a todos com um sorriso pateta no rosto desde domingo à noite. Então cá fica: um muito obrigado a Bekim Balaj, onde quer que esteja."

terça-feira, 12 de julho de 2016

Portugal foi campeão 'sous le ciel de Paris'

"PARIS - Hoje é dia de apanhar o avião e regressar a Lisboa, 35 dias depois de ter partido rumo à aventura do Euro-2016. E que aventura! Saio de França com Portugal campeão da Europa, depois de ter tido o privilégio de ver ao vivo e a cores não só os sete jogos da turma das quinas mas também a vida, por dentro, do grupo liderado por Fernando Santos. Via história a ser escrita à frente dos meus olhos.
Sendo verdade que tudo está bem quando acaba bem, nem tudo foram rosas no seio da Selecção Nacional e depois do empate da Áustria muitas dúvidas foram levantadas. Lapidar a resposta, então, perante dificuldades, do seleccionador nacional: «Só vou dia 11 para Portugal e vou ser recebido em festa.»
Ontem, 11 de Julho, com o país feliz e ensonado, Fernando Santos teve a festa com que sonhou e fez sonhar Portugal. A convicção profunda do técnico, nacional nos seus jogadores foi a chave deste caminho vitorioso, com um discurso afirmativo, sem pedir desculpa a ninguém por achar que Portugal podia ser campeão da Europa. Confesso que quando o ouvi pela primeira vez dizer que era esse o objectivo que trazia para a FPF, pensei cá para os meus botões: «Ser possível é, já lá andámos perto; mas daí a consegui-lo são outros quinhentos.»
Foi preciso eliminarmos a Croácia para eu começar a acreditar que pelo menos era possível chegar à final. Mas, contactando diariamente com Fernando Santos, já tinha percebido a enorme força interior que o move e a forma fácil como chegava aos jogadores. E não que o técnico nacional conseguiu mesmo entrar na cabeça dos seus pupilos? E foi isso que fez toda a diferença. A partir do momento em que esta química entre treinador e jogadores funcionou, o céu passou a ser o limite... 
Acompanho a Selecção Nacional há quatro décadas, já vi coisas boas e coisas más, nas atitudes, na organização e na mentalidade. O esforço feito este ano foi notável - e estou em condição de fazer esta afirmação - e redundou num relacionamento mais humano com os adeptos, neste caso os militantes marcoussianos, e mais próximo (sem que ninguém ultrapassasse a linha do eticamente certo) com a comunicação social. Estas duas mudanças de atitude, só possíveis com um seleccionador que não viva atormentado por fantasmas, resultaram num clima desanuviado de que todos beneficiaram.
E se a Hungria tem feito 4-3 no último minuto, tudo isto que foi escrito teria alguma validade? A resposta é muito simples: em futebol não há ses...
Ao longo de mais de um mês em França, confesso que me diverti, sobretudo com as peripécias em torno do galo de Marcoussis, um exercício que mostra como a superstição tem sempre lugar numa actividade como o futebol sem que daí venha algum mal ao mundo. E o râguebi francês, dono do galo (que recebeu da FPF 20 mil euros por dia pela cedência de instalações), sempre pode dizer que foi graças as suas infraestruturas de excelência que Portugal se sagrou campeão europeu, embora isso não deva agradar muito à Federação Francesa de Futebol, que tem sede em Clairefontaine, não muito longe de Marcoussis (30 quilómetros, mais coisa menos coisa).
Sustos daqueles que não se desejam a ninguém, só apanhei um ao longo deste tempo todo. Foi em Lens, no dia do Croácia-Portugal, quando a polícia rebocou o carro de A BOLA, com os computadores bo porta bagagens. Confesso que aqueles minutos até perceber exactamente quanto tempo demoraria o processo burocrático para levantar a viatura do depósito, foram cruelmente longos. Mas lá conseguimos chegar a horas para o pontapé de saída e a mais do que tempo para assistir ao golo de Ricardo Quaresma, mesmo ao cair do pano.
Também posso dizer que saio de França com doutoramento em bouchons, ou seja, em engarrafamentos. O trânsito nas grandes cidades francesas - Lyon, Marselha e Paris - é horrível, não há outro adjectivo que o caracterize com maior rigor. E como fizemos mais de sete mil quilómetros durante estes dias, passámos horas infindáveis nas autoestradas, cujas áreas de serviço já conhecíamos de cor e salteado. No regresso de Marselha - são mais de 800 quilómetros até Paris - tivemos o azar da viagem coincidir com o primeiro dia de férias, o que tornou o trajecto uma loucura, entre autocaravanas e roulottes, que pareciam não ter fim.
Recordo que quando aqui cheguei a preocupação principal era a segurança e para muitas pessoas ligadas à organização a única questão em aberto era saber o dia em que o Euro-2016 sofreria um ataque. Receios infundados, por um lado; por outro, a segurança que envolveu o evento não foi nada de especial, excepção feita a Saint-Denis, onde os carros eram revistados antes de entrarem no parque e havia cães farejadores pelas salas de imprensa a farejar explosivos.
Anteontem, dia da final, a organização voltou a não estar à altura das circunstâncias. Faltou tudo, até a água era racionada, num exercício de mediocridade de quem passa a maior parte do tempo a pensar que é o suprassumo da barbatana. Enfim.
Aos episódios que tenho contado neste espaço, tinha mais um para acrescentar. Porém, o Fernando Urbano pediu-me para ser ele a narrar os factos, pelo que remeto para uma das páginas deste edição, uma história em que estupidez humana é bem retratada. 
Despeço-me, ainda sous le ciel de Paris, do Sous Le Ciel de Paris. Agora vou em gozo de merecidíssimas férias, regressando ao activo com novas crónicas a partir de Agosto, desta feita no Rio de Janeiro, onde estarei para os Jogos Olímpicos. Vão chamar-se «Brasil a ouro, a prata e bronze»"

José Manuel Delgado, in A Bola

Valores nacionais

"Três grandes lições podem ser retiradas da vitória portuguesa no Euro'2016. Os princípios não constituem qualquer novidade, é certo, mas, ou pela exposição excessiva de um outro protagonista, ou pela ânsia de se assistir a um espectáculo quase proibitivo nestas circunstâncias, nem sempre lhes é dado o devido valor.
Portugal provou, em primeiro lugar, que só um grande colectivo é capaz de conquistar uma competição deste nível. A Selecção é campeã da Europa porque conseguiu formar uma equipa tão forte que - e não há melhor exemplo - mesmo sem Cristiano Ronaldo derrotou a França, cujo favoritismo aumentou exponencialmente à passagem dos 25', quando o craque foi forçado a abandonar o campo.
O título europeu também só foi possível pelo trabalho extraordinário do seleccionador. Fernando Santos esteve irrepreensível em várias facetas. Formou um grupo coeso, ganhou a confiança cega dos jogadores e mostrou-se exímio em termos motivacionais e técnico-tácticos, em que preferiu a objectividade ao romantismo. A vitória sobre França, na final, só se tornou possível pela leitura de jogo do técnico português.
Não menos importante foi, por outro lado, a condição física dos jogadores, bem visível nas partidas disputadas no prolongamento. Enfim, um coletivo solidário, um seleccionador de várias valências e um staff técnico/médico competente construíram o campeão europeu."

Desabafos

"1. Vencer um Campeonato da Europa é um grande feito desportivo! Compromisso com objectivos consistentes, sacrifício e dedicação na tarefa, união verdadeira, capacidades bem aplicadas, humildade, liderança de gente competente. Poderia ser metáfora de Portugal, mas falta a última parte;
2. Fernando Santos revelou visão, espírito de missão, capacidade de gerir as pessoas antes dos atletas, entendimento da realidade à qual ia reagindo eficazmente. Valorizou a importância do grupo sem negar os talentos individuais. E afirmou a sua autêntica Crença Católica, culturalmente portuguesa, sem complexos perante o modismo idiota, sem fundamento filosófico, de negação da Fé;
3. Ronaldo foi jogador além do relvado, disposto ao sacrifício, dedicado ao projecto colectivo, líder na tarefa e na dimensão sócio-emocional. Afirmou-se feliz pelo treinador, Éder e restantes, sem egoísmos, ofereceu a Nani o troféu que recebeu. Que bom seria se os políticos o imitassem em vez de o bajular;
4. Os imigrantes estiveram sempre presentes. Afirmavam a sua identidade e valor nacional no estrangeiro para onde a gestão de séculos deste país os enviou. Sentiam-se parte de um projecto colectivo para que quiseram contribuir como podiam. Os sacrifícios são o seu quotidiano. Que poderiam fazer em Portugal se a sua alma e desejo de fazer fossem aproveitados? ...;
5. Uniram-se as claques dos clubes rivais! Afinal é possível cooperar por um valor superior. Exemplo para os Partidos? ...;
6. É bom ter o apoio do Poder político. Mas ele não consegue deixar de se pendurar nos holofotes dos vencedores... Seria elegante ficar calado nesse momento. Pauleta deu bofetada sem mão dizendo que não ia ao balneário porque era o momento dos jogadores. Mas ele é Campeão ...;
7. O senhor Presidente da República não se trata pelo nome numa entrevista! É o símbolo máximo do País. Pode aproximar-se das pessoas, mas elas devem manter o tratamento devido. Assim se vulgariza a autoridade e estimula o desrespeito."

Sidónio Serpa, in A Bola

A vitória do #qsf

"Duas frases que definem uma campanha vitoriosa

Há duas frases que marcam decisivamente a campanha da selecção no Euro2016. A primeira foi dita por Fernando Santos, ainda o apuramento ia a meio, e repetida em momentos complicados, como um refrão a lembrar o essencial: «Vai ser muito difícil alguém ganhar-nos».
Aquilo que para muitos soou a bazófia, ou excesso de confiança, foi simplesmente o assumir, descomplexado e com todas as letras, de uma inversão de valores históricos. Portugal, a selecção que desde 1966 partia do conceito universal de «jogar bem» para tentar ganhar os seus jogos, ia desta vez começar o edifício pela capacidade de não os perder, anulando os pontos fortes adversários.
Mesmo com oscilações pelo meio – erros defensivos com Islândia e Hungria tiraram alguma credibilidade ao anúncio - 14 jogos oficiais sem derrota (e nove vitórias pela margem mínima) permitem agora tirar a frase da gaveta das profecias e transformá-la em promessa cumprida. Mais uma, a juntar à dos prazos de regresso.


A segunda frase chave foi dita por Cristiano Ronaldo no já célebre apelo com que convenceu João Moutinho a bater um dos penáltis contra a Polónia. Depois do estímulo positivo («anda bater, tu bates bem!») veio, quase como um sacrilégio, a frase que olhava o medo de frente, o chamava pelo nome e o desvalorizava: «Se perdermos, que se f…!».
A fórmula de Ronaldo também revelava um drástico corte com o passado, na atitude da equipa e dos jogadores perante o grande pano de fundo que até aqui dominava todas as presenças em fases finais desde os anos 80: o receio algo provinciano de não agradar, de não estar à altura das circunstâncias e de alguma forma precipitar o regresso ao terceiro escalão e a décadas de ausência dos grandes palcos.
Rapidamente adoptada pelos utilizadores de redes sociais e transformada em hashtag (#qsf), a fórmula Ronaldo, dita naquele momento e naquele tom, só seria credível vinda de alguém com tantas fases finais (sete, no caso) nas pernas. Alguém que por entre tantas conquistas já se tinha cruzado na Selecção com quase todos os tipos de derrota possíveis, desde a agonia da final de 2004 às eliminações milimétricas de 2006 e 2012, até autênticos embaraços como os Mundiais de 2010 e 2014.
Em todas essas campanhas, com ou sem razões para isso, a Selecção continuava a ser avaliada em função da herança do belo jogo, que teve expoente em 2000. Podia ficar acima ou abaixo das expectativas, mas era uma equipa da qual se esperava espectáculo e que recolhia a simpatia dos neutrais como recompensa.
A formulação de Fernando Santos e o #qsf de Ronaldo assinalam, cada um a seu tempo, o momento em que, na cabeça dos seus líderes – e, portanto, na cabeça da equipa – Portugal rejeitou a simpatia e o medo, e assim deixou de ser o convidado de honra que abrilhantava os serões, em Europeus e Mundiais, para se tornar o sócio de pleno direito, sem medo de perder regalias e com total liberdade para chatear os vizinhos. E se em 2016 houve selecção capaz de ser orgulhosamente chata para com os vizinhos, essa selecção foi a portuguesa.
No fundo, esta conquista inédita, tão assente no passado como na sua rejeição, assinala a transformação final, o ponto de chegada de um trajecto iniciado no final dos anos 80, ainda com Carlos Queiroz como primeiro rosto. Só que todos os pontos de chegada são pontos de partida para outro lugar. É este o caminho a seguir? Quase de certeza que não: a vitória de Portugal no Euro 2016 passou muito por esta mudança de atitude, mas também por um conjunto de circunstâncias – algumas delas francamente felizes – que é quase impossível de repetir.
Além da inevitável renovação do grupo, que sempre acontece após as fases finais, muitas dessas circunstâncias chocam com o que é a cultura formadora de base, a identidade de jogo que começa a ser bebida nas idades mais baixas. E muitos dos conceitos postos em prática por esta selecção vencedora contradizem a lógica de um modelo coerente a ser aplicado em todas as selecções, numa altura em que os resultados na formação voltam a impressionar.
Mas ganhar o primeiro título internacional sénior é um pouco como perder uma espécie de virgindade: demasiado importante para se esperar que seja perfeito, nunca o é. Basta que seja suficientemente bom para haver uma outra vez. E outra. E depois outra. Sempre diferentes, sempre melhores. Citando Ronaldo, o resto #qsf."

Ganhar o Euro(milhões) com juros

"Um olhar sobre a conquista da Seleção, com base numa declaração do engenheiro do título

«Sou um crente, sou um homem que acredita em milagres, mas também em que é preciso que alguém faça alguma coisa para que aconteçam. Faz-me lembrar aquela história do homem que se queixava a Deus por nunca ganhar o totoloto, e Ele teve de intervir, dizendo-lhe que seria importante que ele fizesse alguma coisa por isso e que, pelo menos, registasse o boletim.»

A declaração de Fernando Santos, a três dias da conquista do título europeu, ilustra uma campanha em que a felicidade acompanhou o mérito mas não o ocultou. Não há campeões sem brilho, seja a trinta jornadas ou em sete jogos, por mais que a prestação lusa no Euro2016 tenha conciliado momentos sofríveis com apontamentos épicos.
Se na organização defensiva esteve a base da vitória – algo absolutamente legítimo -, em vários jogos a Selecção fez pouco com bola, tanto em ataque organizado como em transição. Sobretudo na fase de grupos, onde a margem de erro era maior, por força de um modelo competitivo que podia desinibir as equipas, mas que funcionou em sentido oposto com a grande maioria (e não apenas com Portugal).
O que estava em discussão não era tanto a estratégia delineada por Fernando Santos desde o primeiro dia, nem tão pouco a percentagem de posse de bola, mas sim a incapacidade revelada pela equipa no momento ofensivo, em várias etapas da competição. E apontar isto (de forma construtiva) é tão razoável quanto o oposto, quando não estamos a falar de uma ciência exacta. Até porque no futebol não se pode olhar apenas para o resultado e ignorar a forma, pois estaríamos a tirar ao jogo um conjunto de emoções para viver e um conjunto de circunstâncias para analisar. Nesse cenário utópico os adeptos ficariam em casa à espera do resultado final para então festejar ou reclamar, e os jornalistas elogiariam quem ganhou e apontariam sempre o dedo a quem perdeu.
Mas nada disto significa que o título tenha sido obra do acaso, até porque esta caminhada teve mais do que as hesitações frente à Islândia, a apatia da primeira parte com a Áustria ou a intranquilidade das contas com a Hungria.
Esta caminhada teve o «bis» de Jordão em Marselha. Teve o míssil de Figo, o cabeceamento inesquecível de João Pinto e a subtileza de Nuno Gomes na épica reviravolta com a Inglaterra. Teve a fezada de Ricardo a defender o penálti sem luvas, antes de bater David James dos onze metros. Teve Ronaldo a bater no peito com um «bis» que deixou a Holanda pelo chão.
Este título é de uma equipa que vai de Bento a Damas. De Vítor Baía a Quim. De Ricardo a Postiga. De Eduardo a Beto. De Rui Patrício a Adrien. De Fernando Cabrita a Fernando Santos, entre tantos outros nomes.
Este título foi conquistado diante da França, e em Paris. Com o melhor jogador remetido ao papel forçado de adjunto, na final, e com o golo da vitória assinado pelo nome mais discutido da convocatória. Este título foi épico, mas também muito merecido. O boletim foi registado e Portugal ganhou o Euro(milhões), com juros de 32 anos.
Que a euforia da conquista não passe a ideia de que esta é a única chave vencedora. E que o prémio seja investido de forma a que o sucesso do futebol português, que se pode medir de muitas formas, seja cada vez mais frequente."

Fernando Santos convenceu um país inteiro a abdicar do seu lado mais belo

"Foi quando desistimos do nosso futebol mais belo que fomos felizes.

Eu estava lá, e ainda é difícil de acreditar.
Escrevo ainda em França, com o eco das buzinas nos ouvidos, a caminho de Portugal. Estou a muitos quilómetros da festa que acredito que ainda se faz por aí, anda de boca em boca nas conversas e nos debates do dia. Não é todos os dias que um país se sagra campeão da Europa. E, para Portugal, esse foi apenas um, o de ontem.
Escrevo ainda a pensar como é que os deuses do futebol deixaram que uma ideia repetida várias vezes sem que tenha tornado verdade se concretizasse por fim. A ideia de que Portugal foi sempre candidato a alguma coisa.
Tivemos gerações fantásticas desde a década de 90 e ficámos sempre aquém. Faltou-nos sempre qualquer coisa. Sofremos com o chapéu de Poborski, e os penáltis de Zidane, o poder de salto de Charisteas, os misseis de Schweinsteiger. Perdemo-nos na pressa de Batta, na irreverência coreana, no crescimento do soccer. Desperdiçámos uma oportunidade única, entrámos em depressão com a nossa própria versão de Maracanazzo, que aparentemente calha a todos.

O contraste com o passado de artistas
Já jogámos muito à bola, enormidades. Fomos classe. Levados no pé direito de Rui Costa, nas arrancadas de Figo, nos ângulos desenhados por Paulo Sousa, nas certezas de Pauleta, nos pequenos monumentos levantados por um Nuno Gomes com uma vontade enorme, nos voos de João Pinto. Tivemos Bento, Baía, Damas. Fernando Couto, Jorge Costa, absorvemos o melhor do melhor entre os melhores Ricardo Carvalho. Vibrámos com Deco. Um Maniche imparável, que marcou um golo que apenas um estádio viu. Se alguém pestanejou… A garra de Conceição, as gincanas de Futre, a esperteza de Rui Barros. E falhámos, uma vez após outra, como sempre.
Fomos os melhores do mundo que jamais ganharam alguma coisa. E aprendemos a viver com isso. Tornou-se natural, normal. Até hoje.
Havia de jurar que ouço daqui os foguetes em Lisboa. A festa ainda em Paris. Sei que existem.
Jogar bem é estar mais perto de ganhar algo. É uma daquelas regras não escritas, mas com que toda a gente concorda. E foi quando menos bem jogámos – não acho que tenha sido nojento, mas andámos longe daquela ideia que nos aproximava do joga-bonito brasileiro – que ganhámos. Quando menos expectativas tínhamos, quanto mais parecíamos incapazes de marcar, de vencer jogos, a equipa portuguesa uniu-se em torno de si mesma e levou o caneco para casa. Com um jogo ganho em 90 minutos, dois no prolongamento e um nos penáltis. E três empates.

Convencer todos os jogadores foi o primeiro grande passo
Tivemos de ser um pouco Grécia e trocar a bola como se não houvesse balizas, à espera do momento certo. Do lado de fora desesperámos por passes de rotura, por um futebol de ataque continuado. Fernando Santos teve de convencer os jogadores que só dava assim: fechadinhos atrás, sem nunca se desequilibrarem, com a obrigação de começarem a aproveitar as oportunidades criadas. Fomos obcecados pelo controlo.
Teve de convencer Nani a aparecer nos espaços perto da baliza, a lutar pelo ar, Renato a não embalar e a sair curto, João Mário a ir muitas vezes sozinho. Quaresma a não sair em dribles e cruzamentos sem critério. André Gomes lutou corpo a corpo. Adrien focou-se primeiro no outro, do lado de lá, do que em si próprio e na bola. Moutinho só passou a aparecer nos momentos finais para aquele passe de morte. Todos eles acreditaram e foram enormes, incansáveis.
Fernando Santos ou o momento, ou ambos, foram responsáveis pela maior transformação de todas: Cristiano Ronaldo começou também a acreditar que era essa a única via. A olhar para o braço e ver lá finalmente a braçadeira. A chamar Moutinho para marcar penáltis, a voltar a coxear para o relvado para motivar Quaresma, a gritar que nem um Diego Simeone nos seus dias mais frenéticos, a apontar o caminho, a tomar decisões. Viram quem mandou Raphäel Guerreiro assumir o livre directo? Dou-vos uma pista: não foi o seleccionador. Vimo-lo festejar cada corte como um golo marcado por si, cada bola para o quintal, cada falta ganha a meio-campo. A coxear, depois de secar as lágrimas, fez a diferença. Foi enorme.

A felicidade premiou o trabalho
Claro que houve felicidade. O golo, tantas vezes repetido, da Islândia, nos descontos. Os três falhanços de Vida. A bola no poste de Gignac. Mas foi procurada até à exaustão pelos jogadores em todos os muitos minutos que jogaram. Uma atitude incrível. Uma confiança impressionante, que nem abanou quando Ronaldo saiu de maca do Stade de France. Uma confiança carregada às costas por Éder, o mais improvável dos heróis, aos 109 minutos.
O mérito de Fernando Santos é enorme. Até nessa decisão, inesperada, de lançar o avançado do Lille para o golo de uma carreira.
Confesso que faz-me alguma falta a magia de alguns craques de antigamente na Selecção. Aquele futebol rendilhado, de filigrana, apaixonante nas combinações e talento individual. Esta Selecção deixou de ser poesia, como se se tivesse apercebido de que ninguém pode subsistir apenas da vida de artista. É preciso foco, organização, concentração e sacrifício. É preciso que todos corram para o mesmo lado.
As novas gerações que aí vêm trarão ainda mais talento, e novas soluções. Portugal continuará forte, e pode crescer, mantendo estas chaves como base, e juntando-lhe, se possível, umas pitadas de magia.
No entanto, agora, o momento é outro. Façamos-lhes uma vénia. Merecem tudo. Foram enormes!
Não perdemos, Cristiano. Ganhámos! Querias acrescentar alguma coisa?"

Patrício, Pepe e Guerreiro: os mais consistentes de 23 heróis

"Portugal, Portugal, Portugal!
Nós somos campeões, campeões, campeões
Nós somos campeões!

E aqui estão eles:
Rui Patrício, Anthony Lopes, Eduardo;
Cédric, Vieirinha, Pepe, José Fonte, Ricardo Carvalho, Bruno Alves, Eliseu e Raphael Guerreiro;
Danilo, William Carvalho, Moutinho, Renato Sanches, André Gomes, Adrien e João Mário;
Quaresma, Ronaldo, Rafa, Nani, Éder.
São estes os nomes dos jogadores que ficam para a história.
Faço parte de outra geração mas, tal como eu, acredito que todos os jogadores, antigos e actuais, estão felizes com a conquista desta equipa. Eles fizeram história e ficam para a memória do futebol português como sendo os primeiros a conquistar um título europeu de futebol.
Sinto um orgulho enorme por estes atletas que elevaram o nome de Portugal bem alto. Atrás deles tinham um povo a apoiar, como foi visível em todos os jogos nos mais diversos locais do nosso país. 
Mas é impossível não referir o apoio que foi dado pelos nossos emigrantes no local de estagio em França, bem como em todos os dias e todos os jogos de Portugal neste Europeu. Foram extraordinários na presença constante, em todos os momentos e sem dúvida que foi para eles muito especial esta vitoria, a forma como a viveram e vão continuar a viver daqui em diante.
Esta aventura por terras gaulesas terminou da melhor forma com a consagração em Paris. Na final foram 120 minutos de emoção, de sacrifício, de sofrimento, mas tudo terminou com uma alegria enorme. O jogo teve de tudo, desde logo com a lesão de Ronaldo, com as grandes defesas do Rui Patrício, com oportunidades falhadas dos franceses, com a bola à trave de Raphael e a terminar com o golo de Éder, o herói improvável.
Uma coisa é certa: independentemente da pouca ou muita qualidade exibicional, da sorte e do azar em certos momentos, dos adversários que tivemos, a equipa trabalhou e lutou para merecer o titulo. Fomos uma equipa bem organizada defensivamente e isso foi importante para a conquista do titulo mas do ponto de vista individual uma nota para três jogadores – Rui Patrício, Pepe e Raphael Guerreiro que foram ao longo da prova os mais consistentes e de melhor rendimento.
Valemos pelo trabalho colectivo, solidário, pela entreajuda e pelo sacrifício em prol de um objectivo. E aí o papel do líder e treinador Fernando Santos foi determinante. O seleccionador acreditou desde a primeira hora na conquista do título e disso fez menção em todas as suas intervenções e fez acreditar os jogadores. O segredo esteve na capacidade de levar os jogadores a interpretar em cada jogo um plano estratégico diferente do que é normalmente habitual e a acreditar que dessa forma era possível. Deu resultado e estão todos de parabéns.
O país sofreu e vibrou e a alegria foi contagiante. A forma como a selecção foi recebida ontem em Lisboa é reveladora do sentimento e do orgulho que os portugueses tèm na sua selecção.
Fantástico!
Somos campeões europeus!
Obrigado!

P.S. Este último fim de semana foi também extraordinário para outros atletas. As medalhas de ouro da Sara Moreira, Patricia Mamona e as de bronze da Jessica Augusto e do Tsanko Arnaudov nos Europeus de atletismo são bons indicadores para a nossa presença olímpica em Agosto."

Benfiquismo (CLIX)

Guarda de Honra...

O texto que explica porque isto é mais que futebol: “É o maior feito desde a entrada na CEE”

"Um artigo do site norte-americano “Politico” passa em revista a final do Euro 2016, considerando que o “carácter português triunfou perante a fragilidade francesa” e afirmando que o se passou não deve ser encarado como um mero jogo de futebol mas antes como um “drama humano”
“Uma equipa tinha a vontade de vencer. A outra apenas um je ne sais quoi”. É deste modo que o site norte-americano “Politico” começa por descrever o jogo que ditou a vitória de Portugal sobre a França na final do Euro 2016, algo que considera mesmo ter sido “o maior feito de Portugal como nação desde o dia em que foi admitida na Comunidade Económica Europeia, em 1986”.

No artigo intitulado “O carácter português triunfou perante a fragilidade francesa”, o seu autor, Tunku Varadrajan, aconselha a que se preste a devida atenção à vitória portuguesa, pois a “modéstia do resultado” (1-0, após prolongamento) pode “obscurecer uma multiplicidade de coisas: drama, coragem, pujança, perversidade, resistência e determinação”.

“Em tempos como estes, em especial nas finais de grandes competições, é melhor não pensar do jogo como sendo apenas futebol, mas antes, como um mais amplo drama humano, um teste de carácter, e em todas as artes de sobrevivência e de penetração” que envolve, refere.

O autor do artigo considera que após Cristiano Ronaldo ter sido forçado a abandonar o jogo, por lesão, ao 25.º minuto, Portugal ficou na situação de uma “equipa órfã”. “Paradoxalmente”, esse acabou por corresponder ao momento a partir do qual os portugueses “cresceram em força”, enquanto a França, que “até então parecia invencível”, perdeu o gás, pois com a saída do capitão português ficou “sem fazer ideia de quem era agora o seu oponente”.

A equipa francesa não apresentou capacidade para fazer frente ao prolongamento, descreve ainda o artigo, pois “o desejo de ‘jogar bonito’ foi demasiado sufocante”. “Falharam na tentativa de furar a defesa oposta” e tiveram ainda de defrontar o “heróico Rui Patrício”, descrito como “uma personagem dos Lusíadas”.

Nesta análise do jogo, o modo como a selecção de Fernando Santos jogou é comparado com o nosso “estilo nacional e histórico”: “Sempre usaram os escassos recursos da terra de modo sábio, sagaz, esticando-os ao máximo. De outro modo, como poderia um pedaço de terra no extremo ocidental da Europa ter construído um império de tal magnitude? Há uma determinação, uma coragem defensiva, uma teimosia infatigável dos portugueses, que os serviu bem no império e os serviu bem no campo de futebol no domingo à noite”.

“Gostaríamos nós que cada equipa jogasse futebol do mesmo modo que os portugueses o fazem? Certamente que não. Mas gostaríamos nós que cada equipa quisesse tanto ganhar como quis Ronaldo e o seu grupo? Eu penso que sim, que gostaríamos. Quase de certeza que nós gostaríamos”, conclui Tunku Varadrajan."