Últimas indefectivações

domingo, 11 de dezembro de 2022

Águia: Marrocos...

Terceiro Anel: Dia 16

11 de Dezembro


Vitória...

Benfica 3 - 0 Castêlo Maia
25-11, 25-14, 25-18

Início da 2.ª fase, com uma vitória tranquila...

Taça vitoriosa...


Taipense 1 - 8 Benfica

Obrigação cumprida, na festa da Taça...

Empate...

Benfica 27 - 27 Sporting
(12-13)

Não vi o jogo, mas o resultado sabe a pouco... Ficamos a depender de nós para sermos Campeões, mas não existe margem de erro...

A posição da Lagartada, no não adiamento do jogo, não surpreende ninguém: Cashball para sempre!!!

Aviso...


"Bem Rui Costa a fazer da vertente desportiva uma prioridade “Temos um objetivo único que é fazer uma época ganhadora. Em janeiro não sairá nenhum jogador, a menos que seja pela cláusula”."

Rabona #16: Morroco... France...

Catarses 2️⃣7️⃣ A grande tenda marroquina


"As tendas dos nómadas do deserto são obras de arte e engenho que suportam os ventos e as temperaturas extremas, tanto o frio como o calor. São escancaradas pelas abas para deixar circular o ar, mas absolutamente bem escoradas e firmes, para manterem o centro à sombra, fresca e tranquila - e os inimigos à vista. Assim é o sistema de jogo de Marrocos, um enorme “bivouac”, à boa maneira dos séquitos dos berberes que viajam sempre com a casa às costas, em protecção da sua área, aberto pelos lados às brisas inofensivas do ataque português, mas mantendo sempre a zona central e a baliza vedadas aos raios de luz e calor das estrelas adversárias.
Só um vendaval ofensivo poderia abanar e derrubar o enorme acampamento marroquino, mas parece que as únicas tempestades causadas pelas nortadas portuguesas no deserto do Catar foram de “fogo amigo” e de areia e poeira sopradas para os olhos dos adeptos pela ventoinha de informação e contra-informação da FPF.
Assim se resume a carreira de Marrocos no Mundial, derrotando em sequência algumas das maiores potências, Bélgica, Espanha e Portugal, e resistindo à Croácia, com apenas seis golos marcados, mas, sobretudo, somente um golo sofrido - um auto-golo até, portanto com 100% de eficácia defensiva perante cinco adversários em 600 minutos de jogo.
Porque o ataque ganha jogos, mas a defesa ganha campeonatos - dizem os americanos. No caso de Portugal, foi um erro defensivo, uma “barraca” na realidade, que nos levou mais um campeonato de esperanças e sonhos.
Sim, Marrocos tem uma equipa muito organizada, forte, combativa, com um guarda-redes que faz a diferença e avançados buliçosos, mas sem qualquer jogador de classe mundial como têm os outros semi-finalistas e os favoritos já mandados para casa. É, aconteça o que acontecer a seguir, um campeão pelo trabalho e pela determinação.
O futebol, que começou a ser jogado no século XIX em 2x2x6, tornou-se no mais adorado desporto pela luta eterna dos treinadores ambiciosos contra os arquitectos da defesa e do anti-golo. Em décadas sucessivas, foram inventados o defesa-central, o stopper, o WM, o ”Método” e o “Sistema” de Pozzo, a “retranca” suíça, o “libero”, o “catenaccio”, o terceiro central - e houve sempre “antídotos” de ataque, que passaram pela criatividade, liberdade de acção e genialidade dos melhores jogadores. Amarrar os atacantes a sistemas defensivos é um crime de lesa-futebol. Há tempos, apareceu no léxico futebolês o verbo “desmontar”, lançado pelo treinador Vítor Pereira como comentador televisivo fugaz. “Desmontar” as defesas tornou-se então a ‘password’ dos “experts” para toda e qualquer situação de dificuldade perante equipas bem montadas na defesa.
Ora, “desmontar” é o enigma que Fernando Santos nunca conseguiu resolver na maioria dos jogos mais complexos dos seus anos na FEMACOSA federativa, sobretudo nas fases adiantadas das grandes competições, com o bambúrrio do Euro-2016 a servir como a excepção.
Bola trocada atrás e pontapés longos a procurar espaços inexistentes nas costas da defensiva marroquina, sem ritmo, sem dinâmica, sem criar superioridade nas zonas nevrálgicas, assim jogou Portugal cerca de uma hora até à introdução desesperada e sem nexo de mais e ainda mais corpos para a frente ofensiva.
Se foram os jogadores que decidiram ou obrigaram a estes equívocos estratégicos, em contra-ciclo com as boas ideias mostradas na partida anterior, é porque o treinador não tem “criatividade nem imaginação”, precisamente os defeitos que aponta à equipa.
Porque, efetivamente, dispôs e desperdiçou o maior naipe de jogadores de classe mundial de sempre, melhor que o dos campeões europeus, e termina - assim espero - o longo consulado sem nos deixar um legado que possa constituir base de trabalho, seja para quem quer que venha a seguir. Portugal tem jogadores excepcionais, que merecem um seleccionador tão bom e seguro de si, que só aceite um contrato de trabalho a termo, que lhe garanta independência e superioridade moral."

Catarses 2️⃣6️⃣ Muito mais que Futebol


"Morreu Grant Wahl.
Um ataque cardíaco fulminante em plena bancada de imprensa do estádio onde acabara de assistir ao Argentina-Holanda do Mundial do Catar. Com 48 anos. É dramático sim, raro, brutal, injusto. Nunca será apenas futebol, nunca será apenas vida ou morte, o Futebol é muito mais que isso - recorrendo novamente à explicação esotérica de Bill Shankly.
Conheci Grant Wahl no Mundial de França de 1998, quando ambos acompanhávamos o estágio da seleção dos Estados Unidos no meio de um vinhedo do Beaujolais e estivemos em vários jogos, nomeadamente o histórico Amerika-Irão, em Lyon. Reencontrei-o no ano seguinte em Los Angeles na cobertura de um importantíssimo Congresso da FIFA e na final do Mundial de Futebol Feminino, ganho pelos Estados Unidos no Rosebowl de Pasadena, já no encalço dos podres da camarilha de Joseph Blatter.
Nesses anos antes da internet, eu, apaixonado pela essência do desporto norte-americano, era assinante da Sports Illustrated onde Grant começava a publicar reportagens completas e rigorosas. Soube agora que fez a capa da maior e melhor revista mundial de desporto por mais de 50 vezes, inclusive com o tema Cristiano Ronaldo, um recorde difícil de bater por jornalistas comuns. Foi muito influente na expansão do futebol nos EUA, autor do livro “The Beckham Experiment”, com crónicas nos jornais nacionais e aparições regulares na CNN.
Não voltámos a ver-nos porque já não fui ao Mundial da Coreia de 2002, por ser considerado pelos meus editores um tipo demasiado problemático para continuar a andar perto da seleção nacional, que se queria tranquila e vitoriosa, desviando-me em boa hora para o mundo Olímpico, onde ele também trabalhou, sobretudo acompanhando a selecção feminina dos EUA. De certo, estivemos ao mesmo tempo, sem nos cruzarmos, no ‘Ninho de Pássaro’ a ver a final dos Jogos de 2008, com Messi, Riquelme e Di Maria, porque a Argentina era especial para ele.
Continuei a acompanhar-lhe a carreira nas redes sociais para não perder as intervenções mais significativas. A coragem e frontalidade com que enfrentou o poder corrupto da FIFA, que chegou a mudar os estatutos eleitorais para evitar que Grant Wahl voltasse a candidatar-se à presidência, como fez em 2011, pondo em alvoroço o status quo, até ser obrigado a desistir pelo cansaço e falta de apoios do sistema federativo.
Era um homem de causas, casado com uma célebre virologista que aconselhou o futuro presidente Biden sobre a crise do Covid-19, e no começo do Mundial chegou a ser detido pela polícia dos costumes do Catar, por aparecer vestido com uma t-shirt arco-íris. O irmão acha que foi assassinado, alvo de conspiração do regime totalitário de Infantino e seus sequazes. À distância parece-me rebuscado, mas merece que algum discípulo pegue no assunto.
Grant Wahl era agora um freelancer, com espaço na tv americana mais ligada ao “soccer”, a Fox, e escrevia para o ‘New York Times’, o Real Madrid do jornalismo, depois de ter sido despedido pelos novos proprietários mercantis da SI por recusar o corte salarial nos anos da pandemia. De qualquer modo, também a revista se tornara pequena demais para ele.
Morreu a ver a sua Argentina, o país de adopção que escolheu para o seu trabalho de curso de estudar o futebol num país estrangeiro e onde pudesse desenvolver o seu espanhol, tendo passado um verão na Bombonera, a mítica casa do Boca Juniors e de Diego Maradona.
“Esse amor de verão de um estudante de 20 anos, apaixonar-me por um estádio”, descreveu mais tarde. “Adorei estar nas bancadas, cantando e correndo como louco, como surfista sobre a onda da multidão de adeptos ao encontro da vedação por trás da baliza, sempre que o Boca marca um golo”.
Os seus últimos tweet foram “o que é que acaba de acontecer?” e “mais um incrivelmente desenhado golo de bola parada da Holanda”, como comentário de conhecedor e amante de futebol à brilhante invenção de Louis van Gaal que empatou a dramática partida com a Argentina, aos 90+11 minutos.
Grant Wahl, verdadeiro homem do futebol, morreu como Cândido de Oliveira, fundador de A Bola e mestre dos treinadores e dos jornalistas, quando cobria o Mundial da Suécia, no ano em que nasci, e desrespeitou as ordens médicas para descansar no hotel e não ir aos estádios ver Pelé - o que contribuiu para agravar irreversivelmente uma infecção pulmonar.
Há uns dias, Wahl sentiu-se mal, por causa de uma constipação mal curada na noite do Holanda-Estados Unidos, e os médicos no centro de imprensa diagnosticaram-lhe possível bronquite, medicaram-no com antibióticos, mas confessou não se sentir bem: “Ainda, ‘no bueno’”.
Rest in Peace."

Terceiro Anel: Dia 15

Estadia curta!


"Aqui está um rapaz que sabe gerir as suas finanças. Consegue viajar para o Qatar; hospedar-se num luxuoso hotel - sabendo de antemão que são dos mais caros do mundo - e ainda comprar bilhete para ver Portugal. E tudo isto com um salário de 500 euros mensais.
Um exemplo para todos!"

Tecnologia e Fora de Jogo


"A crença de que a exactidão da máquina é superior à humana não deve persuadir-nos a aceitar decisões milimétricas, nas quais a margem de erro é por vezes superior ao valor que se pretende estimar.

O sistema KINEXON, em grande destaque no Mundial FIFA, teve a sua estreia em Munique, no dia 22 de Outubro de 2017, num jogo de uma divisão secundária do futebol alemão. As instâncias internacionais do futebol têm sido cautelosas na introdução de ferramentas de apoio à arbitragem. Os primeiros passos foram dados com a tecnologia da linha de golo (2012), a que se seguiu o VAR (2016). Mas é com a introdução do KINEXON e o seu sistema semi-automático de fora de jogo, que se dá o “salto quântico”.
Tal como é anunciado, o sistema KINEXON usa num dispositivo, colocado no centro da bola, que contém um sensor inercial (IMU) e um sensor de banda ultra larga (UWB). Este envia informação (a 500 Hz) para um conjunto de 26 antenas (LPS – sistema de posicionamento local), colocadas em posições determinadas à volta do estádio. Adicionalmente, dispõe de 12 câmaras “olho de falcão” (a 50 fps) que seguem a bola, bem como 29 pontos do corpo dos jogadores. O sensor UWB em conjunto com o LPS permitem determinar, por triangulação, a posição da bola, ajudando a decidir se a bola saiu ou não de campo, e se passou ou não a linha de baliza. O sensor inercial (IMU) mede outros parâmetros, como a aceleração e a velocidade angular. Para a questão do fora de jogo, embora o sensor UWB determine com maior precisão (500 Hz) o instante em que há o contacto com a bola, a posição dos jogadores envolvidos continua a ser feita através das imagens das câmaras (50 Hz). E, portanto, no instante determinado pelo UWB, pode ou não haver o fotograma correspondente.
O sistema tem ainda outra inovação. Antes, tanto o alerta de offside, como a marcação das “tradicionais” linhas estavam dependentes de intervenção humana. Agora, o processo é automatizado: um programa de inteligência artificial emite o alerta e, para dissipar as possíveis dúvidas dos adeptos, é gerada a imagem sintética 3D dos jogadores envolvidos, na posição que levou à decisão.
Não pretendo fixar-me em demasia sobre os aspectos técnicos das soluções concretas, porque os seus detalhes ou não são inteiramente revelados, ou a complexidade do processo é tal que não permite senão uma análise experimental. Um estudo deste tipo, publicado em 2021, foi efectuado no Fraunhofer Institute for Integrated Circuits. Embora o sistema KINEXON testado não seja exactamente o do Mundial, são reportados erros para a posição do jogador e da bola de 8 ± 1 cm e 15 ± 3 cm, respectivamente.
Um dos requisitos para analisar o offside é estabelecer o instante em que o jogador que faz o passe entra em contacto com a bola. No arranjo mais simples, em que se recorre a uma única câmara, a maior ou menor precisão na determinação desse instante depende do número de fotogramas por segundo (fps). Como as câmaras do Mundial funcionam a 50 fps, isso traduz-se num intervalo de tempo de 20 ms entre fotogramas sucessivos.
O instante do fora de jogo estará algures entre o último fotograma antes do contacto e o primeiro em que há contacto. Sendo a duração da interacção com a bola da ordem dos 10 ms, não é de excluir a situação em que nenhum dos fotogramas mostra o contacto. Nesta eventualidade, deveremos considerar os fotogramas imediatamente antes e imediatamente após o contacto.
O segundo requisito é saber onde está o jogador que recebe o passe, no instante em que este é feito. A situação de dúvida acontece no caso em que o referido jogador num dos fotogramas está para além, e no outro aquém do penúltimo defesa contrário. Resultando, portanto, numa análise inconclusiva, a menos que se façam interpolações.
Isto será assim, sempre que seja possível determinar inequivocamente os dois fotogramas referidos, e que neles seja clara a posição relativa dos jogadores envolvidos.
Dir-me-ão, esta análise é muito simplista. Existem várias câmaras e até já temos sensores na bola e nos jogadores. É assim possível medir velocidades, acelerações e estimar trajectórias. Todos estes dados podem então ser tratados por um algoritmo de inteligência artificial e os seus resultados convertidos em imagens sintéticas, fabricadas por potentes métodos de representação gráfica. Verdade.
A primeira observação é que, numa boa transmissão televisiva, resulta muitas vezes possível para o espectador, no momento mesmo em que vê as imagens, aferir do fora de jogo. E, quando tal deixa dúvidas, muitos outros casos podem ser humanamente decididos observando os dois fotogramas pertinentes. Restam as situações em que as melhores imagens disponíveis não têm um ângulo favorável, e aquelas em que o offside é, digamos, milimétrico.
A segunda observação é que quaisquer medições, e cálculos feitos a partir delas, têm um erro associado. Mais, esses erros propagam-se de forma intrincada (que só pode tratada estatisticamente) ao calcularmos novas grandezas em função de parâmetros obtidos anteriormente. Quanto maior for a complexidade do processo, mais difícil será estimar os erros associados aos valores finais das grandezas que procuramos obter.
Esta dificuldade explicará, eventualmente, a razão pela qual, mesmo no sistema que recorre apenas às imagens das câmaras, não seja apresentada qualquer estimativa do erro para a distância entre as duas linhas, traçadas relativamente ao corpo dos dois jogadores em apreço. Por outras palavras, não se fornece um valor para a precisão do processo. É o milímetro, o centímetro, o decímetro?… Não sabemos. Contudo, se a precisão for hipoteticamente de 10 cm, é óbvio que não se deve assinalar um fora de jogo por 3 cm.
Seja o seguinte exemplo. Por simplicidade, tomo o defesa parado. Se a velocidade do avançado (na direcção longitudinal do campo) for 5 m/s, em 20 ms (o tempo entre dois fotogramas de câmaras a 50 Hz) ele percorrerá 10 cm. Se no primeiro fotograma o avançado está em jogo por 7 cm, no segundo estará offside por 3 cm. Como não sabemos exactamente o instante em que o passe foi feito, convencionemos que foi a meio dos dois frames, i.e. passados 10 ms. Ora, sendo esse o caso, o avançado passaria a estar em jogo por 2 cm, e não offside por 3 cm.
Para além dos detalhes, creio ser importante um ponto de vista crítico, mais abrangente, sobre os métodos tecnológicos de apoio à decisão. Lewis Mumford analisou bem, em The Myth of the Machine, a tendência perigosa e potencialmente perniciosa que consiste em considerar a tecnologia como exacta, eficaz e infalível e, por oposição, o que é humano como defeituoso, falível e substituível. Este condicionamento leva-nos a menorizar a dimensão subjectiva – os nossos sentidos, experiência e inteligência – em favor de uma putativa objectividade da máquina. No presente contexto, isto traduz-se no entendimento da imagem sintética do fora de jogo como a verdadeira representação da realidade, a pontos de dispensarmos as imagens televisivas em replay, ou os dois fotogramas pertinentes. Embora, note-se, os nossos sentidos peçam ainda uma imagem, em vez de um simples sim ou não. Caminhamos, talvez, para elevar os sistemas tecnológicos à função de decisores (decision maker), em vez de simples auxiliares da decisão (decision aid), e a tornar assim irrelevantes todas as questões relacionadas com a sua precisão e margem de erro. Esta perfeita exactidão, anulando toda a margem de dúvida, terá mesmo influência na natureza do jogo.
No offside, a recomendação das instâncias de arbitragem era para, em caso de dúvida, o árbitro (humano) deixar prosseguir a jogada, dando a vantagem à equipa atacante. Na primeira versão VAR o jogo passou a ser interrompido, dando tempo à marcação (humana) das linhas, e retomado após a decisão. Agora, com o sistema semi-automático, a máquina emite um alerta para o VAR, que poderá confirmar a decisão. Mas, na verdade, com imagens 3D de precisão infinita, o sistema só não é totalmente automático, porque obriga o vídeo-árbitro a carregar num botão! Em ambas as versões tecnológicas, tudo o que se jogou, desde o incidente, até à interrupção, é deitado fora como se fosse riscado da acta.
No ténis, onde a tecnologia do Hawk-Eye (olho de falcão) é usada desde 2006, a perfeita exactidão é levada ao extremo, sem que já ninguém se interrogue. Tal só é possível porque a decisão sobre se a bola é dentro ou fora é tomada, não sobre o mundo físico, mas sobre o mundo virtual gerado pelo algoritmo: um mundo que ignora os erros das medidas directas e das calculadas, e onde a realidade é representada através de linhas de largura exacta e bolas perfeitamente delineadas e sem espessura. Não há sequer memória de o sistema alguma vez ter chegado a uma análise inconclusiva. Mais, a questão do erro está tão fora das preocupações, que são assinaladas bolas dentro (ou fora) por 1 mm (por exemplo, Federer-Nadal, final de Wimbledon, 2007), quando erro médio anunciado pela própria empresa (Hawk-Eye Innovations Ltd) é de 3.6 mm!
O objectivo de corrigir erros grosseiros do árbitro – por dificuldade de visão, distracção, ou mesmo motivos menos honestos – é desejável e louvável. Mas a crença (correcta na maioria das circunstâncias) de que a exactidão da máquina é superior à humana, não deve persuadir-nos a aceitar decisões milimétricas, nas quais a margem de erro é por vezes superior ao valor que se pretende estimar."

Fora da Área...


sábado, 10 de dezembro de 2022

10 de Dezembro


Fim de semana de emoções fortes


"Esta edição da News Benfica é dedicada à agenda desportiva do fim de semana e aos jogos realizados ontem. Dérbi no andebol, clássico no basquetebol e o particular com o Sevilha em futebol são os maiores atrativos.

1
A nossa equipa de futebol regressa aos jogos, no Algarve, frente ao Sevilha (domingo às 17h00), um particular com vista à preparação para a retoma das competições. O próximo desafio em competições oficiais está agendado para dia 17 (visita ao Moreirense para a Taça da Liga). Neste encontro com o Sevilha, Roger Schmidt ainda não conta com os seis mundialistas, dos quais cinco, ao serviço de Portugal e Argentina, ainda estão em prova.

2
Amanhã há dérbi com o Sporting, na Luz, em andebol. O capitão de equipa, Paulo Moreno, fez a antevisão e apelou à presença dos Benfiquistas: "É na nossa casa e queremos ganhar com um grande ambiente. Que nos venham apoiar e empurrem para a vitória. Se os adeptos criarem um ambiente como nós, Benfiquistas, sabemos fazer, de certeza que vamos estar mais próximos da vitória."

3
O sorteio da Taça de Portugal de basquetebol ditou um clássico para os oitavos de final e é no domingo, às 17h00, na Luz, que Benfica e FC Porto voltam a medir forças nesta temporada. Recordamos que, na partida anterior, para o Campeonato, vencemos 105-112 após prolongamento, pelo que se perspetiva um jogo equilibrado e em que o apoio dos Benfiquistas é fundamental para chegarmos ao triunfo. Não falte!

4
Ontem houve vários jogos. Em hóquei em patins visitámos o Riba d'Ave e vencemos por 3-6; no futsal recebemos o Ferreira do Zêzere e ganhámos por 5-4. Em ambas mantivemos a liderança dos respetivos Campeonatos. A equipa feminina de basquetebol sofreu a primeira derrota da temporada. Foi na Bélgica, frente ao Belfius Namur Capitale, por 72-56, mas o apuramento para os 16 avos de final da FIBA EuroCup Women já estava garantido. Em voleibol, nos homens batemos o Viana por 3-0 e nas mulheres superiorizámo-nos ao Clube K (3-2).

5
Além dos acima referidos, há mais jogos para apoiarmos o nosso Benfica neste fim de semana. Destacamos aqueles em que somos visitados.
A equipa feminina de futebol recebe o Valadares Gaia no Benfica Campus, domingo às 16h00. E são várias as partidas na Luz. No voleibol tem início a 2.ª fase do Campeonato, em que na primeira jornada defrontamos o Castêlo Da Maia (sábado, às 18h00). No andebol feminino há duplo confronto: sábado com o Colégio de Gaia (19h30) e domingo com o ZRK Borac (15h30). No básquete feminino recebemos o CP Natação, domingo às 11h00. 
Para saber os locais e horários de todos os jogos, clique aqui.

6
A Fundação Benfica e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa celebraram um protocolo de colaboração que pressupõe a continuidade da parceria estabelecida em múltiplos projetos sociais. Saiba mais no artigo publicado no Site Oficial.

7
Para ver e rever na BTV. Estreou ontem o novo programa "A Carrinha do Bento". A glória Carlos Manuel, acompanhado pelo jornalista João Martins, percorrem o País numa viagem pela mística e história do Glorioso. Veja o teaser, aqui."

Benfica lamenta intransigência do Sporting


"O Sport Lisboa e Benfica lamenta que o Sporting se tenha mostrado, hoje, mais uma vez, irredutível quanto a uma mudança de horário do dérbi de andebol marcado para amanhã, às 15h00, no Pavilhão n.º 2 do Estádio da Luz.
Apesar de todas as tentativas realizadas desde o início da semana, o Sporting mostrou-se repetidamente intransigente quanto a qualquer alteração, apesar de, à mesma hora, a seleção portuguesa disputar o acesso às meias-finais do Campeonato do Mundo de futebol.
O Sport Lisboa e Benfica entende que esta sobreposição em nada defende a modalidade, num dérbi que se espera emocionante. E se o objetivo do Sporting era encontrar um pavilhão vazio, será certamente surpreendido pela massiva presença dos adeptos do nosso Clube, a quem deixamos o apelo para uma adesão e um apoio emocionantes, como sempre acontece."

Catarses 2️⃣5️⃣ Sebastião e os Reis de Marrocos


"Acreditar que D. Sebastião podia assomar ao alto da Serra dos Candeeiros, impante e Vitorioso no seu garanhão branco, era um dos devaneios da minha infância, inspirado pelos cânones negacionistas do regime, naquelas manhãs de geada, neblina e poças de água, a caminho da escola primária. 
Muitos anos depois, o futebol e a profissão possibilitaram-me trabalhar intensivamente em Marrocos durante mais de um ano. Uma oportunidade única de conhecer a História, pelo lado do inimigo. Foi há 20 anos, mas lembro-me exactamente onde estava e com quem, os meus amigos Youssef e M’ahmed, ao serão em Agadir, quando tomei consciência da narrativa absurda que nos foi ensinada sobre esse episódio trágico e marcante para Portugal e para o Mundo. Eles chamavam-lhe a “Batalha dos Três Reis” e demoraram algum tempo a perceber o que queria dizer o meu “Alcácer Quibir” que, na verdade, era o original Ksar el-Kebir, que devíamos ter traduzido literalmente por “Grande Castelo”, ali perto do Wadi al-Makhazin, um vale à prova de invasores, onde tudo se passou - para que o trauma da derrota não fosse tão grande e perene.
E que, embora armados com artilharia pesada, os portugueses aliados às tropas mouras do Sultão caído em desgraça, Abdallah Al-Mutawakil, não chegavam a metade dos mais de 50.000 soldados do terceiro Rei, o Sultão Abd al-Malik. Foi pela voz dos amigos marroquinos que finalmente matei o Sebastião da minha genética cultural, por solidariedade alheia, ao tomar consciência que também os dois Reis muçulmanos desavindos tinham morrido na carnificina desse 4 de Agosto de 1578, da qual ninguém saiu ileso.
Mais de 400 anos depois, incluindo banhos e passeios prazenteiros nas praias onde Sebastião e as suas tropas em fuga se afogaram dramaticamente, conheci um país extraordinário.
Do azul da costa mediterrânea de Tânger ao branco dos picos nevados do Atlas, passando pelas tinturarias de Fez, pelo ocre de Marraquexe ou pelos cenários épicos de Ouarzazate, a porta do Sahara, do nascer do sol ao som dos minaretes a chamar para o primeiro “Salah” e do frenesim das manhãs no meio do trânsito dos burros de carga nas medinas sobrelotadas das cidades imperiais, à sensualidade das dançarinas do ventre nas noites dos riades, e absorvendo, sempre que pude, a inspiração contemplativa do silêncio do palmeiral de La Mamounia, o palácio que preserva intacta a suite de Churchill com a mesma abertura multicultural com que se lê um jornal europeu e se come ‘croissants’ pela manhã em Casablanca.
Adoro Marrocos e sei que os marroquinos adoram Portugal e os portugueses - não entendo como não existe uma ponte política, social e económica, sem barreiras nem portagens, entre as duas margens deste rio salgado que nos separa. Adoro futebol e aprendi que nenhum povo gosta mais de futebol do que o marroquino, pelo que também fui derrotado junto com as “tropas” do Rei Mohammed VI na batalha de Zurique em que o conluio da FIFA atribuiu o Mundial de 2010 à África do Sul.
Hoje voltamos a encontrar-nos num mar de areia, árido e truculento, precisando de deixar em casa a arrogância sobranceira dos eternos Sebastiões que habitam em nós.
Como diz o fidalgo da FEMACOSA, a selecção de Marrocos é fortíssima, determinada e organizada como o exército de Al-Malik, que atacava pelos flancos com uma cavalaria de puros-sangues, os Hakimi e os Ziyech pela direita, os Mazzraoui e os Boufal pela esquerda, para ganhar o domínio do centro da batalha. E com a firmeza dos Bono, a combatividade dos Amrabat e a inclemência dos En-Nesyri desbaratava a admirada táctica do quadrado, espécie de tiki-taka dos torneios ibéricos, engendrada por Mister Álvares Pereira, 200 anos antes. “O Desejado" cavalgou ao encontro de uma morte inglória, treslouco pelo cristianismo assanhado e miragens de glória a clamar “Sebastião, Sebastião, Sebastião”. Não nos inebriemos se, às tantas, ouvirmos a multidão de árabes e berberes no estádio do Catar também chamar o capitão-mor das tropas lusas, “Cristiano, Cristiano, Cristiano”.
Será apenas um enganador salamaleque colectivo, o canto das sereias do deserto. Fazem-no com a sabedoria negocial com que nos impingem marroquinaria nos “souks” da praça Jemaa el-Fna, dos encantadores de serpentes, pelo triplo do valor real. Ou com a desfaçatez com que em 1986 endrominaram o ingénuo Bom Gigante, José Torres, atormentado pelas patetices de Saltillo, tal como o selecionador tem andado assoberbado pelas tolices de Doha.
Se de Alcácer Quibir saiu um novo Sultão, Aḥmad al-Manṣūr (Aḥmad, o Vitorioso), que se cumpra o destino, meio messiânico, meio sebastiânico, de sair da batalha de Al-Thumama, contra todo o mundo árabe reunido em apoio de Marrocos, um novo Rei, Amado Portugal, o Vitorioso.
Oxalá!"

Catarses 2️⃣4️⃣ Oração pelo Cristio-ronaldismo


"Ricardo Reis, o clássico “criativo” de influência brasileira e um dos craques principais do vasto plantel à disposição do seleccionador Fernando Pessoa, atacou o pecado da soberba na ode “Quero ignorado, e calmo”, uma oração à humilde gratidão, muito atual e reflexiva:
“Aos que a riqueza toca, o ouro irrita a pele.
Aos que a fama bafeja, embacia-se a vida.”
“Aos que a felicidade, é sol, virá a noite.
Mas ao que nada espera, tudo que vem é grato.”
A gratidão (e a falta dela) provocou nos últimos dias um autêntico cisma na vasta legião de seguidores desta nova igreja do Cristio-ronaldismo que vinha medrando há anos em franjas da sociedade portuguesa, primeiro como família, em seguida como claque devota, depois como seita incondicional e, finalmente, como religião de fanáticos exaltados e absolutamente intolerantes aos espíritos críticos. Não é a primeira vez que esta conexão espiritual com o futebol se desenvolve em formato religioso. Com Pelé e os campeonatos do mundo nasceu o conceito “Deus é brasileiro”, embora perdendo de goleada para a eficácia do candomblé com seus orixás e pais de santo.
E, mais tarde, a Igreja Maradoniana, fundada em 1998 na cidade argentina de Rosário, com todos os seus preceitos em 10 Mandamentos e obediência ao divinal tetragrama D10S (Dios), que confunde o D de Diego com o seu número, e que conta os anos como a.D. e d.D, antes e depois do nascimento d’Ele:
“Diego nosso, que estás no céu, santificado seja o teu pé esquerdo…”
Por cá, é frequente ouvir que a marca CR7 é maior que Portugal, pela força dos seus triliões de seguidores, e arrisco-me a afirmar que terá mais fiéis do que muitas religiões milenares, arrastando multidões de crentes que nunca tinham sentido necessidade de empunhar a palavra e sair à liça em defesa do seu profeta.
Idolatrava-se este novo cruzado por ser pacífico e magnânimo, tomando conta do mundo pela graça do seu toque de bola e pelos golos milagrosos que fazia à vista de todos, segundo os três mandamentos dos deuses do Olimpo, “mais rápido, mais alto, mais forte”.
Mas agora, nada se diz que não descambe em discussão inclemente e agressiva contra os cépticos, os ingratos, os injustos, os hipócritas, os invejosos, os mal-agradecidos, os traidores, os jagunços, os arrombados, os babacas, “essa gentalha”, para citar alguns dos epítetos com que vi e ouvi serem catalogados os que ousaram manifestar-se a favor das mudanças do seleccionador e contra o vedetismo exacerbado de um extraordinário jogador de futebol em evidente ‘off side’.
O cisma separa os indefectíveis, para quem é inadmissível questionar a infalibilidade dogmática da divindade, dos hereges protestantes que deixaram de reconhecer a autoridade técnica, táctica e física do líder espiritual, pelo menos no âmbito da selecção.
Esta vigilante e estulta “polícia da ronalidade” começa o enunciado das suas contra-ordenações por “não percebo de futebol, mas…”, convicta de que os que se colocaram do lado do “Nós” são perigosas ameaças para “Ele”.
Os blasfemos foram ameaçados de excomunhão, pelos sacerdotes e pelas vestais saídas a terreiro em desagravo do “supremo monstro sagrado esculachado pela mula (Fernando Santos)”, como eloquentemente definiu um “pastor” brasileiro do ramo universal deste reino, numa corrente de libertação no YouTube, enquanto bramava contra os golos de Gonçalo Ramos.
”Preferia Ronaldo a titular do que a vitória contra a Suíça”, afirmou urbi et orbi, na mesma linha num púlpito aberto a cabotinos, outro desses diáconos sem remédio, mortificando-se com o cilício televisivo - o cinto de arame que tritura o corpo e não o silício orgânico que combate o envelhecimento -, como penitência alheia pela longa lista de pecados e omissões averbados nos últimos tempos ao deus-homem nos terreiros do Catar.
Caríssimos irmãos, oremos, então, pelas palavras do poeta para que a compreensão acenda a luz nessas vidas embaciadas pela fama e assoberbadas pela riqueza. Oremos pelo verbo do evangelista do Português para que a humildade ilumine e gratifique estes tempos de trevas.
“Quero ignorado, e calmo (Cristiano)
Por ignorado, e próprio (Ronaldo)
Por calmo, (o Futebol) encher meus dias
De não querer mais (os Golos) dele(s)”
Que me perdoe, o Supremo Ricardo Reis, autor de “Segue o teu destino”, por esta derradeira infâmia satânica contra a ode e a língua, religiosamente a pátria de todos “Nós”:
“Os deuses são deuses
Porque não se pensam”"

Saviola não esquece o Benfica

Alberto Mota, in Facebook