"Apesar de o Benfica já ter começado a época há algumas semanas, só agora arrancou o campeonato e logo de uma forma inusitada: estádio vazio. Um estádio sem pessoas é como cozido à portuguesa sem enchidos, rock sem guitarras, arbitragem sem casos. A experiência é avassaladora, mas não é incomum. Aliás, ainda está na memória de muitos o que vivemos durante a pandemia ou nas penalizações a outros clubes. Ah, não? Bom, parece que, afinal, nisto fomos pioneiros. “Fazer o que não foi feito”, já diz o outro.
Deixemos, por uns momentos, a questão da justiça da pena para outras núpcias, mas creio que somos unânimes em considerar que a resposta do clube foi “aparentemente” tardia — digo que é uma questão de aparência porque um encontro daqueles não se faz de um dia para o outro —, mas deixou-nos a todos impressionados. Mais do que isso, confiantes de que, afinal, é possível receber sempre assim a nossa equipa no nosso estádio. Então, porque não o fazemos mais vezes? Esta é uma das respostas de um milhão de euros, e bem que precisamos do dinheiro para guarda-redes, centrais, laterais, patrões do meio-campo e mais uma posição ou outra.
O dia seguinte ao primeiro empate na nossa fortaleza — enquanto construção militar histórica que serve muitas vezes de ponto turístico, porque, defensivamente, já viveu melhores dias — trouxe-nos mil discussões: faltou golo, pragmatismo, criatividade, homem-golo, basculações, extremos assimétricos, liderança na defesa, Deus no comando. Faltou muita coisa, mesmo sabendo que até fizemos bastante em comparação com anos recentes.
Mas a minha tirada preferida foi que faltou “não misturar política e futebol”. Anos e anos a ver treinadores despedidos, jogadores dispensados, críticas a jornalistas e ataques a árbitros e, afinal, tudo se resolvia transformando o jogo de futebol num mundo asséptico. Mas cuidado com os puristas: o próximo passo é acabar com a bandalheira do cinema, do teatro ou da literatura com leituras políticas, que isso de ver significados e simbolismos em tudo o que vemos não lembra ao Diabo? Posso dizer Belzebu? Será politizar a Besta?
Voltemos então à vaca fria — o que eu deliro com expressões populares, juro. Porra, será isto uma forma de fazer política com a minha escrita? —, portanto, o grande problema do atual Sport Lisboa e Benfica é ter, entre os seus milhões de adeptos, sócios, apaixonados (e até alguns figurantes quando dá jeito), pessoas que têm crenças políticas e ousam levar para as proximidades do seu estádio uma bandeira com as cores de uma melancia.
Reparem: não foi o clube que, institucionalmente, decidiu apoiar um lado de uma das guerras mais mediáticas e problemáticas do último século; o que aconteceu é que um, dois (três, quatro?) adeptos levaram uma bandeira consigo para uma celebração do Benfica. Portanto, bandeiras da Ucrânia, Noruega, Espanha, Brasil, Turquia, Croácia, uni-vos, que na Luz não entram mais. E esqueçam equipamentos de outros clubes, cores ou a total ausência de referências ao nosso vermelho — exceto no nosso terceiro equipamento. A partir de agora, só há uma cor no nosso clube: o vermelho e branco.
O que me levou a este desabafo foi a admiração por ver tantas pessoas a confundirem política com partidarismo. Há política em todo o lado. Juntar-se com uns amigos e fundar o melhor clube do mundo é uma decisão política. Sim, o associativismo é uma forma de fazer política porque é um dos expoentes máximos da ideia de comunidade e de fazer algo que não nos serve só a nós, mas a muitos outros para além dos nossos tempos.
Eu sei que pode ser um pouco mind-blowing, contudo, sejam fortes, que o automóvel ainda não parou e as surpresas não ficam por aqui.
Ninguém duvida de que a História é uma ciência social que tem sofrido bastante ao longo dos anos, passando do desprezo à tentativa de controlo e reescrita, da desvalorização dos historiadores à criação de especialistas feitos na internet. Não desvalorizemos o poder das plataformas e dos diferentes formatos: eles permitem chegar a mais pessoas, mas temos de ser curadores e críticos.
Não há volta a dar: também na História há muitas histórias por contar ou mal contadas. Faço este preâmbulo para lançar um convite: investiguem e leiam mais sobre a história do nosso clube. Ela é extensa, preenchida e pedagógica. Temos lá vários exemplos de como podemos e devemos ser mais pessoas. E há algo comum a quase todos os momentos: ser do Benfica é fazer política.
A bibliografia sobre clubes e identidade tem crescido muito nos últimos anos, por isso pego numa questão transversal a muitos deles: o que nos faz ser do clube X são as vitórias ou os seus valores?
Encontrar a resposta a esta dúvida pode trazer bastante tranquilidade a cada um de nós. Veja-se: se formos de um clube “grande” e tendencialmente vitorioso, é fácil saber se estamos num bom momento: estamos a ganhar? Se formos de um clube onde os nossos valores são a essência, então a pergunta deverá ser: continuamos fiéis aos nossos princípios?
Atenção: esta matriz identitária pode ser tão lata como aspetos geográficos, religiosos, sociais, etc. No fundo, quase sempre política.
Por isso, quando pensamos no que o Sport Lisboa e Benfica é para cada um de nós, também temos de responder a esta questão. Vitórias ou valores? Eventualmente, os dois. Sendo que não existe uma resposta correta, mas existe a adequação à mesma e a gestão de expectativas conforme a escolha.
E chegamos então ao átrio do Estádio ou ao cerne da questão: qual é o problema de ter uma bandeira bem no meio das celebrações populares e orgânicas dos adeptos de um clube?
Porque, se um adepto isolado representa um clube, então, meus caros, temos um grave problema. Porque temos racistas, xenófobos, agressores de mulheres, mas também anarquistas, liberais, ecologistas, socialistas, até vegetarianos, e representam-se apenas a si próprios (a menos que estejam equipados ou em funções de representação oficial).
E pluribus unum. O Sport Lisboa e Benfica faz-se de muitos. E isso significa respeitar as diferentes mundivisões dos seus sócios e adeptos, mesmo quando nos custa. Claro que temos direito a opinar que a pessoa X não me representa, que não gosto de a ver como adepta do meu clube, etc. Já o fiz e senti.
Mas o que não devemos fazer é pedir ao clube para impedir essas pessoas de celebrarem o clube, a menos que o façam de uma forma institucional e que os valores defendidos sejam contrários aos do clube.
Porque a derradeira oferenda do Benfica aos seus deve ser esta: a capacidade de aceitar o diferente, sobretudo quando ele está ao nosso lado na bancada."

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