Últimas indefectivações
quarta-feira, 10 de janeiro de 2024
Tocar primeiro na bola e depois atingir o adversário é falta?
"Tocar primeiro na bola e depois atingir o pé/perna do adversário.
Quantas vezes já vimos lances assim, sem percebermos bem quando é que há e quando é que não há infração? Quando é que o árbitro deve sancionar e quando é que deve deixar seguir o jogo?
E o que dizem as leis de jogo? Estes lances estão previstos nas regras?
Já lá vamos.
Primeiro e só para nos situarmos, alguns exemplos de situações ocorridas esta época:
1 - SC Braga-Vitória de Guimarães (74')
Vítor Carvalho, na sua área, tocou na bola, atingindo depois o pé de Jota (pisão evidente). A equipa de arbitragem nada assinalou.
2 - SC Braga-Benfica (75')
Lance na zona do meio-campo: Peter Musa tocou na bola e atingiu depois o pé de José Fonte, lesionando-o. O árbitro entendeu que a infração foi do central bracarense e exibiu-lhe o cartão amarelo.
Duarte Gomes analisa a arbitragem do SC Braga-Benfica
Duarte Gomes analisa a arbitragem do SC Braga-Benfica
Excelente arbitragem (sem recurso ao VAR) de Luís Godinho
3 - Famalicão-Chaves (21')
Nathan, na sua área, desviou a bola e na sequência atingiu o pé de Rúben Ribeiro. O árbitro assinalou pontapé de penálti, após intervenção do VAR.
Três situações 'tecnicamente semelhantes', três decisões distintas.
O meu contributo:
- Importa perceber, em primeiro lugar, que estes lances não estão objetivados nas leis de jogo. Não há nenhuma regra que explique factualmente como devem ser avaliados ou decididos.
O árbitro tem a missão ingrata (que ele próprio dispensava) de interpretar cada caso e atuar em função de algumas "ferramentas" que resultam do espírito da lei.
Por partes.
A Lei 12 refere que o contacto físico faltoso tem que ser imprudente, negligente ou praticado com força excessiva.
Se não corresponder a nenhuma dessas três premissas, é legal.
As infrações cometidas com negligência ou força excessiva são geralmente mais fáceis de analisar, porque implicam respetivamente despreocupação na abordagem ao lance (com as consequências que podem surgir para a integridade física do adversário) ou o uso de força/intensidade extremas, muita acima do que a «dividida» pedia.
Nesses casos e para além da sanção técnica (pontapé-livre ou pontapé de penálti), a primeira é punida com cartão amarelo e a segunda com vermelho direto.
O problema é quase sempre percebermos quando é que o contacto é legal e quando é que é imprudente. Na prática, quando é que há e quando é que não lugar à infração.
E esse é também é, sublinhe-se, o maior dilema dos árbitros.
As regras sugerem que os contactos naturais acontecem geralmente de forma correta, acidental ou fortuita. Aqueles em que o jogador aborda o lance de forma totalmente legal e tudo o que acontece depois é inevitável. O atleta não faz nada «a mais» ou «acima» do que a intervenção pedia, disputa o lance legalmente, sem quaisquer culpas do que surja depois. Nesses casos, segue jogo.
Já a imprudência pune a «falta de cuidado ou de atenção» na abordagem: se um jogador entra de forma mais descuidada, se faz um carrinho de maneira algo desatenta, se não tem atenção na forma como se faz ao lance - mesmo que jogue antes a bola e não tenha intenção de atingir o adversário - tem que ser punido tecnicamente. É a sua imprudência que é castigada.
Agora peguem nestes dois conceitos e coloquem-nos em campo, na prática. Tentem, por exemplo, aplicá-los aos exemplos dados acima.
Não é fácil, pois não?
A verdade é que nunca haverá consenso nesta matéria, nem entre os próprios árbitros nem entre comentadores de arbitragem, nem sequer entre quem os avalia e classifica. Obviamente que nunca haverá consensos também em quem, cá fora, olha para o lance na expetativa que seja (ou não) sancionado.
A menos que a abordagem seja notoriamente desmedida, será sempre difícil garantir quando é que um jogador que toca primeiro na bola, comete depois infração sobre o seu adversário.
Um dos truques que pode ajudar a percebermos melhor estes lances, é perguntarmos a nós próprios:
- Será que o que aconteceu após o toque na bola foi absolutamente inevitável? O jogador que a tocou não tinha como evitar o contacto posterior? O seu pé teve mesmo que «aterrar» naquela zona, onde por azar estava o pé do adversário? Nada podia ser feito para evitar aquela consequência?
- Ou, por outro lado, a sua abordagem foi descuidada? Ele de algum modo «pôs-se a jeito» ao dividir o lance de forma tão desatenta? O contacto posterior era evitável daquela forma? Houve descuido?
Se entenderem que a situação responde às primeiras questões, não há infração. Se acharem que responde às últimas, há.
Dica adicional
- Bom senso, sensibilidade e ótimo conhecimento técnico e tático do jogo (e dos jogadores) ajuda a decidir de forma mais justa este tipo de lances.
Quando um árbitro percebe mesmo de bola, quando sente o jogo e lê bem o seu contexto, o momento e forma como o contacto acontece, a maneira como surge... é quase sempre mais fácil acertar.
Mas não se esqueçam, em tudo o que não for cristalino e factual, não há Maradonas. Não na arbitragem."
Exemplo norueguês
"1. Fredrik Aursnes é o exemplo de jogador que chegou a esta casa e logo conquistou o coração dos adeptos. Aterrou pela primeira vez em Lisboa classificado pela imprensa de especialidade como um jogador, enfim... um jogador-que-não-se-sabia-muito-bem-o-vinha-para-cá-fazer. Um norueguês de quem mal se ouvira falar enquanto esteve no Feyenoord, um sujeito internacional lá pelo país dele - e Noruega - vindo do fraquíssimo campeonato dos Países Baixos, o que poderia trazer de especial ou de acrescento ao Benfica e ao futebol português? Nada. Eram estas as expetativas em torno de um tal Aursnes com um nome difícil de pronunciar que nos trouxe o mercado do verão de 2022.
2. Aursnes foi campeão no seu primeiro ano à Benfica. E que campeão. Não foi titular à chegada, trabalhou o soube esperar pelo seu momento, e quando o momento surgiu... nunca mais Aursnes descalçou as botas. Na temporada de 2022/2023 jogou como centrocampista, a sua posição de base, mas também como lateral-direito, lateral-esquerdo e ponta de lança sempre que foi preciso.
3. Foi à ponta de lança que marcou um golo importantíssimo em Alvalade na reta final da última Liga e foi como lateral-esquerdo que se viu eleito há coisa de dias pelo Observatório Internacional do Futebol como 4.º melhor lateral-esquerdo do mundo. Parabéns, Aursnes.
4. Na corrente temporada, e por força do impedimento de Alexander Bah, tem vindo Fredrik Aursnes a jogar na posição de lateral-direito e (já não é de espantar) com a fiabilidade de sempre. 'Gosto de jogar como lateral-direito e estou cada vez mais confortável', disse o nosso norueguês no decorrer de uma extensa entrevista que concedeu ao jornal A Bola. É bom saber uma coisa destas pela voz do próprio jogador.
5. O treinador do Benfica já disse em várias ocasiões que é muito difícil ganhar o Campeonato em Portugal. Roger Schmidt referia-se, certamente, ao espírito aguerrido e à boa organização das equipas consideradas menores, que causam, por norma, grandes dificuldades aos chamados 'grandes' e que impedem que os campeonatos sejam discutidos apenas nos encontros diretos entre os candidatos ao título. É uma análise justa do treinador do Benfica.
6. Mas há outros dificuldades igualmente condicionadoras e que se jogam fora das quatro linhas. O perdão bancário de 96 milhões de euros ao Sporting Clube de Portugal é um exemplo disso mesmo. E 96 milhões valem quantas entradas diretas na Liga dos Campeões?
7. Janeiro é um mês que promete muitas emoções, e o próximo desafio do Benfica é em Arouca a contar para a Liga. Rumo à liderança é o que se quer."
Leonor Pinhão, in O Benfica
O Super-Guilherme Espírito Santo!
"Num mês, o Benfiquista bateu três recordes nacionais de Atletismo
Guilherme Espírito Santo encantou, desde cedo, os adeptos do futebol e do atletismo. Os seus primeiros passos no atletismo encarnado foram em 1937 e, logo no ano seguinte, causou sensação com a conquista de três recordes nacionais no espaço de um mês!
O mês de Julho de 1938 iniciou-se com a disputa do Campeonato Nacional de Juniores. Espírito Santo, com os seus jovens 18 anos, 'consagrou-se oficialmente não um curioso, mas recordista sólido', ao bater o recorde nacional de salto em altura. A 3 de Julho, elevou-se 1,825m acima do solo, que destronou uma marca que durava havia 23 anos. Nesta prova, também se classificou em 1.º lugar no salto em comprimento, com a distância de 6,59m, sendo um prenúncio do que viria a seguir.
Uma semana depois, no Campeonato Regional de Seniores, Guilherme Espírito Santo superou um novo recorde nacional de... salto em comprimento. A 10 de Julho, o 'atleta-prodígio' atingiu os 6,89m, ultrapassando uma marca com sete anos. Devido a estes impressionantes resultados, o 'aparecimento de Espírito Santo, nas pistas de atletismo, veio de vez empurrar o marasmo em que se debatiam estas duas especialidades'.
Na segunda jornada desta competição, a 17 de Julho, Guilherme Espírito Santo demonstrou ser um atleta completo, ao fixar o seu nome na lista dos recordistas nacionais de triplo salto, logo na sua 'primeira experiência' nesta especialidade, 'tri-«recordistas» de saltos', alcançou 14,015m, substituindo um recorde de 10 anos, e ficou novamente no lugar mais alto do pódio.
Estes feitos ganham ainda mais relevo perante o facto de que Guilherme Espírito Santo não treinaria atletismo, a não ser por modo próprio nos seus momentos livres, 'pois, segundo nos dizem, o seu 'sapientíssimo' treinador de foot-ball é de opinião de que o atletismo prejudica aquele desporto...'. E também são valorizados porque tinha - 'em conjunto com estas qualidades atléticas - uma correção impecável, um espírito de verdadeiro desportista'.
Saiba mais sobre este formidável atleta na área 3 - Orgulho Eclético, do Museu Benfica - Cosme Damião."
Lídia Jorge, in O Benfica
Campeões da fuga às dívidas
"Neste início de ano, quero falar-vos de dificuldades. Daqueles que muitos de nós sentimos todos os dias, semanas e meses, sempre que o ordenado não estica e as contas para pagar não param de surgir. À semelhança do que aconteceu com milhares de famílias em Portugal, em 2023 também senti na pele o terror da taxa Euribor. Os juros aplicados aos empréstimos dos bancos da zona euro deitaram abaixo as economias familiares. O crédito à habituação é a face mais visível deste descalabro do sistema financeiro e social. Em pouco tempo, a prestação da casa quase dobrou, e os ordenados do agregado de que faço parte ficaram exactamente na mesma. A solução passou por negociar com o banco, tentar encontrar forma de fixar a taxa, mas não mais do que isso. Não tivemos dívidas perdoadas, nem isso esteve em cima da mesa. Não temos amigos nos conselhos de administração, nem teria cara para fazê-lo.
A solução, lá por casa, foi trabalhar ainda mais, ter menos tempo para a família e procurar outras formas - todas lícitas - de ter mais dinheiro na conta a cada mês. Foi assim comigo e com milhões de outros portugueses, porque somos cidadãos preocupados, revoltados, mas com respeito pelo bem comum e pela moral.
O mesmo não se pode dizer da entidade com capitais negativos que é o Sporting CP. Ao longo dos anos, foi financiado, de forma direta e indireta, por Álvaro Sobrinho (do BES Angola), um dos responsáveis por lesar o Estado português em centenas de milhões de euros. Ou seja, fomos todos nós a bancar a concorrência desleal em que se tornou a atualidade sportinguista. Incapazes de gerar receitas que permitem o estilo de vida que aparentam ter, os responsáveis sportinguistas apelaram a perdões bancários e já conseguiram não pagar cerca de 100 milhões de euros. Tudo com o dinheiro de quem? Meu, seu, nosso, de todos. Mas está tudo bem... É, de facto, um clube diferente."
Ricardo Santos, in O Benfica
O sonho comanda a vida
"Como no poema de Gedeão, o sonho é uma constante na vida de qualquer benfiquista.
Fomos mal habituados. Fomos habituados a ganhar sempre ou quase sempre. Com Eusébio conquistámos o mundo. E embora os tempos sejam outros, a fasquia, a grandeza e a ambição ficaram lá bem no alto.
Mas vou passar este preâmbulo e dizer já ao que venho: quero ganhar a Liga Europa!
É esse o meu maior desejo para o Benfica em 2024. Foi essa a décima segunda passa na meia-noite de fim do ano.
Claro que também quero revalidar o título nacional, claro que quero vencer as taças, vencer nas modalidades, vencer nos femininos e até na formação. Como qualquer benfiquista: quero ganhar tudo, sempre e em todo o lado. Mesmo sabendo que tal é impossível, e que a razoabilidade impõe que nos satisfaçamos com uma mera aproximação a esse propósito.
Volto à Liga Europa. Voltemos à Liga Europa. Depois dos quase-quase de 2013 e de 2014. Sobretudo nessa última, em que o fantasma não foi Guttmann mas, sim, um árbitro alemão de má memória, e um guarda-redes que defendia penáltis na linha da pequena área. Ficou a amargura e uma espinha atravessada na garganta. Frankfurt, Shakhtar e Arsenal foram obstáculos que não pudemos ultrapassar em edições seguintes, por diferentes motivos e em diferentes contextos, mas sempre de forma tangencial.
Eis-nos perante nova oportunidade de ser felizes.
Esta edição apresenta-se particularmente apetitosa. Não sei se é dos meus olhos, mas, das 24 equipas em prova, vejo só duas ou três superiores ao Benfica. Nem sempre é assim. Na Champions, por exemplo, nunca é assim.
Falta muito até lá chegar. Falta tudo para lá chegar. Mas algo me diz que podemos lá chegar. Podemos estar em Dublin, depois de faltarmos à chamada em 2011. Podemos levantar a taça, depois de nos terem impedido em 2014.
Sim, podemos!"
Luís Fialho, in O Benfica
Um ano cheio!
"O ano que passou não foi dos mais fáceis. Na verdade, exigiu muito de todos nós. O panorama global não se modificou, a não ser para pior, infelizmente. Para lá de muitos conflitos que aparecem menos das notícias e nas redes sociais, iniciámos o ano com uma e terminámos o ano com duas guerras mais mediáticas. Há um ano, todos desejávamos que a guerra terminasse, mas não foi isso que aconteceu. Todos desejávamos boas notícias ambientais, com passos concretos na descarbonização, mas não foi isso que aconteceu, e vimos mais e mais catástrofes naturais, assistimos, como sempre, à vitimização das regiões e comunidades mais pobres. Alguém chamou a isto a lei do mais forte...
Todos queríamos ver sinais de redução da pobreza entre nós, mas, uma vez mais, não aconteceu assim. As famílias portuguesas enfrentaram desafio atrás de desafio, mas mostraram uma coisa de que só recentemente se fala, mas que os portugueses demonstram há quase mil anos: Resiliência! Faz parte dessa resiliência o envolvimento de todos na causa comum e por maioria de razão forte responsabilidade da sociedade civil e das grandes organizações. Aqui estou naturalmente a falar do nosso Benfica, que desde há mais de cem anos nunca virou as costas ao povo nem deixou de responder solidariamente aos desafios. Para isso fez a Fundação há precisamente 15 anos, assumindo e aprofundando essa imensa responsabilidade e compromisso do Clube com a sociedade. Por isso, 2023 foi um ano cheio de desafios, mas também um ano cheio de vontades e de trabalho incessante junto dos sectores mais frágeis da nossa população, atacando problemas humanitários pelo mundo e continuando na senda do desenvolvimento social. Fizemos a nossa parte e alguma diferença na vida de cerca de trinta mil pessoas.
Na verdade, neste esforço coletivo que envolve não só a Fundação, mas todo o Benfica, desde os atletas aos colaboradores de todas as áreas e em todas as posições hierárquicas. Por isso, não estamos cansados mas orgulhosos por este ano cheio, e prontos para enfrentar o 2024 que aí vem.
Carrega, Benfica!"
Jorge Miranda, in O Benfica
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"0
Ao 26º jogo oficial da temporada, já não há totalistas absolutos. Frente ao Famalicão, Aursnes atuou em 74 dos 95 minutos de jogo. O polivalente norueguês, João Neves e Rafa são os únicos participantes em todas as partidas. Segue-se João Mário com 24 e Otamendi e António Silva com 23;
14
O Benfica leva 14 jogos consecutivos sem derrotas no Campeonato Nacional, superando a melhor série realizada na época passada;
28
Com a estreia de Gustavo Marques, sobe para 28 o número de jogadores utilizados por Roger Schmidt em jogos oficiais na presente época;
30
Morato passou a ser o 9º, entre os formados no Benfica Campus, com mais jogos oficiais pela equipa A do Benfica no estádio da Luz;
45
Títulos e troféus conquistados pelas equipas seniores do Benfica em 2023, incluindo 19 Campeonatos Nacionais (masculinos: futebol, basquetebol, hóquei em patins, voleibol, atletismo – pista, corta-mato e corta-mato curto, natação, aquatlo; femininos: futebol, andebol, futsal, hóquei em patins, polo aquático, natação, triatlo, duatlo, luta; mistos: judo);
300
Rafa chegou aos 300 jogos oficiais pelo Benfica. É o 33º a consegui-lo. Marcou 81 golos (29º) e fez 60 assistências. Em 191 jogos no Campeonato Nacional (37º), marcou 55 golos (25º com Humberto Coelho). É o 13º com mais jogos de águia ao peito em competições UEFA e soma 16 golos (8º). Em 48 jogos na Liga dos Campeões, foi autor de 13 golos (é o 6º mais goleador, atrás de Eusébio, José Augusto, Torres, José Águas e Nené). No atual estádio da Luz, é o 4º com mais jogos oficiais (150), o 8º com mais tempo de utilização (10984 – inclui tempos adicionais), o 4º melhor marcador (43) e o 3º com mais assistências (32)."
João Tomaz, in O Benfica
Editorial
"1. Vénia ao Rei Eusébio. Dez anos de imensa nostalgia. A maior figura da gloriosa história do Sport Lisboa e Benfica partiu há uma década, mas os grandes vultos e personalidades nunca verdadeiramente nos deixam. Antes, vivem para sempre na nossa memória. Com eterna saudade. As páginas centrais são-lhe dedicadas num trabalho do João Tomaz. Recordamos 10 momentos marcantes, como a sua chegada ao Benfica e o Mundial de 66, passando pela conquista da Taça dos Clubes Campeões Europeus e um extraordinário palmarés de 11 campeonatos, 5 Taças de Portugal e 5 Taças de Honra em 15 anos com a camisola do Benfica.
2. Destaque neste jornal O Benfica para a melhor média de sempre de assistências no Estádio da Luz. São quase 60 mil adeptos e vibrarem e a apoiarem em cada jogo, num ambiente sem paralelo, nunca experiência singular em termos de luzes e som, e com as vitórias que todos desejamos. Mais um traço marcante daquilo que é a representatividade e escala do Benfica quando se olha para o futebol nacional. E quando se aproxima uma discussão aprofundada daquilo que será a nova distribuição dos direitos televisivos.
3. Nota para duas entrevistas que enriquecem e muito, esta edição: Alex Pinho é justamente o Protagonista da semana, depois da dimensão europeia alcançada com o último troféu conquistado pelo imparável futsal feminino do Benfica. Num outro trajeto auspicioso, o râguebi vai dando cartas. Travis Church está a mudar mentalidades e quer fazer história em ano de centenário. Testemunhos que vale a pena ler."
Pedro Pinto, in O Benfica
Estreia com vitória...
Boa reação ao golo sofrido cedo, com uma vitória que acabou por ser tranquila...
A equipa está mais equilibrada, continua a denotar alguns problemas na construção ofensiva, mas temos potencial para conquistar o título pela primeira vez.
Destaque para o regresso do André Gomes após longa lesão...
Jogar à Benfica na vida
"O Benfica tem uma qualidade reconhecível que mais nenhuma equipa tem no nosso país e que poucos têm no mundo. Curiosamente, este fim de semana não foi a exibição do meu clube que me relembrou este facto inquestionável. Foi o jornalista Fernando Alves, entrevistado pelo Público, ao contar a história dos primórdios da TSF, rádio da qual é fundador e que me fez querer ser radialista em criança. Explica Fernando Alves ao recordar o início desse percurso: «Jogávamos à Benfica: havia uma vertigem para o golo. Pegava-se numa história e não se largava. Íamos ao osso com uma alegria tremenda.»
Ando a pensar nisto desde a manhã de domingo, quando li a entrevista. Parece óbvio como algumas grandes ideias que toda a gente assimila sem pestanejar, ou linear como alguns pensamentos simples que invejamos por não serem nossos. Não é surpresa que Fernando Alves escolha bem as palavras e a forma como as diz. Mas, apesar de pensar no Benfica muitas vezes por dia, e de poder dizer que o meu clube me inspira de diferentes maneiras, nunca me tinha ocorrido pensar no Benfica exatamente assim. Tenho que partilhar esse entusiasmo, o de ter acedido a mais uma nova dimensão de Benfiquismo.
Perdoem-me os adeptos de clubes adversários, ou não me perdoem. Neste caso é-me indiferente. Isto é matéria inegociável. Nem que a minha vida dependesse disso eu saberia explicar o que é jogar à Sporting. Se quisesse ser mauzinho, diria que é jogar como nunca e perder como sempre. Quanto ao FC Porto, estou familiarizado com o conceito. Os mais convictos ideólogos do clube explicarão que jogar à Porto é uma questão de raça, mas, se um desenhador de retratos robô me pedisse para descrever este jogar, acho que a imagem da raça seria um jogador a agredir um colega de profissão, alguém a tentar enganar o árbitro, ou um dirigente experimentado a abusar do expediente de truques ao seu dispor para vencer custe o que custar.
Acreditem que o problema não é meu. Se alguém fizesse o tal desenho com base na minha descrição, toda a gente saberia de que clube estava a falar. Jogar à Benfica é coisa que envaidece. É sobre futebol e, como lembrou Fernando Alves, é também sobre a nossa relação com diferentes momentos das nossas vidas, sobre o que escolhemos ser nessas ocasiões. Felizmente o clube tem hoje vários atletas formados no clube, e outros adotados, que corporizam esse jogar: antes de mais na humildade, na cultura de respeito, na educação, na ética e no desportivismo; depois, na procura de um futebol que tenha a tal vertigem do golo, procurando ferozmente a bola quando está nos pés do adversário e tentando encurtar o caminho entre nós e a baliza, com uma ideia coletiva clara em que ninguém fica para trás, ninguém está sozinho, e que ninguém acredita poder resolver o jogo apesar dos colegas de equipa, mas sempre, e sobretudo, com a sua ajuda. É isso que valoriza cada um dos participantes nesta ideia. Este texto é tanto sobre futebol quanto sobre a vida, mas não consigo deixar de referir uma das mais recentes ocasiões em que nos vi jogar à Benfica, numa recuperação de bola em Salzburgo em que só o João Neves parece acreditar. Ainda alguns de nós duvidavam que essa recuperação de bola fosse possível e já ele sabia a quem a queria passar.
A vontade de vencer, a vertigem do golo, a pressão alta com gana e sem hostilidade, e a inteligência de compreender num instante que aquele lance seria esquecido se a bola não chegasse rapidamente a um colega mais próximo da baliza. Não foi só ali que ganhámos um jogo muito importante, mas ali esteve a explicação da vitória. Nada do que acabo de descrever equivale a dizer que tudo resulta desde que os princípios sejam colocados em prática. Não sou especialista em autoajuda e não prescrevo fórmulas infalíveis de sucesso. Os princípios não são o meio nem o fim, mas são o respeito por uma ideia original com 120 anos, que hoje, de forma extraordinária, permanece tão jovem e pertinente como em 1904. Cosme Damião explica, numa entrevista publicada por este mesmo jornal em março de 1945: «Veio primeiro a ideia do jogo, pelo prazer de jogar. A ideia do clube seguiu-se ao prazer do triunfo. Houve desde logo a certeza de que pela união nos podíamos tornar mais fortes. Neste sentimento inicial se pedia a escolha da divisa do novo clube - um por todos, todos por um.» Jogar à Benfica não é vencer sempre. É um jogar por todos e todos jogarem por um. E é jogar sempre para ganhar. Nada na vertigem do golo, a mesma de que falava Fernando Alves, garante uma goleada, mas garante uma coisa quase tão importante: uma equipa capturada por esta vertigem do golo será sempre o prolongamento mais fiel dos adeptos que carregam o Benfica para toda a parte. Na semana em que se assinalou uma triste década sem Eusébio da Silva Ferreira, um dos maiores responsáveis por esse jogar à Benfica, veio-me à memória um dos jogos da minha vida, a vitória de 11 Eusébios frente ao FC Porto em 2014.
Lembro-me bem dessa semana, do quanto toda a comunicação social quis mostrar cada segundo da despedida, das despedidas sucessivas dos amigos, de quem lá estava à chuva, já de noite, no momento de enterrar o maior ídolo do clube, e lembro-me bem, poucos dias depois, de uma vitória categórica a 12 de Janeiro. Lembro-me desse jogo porque me emocionei, eu e milhões, ao ver os 11 Eusébios em campo, mas também porque todos compreenderam a gigantesca importância daquele momento. Já vi muitas vitórias fáceis do Benfica, mas repito a principal recordação que fica dessa tarde: poucas vezes tive tanta certeza de que o Benfica venceria um jogo. Num dos dias mais tristes, esteve lá a vertigem do golo. Num dos dias mais tristes, fomos ao osso com uma alegria tremenda, pelo Rei Eusébio e para cumprir mais uma vez a história do Benfica, contada no jogar inconfundível e na vida de cada um dos felizardos que o testemunham. Obrigado por isso ao Fernando Alves por nos ter dado a TSF e por mais uma vez ter feito ecoar as suas palavras. Ando a pensar nisto desde a manhã de domingo e não consigo imaginar aspiração mais digna: jogar à Benfica na vida. Vou tentar enquanto me lembrar. É o mínimo."
Vasco Mendonça, in A Bola
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