Últimas indefectivações

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

TT...

Os putos a aprender a ser homens – Tiago Dantas e David Tavares


"Muitos jogadores têm chegado à equipa principal do SL Benfica provenientes da sua formação, e o passado jogo da Taça da Liga, que terminou com a eliminação dos encarnados ficou marcado pela estreia de mais uma jovem promessa. No seu primeiro ano de sénior (2000) – Não é júnior por uma semana! – Tiago Dantas foi chamado a jogo e embora tivesse entrado num momento de descompressão e seja impossível tecer grandes considerações à sua performance, deixou o campo praticamente sem erros.
David Tavares é mais velho um ano (1999), e entrou também numa fase em que a partida decorria a um ritmo extremamente pausado. Decisões conservadores de um jogador que gosta de acelerar o jogo em posse, seja no recurso ao passe ou na progressão com bola. Assim ultrapasse de vez as muitas lesões que lhe têm afectado o crescimento e estaremos a falar de um jogador com capacidade para se impor definitivamente na equipa do Benfica."

O Brinco do Baptista #23 - A Catedral e uma bola de futebol

Benfiquismo (MCCCXCIV)

Música!!!

Os 5 melhores momentos de Pizzi de vermelho e branco

"Luís Miguel Afonso Fernandes. O 21 do Sport Lisboa e Benfica. Pizzi no mundo do futebol.
Da Covilhã a Paços de Ferreira, de Braga para Espanha com passagem pelo Club Atlético de Madrid, RC Deportivo da Coruña e RCD Espanyol de Barcelona. E, finalmente, para o SL Benfica.
Foi construindo o seu legado no Estádio da Luz passo a passo. Do banco para o relvado, da direita para o centro e de volta à direita. Apoiado e apoiando jogadores como Lima, Nico Gaitán, Mitroglou, Seferovic, Rafa e o genial Jonas. Agora, sem o craque brasileiro nos relvados da Luz, Pizzi tornou-se o nome maior do actual Sport Lisboa e Benfica.
A época 2019-20 está a confirmar-se como aquela em que mais decisivo se tornou. São 25 jogos oficiais com 19 golos marcados e 10 assistências concedidas. E o seu futebol é muito mais que estes números… Um verdadeiro playmaker.
Assim, inspirado pelo grande golo concretizado na Taça de Portugal contra o SC Braga, nada mais justo que aproveitar esta pausa de inverno para destacar aquilo que Pizzi tem dado ao jogo do Benfica com um top 5 dos seus melhores momentos de águia ao peito.
Entre tantos momentos – vários de enorme classe, como a assistência para Rafa no golo da vitória no Dragão na época transacta – optei por destacar os seguintes:
1. Superchapéu Cândido OliveiraEm Agosto de 2016, o Sport Lisboa e Benfica conquistou mais uma Supertaça, mas num enganador 3-0 frente ao Sporting Clube de Braga. A perder por 1-0, os arsenalistas foram cheirando o empate e, quando os adeptos encarnados já iam roendo as unhas de nervosismo, apareceram os craques a brindar as bancadas com toda a sua classe e a garantir mais uma taça para o palmarés do Benfica. Jogo tremido e a caminhar para o fim, minuto 74 e Jonas recebe a bola, pica sobre o defesa adversário em direcção ao pé direito de Pizzi; o 21 domina a bola enquanto temporiza para, com um segundo toque, isolar Jonas frente ao guardião do Braga. E, dos génios, nasceu o 2-0. Mas o toque de classe a assistir Jonas não foi suficiente para satisfazer Pizzi. E assim, aos 92 minutos, de fora da área, decide picar a bola sobre toda a área arsenalista, sobre o guardião e sobre o central que se encontrava em cima da linha de golo. Um chapéu de tirar o chapéu ao Luís Miguel. Pizzi adornou a cereja no topo de mais uma conquista. Magistral.
2. Hat-trick para a Reconquista A época 2018-19 arrancou envolta em desconfiança pela perda da possibilidade de alcançar o Penta três meses antes. O Sport Lisboa e Benfica recebeu o Vitória SC e, aos 38 minutos, já os encarnados venciam por 3-0. Pizzi, Pizzi e Pizzi. Hat-trick. O seu primeiro hat-trick ao serviço do Benfica. O jogo iria terminar 3-2, mas para a história ficaram três pontos e três golos do decisivo Pizzi. Foi o arranque para a Reconquista, pautado pelo pé transmontano do playmaker encarnado. À entrada da área parece FIFA, com o R2 pressionado e a bola sempre colocada junto ao poste. Reconquistador.
3. De primeira para o sonho da Champions Já este ano, e após um péssimo arranque na Liga dos Campeões, o Sport Lisboa e Benfica recebeu o O. Lyon com obrigação de ganhar. Quando tudo parecia encaminhado para mais uma noite europeia depressiva em pleno Estádio da Luz, eis que, aos 85 minutos, aparece Pizzi com toda a classe, a aproveitar um erro do guardião Anthony Lopes. É que se, aos 84′, já tinha enviado uma bola ao poste, um minuto depois o 21 do Benfica não perdoou. De primeira, e a mais de 40 metros da baliza, relançou o sonho milionário e europeu na Luz. Uma finalização de categoria, para um golo crucial para a época encarnada. Um vendedor de sonhos. 
4. Supertaça Chapa PizziUm troféu de arranque de época, um derby efervescente e um playmaker a abrir caminho para uma goleada histórica. No registo do jogo ficam só dois golos e uma assistência, mas a influência de Pizzi vai muito além. O 5-0 final não espelha as dificuldades dos encarnados até perto do descanso. Já sem Jonas, valeu ainda por lá andar Pizzi. Já perto do intervalo, rasgou o jogo com um passe a isolar Rafa para o 1-0, quebrando assim por completo o rival de Lisboa. No segundo tempo, resolveu em definitivo o troféu, concretizando o 2-0 a passe de Rafa e, mais à frente, com toda a classe que já lhe é característica, com uma recepção orientada, retirou Neto da jogada e colocou a bola nas redes para o 4-0. Superlativo.
5. Golo frente ao Rio Ave FC em 2016/2017 Em Dezembro de 2016 o Benfica recebeu o Rio Ave na sua caminhada para o tetra. Nesse jogo, Pizzi decidiu dar lustro à sua chuteira. Já depois de ter colocado a bola no pé do Mitroglou para este abrir o marcador, o transmontano dos encarnados arrancou a 40 metros da baliza, com um movimento subtil e uma mudança de velocidade saiu do meio de três adversários, à entrada da área tabelou com Rafa e, com uma simulação, quebrou o último adversário e por fim picou a bola sobre o guarda-redes. Um golo para se ver e rever num loop incansável. Um golaço."

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Carta ao Pai Natal de um benfiquista ambicioso

"Querido Pai Natal,
Escrevo-te (permite-me o tratamento informal) por saber que também não vives sem o vermelho e branco. Sendo o Benfica um clube do Mundo, o nome do Glorioso já ressoará, faz anos, no Pólo Norte, pelo que são dispensáveis quaisquer apresentações. Como tal, vou directo ao assunto.
Em primeiro lugar, o primeiro lugar. Quero o Benfica campeão. É este o meu mais premente desejo de Natal. Como sou paciente, não me importo de esperar até os idos de maio – até porque imagino a canseira que deve ser a tua noite de 24 de dezembro, correndo mais casas que um candidato à presidência de uma junta de freguesia.
No entanto, uma prenda antecipada não perde o valor por isso, pelo que aceitaria de bom grado festejar mais cedo do que é tradicional – não sou daqueles que se agarram cegamente às tradições (sabes de quem falo e estou convicto de que estão na tua lista dos marotos). De resto, até dava jeito encerrar a questão do campeonato com alguma urgência, uma vez que o meu segundo desejo é…
… uma grande campanha na Liga Europa (ou uma grande caminhada europeia, como lhe chamam aqueles que julgam que utilizar chavões de Liga dos Campeões ao falar da segunda prova de clubes da Europa a torna mais do que isso, tentando assemelhá-la à competição onde, de facto, devia estar o Benfica).
Ainda que a prova não seja condizente com a – histórica e, de momento, latente – grandeza europeia do clube da Luz, vencê-la deveria ser uma obrigação. Ainda assim, e acedendo relutantemente à desculpa (sem aspas) de que jogar à quinta-feira e aos fins-de-semana torna difícil a gestão da época e dos objectivos traçados, aceito que a chegada às meias-finais possa ser suficiente para se considerar “grande” a campanha benfiquista na Liga Europa.
O meu terceiro desejo revela um salto abismal no nível de exigência e, talvez, seja algo só ao alcance do outro tipo barbudo que também mora num sítio mágico indefinido a que, vulgarmente, dão a designação de Paraíso. Quero o Benfica nas meias-finais da Liga dos Campeões (se o meu Eu de cinco anos soubesse que um dia viria a escrever ao Pai Natal a pedir meias…).
Sei que parece missão impossível, mas o futebol a espaços demonstrado pelo Benfica de Bruno Lage faz-me sonhar (que ainda não se paga, eu verifiquei no Orçamento de Estado 2020). Faz-me acreditar que a continuação da aposta sustentada na formação aliada a um reforço cirúrgico do plantel pode vir a resultar no ressurgimento do verdadeiro Glorioso Benfica – “de que tanto se fala e tão pouco se sabe o que é” -, como escreveu, sobre o amor, Almeida Garrett.
De resto, uma boa campanha na Youth League e títulos nas modalidades de pavilhão que têm trabalhado para os merecer – não te preocupes com o andebol, só desperdiçarás o teu tempo – complementariam bem o embrulho. E é tu… Espera, há mais uma coisa (eu podia ter apagado, é só para dramatizar). Mediante as tuas possibilidades, seria deveras agradável voltar a ver o Mágico nos pavilhões da Luz – ele já disse que ia deixar o Inter Movistar, vê lá isso.
Sem mais delongas, por falta de conteúdo, despeço-me cordialmente. Aguardo pelos presentes com a tranquilidade que adquiri no seminário de verão ministrado pelo Paulo Bento. Respeitosamente,"

O Cantinho do Olivier #19

Reflexão natalícia

"Têm sido cometidos alguns erros feios, graves e até inexplicáveis

Esta podia ser uma crónica igual a tantas outras, que falaria sobre o impacto positivo da época no espírito natalício de todos nós. Podia ser também uma mensagem de esperança, paz e alegria, pedindo o melhor de cada um, a cada um. Podia ser tudo isso e muito mais, mas... não é.
Sendo certo que é importante termos presente a essência do que nos move nesta quadra, é também importante que percebamos, em matéria de futebol, onde estamos e para onde queremos ir.
Na parte que me toca, a da arbitragem, o papel é ingrato, porque estive lá dentro muitos anos e sei bem o que é errar sem maldade. Hoje, a minha função exige-se exactamente o mesmo: análise imparcial, independência e liberdade. Liberdade para dizer o que penso, baseado na lei e na experiência acumulada.
Essa liberdade - que é transversal e caminha, solta, pelo caminho que percorre - tende a ter os seus momentos de aperto, por que não raras vezes sente uma espécie de pressão camuflada que a tenta limitar. É tipo uma cortina de fumo invisível que parece querer abafar ou balizar a opinião, pedindo-lhe, sem pedir, que se renda a uma qualquer forma de status quo vigente.
Obviamente que essa nuvem negra vem de fora e nunca se vê. Mas não sendo palpável, mostra que ainda há quem não esteja habituado à modernice que é haver alguém de alma arejada, que responde, apenas e só, à sua consciência.
Essa liberdade permitir-me, por exemplo, afirmar aquilo que é óbvio para todos: em termos de arbitragem, as coisas não têm corrido bem. Têm sido cometidos alguns erros feios, graves e até inexplicáveis. Erros que a tecnologia tem agora a obrigação de evitar ou atenuar, o que só não acontece, experiência, competência e, por vezes, de coragem de alguns dos seus agentes. Infelizmente, alguns desses erros (os mais mediáticos) têm sido o mote que tantos precisam para a vitimização, para o desvio de atenções e para o fomentar de guerrilhas que nada têm a ver com arbitragem ou, sequer, com futebol. Incomoda-me que nos ponhamos a jeito para sermos a arma de arremesso de uns contra outros.
A outra parte da reflexão que esta liberdade permite é a de lançar uma pergunta final: será que, na verdade, o nosso futebol merece arbitragem melhores? O mesmo futebol que tem estádios vazios e que divide receitas televisivas de forma tão desequilibrada e incongruente? O mesmo futebol que aprova um calendário com pausas prolongadas, que poucos percebem, entendem e aceitam? O mesmo futebol que insiste em ter casos de polícia a amontoarem-se nas prateleiras da justiça? O mesmo futebol que se distancia, cada vez mais, da competitividade internacional e que se move, internamente, por um campeonato de dois ou três e pouco mais? Então o mal do nosso futebol assentará, na realidade, nos erros de árbitros e VAR ou não há aqui matéria para elevarmos a discussão para outro patamar? Não é para quem quer. É só para quem pode... e nem todos podem.
Boas-festas."

Duarte Gomes, in A Bola

Benfiquismo (MCCCXCIII)

Quarteto...

Natal digital

"Num tempo global e digital, o presépio cedeu lugar ao átrio do centro comercial (...) a chaminé dos sonhos infantis virou rede social

1. Hoje é dia de Consoada natalícia. Resolvi, por isso, que esta crónica semanal não abordará o futebol e afins. Assim lhe dou descanso ou, melhor dito, sou eu a dele descansar. No boxing day voltarei ao futebol, para me deliciar com a tradição na velha Inglaterra. Hoje, o meu «contador da Luz» aborda a Luz do Natal sem contador.
É certo que o Natal já não é o que era, apesar da tradição. Para um católico como eu, é difícil descortinar a celebração simbólica do nascimento do Menino Jesus no meio de tanta materialidade e futilidade que tende a capturar as pessoas. Agora, é sinónimo de frenesim, angústia, pressa, maçada, tecnologia, obrigação e até hipocrisia, numa coligação entre cristãos de meia-tigela, agnósticos e ateus traduzida na apoplexia comercial e na conjugação mecanicamente reduzidas e uma liturgia profana.
Acontece que, neste ambiente cada vez mais hostil, o Natal ainda resiste em ser o símbolo máximo da Vida. Hoje, como há 2000 anos, continua a estar também impregnado de doçura maternal. Maria deu à luz o Seu Filho na discrição e despojada de conforto, mas plena de doçura. «Anuncio-vos uma grande alegria» (Lc, 2,10) é a mensagem das mensagens. Suavemente, simboliza a vitória da vida sobre a morte.
Gosto do gosto por um Natal com a magia que advém (e não desaparece) do imaginário infantil feito de sonho, doçura, afecto, idealismo, bondade. De um Natal que seja capaz de, por uns instantes, tornar os adultos mais crianças e as crianças mais meninos e meninas. De um Natal, em que o melhor não é só a data e o que ela representa do nascimento do Menino-Deus, como também é a atmosfera dos dias que o antecedem, porque o melhor não é o chegar, mas o ir ao encontro de, não é o possuir, mas vivenciar.
Há espírito doce na ambiência e na icnografia natalícias. Na alegria esperançosa lida nos olhos das crianças, ainda imunes à vulgarização da data. No presépio renovado. No pinheiro de Natal e nas pinhas resinosas. Na temperança de Belchior, Baltasar e Gaspar e na fragrância do incenso. Na fértil romã que dá sabor à união das partes. Na estrela-do-Natal, que nos olha no meio de companheiras flores.
Mas há uma indisfarçável amargura no Natal com a pressa do nada, do que se compra com o peso do vácuo ou, já na ausência do pensar, dos litros de ansiedade destilados. No Natal impositivo, que quase anula o tempo e o espaço para se olhar o outro, olhos nos olhos. No Natal que passa sem se passar. Tal como nos fotografias e selfies que se tiram para depois exibir o que se fotografou sem nunca se ter visto com os olhos.
O que obra em consumismo desenfreado, falta em espiritualidade adventista. É assim cada vez mais, perante a primazia do de(ter), do comprar, do usar, do trocar. Uma correria sem nexo, acorrentada pela obrigação, mais do que alimentada pelo coração. Atafulha-se o Natal em listas e preçários. A alegria de dar cede lugar à amargura de ter de dar. A serenidade do pensamento da escolha cede passo em favor do turbilhão de uma escolha que já não o é. Uma permuta instrumental que transforma o prazer de dar em desprazer de despachar. Agora, até o Natal é antecedido por uma nova mercearia com nome inglês, pois claro: Black Friday. Nisso somos imparáveis, importamos tudo o que seja consumismo. É aproveitar a ilusão (e, às vezes, atrafulhice) dos preços em regime ioió, quer dizer, subindo para depois descer e descendo para depois subir.

2. Gosto da ideia de esperança que engravida o Natal, e que, botanicamente, associo à natureza do musgo do presépio.
Musgo de esperança? Como então, se o pobre musgo nem sequer tem raízes, como briófita que assim nasceu? Como então, se não tem sementes para se reproduzir, nem flores e frutos como fonte de vida? Como então, se está condenado ao nanismo por não ter um verdadeiro sistema vascular de condução da seiva?
Todavia, insisto na defesa do musgo como sinal de esperança. Para isso esforço-me por peregrinar até ao Natal da Vida. E lá deleitar-me com a memória doce de quem me deu vida.
O musgo é, por definição, sinestésico. No seu cheiro inigualável em terra molhada, no seu aveludado tatuar, na quietude da sua extensão, no olhar enternecido de quem nos quer aconchegar no presépio.
E é um milagre da natureza:estes minúsculos corpos nem provém dos óvulos de um ovário, nem têm um embrião e, no entanto, germinam como uma semente. De vida.

3. Num tempo global e digital, o presépio cedeu lugar ao átrio do centro comercial, a árvore natalícia tem agora apenas a medida de ver qual é a mais alta numa corrida de tipo Guiness, o igreja é substituída pelos templos e wonderland de diversão, a chaminé dos sonhos infantis virou rede social digitalizada em série e transformou-se na cadência ininterrupta de sons dos telemóveis a anunciar não sei o quê. Esta corrida começa cada vez mais cedo, agora em Outubro, numa prática que tudo banaliza e num jogo de luzes que tudo mercantiliza. Descobrir um nicho de silêncio luminoso para parar e sentir é um achado no meio de tanto ruído, luzências e holofotes. O Natal, festa da vida, do lar e da família, trespassou-se para a rua. A surpresa que alimentava o espírito da quadra e fortalecia o valor da raridade é definitivamente tornada uma avalancha já sabida ou requerida, onde não se dá valor a nada de um falso tudo e se acha que qualquer escolha pode ser feita sem renunciar a nada.
No fim, a exaustão do corpo, a carência do espírito, a inutilidade do gasto, a velocidade uniformemente acelerada da compra precipitada, o vácuo depois da apolexia. E lá se foi o Natal. Mais um.

4. Agora que vivemos no tempo dos smartphones e das redes sociais, outro martírio se nos depara. A enxurrada de «Boas Festas» e outras expressões do momento cai, em inusitada abundância, nas nossas maquinetas mais ou menos «smart». Confesso que tenho saudade do tempo em que, por esta época festiva, se falava com quem verdadeiramente queríamos. Agora é sempre a andar em jeito de poluição de afectos: centenas de SMS (e mails) de conhecidos, desconhecidos, ignotos, chatos e insinuantes. Sem selecção, sem critério, ao dispor de um dedilhar num ecrã insensível. Abomino, sobretudo, os que logo percebo que foram enviados para um vasto conjunto de «amigos», ou pior ainda, para «car@s amig@s, com «beijos ou abraços» ou, na linguagem cifrada «abreijos» para todos. E, também, os que, na obsessiva preocupação de não caírem nas palavras simples e mais usadas, nos enviam bizantinices florentinas, em prosa ou falso verso, que, de tão kitsch, me fazem perder o apetite mesmo diante de um saboroso bolo-rei.
Aproveito para clamar por uns dias natalícios sem um «tsunami de SMS e quejandos». Depois de falar com quem quero, o meu telemóvel vai tirar uns dias de férias, remetendo-se a um silêncio que ele próprio me implora...

5. Há uns dias, entre luzes e luzinhas, estive numa sala de espera de um serviço médico cerca de meia-hora. Durante esse tempo, entraram sete pessoas, jovens adultos. Ninguém cumprimentou ninguém. Ninguém olhou para ninguém. Todos usando o seu smartphone sem um segundo sequer de interrupção. Observando as suas faces, posso pressupor que estavam a festejar um qualquer natalzinho digital, via Facebook, WhatsApp, e outras ferramentas-meios transformadas em fins.
Cheguei a acsa, e comecei a ler um livro que recomendo a quem ainda não está possuído pela turbulência tecnológica. Chama-se »Minimalismo digital», de Carl Newport, e convida-nos a viver melhor com menos tecnologia e a reflectir sobre as consequências do «demasiado». O livro começa, aliás, com uma citação saudavelmente provocativa: «Eu costumava ser um ser humano»...
Poupado, à tangente, pelo malfadado acordo ortográfico que retirou a maiúscula aos meses, estações do ano, pontos cardeais, etc., o Natal vai também perdendo a singularidade da maiúscula e adquirindo a pluralidade do vazio, assim se transformando o Natal em natais.
Pela minha parte, não abdico de festejar o Natal do nascimento d'Aquele em que acredito. No encontro e no reencontro. Com o futuro gerado no passado. Com azevinho, alecrim e rosmaninho."

Bagão Félix, in A Bola

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Natal encarnado...!!!

Prendas...

A alegria vermelha de Moscovo

"O primeiro confronto do Benfica então União Soviética teve lugar em Setembro de 1977. Bento foi a figura da noite ao defender uma grande penalidade e ao converter o pontapé decisivo da eliminatória da Taça dos Campeões contra o Torpedo

No dia 28 de Setembro de 1977, o Benfica estava pela primeira vez em Moscovo. Era uma equipa muito jovem, essa, orientada por John Mortimore. Volta e meio pagava os custos de uma inevitável inexperiência.
Depois do empate a zero em Lisboa, não restava aos encarnados mais do que irem em busca de um golo em casa alheia. Mas as coisas complicaram-se. Um frio bruto, um terreno seco, a habitual tendência do técnico inglês para nunca correr muitos riscos. E o que se viu foi um Benfica à defesa, tentando aqui e ali um contracolpe que pusesse em perigo a baliza do seu adversário, o Torpedo.
Conhecidos como 'Os Automobilistas', pela sua ligação às fábricas de automóveis AMO e ZIS, os jogadores do Torpedo eram, na altura, orgulhosos campeões da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, terceiro título da sua história, depois dos de 1960 e 1965. Hoje estão mergulhados nos confins da II Divisão.
Contavam, à época, com dois avançados concretizadores: Iurin e Sakharov. Eram eles o maior perigo para as redes de Bento, o herói da noite moscovita. Mortimore fez marcação individual aos dois primeiros, com Eurico e Pietra, respectivamente, e deixou-os aos papéis por falta de proximidade com os companheiros. Começou aí a ganhar a eliminatória.
As serpentinas de Chalana
O futebol acabou por ser maltratado. Ah! Mas havia Chalana e o seu futebol mágico de serpentinas. De súbito, sem que fosse esperado, saltava da sua caixa com um demónio sorridente e partia na aventura de dobrar adversários como se fossem esquinas. Aqui e ali, dava um toque de supina qualidade ao jogo que dela precisava.
Desde os minutos iniciais que o nulo era previsível.
Foi-se congelando sobre o relvado, foi-se interiorizando na cabeça dos poucos mais de 15 mil espectadores presentes no estádio emprestado pelo Dínamo.
Uma hora, uma hora e meia, mais meia hora de prolongamento. O tempo passava, e o resultado, não.
Seriam as grandes penalidades a decidir a contenda e a manter aceso para o Benfica o sonho de voltar a Wembley para jogar uma final da Taça dos Campeões Europeus. Apesar dos avisos de Toni: 'Não temos equipa para grandes voos'.
As defender o penálti de Iurin, Bento proporcionou a José Luís a vantagem por 2-0. Em seguida, Nikonov rematou para fora. Chalana: 3-0. Balenkov: 3-1. Pontapé definitivo. Ou não. Bento chamou a si a bola e foi com ela debaixo do braço até à marca redonda que fica no centro da grande área. Chutou forte, e Zarapin nada pôde fazer. Era o sexto pontapé de grande penalidade que convertia. Bento e a sua figura de cavaleiro andante, cabelos longos, bigode descaído nas pontas. Vi-o marcar um penálti na Luz numa daquelas tardes de 120 mil pessoas. Vi como os adeptos o adoravam. Como os companheiros lhe dedicavam um respeito infinito. Vi-o com os olhos da amizade.
Durante a tarde, antes do jogo, Vítor Baptista resolveu que não estava em condições de entrar em campo. Desmentindo o médico, considero-se inapto. Além disso, tinha nessa semana um jogo da selecção, contra  Dinamarca. Era assim, o Vítor. Ele no centro do mundo. 'O maior!', dizia de si mesmo. Ferreira Queimado foi aos arames. Garantiu-lhe uma suspensão por longo tempo. Não foi bem assim. O Benfica precisava de Vítor Baptista. Só Nené não chegava para as encomendas e Mário Wilson (filho) não encontrava os caminhos do golo.
Em Moscovo, a noite entrava numa escuridão profunda enquanto os benfiquistas comemoravam a eliminação dos soviéticos. Os jogadores do Torpedo é que não estiveram para aturar festejos: desapareceram nas cabinas mal soou o apito final do sueco Erik Fredriksson. Um vento frio penetrava a pele até aos ossos, mas não podia nada contra o calor da alegria vermelha."

Afonso de Melo, in O Benfica

Um dia no Lar do Jogador

"Aviso: qualquer semelhança com uma ceia de Natal tipicamente portuguesa é mera coincidência

O Lar do Jogador, 'uma casa alegre' onde 'reina a boa disposição', foi inaugurado em 1954 com o objectivo de proporcionar aos futebolistas do Benfica 'o ambiente indispensável para uma vida limpa e sádia (sic), feita de ordem, de disciplina, de conforto e de carinho'. Na edição de Abril de 1959 da revista O Benfica Ilustrado, somos convidados a olhar mais de perto para as rotinas dos jogadores, e com a quadra natalícia ao virar da esquina, é-nos impossível não encontrar semelhanças entre um dia normal no Lar do Jogador e o Natal lá de casa.
O dia começava cedo, com um exigente treino no Estádio da Luz, mas no regresso ao Lar já só se pensava numa coisa: comida! Como em qualquer família, também ali havia os dois clássicos que são 'tornados de ponta' às refeições: o comilão e o 'pisco', também conhecidos por Serra e Palmeiro. Para o primeiro as batatas nunca eram de mais, já ao segundo 'qualquer sumo de laranja lhe chega'. Do outro lado da mesa é-nos relatado uma espécie de 100 metros barreiras, para ver quem chega primeiro ao fim da refeição. 'Ainda o Santana vai na sopa, já o Hilário está na fruta'. O Hilário não só era o que comia mais depressa, como era o primeiro a sair do refeitório, 'dizem que com medo de engordar...'
No Lar, as horas entre as refeições eram livres. Uns jogavam sueca, outros aproveitavam para fazer uma merecida sesta, momento bastante apreciado pelo sr. Coluna. Havia ainda quem ficasse, simplesmente, para sala de estar a passar os olhos pelo jornal.
Semelhanças com o Natal lá de casa? Muitas! Que bem entendemos o Hilário, que saía a correr do refeitório com medo de engordar. Quem nunca se sentiu inchado até ao fim do ano por causa das filhós que comeu na noite de Natal que atire a primeira pedra. E as horas de intervalo entre o almoço e o jantar? No próximo dia 25 serão passadas com igual lentidão. Troque-se a sueca pelo Trivial Pursuit e o jornal pelas aventuras da família Von Trapp e temos o serão feito.
No Lar não se esperava pela meia-noite, às 23h tinha de estar tudo na cama. O dia seguinte começava cedo e havia multas para os mandriões. Talvez resida, aqui, a principal diferença entre o dia a dia no Lar do Jogador e o dia de Natal.
O Lar do Jogador foi apenas uma das instalações que o Benfica ocupou, conheça outras na área 17 - Chão Sagrado, no Museu Benfica - Cosme Damião."

Marisa Furtado, O Benfica

Natal...

Cadomblé do Vata (Natal...)

"Prendas de Natal d'A Mão de Vata para os titulares do SL Benfica:
Vlachodimos - uma transferência bancária de 7 milhões de euros para o Panathinaikos... será a única forma de lhe reconhecerem o valor em Portugal.
Tomás Tavares - armadura integral em kevlar... o André Almeida está quase recuperado e vai querer retomar a titularidade.
Rúben Dias - uma braçadeira de capitão... é como o par de peúgas "da tia", mais cedo ou mas tarde vai tê-la no sapatinho.
Ferro - um cruzeiro romântico com a namorada... para amenizar os problemas conjugais que a relação com Rúben Dias já lhe está a provocar.
Grimaldo - o livro "Livres Directos Para Totós"... tenho receio que aquelas "coisas" que ele anda a fazer à entrada das áreas adversárias, lhe custem a dispensa no final da época.
Gabriel - uma banda gástrica... se é assim todo roliço, imaginem com menos 15kg.
Pizzi - um casamento arranjado com uma jovem moçambicana chamada Flora... não vejo mesmo outra forma de ser idolatrado pelo Terceiro Anel.
Taarabt - sendo muçulmano não comemora o Natal... ofereço-lhe um cartão de sócio do Benfica e a religião deixa de ser problema nesta quadra.
Cervi - almofadinha pró cú, almofadinha pró cú... vai-lhe ser muito util quando o Rafa recuperar. 
Chiquinho - um pacote de 3 jogos contra o Sporting CP... para lhe acabar com a seca de golos. 
Vinícius - um rapto... só assim evitarei que seja vendido em Junho."

Os 5 presentes para o sapatinho dos grandes

"Chegado o Natal, este top reúne cinco jogadores que seriam capazes de dar o salto para um clube “grande” em Portugal já no mercado de inverno e assumir um papel preponderante até ao final da temporada. A ordem responde apenas à forma actual de cada um e é será por demais evidente que poderiam ser contratados por SL Benfica, FC Porto ou Sporting CP. Seriam compras dentro de portas e verdadeiros presentes no sapatinho.

1. Marcus Edwards (Vitória SC) – Perdido entre empréstimos em Inglaterra e na Holanda, o avançado formado no Tottenham HFC encontrou em Guimarães o palco perfeito para as suas qualidades. Já igualou o seu maior número de golos numa época de futebol sénior (quatro) e ainda a temporada não chegou a meio. Dono de uma qualidade técnica acima da média, esteve em cinco dos seis jogos da fase de grupos, tendo marcado ao Arsenal FC, em Londres, e em Frankfurt. Com um valor de mercado pouco acima do milhão de euros, seria uma contratação empolgante, no mínimo, para as alas do Dragão ou de Alvalade.

2. Francisco Trincão (SC Braga) – Pérola arsenalista de 19 anos, campeão europeu sub-19 e melhor marcador dessa prova, com cinco golos. A apresentação podia ficar por aqui e seria suficiente para ficar com água na boca, mas o melhor é olhar para a exibição na Eslováquia para a Liga Europa. Nos 80 minutos que esteve em campo, Trincão assistiu Rui Fonte e construiu o seu próprio golo – e que golo – na vitória por 2-4. Numa altura em que a bandeira da aposta na formação está hasteada lá no alto, seria tão interessante quanto seguro ver Trincão numa das alas da Luz. Ter Rafa de um lado e Trincão do outro…

3. Edmond Tapsoba (Vitória SC) – O defesa de 20 anos do Burkina Faso é um produto finalizado na academia vimaranense e está em destaque nesta altura da época. Correm já rumores de que o Arsenal FC estaria interessado na sua contratação. Para isso contribuíram, de certeza, as exibições de grande qualidade na Liga Europa, em contraste com os resultados. Com um metro e noventa e um valor de mercado de dois milhões de euros, seria uma contratação segura e acertada para render, por exemplo, Coates ou Mathieu no reino do leão. Para isso, o Sporting CP teria de se mover rápido e bater os ingleses de Londres na mesa de negociações.

4. Gustavo Assunção (FC Famalicão) – O médio brasileiro de 19 anos alinhou a titular em 13 dos 14 jogos para a Liga da equipa sensação deste campeonato; o FC Famalicão. Falhou apenas um devido a acumulação de cartões amarelos. É, assim, uma das peças chave do meio campo famalicense. Apesar da tenra idade, o seu valor de mercado está fixado no milhão e meio de euros e seria interessante vê-lo seguir as pisadas do pai, Paulo Assunção, a jogar na frente da defesa do Dragão.

5. Bozhidar Kraev (FC Midtjylland) – O búlgaro de 22 anos chegou despercebido a Barcelos, emprestado pelos dinamarqueses do FC Midtjylland, mas cedo reclamou os holofotes da imprensa nacional e apaixonados pelo futebol. A lição que aplicou aos dragões na jornada de abertura da presente temporada embalou-o para exibições de encher o olho e voltou a subir o seu valor de mercado, situado agora pouco abaixo do milhão de euros (800 mil). Com aparições mais regulares na seleção da Bulgária, Kraev seria um acrescento de grande qualidade ao meio campo leonino, por exemplo, numa altura em que se vê a saída de Bruno Fernandes como inevitável."

Pai Natal, tudo o que quero é futebol, apenas futebol

"Querido Pai Natal,
Este ano quero pedir-te algumas coisas, que aposto que nunca te pediram. Pedidos bem mais sérios e difíceis de concretizar, do que as bolas ou os carrinhos telecomandados que queria há uns bons anos atrás. Sonhos? Utopias? Deixa-me sonhar.
Antes de mais, começo pelo que tem acontecido no último terço deste ano 2019, nos estádios em Itália: o racismo. Um problema social e político, que de uma ou outra forma toca a todos. Já que é praticamente impossível acabar com um problema como este em qualquer sociedade, é possível erradicar o racismo no futebol.
A personalidade que tem sofrido mais com este tipo de discriminação é Mario Balotell, o senhor “Why always me?”. Para além dele, muitos outros também já terão sentido na pele, esta barbaridade. Vinda de adeptos (adversários e até da própria equipa), de treinadores, membros da direcção do clube ou mesmo de colegas, não importa. Estamos às portas de 2020 e isto continua a acontecer?
A minha sugestão é seguir aquilo que de bom se faz em “Terras de Sua Majestade”. No Reino Unido extinguiram as claques, os famosos “hooligans”, que causavam estragos por onde quer que passavam. Hoje em dia, qualquer ato relacionado ao racismo, é completamente condenado. Não só pelos órgãos de segurança, como pelos próprios clubes, proibindo para sempre, a entrada do “adepto” nos estádios em Inglaterra e obrigando-o a pagar elevadas multas. Talvez seja preciso olhar para o bolso, antes de “racismizar” … Este é o meu primeiro desejo de Natal e Ano Novo, ouve-me, e não dês prendas aos italianos que se têm portado mal.
O meu segundo pedido está relacionado com o reconhecimento da qualidade do treinador português no estrangeiro. Depois de tantos nomes lusos que chegam ao estrelato e que lá se mantêm por vários anos, ainda há quem duvide do valor dos nossos. Como foi o famoso caso de Marco Vargas (jornalista da Fox Sports Brasil), que minimizou as conquistas e os feitos de Jorge Jesus, aquando da sua ida para o país do samba.
Como é que é possível alguém que não conhece, colocar em causa a qualidade, em geral, do técnico português? O “mister” levou para o Brasil “apenas” três títulos de campeão português, seis Taças da Liga, duas Taças de Portugal, e a sua valia foi posta em causa por ter perdido duas finais da Liga Europa. Aos 65 anos, do outro lado do Atlântico, abafou os críticos ao vencer o Brasileirão e a Libertadores. Não podemos generalizar, mas por norma, o que é nacional é bom! Reconhecimento, é o segundo ponto da lista.
Por último e não menos importante, quero futebol. Não um futebol qualquer. Quero bom futebol. Táctico, técnico, físico. Sem outras coisas à mistura. Sem discussões sobre arbitragens, castigos sem nexo como o que foi aplicado ao Bernardo Silva, sem racismos e corrupção. Só quero ver a bola a rolar nos maiores palcos. Uma Liga dos Campeões e uma Liga Europa com sucesso para os representantes nacionais. Mais à frente, espero um Europeu digno da nossa nação, apesar do grupo forte e das altas expectativas.
Penso que não estou a pedir muito, e até me tenho comportado dentro dos limites, daquilo que deve ser um bom adepto de futebol. A todos vós, um bom Natal e o feliz Ano Novo."

Benfica FM #94 - Braga e Setúbal...

Benfiquismo (MCCCXCII)