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Cristiano Ronaldo no labirinto do ego


"Há um momento inevitável dos predestinados em que o passado deixa de conseguir resgatar o presente. Do lado de fora da Seleção, o capitão já não é indiscutível. Faltará bom senso dentro

Talvez seja a primeira vez que a ideia dos adeptos coincide com a dos jornalistas no que diz respeito a Cristiano Ronaldo e à Seleção Nacional. Embora sejam apenas sondagens feitas em ambiente digital, a verdade é que tanto uns como outros já parecem sentir-se preparados para abdicar do capitão na equipa inicial de Portugal. A imagem que Ronaldo tem apresentado em campo, sobretudo nos momentos em que era forte, ou seja na finalização, baixou dos mínimos olímpicos e justifica, para ambos, uma alteração que a análise mais aprofundada dos jogos já defendia há meses. Talvez anos. Ou seja, CR7 terá ultrapassado finalmente o limite de tolerância, esticado pelo natural sentimento de gratidão, da maior parte das pessoas.
É tudo muito bonito, mas não acredito que Roberto Martínez deixe agora cair o capitão. Foi contratado precisamente para que isso não acontecesse e não acontecerá após apenas um jogo nas Américas. A teimosia ainda tem defesa possível, na sua perspetiva. Não, o nome de Ronaldo só será riscado do onze titular se o espanhol entrar em modo de sobrevivência, tal como aconteceu no Qatar, quando ao terceiro jogo trocou finalmente um Eden Hazard, também capitão, que se arrastava na Bélgica, por Dries Mertens. Foi o melhor jogo dos Diabos Vermelhos, mas mesmo assim não conseguiram melhor do que um nulo diante da Croácia, que resultou na mais do que justificada eliminação.
Cristiano começará, sim ou sim, o encontro com o Uzbequistão. À hora do fecho desta edição, o que sabemos é que o jogador que fará a antevisão à partida não será aquele que tantas vezes foi tema ao longo dos últimos dias. Aquele que, sem qualquer provocação, reagiu mal a perguntas na zona mista. Alguém que acham que já não está a ser útil à equipa. Que usa a braçadeira — porque ser capitão é outra coisa — há muitos anos sem que seja o melhor exemplo para os colegas. Que deveria ter dado a cara, mesmo que Rúben Dias e Diogo Dalot tenham feito o seu papel o melhor possível, eles que nem um minuto somaram no infeliz empate com os africanos. Ainda que se enganem quando acham que os portugueses estão contra eles. É precisamente o contrário. Não há português que não queira vê-los triunfar. Só que não é só questão de fé.
Cristiano joga por ele. Já Messi, por exemplo, joga pelos outros, que jogam por ele. Os egos serão do mesmo tamanho, mas o argentino sabe, há anos, que não se consegue manter no topo sozinho."

Os lesados de Roberto Martínez


"Roberto Martínez nunca devia ter sido o selecionador nacional.
Fernando Gomes, então presidente da Federação Portuguesa de Futebol, estava no auge do seu poder e influência e não houve quem questionasse publicamente tão bizarra escolha. Sem cair em exageros, há uns 30 treinadores portugueses melhores do que ele.
Em janeiro de 2023, Fernando Gomes, na apresentação de Roberto Martínez, revelou a razão para Fernando Santos não continuar: «Depois de um Mundial em que sentimos que poderíamos ter ido mais longe (...) Portugal pode e deve estar sempre nas decisões de grandes competições, e isso significa, pelo menos, aceder às meias-finais.»
A indústria do futebol foi a única que não se deixou contaminar pelas ideias de igualdade, diversidade ou agenda verde. A meritocracia é o critério único.
A melhor equipa que tinha treinado tinha sido o Everton. Vencera uma Taça de Inglaterra e um campeonato da terceira divisão inglesa.
O rei vai nu. No conto de Hans Christian Andersen, publicado há quase 200 anos, dois vigaristas convencem o rei que iam fazer o melhor fato do mundo e que seria invisível aos ignorantes. O desfile começou e todos elogiavam, até uma jovem criança gritar que o rei ia nu e todos perceberem o logro. Em Portugal, a criança tinha sido evacuada.
Pedro Proença manteve o objetivo. Desde o jogo com a RD Congo, expôs-se a apoiar Roberto Martínez, quando a não responsabilidade na contratação aconselhava prudência e distância.
No futebol, a culpa nunca morre solteira — é sempre do treinador.
O treinador é, de longe, o elemento mais importante numa equipa de futebol. A decisão mais importante do presidente é a sua escolha.
Na qualificação para o Mundial já houve uma tremedeira no fim. Não se ganhou à Hungria em Alvalade (2-2), pelo que o jogo com a Irlanda, em Dublin, foi a segunda oportunidade para nos qualificarmos — perdemos 0-2. No último jogo, no Dragão, com a Arménia, ganhamos 9-1, em pressão máxima. Porque é que em Portugal se faz sempre tudo no último dia? Porque no dia seguinte já não é possível.
Com a divulgação dos 26 jogadores escolhidos, a escandalosa não convocatória de Palhinha, mas também com a incompreensível ausência de Ricardo Horta e a presença de quatro laterais-direitos na lista, surgiram as primeiras críticas públicas.
A ideia de Martínez foi ter dois grupos de jogadores, um para jogar e outro para fazer número (de cara alegre).
A matilha digital, depois do primeiro jogo, dedicou-se ao linchamento dos jogadores. Até a ida à praia foi um tema central, facto surpreendente para quem almoça esporadicamente na Costa de Caparica e vê, quase sempre, jogadores a darem um mergulho em vésperas de jogos decisivos — que ganham.
Fosse o selecionador Jorge Jesus, José Mourinho ou Sérgio Conceição, as teorias da conspiração não existiriam. Mesmo com Martínez, não têm razão de ser. É ele quem toma estas estranhas decisões — por exemplo, preferir Rafael Leão contra uma defesa fechada em vez de Trincão, que marca golos e fura numa área defendida por dez adversários.
Soubesse a RD Congo contra-atacar e tínhamos perdido.
Se é fácil jogar a fase de qualificação, quando os jogadores chegam a voar das melhores equipas do mundo, será Martínez capaz de preparar uma competição em que o treino é da exclusiva responsabilidade da sua equipa técnica?
Este jogo morno que nos exaspera é uma opção ou manifestação de incapacidade? Um dia, vai haver uma alteração às regras penalizando a interminável posse de bola em zonas mortas do campo, como fizeram desportos como o basquetebol e o andebol.
Não há um português que considere que Cristiano não tem lugar na Seleção. Dividimo-nos apenas em relação à sua utilização e só Martínez acha que deve jogar os 90 minutos.

João Neves e Tomás Araújo
João Neves foi o melhor com a RD Congo e Tomás Araújo assumiu responsabilidades alheias. João Neves não é o típico português, porque está sempre com ar de bem disposto.
Saiu muito jovem de casa dos pais no Algarve e foi viver para a academia do Benfica no Seixal. Sofreu com a morte da mãe. Sempre a correr e sempre com um sorriso.
Em 1988, assisti a um jogo do campeonato no antigo Estádio das Antas. Shéu, o capitão do Benfica, fazia nesse dia o seu último jogo na carreira. Foi substituído e todos os adeptos do FC Porto se levantaram e aplaudiram. Com João Neves, seria igual, não há quem não goste muito dele.
Com 22 anos, já ganhou duas Champions e três campeonatos nacionais. Na Liga das Nações, depois de ganhar a primeira Champions com o PSG, sem qualquer queixume, jogou a lateral-direito.
Tomás Araújo fez com Renato Veiga uma improvável dupla de centrais no primeiro jogo do Mundial. Juntos, tinham 18 internacionalizações no total e uma média de 23 anos.
No Mundial de 2022 e no Europeu de 2024, os três principais centrais foram Pepe, Rúben Dias e Danilo Pereira. Em 2022, tinham uma média de 31 anos e 77 internacionalizações; no Euro-2024, 33 anos e 89 internacionalizações.
Portugal defende os cantos de uma forma inconcebível, com poucos jogadores na área. O jovem Tomás Araújo, assumindo corajosamente responsabilidades que não foram dele, protegeu a equipa técnica e Diogo Costa (o cabeceamento é na pequena área).

Padre António Vieira
«Nós somos o que fazemos», dizia o Padre António Vieira. Portugal vai ganhar ao Uzbequistão mas dificilmente ganhará o Mundial.
Só perdermos, se privarmos as crianças da alegria de viver um Mundial — com ou sem cromos. Se não correr bem desportivamente, a culpa será do selecionador. Felizmente, foi sempre assim e sempre será. Para tristezas, já basta o mundo em que vivemos."

O elogio ao erro


"É comum dizer-se que o erro faz parte do processo de evolução. Acredito muito nisso, tanto na vida como no futebol.
A meio da segunda ronda de jogos dos grupos, é possível identificar algumas seleções que, após uma entrada menos positiva no Mundial 2026, identificaram os erros cometidos, analisaram-nos, reconheceram-nos e decidiram promover alterações com impacto direto e positivo nas suas performances.
A Espanha mudou substancialmente de um jogo para o outro. Depois do surpreendente empate frente a Cabo Verde, Luis De La Fuente percebeu que jogar sem extremos que garantissem largura, profundidade e capacidade ofensiva no um para um havia sido um erro.
Bastaram quatro alterações para que o momento ofensivo espanhol voltasse a ter fluidez, agressividade e acutilância ofensiva. Pedro Porro, Dani Olmo e Lamine Yamal sobre a meia direita estiveram em sintonia, garantindo dinamismo e eficácia. Baena sobre a esquerda foi multifacetado o suficiente para saber quando teria de ser extremo, segundo avançado ou quarto médio quando a Espanha atacava.
O 4-0 final sobre a Arábia Saudita mostra-nos que a exibição frente a Cabo Verde poderia ter sido outra. Mas também nos mostra o reconhecimento do erro e a capacidade para encontrar soluções para o mesmo.
Ronald Koeman viu fugir dois pontos frente ao Japão depois de uma exibição pouco inspirada do ponto de vista coletivo, na qual foi evidente a falta de mentalidade competitiva para segurar a vantagem com bola e impedir o assédio nipónico.
Ao contrário do homólogo espanhol, Koeman não promoveu uma revolução tática no onze inicial. Mexeu apenas no centro do ataque, o suficiente para que o coletivo funcionasse melhor.
Com Brian Brobbey na posição 9, os Países Baixos passaram a ter quem segurasse a bola e ligasse o jogo com os médios e extremos. Tão ou mais importante do que isso, contou com Donyell Malen sobre a direita na primeira parte.
O avançado da Roma não marcou, mas soube preencher os espaços em corredor central, juntando-se a Brobbey, permitindo a Cody Gakpo, sobre a esquerda, ter mais liberdade de movimentos e um raio de ação mais alargado.
Koeman sentiu ainda que podia acrescentar algo mais e, ao intervalo, lançou Crysencio Summerville para o lugar de Mallen, dando mais imprevisibilidade ao ataque holandês.
O 5-1 sobre a Suécia diz-nos que os Países Baixos não só melhoraram de um jogo para o outro como ainda melhoraram dentro do próprio jogo. Sinal claro de humildade, inteligência e liderança por parte do seu selecionador."

O milagre por fazer depois do já feito


"Por causa de Rangnick, lembrei-me de Bielsa. De Maslov. De Wolfgang Frank. De Rappan. De Jimmy Hogan. Não Hagan, Hogan! Todos eles estão nas melhores equipas da história mesmo que não tenham ganho assim tanto com as suas.
O alemão acabou com o líbero na terra do líbero, avançou para a marcação à zona, para a linha defensiva subida e para a pressão feroz. O melhor que ganhou no país em que nasceu foi a Taça e a Taça da Liga, contudo, o seu futebol espalhou-se como um vírus e abraçou também a Áustria. O vírus e ele, agora, depois de ter sido considerado alguém banal em Old Trafford.
Maslov viveu em Lobanovskiy, Frank em Klopp e no 'gegenpressing' e Rappan em Helenio Herrera. Sem Hogan não teria havido a Wunderteam austríaca de Sindelar ou a Aranycsapat húngara, com os míticos magiares Puskás, Czibor, Kocsis e Bozsik. Sem ele, os cafés de Budapeste e Viena não teriam discutido o futebol tão apaixonadamente ao ponto de acharem que podiam desafiar a Mother of Football.
El Loco é um dos maiores influenciadores que o jogo já teve. Há Cruijff, mas o neerlandês deixaria sempre discípulos porque ganhou. O argentino fez carreira no seu país e, apesar de ser amado por quase todos nós, ganhou muito pouco fora dele. Ele, talvez o primeiro a não escolher entre o romantismo de Menotti e o pragmatismo de Bilardo, tornando-se uma síntese dos dois, está nos modelos de Guardiola, Simeone, Pochettino, Tata Martino, Berizzo, Sampaoli, Gallardo, e mesmo Nagelsmann e Tuchel.
A garra charrúa e o bielsismo pareciam mesmo feitos um para o outro. Porque o modelo de Marcelo é feito de energia e os uruguaios fazem dela a base do seu jogo há muitos anos. No entanto, o Mundial não corre como o esperado. São dois empates, diante de Cabo Verde e Arábia Saudita, e o risco da eliminação presente no último jogo diante da Espanha. É uma Celeste Olímpica sem Suárez e Cavani, com Darwin em baixa e um ala como guia. Nem Bielsa faz milagres! Ou fará? Precisa mesmo?"

Simpatia natural ou ‘gorjetadependente’?


"HOUSTON - Gorjetadependente: a palavra pode não constar nos dicionários da Porto Editora, mas devia. Nos Estados Unidos, ela resume toda uma engrenagem social. Aterrar no Mundial de 2026 é, para um português, levar com um choque cultural em várias frentes, mas nenhuma magoa tanto a carteira — ou a nossa sensibilidade europeia — como a cultura da gorjeta, o omnipresente tip.
Por cá, a linha que separa a simpatia genuína do interesse financeiro é tão ténue que quase se apaga. E nós, portugueses, criados no hábito de deixar as moedas pretas ou de arredondar a conta em jeito de mera cortesia, estamos profundamente mal habituados.
A realidade nua e crua do mercado laboral americano rapidamente nos põe na linha. Nos balcões e mesas dos restaurantes, os empregados de mesa recebem salários base miseráveis, que rondam frequentemente os 2 dólares por hora — uns ridículos 1,85 euros.
O ordenado mínimo garantido por lei simplesmente não se aplica da mesma forma a quem recebe gratificações. Sem a gorjeta, esta gente não consegue, literalmente, sobreviver. O cliente não está a dar um extra; está, na verdade, a pagar diretamente o salário de quem o serve. Por isso, o sistema é agressivo. Qualquer valor abaixo dos 20% é visto como uma afronta, um atestado de incompetência ou um insulto pessoal. Se o serviço foi terrível, a penalização máxima aceitável são os 15%. Menos do que isso é declaração de guerra.
Nós aprendemos a lição da pior maneira, logo no primeiro jantar em Palm Beach. Ignorantes da pressão social do terminal de pagamento digital, cometemos o sacrilégio de clicar no botão de «0% tip». O ambiente congelou no segundo seguinte.
A expressão e o discurso da funcionária, que até aí transbordava de uma simpatia quase maternal, mudaram para o plano oposto numa fração de segundo. O sorriso deu lugar a um esgar de desespero e raiva contida: «Como é que vou alimentar os meus filhos?», atirou, sem filtros.
A fatura, outrora entregue com vénias, voltou para trás completamente amarrotada e foi literalmente atirada para cima da nossa mesa, num misto de humilhação e revolta. Foi um banho de realidade. Percebemos ali que a simpatia americana não é necessariamente falsa, mas é, por força das circunstâncias, é, por vezes, altamente dependente do desfecho financeiro.
Em Roma sê romano, na Florida ou no Texas paga o que deves. Desde esse dia, o dedo no ecrã já não hesita: os 20% já fazem parte do custo de cobertura deste Mundial. Coisas culturais."