Últimas indefectivações

quarta-feira, 6 de março de 2019

João Félix e os 120M

"Segundo consta a Juventus ofereceu 120M por João Félix. A primeira notícia surgiu num timing que sugeria uma velha tentativa de destabilização do Porto. Entretanto já se passaram uns dias e as notícias continuam. Talvez o interesse seja verdadeiro. Mas…

1. A maior transferência do mundo foi Neymar do Barcelona para o PSG por 222M. A segunda foi Mbappé do Monaco para o PSG por 180M. A terceira foi Philippe Coutinho do Liverpool para o Barcelona por 120M. João Félix iria automaticamente entrar para o pódio das maiores transferências mundiais de sempre.

2. Jogadores comparáveis.
- Mbappé tinha 18 anos e 58 jogos pelo Monaco quando custou 180M ao PSG.
- Ousmane Dembélé tinha 20 anos e 50 jogos pelo Dortmund quando custou 105M ao Barcelona.
- Frenkie de Jong tem 21 anos e mais de 70 jogos pelo Ajax. O Barcelona vai pagar 75M por ele.
- Thomas Lemar tinha 23 anos e mais de 120 jogos pelo Monaco quando custou 70M ao Atlético.
- Christian Pulisic tem 20 anos e quase 120 jogos pelo Dortmund. O Chelsea vai pagar 64M por ele
- Naby Keita tinha 23 anos e mais de 140 jogos pelo RedBull Salzburg e RB Leipzig quanto custou 60M ao Liverpool.
Estas são as maiores transferências mundiais pós-Neymar-no-PSG de jovens que tenham nascido em 1995 ou em diante. João Félix tem 19 anos e 28 jogos pelo Benfica. No final da época, se não se lesionar, vai andar nos 35-50 jogos

3. A questão do fair-play financeiro não se coloca. A Juventus pode. Conhecem aquele modelo de comprar barato, emprestar e vender caro que Luís Filipe Vieira vem andado a tentar implementar? A Juventus domina esse modelo. Há três anos vendeu Pogba e Morata por 105M e 30M, e ainda fez mais 40M noutros jogadores. Há dois anos vendeu Bonucci por 42M, Coman por 21M, Lemina por 17M e Zaza por 16M. Tendo feito mais 50M com outros jogadores. O ano passado voltou a superar os 100M em vendas com destaque para as vendas de 35M de Mattia Caldara e de 20M de Rolando Mandragora. No meio disto tudo ainda tem Gonzalo Higuaín por vender. Logo, sim, é possível a Juventus oferecer esse dinheiro todo por João Félix enquanto respeita o fair-play financeiro.

Em suma, tudo depende da avaliação que se faz do jogador. Se alguém pagar 120M por João Félix é porque acredita mesmo que ele tem potencial para vir a ser um dos melhores jogadores do mundo. Eu não sei se ele tem potencial para tal - acho que ninguém sabe na verdade, foram poucos jogos. Mas sei que vai ser um grande jogador.
Se vale os 120M nesta altura? O preço de algo é aquilo que alguém está disponível a pagar por ela. Mas eu olho para os jogadores comparáveis e não creio. Frankie de Jong ajudou a sua equipa apurar o Ajax ontem à noite para os quartos-de-final da Champions. Mbappé chegou às meias-finais pelo Monaco. João Félix ainda não provou nada na Europa e já ultrapassou a avaliação do Barcelona por de Jong. E digo isto com a certeza que João Félix mais tarde ou mais cedo vai provar algo na Europa. Mas já mostrou que vale 120M? Não, ainda não.
A verdade é que o Benfica não precisa de vender e o jogador também não deve ter pressa para sair depois de ver o que aconteceu com Renato Sanches, Gonçalo Guedes, André Silva e João Mário. O preço da cláusula dele é aquele. Há equipas desesperadas por talento. E se o clube não precisa de vender e o jogador não tem pressa de sair, a cláusula será o preço.
Para já, o ideal para as três partes (jogador, Benfica e comprador) é deixá-lo estar mais um ano na Luz. O negócio até se pode fazer já. Mas com mais um ano de empréstimo no Benfica. O João Félix ainda não tem o físico desenvolvido para jogar na Liga Inglesa ou na Liga Italiana. Se sair cedo demais, corre o risco de ser mais um Gonçalo Guedes. Isto tudo assumindo que alguém paga 120M por João Félix, o que para mim é surpreendente nesta fase. Se o Benfica chegar longe na Liga Europa, até acredito. De outra maneira, acho difícil que haja propostas nesse montante."


PS: O Benfica só tem que oferecer um novo contrato ao Félix, e subir a cláusula... Com a Selecção, o Europeu no próximo ano... e se tudo correr bem a Champions, os 120M são trocos!!!
A minha maior 'esperança' neste momento, são mesmo os jogadores!!! Creio que todos estes 'putos' querem jogar 'juntos' pelo menos mais uma época... Espero que exista clarividência!!!

Depressa e bem: um grande Benfica

"Fantástico o espírito de conquista e a contundência do Benfica de Lage (creio que já lhe podemos chamar assim) no Dragão. Vitoria memorável, merecida e com laivos de épica, tão grande o carácter demonstrado naquele estádio onde os benfiquistas costumam sofrer horrores; esteve a perder, deu a volta à situação com muita pinta e aguentou o aperto final com estoicismo, determinação e espírito marcial - um por todos... O que mais me impressiona no novo Benfica, além da melhoria evidente na organização (jogadores sempre muito juntos, em bloco, recuando e avançado como um harmónio), é a simplicidade mortífera das combinações ofensivas, a velocidade a que são efectuadas e a mobilidade dos seus intérpretes. O meio campo do Benfica não perde tempo a mastigar a bola nem se enreda naquelas trocas soporíferas para trás e para os lados (o Porto usou e abusou disso). A bola anda depressa nos pés dos médios benfiquistas, que a fazem girar ao primeiro toque - tac, tac, tac, tac, de um lado para o outro -, quase sempre em progressão de modo a fazerem-na chegar o mais depressa possível aos jogadores mais adiantados que, por sua vez, sabem muito bem o que fazer com ela. A qualidade técnica encarrega-se do resto. Este Benfica é uma equipa de futebol urgente, permanentemente ameaçadora. O Porto sentiu isso desde o início e nunca soube lidar com essa inquietação. A simplicidade, velocidade e perigosidade do jogo benfiquista lembra o futebol electrizante da primeira época de Jorge Jesus e, muito mais atrás, o rolo compressor do sueco Eriksson. Muito bem devem estar a trabalhar - já se percebeu que Lage é um obcecado do treino - para terem crescido tanto e tão vincadamente num tão curto espaço de tempo. Basta lembrar a meia-final da Taça da Liga (3-1 para o FCO a 22 de Janeiro passado) para perceber qual dos dois deu o grande salto em frente...
Quando era um jovem jornalista em início de carreira vi muitos jogos ao lado do Aurélio Márcio, um dos jornalistas históricos desta casa, com quem gostava de conversar. Ele já tinha visto ziliões de jogos e tinha uma percepção muito aguda das qualidades e defeitos das nossas equipas. O Aurélio insistia muito (sublinhava-o nas crónicas) na importância da velocidade - de meter velocidade naquele futebol tão tecnicista, tão adornado e muitas vezes tão falho de perigosidade/contundência como o nosso. Creio que algures lá em cima estará a sorrir com o futebol que o Benfica anda a jogar: depressa e bem. Não sei que onze irá a jogo amanhã em Zagreb para a Liga Europa, mas sinto que os meus amigos benfiquistas, de há dois meses para cá, esperam ansiosamente pelo próximo jogo, seja qual for o adversário. Há lá melhor sinal que esse."

André Pipa, in A Bola

A Justiça tem tempo e modo...

"Com a decisão da justiça húngara de extraditar para Portugal o hacker Rui Pinto, inicia-se novo capítulo numa saga que está muito longe do fim. Para já, o caminho que está a ser seguido é o que corresponde a qualquer sociedade civilizada, onde os prevaricadores são chamados a acertar contas com a justiça nos lugares próprios. Em todo este processo, o tempo dos julgamentos na praça pública acabou, e os responsáveis pela montagem de cinco em torno de assuntos que deviam ser tratados de forma séria vão, mais cedo ou mais tarde, prestar contas a quem de direito. No mais, será a Justiça, que está na posse de vasta matéria, a definir o que é e não é possível de processamento criminal.
Dentro das quatro linhas, hoje é um dia importante na vida do FC Porto que decide, com o quinto classificado da Série A italiana, o acesso aos quartos de final da Champions. É uma missão perfeitamente ao alcance dos dragões, que deverão, contudo, ter força interior para superar o desaire caseiro frente ao Benfica. O jogo com a Roma surge assim como um pau de dois bicos para os portistas, por um lado pode projectá-los na Europa e dar-lhes novo alento para a Liga caseira, por outro pode afundá-los numa crise profunda.
A merecer toda a atenção e escrutínio surge-nos a via dolorosa do Sporting, que procura financiamento junto de fundos de risco. Talvez, depois de todas as malfeitorias de que o clube foi vítima, esta seja a melhor forma de seguir em frente. Mas a opinião pública em geral e os sócios do Sporting em particular têm direito de conhecer em pormenor os contornos do negócio e saber, de forma detalhada, quem são os parceiros americanos da operação."

José Manuel Delgado, in A Bola

Neve Vermelha !!!

Vermelho vivo!

"O próximo sábado será mais um dia especial para muitos sócios do Benfica. A partir das 10h00, no Pavilhão nº 2 da Luz, o Presidente Luís Filipe Vieira entrega os emblemas de dedicação (ouro e prata) aos associados que cumprem 50 e 25 anos de filiação e ainda os anéis de platina a quem completa 75 anos de ligação efetiva ao Sport Lisboa e Benfica.
A ocasião solene coincide com este período de grande dinamismo e pujança que o clube atravessa. Há, de facto, razões suficientes para que sócios, adeptos e simpatizantes estejam a viver dias de felicidade – a começar desde logo pelo percurso da equipa de futebol, que soma 9 vitórias consecutivas no campeonato nacional e que acaba de chegar à liderança da prova, após uma brilhante vitória no Estádio do Dragão.
A última semana – em que se celebrou o 115.º aniversário – já tinha sido fértil em boas notícias, com especial destaque para a apresentação das contas da SAD relativas ao primeiro semestre da temporada 2018/19: 14 milhões de lucro e redução do passivo em mais de 30 milhões!
A confirmação de novos indicadores financeiros de excelência já tinha começado a chegar uns dias antes, quando foi anunciado um novo máximo de vendas de Red Pass: mais de 40 mil! Número que, somando aos quase 8 mil lugares Corporate, eleva para 75% a taxa de ocupação garantida em todos os desafios na Luz.
O recente ‘jogo das casas’ (coincidiu com o histórico 10-0, que não acontecia há 55 anos) levou ao nosso estádio 54.810 espectadores e, nesse contexto familiar, teve lugar a apresentação de outro programa que atesta o período de grande dinamismo que o nosso clube está a viver: o projecto ‘Casas do Benfica 2.0 – o Futuro’. Mais um importante sinal de inovação e inconformismo numa área que, conforme o Presidente tem lembrado, é considerada “o bastião e o verdadeiro braço armado do Benfica”.
Nos próximos dias, e para além da referida cerimónia de sábado para entrega dos emblemas de dedicação e anéis de platina, há outros importantes momentos a destacar. Está confirmada ainda para este mês a apresentação das mais recentes obras de melhoramento e ampliação do Caixa Futebol Campus e igualmente confirmada – para o dia 21, no Campo Pequeno – a Gala de Aniversário, onde serão entregues os Galardões Cosme Damião 2019. Vermelho vivo!

PS: O Presidente Luís Filipe Vieira, Rui Costa e João Félix e os segredos do Seixal em destaque no Magazine da Liga Europa, na UEFA. Domingos Soares de Oliveira, CEO do Grupo Benfica, em entrevista à Soccerex. O prestígio internacional do Benfica presente por estes dias em espaços de referência do futebol europeu."

Bruno Lage: um treinador que é como o código postal

"Antigamente, havia um anúncio dos CTT com um lema tão eficaz que ficou na memória: «Código Postal… É meio caminho andado.»
No futebol, acertar no treinador tem praticamente o mesmo efeito.
Quando confrontado com complexas teorias sobre hegemonias e infabilidade das estruturas, tendo a simplificar a discussão: um bom técnico pode fazer toda a diferença entre fazer chegar ou não «a carta a Garcia».
Não é preciso ir muito longe para encontrar o exemplo de Ivo Vieira, que transformou a sua equipa em sensação da Liga, apesar das limitações do Moreirense enquanto clube, ou de Silas, que já nem sequer tem um clube por trás, mas mesmo assim comanda um conjunto que apresenta bom futebol e resultados.
Noutro patamar, Sérgio Conceição na época passada pegou num FC Porto debaixo das contingências do fair-play financeiro e, com a prata da casa, resgatando emprestados e proscritos, formou um grupo capaz de ser campeão.
Tudo evidências.
Apesar de diferentes, não foram menores as condicionantes que marcaram a afirmação de Bruno Lage no Benfica.
Não vai há tanto tempo assim, mas recorde-se que a aposta no técnico foi tudo menos inequívoca. As hesitações foram, aliás, manifestas.
Luís Filipe Vieira estava convencido – disse-o publicamente – de que mudar de treinador a meio da época dava sempre mau resultado. Pelo que, quando mudou, deixou uma espécie de alerta: «Ainda vão ter muitas saudades de Rui Vitória.»
O afastamento de Vitória, a dois tempos, demorou mais de um mês.
Aí chegados, foram precisas duas jornadas para perceber que Lage, então ausente das conferências de imprensa, seria o treinador encarnado até ao final da época, enquanto a comunicação social ventilava hipóteses como Jorge Jesus e José Mourinho.
Já depois da mudança de treinador, no mercado de inverno, o Benfica perdeu Castillo e Ferreyra, dois reforços sonantes para o ataque chegados no início da temporada, sem contratar substitutos – apesar da tentativa por Dyego Sousa.
Pelo que, perante a assunção de que os reforços viriam da equipa B, não faltou quem visse nessa opção um indício de que o campeonato estava dado como perdido.
Em suma: foi nesta adversidade que Bruno Lage se afirmou de forma estrondosa.
Desde então, venceu nove jornadas seguidas na Liga, «ganhou» nove pontos ao FC Porto, deixando para trás o campeão nacional, que era líder desde a 8.ª jornada.
Pelo meio, o técnico viu o seu contrato melhorado.
Contudo, mais do que os resultados, o que impressiona neste novo Benfica de Lage é a personalidade que incutiu numa equipa que tem como base talentos da formação e alguns jogadores tidos quase como dispensáveis.
No clássico do último sábado, Lage apresentou no Dragão o Benfica mais destemido dos últimos tempos. Uma equipa com confiança nas ideias do treinador e estabilidade emocional, que acabou por ser premiada por isso – apesar do domínio estatístico dos dragões.
O Benfica está a consolidar o seu processo sobre vitórias e é possível que o tempo permita aos adversários encontrar o melhor antídoto para as soluções apresentadas pelo técnico.
No entanto, o momento é de dar mérito a Bruno Lage – e aos jogadores que ele transformou – pela forma como fez o Benfica reentrar na corrida pelo título, a ponto de o tornar em favorito.
Em futebol, dois meses são uma eternidade. E é possível que dentro de algum tempo alguns pontas de lança da comunicação voltem a pregar a teoria da infalibilidade, em que nenhuma decisão estrutural é tomada ao acaso.
Na verdade, sabemos que nem sempre é assim.
No futebol, acertar no treinador é meio caminho andado. Mesmo assim, tudo pode depender de feelings. É tão simples quanto isso."

Benfica Podcast - Sliding into First

Benfiquismo (MCXIII)

O primeiro...!!!

Gobern... e o clássico

5 minutos à Benfica... no clássico

Lage...

Limpinho

"Lage não entrou na tão habitual 'caixinha de surpresas' na constituição do onze, ao contrário de Conceição, que dela não prescindiu

1. Desportivamente falando, o sábado passado começou bem para mim. Tendo passado o fim-de-semana na quietude alentejana, comecei por ver o jogo de basquetebol transmitido pela RTP2 (bem-vindo regresso da televisão pública a este desporto!) disputado na minha terra natal, Ílhavo. O Illiabum impôs-se categoricamente ao FC Porto e venceu por 90-76. Bom augúrio para o clássico que, passadas algumas horas, iria jogar-se no estádio do Dragão.
Entretanto, nos últimos dias, havia sido bombardeado por essa agora endémica moda de tudo transformar em estatísticas, de modo a nos 'obrigarem' a guiar previsões e a tirar conclusões. Senti-me 'esmagado', com algumas delas, a principal das quais era a 'natural' conclusão por razão estatística que o Benfica não conseguiria vencer ou até empatar no Porto.
Foi, pois, com uma sensação mista que comecei a ver o clássico. Por um lado, embalado pelo meu clube da minha terra que, contra todas as estatísticas, havia derrotado o FC Porto sem espinhas; por outro lado, diante de um hipotético 'software estatístico', a que tinha de me conformar quanto ao jogo do campeonato de futebol.
Num encontro que, pela enésima vez, foi arbitrado por um juiz da Associação do Porto (que parece deter o monopólio dos árbitros elegíveis para estes jogos, sendo tudo o resto um deserto...), eis que o Benfica venceu, para espanto dos estatísticos e contrariedade das estatísticas. Ao que creio e que me lembro, houve até uma quase inovação (estatística) na vitória encarnada. Foi não só a de ter vencido, mas a de ter virado um resultado que começou por lhe ser desfavorável, o que já não acontecia há quase meio século. Nesta altura, lembro-me de uma citação humorística que define «a estatística como um biquíni: mostra alguma coisa, mas esconde o essencial». Pois bem, o essencial é cada jogo jogado. E assim Bruno Lage e a sua equipa marimbaram-se no espectro estatístico e foram ao essencial: jogar para ganhar.
Mas para quem gosta mesmo de estatísticas, sempre moldáveis pelo período de análise que escolhemos, aí vai então a minha: neste último quinquénio, no Dragão, supremacia encarnada: 5 jogos, 2 vitórias, 2 empates e apenas uma derrota, 5 golos marcados e 3 sofridos.

2. Foi um clássico bem jogado, longe de cinzentismo dos mais frequentes jogos entre os grandes. Foi um clássico antecedido pela ausência de parvoíces e provocações de ambos os clubes e a todos os níveis de comunicação, pese embora os energúmenos que atiraram pedras para o autocarro encarnado. Foi um clássico em que a equipa vencida não se pode agarrar a nenhuma situação para alimentar mal-estar e demérito da equipa vencedora, para tristeza de comentadores-vampiros ávidos de tal 'matéria-prima'. Foi um clássico em que, em geral, os apoiantes de uma e outra equipa souberam conviver com o desfecho da partida, uns sabendo vencer e outros sabendo perder.
Finalmente, numa longa série de anos, vi um Benfica que, no Dragão, jogou claramente para vencer o jogo, o que não aconteceu com esta clareza, mesmo quando venceu os empatou, seja com Rui Vitória, seja com Jorge Jesus. Um Benfica personalizado, confiante, respirando saúde psíquica e física, estável, solidário, competente. Ultrapassou, com classe, o contratempo do golo madrugador do Porto e nunca se deixou abater. Soube suportar bem o natural assédio portista após a expulsão de Gabriel, único período em que o Porto dominou, mais com o coração do que com a cabeça.
Bruno Lage não entrou na tão habitual 'caixinha de surpresas' na constituição da equipa, ao contrário de Sérgio Conceição, que dela não prescindiu. As substituições que Lage fez foram inteligentes e a explicação que deu (uma bem-vinda inovação de um treinador que, ao contrário da maioria, não faz do futebol uma ciência oculta) da entrada de Corchia é bem interessante e de quem sabe o que está a fazer. O modo como está durante o jogo, sem deslumbramentos estéreis, sem espalhafatos para exibir ao mundo e sem histrionismos para impressionar quem acha que um treinador é tanto melhor quanto mais se mexe, grita, gesticula, salta ou zanga. O modo como responde nas declarações depois dos jogos, falando do que importa, sem pseudo ironias tontas, directo, curto, não alimentando o que subliminarmente está contido em muitas perguntas, e ignorando as questões da arbitragem é de louvar. De mestre foi a sua frase depois do jogo agradecendo aos jogadores «que estão a fazer de mim treinador». Assim se une, se responsabiliza, se é solidário, se ensina, se colocam todos do mesmo lado. E isso sente-se no campo. Nos que jogam, nos que entram, nos que não entram. Respira-se genuinidade, sinceridade, autenticidade entre todos. Não é condição suficiente para se ser ganhador, mas é uma óbvia condição necessária tal tal.
Quem diria há dois meses que, com a alteração de treinador, tanta coisa mudasse. Quem apostaria antes que o Benfica iria ganhar em Guimarães, Alvalade, Dragão e outros estádios? Quem sonharia que se ganhassem estes 9 jogos consecutivos sem Jonas, Jardel, Fejsa e Salvio? Quem suporia que Ferro e Florentino estivessem a jogar como se tal já fosse, na carreira deles, uma absoluta normalidade? Onde estava este Gabriel quando comparado com as suas fugazes e insuficientes aparições até Dezembro? E Samaris perdido antes como suplente de suplentes? E Grimaldo, Seferovic, Pizzi (o jogador com mais assistências na Europa!), André Almeida, Rafa numa forma e estabilidade como antes não se vira? E, por fim, João Félix, um miúdo que joga e faz jogar como ninguém, e que, antes, andava a entrar nuns míseros minutos finais? Como aqui já havia escrito, o Benfica concretizou um 'mercado de inverno' (interno) como nunca o fizera antes! E, como Lage disse, todos têm uma função para o todo: o primeiro atacante é o guarda-redes e o primeiro defesa é o ponta-de-lança.

3. É já quase uma sina o Benfica acabar os jogos contra o Porto (sobretudo jogando fora) com menos do que onze jogadores. Desta feita, aconteceu nas duas voltas. Lema, na primeira volta, num indescritível erro do árbitro e Gabriel (grande jogo!) na segunda volta. Aliás, pressentia-se que alguém iria para o balneário antes do fim, tal a precisão dos amarelos sobre jogadores encarnados (justa, é certo). Todavia, o mesmo não se passou do lado do FC Porto. Pepe, no seu costumeiro modo de jogar e provocar (a que alguns chamam, eufemisticamente, experiência...), tentou - debalde - anular João Félix, abalroando-o ou simulando tontamente uma falta dele nas 'barbas' do árbitro assistente. E se Gabriel foi bem expulso, não se entende como Jorge Sousa tão perto e a ver o que se passava perdoou uma expulsão a Brahimi que esbofeteou às claras Rúben Dias (e o VAR não deve também intervir em situações passíveis de expulsão?). O mesmo Brahimi que parece estar imune a qualquer castigo, aqui me recordando de um jogo em que, no fim de uma primeira parte, fez ao árbitro e sinalética de que este era doido e nada aconteceu...

4. Curiosa simetria que está a acontecer nesta Liga em comparação com a época passada. Nessa temporada, o Benfica recebeu o Porto com um ponto de avanço e o penta à vista, perdeu o jogo e ficou arredado do título. Agora, o inverso, com o resultado a beneficiar o Benfica, e espero que com o título em Maio.
O certo é que era imprevisível a recuperação notável do SLB. Sete pontos de atraso há 9 jornadas e agora dois pontos de avanço. Neste aspecto, o resultado de pontos ganhos/perdidos é grandiloquente: Bruno Lage - 9; Sérgio Conceição - 0.
Faltam 10 jornadas. Muito ainda, nesta luta entre os dois rivais, que se prevê dura e difícil. Não há jogos fáceis e toda a concentração é necessária. Seis jogos na Luz e quatro fora. Em tese, três mais difíceis: Moreirense, Sp. Braga e Rio Ave. Pelo meio, a Liga Europa. Mas a prioridade é a reconquista do campeonato, pelo menos para mim. Como bem disse Bruno Lage «temos de nos inventar todos os dias. Manter equilíbrio, foco no treino, determinação em evoluir, que ainda há muito para evoluir, e jogo e jogo lá vamos nós». Sonhando, mas não delirando. Trabalhando com humildade, sem vertigens dos fugazes fascínios de cada momento.

Contraluz
-Competitividade: Que falta nos principais campeonatos europeus. Nalguns mesmo, é uma pasmaceira; em França, com o PSG e na Itália, com a Juventus; Em Espanha um quase passeio para o Barcelona. Na Alemanha, o Bayern vai acabar por impor-se. Em Inglaterra tudo se resume ao duelo Man City/Liverpool. E, por cá, o habitual: Benfica e Porto.
- Exemplar: O fair-play nas meias-finais da Taça do Rei. No Real Madrid-Barcelona, apesar da goleada catalã, e no Valência-Bétis pude assistir a jogos de grande lealdade desportiva, de assinalável correcção dos adeptos e a uma saudável convivência entre vencedores e derrotados no final dos jogos. Preciso destes momentos para continuar a gostar de futebol.
- Frase: «O Brasil tem samba, carnaval e futebol. E que mais tem? Corrupção»
(disse um brasileiro)"

Bagão Félix, in A Bola

A vitória dos humildes

"Pinto da Costa queria a capitulação, já, de Luís Filipe Vieira e, em vez disso, viu-o sair do Estádio do Dragão vitorioso. E líder.

Na sétima jornada da Liga disputada na primeira semana de Outubro do ano passado, o FC Porto jogou na Luz e perdeu, mas sem convencer Sérgio Conceição o qual, depois de ter baqueado diante do Vitória de Guimarães, na jornada 3, considerou que eram fracassos demasiados e, logo ali, em jeito de aviso sério, afirmou, até para levantar o moral das suas tropas, que «talvez esta seja a nossa última derrota no campeonato».
Não foi. Quando Conceição emitiu aquele sinal de pujança não teve em conta o pormenor de as visitas serem retribuídas na volta seguinte da prova e foi isso o que o Benfica fez, no último sábado, à jornada 24, triunfando outra vez e recuperando a liderança, com dois pontos de avanço.
No jogo da Luz, Conceição não contava perder pela razão simples de, nos seis jogos anteriores para a Liga, no consulado de Rui Vitória, isso nunca ter acontecido. Mas há sempre uma primeira vez, que o irritou na altura, embora sem lhe abalar a confiança por acreditar piamente que na resposta, entre os seus, aplicaria exemplar castigo à águia pelo ousado atrevimento. Entretanto, o Benfica mudou de treinador e isso fez toda a diferença porque se Rui Vitória precisou de sete tentativas para derrotar o FC Porto, Bruno Lage conseguiu-o à primeira e ainda por cima na casa do dragão, feito apenas registado neste século nas épocas de (2005/2006 e 2014/2015. Uma raridade, que mais valoriza Lage e mais compromete Conceição: as coisas são como são.
Desta vez, porém, houve a particularidade de o Porto não retirar qualquer benefício por ter sido o primeiro a marcar. Não só não se aproveitou dessa preciosa vantagem para tomar conta do jogo, como não soube desenvencilhar-se da poderosa reacção encarnada. Foi encostado às cordas, como nunca se sentira, e até à expulsão de Gabriel jamais revelou arte e engenho para neutralizar a organização benfiquista. O argumentário a que Conceição se agarrou, mais o lamento pelo rol de oportunidades não aproveitadas, no essencial, contam o filme dos treze minutos finais, quando, a jogar com menos um, o Benfica, naturalmente, cedeu o domínio ao oponente e mostrou um espírito solidário e uma capacidade de sofrimento que mal se lhe conheciam e que formaram uma barreira que o Porto não foi capaz de derrubar.
Além de notável desempenho colectivo, assente num futebol atrevido, belo e matreiro, as armas da águia residiram na humildade e na surpreendente estabilidade emocional de uma equipa jovem, embora preparadíssima para suportar o ambiente infernal no Dragão.

Foi a vitória dos humildes frente a um rival que aproveitou os dias que antecederam o clássico para projectar a conquista do campeonato. Nas opiniões avulsas no seio da família portista, dos mais velhos aos mais novos, dos notáveis aos anónimos, a dúvida era adivinhar por quantos iriam ganhar. Como donos da festa, fizeram barulho até cansar. Deitaram os foguetes e apanharam as canas sem atribuírem a importância devida ao jogo que estava por realizar. Ou seja, tanto sopraram no balão da pesporrência que o fizeram rebentar ainda o árbitro não tinha apitado para o espectáculo começar.

Grande foi o folguedo e não deixou de provocar admiração a ideia de lhe emprestar certa solenidade através de uma cerimónia surpresa para anunciar a prorrogação contratual entre o clube e o treinador. Foi estranho, pelo menos para mim, mas eu não sou tido nem achado no processo, por isso aceito a coincidência, quando seria suposto terem sido decretados alerta máximo e concentração absoluta a pouco mais de 24 horas de compromisso que, em caso de sucesso, entreabriria a porta do título ao emblema do dragão.
Enriquecer o programa com uma emergência protocolar perfeitamente adiável, sublinho, parece-me estranho. No entanto, o presidente portista é hábil e de sólida experiência. Se ele quis que fosse assim alguma intenção teria em mente. Provavelmente juntar a sua manifestação pública de reforço de confiança em Sérgio Conceição a uma vitória anunciada sobre o Benfica.
Plano quase perfeito, sendo certo que se correu mal a culpa foi do treinador. Vem nos manuais.
Pinto da Costa, jogos e resultados à parte, não vai esquecer porque queria a capitulação, já, de Luís Filipe Vieira - o único que lhe faz frente nos relvados e o suplanta no trabalho, na obra, na inovação, no sentido de futuro - e, em vez disso, viu-o sair do Dragão vitorioso. E líder."

Fernando Guerra, in A Bola

Mudanças à vista

"Se toda a gente conhecer bem as regras do jogo haverá mais pessoas habilitadas a opinar

Tal como acontece todos os anos, também a próxima época desportiva trará novidades no que diz respeito às leis do jogo. O International Board (IFAB) reuniu-se no passado dia 2 de Março e aprovou um conjunto de alterações que têm o objectivo do costume: tornar o futebol num espectáculo mais justo e bem mais atractivo para todos. De entre as várias mudanças propostas, o destaque maior vai para as infracções de mão na bola (aquela que é, como bem sabem, a maior dor de cabeça das equipas de arbitragem dentro do campo). A mais estruturante alteração nessa matéria passará a ser a punição de todo e qualquer braço/mão - ainda que não deliberada -, que resulte directamente em golo ou clara oportunidade de golo. Ou seja, sempre que uma bola entre/possa claramente entrar na baliza adversária, depois de tocar/bater na mão de um atacante (mesmo que de forma acidental ou fortuita), o lance/golo será anulado e esse contacto sancionado como infracção. Na prática, a mensagem  que o IFAB pretende passar é que não podem valer jogadas de golo/golos cujo último toque tenha sido feito com  a mão/braço de quem marca. Pode ser injusto e levantar até algumas interrogações sobre o que são actos deliberados/não deliberados, mas é garantidamente uma medida factual o objectiva, num lance tipicamente cinzento e subjectivo. Isso permitirá uniformizar critérios e decidir sempre da mesma forma.
Mas há mais mudanças que vale a pena aqui sublinhar e às quais o caro leitor pode começar a familiarizar-se desde já. Por exemplo, a partir da época de 2019/2020, todos os jogadores substituídos serão obrigados a abandonar o terreno de jogo pela linha mais próxima do local onde se encontrem, aquando do processo de substituição. A ideia é desincentivar perdas de tempo desnecessário por parte de quem sai e impedir que isso enerve/irrite o adversário em desvantagem no marcador. Medida sensata, que pode evitar a exibição de cartões por eventuais reacções de frustração de alguns jogadores.
Nos pontapés de pénalti, os guarda-redes deixarão de ter a obrigação de manter os dois pés sobre a sua linha de baliza aquando da execução da penalidade. A partir da próxima época, passará a ser obrigatório que tenham apenas um. Os penáltis são momentos de enorme tensão e é (quase) impossível exigir a um GR que mantenha essa posição firme, num contexto tão determinante como aquele. Já os elementos técnicos que estarão sentados nos bancos (treinadores, delegados, etc.) passarão a ser sancionados com cartões amarelos e/ou vermelhos, caso tenham comportamentos inadequados ou irresponsáveis. Isso tornará mais público e direccionado (logo transparente) eventual castigo imposto pelo árbitro durante a partida.
Noutro âmbito, haverá certos momentos (a especificar noutra altura) em que uma bola, ao bater/tocar no árbitro da partida, possa levar à interrupção do jogo e ao seu recomeço com lançamento de bola ao solo. O juiz de campo deixará, nessas circunstâncias, de ser o elemento neutral de jogo que sempre foi até aqui (a verdade é que foram várias as situações infelizes, que resultaram em golos ou em acções disciplinares, após toque involuntário da bola no árbitro, que inverteu o rumo de uma jogada).
Mas há mais: nos pontapés de baliza ou nos pontapés livre dentro das áreas (os favorecem a equipa defensora) deixará de ser necessário que a bola saia dessa zona: ela entrará em jogo mal se mova claramente, ainda que no interior da área.
A 133.ª Reunião Geral do IFAB também concluiu, sem surpresa, que a implementação de videotecnologia está a ser um sucesso e que, não obstante os passos serem ainda pequenos e paulatinos, trará - como tem trazido - mais verdade desportiva e mais benefícios ao jogo. Para assegurar que esse caminho continua a ser desenvolvido com qualidade, concluíram que é fundamental manter a formação e educação contínua dos árbitros.
Se toda a gente conhecer bem as regras do jogo que pratica e admira, haverá mais pessoas habilitadas a criticar, mais pessoas legitimadas e opinar. È win, win."

Duarte Gomes, in A Bola

Cadomblé do Vata (Saudade!!!)


"Apesar de ter declarado em tribunal que teme pela sua vida nas prisões portuguesas, uma vez que não tendo nada a ver com o caso dos emails do SL Benfica e não sendo este processo mencionado no pedido de extradição, o Benfica controla a justiça portuguesa, São Rui dos Clérigos foi mesmo condenado a regressar a Portugal sob custódia judicial. Desde pequeno que me dizem que a palavra "saudade" só existe na língua portuguesa, mas hoje fiquei a saber que "a culpa é do Benfica" também é um conceito apenas perceptível no idioma de Camões.
Por muito que o Santo Padroeiro da Gritaria Futebolística vá tentando espalhar a mensagem de ser totalmente alheio à divulgação da correspondência electrónica, os factos dirigem-se sempre na sua direcção, incluindo o súbito silêncio do blogue Mercado de Benfica desde que o ouriço portista foi detido. As provas neste caso, apontam tanto para ele, como o Marega para si no festejo do golo do FC Porto contra o SL Benfica e certamente com os olhos postos na cortina de fumo que se abateu sobre o golo irregular do Maliano, Rui Pinto lança para o ar o nome do rei do nevoeiro, como sendo ele a chave da divulgação do indecoroso roubo das bolachas da Magda, claramente na esperança de ver a sua cara esfumar-se deste processo. E à laia de uma fuga portista às responsabilidades, já vai avisando que "sabe coisas do FCPorto que o entristecem". Com sorte, a eurodeputada vai-lhe levar tabaco à choldra e convence-o a soprar no apito... isto se lá dentro, os colegas de cela não o convencerem antes."

terça-feira, 5 de março de 2019

Samaris 150



PS: É obviamente para renovar!!!

Derrota...

Benfica 0 - 2 Rio Ave


Esta fase final vai ser 'longa'...!!!

O futebol com sal e pimenta de Thomas Tuchel

"Ser goleado e recolher elogios não é propriamente comum no futebol. Podem chamar-lhes palavras de cortesia, vindas de um treinador rival que acabou de se impor no relvado com autoridade, ou podem encarar esses encómios de Pep Guardiola como a reacção de alguém que viu (e vê) bem para além do resultado. Certo é que, nesse 4 de Outubro de 2015, dia em que o Bayern aplicou um 5-1 ao Borussia Dortmund, o catalão confirmou que Thomas Tuchel era não só um dos mais promissores técnicos da Alemanha, mas um estratega de primeira água. Uma reputação que tem vindo a confirmar no PSG.
Há cerca de três semanas, mesmo sem poder contar com Neymar, Cavani e Meunier (e com Verratti a meio-gás), o todo-poderoso campeão francês esvaziou um pouco o balão de oxigénio em Old Trafford, com um triunfo sobre o Manchester United que lhe facilitou a missão para a segunda mão desta noite, no Parque dos Príncipes. Nesse encontro, Tuchel teve de montar uma cadeia de produção capaz de fazer chegar a bola em condições óptimas a Di María e, sobretudo, a Mbappé, recalibrando um modelo de jogo que tem feito vítimas atrás de vítimas nesta temporada.
Primeiro no Mainz 05, depois em Dortmund, Thomas Tuchel foi fundindo no seu caldeirão futebolístico uma pequena poção do jogo mais directo e fisicamente exigente da década de 1970 alemã, com o gegenpressing (reacção à perda com pressão exercida imediatamente sobre o portador da bola, ao invés de baixar linhas para reagrupar) e as bases do jogo de posição celebrizado pelo Barcelona (e replicado com sucesso no Bayern e agora no Manchester City). Essa intersecção de estilos nem sempre convenceu o adepto germânico mais convencional, mas chamou a atenção dos seus pares.
Voltamos a Guardiola para dar conta da boa relação que ambos estabeleceram quando se cruzaram na Bundesliga. O episódio mais colorido dessa aproximação foi uma (de muitas) conversas à mesa de um popular bar de Munique, o Schumann’s, na qual os dois treinadores terão utilizado o saleiro, o pimenteiro e os copos para representarem os jogadores distribuídos num campo imaginário. A paixão pelo jogo e pela sua componente estratégica ajudavam a cimentar uma admiração mútua que mais tarde viriam a reconhecer.
Num certo sentido, o Borussia Dortmund de Tuchel tinha dado um passo em frente, do ponto de vista conceptual, face à versão bem-sucedida de Jürgen Klopp. E o alemão aproveitou essas bases para transformar o PSG numa equipa cujo domínio, hoje em dia, se expressa em mais do que salários chorudos e transferências milionárias. É inegável que o colosso francês é uma equipa recheada de talento, mas importa reter de que forma o actual treinador o coloca ao serviço do colectivo.
No 4x3x3 preferencial de Tuchel (ainda que já tenha ensaiado variantes como o 4x4x2, o 3x5x2, o 3x4x3 ou 4x2x2x2), há toda uma intenção de exponenciar a qualidade individual de um quarteto atacante de classe mundial: Neymar, Mbappé, Cavani e Di María. E essa trajectória da bola até ao último terço começa, na primeira fase de construção, com um dos médios (Marquinhos, nos últimos jogos) a recuar para o meio dos centrais e o outro (o talentoso Verratti) a ocupar o espaço da posição seis para funcionar como primeira estação de ligação. O terceiro médio é projectado para o espaço entre linhas, no meio-campo contrário, provocando uma avalanche de linhas de passe na medida em que Neymar e Mbappé também recuam uns metros para receber, os extremos passam a jogar mais por dentro e os laterais se projectam em organização ofensiva, conferindo largura.
A herança da nova vaga da escola alemã, essa, fica mais visível na reacção à perda da bola. Com o objectivo de encurralar o adversário ainda no seu terço defensivo, o PSG obriga-o a sair por uma das laterais, deslocando habitualmente cinco homens para esse corredor. Uma vez recuperada a bola, é ensaiada uma variação rápida do centro do jogo à procura da projecção do lateral, que em condições normais receberá a bola com tempo e espaço para decidir. Um modelo que, como todos, implica riscos (e o Lyon, com transições lancinantes, colocou-os a nu na Ligue 1), mas que traduz ousadia e sagacidade em doses generosas.
Para um treinador a quem é colado muitas vezes o rótulo de controlador e que é descrito como distante na relação com os jogadores, não deixa de ser pertinente relevar também a forma como elevou o compromisso de mega-estrelas como Neymar, que nesta época temos visto frequentemente em tarefas defensivas mesmo no primeiro terço do campo. Uma submissão ao interesse colectivo que só é possível quando entornada por uma ideia maior. Uma ideia que mobilize. Uma ideia com assinatura."

Os factores diferenciadores da prática desportiva

"O Sexo
Se recuarmos a nossa análise até à Idade Média, verifica-se que as mulheres medievais não fazem verdadeiramente desporto. As jovens raparigas não têm uma adolescência e ocupam precocemente o lugar que é lhe imposto pela sociedade medieval. O ‘desporto’, que os homens praticavam (luta, natação, tiro com arco, torneio, etc.), não foi feito para elas. O esforço físico não podia estar totalmente ausente das ocupações femininas, mas ele não era valorizado em termos de proeza, nem mesmo no tempo limitado como a aprendizagem ou a iniciação. Actividades em recintos fechados, uso restrito do corpo no espaço público, vestuário impondo um mecanismo restritivo do corpo, tabus ligados à menstruação e perdas pós-parto, ou ainda controlo da sexualidade, foram sempre observados. Elas passam directamente da infância ao estatuto de esposa ou de mãe. As mulheres, intimamente persuadidas da sua “diferença”, evocam: “a lei irrevogável da sua natureza”, o “seu destino”, “a lei da criação”. A costura e os bordados são fortemente recomendados para elas. Em qualquer meio social, uma mulher deve saber cozer e bordar. Os valores da virgindade e de maternidade, que a ideologia religiosa investiu no corpo feminino, não abriram perspectivas para elas quanto às actividades de lazer, centradas nos exercícios físicos. À fraqueza da Eva corresponde à força de Adão, à passividade a acção, à submissão a autoridade, à dependência a liberdade, ao sofrimento o vigor, ao sentimento a inteligência, à graça a grandeza. Até então, é preciso reconhecer que a natureza fêmea é inferior à natureza macho. É, sobretudo, importante às mulheres saber obedecer! E é aí que reside a sua verdadeira fonte de felicidade.
No seu livro sobre a educação das jovens raparigas no século XIX, Bricard (1985) sublinha que estamos longe de proibir as jovens de toda a actividade intelectual ou artística, mas a prudência recomenda de se limitar ao estudo da história, da geografia, do desenho e da sã moral. Nada de literatura, de poesia, e sobretudo de música, mas, pelo contrário, muito exercício para combater a exaltação nervosa: passeios a pé, equitação, dança, etc. O campo é o quadro sonhado para a eclosão tranquila de importantes funções.
Para os homens, existem tratados de esgrima, de caça, arte militar. Eles são encorajados a desenvolver as suas capacidades físicas no espírito de apropriação do espaço social. O “homem medieval” dedicava-se aos divertimentos que procediam do jogo (liberdade de escolha, gratuitidade, gosto pelo risco, submissão às regras), de combatividade (pelo confronto voluntário com o adversário ou obstáculo) e de paixão (pela intensidade de compromisso e de exaltação da performance).
O desporto é uma arena masculina que, não somente exclui as mulheres, mas faz da dominação masculina uma relação natural. O desporto foi e continua a ser um produto de homens e controlado pelos homens. Ele permite aos homens de mostrar as qualidades viris, tais como a força, a combatividade e a audácia. Os desportos a que dão grande preferência são os especificamente masculinos, tais como o râguebi, o futebol, o hóquei em patins ou gelo. No seu comportamento como desportivos, os homens adoptam facilmente uma postura enérgica e dura. Eles fazem dos seus clubes desportivos os locais onde se encontram “entre homens” e utilizam o desporto como o meio de sublinhar a sua independência das mulheres. O aspecto masculino dominante do desporto exprime-se também ao nível das instâncias dirigentes. A dominação masculina conduz também a percepções e a modelos culturais determinando a forma como o desporto é dirigido e praticado.
Como mostraram Louveau e Davisse (1991, p. 288), o desporto é um “conservatório das identidades”. É “o local, por excelência, onde se pereniza a distinção entre os sexos, como o conservatório de uma masculinidade e de uma feminidade tradicional” (Louveau e Davisse, 1991, p. 111). As desigualdades mulheres/homens objectiváveis no desporto são plurais: desigualdades intra e inter sexos no acesso à prática de uma actividade física ou de um desporto; desigualdades no acesso às diversas disciplinas desportivas. Estas duas formas têm uma ancoragem na história e perduram nos dias de hoje.
Durante muito tempo, a instituição desportiva foi um território reservado aos homens para eles adquirirem e manterem a sua virilidade. O universo desportivo está cheio dos atributos da virilidade que são a força, a potência, a velocidade, a capacidade de infligir a violência, o culto do corpo musculado e dominador, de estigmatização das mulheres e da homossexualidade. Mesmo se a impressão viril não desapareceu da instituição desportiva, as mulheres, em nome da igualdade, amplamente investiram nas práticas reservadas aos homens.
Originalmente, as mulheres não acederam às mesmas modalidades desportivas nem às mesmas condições que os homens. Para limitar a sua participação desportiva, utilizou-se muitas vezes os argumentos de ordem médica, estética e social. Da “fragilidade física” à falta de “naturalidade” de combatividade, passando pela “virilidade” de certas disciplinas desportivas, não raras vezes ela era (e continua a ser, por vezes) motivo de chacota.
No decurso dos anos a mentalidade não mudou muito relativamente à mulher e a sua participação no mundo desportivo, pelo menos até à década de 60. Em 1965, em França, é publicado um relatório da Comission de la Doctrine du Sport (1965, p. 29). Nele pode ler-se que, para a jovem rapariga e para a mulher, “a prática de certos desportos colectivos é impossível ou mínima”. Sobre o pretexto de serem mais adaptadas à sua condição física, sugere-se “a dança, a natação, o ski, as corridas de velocidade muito curtas, a ginástica harmónica, o ténis” (Comission de la Doctrine du Sport, 1965, p. 29). Como “princípio absoluto”, deveriam ser propostas às mulheres as “actividades desportivas que respeitem os imperativos da harmonia estética, da graciosidade, da feminidade e que fazem apelo à flexibilidade, à agilidade e ao ritmo” (Comission de la Doctrine du Sport, 1965, p. 30). Na alta competição, “deveriam ser rejeitadas as disciplinas desportivas estressantes para o corpo e que são opostas às características gerais da feminidade” (Comission de la Doctrine du Sport, 1965, p. 75).
Os desportos, considerados violentos e ‘masculinizantes’ (de tradição masculina), são interditos às mulheres. E quando elas “invadem” estes desportos têm que fazer prova da sua feminidade e redobrar a sua vigilância para se colarem à imagem associada ao corpo feminino, que deve seduzir. É preciso ser bela para se ser útil. As atletas, redirigidas para os espaços de prática convenientes ao seu sexo, são, assim, colocadas sob a tutela masculina. Se as federações as integram progressivamente, algumas resistem.
O campo desportivo integrou as mulheres, mas engendrou correlativamente os seus próprios meios de controle para perpetuar um modelo preservando o masculino. O teste da feminidade é um exemplo. Por detrás do discurso de igualdade de oportunidades para atingir o pódio, o desporto entretém mecanismos de reprodução que a toda a sociedade acompanha. Homens e mulheres não evoluem da mesma forma na prática desportiva.
As mulheres são muitas vezes minoritárias no seio das federações uni-desporto, mas elas são mais numerosas nas federações multidesporto. A razão é que essas federações propõem práticas viradas para o lazer, a saúde, o bem-estar, em vez da competição. As federações uni-desporto têm uma vocação competitiva muito marcada e, por isso, uma tendência para excluir os menos performantes. Por consequência, uma grande parte das mulheres se encontram excluídas. Por outro lado, as mulheres mudam mais, frequentemente, de actividade desportiva.
O fundador da “exposição universal do músculo” (JO modernos), o barão Pierre de Coubertin, não queria que as mulheres participassem. Confirmando a sua posição negativa, declarou que “uma olimpíada com a participação de mulheres seria pouco prática, desinteressante, pouco estética e incorreta” (Coubertin citado em Bressan, 1981, p. 34). Para si, elas estavam lá apenas para aplaudir e coroar os vencedores. Apesar do seu desacordo e os seus discursos, as mulheres entraram, progressivamente, nos JO e aí permaneceram. É inseparável da realidade do desporto moderno. A participação das primeiras mulheres desde os primeiros JO aumentou substancialmente. De 20 nos JO de 1900, em Paris, passou-se a 4700 no JO de 2016, no Rio de Janeiro, ou seja, 45%.
O universo desportivo não se conjuga mais sobre o investimento (nos sentidos económico, psicológico e de ação) dos homens. O crescimento da escolaridade das raparigas e a actividade socioprofissional das mulheres, induzem a um reforço da prática desportiva. Apesar dos indiscutíveis avanços, ainda existem muitos obstáculos para aumentar a participação das mulheres no desporto a todos os níveis (lazer, escolar, amador, competitivo, etc.), funções e papéis, e para desenvolver a democracia no seio das organizações desportivas. Na sexta conferência europeia, dedicada às “mulheres, desporto e democracia” (2004), concluiu-se:
- que existe um acesso desigual das mulheres nas instalações desportivas;
- a questão da educação física continua insuficientemente desenvolvida em muitos países, o que penaliza as mulheres;
- o desenvolvimento do comunitarismo de toda a ordem podem ser um obstáculo ao desenvolvimento das práticas femininas;
- o pequeno número de mulheres nas estruturas de decisão dos organismos desportivos;
- a imagem degradada e parcial do desporto feminino dada pelos meios de comunicação social;
. existem dificuldades na concretização concreta e real de todas as resoluções que vão sendo adoptadas sobre as mulheres e o desporto aos níveis regionais, nacionais, internacionais, e olímpicos. 
Existe hoje um desfasamento importante entre as práticas propostas pelos clubes, virados essencialmente para a competição e as aspirações das mulheres, mais diversas e orientadas para a convivialidade, as práticas familiares, a saúde e o lazer. Este desfasamento, explica, em parte, o número insuficiente de mulheres no desporto. Resulta daqui também a fraca presença nos centros de decisão (federações, por exemplo). O progresso desejado de maior participação das mulheres no desporto passa pela educação.
Com a participação das mulheres no desporto, interessantes domínios de investigação se abrem. Como é que a prática desportiva pode afectar as mulheres? Como é que a expansão do desporto feminino pode modificar a forma como a sociedade entende o desporto e como este entendimento influencia sobre o número de mulheres atraídas pela experiência desportiva? A prática desportiva constitui uma aprendizagem do “viver em conjunto”, que é de valorizar, num momento, e nalguns bairros do nosso país, os valores e os princípios da república e da democracia, que são seriamente ameaçados.

A idade
As assembleias dos JO aparecem como verdadeiras festas da juventude do mundo. Do ponto de vista psicológico, os jovens são admiravelmente aptos à prática desportiva. Existem desportos e maneiras de praticar que se acomodam com a idade. De fato, assiste-se a um movimento crescente de práticas desportivas nas faixas etárias para além da juventude. As provas de veteranos (que alguns chamam “antigos”), que começa com trinta e cinco anos de idade, não é coisa rara. O que leva a uma prática em detrimento de outra, numa determinada idade, é a intensidade da prática, a natureza das motivações, os objectivos, os valores (e o “sentido dos valores”) etc. A massa de praticantes, segundo a idade, orienta-se diferentemente. E a forma de se praticar muda da juventude à idade madura ou de idade. De fisicamente mais intensa passa a menos intensa.
Ao mesmo tempo, o ardor competitivo se faz sentir menos fogoso e menos imperioso. Para Bourdieu (2002, p. 192), “a relação entre as diferentes práticas desportivas e a idade é mais complexa”, pois não se define por intermédio da intensidade do esforço físico reclamado, mas de uma dimensão do “ethos de classe”. Faz notar ainda que “a propriedade mais importante dos desportos ‘populares’ é que eles sejam associados à juventude, que se exprime pelo dispêndio de energia física e abandonadas muito cedo (a maior parte das vezes no momento do casamento que marca a entrada na vida adulta)” (Bourdieu, 2002, p. 192). Ao contrário, os desportos ditos “burgueses” são praticados, principalmente, pelas suas funções de manutenção da forma física e “pelo proveito social que eles proporcionam, tendo em comum aumentar a idade da prática para além da juventude, quanto mais prestigiosos e mais exclusivos (como o golfe) forem” (Bourdieu, 2002, p. 192).

A profissão
A profissão pode ser um fato de não prática ou de menos prática desportiva. As pessoas que trabalham em espaços interiores participam mais nas actividades desportivas de competição e de recreação. A taxa de desportistas em meio rural é fraca. A resposta dada é que já fazem muito movimento, em razão da sua profissão. Se deixarmos de lado as profissões da terra, o tipo de profissão influencia sobre o desporto praticado. No caso da classe operária, pratica-se, sobretudo, os desportos de equipa, como o futebol, onde o espírito de equipa é muito desenvolvido, na medida em que grande parte do trabalho é feito em equipas de trabalho. Eles veem-se na continuidade dessas tarefas, discutem, e prestam assistência mútua. Quando praticam um desporto de equipa, eles transpõem certos comportamentos e certas qualidades profissionais.
A adesão a uma profissão pode levar também à escolha de uma prática desportiva: desportos de combate (polícia, militares, etc.); parapente (aviadores profissionais); tiro e equitação (militares, polícias); yoga (professores), etc. A formação e o treino numa determinada prática desportiva podem ajudar no desempenho da profissão. De uma maneira geral, os representantes de uma profissão podem dominar num clube, o que pode importar maneiras, atitudes, representações, preocupações vindas do meio profissional e impregnar-se no grupo desportivo.

O meio socioeconómico
Entende-se por meio socioeconómico um conjunto de elementos que parecem coincidir com a classe social. Eles entram em combinação de uma forma complexa, como vários estudos o sublinharam. São as categorias socioprofissionais, o estatuto ou a situação numa profissão e tem um papel importante na produção. Depois, é o rendimento, a fortuna, a propriedade, e o emprego que provoca os recursos, levando a um nível de vida e a um estilo de vida (a quantidade de tempo livre e a distribuição do tempo de lazer tem muita importância no que diz respeito à prática desportiva). Neste somatório, temos ainda a rede de relações pessoais que se tem com pessoas de um determinado meio socioeconómico. A pertença a um meio socioeconómico implica uma educação, uma cultura, usos, costumes, gostos, atitudes políticas.
A influência do meio socioeconómico atinge o desporto, fenómeno essencialmente social. É assim que a riqueza permite praticar desportos onerosos como é o golfe em muitos países, ou como o “yachting” (iate). Há desportos chiques e há desportos populares. Várias pesquisas permitiram obter dados precisos sobre a realidade da estratificação social no domínio do desporto e os seus efeitos.

O local de residência
Quando os sociólogos procuram compreender os factores que conduzem os indivíduos escolher uma prática desportiva, cruzam muitas dimensões da “identidade” da pessoa: idade, origem social, género, origem nacional ou étnica, capital cultural, mas esquecem-se o local de habitação. De uma maneira indirecta, alguns geógrafos analisam as variações territoriais do desporto e tentam analisar as culturas desportivas. Investiga-se pouco o “efeito do bairro” sobre as práticas desportivas.
O desporto nos bairros caracteriza-se pela diversidade das práticas, do estatuto dos organizadores e dos intervenientes. Pode ser uma oportunidade para os habitantes frequentarem um clube. Em França, existe os ringues móveis, o que permite aos jovens se iniciarem no boxe educativo. Outros desportos, como o basquetebol, o judo e as danças são também muito procurados, permitindo promoverem-se competições entre bairros. As práticas desportivas, de competição ou lazer, podem ajudar os praticantes a sair do bairro para investirem noutros espaços e encontrarem outros indivíduos, criando uma rede social. Estas práticas desportivas podem ajudar, evitando a exclusão social e transformando os modos de socialização."

A mágica senhora das paixões

"Dia 1 de Outubro de 1980. O Benfica desfez o Dínamo de Zagreb (2-0) com uma exibição de uma beleza fora do comum. A bola era o centro do mundo para os que vestiam de encarnado. Estive lá e vi!

No dia 1 de Outubro de 1980 eu estava no Estádio da Luz. Já não me lembro ao certo com quem. Provavelmente com aquela malta lá dos Olivais Sul, Rua Cidade de Luanda. Rua Vila de Catió e por aí fora. Um costume propagado pelas noites europeias que, nesse tempo que mora no jardim pacífico e florido da saudade, ainda eram religiosamente à quarta-feira.
Confesso que sempre fui um fascinado pelo futebol que se jogava lá por fora. Sobretudo pelo futebol inglês, com aquelas jogadas ao primeiro toque, as disputas rijas de cabeças contra cabeças, os remates inesperados, a opção pelos golos violentos em detrimento dos golos subtis.
Sempre que uma equipa estrangeira visitava Lisboa, fazia um esforço para ir. Restelo, Alvalade, Estádio Nacional, e sobretudo a Luz.
Em Outubro de 1980 eu estava no fim dos meus dezasseis anos e a vida era simples e clara como um nada. O futuro era distante demais e a morte ainda não começara a bater à nossa porta da forma sinistra que hoje bate e continua a bater.
O treinador do Benfica era um dos maiores cavalheiros com quem alguma vez cruzei, no futebol e fora dele: Lajos Baroti.
Portugal conheceu-o bem em 1966, quando foi o seleccionador da Hungria que batemos um Liverpool por 3-1 no jogo de estreia do Campeonato do Mundo de Inglaterra. Consta que, nessa tarde britânica, ficou furioso com a derrota. Mas limitou-se ao silêncio. Não estava no seu feitio ser desagradável.
Baroti era húngaro, não se esqueçam.
Os húngaros são os homens do futebol elegante, bola deslizando sobre a relva, movimentos de bailarino, identidade ofensiva e convicção na ideia de que assim estão certos e que assim vencerão.
No dia 1 de Outubro de 1980, o Benfica recebeu o Dínamo de Zagreb e tinha jogadores como Pietra, Chalana, Alves, Shéu, Humberto, Carlos Manuel, Nené e César. Gente que parecia ter mãos no lugar dos pés.
E era lindo, mas lindo, vê-los traçar velozmente aquelas órbitas arbitrárias do poema de Miguel Torga.
Podia dizer-se sem medo: a bola para eles era a mágica senhora das paixões!
Assim, com ponto de exclamação.

Os golos e o amuo...
O Benfica tinha empatado em Zagreb. Um convenientíssimo zero-a-zero.
Na Luz, nessa noite de Outubro a começar, foi magnífico.
Já se passaram quase quarenta anos, quem diria?
Talvez a memória me engane, cada vez mais, é natural que assim seja pela ordem natural da degradação humana. Mas eu tenho imagens vivas da forma como Chalana dobrou um adversário, lhe deu um nó cego impossível de desatar, e o deixou preso em si mesmo, mero espectador impotente do que viria a seguir. E o que veio a seguir foi o passe fagueiro para Carlos Manuel e o centro deste, preciso, irretocável. A bola veio numa bandeja, com pastelinho de bacalhau, palito e tudo, até Nené a desviar de cabeça para a festa conjunta do golo que ergueu as pessoas dos seus assentos frios de cimento num salto colectivo de alegria total.
Estava muita gente no velho estádio. Provavelmente mais de 70 mil.
Eram noites impressionantes.
Ainda por cima, aquelas em que o Benfica, lá em baixo, subia cá ao alto da nossa imaginação de um futebol absoluto.
Os croatas podiam ser croatas, mas eram jugoslavos para o resto do mundo.
Estavam perdidos, confusos, assustados. Não se entendiam os movimentos vermelhos, não compreendiam a forma como Shéu fazia desaparecer a bola como se fosse o Mágico Mandrake do Circo Moscovo. E depois ela reaparecia naquelas fintas de Chalana de ir e afinal não ir e acabar por ir mesmo, fantasma etéreo atravessando adversários com a facilidade de um Mercúrio de barbas com asas nos calcanhares.
Depois surgiu César, o brasileiro César. E foi augusto.
Jorge Gomes estava a aquecer, e César previu que seria para ocupar o seu lugar. Não quis sair incógnito de uma noite encarnada em flor. Num repente, ainda de longe, recebeu com o pé direito, trocou-o pelo esquerdo e fez o golo num pontapé fulminante, supimpa, de provocar comichões na sangue de um pobre Stincic, guarda-redes pregado ao solo, embasbacado, sofrido.
César nas alturas; Jorge Gomes amuado.
Vai daí recusa-se a entrar para substituir o companheiro. Bateu o pé, infantilmente, e desobedeceu às ordens de Baroti. Condenou-se. Viria a jogar pouco, muito pouco. Bem menos do que Reinaldo ou Vital que disputavam a mesma vaga.
No dia 1 de Outubro de 1980 eu estava no Estádio da Luz.
O Dínamo de Zagreb não passou de um tigre de papel. Entregue à feitiçaria daqueles que tratavam a bola como a mágica senhora das paixões."

Afonso de Melo, in O Benfica