Últimas indefectivações
quarta-feira, 29 de abril de 2020
Mensagem do treinador do hóquei em patins, Alejandro Dominguez
"Vivemos tempos muito difíceis, nos quais a nossa capacidade de superação e a nossa força de espírito são testadas diariamente. Desde que trabalho no Benfica, estas duas qualidades estão presentes diariamente em todos nós, porque faz parte do nosso ADN. Agora, o mais importante é que possamos continuar a acreditar nesses valores e a transmiti-los a todos os que estão ao nosso redor, criando assim uma forte sinergia que influencie todo o mundo. Porque hoje existe apenas uma equipa, e essa equipa é toda a humanidade.
Sempre acreditei que, de todas as circunstâncias que ocorrem diariamente, se pode aprender ou retirar algo de positivo, e esta situação não é diferente.
Acredito que podemos aprender e aproveitar a oportunidade de ficarmos confinados em casa para fazermos muitas coisas que, vivendo a 2000 quilómetros por hora, não podemos fazer. Mas não apenas para isso, também para reflectirmos, fazermos um pouco de trabalho interior e assim encontrarmo-nos connosco próprios.
Todos os dias penso nas pessoas que sofrem desta pandemia e espero que possam superá-la. Agradeço desde já a todos os profissionais que estão na linha da frente, colocando em risco a sua própria saúde para ajudar os outros. E é exactamente isso que me dá esperança para o futuro, somos seres capazes de fazer coisas fantásticas.
Uma das coisas mais importantes que o desporto me ensinou é a perseverança. Penso que, se continuarmos com um passo firme, sairemos desta pandemia e voltaremos a desfrutar do nosso trabalho, do nosso Clube.
Agradeço ao universo Benfica por nos acolher a todos e nos pôr em contacto, de forma a podermos transmitir energia positiva… Força Para Todos, Força Benfica!
Alejandro Domínguez"
Dançando !!!
Ver esta publicação no Instagram🕺 Celebra-se hoje o Dia Mundial da Dança!
Uma publicação partilhada por Sport Lisboa e Benfica (@slbenfica) a
SL Benfica l A história dos jogadores estrangeiros
"Jonas, Gaitán, Preud’homme, Garay, Luisão, Ricardo Gomes, Gamarra, Di Maria, Cardozo, Aimar, Schwarz, Witsel, Poborsky, Mozer, Miccoli, Them, Canniggia, Oblak, Javi Garcia, Valdo, Isaías, Magnusson, etc. Foram inúmeros os grandes jogadores estrangeiros que envergaram o manto sagrado, mas nenhum destes jogadores poderia ter alinhado ao serviço do SL Benfica antes de 1978.
Uma assembleia geral em Julho de 1978 ficará para sempre na história do Sport Lisboa e Benfica. Desde a sua fundação o clube encarnado tinha apenas contado com jogadores portugueses nos seus planteis. Ao contrário da maioria dos clubes portugueses, o SL Benfica sempre se recusou a aceitar estrangeiros na equipa.
Foi precisamente isto que a assembleia geral, mencionada anteriormente, alterou. Os sócios decidiram (com cerca de 500 mil votos): eram agora aceites estrangeiros na equipa das águias.
A decisão dos adeptos tinha como objectivo recuperar o poderio europeu da década de 60 e não perder o comboio dos rivais, que já há várias décadas contavam com estrangeiros nas suas fileiras.
O primeiro estrangeiro só chegaria à Luz em 1979. Jorge Gomes Filho foi contratado ao Boavista FC.
O avançado brasileiro, que fez praticamente toda a carreira em Portugal, esteve apenas três temporadas de águia ao peito, tendo apontado apenas 13 golos.
O que fez dentro de campo esteve longe de ser histórico, mas Jorge Gomes Filho abriu uma porta para a entrada de estrangeiros no SL Benfica, marcando assim o seu nome na história do clube lisboeta.
Logo em 1981, chegou ao Benfica Zoran Filipovic, o primeiro estrangeiro de um país não pertencente à actual CPLP. O avançado jugoslavo, nascido no que é hoje o Montenegro, marcou 39 golos em três temporadas no Estádio da Luz.
Ao longo dos anos 80, apenas 10% a 20% do plantel dos encarnados era constituído por estrangeiros.
Na década de 90, o panorama começou a mudar ligeiramente. A chegada de um elevado número de jogadores brasileiros e a aposta em mercados emergentes como o norte da europa ou os Balcãs fizeram aumentar o número de estrangeiros na equipa da Luz. Percentualmente, cerca de 25% a 35% da equipa era agora composta por estrangeiros.
Já no novo milénio, com o fenómeno da globalização cada vez mais presente, o número de estrangeiros no SL Benfica disparou. Por esta altura, os portugueses já compunham apenas metade do plantel. A percentagem de portugueses foi diminuindo paulatinamente ao longo da primeira década do século.
Durante a era de Jorge Jesus, a percentagem de portugueses na equipa foi a mais baixa desde que há memória. Na época de 2009/2010, pela primeira vez na história do clube encarnado, os portugueses não eram a nacionalidade maioritária do plantel. Os 14 brasileiros da equipa equivaliam a 40% do plantel, face aos 31,4% “ocupados” pelos portugueses.
Na época seguinte, foi registada a mais baixa percentagem de portugueses de sempre num plantel do SL Benfica: cerca de 30% (a época mencionada e as épocas de 2013/14 e 2014/15 têm números praticamente idênticos).
Na época de 2010/2011, apenas três jogadores portugueses eram opções (relativamente) viáveis para o treinador: Rúben Amorim, Eduardo e Nélson Oliveira. O guardião português realizou apenas nove jogos, o agora treinador do Sporting CP vestiu a camisola das águias apenas 10 vezes e Nelson Oliveira jogou por 22 vezes, mas apenas três como titular.
Após a saída de Jorge Jesus e com a clara intenção da direcção em apostar na formação, o número de portugueses na equipa principal das águias, naturalmente, cresceu.
Esta temporada, a percentagem de portugueses voltou a subir acima dos 40% (46%), coisa que já não acontecia há já várias temporadas.
É absolutamente correta a ideia de que a nacionalidade de um jogador não interessa absolutamente nada dentro de campo. Numa altura em que a globalização se torna cada vez maior, as fronteiras vão perdendo importância e a ideia de uma cultura mais mundial se vai tornando cada vez mais presente, serão cada vez mais os jogadores a jogar fora do seu país (como acontece a tantos e tantos portugueses).
No entanto, é sempre importante para a identidade de uma grande instituição e para o ego dos seus adeptos ver o seu clube ter uma significativa base nacional e ver muitos dos atletas tornarem-se internacionais.
Neste momento o SL Benfica está numa excelente situação no que diz respeito a talento nacional. Se estes jovens forem geridos de uma forma sustentável que promova o seu desenvolvimento, o clube encarnado tem tudo o que é preciso para vir a ser uma das bases da selecção nacional."
Vem aí a crise, e esta vai doer
"Os clubes começam a dar sinais de instabilidade financeira, e o que aí vem é pouco animador. Os clubes vão ter que se reestruturar, mas resta saber se todos aguentam.
O FC Porto anunciou recentemente que vai optar por adiar o pagamento de um empréstimo obrigacionista que vencia a 9 de Junho - os dragões querem pagar em Junho de 2021. É evidente que a instabilidade actual explica a solução encontrada pelos portistas, mas não reembolsar os investidores na data prevista é sempre uma má notícia para as entidades. No entanto, sublinhe-se que o clube admite liquidar a dívida antes, em Janeiro de 2021, caso tenha condições para isso.
A emissão de obrigações nesta fase também não é solução, porque os ditos “mercados” estão em pânico - e quando os investidores andam por aí a implorar ajudas do estado, parece improvável que queiram arriscar grandes investimentos no mundo do futebol português. O exemplo do FC Porto serve apenas para sustentar que, na minha opinião, aproximam-se tempos muito difíceis para os clubes do campeonato.
Parece-me claro que as empresas vão entrar numa fase de contenção de custos, e isso vai seguramente reflectir-se nos contratos de publicidade, não só em Portugal como no resto da Europa.
E podemos estar perante um efeito dominó: menos dinheiro a circular no futebol europeu, menos compras milionárias que, frequentemente, ajudam (e de que maneira) os clubes portugueses. E assim nasce outro problema, transversal aos principais emblemas da nossa Liga: vendas como as conseguidas nos últimos anos (a de Bruno Fernandes é a mais recente) parecem impossíveis de concretizar por agora.
E que impacto pode ter nas finanças destes clubes? É natural que Porto, Benfica e Sporting (e outros) estivessem a trabalhar no sentido de ainda conseguir transferir alguns jogadores no mercado, mas confesso que ficaria muito surpreendido se fosse mesmo possível concretizar uma grande venda nos próximos tempos. Por isso, vai ser preciso apertar o cinto...
Também tem sido mais ou menos discutida a questão salarial. Os clubes terão chegado a entendimentos diferentes com os jogadores - alguns com cortes salariais, layoffs, outros a pagar em prestações, e por aí fora - porque nitidamente não há capacidade para pagar agora. E quando haverá?
Pior: nas últimas horas, a Altice já avançou que não vai pagar aos clubes os valores das transmissões, porque estas nem sequer existiram. Portanto, em Abril, alguns clubes arriscam-se a ter zero receitas. E daí se percebe a «pressa» em regressar à competição, mesmo sem adeptos nas bancadas (algo que vai fazer correr muita tinta, acho).
O cenário é muito pouco animador. Os clubes de maior dimensão vão-se gerindo de empréstimo em empréstimo, com antecipação de receitas e alguns exercícios de contabilidade pelo meio. A dívida dos três grandes (e de outros clubes de menor dimensão) é astronómica, e admito que não consigo vislumbrar como vai ser gerida daqui para a frente.
Por outro lado, e conhecendo o historial de alguns emblemas nacionais, começa a ser claro que dificilmente vão conseguir cumprir os compromissos assumidos. E vou mais longe, temo sinceramente que alguns clubes não consigam ultrapassar as dificuldades, e se afundem nas divisões inferiores.´
Para terminar, e os clubes da II Liga e Campeonato de Portugal? Para já, reina a confusão. As receitas já são poucas, teme-se que nos próximos meses passem a ser quase nenhumas. Estou certo que alguns não vão aguentar.
Foi anunciado que António Costa vai receber os presidentes dos três grandes - ajuda a traduzir o sentimento de preocupação do momento - mas não deixo de lamentar que não haja espaço para os representantes de outros clubes. Se é óbvio que Porto, Benfica e Sporting vão sofrer (menos transferências, publicidade cortada…), também é óbvio que os clubes do meio da tabela para baixo podem sofrer ainda mais, com consequências mais devastadoras.
Esperemos que se pense sobretudo nestas equipas, e não se siga o exemplo que algumas elites defendem para o país: ajudar quem tem muito, sacrificar quem já tem muito pouco.
E que se aproveite para pensar nos elogios permanentes ao chamado “futebol-negócio”, com a figura supostamente inevitável dos «clubes-empresa». O desporto precisa mesmo de fazer girar tantos milhões nalguns bolsos? Será que um futebol mais popular e menos financeiro não estaria mais apto para aguentar um embate destes? Provavelmente."
A Liga à beira do abismo
"Alguns clubes da primeira liga correm mesmo risco de sucumbir de forma irreversível. Sem precipitações, há pois que avaliar com bom senso os passos que a seguir serão dados.
Tem sido intensa a actividade para que seja possível encontrar rapidamente uma solução definitiva para todos ficarmos a saber o que vai ser o futuro do futebol em Portugal.
Ontem foi dado um passo importante nesse sentido, tendo o Primeiro-Ministro chamado a São Bento as figuras mais proeminentes da modalidade e com elas reflectir sobre o que mais convirá fazer no imediato.
Como nota mais relevante ficou a promessa de haver amanhã uma decisão, após ser consultada a comissão que foi constituída para, face às circunstâncias, emitir uma opinião baseada em razões concretas, e tendo em conta a exigência de serem respeitadas as condições sanitárias que se colocam num momento tão delicado das nossas vidas.
Há já exemplos de decisões de ruptura adoptadas em outros países europeus. A mais recente chegou-nos ontem de França, onde o governo de Macron assumiu que a temporada futebolística terminou, lançando deste modo a Ligue 1 para um beco do qual vai ter muita dificuldade em sair a curto prazo.
Bélgica e Holanda já haviam dado os primeiros sinais, havendo dúvidas sobre o que vai acontecer na Itália, Espanha e Inglaterra, países onde também tem havido intenso debate sobre as condições em que o futebol pode regressar aos estádios.
Na Espanha, sobretudo, parece haver alguma resistência por parte dos jogadores para tudo recomece, colocando estes sobre a mesa exigências que visam a protecção dos seus direitos, particularmente o direito à saúde.
Por cá, depois do plano elaborado da Liga de Clubes, arrojado e já com datas previstas para as fases que poderão seguir-se, a situação deu agora um passo atrás. Antes de tudo, há necessidade de se avaliarem os riscos decorrentes de um recomeço destemperado, que poderá acarretar prejuízos incalculáveis.
Claro que os clubes, sobretudo os maiores, estão numa situação desesperada. Sem receitas e sem perspectivas de as poder recuperar a curto prazo, é caso para dizer que estão à beira do abismo.
Alguns clubes da primeira liga correm mesmo risco de sucumbir de forma irreversível. Sem precipitações, há pois que avaliar com bom senso os passos que a seguir serão dados.
Para já, a bola está do lado da comissão técnica encarregada de elaborar um parecer definitivo. Sem esquecer que o Comité Médico da FIFA já deu o seu veredicto: “o futebol não deve regressar antes de Setembro”."
28 de abril de 1967: O dia em que Muhammad Ali disse quatro vezes não à Guerra do Vietname. E ficou quatro anos sem combater
"Foi há 53 anos que Muhammad Ali deixou de ser apenas o melhor pugilista do Mundo para se tornar também numa das caras da luta contra a guerra e a discriminação. E assim nasceu o ícone. Mesmo que com custos para a sua carreira
Chamaram o seu nome três vezes. E das três vezes Muhammad Ali ficou quieto, sem mexer um músculo que fosse, a antítese daquilo que fazia nos ringues, onde era tão rápido de mãos e pés, com aqueles reflexos de gato - "planava como uma borboleta e picava como uma abelha", diziam. Das três vezes, Ali renunciou aquilo que lhe parecia inexplicável, sair do seu país, deixar o boxe, para pegar numa arma e ir matar vietnamitas. A guerra não era sua, Ali recusou-a, embora isso fosse crime punível até cinco anos de cadeia, como lhe disse o oficial naquele centro do exército norte-americano em Houston.
E à quarta, Ali voltou a não dar um passo em frente. Foi preso. Nesse mesmo dia, 28 de Abril de 1967, perdeu a licença para combater e os seus títulos mundiais foram-lhe retirados pela Associação Mundial de Boxe. E nos três anos seguintes, Muhammad Ali, "The Greatest", não pode ser o maior nos ringues.
Aquela manhã de Abril de 1967 era o culminar de meses e meses de guerra fria entre Ali, a consciência de Ali e uma América que ele não aceitava. No início de 1966, e apesar do estatuto de campeão mundial de pesos-pesados, Muhammad Ali foi colocado no grupo de norte-americanos elegíveis a serem chamados para o exército, o que naquela altura significava guia de marcha para a selva do Vietname.
Ali recusou, considerou-se um objector de consciência. As razões foram religiosas - Ali já se tinha então convertido ao Islão - mas era também uma questão de direitos humanos. "Eu não tenho nada contra os vietcong. Eles nunca me chamaram preto", diria. Ou ainda: "Porque haveriam de me pedir para vestir um uniforme, viajar milhares de quilómetros para lançar bombas e espetar tiros às pessoas do Vietname quando os chamados pretos de Louisvile continuam a ser tratados como cães, sem os mais simples direitos civis?".
Depois de dizer quatro vezes não ao Exército, Ali foi presente a um tribunal de júri totalmente branco, que em 21 minutos ditou a sentença: culpado por violar a lei militar.
O caso só veria a luz do recurso quatro anos depois e nesses quatro anos Ali não passou pela prisão, mas tão-pouco pode competir. Entre os 25 e os 29 anos, talvez no pico da sua capacidade física, tornou-se um pária para os patriotas, mas um símbolo para todas as vozes que se insurgiam contra a guerra, a favor dos direitos civis, pelo fim da discriminação à qual os negros continuavam a ser subjugados em território norte-americano.
Só em 1970 Ali foi de novo autorizado a combater. Só em 1971, com os EUA já cansados da guerra, a condenação de Ali foi finalmente revertida. E só depois da travessia no deserto, Ali foi o Ali do Combate do Século, do Rumble in the Jungle, do Thrilla in Manila.
Mas terão sido os anos em que a sua consciência não lhe permitiu calçar as luvas de boxe que tornaram Muhammad Ali num ícone, para lá do pugilista mais preponderante da história, ainda que espoliado dos seus melhores anos por uma decisão de um tribunal de homens brancos. "As acções de Ali mudaram os meus critérios para aquilo que considero ser a grandeza num atleta. Ter um lançamento assassino ou a capacidade de parar um golo já não chegava. O que fizeste para libertar o teu povo? O que fizeste para ajudar o teu país a viver de acordo com os princípios do seus fundadores?", escreveu em tempos o jornalista negro William Rhoden no "The New York Times".
Isso sim, chama-se grandeza."
terça-feira, 28 de abril de 2020
Decidir ou não decidir: eis a questão
"Há uma Secretaria de Estado do Desporto, que, infelizmente, é uma Secretaria de Estado do Futebol, Similares e Afins
1. O presidente da UEFA varia de opinião mais vezes de que o meu papagaio diz «Benfica!», ao longo do dia, independentemente de se jogar ou não, e do resultado. Já ouvi milhentas versões de como podem vir a decorrer a presente época, as competições europeias, as semanas para as selecções nacionais e, claro está, a próxima temporada. Não é que seja fácil tentar encaixar tudo no calendário anual, que indiferente ao coronavírus, se mantém igual, ainda que bissexto em 2020. Bem pelo contrário, tentar conciliar tudo, mesmo o inconciliável, é uma tormenta. Acontece que, salvo melhor opinião, a UEFA não existe para dar palpites, divulgar opiniões de momento, divagar em forma volitiva de simples desejos. Afinal, esta organização, tão poderosa, inclusiva e fulminante em sancionar clubes e em encaixar fartos fundos, agora está a ser posta à prova num assunto em que, apesar de todas as dificuldades e imprevisibilidade, se exige uma rota menos ziguezagueante para orientação geral.
Já ouvimos n datas para se poder finalizar a Champions e a Liga Europa (taças que, infelizmente, só indirectamente nos interessam), bem como para o reinício e fecho da temporada. Já lemos a recusa de aceitação de cancelamento de campeonatos (por exemplo, o belga) num dia e, em outro a seguir, a possibilidade de considerar essa situação, desde que tudo seja transparente(?). Já se falou tanto de não haver férias de Verão, como o seu contrário, ou até a sua passagem para um mês mais frio. Quanto ao defeso, também há x cenários, que é como chamam à confusão de não decisão. Também já ouvimos, a nível da FIFA, promessa de montantes de apoio aos clubes de um modo tão genérico, que se resumem a um denso nevoeiro.
2. E nada ou muito pouco se tem reflectido sobre o necessariamente diferente paradigma, que vai ser o do futebol de alta competição no futuro. Tal como nas diferentes federações que, umas mais, outras menos, andam longe destas preocupações, apenas assestando baterias para a resolução desta época. Este tempo é um teste fundamental para das duas, uma: ou se mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma, numa lógica falsamente reformadora; ou se enfrenta radicalmente o futuro que jamais coincidirá com o quadro até agora vivido e se começam a reformar as instituições, as leis, as regras, as sociedades desportivas, as competições, o papel da intermediação, os direitos televisivos e de imagem, a fundamentação e sustentação dos níveis salariais.
Sejamos claros: talvez em 2022, possamos ir todos encher estádios sem a angústia de contágios. E até lá como vai ser? Transformar o futebol numa coisa distante visionada sem ser vivida? Manter as cosias como se a normalidade estivesse assegurada? Considerar os jogadores uma espécie de artistas de circo, que se exibem através de uma tela, onde a emoção será quando muito liofilizada? Considerar os atletas cobaias de retoma, indiferentes a segundas vagas pandémicas (o caso da Alemanha, por exemplo)?
3. É ridículo o modo como algumas equipas voltaram aos treinos. Ridículo e legalmente discutível se considerarmos que ainda estamos na vigência do estado de emergência. Um desporto associativo treinado em regime de separação total dos plantéis, cada qual nos seus privativos metros quadrados (e, neste pormenor, aprofundando a diferenciação entre os clubes que têm campos e instalações que o permitam, aspecto que não se verifica da maioria dos clubes), tomar o duche em casa, etc. Enfim, um simulacro que pode até parecer bem no marketing mediático, mas que é de todo inconsequente. É que, certamente por um qualquer milagre operado, umas semaninhas depois já podem andar todos ao molho e, outras poucas semanas após, jogarem para as competições, não sei se com máscara (como está ser falado na Alemanha em cada 15 minutos de jogo!). Aí, os veremos correndo, chocando, saltando, caindo sozinhos ou em grupo, ainda que, hilariantemente, talvez não possam festejar os golos e, nalguns casos, fazer as rodinhas do antes e do depois.
Sinceramente, acho que, na maioria dos países, se está a forçar uma situação para reatar tão breve quanto possível os jogos por disputar. Percebo a pressa, mas não compreendo a precipitação. Os clubes precisam, naturalmente, de voltar a produzir o serviço que prestam à sociedade. Até aqui nada de diferente de outra qualquer actividade económica de produção de bens ou serviços. Claro que a primeira tendência dos poderes políticos, mais do que das autoridades sanitárias, é de acelerar tanto quanto seja possível a autorização e disponibilização deste bem desportivo e lúcido e com reflexos em muitas outras actividades que vão dos operadores de telecomunicações, a estações de televisão e radio, a publicidade, apostas desportivas e online, etc. Assim o poder reforça a sua perspectiva popular e é aplaudido pela população desejosa de voltar a ter na tela uma catrefada de jogos em modo de salsicharia. No fundo, trata-se de fingir um rápido regresso à normalidade. Acontece que a normalidade já não vai ser o que era, ainda que todos finjam, por agora, que vai. Repisando pontos que já tratei nesta coluna, este frenesim quase planetário leva a um conflito de interesses entre o como acabar a presente época e como deve ser a próxima temporada. Tudo empilhado e encavalitado, onde até agora só tenho visto palpites e suposições. Acresce que, na minha opinião, se está a considerar a eventual pré-época para concluir as competições, como se tratasse de uma pré-época típica do Verão. Creio que as condições de partida para os atletas serão bastante diferentes. Mais tempo de paragem (não menos de 2 meses), uma situação clínica e desportivamente inédita, não existência de um planeamento com conta, peso e medida, como é compreensível, sem jogos amigáveis de preparação e de exigência desportiva, maior dificuldade em percepcionar ou prevenir lesões e consequências para a época seguinte. Depois, imaginemos dois jogos por semana no mês tradicionalmente mais quente e sufocante, como é o de Julho, em que para garantir as transmissões televisivas haverá jogos a horas absolutamente nada recomendáveis. A isto se somam as competições internacionais de selecções e de clubes, o Europeu 2021 (perdão, 2020, depois da corajosa decisão da UEFA) e os Jogos Olímpicos do mesmo ano, a definição dos tempos de defeso e de contratações que corre o perigo de se transformar, ainda mais, numa espécie de amiba transaccional, na qual os mais fortes são sempre beneficiados.
4. Por fim, o absoluto domínio do futebol sobre todos os outros desportos colectivos. Verdadeiramente só se fala do futebol nesta contingência. Parece que o resto não existe ou é desprezível. Basquetebol, hóquei em patins, voleibol, râguebi, andebol, futsal despertam, quanto muito, umas breves notas de rodapé sobre o que lhe está ou pode acontecer. Os atletas estão mais desprotegidos, um qualquer lay-off não suscita interrogações de maior, tudo numa boa visto de fora. E, no entanto, imagino as brutais dificuldades de clubes, não só dos eclécticos e grandes, mas sobretudo dos mais pequenos sem que o seu grito se ouça mediaticamente. Até por uma questão de gratidão, importa considerá-los, pelo muito que, tão abnegadamente, são à modalidade em que competem e à terra que deles se orgulha. Eu, que gosto de futebol, sinto a falta dele, como do hóquei, do basquetebol, de voleibol. Não tenho uma visão totalitária do futebol e recuso olhar para a actividade desportiva centrado apenas neste desporto. As modalidades bem precisariam de um verdadeiro provedor que defendesse os seus valores e interesses. Há uma Secretaria de Estado do Desporto, que, infelizmente, é uma Secretaria de Estado do Futebol, Similares e Afins. Mais uma vez, tudo reflexo dos interesses económicos que o futebol possibilita e as modalidades não envolvem, tudo medido em tácticas posições de retorno político que aquele garante e estas não permitem. Numa imagem caricatural, as modalidades neste tempo de pandemia estão para o desporto global, como as pessoas velhas estão para o resto da população. Descartadas, descentradas, esquecidas.
P.S. - Mesmo neste tempo de insondáveis desafios, há comentadores e jornais da tribo que continuam obcecados, no compulsivo registo habitual,como o inimigo SLB. Façam o favor de olhar para dentro, se querem ter motivos bastantes para se preocuparem ou dar fartas notícias."
Bagão Félix, in A Bola
Só o Benfica resiste
"Fez três anos que Luís Filipe Vieira teve uma afirmação muito polémica e que foi manchete em A Bola. Afirmou ele: «Estamos dez anos à frente da concorrência»
O comité executivo da UEFA, na reunião da última quinta-feira, anunciou uma mão cheia de nada em termos de medidas concretas para combater a influência da pandemia no negócio do futebol. Pelo contrário, assumiu a derrota e, no limite, reconheceu às federações liberdade para decidirem em função das orientações recebidas das autoridades de saúde dos respectivos países.
Por cá, o Sporting chegou a um entendimento com o plantel para a redução dos vencimentos em 40 por cento nos meses de Abril, Maio e Junho, no caso de não haver mais competição esta época, com promessa de devolução de 20 por entro se o campeonato recomeçar, paga em duas prestações de dez por cento, a primeira em Dezembro deste ano e a segunda em 2021. Entretanto, ficou a saber-se ainda que, por causa do coronavírus, a administração leonina está a trabalhar na revisão do orçamento 2020/2021, que deverá baixar dos 70 milhões inicialmente previstos devido à contratação do Ruben Amorim. Em concreto, haverá menos dinheiro para «aplicar noutras aquisições ou noutro investimento», conforme esclareceu o administrador Salgado Zenha (A Bola de 22 de Abril).
Nesse mesmo dia soube-se que a equipa técnica do FC Porto aceitara o corte nas remunerações, já partir deste mês, em 40 por cento, enquanto as competições não forem retomadas. No sábado, A Bola noticiou que idêntico acordo fora alcançado com o plantel e que o atraso no entendimento com os jogadores ficara a dever-se a divergências sobre o recebimento da diferença, que deverá ser feito assim que for garantida a entrada na Liga dos Campeões.
Nesta última semana, de terça a terça, o Benfica também foi notícia, mas em contramão ao sentido de leões e dragões. Na quarta-feira (dia 22), foi divulgada o teor de uma carta de Luís Filipe Vieira às casas e associados do clube. No essencial, o presidente encarnado quis dirigir uma palavra de conforto aos sócios («a alma deste clube») e expressar o reconhecimento pela acção das Casas do Benfica («exemplo de solidariedade com as suas comunidades locais»).
Vieira apelou à união do universo benfiquista em momento particularmente severo através de uma mensagem de confiança e de esperança, mensagem confirmada no dia seguinte com a notícia do pagamento na totalidade à estrutura profissional do futebol e com a informação de que eventual revisão salarial apenas será colocada em cima da mesa a partir de altura em que não se vislumbrar outra solução, o que, por ora, não é o caso. E não é porque, como explicou Domingos Soares Oliveira, o administrador executivo da SAD e CEO do grupo Benfica, mesmo em tempo de muitas sombras, a marca está bem preparada e só por isso lhe foi possível reembolsar os investidores do empréstimo obrigacionista 2017-2020, no valor de cerca de 50 milhões de euros, «no meio da maior crise que cada um de nós já viveu».
Domingos Soares Oliveira comunicou ainda que o Benfica reduziu a dívida bancária para «valores quase históricos» e tem em caixa 50 milhões de euros, o que lhe permite olhar em frente com «uma confiança moderada», confiança essa que é sustentada pela condição económico-financeira de águia, com suas disponibilidades de tesouraria, mas, paralelamente, com as reservas que se impõem na medida em que ninguém sabe o que «o futuro nos reserva».
O Benfica é o único que mostra capacidade para resistir aos efeitos da pandemia e é essa estabilidade que irrita, os seus adversários por verem nele, mesmo não o querendo admitir em voz alta, o mais forte de todos. É o maior dos grandes e, devido a essa evidência, a figura de Luís Filipe Vieira é tão massacrada: pelos rivais externos, por terem percebido há muito que enquanto ele tiver saúde e vontade será muito difícil travar a ascensão da águia, e também pelos internos, os quais, sentindo uma irreprimível atracção pelo seu lugar, mas não podendo ignorar a magnífica obra edificada, se agarram à demora do futebol profissional em recuperar a hegemonia que o FC Porto lhe roubou.
É o único argumento, embora falacioso, que poderá gerar incómodo entre família encarnada, apesar de na última década se ter vindo a consolidar essa recuperação: Benfica, seis campeonatos e FC Porto, quatro, nos últimos dez anos, e Benfica cinco e FC porto um nos últimos seis.
Pode parecer pouco aos mais agitados, mas é um inequívoco sinal de mudança, além de não ter sido por falta de condições de trabalho ou de défice de qualidade dos plantéis que o Benfica falhou os títulos de 2012 e 2013, no tempo de Jorge Jesus (excesso de vaidade), de 2018, com Rui Vitória (fraca ambição), e, muito provavelmente, o de 2020, com Bruno Lage (fala de tarimba). No total foram três campeonatos deitados à rua e um quarto em vias disso. Dizia o professor Medeiros Ferreira que todos os treinadores são carprichosos, o problema é que esses caprichos, geralmente, saem caro aos clubes.
Fez agora três anos que Luís Filipe Vieira teve uma afirmação muita polémica e que foi manchete na edição de A Bola de dois de Março de 2017. Afirmou ele: «Estamos dez anos à frente da concorrência».
Não sei se os anos serão tantos, mas o Benfica está muito à frente. Sobre isso não tenho dúvidas."
Fernando Guerra, in A Bola
Treinador decisivo nesta miniépoca
"Se o campeonato recomeçar - e esperamos, evidentemente, que sim - não recomeçará do ponto em que ficou. Aliás, para dizer a verdade, o campeonato da época da 2020 finou-se de forma tão imprevista abrupta. O que se promete começar é um pequeno campeonato, aliás, decisivo e que terá, do primeiro, a herança dos pontos. Nada mais do que isso.
O que pode ser importante e desportivamente justo, mas qualquer recém chegado ao mundo da competição entenderá que fundamental é a qualidade da pré-época que, agora, começa. O que coloca a decisão do título, e de outros lugares de qualificação, mais nas mãos dos treinadores do que nos pés dos jogadores. A questão que se coloca é nova. O período de paragem foi demasiado para haver uma continuidade e, assim, há que preparar uma miniépoca, de mês e meio, com jogos duas vezes por semana, por isso curta e muito intensa.
Nenhum treinador estava preparado para tal e nenhuma equipa, alguma vez, teve esta experiência. Daí que, mais do que qualquer outro, seja um campeonato de um só homem. O vencedor terá, pois, um misto de mérito de competência, por ter pensado e planeado com rigor técnico esta novidade competitiva, e, também, de sorte, porque ninguém poderá jurar o sucesso de uma ciência por experimentar.
Temos, pois, de aceitar que, este, seja um campeonato único, entre todos aqueles que se disputaram em Portugal. Mais tarde, mesmo depois de muitos anos passados, poucos se lembrarão de dizer que o clube P, ou o clube B, soma X títulos... mais um, que foi aquele muito especial na época de 2019/2020. Nem tudo a História recorda."
Vítor Serpa, in A Bola
Aquele homem que vinha do ano 2000
"Em Barcelona, no Camp Nou, num amigável disputado em Outubro de 1966, Eusébio teve momentos fascinantes e marcou um golo que deixou de boca aberta mais de 60 mil espectadores. Enfim, repetia o que havia feito pouco antes, em Inglaterra, no Mundial
Estou preso. Estamos todos? Do alto da varanda vejo o Sado. Saí pela manhã, caminhei pelas ruas estreitas com as portas todas fechadas, dei a volta ao Campo de Touros, caminhei ao longo do rio, de encontro ao sol, semicerrando os olhos, voltei para a varanda onde escrevo, onde escrevo todos os dias, a todas as horas agora sem tempo, qualquer hora serve desde que os textos cheguem com tempo à redacção, é apenas isso que esperam de mim, e não estou habituado a viver sem exigências.
Estou preso no meu sótão, que, como já disse, se debruça sobre o Sado, e escrevo até cansar os dedos no qwert desta nova máquina de escrever que é o computador, e eu tenho saudades da minha antiga Remington, de ferro bruto que herdei do meu avô Joaquim e metralhava ao longo das madrugadas.
Estou preso entre papéis antigos, jornais que perderam as datas. Há um que diz: 'Como vamos viver no ano 2000!'
Tenho vontade de perguntar 'e como vivíamos em 1966?', que é o ano que aparece na capa, por debaixo do título.
Faz tanto sentido uma coisa como a outra, não acham? Não conhecer o futuro é como esquecer o passado. E, porra!, como 2000 já é passado!
Rapaz do futuro!
Uma misturada de coisas, página a página.
O Benfica está em Barcelona, diz uma página.
O professor Joseph Tropes, da Universidade de Washington, avisou que ia provocar os alunos e desatou a tirar a roupa no meio de uma aula até ficar só peúgas.
Um americano reivindicou parte da superfície lunar e avisou que quem lá puser os pés vai ter de pagar uma taxa.
Morreu um cão que gostava de cerveja. A culpa é da cerveja? Não diz. Jornalismo incompleto.
Anuncia-se a construção de um autódromo na estrada Estoril-Sintra. E não é que construíram mesmo?
Foram detidos dois carteiristas na Baixa.
Ainda acham que não há nada para fazer nestas tardes em que nos fecharam em casa? E o mundo todo lá fora? Até este mundo que já foi?
Fernando Riera revelou de véspera a equipa que irá jogar em Camp Nou, contra o Barça, um jogo particular: Costa Pereira; Cavém, Humberto, Jacinto e Cruz; Santana e Coluna; José Augusto, Torres, Eusébio e Iaúca.
Eusébio vai receber um prémio: Troféu Euroevent, troféu para o melhor futebolista do Mundial de Inglaterra, oferecido pelos seus colegas espanhóis, já que a FIFA preferiu Bobby Moore.
Tenho de ir à procura do jornal do dia seguinte para saber resultado: 1-1.
Dia 13 de Outubro de 1966.
60 mil pessoas em Camp Nou: despedida de dois dos favoritos do Barça, Vergés e Gràcia. Ficou desde logo combinado que o Barcelona jogaria na Luz para o jogo de despedida de Ângelo.
Zaballa fez 1-0 no minuto 1.
Os culés levantaram os rabos dos assentos e festejaram felizes, confiantes na vitória gorda.
E os jogadores do Benfica, sobre a relva, como se nada tivesse acontecido, como se continuasse tudo a zeros, trocando a bola, lançando movimentos pelas alas, escutando as ordens de Coluna.
Os catalães ficam confusos. Pareciam senhores dos acontecimentos e, afinal, andavam atrás dos adversários, obedeciam ao seu ritmo, vogavam à bolina da vela que este erguia no meio-campo e no ataque, Pereda, Zaldúa e Zaballa irritavam-se uns com os outros, gesticulavam a torto e a direito, e a bola sempre nos pés dos portugueses, pela direita, pela esquerda, pelo meio, de repente Eusébio, Eusébio o repentista, de fora da área, pontapé fulminante de canhão carregado de pólvora, golo e que golo!, até o guarda-redes Sadurní abriu os braços como se dissesse: 'Que diabo podia eu fazer?' De facto, não podia.
Era amigável. A expressão caiu em desuso, mas era assim que se dizia e escrevia: amigável. Depois de uma hora em que vermelhos e azul-grenás fizeram um esforço real para ganhar, a modorra tomou conta de Camp Nou. O público tivera direito aos seus 60 minutos de espectáculo (e sobretudo àquele remate tonitruante de Eusébio), os jogadores achavam-se agora com direito ao seu descanso ou, melhor, ao seu recreio, iam desenhando movimentos estéticos mas de balizas ao longe, o tempo a passar, substituições atrás de substituições, o contrato estava cumprido, ninguém saía com razão de queixa, vendo bem.
Da minha varanda sobre o Sado sou capaz de imaginar o golo de Eusébio. Vi-lhe tantos e tantos e tantos. 1966: tinha sido, em Inglaterra, um tipo extraterrestre. Alguém vindo do futuro para jogar um futebol que ninguém ainda vira ser jogado. Talvez continuasse no ano 2000. Tão, tão à frente de todos os outros. Sempre tão Eusébio!"
Afonso de Melo, in O Benfica
Águas de ouro
"Com 2 golos, Rui Águas devolveu o Benfica a uma final da Taça dos Clubes Campeões Europeus
'Porquê afinal este continuo e amargurado adiar, ano após ano, do velho sonho de ver o Benfica regressado às suas grandes noites europeias? Porquê, afinal, continua o monstro adormecido?' A cada desaire, os benfiquistas faziam a mesma pergunta.
Na temporada 1987/88, o Benfica, após ter eliminado o Anderlecht nos quartos de final, defrontou o Steaua Bucareste. A 1.ª mão, jogada em casa dos romenos, causava enorme expectativa, pelas dificuldades que as equipas de Leste impõem no seu recinto. Para agravar a situação, Rui Águas tinha 'uma ligeira lesão na tíbia' contraída na partida frente ao Penafiel, da 28.ª jornada do Campeonato Nacional.
Na Roménia, o Benfica lidou com uma equipa extremamente agressiva, com os jogadores e sofrerem entradas excessivas, 'uma carga violenta sobre Rui Águas e logo de seguida uma cotovelada desferida no rosto de Elzo'. Contudo, o Clube apresentou uma estratégia bem delineada e conseguiu um resultado que dava boas perspectivas para o encontro em Lisboa, o empate a zero.
Com o Benfica cada vez mais próximo da final, a expectativa dos adeptos era elevada. Com início às 21h, as bancadas do Estádio da Luz 'estavam completamente repletas desde as 18h45'. Quando o Steaua entrou em campo, ecoou 'limpidez do assobio, enquanto o semblante individual e característico dos romenos se transforma num confuso desenho de contornos e terror, admiração e desconfiança. O «inferno» estava em chamas'. O Benfica entrou determinado na partida, com uma exibição 'à altura dos pergaminhos de um verdadeiro finalista, com períodos fulgurantes, coroados com dois golos e uma autoridade sobre o adversário que não deixou dúvidas'. No segundo tempo, controlaram o encontro e seguraram o resultado.
Os adeptos aguardaram de pé pelo apito final, 'numa contagem decrescente beijada pelas palmas, exultada no cântico rouco'. Quando o árbitro deu o encontro por terminado, 'não há memória de alegria semelhante, tudo chora, muita gente. Ninguém tem vontade de regressar a casa para recuperar para o dia de trabalho seguinte'. Os filhos queriam viver ao máximo um momento que tantas vezes ouviram os pais contar.
A alegria tinha sido proporcionada por Rui Águas, que de forma literal acedeu ao pedido do treinador do Benfica, Toni, que tinha solicitado para 'que não jogassem com o coração, mas sim com a cabeça!'. Desta forma, o avançado imitou o pai, José Águas, que tinha apontado o golo dos 'encarnados' na 2.ª mão das meias-finais da Taça dos Clubes Campeões Europeus 1961/62, garantindo o acesso à final.
Saiba mais sobre este e outros jogadores do Benfica que inscreveram o seu nome na lista dos goleadores do Clube na área 20 - Águias-Mores do Museu Benfica - Cosme Damião."
António Pinto, in O Benfica
Subscrever:
Mensagens (Atom)









